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sábado, 14 de março de 2026

A Banda de Música de Jorge Carrapiço


Banda de   Música de Jorge Carrapiço.

Composição da Banda e distribuição dos músicos pela mesma, da autoria do Maestro
Mário Tiago, da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense.

Preâmbulo
Desde o passado dia 31 de Janeiro, que na Galeria Municipal D. Dinis, está patente ao público e até ao próximo dia 3 de Maio, a exposição “100 Anos da Elevação de Estremoz a Cidade – Barristas do Centenário”, a qual integra as Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, promovidas pelo Município de Estremoz.
A exposição destaca o percurso dos barristas nos últimos cem anos, a evolução dos Bonecos de Estremoz e o papel do Município na salvaguarda da tradição da arte bonequeira, que desde 2017 integra a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Na exposição há exemplares que se destacam pelos mais diferentes motivos, como é o caso da Banda de Música de Jorge Carrapiço, encomendada por mim ao barrista em 2021 e que integra a minha colecção pessoal de Bonecos de Estremoz.
Para compreender a importância desta Banda de Música torna-se necessário ler o texto que se segue, redigido em 2021 e dedicado à Sociedade Filarmónica Artística Estremocense na passagem do seu 150.º Aniversário.
Estremoz e as Bandas de Música
No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, de Estremoz (Fundada a 25 de Agosto de 1840), Sociedade Filarmónica Veirense (Fundada em 19 de Março de 1870) e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense (Fundada a 11 de Agosto de 1871). Qualquer delas tem um historial respeitável, o qual merece ser conhecido, sendo que a fundação da Banda mais antiga remonta aos finais da primeira metade do séc. XIX.
Desde a sua fundação que estas Bandas actuam não só no concelho, como um pouco por todo o Alentejo, em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).
Bandas de Música na barrística de Estremoz
Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, que tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos. Aquela procissão foi perpetuada no barro por Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) nos anos 40 do séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.
Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição morfológica.não permite saber o que são.
Uma Banda de Música para mim
A minha colecção integra há já algum tempo, uma Banda de Música de José Moreira e outra de Quirina Marmelo, as quais apresentam algumas das características acima referidas. Daí que tenha pensado em incorporar na minha colecção uma Banda de Música que sem perder o cunho verdadeiramente popular, traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado. Visando este fim e após alguma reflexão, tomei as seguintes medidas:
1 – Escolhi como barrista, Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trobone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, o qual acedeu a modelar uma Banda de Música com as características por mim indicadas.
2 – Convidei o Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, a esboçar uma Banda de Música, definindo o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Aquele Maestro correspondeu à minha solicitação, fixando aqueles parâmetros. É, pois, de sua autoria o esquema que estabelece a composição da Banda e a distribuição dos músicos pela mesma. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO (caixa, bombo, pratos), METAIS (tuba, trombone, contrabaixo, bombardino, trompa, trompete), PALHETAS (clarinete, sax alto sax barítono, sax tenor) e FLAUTAS (Flauta). Ao todo são 22 figuras.
3 – Passei em revista as Bandas produzidas anteriormente por outros barristas, tendo-me agradado muito particularmente uma Banda da autoria de José Moreira, a qual viria a ser tomada como modelo.
4 - Sugeri ao barrista Jorge Carrapiço que executasse a Banda de Música com as seguintes características: - Altura das figuras: 16 cm; - Base quadrangular de 5 cm x 5 cm, com as pontas cortadas em bisel. Topo de cor verde bandeira e orla em zarcão; - Fardamento azul, compreendendo calça e casaco orlado de zarcão à frente e nos punhos. Abotoadura constituída por duas fileiras de 5 botões amarelos; - Chapéu tipo quépi da mesma cor do fardamento, com pala preta e fita dourada à frente, terminada por dois botões da mesma cor; - Botões definidos volumetricamente; - Calçado preto; - Instrumentos modelados com definição.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço
O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.
O cromatismo das figuras assenta em nítidas dicromias quente-frio, que pela sua simplicidade lhes confere uma beleza vigorosa.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma. O barrista está, pois, de parabéns e a barrística popular de Estremoz está mais rica. São factos indesmentíveis que aqui atesto e registo para memória futura.
A Banda de Música agora executada fica, de resto, a assinalar os 150 anos da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, da qual eu sou associado, Mário Tiago é Maestro e Jorge Carrapiço é trombonista.

