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sábado, 31 de outubro de 2026

ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos

 


ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos


- Exposição ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos
- ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
- ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!
-  ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás
- Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
-  O recolector - Francisca de Matos
- EXPOSIÇÃO "ARTES DO VAGAR" - Francisco Ramos
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

 

01 – Natália Simões (1924-2012).


Natural de Pavia e irmã das artesãs de papel recortado, Joana Simões e Joaquina Simões. Professora do ensino primário em Estremoz durante toda a sua carreira.

Após a aposentação dedicou-se aquilo a que chamava “pintura judaica” e que lhe foi sugerida pelo seu marido, o professor Aníbal Falcato Alves, intelectual polifacetado, que dedicou parte da sua vida à recolha de tradições da região Alentejo, entre elas as artes populares. Foi ele que recolheu um exemplar daquilo que é designado por “pintura judaica”, uma tipologia de arte popular alentejana cuja origem se perde na lonjura dos tempos. Depois de estudar o modo como o mesmo tinha sido executado, sugeriu a Natália o procedimento a seguir, visando recuperar e preservar a antiga tradição. Natália correspondeu ao desafio e recuperou a arte tradicional. Trata-se de uma pintura em vidro, na qual primitivamente, o vidro era pintado com betume judaico, sobre o qual era desenhado minuciosamente a lápis de carvão, o contorno do motivo decorativo. O interior desse contorno era seguidamente raspado, sobrepondo-se então papel de prata às zonas raspadas, as quais conferiam ao conjunto um aspecto de requintada peça de ourivesaria. Mais tarde, substituiu o uso do papel de prata pela pintura das zonas raspadas com tintas de outras cores. De resto, numa natural evolução, também a pintura com betume judaico viria a ser substituída pela pintura com spray.

A recolha etnográfica do marido fora o ponto de partida para a descoberta e para tudo o que se lhe seguiu, pois a Natália, criadora nata, revolucionou este tipo de trabalho artístico, catapultando-o à dimensão daquilo que sem ela não seria sequer imaginável.

Num texto de 1965, intitulado “VIDRO RENDILHADO”, o escritor neo-realista e médico Fernando Namora, referindo-se ao trabalho de Natália, disse com precisão cirúrgica: “Nestas mãos pacientes, que rendilham a superfície fosca e árida do vidro como se de bordados de oiro ou prata se tratasse, reaviva-se uma tradição artesanal e espelha-se o Alentejo onde o tempo modera o seu frenesi, contido pela charneca lânguida, espreguiçada, que dissolve a alucinação das vidas e empresta aos gestos um labor alentejano saboreado. O tempo, pois, não conta para estas mãos minuciosas, mãos alentejanas, que corrigem a placidez dos dias com uma arte de imaginação opulenta, recreada em filigranas e arabescos, a destoar, como um protesto da severidade do ambiente.”

Natália Simões participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizou exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)

02 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, com decoração fitomórfica e
 zoomórfica, polícroma com prata em fundo negro. Moldura elíptica. 71 x 46,5 cm.

03 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, que inclui Nossa Senhora da
Conceição, com cercadura de decoração fitomórfica e encimada pelo Sol. Decoração
polícroma com prata em fundo negro. Moldura quadrada. 44 x 44 cm.


04 - Pintura judaica. Composição constituída por monograma FH ao centro, inscrito
num campo de flores de forma circular, por sua vez inscrito num campo de flores de
forma quadrada. Em dourado sobre fundo azul escuro. Moldura quadrada. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Pintura judaica. Alegoria da Primavera. Composição constituída por
uma cercadura com decoração fitomórfica e geométrica, no centro da qual
um “putti” configura pôr uma coroa de flores na cabeça de outro. Em 
dourado sobre fundo azul. Moldura elíptica. 30 x 28 cm.

Publicado no jornal E nº 389, de 30 de Outubro de 2026

domingo, 18 de outubro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)

 

01 - Joana Simões (1912 - 2011) e Joaquina Simões (1914 - 2005).


