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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Frade a Cavalo


Frade a Cavalo (a três quartos). José Moreira (1926-1991).

Para Jorge da Conceição,
 poeta do barro,
que diz com as mãos,
 o que eu não consigo
 modelar com palavras.

Intróito
Desde o séc. XII que Estremoz foi palco de actividades das ordens religiosas que por aqui proliferaram, conforme nos é revelado pela arquitectura religiosa citadina, que inclui 6 complexos arquitectónicos: o Convento de S. Francisco (séc. XIII), o Convento de S. João da Penitência, da Ordem de Malta (séc. XVI), o Convento dos Agostinhos de N.ª S.ª da Consolação (séc. XVII), o Convento de Santo António dos Capuchos (séc. XVII), o Convento de N.ª S.ª da Conceição dos Congregados do Oratório de S. Filipe Néri (séc. XVII) e o Convento de S. João de Deus (séc. XVIII) (6). Cada uma destas ordens tinha a sua própria missão, a sua área de implantação, poder económico e social, bem como capacidade de influência política.
Entre os Conventos foi-se definindo e consolidando a malha urbana, espécie de palco por onde transitavam os múltiplos actores da farsa humana: Clero, Nobreza e Povo, cada um deles desempenhando o seu próprio papel, nem sempre bem visto pelos outros.
O jurisconsulto francês Charles Loiseaux (1566-1627) no seu “Traite des Ordres et Simples Dignitez” (5), referindo-se a cada uma daquelas classes e por aquela sequência considera que: "Uns dedicam-se especialmente ao serviço de Deus, outros a defender o Estado pelas armas, outros a alimentá-lo e mantê-lo pelo exercício da paz."
A Literatura de Tradição Oral
No caso particular dos frades e para além da sua vida pública, havia também a sua vida privada intramuros dos Conventos e longe dos olhares da plebe. O desconhecimento dessa vida privada estará decerto na origem da fértil imaginação popular associar a figura dos frades a comezainas e libações frequentes ou seja aquilo que no conceito popular constitui a “boa vida”.
Os frades e a sua suposta vida integram há muito e com alguma abundância os registos dos múltiplos domínios da literatura de tradição oral: cancioneiro, lendas, narrativas, lengalengas, adivinhário, toponímia, alcunhas, gíria e adagiário. No caso deste último, são conhecidos adágios que reflectem a suposta boa vida dos frades: “Comer que nem um abade”, “A ordem é rica e os frades são poucos” e “Migalhas de frade, muitas vezes sabem bem”. Estes alguns dos registos fradescos que no decorrer dos séculos têm sido transmitidos de geração em geração, por tradição oral. Tais registos integram há muito e por direito próprio a Mitologia Popular Portuguesa.
Face ao exposto não é de estranhar que a barrística popular de Estremoz tenha perpetuado no barro uma figura que se crê remontar ao séc. XIX (7) e que representa um Frade a Cavalo.
Morfologia e cromática do Frade a Cavalo          
A figura representa um Frade a Cavalo, muito direito, olhando em frente e segurando nas mãos um odre de vinho, negro com costura zarcão e tampa amarelada, configurando madeira. O frade enverga o tradicional hábito castanho com capucho. Curiosamente, as mangas do hábito apresentam orla e tripla abotoadura amarela, cor que também se observa listada no capuz. A abertura superior do hábito apresenta listas castanhas e zarcão, dispostas alternadamente. As vestes integram ainda um cordão amarelo, atado à cintura, com duas pontas pendentes para o lado esquerdo do cavaleiro.
Na cabeça, dois pontos negros representam os olhos, encimados por dois traços castanhos que figuram as pestanas e as sobrancelhas. O nariz em relevo, tem a forma de prisma triangular e a boca é interpretada por uma linha vermelha. Em cada uma das faces é visível uma roseta alaranjada. O cabelo é castanho-escuro, encobre as orelhas e está parcialmente coberto por um chapéu (chapéu aguadeiro) negro, com copa semi-esférica, dobrada a meio e aba circular, totalmente virada para cima. Da parte posterior da copa partem dois ramos de uma fita amarela listada de vermelho e verde nas pontas, pendentes para baixo.
O frade calça botas negras com esporas imitando metal e fixadas às botas por aquilo que simula serem fivelas metálicas assentes no peito da bota.
O frade está montado num cavalo cuja cor afigura pelagem de cor creme, malhada de negro nas patas dianteiras e no topete (franja). A crina e a rabada do quadrúpede apresentam uma série de incisões pintadas a negro.
A cabeça do equídeo está levantada para cima e nela são visíveis duas orelhas cónicas levantadas e viradas para trás, dois olhos negros pintados em círculos brancos, uma linha incisa de cor vermelha que imita a boca e dois pontos incisos que lhe são paralelos, arremedando as narinas bem abertas.
As patas do bicho terminam naquilo que aparentam ser cascos de cor negra.
Sobre o dorso da montada é visível uma manta creme listada de vermelho e verde, na qual supostamente se apoia a sela onde o cavaleiro está sentado. Sob o hábito, as pernas arqueadas do cavaleiro acompanham a curvatura do dorso do animal e o seu contorno está destacado por dois traços zarcão, um à frente e outro atrás de cada perna. Na parte posterior do dorso é observável aquilo que aparenta ser uma manta de viagem, castanha, enrolada. 
O arreio do animal é constituído por uma cabeçada de cor castanha e rédeas da mesma cor que assentam no cachaço do bicho.
O binómio frade-cavalo assenta numa base prismática rectangular de topo verde e orlada de zarcão.
As marcas identitárias de José Moreira
As figuras manufacturadas por José Moreira ostentam marcas identitárias indeléveis que o permitem identificar como autor.
O olhar das figuras antropomórficas é definido por sobrancelhas e pestanas paralelas, sendo estas últimas tangentes às meninas do olho, que sendo maiores que noutras representações, tornam o olhar mais expressivo.
Nas figuras zoomórficas e relativamente a outras representações, os cavalos têm uma cabeça maior, um olhar mais vivo, as narinas e a boca estão mais bem definidas e os focinhos estão arrebitados, como que procurando afastar-se do pescoço.
Estando o equídeo a marchar para o lado esquerdo do observador, a crina está totalmente virada para o lado do observador, o mesmo se passando com a rabada, comprida e a roçar o chão.
A base em que assenta esta figura tem um topo integralmente verde, ao contrário de outras representações que a têm pintalgada de branco, amarelo e zarcão.
Leituras do Frade a Cavalo
É sabido que um cavalo se exprime não só por sons, mas também através da linguagem corporal, transmitindo-nos sinais que são inteligíveis. A meu ver, o barrista comunicou à peça alguns desses sinais, que no seu conjunto nos relatam o contexto por ele retratado e perpetuado no barro.  
A cabeça do equídeo levantada significa que o animal quer ver à distância, postura associada a uma situação de alarme, porque o perigo sente-se à distância.
As orelhas levantadas e viradas para trás significam que a montada está atenta a algo que se passa atrás que é a presença do cavaleiro e traduzem submissão e obediência à voz de comando daquele.
As narinas dilatadas são indício de atenção.
A rabada inclinada para o lado do observador dá a sensação de movimento. Bater com a rabada é um movimento que o quadrúpede utiliza para afastar os insectos do corpo e que por isso é observável sempre que o animal está insatisfeito.
Resumindo: o barrista quis representar um cavalo atento, submisso à voz do cavaleiro, mas algo insatisfeito.
Por sua vez, o cavaleiro revela inteira confiança na montada, uma vez que não empunha as rédeas, as quais estão apoiadas no cachaço do bicho. Toda a destreza do frade, supostamente em viagem, parece estar concentrada em segurar nas mãos um odre de vinho para as suas necessidades, configurando os mesmos cuidados com que durante a liturgia o celebrante segura o ostensório.
O que dizem os estudiosos
Para Hugo Guerreiro (4) “Neste conjunto, o Frade a Cavalo agarrado ao odre do vinho, sobressai como expressão de anticlericalismo, comum à época no universo republicano e que teve grande expressão no Figurado produzido por Bordalo Pinheiro. Foi usado para ridicularizar e assim desacreditar o clero.”
Já para Joaquim Vermelho (7), “A figura está tratada de forma naturalista sem denodar qualquer sentido crítico ou caricaturial, não seguindo o figurino da época do frade “gordo e anafado, bem comido e bem bebido”.        
Revejo-me inteiramente na interpretação de Joaquim Vermelho e discordo inteiramente da interpretação de Hugo Guerreiro. Na verdade, na figura em estudo cuja origem remonta ao séc. XIX, não consigo vislumbrar qualquer expressão de anticlericalismo de pendor republicano. Apenas consigo observar a perpetuação no barro de uma das múltiplas componentes da mitologia popular sobre frades: a boa vida.  

