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domingo, 19 de abril de 2026

Arte Conventual - O falar das mãos de Guilhermina Maldonado


Guilhermina Maldonado (1937-2019).

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Entre nós vivem pessoas relativamente às quais a Comunidade nutre profunda estima e admiração, pelas mais diversas e respeitáveis razões: o seu desempenho ou êxito profissional, o seu exemplo de vida, a sua participação cívica ou aquilo que criam, que é o caso da Senhora que é objecto do presente post.
Guilhermina Maldonado é uma artesã multifacetada cuja actividade se distribui entre outras artes pela criação de registos – bentinhos e lâminas, assim como de maquinetas.
Registos contendo gravuras representando Santos ou Passos das Sagradas Escrituras e que dependurados nas paredes dos quartos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.
Maquinetas contendo imagens devotas que são objectos de Culto ou encerram Presépios, através dos quais se evoca ciclicamente o nascimento de Cristo Salvador.
E o que é um registo? E o que é uma maquineta?
A designação de “registo” engloba ícones religiosos gravados em madeira, cobre, ou pintados sobre pergaminho, tecido ou papel ou impressos litograficamente.
Os de pequenas dimensões, além de relembrarem o dia festivo do Santo Protector, serviam para marcar uma dada passagem no missal ou noutro livro qualquer.
Independentemente das suas dimensões, os registos começaram a ser usados no século XVIII para emolduramentos conhecidos por “bentinhos”, designação que também abrange saquinhos de pano, bentos, que se usavam ao pescoço por debaixo da camisa, contendo papeis com orações, relíquias ou outros objectos de devoção.


Filha de uma mãe exímia e assombrosa na arte do papel recortado e sobrinha do antiquário Venceslau Lobo, Guilhermina Maldonado, nasceu em Estremoz, na freguesia de Santo André, no ano de 1937. Desde muito cedo, conviveu com registos, bentinhos, lâminas e maquinetas. Depois do casamento com o lavrador Luis Maldonado, foi morar para um monte, onde a necessidade de combater o isolamento, a levou a ocupar o tempo de maneira criativa.
Os trabalhos da mãe e a loja do tio que sempre a fascinou, emergiram então na sua memória, levando-a a recriar registos, a partir dos que já conhecia, sem necessitar de qualquer aprendizagem.


Prendada com uma vontade férrea e uma paciência sem limites, a elas soube aliar o prazer de criar, o que faz com uma imaginação espantosa, ainda que temperada pelo rigor e pela procura incessante da delicadeza, perfeição e harmonia, com requintes de minúcia, que são o seu timbre. Dotada de rara sensibilidade artística, das suas mãos de ouro, saem entre outras, inúmeras peças ao gosto conventual do século XVVIII, com um destaque muito especial para os registos e maquinetas ricamente trabalhados.


Desde a sua primeira exposição, ocorrida em 1987 na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, que o seu trabalho foi publicamente reconhecido, passando a receber antiquíssimos registos e maquinetas para restaurar, bem como encomendas para criar novos trabalhos.
Como matérias-primas, Guilhermina Maldonado utiliza papéis coloridos (simples ou metalizados), tecidos (lisos ou lavrados), galões, fitas de algodão e seda, laços, bordados a linha de vários matizes ou de fio prateado ou dourado, bem como pérolas, coral, lantejoulas, vidrilhos, missangas e contas das mais variadas cores. Utiliza também o barro, o miolo de sabugueiro, flores naturais, escamas de peixe ou cascas de árvore. Igualmente utiliza o cartão e o vidro.

As ferramentas utilizadas são as mais diversas: tesoura, lâminas, agulhas, teques, bastidores, pincéis e utensílios improvisados.
Nos bentinhos, a estampa começa por ser colada num cartão que é forrado com tecidos ricos e decorado com lantejoulas, vidrilhos ou papéis coloridos, entre outros materiais.
Guilhermina Maldonado domina e utiliza as múltiplas técnicas de trabalhar o papel: dobragem, vincagem, corte, recorte, enrolamento e picotagem. Com a ajuda da tesoura e da pinça, corta finamente o papel e enrola-o, compondo folhas, pétalas e caules finíssimos, assim como transforma retalhos de papel em preciosos bordados e rendas.


