Mostrar mensagens com a etiqueta Personalidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Personalidades. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de agosto de 2020

Peraltas e sua cores


Fig. 1 - Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Desfile de Peraltas
Do estudo dos Peraltas efectuado até à presente data, foi-me possível concluir que são figuras cuja decoração recorre geralmente à quadricromia ou à tricromia.
As orlas do fato e os virados do casaco são sempre de cores contrastantes (Fig. 2 a Fig. 4) ou de tons contrastantes (Fig. 1) com a cor ou o tom do casaco. Geralmente, quando uma é uma cor quente, a outra é uma cor fria (Fig. 2 e Fig. 3).
Todavia nem sempre é assim. Mariano da Conceição (Fig. 1), utilizou como contrastantes duas tonalidades muito diferentes de castanho, que é uma cor neutra.
Luísa Batalha (Fig. 4), utilizou e muito bem como cores contrastantes, o azul de petróleo e o violeta, que são ambas cores frias. Por sua vez, Ana Catarina Grilo (Fig. 5) utilizou igualmente muito bem como cores contrastantes, o castanho que é uma cor neutra e o zarcão que é uma cor quente.
Não me admira que qualquer dia possa haver barristas que utilizem como cores contrastantes, uma cor neutra e uma cor fria ou então duas cores quentes. Terão tanta legitimidade nas suas opções, como outros tiveram nas suas.
Liberdade de cores
Actualmente os barristas têm à sua disposição uma paleta cromática mais ampla que aquela que existia no terceiro quartel do séc. XX e que estava condicionada aos pigmentos disponíveis nas drogarias de Estremoz.
No século XXI surgiram barristas que não trilharam os caminhos habituais de aprendizagem: contexto oficinal e contexto familiar, que condicionam sempre a concepção, a modelação e a decoração. À semelhança do que já se passara com outros, como foi o caso de Sabina da Conceição (1921-2005) e de Mário Lagartinho (1935-2016) que aprenderam por auto-formação, o mesmo se veio a verificar com outros como: João Fortio (1951- ), Rui Barradas (1953- ), Carlos Alves (1958- )  e Jorge Carrapiço (1968- ). Por outro lado, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte em Estremoz, teve lugar em 2019 um Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, orientado tecnicamente pelo barrista Jorge da Conceição. Aqui os formandos aprenderam e aplicaram os fundamentos da modelação e da decoração para virem a aplicar na sua actividade como barristas, sem a preocupação da obrigatoriedade de ter que seguir os traços identitários do formador ou de qualquer outro barrista, nomeadamente no que respeita a cores. Pelo contrário, ficaram com a consciência de que deviam procurar duma forma incessante o seu próprio caminho e a sua própria matriz identitária.
O Padre-Nosso não é para aqui chamado
A Barrística de Estremoz quer-se viva, pelo que deve reflectir os anseios e a sensibilidade dos seus criadores, para além dos contextos de produção ou inerentes ao tema abordado.
A Barrística de Estremoz não se pode limitar a ser uma linha de montagem e de reprodução dos modelos criados pelos mestres e pelas mestras. Se o fosse estaria embalsamada no tempo e seria merecedora de um funeral condigno.
É preciso perceber de vez que a Barrística Popular de Estremoz não é como o Padre-Nosso que só pode ser dito de uma maneira.
Hernâni Matos

Fig. 2 - Sabina da Conceição (1921-2005). Imagem recolhida "on line".

Fig. 3 - Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção do autor.

Fig. 4 - Luísa Batalha (1959 - ). Colecção do autor.

Fig. 5 - Ana Catarina Grilo (1974 -  ). Colecção do autor.

domingo, 16 de agosto de 2020

A Senhora de pezinhos de Ana Catarina Grilo


Senhora de pezinhos (2020). Ana Catarina Grilo (1974-  ). Colecção do autor.