BIBLIOGRAFIA
(1) - Como entender os sinais e o comportamento dos cavalos. [Em linha]. [Editado em 12 de Novembro de 2019]. Disponível em: http://www.sanoldog.com.br/como-entender-os-sinais-e-o-comportamento-dos-cavalos/ .  [Consultado em 27 de Agosto de 2020]
(2) - DIAS DA CUNHA, Sandra. A comunicação do cavalo. [Em linha]. [Editado em 16 de Novembro de 2018]. Disponível em: http://www.equitacao.com/artigos/2176/10/a-comunicacao-do-cavalo/ . [Consultado em 27 de Agosto de 2020]
(3) - Formas de expressão e sinais da comunicação dos cavalos. [Em linha]. [Editado em 21 de Junho de 2019]. Disponível em: https://www.comprerural.com/formas-de-expressao-e-sinais-da-comunicacao-dos-cavalos-eles-sao-muito-sensitivos/ . [Consultado em 27 de Agosto de 2020]
(4) - GUERREIRO, Hugo. Figurado de Estremoz : produção património imaterial da humanidade. Afrontamento. Porto, 2018 (pág. 95). 
(5) ~ LOISEAUX, Charles. Traite des Ordres et Simples Dignitez. Abel l’Angeler. Paris, 1610 (pág. 74).
(6) - MATOS, Hernâni. Bonecos de Estremoz. Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, 2018 (pág. 68).
(7) - VERMELHO, Joaquim. Sobre as cerâmicas de Estremoz – Arquivos da Memória. Edições Colibri/Câmara Municipal de Estremoz. Lisboa, 2005 (pág. 104).

Hernâni Matos

Frade a Cavalo (de frente). José Moreira (1926-1991).

 
Frade a Cavalo (de trás). José Moreira (1926-1991).

sábado, 13 de junho de 2020

Auto do desconfinamento de Santo António


Santo António. Mariano da Conceição (1903-1959).


Ao Alexandre Correia, grande devoto de Santo António,
profundo conhecedor da vida e obra do Santo,
porventura o maior coleccionador de temática antonina,
que com bom gosto, engenho e arte,
tem edificado uma valiosa e polifacetada colecção,
que a tornam num Museu Antonino sem igual.

Brilhou Alexandre
lá na Antiguidade.
Há outro e Grande
em Lisboa cidade.

