terça-feira, 21 de julho de 2020

Acerca de Senhoras de pezinhos


Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves.

Dedicatória
O presente texto é dedicado a todos os barristas que frequentaram o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que em 2019 teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Tem por finalidade dar-lhes uma visão polifacetada duma figura que modelaram durante o Curso.
A sua publicação foi antecedida duma consulta ao barrista Jorge Conceição, Professor do Curso, visando a emissão de um parecer sobre o mesmo, não se desse o caso de inadvertidamente estar a defender pontos de vista contrários ao que foram ensinados no Curso.
O Professor Jorge Conceição emitiu um parecer, no qual após várias considerações, termina dizendo: Em resumo, acho o seu texto muito completo e uma mais-valia para todos os barristas terem como referência, quer os novos quer os antigos e não vai em nada contra o que ensinámos no curso. Acho igualmente que mesmo que alguma das características que refere não tenha sido aplicada em peças antigas, tudo o que descreve é parte dessa época e poderá perfeitamente ser usado na recriação de peças que se façam agora. 
Uma figura da tradição
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
É possível recuperar a figura da Senhora de pezinhos, reinterpretando-a através dos seus componentes, o que é possível concretizar de inúmeras maneiras.
Forma do vestido
A forma tronco-cónica da parte inferior do vestido, poderá ter maior ou menor inclinação em relação à horizontal. Em alternativa, poderá ser armada em forma de balão.
Fecho do vestido
O vestido poderá ser fechado à frente e abrir atrás, apresentando aqui uma abotoadura vertical.
Poderá igualmente abrir à frente e apresentar aqui a abotoadura vertical.
O vestido pode ser fechado até acima e poderá ter ou não gola ou coloarinho, os quais apresentarão abotoadura.
Poderá alternativamente apresentar decote de tamanho variável e de forma variável (circular ou quadrada).
Os ombros poderão ou não estar a descoberto.
Manga
O vestido poderá ter manga comprida com punhos, com ou sem abotoadura. Poderá ter manga curta, a qual poderá ser em balão. Poderá não ter manga por ter alças ou ser um cai cai.
Superfície do vestido
A superfície do vestido poderá ser lisa, plissada, apresentar folhos ou pode ser decorada com aquilo que configure renda ou aplicações em feltro.
Cor do vestido
Depois há a questão da cor do vestido, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
As cores são sempre muito importantes. O simbolismo das cores e dos elementos usados no padrão da roupa, são de ter em conta. As cores devem ligar umas com as outras e ser contrastantes para diferenciar os diferentes componentes da figura. A partir delas pode-se caracterizar a figura e dar-lhe alma. Só vida é que não.
Cintura
A cintura do vestido pode ser na posição normal ou situar-se logo abaixo do busto (Período Império: 1804-1813). Com a cintura na posição normal é possível cingir a cintura com uma fita atada atrás em forma de laço. A cintura pode igualmente ser cingida por um cinto com uma vistosa abotoadura ou fivela à frente ou atrás.
Cabeça da figura
A cabeça da Senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa ou por uma ou mais flores. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, folhas secas, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Mãos
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: luvas, leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e sombrinha.
As luvas compridas ficam bem se o vestido tiver manga curta ou for um vestido cai cai. Penso que no caso da modelação incluir uma sombrinha, esta deverá ter o cabo apoiado num dos pulsos e a sombrinha parcialmente embutida no vestido e apoiada no sapato ou no ar, mas nunca tocando no chão. Só assim não se violará o "dogma" do assentamento da Senhora se verificar apenas nos pezinhos e na parte de trás da saia.
Jóias
Se o vestido for decotado, fica bem uma jóia ao pescoço. Se o vestido não tiver mangas, fica bem uma pulseira no pulso.
A terminar
O presente texto corresponde a uma reflexão profunda da minha parte e simultaneamente procura rasgar horizontes aos novos barristas, dando-lhes conta que todos os que os antecederam procuraram sempre inovar e o fizeram. Lá diz o rifão “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Por isso é legítimo que os novos barristas também o façam. Se assim não fosse, se cada barrista não introduzisse marcas identitárias muito próprias, a barrística de Estremoz estaria morta. Tal não acontecerá se os barristas no seu todo continuarem a recusar-se integrar como que uma linha de montagem que se limita a reproduzir figuras que lhes são pré-existentes. É necessário que as reinterpretem a seu modo e simultaneamente modelem novas figuras. Alguns dirão que “Não é ao modo de Estremoz”. Não se preocupem, a barrística de Estremoz sempre teve os seus “velhos do Restelo” e decerto continuará a ter. Se Vasco da Gama se tivesse deixado atemorizar pelas profecias do velho do Restelo, nunca teria descoberto o Caminho Marítimo para a Índia. Em caso de dúvidas, consultem quem vos ensinou. Esse é o melhor caminho.  
Termino, formulando sinceros votos de que o presente texto seja da máxima utilidade aos novos barristas. Se assim for, isso será para mim bastante gratificante.
Publicado inicialmente em 21 de Julho de 2020

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor. 

 Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Jorge da Conceição. 

 Sabina da Conceição (1921-2005). Colecção do autor. 

José Moreira (1926-1991). Colecção do autor. 

Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção Jorge da Conceição.


Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Colecção do autor.

Ana Grilo (1974, -  ). Colecção do autor.

Luísa Batalha (1959, -  ). Colecção do autor.

Madalena Bilro (1959, -  ). Colecção do autor.

sábado, 18 de julho de 2020

Inocência Lopes e o dois em um


Santo António: dois em um (2020). Inocência Lopes (1973-   ). Colecção Miguel Infante.

Eu e os Bonecos
Os Bonecos de Estremoz estão-me na massa do sangue, fazem parte de mim próprio e ocupam uma parte importante da minha vida. Nela procuro aprofundar o conhecimento da sua História e simultaneamente conhecer as novas criações dos barristas.
Peanha para quê?
A recente visita à página do Facebook da barrista Inocência Lopes, revelou-me a criação recente de uma imagem de Santo António que viria a ser objecto do presente escrito.
Trata-se de uma peça muito bem modelada e decorada. Nela o Santo é figurado com o habitual hábito franciscano, com o Menino Jesus ao colo e revelando os restantes atributos. Porém e ao contrário do que é habitual, a figura não assenta numa peanha de duvidoso gosto barroco, que alguns barristas teimam em usar. Trata-se a meu ver de um “apêndice” que carece de sentido, a menos que se esteja a fazer a réplica de um exemplar mais ou menos barroco. É que a Arte não parou no Barroco, mas evoluiu.
Santo António na qualidade de Santo mais popular de todo o mundo, não merece que o amarrem a uma peanha como se fosse um castigo. Merece, isso sim, ser objecto de representações que nos digam mais da sua Vida e da sua Obra. Foi o que fez Inocência Lopes ao prescindir da faustosa e estéril peanha. Em seu lugar usou uma alegoria ao Sermão de Santo António aos peixes.
Mudança de paradigma
A nova figuração de Santo António efectuada por Inocência Lopes, introduziu uma mudança de paradigma na barrística popular de Estremoz. Atrevo-me a dar-lhe um nome: “Santo António, dois em um”. Aproveito simultaneamente para felicitar a barrista pela originalidade da sua criação. Depois de nos prendar com “Infortúnio de Santo António” e “Amor é cego, negro” lega-nos agora mais esta bela criação. Se por um lado reforça o seu prestígio como barrista, por outro lado confirma a sua capacidade de inovar, que aqui se regista e aplaude.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Madalena Bilro e a Senhora de pezinhos


Senhora de pezinhos (2020) - Parte da frente. Madalena Bilro (1959-  ).

