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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Veiros: quem protege os moradores da Eira da Pedra Alçada?


Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

Veiros:
quem protege os moradores da Eira da Pedra Alçada?

Maria Helena Figueiredo
Membro da Mesa Nacional e da Comissão Coordenadora
Distrital de Évora do Bloco de Esquerda
Texto transcrito com a devida vénia,
do jornal Brados do Alentejo, de Estremoz,
do dia 13 de Fevereiro de 2020

Fotografias enviadas
     por um morador do local 


A construção da barragem de Veiros, em meados de 2015 e a que correspondeu um investimento público de cerca de 25 de milhões de Euros, veio responder a uma aspiração antiga e com ela a água tornou-se acessível à agricultura.

Ao contrário do que seria uma vantagem para Veiros com a água vêm os projectos de agricultura intensiva e super intensiva, os impactos negativos para o ambiente e um pesadelo para muitos dos que lá vivem.

Junto ao Bairro da Eira da Pedra Alçada, está a ser preparado o terreno para instalação de um olival intensivo ou super intensivo, numa propriedade que chega mesmo junto às casas ali existentes, o que está a preocupar, com razão, quem lá vive.

Escassos 10 ou 15 metros separam os muros das habitações que ali existem dos terrenos que estão já a ser preparados para o futuro olival intensivo.

A plantação de olival intensivo vai chegar perto das casas e há um conjunto de questões de saúde pública que se levantam e que, com razão, preocupam a população ali residente e relativamente às quais as entidades responsáveis parecem não dar qualquer importância.

Como todos sabemos estas culturas desenvolvem-se de forma rentável pelo recurso a um elevadíssimo consumo de água, da ordem dos 4.000 a 7.000 m3 por ha, e à aplicação de adubos e de fitofármacos que produzem fortíssimos impactos no ar que se respira, no solo e nas águas de superfície e subterrâneas.

Mesmo nos casos em que a produção é desenvolvida em modo integrado, ou seja, seguindo regras menos danosas para o ambiente, a instalação de um olival intensivo (e mais ainda super intensivo) implica sempre a aplicação adubos, de fungicidas e pesticidas e pulverizações regulares, que sujeitarão a população a respirar o ar contaminado com estes produtos.

Muitos destes produtos são glifosatos, muito perigosos para a saúde humana e vão ser aplicados junto às habitações.

Também a utilização de fertilizantes e pesticidas vai poluir as águas superficiais e subterrâneas, águas de poços que muita desta população utiliza.

De acordo com a legislação em vigor, a aplicação destes produtos em zonas urbanas é sujeita a um conjunto de regras, mas neste caso, como será numa exploração agrícola, nenhuma dessas precauções será aplicável, apesar de as casas estarem a escassos 10 ou 15 metros.

Legitimamente os moradores estão muito preocupados e receosos. Quais as consequências para a sua saúde e a dos seus filhos e netos por estarem a respirar regularmente ar contaminado pelas pulverizações de químicos? Como vão garantir que a qualidade da água dos poços e furos não é afectada pela drenagem dos fitofármacos e adubos e como vão continuar a comer a produção dos seus quintais? Quem quererá viver com um olival intensivo à porta de casa e quem quererá comprar as suas casas se quiserem ou tiverem que as vender?

O que está em causa já não é apenas o impacto ambiental destas culturas super intensivas, o consumo excessivo de água ou a salinização e sodificação dos solos. O que está em causa em Veiros é, no imediato, a saúde pública destes moradores e nenhum argumento tornará admissível que se instalem culturas intensivas a 10 ou 20 metros das habitações, seja em Veiros seja noutro qualquer local.

As entidades públicas questionadas pelos moradores não tem dado respostas ou quando as dão  pouco adiantam,  como foi o caso da Junta de Freguesia, que questionou os promotores do projecto, os quais, naturalmente, terão defendido que o mesmo não constituía qualquer perigo para a população, tendo a Junta concluído que se tudo for como os promotores dizem não haverá prejuízo, incómodo ou perigo para os moradores.

E se não for assim?

Hoje sabemos, pela experiência de muitas populações, em particular no Baixo Alentejo, que a sua qualidade de vida e a sua saúde estão fortemente ameaçadas com a instalação de olivais e amendoais intensivos e super intensivos perto das habitações.

E porque sabemos, não é admissível que os poderes públicos fechem os olhos a situações destas, omitindo a sua obrigação primeira que é a protecção das populações.

