[1] - CHAMPEAUX, Gérard de; STERCK, Sébastien. Introduction au monde des symboles. Zodiaque. Paris, 1966.
[2] - CHEVALIER; Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 6ª ed. José Olímpio. Rio de Janeiro, 1992.
ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos
Após a aposentação dedicou-se aquilo a
que chamava “pintura judaica” e que lhe foi sugerida pelo seu marido, o
professor Aníbal Falcato Alves, intelectual polifacetado, que dedicou parte da
sua vida à recolha de tradições da região Alentejo, entre elas as artes
populares. Foi ele que recolheu um exemplar daquilo que é designado por “pintura
judaica”, uma tipologia de arte popular alentejana cuja origem se perde na
lonjura dos tempos. Depois de estudar o modo como o mesmo tinha sido executado,
sugeriu a Natália o procedimento a seguir, visando recuperar e preservar a
antiga tradição. Natália correspondeu ao desafio e recuperou a arte
tradicional. Trata-se de uma pintura em vidro, na qual primitivamente, o vidro
era pintado com betume judaico, sobre o qual era desenhado minuciosamente a
lápis de carvão, o contorno do motivo decorativo. O interior desse contorno era
seguidamente raspado, sobrepondo-se então papel de prata às zonas raspadas, as
quais conferiam ao conjunto um aspecto de requintada peça de ourivesaria. Mais
tarde, substituiu o uso do papel de prata pela pintura das zonas raspadas com
tintas de outras cores. De resto, numa natural evolução, também a pintura com
betume judaico viria a ser substituída pela pintura com spray.
A recolha etnográfica do marido fora o
ponto de partida para a descoberta e para tudo o que se lhe seguiu, pois a
Natália, criadora nata, revolucionou este tipo de trabalho artístico,
catapultando-o à dimensão daquilo que sem ela não seria sequer imaginável.
Num texto de 1965, intitulado “VIDRO
RENDILHADO”, o escritor neo-realista e médico Fernando Namora, referindo-se ao
trabalho de Natália, disse com precisão cirúrgica: “Nestas mãos pacientes,
que rendilham a superfície fosca e árida do vidro como se de bordados de oiro
ou prata se tratasse, reaviva-se uma tradição artesanal e espelha-se o Alentejo
onde o tempo modera o seu frenesi, contido pela charneca lânguida, espreguiçada,
que dissolve a alucinação das vidas e empresta aos gestos um labor alentejano
saboreado. O tempo, pois, não conta para estas mãos minuciosas, mãos
alentejanas, que corrigem a placidez dos dias com uma arte de imaginação
opulenta, recreada em filigranas e arabescos, a destoar, como um protesto da
severidade do ambiente.”
Natália Simões participou nas feiras de
artesanato de Estremoz desde 1983 e realizou exposições em Estremoz, Monforte,
Pavia e Festa do Avante.
Irmãs,
naturais de Pavia. Joana Simões foi durante largos anos professora do ensino
técnico em Estremoz, no qual leccionou lavores femininos. Por sua vez, Joaquina
Simões fez carreira como professora do ensino primário em Pavia, onde cultivou
sempre o gosto pelas artes tradicionais da região.
Após
a aposentação dedicaram-se à arte do papel recortado, procurando recuperar a
fase erudita do mesmo. Só então o fizeram por entenderem que é uma arte que
exige disponibilidade de tempo e tranquilidade de espírito.
Vejamos
qual o procedimento seguido no recorte do papel. Cada irmã desenhava o seu
próprio trabalho numa folha de papel à parte, donde depois era copiado tantas
vezes quantos as necessárias para uma folha de papel branco de tipografia.
Seguia-se o recorte do papel, tarefa que era repartida entre as duas irmãs,
pelo que cada trabalho constitui uma criação a duas mãos. Joana começava por
recortar o papel, mas quem apurava os recortes era Joaquina que tinha uma vista
mais apurada e uma mão mais firme. Havia seguidamente a necessidade de passar
cada trabalho a ferro quente para alisar o papel. Para finalizar cada trabalho
de papel recortado era assente num fundo escuro e emoldurado com vidro.