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rtes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
rtes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Autor desconhecido (Joana Simões e Joaquina Simões)
e Luís Dias (peças)

Irmãs, naturais de Pavia. Joana Simões foi durante largos anos professora do ensino técnico em Estremoz, no qual leccionou lavores femininos. Por sua vez, Joaquina Simões fez carreira como professora do ensino primário em Pavia, onde cultivou sempre o gosto pelas artes tradicionais da região.

Após a aposentação dedicaram-se à arte do papel recortado, procurando recuperar a fase erudita do mesmo. Só então o fizeram por entenderem que é uma arte que exige disponibilidade de tempo e tranquilidade de espírito.

Vejamos qual o procedimento seguido no recorte do papel. Cada irmã desenhava o seu próprio trabalho numa folha de papel à parte, donde depois era copiado tantas vezes quantos as necessárias para uma folha de papel branco de tipografia. Seguia-se o recorte do papel, tarefa que era repartida entre as duas irmãs, pelo que cada trabalho constitui uma criação a duas mãos. Joana começava por recortar o papel, mas quem apurava os recortes era Joaquina que tinha uma vista mais apurada e uma mão mais firme. Havia seguidamente a necessidade de passar cada trabalho a ferro quente para alisar o papel. Para finalizar cada trabalho de papel recortado era assente num fundo escuro e emoldurado com vidro.

Para recortar o papel, as irmãs Simões utilizavam 12 tesouras muito bem afiadas, umas de bico recurvado, outras para cortar a direito, sobressaindo no conjunto três muito especiais, vindas da China. Em 1987, o poeta António Simões, num texto admirável a que deu o título de “JOANA E JOAQUINA SIMÕES E AS TESOURAS DE VENTO” interroga-se: “Como é possível recortar-se papel desta maneira?” perguntam-se todos os que contemplam os seus trabalhos, perplexos perante uma maestria na fronteira do inacreditável.”

As irmãs Simões começaram por fazer trabalhos que configuravam naperons de renda, só que esta era de papel. Ao recortarem papel com uma simples tesoura, a superfície deste animava-se como se agulhas e linhas a estivessem bordando. Estes trabalhos apresentavam simetria radial. Depois aparecem outros com simetria axial e mais tarde outros completamente assimétricos.

A geometria dos trabalhos é em geral circular, quadrangular ou rectangular, tanto horizontal como vertical.

A decoração inclui motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, combinados de diferentes modos.

Nos seus trabalhos figuram pássaros a voar e outros pousados, em especial pavões. Surgem também flores, entre elas cravos e amores perfeitos, vasos de flores e campos de flores, letras capitulares de iluminura, desenhos de perfil filigranado e labirintos em papel rendilhado.

A dado momento passam a subscrever a autoria do trabalho de papel recortado, apondo por baixo a assinatura “Simões”, também ela em papel recortado.

Participaram nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizaram exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.

Hernâni Matos 

02 - Papel recortado. Branco. Letra capitular H. Inscrita num campo quadrangular com
decoração fitomórfica e zoomórfica. Este, por sua vez, está encostado ao canto superior
direito doutro campo quadrangular mais vasto, com decoração igualmente fitomórfica
e zoomórfica, da qual se destaca um pavão. Assinatura de autoria em papel recortado.
32,5 x 32,5 cm.

03 - Papel recortado. Branco. Letra capitular F. Inscrita num campo quadrangular com
decoração fitomórfica e zoomórfica. Este, por sua vez, está encostado ao canto superior
direito doutro campo quadrangular mais vasto, com decoração fitomórfica e zoomórfica,
da qual sobressai um vaso do qual emerge decoração floral com um par de pavões e
simetria axial. Assinatura de autoria em papel recortado. 36 x 36 cm.

04 - Papel recortado. Branco. Composição com motivos fitomórficos. Nela um campo
central e circular está preenchido por amores perfeitos e campainhas. Por sua vez,
este campo central está inscrito num campo quadrangular, densamente preenchido
com flores de diferentes tipos, numa distribuição com simetria axial. Assinatura de
autoria em papel recortado. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Papel recortado. Azul. Composição com motivos geométricos, fitomórficos e
zoomórficos, desvendando uma assimetria completa. Nela, em primeiro plano três
ceifeiras em plena faina com o sol a pino. Em segundo plano, árvores, porventura
sobreiros, esvoaçados por aves. Em terceiro plano um monte alentejano.
27,5 cm de diâmetro.