Estas e muitas outras quadras, direi mesmo um rosário infindo de quadras, foram trauteadas pelo meu irmão gémeo em noite de Santo António. A cantilena prolongou-se até altas horas da noite.
António Pedro, assim se chama o meu irmão gémeo, é diametralmente oposto a mim próprio. Nasceu com veia poética e quando bebe uns copos é vê-lo versejar. Nada de versos alexandrinos que isso é para intelectuais, apenas e sempre o mais castiço fado vadio.
As sardinhas assadas sabiam a manjar de Deuses e o vinho tinto não destoaria no Olimpo. O consumo deste último levou o António a libertar a alma residente no seu arcaboiço de ferrabrás e a sua voz subiu aos céus como se fosse um balão de Santo António.
Estávamos na varanda para onde a família foi seroar em honra de Santo António e para glória das nossas barrigas. Não estávamos sós, tínhamos levado connosco uma imagem de Santo António em barro de Estremoz. Bem antiga por sinal, saída das mãos de mestre Mariano da Conceição, do clã dos Alfacinhas. Cá em casa somos todos antoninos e eu próprio sou António, ainda que Hernâni.
Na varanda onde erguêramos o nosso arraial de trazer por casa, havia um pequeno nicho onde acomodámos o Santo. Perdão, a imagem do Santo. Não foi tarefa fácil, já que houve um certo reboliço cá em casa. É que a imagem de Santo António de Mariano da Conceição, apesar de muito senhora do seu nariz, não é a única que temos. Coabita com as imagens homónimas de Sabina da Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Maria Luísa da Conceição, Fátima Estróia, Irmãs Flores e Ricardo Fonseca.
Numa atitude pouco católica, as várias imagens do Santo puseram-se em pé de guerra e empinaram-se umas às outras. Todas queriam marcar presença no nicho que naquela noite iria desempenhar funções antoninas. Foi o bom e o bonito. Cheguei a pensar em mergulhá-las todas no poço, de cabeça para baixo, para ver se refrescavam as ideias. Porém, tal não foi necessário. O Santo António de Mariano da Conceição puxou dos galões – o Mariano também foi tropa  - e com a voz tonitruante que era apanágio do Mariano, vociferou:
- Então vocês não vêem que são maçaricos comparados comigo? Eu tenho mais tempo de serviço que vocês, ouviram? Cresçam e apareçam!    
Foi assim que as outras imagens do Santo meteram o rabo entre as pernas e ordeiramente se dirigiram para o lugar que eu lhes tinha destinado e de onde nunca deveriam ter saído.
Nesta altura, alguns que andam a leste das andanças antoninas, interrogar-se-ão sobre o modo como conheci o Alexandre. Vou contar. Dei conta da sua notoriedade nas redes sociais e conheci-o pessoalmente no lançamento do meu livro “Bonecos de Estremoz”. Se porventura ainda não éramos amigos, ficámos a sê-lo a partir de então, por comungar-mos paixões comuns que nos levam frequentemente a falar ao telefone ou a trocarmos mensagens por email ou Facebook.
No passado dia 30 de Maio publiquei no meu blogue “Do Tempo da Outra Senhora”, um texto intitulado “Joana Oliveira, uma barrista que se afirma”, onde com o bisturi da minha análise, dissequei o trabalho da barrista. A génese deste texto remonta a um comentário que fiz a uma postagem do Alexandre no grupo “Bonecos de Estremoz” do Facebook, datada de 21 de Maio passado e que é acompanhada de duas criações da barrista, na qual teci quatro comentários acerca das mesmas.
O texto que a 30 de Maio publiquei no meu blogue, foi na mesma data objecto de divulgação através de uma postagem minha no grupo de Facebook já referido. O Alexandre produziu então o seguinte comentário:
- Hernâni, se me permite deixe-me relembrar que se comemora hoje os 788 anos da canonização de Santo António. O Santo António foi canonizado a 30 de maio de 1232, na Catedral de Espoleto, pelo Papa Gregório IX. Conta a tradição que nessa hora em Lisboa os sinos de todas as igrejas tocaram espontaneamente e uma estranha alegria se espalhou pela população que saiu à rua, atónita.
A este comentário respondi, dizendo:
- Obrigado, Alexandre. Eu sabia que era em Maio, mas não me lembrava da data, o que é imperdoável para um antonino.
O Alexandre não desarmou e replicou:
- Hernâni Matos , meu caro, não foi mero acaso escrever hoje sobre o Santo.
Correndo o risco de me tornar um escritor antonino, lá tive que responder:
- Um António lembrou a outro António, que era dia de falar sobre ele. E como são íntimos, o António de Lisboa e o Hernâni António de Estremoz, o de Lisboa (que é Santo) disse ao de Estremoz (que não o é, nem pouco mais ou menos), num tom coloquial:
- "Caro amigo: sei que és alentejano e que está uma grande calorina, pelo que tens direito à sesta. Porém, em nome da nossa amizade, és nomeado ex-aequo, como meu assessor de imprensa. Por isso, tens que dar ao dedo e falar sobre mim, que é dia disso. Confio em ti e no que disseres e para não falhares a missão, vou-te tirar o sono".
Foi assim que para gáudio do Alexandre Correia, perdi a sesta e ando com os sonos atrasados. É caso para dizer:
- "Valha-me Santo António!"
A conversa entre nós ficou por ali e o tempo foi passando. O facto de estarmos submetidos a um estado de desconfinamento, forçou-nos a honrar a Memória do Santo mais perto do céu, na varanda da nossa casa, rodeada de telhados, onde de dia pousa e chilreia a passarada. E foi o trinar da voz do António Pedro, o meu irmão gémeo, que deu origem a este escrito. Há dias que andava a pensar escrever sobre o Alexandre e cheguei a confessar aos meus botões:
- Digam-me lá por onde devo começar?
Hoje, dia 13 de Junho, não sei se devido a ressaca de ontem à noite, julguei ouvir Santo António dizer-me:
- Hernâni António, não penses mais nisso, senão ainda gastas os botões. Tu és uma picareta escrevente e decerto saberás o que hás-de escrever e como escrever.
Como não via alternativa possível, acreditei naquilo que julgo que o Santo me terá dito. Meti mãos à obra e o resultado está à vista. Já estou a ver o Alexandre a dizer:
- Hernâni António, foi o Santo que inspirou este escrito.
E eu responder-lhe-ei:
- Se calhar o Santo viu que eu estava em risco de rebentar com os botões da camisa, do casaco e da braguilha, o que seria impróprio para um antonino como eu.
E acrescentarei:
- É certo que o Santo tem atado um cordão à cintura e é avesso a botões. Mas francamente, picareta escrevente, eu?

sábado, 30 de maio de 2020

Joana Oliveira, uma barrista que se afirma


Fig. 1 – Passeio de Santo António com o Menino Jesus (2020). Joana Oliveira (1978).
Colecção de Alexandre Correia.

LER AINDA:

Santo António e Estremoz
Santo António de Lisboa é um Santo venerado pela Igreja Católica, seguramente o Santo que é objecto da mais intensa devoção popular. O seu culto foi incentivado em Estremoz pelos religiosos da Ordem de São Francisco de Assis, sediados no Convento de São Francisco, desde os primórdios da sua construção, no século XIII, em data imprecisa, balizada pelos reinados de D. Sancho II – D. Afonso III (1239-1255).
Daí não ser de admirar que a iconografia antonina inclua exemplares da barrística popular estremocense, desde os sécs. XVIII-XIX.
Iconografia de Santo António
A iconografia de Santo António representa-o correntemente a envergar o hábito castanho da ordem franciscana, com terço e cordão à cintura, acompanhado do Menino Jesus, o que simboliza a intimidade de Santo António com Cristo. Em geral, o Menino Jesus é mostrado de três modos diferentes: - SOBRE A BÍBLIA: Significa que Santo António anunciava Jesus Cristo através de inúmeras citações do Evangelho; - AO COLO DE SANTO ANTÓNIO: Traduz a profunda intimidade do Santo com Jesus, fonte da sabedoria e dos dons que nele se manifestavam; - MOSTRADO AO SANTO PELA VIRGEM MARIA: Revela a intensa devoção de Santo António pela Virgem.
Existem ainda iconografias antoninas muito específicas que têm a ver com os Milagres de Santo António. Tal é caso do Sermão de Santo António aos peixes, do qual irei falar a seguir.
Sermão de Santo António aos peixes
Alguma iconografia de Santo António representa o "Sermão de Santo António aos peixes". Vejamos o que nos diz o Padre António Vieira (1608-1694) no seu “Sermão de Santo António aos peixes” publicado pela primeira vez em 1682:
“Pregava Santo António em Itália, na cidade de Rimini [1], contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o Santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António, com os pés descalços, não podia fazer esta protestação; e uns pés, a que se não pegou nada de terra, não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da sua doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: “Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes! Oh! maravilhas do Altíssimo! Oh! poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos; e, postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava, e eles ouviam”.
É o próprio Camões (c. 1524-1580) que relata: “Com que os mudos peixes / saem ouvindo ao ar aberto.” [2]. De resto é bem conhecida a quadra popular: "Santo António Português,/Quando foi pregar ao mar,/Até os peixes na água,/Se puseram a escutar!" [3]     
Passeio de Santo António com o Menino Jesus
A temática antonina traz-me à mente os versos do “Passeio de Santo António”, de Augusto Gil (1873-1929), magistralmente declamados pelo saudoso actor João Villaret (1913-1961). Os versos incluídos no livro de poemas “Luar de Janeiro” (1909), mostram a dimensão humana e ingénua com que são tratados os personagens Santo António e Menino Jesus. Perante alguma impertinência do Menino Jesus, Santo António ameaça fazer queixas à Mãe: “Corado como as vestes dos cardeais, / Achou esta saída redentora: / - Se o Menino Jesus pergunta mais, / ... Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!”. O poema é todo ele revelador da grande intimidade entre Santo António e o Menino Jesus.
Criações de Joana Oliveira
Alexandre Correia, porventura o maior coleccionador português de Santo António, facultou-me as imagens de duas criações da barrista Joana Oliveira, que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Essas imagens são “Passeio de Santo António com o Menino Jesus”(Fig. 1) e Sermão de Santo António aos peixes” (Fig. 2). De cada uma delas vou falar em particular.
Passeio de Santo António com o Menino Jesus (Fig. 1)
A tonsura na cabeça de Santo António frisa a sua castidade. A auréola na cabeça de Santo António e do Menino Jesus, sublinha a santidade de ambos.
Santo António enverga o hábito franciscano castanho, com o cordão à cintura. Na mão direita segura uma Bíblia de capa castanha que comprime contra o peito. Parece ir dar a mão ao Menino Jesus, que veste túnica azul clara e que segura na mão esquerda três lírios amarelos (Porventura uma alegoria à Santíssima Trindade, já que o amarelo traduz a luz.). Qualquer deles calça sandálias castanhas com tiras.
Naturalmente que a cor das vestes tem um significado profundamente simbólico. O castanho de Santo António é a cor da terra e simboliza a humildade, a simplicidade e a pobreza que são apanágio dos franciscanos. O azul claro do Menino Jesus representa a espiritualidade, a eternidade, a paz, a pureza e o desapego da vida mundana.
A representação é muito feliz. Sugere: Intimidade (Caminham juntos); - Confiança mútua (Santo António e o Menino vão praticamente de mão dadas, sem contudo se tocarem); - Cumplicidade (Olham um para o outro); - Comunicação (Parecem falar entre si); - Amor aos Evangelhos (Santo António comprime a Bíblia contra o peito); - Partilha (O Menino transporta os lírios, atributo de Santo António).
De registar que o conjunto não assenta numa peanha. Esta começou por ser usada pelos barristas populares de Estremoz, os quais utilizaram como modelo imagens devocionais de escultores eruditos em madeira, que eram objecto de culto nas nossas igrejas e conventos. Todavia libertaram-se dessa "canga". A peanha tem sido utilizada por quem o entende fazer, mas há barristas como José Moreira, Fátima Estróia e Maria Luísa da Conceição, que embora tenham modelado imagens devocionais com peanha, perceberam que esta era dispensável e são conhecidos trabalhos seus (eu próprio os tenho), em que as imagens de Santos não assentam nem em peanhas nem em andores. Nunca passou pela cabeça de ninguém, dizer que não são imagens devocionais ou que não possam ser considerados Bonecos de Estremoz. Tal é o caso, que aqui registo e saúdo.
As duas figuras assentam numa base quadrangular. Sendo o quadrado símbolo da perfeição e da estabilidade, a geometria da base poderá constituir uma alegoria aos quatro Evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João). Por uma questão técnica, os vértices do quadrado foram cortados em bisel, para conferir mais solidez à base. Esta é de cor verde, cromatismo ligado à natureza, ao crescimento, à renovação, à esperança e à liberdade. A orla da base é castanha, cor do hábito do Santo. No seu conjunto, as cores verde e castanha da base reforçam a sobriedade do conjunto.
Voltando à peanha cujo uso é advogado por alguns, julgo não ser despropositado tecer algumas considerações suplementares. Na sua imponência ornamental, a peanha configura o afastamento do devoto em relação à imagem devocional. Pelo contrário, uma imagem devocional sem peanha traduz a aproximação do devoto em relação à imagem devocional, já que o Santo fica no plano térreo do devoto. Por outras palavras, trata-se de uma abordagem artística mais “terra a terra”, que a meu ver humaniza mais a iconografia, sem todavia a dessacralizar.
Sermão de Santo António aos peixes (Fig. 2)
Santo António enverga o hábito franciscano castanho com terço e cordão à cintura e calça sandálias castanhas com tiras. A tonsura na cabeça salienta a sua castidade, mas a cabeça não apresenta auréola por a representação se referir a um episódio da sua vida, antes de ter sido canonizado.
A figura do Santo está assente num plano mais elevado em relação ao nível do mar. Os pés pisam aquilo que configura ser rocha cinzenta, provável alegoria à dor sentida pelo Santo, por não ser escutado pelos homens e se ver forçado a pregar aos peixes. Junto aos pés, dois lírios branco e lilás, provável alegoria à inocência do Santo. Este, de boca aberta, prega aos peixes olhando para o céu como se recebesse a palavra de Deus. O seu sermão é acompanhado de linguagem gestual.
Aos pés do Santo rebentam as ondas do mar azul, repletas de espuma. Da água emergem peixes (em número de quatro), que parecem escutar as palavras do Santo. Será uma alegoria às quatro virtudes fundamentais (Sabedoria, Fortaleza, Temperança e Coragem), referidas por Platão (428/427 – 348/347 a.C.), na “República”?
Epílogo
Os trabalhos da Joana Oliveira são trabalhos expressivos, reveladores de forte personalidade, sensibilidade e bom gosto que se traduzem em marcas identitárias muito próprias, que a maioria das vezes só são conseguidas ao fim de muito tempo de traquejo, após os barristas se terem conseguido libertar da influência daqueles que os precederam e/ou ensinaram, deixando de imitar ou tentar imitar a sua produção, não o conseguindo muitas vezes. Com o trabalho da Joana Oliveira, a Barrística Popular de Estremoz está de parabéns e ela própria também. Pois claro!
O seu caminho deverá ser sempre uma procura, com prazer no caminho e na descoberta. E com tal procedimento é sempre possível manter uma estrita fidelidade ao modo de produção, consensualmente reconhecido como "sui generis" e de Estremoz.