Hernâni Matos


Jorge Carrapiço, o barrista - trombonista.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fotografias inéditas de Mário Lagartinho, Mestre Oleiro de Estremoz

 






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A memória mais antiga que guardo de Mestre Mário Lagartinho (1935-2016) é a da sua participação no Cortejo Etnográfico de 1963 em Estremoz, integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz desse ano. Tratou-se de um evento histórico de grande impacto, o qual celebrou as profissões tradicionais do Alentejo, com especial destaque para a Olaria e os Bonecos de Estremoz. Num dos carros alegóricos à olaria e que desfilavam pela Avenida 9 de Abril, Mário Lagartinho, então com 28 anos (eu tinha 17) ia modelando peças oláricas.                     

Só após a minha saída da Universidade viria a ter uma relação mais próxima com Mário Lagartinho, o que aconteceu nos anos 70 do séc. XX. O Mestre viria então a conceder-me o privilégio da sua amizade, o que me permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da Olaria de Estremoz na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Fi-lo na condição de coordenador do Centro de Recursos da Escola. O evento designado por “Encontro com a Olaria Alentejana” e realizado no átrio consistiu basicamente numa exposição de peças oláricas de Estremoz pertencentes à minha colecção pessoal e ainda, o que foi o mais importante, um workshop orientado por Mário Lagartinho. O público alvo foi a comunidade escolar e muito em especial, os alunos da área das Artes.

São dessa época as fotografias inéditas de Mário Lagartinho aqui divulgadas e das quais naturalmente estou ausente, já que estava por detrás da objectiva.

De salientar que o magnífico painel de azulejos patente no átrio da Escola é da autoria da artista plástica Estrela Faria (1910-1976).

 Hernâni Matos

Alegoria ao Ensino (1962). Estrela Faria (1910-1976). Painel de azulejos (300 x 600 cm).
Escola Secundária Rainha Santa Isabel, Estremoz.

domingo, 28 de dezembro de 2025

PEDRO VAZ PEREIRA / Vou-me Embora Vou Partir

 


Pedro Marçal Vaz Pereira


“Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
Luís de Camões (c.1524 – 1580)

 

Preâmbulo
Ao Vitorino Salomé agradeço a força do título da sua canção “Vou-me Embora Vou Partir”, a qual integra o álbum “Semear Salsa Ao Reguinho”, lançado em 1975 e que curiosamente termina com o verso “Eu hei-de ir, hei-de voltar com o tempo”.

Mudar de vida
Há uns tempos atrás e com alguma surpresa da minha parte, o Pedro deu-me conhecimento de que se ia retirar das lides filatélicas. Como tal, não voltaria a candidatar-se ao cargo de Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia.
Disse cá para comigo “O Pedro está farto da rapaziada e das “guerras do alecrim e da manjerona e resolveu mudar de ares”. Lembrei-me de imediato do poema “Viver sempre também cansa”, do José Gomes Ferreira “O sol é sempre o mesmo e o céu azul / ora é azul, nitidamente azul, / ora é cinzento, negro, quase-verde.../ Mas nunca tem a cor inesperada.”. O cineasta Paulo Rocha se fosse vivo, dar-lhe-ia razão e diria que ”É preciso “Mudar de vida”.
O Pedro disse-me então que gostaria de dispor de um texto meu, o qual sinalizasse o nosso relacionamento e o modo como eu encaro o seu trabalho de 4 décadas, ao leme da Federação Portuguesa de Filatelia. A finalidade era publicá-lo conjuntamente com outros depoimentos no último número da Filatelia Lusitana, tendo-o como Director. De imediato acedi ao seu honroso convite.
Como não tenho vocação para Tedéus nem tão pouco jeito para epitáfios, fi-lo da única maneira que o sei fazer e como é meu timbre, sem formalismos e meio a sério, meio a brincar. Assim o exige a nossa amizade e o nosso gosto pela vida.