Na decoração é por vezes utilizado canotilho de ouro ou prata e bordados a fio de ouro e prata. Só depois a estampa é emoldurada com uma moldura ricamente trabalhada.
A geometria das molduras é variada: rectangular, quadrada, circular, oval, ogival, cruciforme, cuneiforme ou de contorno misto. A estampa em vez de ser emoldurada, pode ser montada numa caixa pacientemente armada em vidro, também ela de geometria variável, com as lâminas de vidro guarnecidas a papel, tecido, fitas de seda ou de algodão. Estamos então em presença de “lâminas”. Nelas, a dado momento, a estampa começou a ser substituída, por vezes, por pequenas esculturas de barro policromado, cera, marfim ou alguma massa de segredo conventual.



Além de registos – bentinhos e lâminas, Guilhermina Maldonado também executa “maquinetas”, que são caixas envidraçadas onde se expõem imagens devotas como o Menino Jesus ou cenas do Presépio. Os materiais e as técnicas são semelhantes aos dos registos, só que as caixas agora têm maior volume. Guilhermina Maldonado começou por montar maquinetas com figuras modeladas por outros, mas actualmente é ela própria que modela e decora as figuras das suas maquinetas.


Guilhermina Maldonado participa desde sempre na Feira de Artesanato de Estremoz, a qual constitui na sua opinião, a melhor forma de divulgação do seu trabalho. É lá que recebe grande parte das encomendas de clientes que ficaram seduzidos pelo seu trabalho.
Dentre as Exposições realizadas, destacamos entre outras:
-  REGISTOS (Exposição Colectiva), Museu Municipal de Estremoz, Março - Abril de 1986;
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, Dezembro de 1987- Janeiro de 1988;
- Exposição colectiva, Portalegre, Maio de 1992;
- GUILHERMINA MALDONADO E O FALAR DAS MÃOS (Exposição Individual), Câmara Municipal do Alandroal, Dezembro de 1995.
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Escola Secundária de Estremoz, Dezembro de 1999.
A continuidade da sua Arte foi uma questão que sempre a preocupou. Estela Marques Barata foi a colaboradora a quem transmitiu os seus saberes.
Vivemos numa época pautada pela exaltação dos valores materiais e pela globalização, ambos conducentes à insensibilidade artística e ao cinzentismo da perda de identidade cultural. Por isso é preciso cavar trincheiras e cerrar fileiras em tomo do que mais puro e genuíno tem a Cultura Popular, nas suas mais diferentes vertentes. Dai que procuremos transmitir às novas gerações, valores e estéticas, que sendo populares e regionais, são simultaneamente universais e intemporais.
Esse o sentido da Exposição, que de 16 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2010, esteve patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. tratou-se de uma Exposição, onde a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, nos fizeram render à Arte de Guilhermina Maldonado.

Publicado inicialmente em 5 de Abril de 2010

sábado, 18 de abril de 2026

Repórter de concertos de violino


Moringue antropomórfico. Fabrico da Olaria Alfacinha. Estremoz, anos 40 do séc. XX.

De vez em quando vislumbro objectos que tangem as tensas cordas de violino da minha alma. Então, olho-os melhor, miro-os e remiro-os, trespasso-os com o meu olhar e eles revelam-se em toda a sua plenitude, para além daquilo que é óbvio. Digo-lhes: Olá! Então e só então, eles me recebem de braços abertos, como se um deles se tratasse. Contam-me então as suas estórias, às quais outras estórias se seguirão. É então que eu, repórter de concertos de violino, escrevo na pauta de papel, tudo aquilo que tocaram e eu consegui entender.

Publicado inicialmente em 15 de Abril de 2021

quarta-feira, 25 de março de 2026

Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Março de 2026.

O Centro Interpretativo para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz inaugura no dia 28 de março às 16:00 horas, na sua Sala de Exposições Temporárias, a Exposição “Moldar o Legado”, Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro.

Sara Sapateiro (1995) é uma jovem, natural de Estremoz, que iniciou o seu percurso na produção de Figurado em Barro de Estremoz em 2018 pelas mãos da Barrista Isabel Pires, sua Mestra, com quem aprendeu grande parte das técnicas e processos desta arte.