Exige-se, por isso que, quer a Câmara Municipal de Estremoz, quer a Junta de Freguesia de Veiros, quer os Ministérios da Agricultura e da Saúde, desenvolvam todas as acções ao seu alcance para proteger os moradores de Veiros, em especial da Eira da Pedra Alçada.

E que o façam agora, enquanto é tempo.


Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

domingo, 18 de agosto de 2019

E vão quantos?




E vão quantos?
A resposta a esta sacramental pergunta é unívoca: 73. Fui parido no ano de 1946. No que respeita às centúrias: 1 e 9 são 10, noves fora 1. No referente a decénios, 4 e 6 são 10, noves fora 1. Também no que concerne à idade, 7 e 3 são 10, noves fora 1. Como estão a ver, a minha cronologia assenta no 1. É a revelação de que sou único, singular, excepcional e sem igual. Acontece ainda que nasci em Agosto. Daí que seja leónico e solar. O resto vem por acréscimo, tanto defeitos como qualidades.

E que tenho sido eu?                      
A sinopse da minha vida pessoal regista como marcos principais os seguintes: Parido, bebé de fraldas, puto de bibe e peão. Gaiato de calções, usei a opa da Igreja e como lusito marquei passo nas formaturas da Mocidade Portuguesa. Revoltado na Instrução Primária porque tive um professor que nunca o devia ter sido. Miúdo de Liceu, tornei-me um jovem descrente por tudo aquilo que via à minha volta. Corredor de fundo e saltador em altura, fui amputado para me deixar dessas coisas. Todavia, reaprendi a marchar, a andar de bicicleta e a dançar, já que nadar nunca se esquece. Concluí o Curso Liceal e fiquei livre da tropa, sem necessidade de fugir à guerra colonial. Na época já tinha consciência política, graças a alguns professores, ao meu pai e a amigos mais velhos com os quais acompanhava. Entrei na Universidade e no movimento associativo estudantil, fiz greves e manifestei-me, já que se vivia em plena crise académica e eu tinha o Maio de 68 na massa do sangue. Estudei que era por isso que por ali andava, fiz poesia e integrei o movimento desintegracionista. Quando dei por mim tinha acabado o curso. Físico, tornei-me professor sem querer e fui mestre-escola durante 36 anos.  
Pelo meio, amei, casei, fui pai e muitas vezes fui feliz. Recentemente, os meus alicerces deram de si e cheguei a estar do outro lado. Vagueei entre aquilo que dizem ser o céu, o inferno e o purgatório. Em todos estes locais fui rejeitado. Dai a razão de estar hoje aqui.
Falta-me plantar uma árvore, tarefa adiada porque me doem as costas. Para o ano logo se vê. E se Deus não quiser? - perguntarão alguns. A resposta é simples. Fica a árvore por plantar e eu curado das costas.

E que mais?
Desde os longínquos tempos do bibe e do pião que sou recolector de objectos materiais que me enchem as medidas. Assim me tornei filatelista, cartofilista, bibliófilo e ex-librista. Para além disso, o fascínio da ruralidade e o culto da tradição oral, levaram-me a reunir objectos que integram o registo da identidade cultural alentejana. Daí que por necessidade me tenha tornado investigador, historiador, etnógrafo e etnólogo com interesses pessoais na história local e na arte popular alentejana, muito em especial a arte pastoril e a barrística popular estremocense. Tenho montado exposições iconográficas, apresentado comunicações e como escritor, jornalista e blogger, tenho publicado livros e textos que constituem o reflexo da minha intervenção cívica. Para além disso, sou ambientalista, libertário, igualitário, solidário, livre pensador e, é claro, franco-atirador.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Despedida Breve


Hernâni Matos (Cronista do E, que vai de férias e tudo.).