Eu e o Pedro
Oitentão, conheci o Pedro há cerca de quatro décadas atrás, era eu ainda um rapaz, com a particularidade de ser dirigente dum clube filatélico de província. O Pedro, então com menos uns centímetros de barriga, era já um Deus Nosso Senhor, lá nos píncaros da Avenida Almirante Reis. De vez em quando eu tinha a ousadia de metralhar a Direcção da Federação com alguns ofícios batidos numa velha “Olímpia”, cuja fita padecia de excesso de tinta. Se não os pus vesgos, andou lá perto disso.
Entre mim e o Pedro, tudo apontava para que o nosso relacionamento interpessoal não funcionasse, já que o nosso horóscopo nos sinaliza a ambos como pertencentes ao signo do Leão com ascendente de Touro. Tudo indicava que o nosso relacionamento viesse a “fazer faísca”. Tal não aconteceu, quem sabe se por termos consciência desse risco. Cada um no seu galho, lá nos fomos respeitando e aturando um ao outro, às vezes sabe-se lá como. O que é certo é que resultou e que cimentámos uma amizade que tem resistido ao tempo e se tem fortalecido apesar das nossas diferenças. É que o direito à diferença é um direito constitucional que legitima que os amigos não tenham que ser o clone um do outro. Para além disso, a amizade não goza da propriedade transitiva. A pode ser amigo de B e B pode ser amigo de C e estas condições não implicam que A tenha que ser necessariamente amigo de C. No nosso caso, somos ambos laicos e republicanos. Todavia ele ufana-se com o verde, é leão e chuta à direita. Pelo contrário, eu sou águia, assumidamente vermelho e chuto à esquerda.
A convite do Pedro, algures no século passado, integrei uma Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia, sufragada pelos votos dos clubes federados. Creio que ele terá identificado em mim, qualidades que poderiam fazer a diferença na sua equipa. Julgo que não o desiludi, apesar de na primeira reunião de Direcção ter apanhado um “cagaço” quando avistei junto a ele, uma monumental pilha de papéis e papeletas, dos quais havia que tomar conhecimento e relativamente a alguns tomar decisões. Para tal, era tudo visto, tintim por tintim e branco no preto. Formatado aos processos regimentais federativos, lá fui andando e crescendo como dirigente filatélico, numa caminhada comum, no decurso da qual aprendi muito.

As reuniões da Direcção
As reuniões da Direcção eram matinais e por vezes maiores que a légua da Póvoa, apenas interrompidas quando algumas barrigas como a minha, começavam a dar horas. Chegados a este ponto, as intervenções eram mais curtas, a ver se o Pedro dava ordem de “soltura”. Quando esta acontecia, lá íamos nós a caminho do restaurante Chilgamba, ali mesmo na Avenida Almirante Reis. O almoço era um dos pontos altos desse dia. Púnhamos as conversas em dia, falava-se de colecções, das últimas peças adquiridas e das exposições que aí vinham. Findo o repasto, lá retornávamos à casa mãe, a sede da Federação, a ver se a pilha de papéis e de papeletas, organizadas pelo Pedro, chegava ao fim. Alcançado este, lá nos despedíamos uns dos outros, regressando cada um ao seu porto de abrigo, até à próxima reunião de Direcção, para desempenharmos a missão que assumíramos cumprir, tendo o Pedro como timoneiro.

Contactável até na casa de banho
Certa vez, o Pedro pregou-me uma “rabecada”. Tinha um assunto urgente a tratar comigo e eu não lhe atendia o telefone. Quando conseguiu que eu o atendesse, perguntou-me de rompante “Só agora é que me atende o telefone?”, ao que eu respondi “Só agora é que pude. Estava na casa de banho e não tinha o telefone comigo.”. A resposta não se fez esperar e foi fulminante “Hernâni, desculpe, mas um dirigente filatélico tem que estar sempre contactável, mesmo na casa de banho”. Apeteceu-me dizer-lhe “Deixe estar chefe, que vou deixar de ter dores de barriga”. Todavia não fui por aí. Disse-lhe simplesmente “Tem razão, Pedro”. E o que é um facto, é que a partir daí, o meu telemóvel passou a ser meu companheiro de estrada, quer a caminhada fosse timbrológica ou não.