À laia de apresentação
Madalena Bilro (1959-  ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Anteriormente já tivera formação na Academia Sénior de Estremoz, orientada por Isabel Água, do Museu Municipal de Estremoz.
Prólogo           
A beleza feminina é polifacetada como um diamante. Daí que um vestido deva reflectir essa beleza, observada de todos os ângulos. Na rua ou num desfile de moda, a visualização do binómio modelo-vestido tem dois momentos: o aproximar e o afastar. Daí a igual importância que os estilistas dão à parte da frente a à parte de trás de um vestido. Cada uma delas deve completar e reforçar a sensação induzida pela visualização da outra. Madalena Bilro teve isso em conta na modelação e decoração da sua Senhora de pezinhos, figura tradicional da barrística popular estremocense.
A Senhora de pezinhos de Madalena Bilro
A Senhora de pezinhos enverga um elegante vestido comprido, a delimitar os contornos de um corpo a que corresponde uma silhueta esbelta. O vestido configura ter sido confeccionado com tecido estampado em padrão de margaridas em campo ocre amarelo.
O vestido é rematado em cima por uma gola branca e larga, fechada por um botão de cor Bordeaux, cor que também é a dos punhos do vestido e da faixa cingida à cintura e atada atrás, em forma de laço com duas pontas pendentes.
A cabeça está coberta por um elegante chapéu de cor Bordeaux, ornamentado por uma fita branca e que ostenta à frente três plumas em tons igualmente Bordeaux, que acentuam a graciosidade do chapéu. Este deixa a descoberto cabelo castanho puxado para trás e enrolado em forma de carrapito. De cada lado do rosto, aquilo que configura serem pendentes de ouro, reforçam a perfeição e a nobreza associadas à figura.
Os sapatos negros, de bico, culminam na base, toda a elegância do modelo.
Carga simbólica
A figura está repleta de mensagens que importa decifrar e realçar.
Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Ocre amarelo, que é uma cor quente, que ilumina e transmite alegria e jovialidade. A sua presença no fundo do vestido, procura associar à figura, optimismo, sociabilidade, tolerância e abertura; - Cor Bordeaux, a qual transmite a ideia de clássico e de requinte; - Branco, que é uma cor que ilumina, transmite pureza, frescura e simplicidade. A sua utilização na gola do vestido confere espiritualidade à figura; - Preto, que no contexto da figura, significa elegância.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DA MARGARIDA, flor também conhecida por malmequer, flor delicada que integra as minhas memórias de infância, associada ao ritual popular que consiste em arrancar-lhe as pétalas, uma a uma, ao mesmo tempo que se pergunta sucessivamente: - Bem-me-quer? – Mal-me-quer?, para no fim se poder concluir se o amor que se nutre por alguém, é ou não correspondido.
Antigamente, a margarida era considerada a flor das donzelas e ainda hoje simboliza a pureza, a inocência, a sensibilidade, a infância e a juventude, o amor, a virgindade, a paz, a bondade e afecto. Oferecer margaridas a alguém é promessa de um amor fiel e verdadeiro,
Em terceiro lugar o SIMBOLISMO DO LAÇO. Este cria mistério em torno do corpo que o vestido oculta, à semelhança do laço que ornamenta uma caixa de prendas e cria o mistério de não se saber o que a caixa encerra.
Epílogo
Madalena Bilro interpretou a tradicional Senhora de pezinhos com uma estética muito própria. A uma modelação de grande perfeição formal, fez seguir uma decoração cromaticamente muito rica e de forte significação simbólica. A figura tem um rosto e um olhar que me parecem ser marcas identitárias da barrista. Esta, usando a técnica tradicional dos Bonecos de Estremoz, legou-nos através da sua criação, uma Senhora de Sociedade, de aspecto elegante e requintado dentro de padrões clássicos, mas revelando também sensibilidade e espiritualidade. Por isso, está de parabéns.

Senhora de pezinhos (2020) - Parte de trás. Madalena Bilro (1959-  ).

Madalena Bilro no seu atelier. Fotografia de Luís Mendeiros.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A Senhora de pezinhos de Luísa Batalha


Senhora de pezinhos (2020). Luísa Batalha (1959-   ). 


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Quem é quem
Luísa Batalha (1959-  ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Não foi o seu primeiro contacto com o barro, já que anteriormente foi azulejista e fez pintura em cerâmica, tendo nessa condição participado em diversas edições da Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, quando esta tinha ainda lugar no Rossio Marquês de Pombal. Luísa Batalha modelou recentemente a meu pedido, uma Senhora de pezinhos, da qual irei falar mais adiante
Falando da Senhora de pezinhos
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
Depois há a questão da cor do vestuário, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
A cabeça da senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e guarda-chuva.
A Senhora de pezinhos de Luísa Batalha
Ao modelar a figura de que vimos falando, Luísa Batalha optou por conferir volumetria aos componentes do vestido. Deste modo, a gola, os punhos, a orla inferior do vestido e os botões foram modelados em barro. Chamam a atenção as dobras do vestido na zona dos cotovelos.
O vestido é cor azul de petróleo (azul-verde), cor que está associada à confiança, pelo que o seu uso no vestuário é inspirador de respeito e credibilidade.
Por outro lado, a gola, os punhos, a orla inferior do vestido e os botões são de cor violeta, o mesmo se verificando com o chapéu. A cor violeta composta por iguais proporções de vermelho e azul, simboliza o equilíbrio entre a matéria e o espírito, a terra e o céu, os sentidos e a razão. Simboliza ainda a temperança, a lucidez e as acções reflectidas.
O chapéu encontra-se ornamentado por uma vistosa fita azul de petróleo.
A figura apresenta um rosto e um olhar que me parecem ser imagens de marca da barrista. O chapéu deixa ver cabelo castanho ondulado que cobre as orelhas, donde desce aquilo que configura serem pendentes de ouro, a reforçar a perfeição e a nobreza associadas à figura.
Os sapatos negros rematam inferiormente toda a elegância do modelo.
Na sua globalidade, a figura é bela e harmoniosa, revelando-nos uma Senhora de pezinhos elegante e de ar respeitável, sereno e nobre. Só me resta dizer:
- Parabéns, Luísa. 
Publicado inicialmente em 10 de Julho de 2020

Luisa Batalha a modelar. Fotografia recolhida com a devida vénia no Facebook
da barrista.  