Esta coluna teve início em 22 de Maio de 2014 no número 104 deste jornal. Desde então decorreram 4 anos e esta coluna foi editada 96 vezes, o que se nos concede louros pela tenacidade, também nos confere especiais responsabilidades perante os leitores, nossos companheiros de estrada jornalística.
Estes 95 números constituíram uma caminhada com o leitor, ainda que não houvesse nem haja caminho, como nos ensina o poeta sevilhano António Machado (1875-1939): Caminhante, são teus rastos / o caminho, e nada mais; / caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar. / Ao andar faz-se o caminho, / e ao olhar-se para trás / vê-se a senda que jamais / se há-de voltar a pisar. / Caminhante, não há caminho, / somente sulcos no mar...
Esta coluna assumiu-se então como trincheira, tribuna e espelho. Trincheira na defesa da portugalidade, da língua portuguesa, do regionalismo, da tradição, da alma alentejana, da liberdade de pensar e do direito de opinar. Tribuna de defesa da razão, da justiça, da solidariedade, do amor, da liberdade e da procura de novos caminhos. Espelho dos nossos estados de alma, das nossas preocupações, das nossas motivações, dos nossos anseios, dos nossos sonhos e dos nossos desejos. E na altura também proclamámos: Não seguiremos cartilhas, não seremos a voz do dono, nem faremos de papagaios reais. Não somos súbditos de ninguém, nem prestamos vassalagem a ninguém. Temos dificuldade em dobrar a coluna vertebral, já que a nossa mãe nos pariu assim.
Decorridos que são 4 anos, é possível constatar que assim foi e que não ocorreu qualquer desvio relativamente aos princípios formulados. Esta coluna abrigou crónicas que constituíram exercícios de cidadania na defesa do património cultural material e imaterial local e regional, bem como da qualidade de vida. Defesa igualmente da identidade cultural alentejana, da valorização das tradições e da Arte e Cultura Populares.
Como exercícios de cidadania, as crónicas procuraram exercer junto do leitor, um papel pedagógico, simultaneamente informativo e formativo, ao apresentar questões e destacar problemas cuja resolução urge em termos de “Res publica”. Foram crónicas que tiveram um retorno positivo por parte dos leitores e que constituíram um incentivo no sentido da sua continuidade. Tem sido com prazer que temos caminhado com o leitor, já que temos o jornalismo na massa do sangue. Apesar de tudo, há outras solicitações a que estamos submetidos, nomeadamente no campo da edição literária e que nos estão a exigir um esforço redobrado, que não é compatível com o exercício regular do jornalismo. Daí que tenhamos sido obrigados a tomar opções, que se traduziram na interrupção da actividade jornalística. Esta não constitui uma deserção ou uma rendição do Franco-atirador, já que como sentinela do Povo, o nosso lugar é aqui no exercício da cidadania e com espírito de missão laica, em defesa de valores universais, democráticos e plurais, dos quais não prescindimos.
Cremos que o leitor respeitará as nossas opções e regressaremos assim que pudermos. Parafraseando o conto de José-Augusto França, diremos que será uma “Despedida Breve”.

Cronista do E, que vai de férias e tudo.
(Texto publicado no jornal E nº 199, de 03-05-2018) 

quinta-feira, 8 de março de 2018

Chove em Santa Maria


Estremoz - Igreja Matriz de Santa Maria

Chove que Deus a manda. A chuva tudo molha, inclusive a Casa de Deus (Leia-se Igreja Matriz de Santa Maria no Castelo). Chove em Estremoz, chove no Castelo, chove em Santiago. Só não estamos no filme de HelvioSoto, com Jean-Louis Trintignant e Annie Girardot, datado de 1975. Estamos em Estremoz, onde no Ano de Graça de 2018, os pombos vadios têm livre-trânsito municipal para defecarem onde lhes der na real gana, por tal convir à sua natural necessidade.
Há muitas vítimas de tal monumental e continuada defecação. Desta feita foi o Templo situado no coração do Centro Histórico da cidade. Os telhados povoados pelas necessidades dos columbídeos foram lavados pela chuva abundante e os dejectos escorreram por aí baixo, causando entupimentos, que fizeram com que chovesse no interior da Casa de Deus. Eu sei, porque passei por lá. Que querem que vos diga? Apenas uma coisa. Que estes animais de penas não deviam ter livre-trânsito municipal para arrear o calhau onde lhes aprouver.

Hernâni Matos
Cronista do E, ambientalista e tudo.
(Texto publicado no jornal E nº 195, de 08-03-2018)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Pedonalização da rua de Santo André


Uma imagem habitual do estacionamento na rua de Santo André.