A minha entrada para Jurado
Como expositor filatélico tive sempre o saudável hábito de questionar os Jurados sobre as classificações que me eram atribuídas, ousadia que me saiu cara. Candidatei-me a Jurado nacional e fui chumbado com perguntas de algibeira. Duas vezes a Inteiros Postais e uma vez a Maximafilia. É claro que fiquei “piurso”, mas as coisas ficaram por ali ou melhor não ficaram mesmo por ali. Presumo que o Pedro não tenha gostado da coisa e lá terá dito com os seus botões ”Porra! Vou acabar com esta tourada. Este gajo tem currículo filatélico e “percebe da poda”. Há que convidá-lo para o corpo de Jurados.”. E assim foi. Passei a integrar o corpo de Jurados nacionais da Federação Portuguesa de Filatelia nas classes de Inteiros Postais, Maximafilia e Literatura Filatélica. Mais tarde, o Pedro subscreveu a minha candidatura a Jurado FIP de Inteiros Postais, tendo sido certificado como tal na Exposição FIP de Valência, em Espanha. Cumulativamente, Steve Washburn, team leader da Comissão FIP de Inteiros Postais, cooptou-me como membro não eleito para integrar o Bureau da Comissão. Fui até hoje o único Jurado português que integrou um Bureau da FIP. Vejam lá em que deram os meus chumbos. Julgo ser oportuno e legítimo citar aqui dois provérbios populares portugueses "Não há fome que não dê em fartura" e "Quem ri por último, ri melhor".

Breve perfil biográfico do Pedro
Como filatelista, o Pedro viu as suas colecções obterem no decurso dos anos, as mas elevadas recompensas nas classes de Filatelia Tradicional, História Postal, Inteiros Postais, Classe Aberta e Literatura Filatélica. Por decisão do Congresso Federativo, foi-lhe outorgado em 2010, o Galardão de Filatelista Eminente, a mais elevada distinção da Filatelia de Portugal.
Escritor e jornalista filatélico, subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. É autor de várias obras nos domínios da História Postal, da História da 1ª República e da História de Cernache de Bonjardim, localidade que o viu nascer.
É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) desde 1987 e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA) no período (2001-2009), assim como Director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”.
Entre as inúmeros prémios e distinções que lhe foram atribuídas, é de salientar a outorga em 2019 da Medalha da FEPA “FOR EXCEPTIONAL SERVICE TO ORGANISING PHILATELY”, a mais alta distinção concedida a filatelistas europeus e atribuída uma vez por ano a um único filatelista. É igualmente de destacar a atribuição em 2022 da Medalha da FEPA “FOR EXCEPTIONAL PHILATELIC STUDY AND RESEARCH 2022”, pela publicação da obra OS CORREIOS PORTUGUESES 1853-1900 NOS 500 ANOS DO CORREIO EM PORTUGAL, considerado o melhor livro de 2022. Finalmente é ainda de realçar que a revista FILATELIA LUSITANA de qual é director, foi distinguida pela Academia Europeia de Filatelia com a Medalha de Imprensa para a melhor revista europeia de 2022.
É um gestor nato, trabalha por objectivos, tem uma visão estratégica das coisas, capacidade de liderança e de trabalho em equipa, espírito de missão e grande capacidade de resiliência.
Liderou a filatelia portuguesa durante quatro décadas, estruturando-a, disciplinando-a e estabelecendo parcerias eficazes com os Correios de Portugal, os quais asseguraram desde sempre o patrocínio dos eventos filatélicos nacionais, independentemente de serem simples mostras ou exposições do mais alto nível, como foi o caso da Exposição Filatélica PORTUGAL 98, comemorativa do 500º Aniversário da Chegada de Vasco da Gama à Índia, que foi igualmente o tema central da EXPO 98. Foi ainda o caso da Exposição Filatélica PORTUGAL 2010 - Exposição Mundial de Filatelia, integrada nas comemorações do 1º Centenário da República Portuguesa. Da PORTUGAL 98 e da PORTUGAL 2010, foi o Pedro o grande e principal obreiro.
Nos areópagos filatélicos internacionais e na condição de Presidente da FPF e da FEPA, o Pedro tem sido uma figura considerada e atentamente escutada, como tive oportunidade de constatar no Congresso FIP de Valência e no Congresso FEPA de Antuérpia.
Quer queiram ou não os seus detractores - que os tem - o Pedro é um grande Senhor da Filatelia a nível mundial e o seu prestígio como dirigente, transvasa o mero âmbito da Filatelia Nacional.
São profundas as marcas que deixa no terreno filatélico e enorme o seu legado. A sua memória como dirigente filatélico de excelência, perdurará no tempo e pairará nos ares, muito para além dos céus da Avenida Almirante Reis e da Rua Cidade de Cardiff. Nesta última se situa a actual sede da Federação Portuguesa de Filatelia, a qual integra o legado patrimonial que nos deixa.