Antelóquio
A modelação e decoração da Senhora de pezinhos tem conhecido inúmeras modificações no decurso dos tempos. Nos finais do século XIX, a figura é representada sem brincos e os componentes do vestuário são pintados. Todavia, Ana das Peles (1869-1945) já adorna a imagem com brincos e modela pela primeira vez a gola do vestido. Segue-se Mariano da Conceição (1903-1959) que mantém aquelas inovações e para além disso modela o botão de fecho da gola. Sabina da Conceição (1921-2005) passa a modelar também o cinto do vestido. Liberdade da Conceição (1913-1990) mantém as inovações introduzidas anteriormente, às quais adiciona a modelação de folhos e punhos das mangas dos vestidos. Por sua vez, as Irmãs Flores (1957, 1958 - ) passam também a modelar os botões das suas figuras, introduzem o padrão no vestuário, aperfeiçoam a representação do penteado e aumentam pormenores na decoração, recorrendo a uma riqueza cromática nunca dantes utilizada. Do exposto se infere que a inovação na modelação e na decoração é um caminho que nunca terá fim.
A figura em si
Ana Catarina Grilo apostou fortemente na modelação do presente exemplar de Senhora de pezinhos. Deste modo, conferiu volumetria a todos os componentes do vestido: gola, punhos, orlas, folhos, botões e laço.
O vestido de cor Bordeaux tem punhos, orlas superiores das mangas, superiores e inferior do vestido, em azul-marinho, que é também a cor do chapéu. A gola, os botões, o folho, o laço do vestido e as luvas são de cor cinza.
Uma extensa, sinuosa e requintada gola cobre os ombros do artefacto. A abotoadura do vestido é nas costas e ao fundo dela, ao nível da cintura, o vestido está ornamentado com um vistoso laço com duas pontas suspensas.   
O gracioso chapéu que cobre a cabeça está ornamentado por uma pluma, folhas, flores silvestres e um pássaro que configura ser um rouxinol. O chapéu deixa a descoberto um vistoso penteado de cabelo castanho. Dois pendentes de ouro, um de cada lado do rosto, potenciam a beleza do mesmo.
O peito do vestido encontra-se embelezado por uma flor que configura ser uma gerbera violeta.
Ao fundo do vestido e à frente, é visível um par de sapatos pretos de bico.
Simbolismos implícitos
Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Bordeaux, cor quente dominante na figuração, que confere um ar clássico e de requinte, transmitindo ideias de nobreza e riqueza; - Cinza, que como cor neutra está associada à estabilidade, à compostura e à sobriedade, conferindo elegância e sofisticação; - azul-marinho, cor fria que induz relaxamento e calma, associada a valores como a serenidade, a estabilidade e a harmonia.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DAS LUVAS, que como vestuário das mãos, fornecem protecção e isolamento do exterior, evitando em termos higiénicos o contacto com algo impuro. Para além de toque de elegância, as luvas traduzem a ânsia de pureza por parte da sua portadora.
Em terceiro lugar, o SIMBOLISMO DO ROUXINOL, conhecido pela perfeição do seu canto e que tem um simbolismo vinculado à obra shakespeariana Romeu e Julieta. É um símbolo do amor e dos sentimentos.
Em quarto lugar, o SIMBOLISMO DA GERBERA, que na linguagem das flores traduz pureza, sensibilidade, amor e alegria.
Remate
Ana Catarina Grilo interpretou a clássica Senhora de pezinhos com uma estética muito pessoal. Modelou um exemplar muito elaborado e decorou-o com um cromatismo de forte significação simbólica. A imagem possui um rosto bem projectado, com olhos, nariz, boca e queixo bem definidos, o mesmo acontecendo com o cabelo e com as maçãs do rosto de ténue tonalidade rosa. A representação do olhar é única. Tudo isto configura serem marcas identitárias da barrista, que consolida passo a passo, a caminhada que encetou. 
Nesta sua recriação da Senhora de pezinhos, Ana Catarina Grilo, introduziu duas inovações: o uso de luvas pelo modelo e a decoração fito-zoomórfica do chapéu. O grau de elaboração da modelação foi elevado, o cromatismo do conjunto foi harmonioso e o simbolismo das cores não foi contraditório. Em suma, Ana Catarina Grilo prendou-nos com uma Senhora de pezinhos bela e elegante, vestindo com requinte e harmonia e cuja imagem transmite uma ideia de pureza e sensibilidade. Trata-se de algo diferente de tudo o que vi até agora, pelo que a barrista está de parabéns.

Hernâni Matos

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O Peralta de Luísa Batalha


Peralta (2020). Luísa Batalha (1959-  ). Colecção do autor.