Publicado no jornal E nº 388, de 16 de Outubro de 2026

domingo, 11 de outubro de 2026

Santo António dos Pobres, de Isabel Pires

 

Santo António dos Pobres. Isabel Pires (1955 -   ).

A minha colecção de Bonecos de Estremoz viu-se recentemente valorizada pela aquisição de uma imagem cuja descrição e estudo é objecto do presente texto.

Trata-se de uma imagem de Santo António (1195-1231), na qual é representado em jovem e em pé, envergando o característico hábito castanho dos franciscanos, com o capuz pendurado para trás, cingido à cintura por um cordão [1] acastanhado, pendente ao longo do hábito. Da cintura e paralelamente ao cordão pende um terço [2], do qual é visível a cruz, de cor negra.

O Taumaturgo [3], com os dedos do pé esquerdo a espreitar o hábito, está assente numa base minimalista de forma cilíndrica e cor verde escura, orlada superiormente a dourado e lateralmente com decoração fitomórfica simplificada, a azul escuro, amarelo e dourado.

O Doutor da Igreja [4] apresenta uma tonsura [5] no cabelo de cor castanha. Com a mão direita, segura um alforge de pão, de cor castanha, assente no ombro direito. Sobre a mão esquerda está sentado o Menino Jesus, de cabelo castanho encaracolado e descalço [6], o qual segura um pão com as mãos e traja um vestidinho de manga comprida, igualmente castanho e orlado a dourado na bainha e na gola,.

A imagem de Santo António acabada de descrever corresponde a uma alternativa iconográfica pouco comum, conhecida pelo nome de Santo António dos Pobres. Nela está implícita a sua caminhada pela França [7] no combate à heresia [8], bem como a sua preocupação com os mais desprotegidos, a qual partilha com o Menino Jesus [9], que se encarrega de retirar e distribuir o pão guardado no alforge, o chamado pão dos pobres.

Assim oferecido, o pão é simultaneamente alimento para o corpo e para o espírito – é o pão da Palavra que António repartiu com tanta generosidade.

A imagem que foi objecto da presente descrição e estudo foi criada pela hoje consagrada barrista de Estremoz, Maria Isabel Catarrilhas Pires (1955 - ) nos anos 80 do séc XX, no início da sua carreira. Daqui a saúdo e felicito pelo pendor fortemente naturalista desta sua criação, a qual muito me apraz e pela intensa espiritualidade que dela irradia.

Hernâni Matos

BIBLIOGRAFIA
MUSEU DE LAMAS. Santo António de Lisboa – A Peça do mês.  [Em linha]. Disponível em: https://museudelamas.blogspot.com/2011/06/santo-antonio-de-lisboa-peca-do-mes.html  [Consultado em 10 de Setembro  de 2026]. 