Cronologia filatélica portuguesa
A civilização ocidental e cristã utiliza a era cristã, de acordo com a qual a contagem do tempo se faz tomando como referência a data do nascimento de Cristo. Daí que em termos cronológicos se utilizem as designações A.C. (antes de Cristo) e D.C. (depois de Cristo). Com a saída do Pedro do cargo que vem desempenhando há largos anos, a filatelia portuguesa na sua narrativa, usará inescusavelmente as designações A.P. (antes de Pedro) e D.P. (depois de Pedro).
O sucessor de D. Pedro
Apesar de “nuestros hermanos” o tratarem por D. Pedro, a ética laica e republicana que professa e integra a sua matriz identitária, indicia que não deixará sucessor ao cargo. Todavia, tal não impede que haja quem se perfile no horizonte filatélico como seu sucessor. Da outra margem da filatelia não sei nada e não tenho notícias há muito tempo. Todavia, eles saberão de si. O Pedro também. Sai, mas andará por aí.
Até sempre, Pedro!
Na antecâmara da sua retirada da cena filatélica, quero-lhe agradecer o privilégio da sua amizade e desejar-lhe as maiores felicidades na sua vida futura, votos que são igualmente extensivos à Ana, a sua adorável esposa, que igualmente me concedeu e à Fátima minha companheira, o privilégio da sua amizade. Bem hajam por isso.
Até sempre, Pedro!

Publicado a 28 de Dezembro de 2025
in Filatelia Lusitana, Série III, nº 50, Lisboa, Dezembro de 2025.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

8.º Aniversário dos Bonecos de Estremoz enquanto Património da UNESCO



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 28 de Novembro de 2025

No domingo, dia 7 de dezembro de 2025, comemora-se o 8.º aniversário da Inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Para celebrar a data, o Município de Estremoz organizou as seguintes atividades:

Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz

- 16:00 horas - Discursos institucionais

- 16:15 horas - Entrega da Certificação à barrista Ana Godinho

- 16:20 horas - Apresentação da Rota do Boneco de Estremoz, Hugo Guerreiro Chefe da Divisão de Cultura, Desporto e Juventude

- 16:40 horas - A Confraria do Boneco de Estremoz: 2025 e 2026, Alexandre Correia, Grão-Mestre da Confraria

Estremoz Hotel

- 17:30 horas - Inauguração da exposição "Figurado em Barro de Estremoz", fotografia de Francisco Matias

 Venha celebrar conosco!

Entrada gratuita.

Hernâni Matos

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Novembro de 2025

A Galeria Municipal D. Dinis irá receber, a partir do dia 29 de novembro, a XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz.