No final de 2019, frequentou o I Curso de Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz promovido pelo CEARTE em parceria com o Município de Estremoz.

Sempre com o apoio e incentivo da Mestra, tem vindo a dar continuidade ao seu trabalho e criando a sua própria identidade estética. Sara é hoje a mais jovem Barristas a produzir o Figurado em Barro de Estremoz, inscrito desde 2017, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO.

A mostra poderá ser visitada até dia 21 de junho.

Não falte, venha conhecer o "Legado" de Sara Sapateiro.

Hernâni Matos

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

8.º Aniversário dos Bonecos de Estremoz enquanto Património da UNESCO



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 28 de Novembro de 2025

No domingo, dia 7 de dezembro de 2025, comemora-se o 8.º aniversário da Inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Para celebrar a data, o Município de Estremoz organizou as seguintes atividades:

Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz

- 16:00 horas - Discursos institucionais

- 16:15 horas - Entrega da Certificação à barrista Ana Godinho

- 16:20 horas - Apresentação da Rota do Boneco de Estremoz, Hugo Guerreiro Chefe da Divisão de Cultura, Desporto e Juventude

- 16:40 horas - A Confraria do Boneco de Estremoz: 2025 e 2026, Alexandre Correia, Grão-Mestre da Confraria

Estremoz Hotel

- 17:30 horas - Inauguração da exposição "Figurado em Barro de Estremoz", fotografia de Francisco Matias

 Venha celebrar conosco!

Entrada gratuita.

Hernâni Matos

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Novembro de 2025

A Galeria Municipal D. Dinis irá receber, a partir do dia 29 de novembro, a XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz.

Esta mostra contará com cerca de 30 Presépios, produzidos com diversos materiais, dos artesãos: Afonso Ginja, Ana Catarina Grilo, Ana Godinho, António Moreira, Carlos Alberto Alves, Conceição Perdigão, Fátima Lopes, Francisca Carreiras, Henrique Painho, Inocência Lopes, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Manuel Broa, Maria José Camões, Perfeito Neves, Ricardo Fonseca, Sara Sapateiro, Sandra Cavaco e Vera Magalhães.

A exposição poderá ser visitada até dia 6 de janeiro de 2026, com entrada gratuita, numa organização da Câmara Municipal de Estremoz.

Não perca!

Hernâni Matos

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A tradição oleira de Estremoz

 

Púcaro com decoração polida. Produção da Escola Industrial António Augusto Gonçalves.
Finais dos anos 30 do sé. XX.

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

A olaria tradicional de Estremoz é extremamente rica em múltiplos aspectos. Na verdade, observando-a como um todo, revelam-se de imediato uma grande variedade de funcionalidades, tipologias, morfologias, tipos de decoração e tamanhos. Como tal, é uma das expressões mais elevadas da nossa identidade cultural local.

Funcionalidade
A funcionalidade das peças oláricas de Estremoz é servirem predominantemente de vasilhame para conter e transportar água, conter flores, dinheiro, velas, ou então servirem de elementos decorativos. Algumas funcionalidades deixaram de ser utilizadas, devido ao desenvolvimento tecnológico. É o caso dos tijolos, telhas, canos, sifões e manilhas.

Tipologia
É diversificada a tipologia das peças oláricas de Estremoz. As principais são: Assadores, Barris, Bilhas, Cafeteiras, Cântaros, Cantis, Cinzeiros, Copos, Fogareiros, Garrafas, Jarras, Mealheiros, Medalhas, Moringues, Palmatórias, Pratos, Púcaros, Reservatórios, Troncos, Vasos de flores, etc.

Morfologia
A uma dada tipologia de objecto olárico podem corresponder várias morfologias. Assim um moringue pode ter um corpo ovóide, esferóide, cilindróide segundo a vertical ou a horizontal, bem como qualquer outra forma distinta das anteriores.

Dimensões
Em geral, uma peça olárica de determinada tipologia e com uma dada morfologia, existe em vários tamanhos, os quais eram numerados de tal modo que ao tamanho maior correspondia o número maior. Este número pode aparecer gravado na base da peça ou aí marcado a giz, depois da cozedura ou então nem sequer ter sido marcado.