[1] Na arte e na iconografia religiosa, as imagens de Santo António a partir do séc. XV passaram a apresentar 3 nós no cordão cingido à cintura do hábito franciscano. Tal inclusão serve para recordar os votos perpétuos que o religioso professou: - POBREZA (Desprendimento total dos bens materiais); - CASTIDADE (Pureza de corpo, mente e coração); - OBEDIÊNCIA (Submissão humilde à vontade divina e às regras da Ordem). Contudo, mesmo no séc. XX, a maioria dos barristas de Estremoz não segue a “regra dos 3 nós”.
[2] O terço de que os franciscanos historicamente eram portadores junto ao hábito é o testemunho de uma vida de oração e intimidade com Deus e de profunda devoção à Virgem Maria. O terço surge na arte e na iconografia religiosa, ainda no séc. XVI.
[3] Aquele que opera milagres.
[4] Título oficial outorgado a Santo António em 16 de Janeiro de 1946, pelo Papa Pio XI, pelo profundo conhecimento das Escrituras e pelos seus Sermões.
[5] Este corte rente no topo da cabeça, sinaliza a sua vida monástica, a sua inteira consagração ao serviço de Deus, a renúncia às vaidades do mundo e a configuração a Cristo coroado de espinhos.
[6] Os pés descalços simbolizam aqui a humildade de Jesus.
[7] Esta missão ocorreu no período de 1224 a 1227, quando o Santo tinha entre 29 e 32 anos de idade e actuou como pregador itinerante e professor de teologia em cidades francesas como Montpellier, Toulouse, Le Puy e Limoges.
[8] Santo António combateu vigorosamente a heresia dos cátaros ou albigenses, concentrados no sul de França (regiões de Albi e de Toulouse), os quais professavam uma doutrina que afirmava que o mundo material era intrinsecamente mau, criado por um Deus maligno. Por isso, negavam a encarnação de Cristo e a presença real de Jesus na Eucaristia, dado que Deus não se misturaria com a matéria. Devido à sua admirável capacidade teológica e oratória para desmascarar estes erros doutrinários, recebeu dos cronistas medievais o epíteto de Martelo dos Hereges.
[9] - Na arte e na iconografia religiosa, as imagens de Santo António com o Menino Jesus ao colo só aparecem no séc. XVII.




quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)

 

01 - Roberto Carreiras (1930-2017)


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Cortesia do Arquivo Fotográfico da CME
(Roberto Carreiras) e Luís Dias (peças)
.


Natural da Veiros (Estremoz), onde nasceu na Quinta do Leão. Aqui começou como vaqueiro e ali trabalhou toda a vida até se reformar.

Iniciou-se na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto, era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas profissões, história, religião, touradas, etc.

Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983. 

Hernâni Matos


02 - Colheres antropomórficas (par). Madeira. Cabos com decoração antropomórfica
obtida por vazamento, configurando um homem e uma mulher, de corpo inteiro. 42 x 6 cm.

03 - Colher e garfo. Madeira. Cabos com decoração incisa, fitomórfica e cordiforme. 35 x 5 cm.

04 - Rainha Santa Isabel. Madeira. Decoração incisa. 28 x 8 cm.

05 - Nossa Senhora do Rosário. Escultura em madeira. 27 x 5,5 cm.

Publicado no jornal E nº 387, de 2 de Outubro de 2026


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

RUI SIMÕES ALVES (1956-2026) - Nota de pesar da Academia Portuguesa de Cinema




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É com profunda tristeza que a Academia Portuguesa de Cinema manifesta o seu pesar pelo falecimento de Rui Alves, profissional de cinema, cenógrafo, aderecista, artista plástico e homem de múltiplos talentos, cuja longa carreira ficou marcada por uma extraordinária dedicação ao cinema e às artes.

Nascido em Estremoz, em 1956, Rui Alves frequentou o Curso de Artes Gráficas da Escola António Arroio e iniciou, em 1975, um percurso profissional que se estenderia por várias décadas e por diferentes áreas da criação artística. Cinema, fotografia, teatro, publicidade, decoração, adereços, efeitos especiais, pintura e escultura fizeram parte de uma atividade marcada pela curiosidade, pela versatilidade e por uma permanente disponibilidade para criar.

No cinema, construiu um percurso particularmente rico, trabalhando em diferentes funções ligadas à cenografia, aos adereços e à construção dos universos visuais dos filmes. Desde os primeiros trabalhos como assistente de cenografia, no final da década de 1970, colaborou em produções portuguesas e internacionais, assumindo ao longo dos anos responsabilidades como aderecista, aderecista de plateau, assistente de decoração e responsável pela construção de adereços.

O seu nome encontra-se associado a numerosas produções, entre as quais O Conde de Monte Cristo, Le Cercle des Passions, La Lettre Voullè, To Catch a King, Giovanni Toscanini, Arsène Lupin, L'Accompagnatrice e Fado pour une jeune fille, revelando desde cedo a dimensão internacional do seu percurso profissional.

Ao longo da sua carreira, Rui Alves colaborou igualmente em importantes obras do cinema português. Foi responsável pela construção de adereços em Non ou a Vã Glória de Mandar, de Manoel de Oliveira, e trabalhou como aderecista de plateau e em efeitos especiais em Sinais de Fogo, entre muitos outros filmes.