Esta mostra contará com cerca de 30 Presépios, produzidos com diversos materiais, dos artesãos: Afonso Ginja, Ana Catarina Grilo, Ana Godinho, António Moreira, Carlos Alberto Alves, Conceição Perdigão, Fátima Lopes, Francisca Carreiras, Henrique Painho, Inocência Lopes, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Manuel Broa, Maria José Camões, Perfeito Neves, Ricardo Fonseca, Sara Sapateiro, Sandra Cavaco e Vera Magalhães.

A exposição poderá ser visitada até dia 6 de janeiro de 2026, com entrada gratuita, numa organização da Câmara Municipal de Estremoz.

Não perca!

Hernâni Matos

sábado, 1 de novembro de 2025

A génese da arte pastoril


COLHER EM MADEIRA - Artefacto de arte pastoril alentejana
da autoria de Joaquim Teodoro da Cruz. Orada, 1940.
Colecção Hernâni Matos.


Ao meu Amigo António Carmelo Aires,
distinto coleccionador de arte pastoril,
no dia do seu aniversário.

 

O Alentejo é terra de vagares. Na charneca, o tempo cresce e recresce para o pastor de ovelhas. Nesse contexto, os palpites de alma fazem das suas. Logo um impulso criador detona e pelas redes neuronais é transmitido às mãos calejadas. Estas manobram com destreza uma navalha afiada com a qual entalha, grava ou filigrana, o material nativo que recolheu na Terra Mãe, mesmo ali à mão de semear.

Com a magia dum alquimista, transmuta a madeira, a cortiça e o chifre, em autênticas Obras de Arte, graças a um nato saber-fazer, aliado a um refinado bom gosto, pautado por ideias ancestrais que lhe povoam a mente.

Cruzes, estrelas, flores, signo-saimões, hexafólios e corações, integram a simbologia, a maioria das vezes apotropaica ou mesmo sagrada, com que lavra a superfície dos materiais e que nos transmitem mensagens e estórias codificadas que o artífice compôs, visando homenagear o destinatário ou a destinatária da sua Obra: a conversada, a mulher amada, o patrão ou a patroa que lhe asseguram o ganha-pão.

Não se trata, pois, de artefactos confeccionados para matar o tempo, como alvitra a proclamação rifoneira: “Quem não tem que fazer, faz colheres”. Pelo contrário, são manufactos criados graças à generosidade do tempo que cresce e recresce nesta terra de vagares.


BORSAL - Estojo em cortiça para protecção do machado corticeiro. Autor desconhecido.
Colecção Hernâni Matos.

TABAQUEIRA EM CHIFRE E MADEIRA. Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).
Colecção Hernâni Matos.

ARTEFACTO BIFUNCIONAL - Constituído por uma carretilha e 3 chavões móveis
ao longo de uma argola circular. Colecção Hernâni Matos.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Marcas de autor nos Bonecos de Estremoz de Mário Lagartinho

 

Mulher a vender chouriços. Mário Lagartinho (1935-2016).


LER AINDA

1. Preâmbulo
No meu livro BONECOS DE ESTREMOZ [1] foi feita a inventariação das marcas de autor dos barristas de Estremoz: Aclénia Pereira, Afonso Ginja, Ana das Peles, Ana Lagartinho, António Lino de Sousa, Armando Alves, Carlos Alves, Fátima Alves Lopes, Fátima Estróia, Guilhermina Maldonado, Irmãos Ginja, Irmãs Flores, Isabel Carona, Isabel Pires, João Fortio, João Sousa, Jorge Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Maria Inácia, Maria José Cartaxo, Maria Luísa da Conceição, Mariano da Conceição, Mário Lagartinho, Matias António da Silva, Matilde Ginja, Miguel Gomes – Célia Freitas, Paulo Cardoso, Quirina Marmelo, Ricardo Fonseca, Sabina da Conceição Santos, Sónia Mateus, Vasco Fonseca.
Foram então catalogadas 121 marcas de 33 barristas, cuja imagem foi reproduzida, acompanhada da respectiva descrição. Tratou-se do maior número de marcas até então inventariado. Todavia e por precaução afirmei: “Estou convicto que a listagem de autores e respectivas marcas aqui apresentadas não está completa e, como tal, não é definitiva. O futuro o confirmará ou não.“ E dá-se o caso que veio a confirmar a confirmar. De facto, o estudo paciente, como é meu timbre, de exemplares da barrística de Estremoz que fui adquirindo, revelaram a existência de novas marcas de autor. 