Proporções
É óbvio que as proporções entre as 3 dimensões de qualquer peça olárica no seu todo ou entre os seus componentes, não é arbitrária. São proporções que os oleiros de várias gerações foram perpetuando no barro, após a magia das suas mãos as ter tornado harmoniosas.

Tipos de decoração
Os tipos de decoração utilizados nas peças oláricas de Estremoz são de cinco tipos principais:
- 1 - O polido, que utiliza o contraste entre a superfície baça e os motivos que foram polidos com recurso a um seixo ou a um teque;
- 2 - O empedrado, no qual meniscos convexos de argila, decorados com minúsculos fragmentos de quartzo, são colados à peça com barbutina;
- 3 - O riscado, que recorre a sulcos gravados na superfície, com recurso a um teque, um arame, um prego ou uma sovela;
- 4 - O picado, que utiliza formas geométricas que são gravadas na superfície por percussão de objectos ou perfis cuja secção tem uma determinada geometria, como é o caso dos invólucros de bala e dos cartuxos de caça;
- 5 - A relevada, na qual brasões de Estremoz ou outros, assim como inscrições como “RECORDAÇÃO DE” ou “LEMBRANÇA DE”, bem como elementos fitomórficos (folhas, bolotas, ramos de sobreiro) ou zoomórficos (coelhos, lagartos) são moldados em barro e colados com barbutina à superfície;
Para além disso são conhecidos exemplares que ostentam uma decoração obtida pela utilização conjunta de alguns dos tipos referidos anteriormente.

Marcas
O levantamento das marcas de olaria de Estremoz é um trabalho que ainda está em curso, que precisa de ser continuado e que nunca se pode dar por concluído. Para além das marcas de fabrico, apostas por carimbo ou gravadas manualmente, podem existir também marcas de tamanho, gravadas manualmente ou manuscritas a giz. Podem, finalmente, aparecer ainda marcas simbólicas com significado apotropaico, apostas por carimbo ou gravadas manualmente. Caso das estrelas de 5 e de 6 pontas (Signo de Salomão), do trevo de 4 folhas ou da cruz trevolada).

Estética
A estética das peças oláricas de Estremoz é determinada por quatro factores distintos, mas de igual importância: o cromatismo vermelho do barro, aliado à morfologia, às proporções e à decoração. É da conjugação desses factores, sabiamente combinados, que resulta a excelência das peças oláricas tradicionais de Estremoz, por transmitirem sempre harmonia, perfeição, beleza e elegância.

Hernâni Matos

Moringue antropomórfico com decoração polida.
Fabrico da Olaria Alfacinha.

Depósito com tampa, onde estão patentes 3 tipos de decoração: 
empedrado, o riscado e o polido. Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).

Pote com tampa e duas asas, no qual foram usados 2 tipos de decoração:
 o riscado e o picado. Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).

Jarro de forma cilíndrica com decoração relevada fitomórfica,
picada e polida.

Bilha em forma de tronco, com decoração relevada, brasonada, fitomórfica, 
zoomórfica, picada e polida.

Moringue com decoração relevada fitomórfica, picada e polida.

Jarro de forma ovóide com decoração relevada fitomórfica, picada e polida.

Garrafão com decoração polida, picada, relevada fitomórfica e brasonada.
Fabrico desconhecido. 1ª metade do séc. X

Prato com decoração relevada. Início do séc. XX. Fabrico da Olaria Alfacinha.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O curso natural das coisas

 

Fig. 1 - Com cerca de 1 ano de idade, no Largo do Espírito Santo, em Estremoz.

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

Nasci em 1946 no número 14 do Largo do Espírito Santo em Estremoz, mesmo ali ao cantinho (Fig. 1 e Fig. 2). Ao meio da Rua dos Banhos, do lado direito, morava o mestre oleiro e barrista Mariano da Conceição. Bem perto da casa dos meus pais era também a rua do Lavadouro, onde ao meio funcionara a Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana. Não seria isto um augúrio de que iria estar ligado à olaria? É caso para dizer que “Eu não acredito em coincidências, mas que as há, há”.

Fig. 2 - Largo do Espírito Santo - Estremoz. Foto Tony, cerca de 1950.