Trata-se de uma figura antropomórfica masculina de aspecto citadino trajando um fato e um chapéu vistosos e calçando um par de sapatos com sola. A imagem assenta numa base quadrangular com os vértices cortados em bisel, tem topo verde-escuro e orla cor de zarcão.
Ao modelar o Boneco em epígrafe, Luísa Batalha decidiu conceder volumetria a alguns componentes da sua composição. Deste modo, a gola do casaco, os botões do mesmo, o lenço em torno do pescoço, a camisa, a fita do chapéu e o cabelo ondulado foram modelados em barro. Despertam a atenção os vincos das mangas na região dos cotovelos, os quais reforçam a noção de curvatura.
O chapéu tem aba circular voltada para cima e copa de formato cilíndrico, cortada a meio.
A camisa tem colarinho algo revirado para cima e punhos que se destacam das mangas do casaco. Junto ao pescoço um lenço cujas pontas se cruzam junto ao peito.
O fato, os botões do casaco e a fita do chapéu são cor violeta. A gola, a orla do casaco, assim como o chapéu, são cor azul de petróleo (azul-verde). A camisa é branca. O lenço é vermelho e os sapatos são negros. O cabelo é castanho.
Análise
A representação apresenta um rosto bem gizado, com olhos, nariz, boca, queixo e orelhas bem definidas, o mesmo se passando com o cabelo, a que há que acrescentar maçãs do rosto de ténue tonalidade rosa e uma representação do olhar inconfundível. Tudo isto parece ser marcas identitárias da barrista. Para além disso, o modelo tem um perfil e um aspecto elegante, com mãos bem definidas, que fazem lembrar mãos reais, mãos de pessoas de carne e osso. E essas parecem-me ser outras das marcas distintivas da barrista.
A cor dominante no artefacto é a cor violeta, que historicamente está muito associada ao poder e à nobreza. Nunca é encarada como estando ligada à humildade. Usada no vestuário chama a atenção e é vista como um sinal de extravagância. É considerada a cor da vaidade ou seja do sentimento de grande valorização que alguém tem em relação a si próprio.  A vaidade está associada à soberba, crença de alguém ser superior a todos, o que de acordo com o Cristianismo constitui um dos sete pecados capitais. Tendo em conta o conceito de “Peralta” creio que a cor violeta foi a melhor cor escolhida para o vestuário, visando transmitir a ideia de extravagância associada à figuração.
A excelência do trabalho da barrista é merecedor de toda a minha admiração e por isso lhe dou os meus sinceros parabéns. Formulo ainda votos de que continue a trilhar com êxito a senda recentemente iniciada.


Luísa Batalha pintando o Peralta.

sábado, 8 de agosto de 2020

Isto aqui é o da Joana!


Joana Oliveira (1978- ) a modelar uma Primavera de arco.

Joana:
A força do seus bonecos resulta de procurar ser sempre igual a si própria, na inquietude louvavelmente permanente do seu espírito, que a leva e muito bem a procurar novos caminhos, sem ceder a práticas de modelação e decoração codificadas, que são património de outra época e que uma certa nomenklatura defende e exige para que uma figura possa ser considerada um Boneco de Estremoz.
Dentre os barristas que a precederam, alguns foram capazes de se libertar de uma certa "praxis corporativa", outros não.
Os primeiros libertaram-se e libertaram a Arte Popular de uma condenação à morte por fossilização, ao recusarem-se a produzir figuras que replicassem com maior ou menor fidelidade, o que fizeram os barristas de há 200 ou 300 anos atrás, noutro contexto sociológico.
Os segundos continuaram a produzir à maneira antiga, como se integrassem uma linha de produção que não pode parar e na qual são peças duma engrenagem que há quem defenda que se deve limitar a reproduzir a estética e os modelos que povoam as vitrinas de alguns museus. A meu ver, nada de mais errado.
A Arte e em particular a Arte Popular não são estáticas, reflectem sempre uma época com os seus problemas e os seus anseios. As identidades culturais não pararam no tempo, foram-se modificando e recriaram-se, criando novos paradigmas que persistirão até que as dinâmicas sociais e artísticas gerem novos paradigmas. Haverá sempre Homens e Mulheres cuja inquietude pesa na gestação de novos paradigmas.
Parabéns Joana, por ser uma dessas Mulheres!
Parabéns Joana, por nos deixar felizes com as suas criações! 
Parabéns Joana pelos desafios que lança a si própria e a nós próprios.
Obrigado por nos mostrar que a barrística popular está viva e tem pernas para andar. São novas e importantes passadas a caminho do Futuro.
O Futuro já começou!



Joana Oliveira afina pormenores de uma Primavera de arco.