A sua relação com o cinema estendeu-se ainda à cenografia e à decoração. Em A Moura Encantada, de Manuel Costa e Silva, surge creditado como aderecista e cenógrafo, testemunhando a amplitude das competências que colocou ao serviço das produções em que participou.

Mas a sua atividade artística não se limitou ao cinema. Rui Alves foi também pintor e escultor, desenvolvendo uma obra própria em que explorou formas, volumes, cores e texturas. Expôs regularmente o seu trabalho, apresentando, entre outras, a exposição Casas, em Lisboa, e mostras realizadas em Estremoz, Évora e Aveiro.

Essa multiplicidade de interesses e saberes definia também a sua presença profissional: um artista capaz de transitar entre o trabalho manual e a criação plástica, entre a construção de objetos e a composição de espaços, colocando a sua experiência e imaginação ao serviço das histórias que o cinema procurava contar.

Ao longo de uma carreira iniciada ainda nos anos 70, Rui Alves deixou uma marca discreta mas profunda nos bastidores de numerosas produções. O seu trabalho, muitas vezes invisível aos olhos do espectador, foi essencial para dar corpo, matéria e autenticidade aos mundos criados pelo cinema.

A Academia Portuguesa de Cinema presta homenagem ao seu percurso e ao importante contributo que deu ao cinema português, recordando um profissional de grande versatilidade e um artista cuja generosidade criativa se manifestou em múltiplos campos.

Aos seus familiares, amigos, colegas e a todos aqueles que com ele partilharam tantos anos de trabalho e amizade, a Academia Portuguesa de Cinema apresenta as suas mais sentidas condolências.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 5

 

Pomba no choco com arco (9,5 cm). Ana das Peles.
Colecção Hernâni Matos.

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Figuras de assobio

Os assobios (figuras de assobio) são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornaram simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Tradicionalmente eram agrupados em três grandes categorias: zoomórficos, antropomórficos e compostos.

Os assobios confeccionados por cada barrista, independentemente das marcas identitárias própria de cada um, resumiam-se a cerca de 15 exemplares, naturalmente que com variantes e incluíam apenas aves, cestos de ovos, sargentos, peraltas e senhoras de pezinhos, montados a cavalo ou apeados. Houve quem achasse isto monótono e talvez tenha pensado no soneto de Camões que proclama que: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Vá daí que, sem fugirem à técnica de produção e à estética do Boneco de Estremoz, tenham criado novos exemplares nos quais a decoração das figuras de assobios é de tipo novo: Imagens devocionais (Ana Catarina Grilo), Peças de Olaria Enfeitada (Inocência Lopes) e Instrumentos Musicais Populares (Carlos Alberto Alves). Tratou-se de uma inovação temática, a qual pessoalmente destaco e valorizo.

À semelhança do que se passa com o núcleo central do Figurado de Estremoz, também as figuras de assobio podem de igual modo e muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz liliputianos. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.

Hernâni Matos

Pombos na árvore (7,3 cm). Irmãs Flores.
Colecção Hernâni Matos.

Menino Jesus Bom Pastor (5 cm) Ana Catarina Grilo.
Colecção Hernâni Matos.

Cantarinha enfeitada (10 cm). Inocência Lopes.
Colecção Hernâni Matos.

Harmónio (4,3 cm). Carlos Alberto Alves. 
Colecção Hernâni Matos.

domingo, 20 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 4

 

Figuras de presépio de maquineta da autoria de Ricardo Fonseca. Pastor ofertante
(5,8 cm),  pastora ofertante (5,4 cm), vaca (3,8 cm), burro (3,5 cm) e ovelha (2,7 cm).
Colecção Hernâni Matos.


Figuras de Presépio de maquineta

Uma maquineta de Presépio é um armário ou caixa de tamanho variável, a qual guarda e protege figuras de Presépio, tanto da poeira como do manuseio.

As maquinetas de Presépio têm origem conventual, uma vez que o conceito, a técnica de fabrico e a estética destas peças, nasceu e desenvolveu-se nos conventos femininos portugueses no decurso dos séculos XVII e XVIII.