[1] - Rimini, cidade do NE de Itália, na região de Emília, província de Forli, situada na costa do Adriático e na foz do Mareccha, a 44º 3’ 43" de latitude Norte. A cidade de Rimini teve origem na antiga Ariminum, fortaleza e posto de grande importância política e militar no período romano. Já na Idade Média, Rimini foi porto de importância e domínio dos Malatesta, senhores cruéis e requintados mecenas. Actualmente é uma das maiores e mais famosas estações balneares de Itália.
[2] - CAMÕES. Écogla 6.ª das Rimas Várias.
[3] - Quadra recolhida por Armando de Mattos (ver Bibliografia).

BIBLIOGRAFIA
- MATOS, Hernâni António Carmelo de. Bilhetes-Postais Comemorativos do VII Centenário do Nascimento de Santo António de Lisboa in Catálogo da Inteiromax - Eça de Queiroz 2000, Póvoa de Varzim, Agosto de 2000.
- MATTOS, Armando de. Santo António nas Tradições Populares. Porto, 1937.

Hernâni Matos

Fig. 2 - Sermão de Santo António aos peixes (2020). Joana Oliveira (1978).
Colecção de Alexandre Correia.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Santo António e COVID-19


Santo António (2020). José Carlos Rodrigues. Colecção Alexandre Correia.

Iconografia de Santo António
A iconografia de Santo António representa-o correntemente a trajar o hábito castanho da ordem franciscana, com terço e cordão à cintura. O hábito castanho simboliza os princípios franciscanos: humildade, simplicidade e justiça. O terço traduz que é um homem de oração. O cordão apresenta três nós que expressam: obediência, pobreza e castidade.
A iconografia figura-o ainda com um livro nas mãos, o que tem um triplo significado: representa os Evangelhos, a sabedoria de Santo António e o facto de ser Doutor da Igreja.
A iconografia caracteriza-o também através da presença do Menino Jesus, o que expressa a sua intimidade com Jesus Cristo. O Menino Jesus é apresentado em cima do livro, a Bíblia, o que significa que Santo António anunciava Jesus Cristo. Por vezes, o Menino Jesus aparece ao colo de Santo António, o que reforça a singular intimidade do Santo com Jesus.
A iconografia associa igualmente ao Santo, um lírio como símbolo de pureza e castidade, esta última reforçada pela sua representação com uma tonsura na cabeça.

Santo António e Bonecos de Estremoz
Recentemente tomei conhecimento de duas representações de Santo António da autoria do barrista José Carlos Rodrigues (Fig. 1 e Fig. 2), sobre cuja execução técnica nada tenho a observar, o que já não acontece em termos iconográficos.
A imagem da Fig. 1 enquadra-se na iconografia tradicional e nada tenho a notar sobre a mesma. Já a representação da Fig. 2, ainda que alegórica e despoletada pela actual pandemia de COVID-1 19, merece-me reparos muito sérios:
1 - Santo António usa luvas e máscara comunitária e tem a seu lado um frasco de gel desinfectante. É posta em causa a santidade e pureza do taumaturgo que o deveriam manter imune ao vírus e de o transmitir ao Menino Jesus, o qual pela sua santidade também estaria imune.
2 - Santo António está refastelado num sofá que configura ser de couro, ao que parece a usar um “tablet”. Será adequada tal representação a um franciscano que fez juramento de humildade e simplicidade?
3 - Santo António trocou a Bíblia pelo “tablet” e os Evangelhos passaram a ser sustentados pelo Menino Jesus. Será que este adquiriu a sabedoria de Santo António e passou a ser Doutor da Igreja? 
4 - O lírio está numa jarra de flores. Será para sugerir que o Santo trocou há já algum templo a Bíblia pelo “tablet” e pôs o lírio na jarra para não murchar? Será que isso não sugere que a pureza e castidade do Santo correm riscos ao usar o “Tablet”, relegando a Bíblia?
Como cidadão creio que as questões de religião devem ser abordadas com pinças e nunca tratadas com ligeireza, já que isso pode entrar em confronto com as crenças mais profundas da comunidade católica, as quais devem ser merecedoras do maior respeito.
Como investigador responsável da barrística popular de Estremoz sou uma pessoa de espírito aberto, receptiva a criações de novas figuras para além do âmbito restrito dos chamados Bonecos da Tradição. Todavia, tenho sempre presente que a nossa barrística teve origem nas imagens devocionais e nos presépios, que continuam a ser modelados desde setecentos. Desde então que os nossos Bonecos nunca se desviaram das características e do rumo identitário cimentados por séculos de modelação. As figuras humorísticas e satíricas são próprias de latitudes como Barcelos, mas não o são de Estremoz. Tal é válido não só para imagens laicas mas também e sobretudo para imagens devocionais.
Do exposto e pelo exposto creio ser legítimo concluir que a imagem da Fig. 2, não possa ser considerada aquilo que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz. Isto não põe em causa a liberdade de criação do barrista. Acautela apenas a designação “Bonecos de Estremoz”, que tal como estes deve ser salvaguardada.

Santo António (2020). José Carlos Rodrigues. Imagem recolhida com a devida
vénia do grupo do Facebook "Olaria e Figurado Português".

terça-feira, 19 de maio de 2020

Adagiário de São Roque


São Roque (c. 1516). Iluminura do Missal de Joanna de Ghistelles, c. 1516:
Egerton MS 2125, f. 209 v.

Propus-me estudar o adagiário português dos Santos e dei conta desse estudo em três textos publicados sucessivamente:
Adagiário dos Santos - 3                 
Apesar da expressividade do culto a São Roque em Portugal, não conheço nenhum adágio português que faça referência ao dia de São Roque (16 de Agosto). Todavia, na tradição oral francesa, existem adágios que têm a ver com o calendário agrícola do mês de Agosto:
- À la Saint-Roch, grande chaleur prépare vin de couleur (Por São Roque, muito calor origina vinho de cor);
- À la Saint-Roch, les noisettes on croquet (Por São Roque comemos avelãs);
- Après la Saint-Roch, aiguise ton soc et chausse tes sabots (Depois de São Roque, afia a tua relha e calça os teus tamancos) - Diz-se aos lavradores, porque é chegado o momento de fazer os preparativos para as sementeiras de Outono;
- C'est saint Roch et son chien (É São Roque e o seu cão) – Diz-se de duas pessoas inseparáveis;
- La Saint-Roch annonce le temps d'automne (São Roque anuncia o Outono);
- Oncques pluye ne fict tord à la grand saint Roch en Retord (Nunca a chuva prejudicou o grande São Roque em Retord);
- Peigné comme saint Roch  (Pentado como São Roque) – Diz-se de alguém mal penteado;
- Qui aime saint Roch, aime son chien (Quem gosta de São Roque, gosta do seu cão) – Idem;
- Qui voit saint Roch, voit bientôt son chien (Quem vê São Roque, vê logo o seu cão) – Diz-se de duas pessoas que se seguem uma à outra;
-S'il pleu t à la Saint-Roch les truffes pousseront sur le roc (Se chover em São Roque, as trufas crescerão na rocha);
Não há adágios portugueses sobre São Roque, mas há adágios franceses. É caso para dizer:
- Quem não tem cão, caça com gato.