Na minha juventude, os passeios pelo Rossio levavam-me invariavelmente a deter nos stands da Olaria Alfacinha (Fig. 3) e da Olaria Regional, onde mirava e remirava as peças oláricas, mas onde não comprava nada, não só porque não chegara ainda a altura de o fazer, mas porque como jovem de então, só tinha cotão nos bolsos das calças.

Fig. 3 - Stand da Olaria Alfacinha no Rossio Marquês de Pombal em Estremoz, no ano de 1974.

Em 1963, a participação da olaria e da barrística no Cortejo Etnográfico integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz (Fig. 4 a Fig. 11) foram determinantes na tomada de consciência de um jovem de 17 anos como eu, de que tanto a olaria como a barrística eram manifestações vigorosas não só da identidade cultural estremocense, como da identidade cultural alentejana.


Fig. 4 - Acarreto de barro previamente extraído do barreiro.

Fig. 5 - Oleiro  modelando uma peça na roda.

Fig. 6 - Brunideiras decorando o vasilhame de barro antes de ser cozido.

Fig. 7 - Bonequeiras modelando e pintando Bonecos de Estremoz. 

Fig. 8 - Fabrico de tijolo burro por moldagem.

Fig. 9 - Retirados dos moldes os tijolos burros são postos a secar ao sol durante vários
dias, antes de ser cozidos no forno

Fig. 10 - Uma carrada de lenha para alimentar o forno onde são cozidas as peças de barro.

Fig. 11 - Alimentação com lenha do forno onde será  efectuada a cozedura
 das peças de barro.  

Entretanto, ingressei na Universidade e só em 1972 comecei a comprar objectos oláricos e Bonecos de Estremoz, após ter ingressado como professor na então Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Eram compras às pinguinhas, já que em início de carreira ganhava pouco mais do que coisa nenhuma,

Naturalmente, que as aquisições causadas pelo fascínio do barro precisavam de ser consolidadas com conhecimentos. Foram determinantes na minha formação como coleccionador, livros como “Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho (Fig. 12), “Algumas palavras acerca de Púcaros de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos,(Fig. 12), “La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux (Fig. 13),e mais tarde “Barros de Estremoz”, de Joaquim Vermelho (Fig. 13),, a que se seguiram outros livros e brochuras, adquiridos muitas vezes no mercado alfarrabista.

Fig. 12 - Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho e  “Algumas palavras acerca de Púcaros
de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos.

Fig. 13 - La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux e “Barros de
Estremoz”, de Joaquim Vermelho.

As leituras levaram-me a formular questões relativamente àquilo que leio e aos objectos oláricos que vou adquirindo, pelo que a minha formação científica me induz a investigar, visando "Pôr o preto no branco".

Em 2009, criei o blogue “Do tempo da Outra Senhora” (Fig. 14), onde vou publicando escritos de olaria e de barrística de Estremoz, com a pedalada que me é possível, pois as minhas motivações culturais dispersam-se simultaneamente por outros centros de interesse. Foi assim que em 2018 publiquei o livro “BONECOS DE ESTREMOZ” (Fig. 15), dado à estampa pelas Edições Afrontamento.

Fig. 14 - Aspecto parcial da página de entrada do blogue "Do Tempo da Outra Senhora".

Fig. 15 - "BONECOS DE ESTREMOZ”, de Hernâni Matos. Edições Afrontamento, 2018.

Com a morte em 2016 de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, constituiu uma tragédia cultural. Tornou-se real a necessidade de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, acção que em devido tempo veio a ser despoletada pelo Município de Estremoz, em parceria com entidades oficiais para isso vocacionadas. 

Fig. 16 - Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), decano da olaria e o último oleiro de Estremoz.
 Fotografia do Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
Colecção Joaquim Vermelho.

Fig. 17 - Uma aula do 1º módulo do Curso de Olaria em 2021. Fotografia da ADOE.

Creio que a realização do presente colóquio, integrado neste 1º Encontro Nacional de Olaria, indicia que os trabalhos de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, marcham no bom caminho. Creio igualmente que nessas tarefas de missão é relevante o papel dos coleccionadores, no duplo papel de colectores e de investigadores, produtores de conhecimento, que dão um inestimável contributo para a arte avançar. Daí que me atreva a efectuar aqui, ainda que duma forma sucinta, aquela que é na minha óptica a caracterização da tradição oleira de Estremoz.