São conhecidas maquinetas de diferentes épocas, tipologias e materiais.

Podem assumir a forma de armário em madeira entalhada, pintada ou dourada, com uma frente e até mesmo as partes laterais envidraçadas, permitindo a visualização do interior. O armário aloja uma cenografia relativa à Natividade, com figuras de Presépio, que no caso que nos interessa, são minúsculos Bonecos de Estremoz.

Podem ainda adoptar a forma de caixa de vidro com geometria variável assente numa base de madeira com pés, em cujo interior uma cenografia alusiva à Natividade enquadra figuras de Presépio, os quais podem ser minúsculos Bonecos de Estremoz.

As maquinetas de Presépio são simultaneamente objectos de devoção doméstica e peças decorativas de prestígio e mesmo objectos de luxo, comuns em antigas casas senhoriais ou em lares burgueses.

O facto de as figuras de Presépio de Estremoz que integram maquinetas terem dimensões minúsculas, levam-me a classifica-las como Bonecos de Estremoz liliputianos.


Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado (1937-2019) com Presépio
 de Bonecos de Estremoz liliputianos, incluindo cenas de Natividade,   Adoração dos
Magos e  Adoração dos Pastores, da autoria das  Irmãs Flores. 25 x 14 x 20 cm. 
Colecção Hernâni Matos.

Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado
(1937-2019) com Menino Jesus liliputiano da autoria das Irmãs
Flores. 13,3 x 6,8 x 14,2 cm.
Colecção Hernâni Matos.

Pucarinhos de Estremoz - Luís Brito da Luz



Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ I

Bocas ásperas, pegajosas, sequiosas
A saliva ainda no estado de dormência
Gretados lábios rogam forte clemência
A seca língua c’as papilas ansiosas.

Feroz desejo pelas puras águas límpidas
Ocultadas no silêncio de seu ninho
Em sobressalto p’ra sair do pucarinho
E saciar a sede, àquelas almas ríspidas.

Fonte d’vida fresca a brotar do barro fino
Saboroso e oloroso, místico, divino
Como só a cândida cidade branca o tem.

Não há no mundo um pucarinho assim igual
Que torna esta linfa sublime, colossal
Ignorado das boas bocas de ninguém.

Estremoz - 11.09.2026
Luís Brito da Luz


PUCARINHOS DE ESTREMOZ II

Sobre a rica mesa dos Reis de Portugal
Lado a lado com os faustosos ouro e prata
Um pucarinho de linhagem bem barata
C’humildade, mais parece o Santo Graal.

Com a chancela da cidade de Estremoz
Nascido do vermelho barro ali presente
O vate Camões, nas cartas, consciente
Exalta as belas virtudes, de viva voz!

Mas a glória não se esgota no poeta
Gil Vicente com a sua escrita completa
Dos púcaros fala, c’inquieta emoção.

O nome da cidade entrou nas caravelas
Carregado por estas peças mais singelas
E aqui preservado no nosso coração.

Estremoz - 12.09.2026
Luís Brito da Luz

PUCARINHOS DE ESTREMOZ III

Famosos búcaros, na Espanha bem lendários
Benquistos a valer, de modo singular
Seus dons curativos, ninguém pôde negar
Bons predicados, destes barros centenários.

Exaltados por D. Filipe, El-Rei O Prudente
Por Velázquez coloridos com talento
Perduram naquele magnífico momento
Com as Meninas, companhia tão luzente!

Francisco Quevedo, satírico e mordaz
Ilustrava sua beleza que é fugaz
Que a vida é frágil e o humano ser vaidoso.

Lope de Vega, também Góngora afamaram
Nos seus dramas e poemas elogiaram
Este presente de Deus Padre, sumptuoso!

Estremoz - 15.09.2026
Luís Brito da Luz


PUCARINHOS DE ESTREMOZ IV

Pequenos pucarinhos finos e mimosos
Que exalam uma fragrância perfumada
Essência daquela argila bem molhada
Pela pura água a tocar os grãos porosos.