São Roque (1508). Iluminura do “Livre de prières de Madeleine d'Azay”, folha 27 r,
Manuscrito 355, Biblioteca- Mediateca de Nancy.

Cura de São Roque (15..). Iluminura do “ Livre d'heures à l'usage de Chalon”,
folha 108 v, manuscrito 6881, Biblioteca Municipal de Lyon.

domingo, 17 de maio de 2020

COVID - 19




Textos publicados no decurso da pandemia de COVID-19


Coronavírus COVID-19 (Blogue: 15 de Março de 2020)
Aos devotos de São Roque (Blogue: 19 de Março de 2020)
Bonecos de Estremoz e pandemia: São Roque (Blogue: 13 de Maio de 2020)
São Roque em Portugal (Blogue: 16 de Maio de 2020)
Adagiário de São Roque (Blogue: 19 de Maio de 2020)
Santo António e COVID-19 (Blogue: 26 de Maio de 2020)
Bonecos de Estremoz e Pandemia: Peralta e Sécia (Blogue: 28 de Maio de 2020)
Bonecos de Estremoz e pandemia: Ricardo Jorge (Blogue: 11 de Junho de 2020)
Auto do desconfinamento de Santo António (Blogue: 13 de Junho de 2020)



Hernâni Matos

sábado, 16 de maio de 2020

São Roque em Portugal


São Roque (séc. XVII). Escultura em madeira policromada. Igreja de São Roque, Lisboa.

Início do culto a São Roque em Portugal
As primeiras notícias sobre os milagres de Santo Roque chegadas a Portugal remontam ao final do reinado de D. João II e ao início do de D. Manuel I. A devoção a São Roque expandiu-se através da fundação duma confraria que contava com a família real e a nobreza entre os seus membros. Desde então que a Irmandade de São Roque de Lisboa tem mantido vivo o culto a São Roque.
Em 1506 teve início a construção da Ermida de São Roque no exterior da Cerca Fernandina, perto do adro onde se sepultavam as vítimas da peste. A ermida foi consagrada pelo bispo em 1515 e nela se depositaram as Relíquias de São Roque cedidas ao rei D. Manuel I pelas autoridades venezianas. O adro foi consagrado em 1527. A ermida transformou-se num importante local de peregrinação, aonde acorriam peregrinos para cumprir as suas promessas.
Em 1553 a Companhia de Jesus tomou posse da Ermida e em 1556 decidiu avançar com a construção da Igreja de São Roque no local da Ermida.
A Irmandade de São Roque conseguiu subsistir à expulsão da Companhia de Jesus em 1759. Em 1990 transformou-se em Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa e em 2011 fundiu-se com a Real Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado.
Padroeiro de localidades
- VILAS: São Roque do Pico (Pico – Açores); - ALDEIAS: Gens – Foz do Sousa (Gondomar), Vilarinho de São Roque (Albergaria a Velha); - FREGUESIAS: Abrigada (Alenquer), Altares (Angra do Heroísmo), Cortes do Meio (Covilhã), Romarigães (Paredes de Coura), São Roque (Funchal), São Roque (Oliveira de Azeméis), São Roque (Ponta Delgada – Açores), São Roque do Faial (Santana – Madeira).
Padroeiro de profissões
São Roque é padroeiro de cirurgiões e deficientes, dermatólogos, padeiros, tratadores e treinadores de cães, curtidores de peles, cardadores, agricultores, viticultores e trabalhadores da pedra (canteiros, calceteiros e carreiros).
Protector
São Roque é invocado como protector: - Contra epidemias de peste, cólera, tifo, gripe espanhola, sida, etc. - Contra a silicose de canteiros, calceteiros e carreiros. - Contra doenças de animais (febre aftosa) e da videira (filoxera). – De cães.
Arquitectura
São Roque é um nome muito usado na designação de construções pertencentes aos vários tipos de arquitectura: - ARQUITECTURA CIVIL – Existem três Pontes ditas de São Roque: a que atravessa a Ribeira de Ovar, a que une as margens do rio Coa entre as freguesias de Castelo Bom e Mido e a que liga as duas margens do rio Tâmega em Chaves; - ARQUITECTURA MILITAR – Existe Forte de São Roque em Castelo de Vide e em Lagos (Meia Praia); - ARQUITECTURA RELIGIOSA – Tendo por orago São Roque existem: Ermidas (1), Capelas (59) e Igrejas (4). Destas últimas a mais importante é, sem dúvida, a Igreja de São Roque, em Lisboa.
Arte
São Roque tem conhecido entre nós e através dos séculos, múltiplas representações iconográficas: escultura em pedra ou madeira policromada, pintura, azulejaria e gravura.
Festas em Honra de São Roque
Têm lugar em 71 locais diferentes do país, com datas de realização e componentes profanas e religiosas igualmente variáveis de local para local. Pela importância de que se revestem são de referir aqui os festejos realizados em Lisboa.
Actualmente, a Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa celebra o seu Orago no primeiro Domingo de Outubro. As Festas em Honra de São Roque compreendem dois períodos: um de natureza cultural que ocorre no sábado e outro, de natureza espiritual, que sucede no Domingo.
Os festejos de Domingo iniciam-se com a Eucaristia na Igreja de São Roque, no decurso da qual está exposta a Relíquia do Santo Patrono. Durante a Missa são entoados os cânticos e o Hino de São Roque, e lido o texto do nono e último dia da Novena de São Roque.
A Eucaristia termina com a Bênção com a Relíquia, a distribuição do Pão de São Roque “que simboliza o alimento e o amparo da comunidade humana” e a entrega da Pagela, que todos os anos é editada para esta celebração e que, de forma iconográfica, recorda a figura do Santo e os seus atributos.
Ainda no primeiro domingo de Outubro, tem lugar a Procissão solene com a Relíquia de São Roque e a imagem do Santo Patrono, a qual sai da Igreja de São Roque, caminha pelas ruas do Chiado e dirige-se à Capela da Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado, no Arsenal da Marinha. De acordo com a Irmandade promotora, trata-se de “um acto de manifestação pública de fé, de peregrinação e de testemunho, mantendo vivo o culto a São Roque e divulgando as singulares obras de caridade e de misericórdia…”
Divisão Administrativa
O nome de São Roque figura na designação de concelhos, vilas, aldeias e freguesias: - CONCELHOS (1): São Roque do Pico (Pico); - VILAS (1): São Roque do Pico (Pico). – ALDEIAS (1): Vilarinho de São Roque (Albergaria a Velha); - Freguesias (4): São Roque (Funchal), São Roque do Faial (Santana), São Roque (Oliveira de Azeméis), São Roque (Ponta Delgada).
Toponímia
O nome de São Roque marca presença na toponímia portuguesa tanto a nível urbano como a nível rural: - A NÍVEL URBANO: altos (1), arraiais (1), avenidas (3), bairros (4), calçadas (2), caminhos (5), casais (1), corredouras (1), estradas (1), ilhéus (1), largos (14), loteamentos (1), miradouros (1) pracetas (1), quelhos (1), quintas (1), rampas (2), rotundas (1), ruas (70), terreiros (1), travessas (35), urbanizações (1) e vielas (1). - A NÍVEL RURAL: lugares (18).
Hidrografia
O nome de São Roque surge no âmbito da hidrografia para designar ribeiras e canais: - RIBEIRAS (3): Ribeira de São Roque (Angra do Heroísmo, Loures e São Roque do Pico). - CANAIS (1): Canal de São Roque (Aveiro).
Heráldica
A imagem de São Roque acompanhado pelo cão integra o brasão de armas das freguesias de São Roque do Faial (Santana) e Vila Chã de São Roque (Oliveira de Azeméis). O bordão de peregrino de São Roque com uma cabaça atada faz parte do brasão da freguesia de São Roque (Funchal).