Hernâni Matos

terça-feira, 23 de setembro de 2025

A ADOE no rescaldo do 1º Encontro Nacional de Olaria em Évora Monte

 



No passado dia 21 de Setembro tive o privilégio de participar no Castelo de Évora Monte no Colóquio “RECENTRAR - Memória, Barro e Saber-fazer“, integrado no Encontro Nacional de Olaria, que ali teve lugar.

A minha participação foi fruto do honroso convite que me foi formulado pela Senhora Doutora Mathilda Dias Coutinho, coordenadora do projecto de investigação 2LEGACY, no sentido de participar no Colóquio na qualidade de coleccionador e investigador da olaria de Estremoz, convite a que naturalmente acedi e que muito me congratulou.

A minha comunicação subordinada à epígrafe O guardador de memórias e acompanhada de projecção em PowerPoint, teve o seguinte epílogo:

O legado da antiga tradição oleira de Estremoz constitui indiscutivelmente Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal. O legado é caracterizado pela excelência dos exemplares oláricos que o integram, o que é revelador da exigência que constitui a sua recuperação e preservação, visando a salvaguarda da identidade cultural estremocense.

Nessa missão está envolvida a ADOE, cujos associados têm recebido formação continuada, ministrada por Mestre Xico Tarefa, visando o seu aperfeiçoamento técnico e artístico. Tal só foi possível com o apoio indispensável e insubstituível do Município de Estremoz e do CEARTE - Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património.


Se me permitem endereço aqui uma saudação muito especial à Inês Crujo, Presidente da ADOE – Associação Dinamizadora da Olaria de Estremoz, que é a timoneira encarregada de “levar o barco a bom porto”. Parafraseando “O Mostrengo”, da “Mensagem” de Fernando Pessoa, é caso para dizer: “Ali ao leme é mais do que ela. É um povo que quer a olaria que é sua”.


Por fim e os últimos são os primeiros, uma saudação também muito especial para Mestre Xico Tarefa, "decano" da olaria de Redondo, reconhecido pelo seu vigoroso contributo para a preservação da arte oleira, o qual tenho o privilégio de conhecer desde o I Encontro Regional de Olaria do Alto Alentejo, realizado em Vila Viçosa, em 1980, há 45 anos atrás. Tem sido ele que com a sua mestria de saber fazer”, empenho e dedicação que são o seu timbre, tem dado formação aos Adoeiros, desculpem-me o neologismo, para que estes sejam bem-sucedidos na nobre missão a que se propuseram: "Revitalizar a produção oleira tradicional de Estremoz. Bem hajam por isso.

Hernâni Matos

sábado, 2 de agosto de 2025

Dia de Sortes

 

Dia de Sortes. Modelação de Carlos Alberto Alves. Pintura de Cristina Malaquias.
Colecção Hernâni Matos

O Serviço Militar Obrigatório
Nos anos 60 do século passado, Portugal esteve envolvido numa guerra colonial contra os movimentos de libertação das colónias portuguesas. Em Angola desde 1961, na Guiné-Bissau desde 1963 e em Moçambique desde 1964.
Estava em vigor o Serviço Militar Obrigatório, cujo principal objectivo, de acordo com a legislação em vigor, era a defesa da Pátria.

A ida às Inspecções
Aos 18/19 anos os jovens eram convocados para as “Inspecções”. Tratava-se da inspecção militar, que consistia em provas físicas e médicas, visando determinar se os mancebos estavam ou não aptos para serem incorporados no Serviço Militar Obrigatório.
Em Estremoz, as inspecções decorriam no 1º andar do Convento de São João de Deus, onde hoje funciona a Messe de Sargentos e que na época albergava o Hospital Militar.
Identificada à chegada, a rapaziada era mandada “descascar” numa sala e formar em “fila indiana” tal como tinha vindo a este mundo, até ser inspeccionada por uma Junta Médica a funcionar numa sala vizinha. Ali ficavam a saber se tinham sido apurados, ficado livres ou adiados por mais um ano na incorporação militar.