A Senhora de pezinhos já enfornada e pronta para a cozedura. Fotografia recolhida
com a devida vénia no Facebook da barrista.  

terça-feira, 7 de julho de 2020

Novos barristas de Estremoz






ANA CATARINA GRILO
Auto dos ganchos de meia (24-11-2020)
O Carlos e a Joana: Olha que dois! (Blogue: 15-05-2021)
A Boniqueira Joana (27-01-2021)
Auto de Natal (23-12-2020)
O Peralta sou eu (09-10-2020) 
JOSÉ CARLOS RODRIGUES
LUÍS PARENTE
LUÍSA BATALHA                             
MADALENA BILRO
VERA MAGALHÃES
SARA SAPATEIRO

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Primavera de Joana Oliveira


Primavera de arco (2020) - Parte da frente. Joana Oliveira (1978-  ).
A Primavera constitui há muito um tema transversal a toda a poesia portuguesa. Camões, numa “Elegia” confessa: “Vi já que a Primavera, de contente, / De mil cores alegres, revestia / O monte, o rio, o campo, alegremente.”. Por sua vez, Florbela Espanca, no soneto “Amar” proclama: “Há uma Primavera em cada vida: / É preciso cantá-la assim florida, / Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!”. Já o cancioneiro popular considera que: “Primavera, linda flor / Como ela não há iguais: / Primavera volta sempre, / Mocidade não vem mais!”.
A Primavera dos pintores
A Primavera é o tema central de obras de grandes mestres da pintura universal, com destaque pessoal para Sandro Botticelli, Jacob Grimmer, Tintoretto, Christian Bernhard Rode, János Rombauer, Caude Monet, Alfons Mucha, Veloso Salgado e José Malhoa.
Os seus quadros representam a natureza, verdejante e florida, com a presença alegórica de graciosas figuras femininas, enquadradas por flores, em ramos, grinaldas ou arcos.
A Primavera dos barristas
Na barrística popular de Estremoz existem figuras designadas genericamente por “Primaveras”, que para além de constituírem uma alegoria à estação do mesmo nome, são também figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza.
Como figuras emblemáticas que são, as Primaveras constituem um tema inescapável à modelação por qualquer barrista. Nela são variados os caminhos que se lhe deparam. Em primeiro lugar, a modelação, a qual pode ser executada na linha de continuidade dos barristas precedentes ou alternativamente num rumo que de certo modo constitui uma ruptura com aquela prática. Trata-se de uma ruptura que sem fugir aos cânones da modelação tradicional, proclama as suas próprias marcas identidárias, notórias na estética da figura criada. Em segundo lugar, a decoração desta. Aqui pode haver uma inovação na cromática tradicional que reforce a mensagem que é intrínseca ao tema, bem como a introdução de elementos de composição que reforcem a contextualização temática.         
A Primavera de Joana Oliveira
A barrista Joana Oliveira recriou recentemente a chamada “Primavera de arco”. Na sua construção seguiu o segundo dos caminhos anteriormente apontados: o da inovação. E fê-lo para dar conta do modo como vê as coisas e com a força anímica que é seu timbre.              
A Primavera nasceu-lhe das mãos e tomou forma. Cresceu como figura, emancipou-se e autonomizou-se para fazer companhia a um apaixonado incorrigível da barrística popular de Estremoz. Permitam-me que vos apresente a “Primavera” que é e será sempre de Joana Oliveira. 
É uma figura de corpo elegante, aspecto juvenil e delicado, com ar jovial, da qual irradia luminosidade e frescura.
A postura das mãos parece antecipar o levantamento dos braços para o corpo rodopiar sobre si mesmo. E aqui reside aquilo que me parece ser uma das características mais importantes da modelação de Joana Oliveira: a capacidade mágica de através de uma representação estática, sugerir uma representação cinemática. E só este pormenor, revela-nos de imediato, Joana Oliveira como uma barrista de primeira água. 
Na decoração da figura, predominam o verde e o amarelo. O primeiro é a cor da natureza viva, associada ao crescimento e à renovação. O segundo traduz a alegria e o calor humano que lhe está associado. O azul do chapéu transmite serenidade, tranquilidade e harmonia a todo o conjunto.
Gratidão
Eu queria agradecer-lhe Joana, a beleza da figura que criou.
Bem haja! 
Publicado inicialmente a 6 de Julho de 2020

Primavera de arco (2020) - Parte de trás. Joana Oliveira (1978-  ).