São Roque (1517-1551)]. António de Holanda. Iluminura. Pintura a têmpera e ouro
sobre pergaminho (14,2x10,8 cm). Fólio 274. Livro de Horas de D. Manuel I.
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Aparição do anjo São Roque (1584). Gaspar Dias. Pintura a óleo sobre madeira
(350x300 cm). Igreja de São Roque, Lisboa.

Milagre de São Roque (1584). Francisco de Matos. Painel de azulejos (Fragmento).
Igreja de São Roque, Lisboa.

Gravura de São Roque datada de 1800, executada por Frei Mattheus da Assumpção
Brandão (1778-1837), com Impressão Régia de 1832 em Lisboa e que ilustra a
Novena do Glorioso S. Roque por occasião da Epidemia Cholera-Morbus no anno
de 1832. Offerecida, e celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa,
sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor: O senhor D. Miguel I”.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Bonecos de Estremoz e pandemia: São Roque


Fig. 1 - São Roque (Março de 2020). Ricardo Fonseca (1986- ).

Introdução
No início de Março de 2020 alastrou em Portugal uma pandemia de COVID 19. A sua passagem ficou assinalada por marcas profundas, tanto na malha urbana como no mundo rural.
A necessidade de contenção sanitária da pandemia obrigou ao confinamento social, alterou as relações interpessoais e a vida comunitária, o que teve reflexo no estado psicológico, no comportamento social, no trabalho, no culto religioso, nas actividades lúdicas, culturais e desportivas, nos transportes, no turismo, no rendimento de cada um e na economia em geral. De futuro, nada será como dantes e nós próprios não seremos os mesmos. A tragédia colectiva que temos vivido, constituirá assim um marco de referência na História da Humanidade.
Os barristas de Estremoz têm as suas oficinas fechadas e sem escoamento de produção. Porém, continuam a modelar o barro, com esperança no amanhã que tarda, mas que crêem que há de vir.
Como coleccionador e investigador da barrística popular estremocense, surgiu-me na mente a ideia de que poderia e deveria ser modelado um Boneco que perpetuasse no barro, a pandemia que atravessamos. Pensei imediatamente na figura de São Roque, invocado pela comunidade católica, como Santo Protector contra as epidemias e que não figurava ainda na galeria das imagens devocionais produzidas pelos barristas de Estremoz.
Telefonicamente, lancei ao barrista Ricardo Fonseca o repto de modelar a figura daquele Santo, o que ele aceitou sem hesitações, como é seu timbre. Dado que eu já investigara os atributos iconográficos a que deve obedecer uma representação de São Roque, enumerei-lhe esses atributos, indiquei-lhe as dimensões pretendidas e discutimos pormenores e cores. Foi uma discussão importante, já que eu era conhecedor da humildade e da simplicidade que são apresentados como apanágio de vida do Santo, o que excluía à partida uma representação barroca do mesmo, a qual seria ostensiva, desajustada e como tal desaconselhada. 
Como fonte de inspiração documental, enviei por email ao barrista a imagem de uma gravura de São Roque datada de 1800 (Fig. 1), executada por Frei Mattheus da Assumpção Brandão (1778-1837), com Impressão Régia de 1832 em Lisboa e que ilustra a Novena do Glorioso S. Roque por occasião da Epidemia Cholera-Morbus no anno de 1832. Offerecida, e celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor: O senhor D. Miguel I.”
Como é habitual no Ricardo, levou o seu tempo para satisfazer a encomenda. Lá diz o rifão: “Sem tempo nada se faz”. O resultado está à vista (Fig. 2). É caso para dizer: Missão cumprida!
Biografia
Roque terá nascido cerca de 1350 na cidade francesa de Montpellier. De acordo com a lenda, a pele do peito ostentava um sinal cruciforme avermelhado que era presságio de que viria a ser Santo.
Originário de uma família nobre, o seu pai, Jean Roch de la Croix era senhor de vastos domínios e desempenhava funções governativas na cidade. Sua mãe, Libéria, era natural da Lombardia.
Baptizado no santuário de Notre Dame des Tables, a sua infância decorreu num ambiente profundamente cristão.
Órfão de pai e mãe muito jovem, a sua educação foi confiada a um tio. Provavelmente terá estudado com padres dominicanos antes de cursar medicina na universidade local, ainda que não concluísse os estudos.
Desde muito cedo levou uma vida ascética e praticou a caridade. Ao atingir a maioridade por volta dos 20 anos, repartiu os seus bens entre os pobres e confiou uma pequena parte ao tio. Ter-se-á juntado à Ordem Terceira de São Francisco, envergado o traje de peregrino e partido em direcção a Roma.
Provavelmente terá tomado a rota francesa em direcção a Roma e ao chegar à comuna de Acquapendente, próxima de Viterbo, encontrou-a minada pela peste. Ofereceu-se de imediato como voluntário na assistência aos doentes, pondo em prática a formação médica que recebera. Usando o bisturi associado ao sinal da cruz, terá operado curas milagrosas. Por lá terá permanecido três meses, visitando depois Cesena, Mântua, Modena, Parma e muitas outras cidades e aldeias, nas quais ajudou e curou os doentes.
Terá permanecido vários anos em Roma, onde terá rezado diariamente sobre o túmulo de São Pedro e curado vítimas da peste no Hospital do Espírito Santo, o que levou o Papa Urbano V a conceder-lhe a indulgência plenária.
No regresso a Montpellier e quando prosseguia a sua obra de assistência em Piacenza, foi ele próprio atingido pela praga. Para não contagiar ninguém, isolou-se numa floresta próxima, onde de acordo com a lenda, teria morrido de fome se um cão não lhe trouxesse diariamente um pão retirado da mesa do dono e se da terra não tivesse brotado uma fonte de água para saciar a sede.