Para
recortar o papel, as irmãs Simões utilizavam 12 tesouras muito bem afiadas,
umas de bico recurvado, outras para cortar a direito, sobressaindo no conjunto
três muito especiais, vindas da China. Em 1987, o poeta António Simões, num
texto admirável a que deu o título de “JOANA E JOAQUINA SIMÕES E AS TESOURAS DE
VENTO” interroga-se: “Como é possível
recortar-se papel desta maneira?” perguntam-se todos os que contemplam os seus
trabalhos, perplexos perante uma maestria na fronteira do inacreditável.”
As
irmãs Simões começaram por fazer trabalhos que configuravam naperons de renda,
só que esta era de papel. Ao recortarem papel com uma simples tesoura, a
superfície deste animava-se como se agulhas e linhas a estivessem bordando.
Estes trabalhos apresentavam simetria radial. Depois aparecem outros com
simetria axial e mais tarde outros completamente assimétricos.
A
geometria dos trabalhos é em geral circular, quadrangular ou rectangular, tanto
horizontal como vertical.
A
decoração inclui motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e
antropomórficos, combinados de diferentes modos.
Nos
seus trabalhos figuram pássaros a voar e outros pousados, em especial pavões.
Surgem também flores, entre elas cravos e amores perfeitos, vasos de flores e
campos de flores, letras capitulares de iluminura, desenhos de perfil
filigranado e labirintos em papel rendilhado.
A
dado momento passam a subscrever a autoria do trabalho de papel recortado,
apondo por baixo a assinatura “Simões”, também ela em papel recortado.
Participaram
nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizaram exposições em
Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.

Trata-se de uma ovelha que
supostamente se viu afastada das suas congéneres e do respectivo pastor na cena
presepial, com a qual alguém desconhecido, ciclicamente reconstituiu e comemorou
a Natividade. Daí a epígrafe escolhida para o presente texto: Ovelha
tresmalhada, tema central da Parábola Bíblica da Ovelha Perdida, referida
em dois Evangelhos sinópticos do Novo Testamento (Mateus 18:10–14 e Lucas
15:1–79), bem como no Evangelho apócrifo de Tomé (Tomé 107).
Como coleccionador, bem gostaria
de ser capaz de à ovelha tresmalhada que neste momento integra a minha colecção
particular, juntar o resto do primitivo rebanho, assim como o pastor que em
terreno presepial, simbolicamente assegurava o pastoreio. Tal não é possível.
BIBLIOGRAFIA
MUSEU DE LAMAS. Santo António de Lisboa – A Peça do mês. [Em linha]. Disponível em: https://museudelamas.blogspot.com/2011/06/santo-antonio-de-lisboa-peca-do-mes.html [Consultado em 10 de Setembro de 2026].
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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Cortesia do Arquivo Fotográfico da CME
(Roberto Carreiras) e Luís Dias (peças).
Natural
da Veiros (Estremoz), onde nasceu na Quinta do Leão. Aqui começou como vaqueiro
e ali trabalhou toda a vida até se reformar.
Iniciou-se
na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os
materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o
buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o
baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto
ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto,
era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas
profissões, história, religião, touradas, etc.
Participou
nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983.
Hernâni Matos
Adquiri recentemente uma peça
olárica em barro vermelho de Estremoz, inteiramente polida, de 44 cm de altura,
sem marca de autor, pertencente à classe das peças moldadas de feição
modernista, vulgarmente designada por Picassos.
Trata-se de uma jarra invulgar, constituída
por uma figura extremamente bela e elegante, assente numa base hexagonal.
A imagem configura ser a
representação de um ser híbrido triplo, com cabeça e torso humano, as asas de uma ave e
uma cauda de peixe. Não sei nem quero especular sobre a real intenção que na
mente do oleiro presidiu à concepção desta figura. Apenas posso passar em revista
marcos históricos que de algum modo têm a ver com a representação de seres. híbridos.
Na História da Arte, a representação
de figuras híbridas é uma das marcas mais fortes do Surrealismo, o qual revolucionou
a arte através da libertação do inconsciente, dos sonhos e da imaginação,
rejeitando o controlo da razão, da lógica e das convenções sociais ou morais.
Tais criaturas híbridas desafiam a lógica da realidade e combinam elementos
que, no mundo real, nunca existiriam juntos.