Uma Junta Médica zelosa
Em plena guerra colonial e com falta de carne para canhão, eram dominantes os apurados e raros os livres. Todavia foi este o meu caso, visto que há pouco mais dum ano, vítima dum acidente de viação, vira parte de uma perna amputada ser substituída por uma rudimentar prótese ortopédica. Apesar de tudo, não fiquei livre por simples inspecção visual, já que os senhores “inspectores” me mandaram tirar a prótese ortopédica para eu provar que tinha falta de perna e não havia “marosca” nenhuma para enganar a Junta Médica.

O ingresso na tropa
Os apurados nas inspecções eram incorporados no ano em que cumpriam o 20.º aniversário. Contudo, o período de incorporação podia alargar-se até aos 34 anos se os convocados, vivessem no estrangeiro, estivessem a estudar ou se tivessem um irmão a cumprir serviço no momento da incorporação
No tempo da guerra colonial (1961/1974) o tempo de "tropa" podia chegar a quatro anos ou mais.

Dia de Sortes
O “Dia das Inspecções” era na gíria popular conhecido por “Dia de Sortes”, designação devida ao facto de ser nesse dia que cada mancebo inspeccionado ficava a saber qual a “sorte” que lhe tinha cabido na inspecção militar: apurado, livre ou adiado. A cada sorte estava associada simbolicamente uma fita colorida, de acordo com a seguinte convenção: APURADO=VERDE, LIVRE=VERMELHO, ADIADO=BRANCO.
À saída das inspecções cada jovem identificava-se com a “sorte” que lhe tinha cabido. Para tal exibia a correspondente fita colorida, pregada no peito, no boné ou no chapéu. À sua espera um tocador de harmónio contratado que os acompanhava pelas ruas da cidade, enquanto cada um deles tocava a sua própria pandeireta. Era um modo simples e tradicional de partilhar com a comunidade, o conhecimento da “sorte” que lhe tinha cabido. Era de certo modo, um ritual de puberdade que se extinguiu tal como o Serviço Militar Obrigatório. Era um rito que incluía uma almoçarada bem comida e bem regada que prosseguia pela tarde fora, até o mais ajuizado do grupo, dar ordem de destroçar.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Assobios de se lhes tirar o chapéu


Pucarinho enfeitado (assobio)

LER AINDA


Desde 2019 que venho acompanhando o trabalho da barrista Inocência Lopes e a ele me tenho referido nos meus escritos. Daí que possa afirmar que o mesmo se pauta por um estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz. É, de resto, um trabalho revelador duma busca incessante de perfeição e de um caminho muito próprio.

A barrista, dotada de forte personalidade artística, tem-se afirmado através de um estilo pessoal, caracterizado por marcas identitárias diferenciadoras que a distinguem dos demais barristas.

A minha colecção integrava até agora apenas três trabalhos seus, correspondentes a temas que me são gratos: “Ceifeira”, “Primavera” e “Amor é cego”.  A eles se vieram juntar recentemente quatros assobios: “Pucarinho enfeitado”, “Candelabro enfeitado”, “Terrina enfeitada” e “Arco enfeitado”, encomendados há um ano atrás, no acto inaugural da sua exposição no Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz. Tal facto é revelador de que a barrista “não tem mãos a medir”, o que muito me congratula, por confirmar o reconhecimento público do trabalho da barrista.

Os assobios criados por Inocência Lopes, constituem uma verdadeira mudança de paradigma. Na verdade, os assobios de barro vermelho de Estremoz integravam até então na sua decoração uma figura zoomórfica, antropomórfica ou mista. Com Inocência Lopes, os assobios passam também a incorporar espécimes de olaria enfeitada como elementos decorativos. Trata-se de uma inovação visualmente harmoniosa, que eu aplaudi e subscrevi, assim que se tornou conhecida.

Com tais criações a barrística de Estremoz ficou mais rica e a barrista prestou uma singela homenagem às bonequeiras de setecentos que estiveram na criação das peças de olaria enfeitada.

Bem-haja, Inocência Lopes. Estamos todos de parabéns.

Hernâni Matos


Candelabro enfeitado (assobio)

Terrina enfeitada (assobio)

Arco enfeitado (assobio)