Miraculosamente curado, regressou a Montpellier que na época se encontrava em guerra. Tomado por espião, foi detido e levado para a prisão, onde passou 5 anos até morrer a 16 de Agosto de 1379, ainda jovem, abandonado e esquecido por todos. De acordo com a lenda, só revelou a sua identidade a um padre, um dia antes da sua morte.
O primeiro milagre póstumo que lhe é outorgado foi a cura do seu carcereiro, o qual coxeava e cuja perna foi milagrosamente curada ao tocar com ela no corpo de Roque, para averiguar se estaria realmente morto.
Só após a morte foi reconhecido pela cruz marcada no peito e piedosamente sepultado por um tio, embora os seus restos mortais tenham sido transladados para Veneza em 1483. Devido à fama dos inúmeros milagres que operara durante a sua permanência em Itália, as suas relíquias foram distribuídas pelas cidades de Antuérpia, Arles e Lisboa.
Canonização de São Roque
Entre 1414 e 1418 decorreu em Constança, o 16.º Concílio Ecuménico da Igreja Católica, que tinha como principal objectivo acabar com o cisma papel, já que havia três papas rivais, clamando legitimidade (Bento XIII, João XXIII e Gregório XII). A peste ameaçava então a Europa, pelo que os bispos conciliares autorizaram preces e orações populares em honra de São Roque. Consta-se que terão sido atendidos e o contágio pelo flagelo cessou. São Roque passou a ser objecto de intensa devoção popular que conduziu à sua canonização, sem ocorrer decisão eclesiástica nesse sentido.
Festa litúrgica
Os católicos crêem que todos aqueles que recorrem com fervor à intercessão de São Roque, são atendidos nas suas súplicas, daí que seja considerado um Santo Protector contra as epidemias. A sua memória litúrgica é celebrada a 16 de Agosto, dia da sua morte. Os ofícios eclesiásticos a serem recitados nesse dia, foram aprovados pelo papa Urbano VIII.
Expansão do culto de São Roque
O culto de São Roque inicia-se em Itália e dali estende-se à França e conquista a Europa através da Bélgica e dos Países Baixos. Atravessa o Oceano Atlântico e alcança as colónias portuguesas e espanholas na América do Sul, prolonga-se a África e propala-se aos EUA e ao Canadá.
O seu nome passa a integrar a divisão administrativa, a toponímia, a orografia, a hidrografia e a heráldica. É dado o seu nome a igrejas, capelas, ermidas e nichos. A sua memória é perpetuada em esculturas de pedra, madeira e outros materiais, pinturas, painéis de azulejos e vitrais. Através dos séculos é referido ou é objecto de inúmeras obras literárias. No romance “A peste” (1947), Albert Camus conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade no meio da peste que assolava a cidade de Oran na Argélia. Aí, as autoridades eclesiásticas decidiram lutar contra a epidemia, organizando uma semana de preces colectivas a terminar num domingo com uma missa solene, sob a invocação de São Roque.
O culto de São Roque está ligado às suas virtudes miraculosas e exalta o Santo como figura carismática que transmite na actualidade uma mensagem universal de generosidade e de paz. O seu culto tem assim uma dimensão internacional e intercontinental.
Atributos iconográficos
Habitualmente é representado como jovem, envergando o traje característico dos peregrinos de Santiago, constituído por uma túnica e capa, ambas de cor castanhas. Na aba da capa ostenta uma ou mais vieiras. Usa um chapéu de abas largas. É portador de um bordão, do qual pende uma cabaça. Uma das pernas está desnudada para serem visíveis os ferimentos da peste. É acompanhado por um cão, muitas vezes com um pão na boca.
Simbolismo dos atributos
Para a comunidade católica, os atributos iconográficos de São Roque encerram em si um profundo simbolismo: - O TRAJE CASTANHO – É a cor da terra e simboliza a humildade, a simplicidade e a pobreza de São Roque, ao optar por distribuir os seus bens aos pobres e tornar-se peregrino e missionário. - O BORDÃO – Serve de apoio e dá segurança nas caminhadas. São Roque foi peregrino e missionário, pelo que é portador de um bordão que simboliza ainda a palavra e a presença de Deus, nas quais se apoiava. - A CABAÇA – Serve para transportar água numa caminhada e evoca a fonte e a água que São Roque bebeu até ficar curado. Simboliza também o dom de cura concedido pelo Espírito Santo que agia através de São Roque. - A FERIDA NA PERNA – Simboliza o sofrimento de São Roque no decurso da sua doença. Simboliza igualmente a doença, a dor e o sofrimento humano. - O CÃO AO LADO DE SÃO ROQUE - Lembra o cão usado por Deus para socorrer São Roque no decurso da doença. Expressa ainda a providência divina que pelos mais diferentes meios, concede o que é preciso. É igualmente um incentivo para que se confie na providência divina, que não abandona ninguém e está atenta às suas necessidades.

Estremoz, Março de 2020
(Jornal E nº 246, de 14-05-2020)

Fig. 2 - Gravura de São Roque datada de 1800, executada por Frei Mattheus da
Assumpção Brandão (1778-1837), com Impressão Régia de 1832 em Lisboa e que
ilustra a Novena do Glorioso S. Roque por occasião da Epidemia Cholera-Morbus
no anno de 1832. Offerecida, e celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa
sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor: O senhor D. Miguel I.” Imagem
recolhida com a devida vénia na Irmandade da Misericórdia e de São Roque, de Lisboa.