Com a Guarda de Honra de duas Primaveras de Arco, Joana Oliveira modela
uma Nossa Senhora da Conceição.

Primavera de arco (2020). Joana Oliveira (1978-  ). Colecção do autor.

Passeio de Santo António com o Menino Jesus (2020). Joana Oliveira (1978- ).
Colecção de Alexandre Correia.

Sermão de Santo António aos peixes (2020). Joana Oliveira (1978- ).
Colecção de Alexandre Correia.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Bonecos de Estremoz: Ricardo Fonseca (2.ª parte)


Presépio do tipo do séc. XVIII

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que foram publicadas sucessivamente.
Esta é a 2.ª parte.

CRÉDITOS
Fotografias de Luís Mendeiros
Cortesia de Ricardo Fonseca

Aconselho vivamente a leitura da biografia deste barrista, estabelecida na 1º parte.

Presépio da capela alentejana

Nossa Senhora da Conceição

Santo António

São João Baptista em criança

 São Francisco de Assis com Presépio

São Miguel

Santa Bárbara

Rainha Santa Isabel

Pastor

Ceifeira

 Aguadeira da ceifa

Pastor do harmónio

Aguadeiro da cidade

Mulher a fazer um bolo

Tapeteira de Arraiolos

Quarto alentejano

Cozinha alentejana

Cavaleiro tauromáquico em pé

Amor é cego

Amor é cego

Bailadeira pequena

Bailadeira grande

 
Primavera de arco

Xéxé

Folião de Carnaval

Barbeiro sangrador

Rei negro

Rei negro

Hernâni Matos

domingo, 2 de agosto de 2020

Ana das Peles e Sá Lemos


Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves, em Estremoz. Carlos Alves (1958- ).
Colecção do autor.





A mais recente criação do barrista Carlos Alves intitula-se “Ana das Peles e Sá Lemos”. A obra agora divulgada visa perpetuar no barro a Memória do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971) que nos anos 30 do séc. XX, atribuiu a si próprio a missão de recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz. Visa igualmente perpetuar a Memória de Ana das Peles (1869-1945), velha bonequeira que foi o instrumento primordial dessa recuperação.
Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa ocorrida em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português, promovida em Lisboa.
Os Bonecos de Ana das Peles, foram nestas exposições, um ex-líbris de excelência da cidade de Estremoz. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram, simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de grande qualidade. Os Bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente grande notoriedade pública.
A 19 de Fevereiro de 2020 completaram-se 75 anos sobre a morte de Ana das Peles. A velha barrista partiu, mas os seus bonecos ficaram como imagem de marca da nossa identidade cultural local e transtagana, testemunho e herança de uma época. Os seus gestos de modeladora de sonhos, continuam a ser repetidos, ainda que recriados pelos barristas de hoje. Por isso Ana das Peles é imortal e os Bonecos de Estremoz serão eternos.
Ana das Peles é uma figura que pela sua acção desempenhou um papel de relevo na construção da Memória de Estremoz, pelo que não pode ser olvidada nas páginas da História local.  Daí que o barrista Carlos Alves tenha modelado o conjunto em epígrafe, inspirando-se numa bem conhecida fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988), datada de 1935 e que representa ”Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola Industrial António Augusto Gonçalves”.
Parabéns Carlos por mais este trabalho, que além de homenagear Sá Lemos e Ana das Peles, vem enriquecer e de que maneira, a já vasta Galeria dos Bonecos da Inovação.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Acerca de Senhoras de pezinhos


Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves.