2. Marcas de autor de Mário Lagartinho
A este propósito, merecem especial destaque as marcas de autor de Mestre Mário Lagartinho, que em 2018 eram em número de 3 e que actualmente passaram a ser 14 (12 das quais pertencentes a exemplares da minha colecção particular).

MARCA MANUSCRITA

FIGURAS

FIGURAS EM QUE FOI IDENTIFICADA

M. L.

1

Rei mago em pé (Belchior) e Rei mago em pé (Gaspar) – Figuras de presépio de trono

M. L / ESTR

2

Nossa Senhora ajoelhada – Figura de presépio de trono

M.L. / E. P.

3

Mulher a vender chouriços

ML / ES

4

Pastor ofertante das pombas – Figura de presépio de trono

M. L. / Estrems

5

Pastor ofertante com um borrego ao colo, Pastor ofertante ajoelhado e Rei mago em pé (Baltasar) – Figuras de presépio de trono

Mário / Lagartinho / Estremoz

6

Pastor das migas e São José ajoelhado – Figura de presépio de trono

Mario / Lagartinho / Estremoz 86

7

???

Mário / Lagartinho / Estremoz 93

8

Mulher dos perus

Mário / Lagartinho / Estremoz / Portugal

9

Nossa Senhora ajoelhada - Figura de presépio com base poligonal

Mario / Lagartinho / 88 Estremoz

10

Senhora de pezinhos com base

Mario / Lagartinho 80 / mL

11

Mulher a vender chouriços

Mario LAG / M.L.

12

Trono

CARIMBO

FIGURAS

FIGURA EM QUE FOI IDENTIFICADA

Carimbo “ESTREMOZ”, inserido no contorno de marca denteada de “carica”.

13

Matança do porco

MARCA MISTA (manuscrita e carimbo)

FIGURAS

FIGURA EM QUE FOI IDENTIFICADA

Carimbo “ESTREMOZ” / Marca manuscrita “M. L.”.

14

Pastor do harmónio

O estudo efectuado sobre as marcas de autor de Mestre Mário Lagartinho está sintetizado no quadro acima. Dele foi possível extrair várias conclusões:
- As marcas de autor são de 3 tipos: marcas manuscritas, carimbos e marcas mistas;
- A marca datada mais antiga é de 1980 e a mais recente é de 1993, datas que se inserem no período de tempo que medeia entre os anos 70 e 90 do século XX, no decurso do qual Mestre Mário Lagartinho foi simultaneamente oleiro e bonequeiro;
- As marcas 1, 2, 4, 5, 6, 12 são coevas e pertencem às figuras de um presépio de trono e ao próprio presépio de trono. Significa isto que as 10 peças de um presépio de trono apresentam pelo menos 6 marcas diferentes. Digo pelo menos, uma vez que não foi possível identificar a marca aposta no berço do Menino Jesus, já que que a mesma não é perfeitamente legível, visto se encontrar coberta de tinta;
- Não foi possível sequenciar temporalmente as marcas não datadas. Porém, a decoração dos Bonecos e a patine dos mesmos, levam a admitir que as mascas 3 e 13 estarão entre as marcas mais antigas conhecidas.

3. O seguro morreu de velho

É considerável o incremento ocorrido no número de marcas de autor de Mestre Mário Lagartinho catalogadas no decurso do período 2018-2025. Todavia, tal como proclama o velho rifão "O seguro morreu de velho", por precaução é de admitir que o número de marcas já catalogadas possa não ser definitivo. 

Hernâni Matos

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14




[1] MATOS, Hernâni. BONECOS DE ESTREMOZ. Edições Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, 
Outono de 2018.
[2] Cortesia de Diogo Galhofo.