Odor e sabor deveras considerados
Medicinais virtudes, ricas, fabulosas
Propriedades cosméticas, luxuosas
Subsolo único, de pedaços requintados.

E ao mordiscar estas pequenas criações
Após saciar a alta sede de emoções
Emergia a nobre e suprema palidez.

Alto padrão de linhagem e de nobreza,
De um tempo recuado, de fina beleza
Que aos púcaros motivava uma escassez.

Estremoz - 19.09.2026
Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ  V

No firme amparo da olaria cá da terra
Ouvidas vozes se elevaram docemente
Melodiosos sons, encheram de repente
Nossa alma, linda poesia que se encerra!

Lopes Vieira c’o sedento pucarinho,
O púcaro de uma tal forma bem cuidado
Por Sardinha, excelentemente elogiado
Para Simões, era o bastante, com carinho!

Foram os barros do Alentejo badalados
Por Molarinho d’Andrade, considerados
Em sinceros versos, q’respiram a verdade.

Mateus Maçaneiro, em tributo bem gizado
A Mário Lagartinho, Mestre aclamado
No generoso soneto,” Quanta saudade”!

Estremoz - 20.09.2026
Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ VI

Na salvaguarda da olaria da cidade
Da mesma forma que os poetas o fizeram
Também excelsas poetisas bem quiseram
Deixar em verso, carimbada raridade.

Barros de Estremoz, afamada poesia
Soneto belo pela pena d’Georgina
As bilhas c’a virgem água cristalina
Q’Lúcia Cóias matou sede em harmonia.

E os bonitos versos d’Maria Guiomar?
Que colocou Estremoz e seus Barros no altar
De uma luminosa forma adicional.

Sublime soneto, distinto e singular
De Maria de Santa Isabel, exemplar!
Tão sentido de uma maneira especial.

Estremoz - 21.09.2026
Luís Brito da Luz


Publicado inicialmente em 20 de Setembro e 9 de Outubro de 2026


#Poesia Portuguesa - 223

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)


01 - José Carrilho Troncho (1910-2003).

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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Cortesia do Arquivo Fotográfico da CME (Joaquim Carriço Rolo)
e Luís Dias (peças).


5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)

Natural da freguesia de Santa Eulália (Elvas) onde como camponês fez de tudo um pouco. Começou como ganhão e acabou como guarda de herdade.

Após a aposentação, começou a esculpir na madeira a ruralidade que lhe ia na alma, para o que se servia de uma navalha e de uma grosa.

Os seus trabalhos têm a ver com o seu dia a dia de camponês. Em primeiro lugar os animais (boi, cavalo, porco, bode) e depois as alfaias agrícolas e os vários tipos de carros de tracção animal. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 até 1991.

Em Estremoz tinha fixado residência na casa de seu filho na Rua de Macau no Bairro da Mata, onde gostava de trabalhar ao ar livre, o que era muito apreciado pelas crianças da Escola Primária vizinha, onde se deslocava por vezes a convite das professoras, para transmitir aos mais novos as suas vivências e o seu saber-fazer de artesão.

Hernâni Matos

02 - Carroça com condutor, puxada por parelha de muares. Madeira, pregos de ferro,
arame de ferro e tira de couro. 13 x 22 x 8 cm.

03 - Arado puxado por junta de bois. Madeira, pregos de ferro, arame de ferro, 
folha de Flandres e tira de couro. 9 x 24 x 10 cm.

04 - Cavalo. Madeira e pregos de ferro (olhos). 8,5 x 12 x 3,5 cm.

05 - Bode. Madeira (corpo do bode e chocalho, pregos e ferro (olhos) e tira de couro
(suspensão do chocalho). 8 x 9 x 3 cm.

06 - Touro. Madeira, pregos de ferro (olhos) e ráfia (cauda). 6 x 12 x 3 cm.

07 - Porca. Madeira e pregos de ferro (olhos). 6 x 12 x 3,5 cm.

08 - Porco. Madeira e pregos de ferro (olhos). 3,5 x 7,5 x 2,5 cm.

Publicado no jornal E nº 386, de 21 de Setembro de 2026