Dedicatória
O presente texto é dedicado a todos os barristas que frequentaram o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que em 2019 teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Tem por finalidade dar-lhes uma visão polifacetada duma figura que modelaram durante o Curso.
A sua publicação foi antecedida duma consulta ao barrista Jorge Conceição, Professor do Curso, visando a emissão de um parecer sobre o mesmo, não se desse o caso de inadvertidamente estar a defender pontos de vista contrários ao que foram ensinados no Curso.
O Professor Jorge Conceição emitiu um parecer, no qual após várias considerações, termina dizendo: Em resumo, acho o seu texto muito completo e uma mais-valia para todos os barristas terem como referência, quer os novos quer os antigos e não vai em nada contra o que ensinámos no curso. Acho igualmente que mesmo que alguma das características que refere não tenha sido aplicada em peças antigas, tudo o que descreve é parte dessa época e poderá perfeitamente ser usado na recriação de peças que se façam agora. 
Uma figura da tradição
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
É possível recuperar a figura da Senhora de pezinhos, reinterpretando-a através dos seus componentes, o que é possível concretizar de inúmeras maneiras.
Forma do vestido
A forma tronco-cónica da parte inferior do vestido, poderá ter maior ou menor inclinação em relação à horizontal. Em alternativa, poderá ser armada em forma de balão.
Fecho do vestido
O vestido poderá ser fechado à frente e abrir atrás, apresentando aqui uma abotoadura vertical.
Poderá igualmente abrir à frente e apresentar aqui a abotoadura vertical.
O vestido pode ser fechado até acima e poderá ter ou não gola ou coloarinho, os quais apresentarão abotoadura.
Poderá alternativamente apresentar decote de tamanho variável e de forma variável (circular ou quadrada).
Os ombros poderão ou não estar a descoberto.
Manga
O vestido poderá ter manga comprida com punhos, com ou sem abotoadura. Poderá ter manga curta, a qual poderá ser em balão. Poderá não ter manga por ter alças ou ser um cai cai.
Superfície do vestido
A superfície do vestido poderá ser lisa, plissada, apresentar folhos ou pode ser decorada com aquilo que configure renda ou aplicações em feltro.
Cor do vestido
Depois há a questão da cor do vestido, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
As cores são sempre muito importantes. O simbolismo das cores e dos elementos usados no padrão da roupa, são de ter em conta. As cores devem ligar umas com as outras e ser contrastantes para diferenciar os diferentes componentes da figura. A partir delas pode-se caracterizar a figura e dar-lhe alma. Só vida é que não.
Cintura
A cintura do vestido pode ser na posição normal ou situar-se logo abaixo do busto (Período Império: 1804-1813). Com a cintura na posição normal é possível cingir a cintura com uma fita atada atrás em forma de laço. A cintura pode igualmente ser cingida por um cinto com uma vistosa abotoadura ou fivela à frente ou atrás.
Cabeça da figura
A cabeça da Senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa ou por uma ou mais flores. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, folhas secas, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Mãos
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: luvas, leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e sombrinha.
As luvas compridas ficam bem se o vestido tiver manga curta ou for um vestido cai cai. Penso que no caso da modelação incluir uma sombrinha, esta deverá ter o cabo apoiado num dos pulsos e a sombrinha parcialmente embutida no vestido e apoiada no sapato ou no ar, mas nunca tocando no chão. Só assim não se violará o "dogma" do assentamento da Senhora se verificar apenas nos pezinhos e na parte de trás da saia.
Jóias
Se o vestido for decotado, fica bem uma jóia ao pescoço. Se o vestido não tiver mangas, fica bem uma pulseira no pulso.
A terminar
O presente texto corresponde a uma reflexão profunda da minha parte e simultaneamente procura rasgar horizontes aos novos barristas, dando-lhes conta que todos os que os antecederam procuraram sempre inovar e o fizeram. Lá diz o rifão “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Por isso é legítimo que os novos barristas também o façam. Se assim não fosse, se cada barrista não introduzisse marcas identitárias muito próprias, a barrística de Estremoz estaria morta. Tal não acontecerá se os barristas no seu todo continuarem a recusar-se integrar como que uma linha de montagem que se limita a reproduzir figuras que lhes são pré-existentes. É necessário que as reinterpretem a seu modo e simultaneamente modelem novas figuras. Alguns dirão que “Não é ao modo de Estremoz”. Não se preocupem, a barrística de Estremoz sempre teve os seus “velhos do Restelo” e decerto continuará a ter. Se Vasco da Gama se tivesse deixado atemorizar pelas profecias do velho do Restelo, nunca teria descoberto o Caminho Marítimo para a Índia. Em caso de dúvidas, consultem quem vos ensinou. Esse é o melhor caminho.  
Termino, formulando sinceros votos de que o presente texto seja da máxima utilidade aos novos barristas. Se assim for, isso será para mim bastante gratificante.

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor. 

 Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Jorge da Conceição. 

 Sabina da Conceição (1921-2005). Colecção do autor. 

José Moreira (1926-1991). Colecção do autor. 

Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção Jorge da Conceição.


Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Colecção do autor.

Ana Grilo (1974, -  ). Colecção do autor.

Luísa Batalha (1959, -  ). Colecção do autor.

Madalena Bilro (1959, -  ). Colecção do autor.