Na Idade Média, os Bestiários,
os Saltérios e os Livros de Horas também continham
ilustrações com seres híbridos, as quais misturavam o ar, a terra e o mar para
chocar o leitor. De acordo com o Genesis, Deus tinha separado o céu, a
terra e as águas, mas o Diabo tentava baralhar e fundir essas fronteiras. Ver
este híbrido triplo naqueles livros lembrava ao leitor o caos que o aguardava
no Inferno.
Figuras de assobio
Os assobios (figuras de
assobio) são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito
próprias, que os tornaram simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Tradicionalmente
eram agrupados em três grandes categorias: zoomórficos, antropomórficos e
compostos.
Os assobios confeccionados por
cada barrista, independentemente das marcas identitárias própria de cada um,
resumiam-se a cerca de 15 exemplares, naturalmente que com variantes e incluíam
apenas aves, cestos de ovos, sargentos, peraltas e senhoras de pezinhos,
montados a cavalo ou apeados. Houve quem achasse isto monótono e talvez tenha
pensado no soneto de Camões que proclama que: “Mudam-se os tempos, mudam-se
as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de
mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Vá daí que, sem fugirem à
técnica de produção e à estética do Boneco de Estremoz, tenham criado novos
exemplares nos quais a decoração das figuras de assobios é de tipo novo: Imagens
devocionais (Ana Catarina Grilo), Peças de Olaria Enfeitada
(Inocência Lopes) e Instrumentos Musicais Populares (Carlos Alberto
Alves). Tratou-se de uma inovação temática, a qual pessoalmente destaco e
valorizo.
À semelhança do que se passa
com o núcleo central do Figurado de Estremoz, também as figuras de assobio podem
de igual modo e muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz
liliputianos. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.
Figuras de Presépio de maquineta
Uma maquineta de Presépio é um
armário ou caixa de tamanho variável, a qual guarda e protege figuras de Presépio,
tanto da poeira como do manuseio.
As maquinetas de Presépio têm
origem conventual, uma vez que o conceito, a técnica de fabrico e a estética
destas peças, nasceu e desenvolveu-se nos conventos femininos portugueses no
decurso dos séculos XVII e XVIII.
São conhecidas maquinetas de
diferentes épocas, tipologias e materiais.
Podem assumir a forma de armário
em madeira entalhada, pintada ou dourada, com uma frente e até mesmo as partes
laterais envidraçadas, permitindo a visualização do interior. O armário aloja
uma cenografia relativa à Natividade, com figuras de Presépio, que no caso que
nos interessa, são minúsculos Bonecos de Estremoz.
Podem ainda adoptar a forma de
caixa de vidro com geometria variável assente numa base de madeira com pés, em
cujo interior uma cenografia alusiva à Natividade enquadra figuras de Presépio,
os quais podem ser minúsculos Bonecos de Estremoz.
As maquinetas de Presépio são
simultaneamente objectos de devoção doméstica e peças decorativas de prestígio
e mesmo objectos de luxo, comuns em antigas casas senhoriais ou em lares
burgueses.
O facto de as figuras de Presépio
de Estremoz que integram maquinetas terem dimensões minúsculas, levam-me a classifica-las
como Bonecos de Estremoz liliputianos.
Uma garrafa vale por si, não só
pela elegância da sua morfologia, como pela beleza da sua decoração ou pela
harmonia do seu cromatismo. Todavia e para além disso, uma garrafa vale
igualmente pelo líquido que encerra em si. Tanto pode ser um vinho solarengo e
telúrico, como uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho ou um licor
aveludado e envolvente.
A conservação do tempo e da alma
do conteúdo de uma garrafa exige que esta seja selada com a nobreza da cortiça
alentejana, o que é concretizado através de uma rolha.
Alguns barristas de Estremoz têm
criado enfeites de rolha com cabeças de figuras que integram o
Figurado de Estremoz e reflectem a identidade cultural alentejana.
Os enfeites de rolha que ilustram
o presente texto, foram criados pela barrista Maria Luísa da Conceição
(1934-2015) e têm cerca de 5 cm de altura, pelo que podem ser considerados
Bonecos de Estremoz liliputeanos. São eles: Bailadeira, Camponês e Preta. Remontam
todos a 2015 e pertencem à colecção particular de seu filho, Mestre Jorge da
Conceição.