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Inocência Lopes e a negritude de “O Amor é cego”


"Amor é cego", negro. Inocência Lopes (1973-  ).

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Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Luís de Camões (c.1524 – 1580)
Tradição versus inovação
A barrística popular de Estremoz não é imune à mudança a que se refere Camões. De há muito que se tem verificado uma renovação na abordagem dos temas tratados. Esta tem-se acentuado ultimamente, de modo a que os bonecos reflictam os contextos e as preocupações sociais que afligem a comunidade em geral e das quais o barrista é intérprete.
A ceifeira e o pastor de tarro e manta são registos etnográficos dum contexto sociológico agro-pastoril do Alentejo de antanho. Ficaram perpetuados nas esculturas populares dos nossos barristas, tal como no traje e reportório dos nossos grupos etnográficos, a que há que acrescentar o registo dos nossos escritores, fotógrafos e artistas plásticos.
A vida mudou, mas o barro e as mãos de quem o modela, conseguiram reportar uma época e os seus contextos sociais
Nos dias de hoje, os barristas continuam a modelar figuras criadas por aqueles que os antecederam, ainda que com as suas marcas identitárias muito próprias.
Porém cabe-lhes a importante missão de, para além disso, serem os repórteres do contexto e das preocupações sociais do presente. Apenas se lhe exige que sigam o modo de produção, reconhecido como sendo de Estremoz e que na sua essência utiliza na modelação de uma figura, a combinação da placa, do rolo e da bola. Esses têm que estar sempre presentes como “marca de água” que assegura a genuidade da nossa produção barrista, cuja origem remonta a setecentos.
O Amor é cego
“O Amor é cego”, cuja produção remonta ao séc. XIX, é uma figura de Carnaval e simultaneamente uma alegoria à cegueira do amor e ao Cupido de olhos vendados, tema recorrente na pintura e gravura universais, no adagiário português e no cancioneiro popular alentejano. Até ao presente, “O Amor é cego” tem sido representado como uma figura feminina, de pele branca.
Todavia, se o amor é mais forte do que tudo, se não conhece fronteiras, não distingue nem raças, nem credos, nem ideologias, se de facto “O Amor é cego”, esta figura da nossa barrística que é Património Imaterial da Humanidade, não pode ser um ícone exclusivo da raça branca. Tem por extensão de ser de todas as outras. É pois legítimo que a figura seja modelada com outras cores de pele [1].  Foi o que pensou a barrista Inocência Lopes.
Faça-se negro
De acordo com o Génesis, no primeiro dia de Criação do Mundo “Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita”. Pois bem, pensando em “O Amor é cego”, Inocência Lopes disse: “Faça-se negro”. E o negro foi feito.
Ao criar “O Amor é cego” negro [2], Inocência Lopes exalta a negritude e proclama a igualdade racial. Trata-se assim de uma figura com forte conotação ideológica que assume especial importância num período de fortes tensões sociais que à escala global traduzem o repúdio por actos racistas praticados por partidários da supremacia branca.
A rematar
A negritude é um tema fracturante a nível planetário. Ao assumir a maternidade de uma figura que a partir deste momento passa a ser paradigmática, a barrista mostrou uma atitude corajosa, pois revelou-nos de que lado da barricada está.
O arrojo na concepção e a qualidade da modelação e da decoração, merecem que eu diga:
- PARABÉNS, INOCÊNCIA LOPES!



[1] - À semelhança de inúmeras imagens devocionais de Nossa Senhora que existem por esse mundo fora e nas quais a Virgem é representada muitas vezes como Virgem Negra.
[2] - O Amor é cego” negro insere-se dentro daquilo que se convencionou chamar “Bonecos da Inovação” e nada tem a ver com figuras como “Preto a cavalo”, “Preta florista” e “Preta pequena” que integram os chamados “Bonecos da Tradição”. Estas últimas figuras são reveladoras da colonização africana ocorrida no Alentejo, que levou a que os negros ficassem perpetuados na barrística popular estremocense.