A rua de Santo André, que na parte baixa do Centro Histórico de Estremoz, liga a Praça Luís de Camões ao Largo dos Combatentes da Grande Guerra, irá ser encerrada ao trânsito automóvel e ficará reservada ao trânsito pedonal.
PEDU inicial e PEDU final
A pedonalização da rua de Santo André está prevista no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano do Município de Estremoz (PEDU ETZ). Este foi objecto de um contrato celebrado a 31 de Maio de 2016, em Santa Maria da Feira, entre a Autoridade de Gestão do Programa Operacional Regional do Alentejo e o Município de Estremoz.
O PEDU inicial contém a medida “4.5 Promoção de estratégias de baixo teor de carbono para todos os tipos de território, nomeadamente as zonas urbanas, incluindo a promoção da mobilidade urbana multimodal sustentável e medidas de adaptação relevantes para a atenuação”. É nesta medida que se insere a Intervenção “Criação de Via Pedonal - Rua de Santo André”, a ser promovida pelo Município de Estremoz, a que corresponde um investimento público de 150.000 €, dos quais 127.000 € (85%) são financiados pelo FEDER.
Por sua vez, o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano 2015 | 2020 do Município de Estremoz – PEDU final, reitera a intenção da referida intervenção, que se traduzirá no encerramento do trânsito na rua de Santo André. Com tal intervenção, visa o Município eliminar os problemas relacionados com o estacionamento ilegal, que provoca congestionamento no atravessamento do trajecto, bem como incentivar a mobilidade pedonal e a dinamização do comércio local. Este último documento fixa o período temporal da intervenção em 2016-2018 e revela o custo da intervenção como sendo 170.000 €, montante que substituiu o investimento público de 150.000 €, anteriormente previsto.
Consultando o website do “ALENTEJO 2000”, Programa Operacional Regional do Alentejo para o período 2014-2020, disponível em: http://www.alentejo.portugal2020.pt/index.php/projetos-aprovados/category/73-projetos-aprovados, constata-se que aquela intervenção não integra o conjunto de operações aprovadas à data de 30 de Setembro de 2017, o que causa alguma perplexidade, uma vez que já nos encontramos no ano em que deveria findar o período temporal da intervenção. Faço votos para que a pedonalização prevista para a rua de Santo André, transvaze do papel para a rua, do que tenho dúvidas, uma vez que não é conhecido qualquer projecto de pormenor.
História possível duma rua
A rua de Santo André recebeu esta designação, por se localizar nas traseiras da monumental Igreja Paroquial de Santo André, imponente no seu estilo barroco, cuja construção foi iniciada em 1705 e que viria a ser inaugurada em 15 de Setembro de 1725. A 8 de Outubro de 1940, abateu a nave central da Igreja, que reconstruída em 1944, viria a ser demolida em 1960, para ali ser edificado o actual Palácio da Justiça, inaugurado a 3 de Abril de 1964.
A rua de Santo André remonta ao séc. XVIII e tem início no nº 1, casa setecentista com sacadas de ferro, a que há que juntar outras duas em iguais circunstâncias, situadas nos nºs 12 e 30, bem como outra mais modesta, identificada com o nº 10, cuja fachada exibe um registo de 4 azulejos com duas alminhas e a inscrição P.N.A.M. Trata-se de uma manifestação de religiosidade popular, envolvendo uma representação de almas de defuntos no Purgatório, implorando aos vivos que orem por elas, a fim de se poderem purificar e ascender ao Céu.
A rua, de sentido único, nos anos 50 do séc. XX chegou a ter circulação automóvel no sentido inverso. Actualmente vocacionada para o comércio, desde o derrube da Igreja de Santo André em 1960 que não dispõe à entrada de uma placa toponímica. Foi uma das poucas que na parte baixa do Centro Histórico não foi vítima da sanha alcatroadora do Município, nos anos 90 do séc. XX.
Estado actual da rua
A degradação da rua é notória, sendo de salientar múltiplas situações chocantes: - Estacionamento ilegal por parte de quem não respeitando os direitos de cidadania dos outros, congestiona o trânsito sem ser penalizado, devido a inércia da PSP local; - Piso irregular, devido a múltiplos abatimentos causados pela travessia de veículos pesados e pela cedência de esgotos com tampa de laje, provavelmente do 1º quartel do século passado; - Passeios que aqui e além têm pedras soltas ou ausência de pedras, devido a múltiplas intervenções de prestadores de serviços, que a fiscalização do Município por inércia não monitorizou; - Restauração e comércio da zona, que vertem todos os desperdícios em 4 contentores ali existentes, à excepção das garrafas que depositam no vidrão, ignorando olimpicamente os ecopontos situados no largo da República e na rua 5 de Outubro; - Lixo junto aos contentores e que cai dos mesmos, quando o seu conteúdo é vazado pelos cantoneiros de limpeza na camioneta do lixo; - Contentores que são lavados e desinfectados com pouca frequência; - Falta de remoção de vegetação espontânea por parte de cantoneiros de limpeza; - Varredura cuja qualidade oscila entre a deficiência e a ausência da mesma; - Depósito pelo público de lixos grossos junto aos contentores, fora dos dias a isso destinados; - Bêbados que vão urinarem junto às paredes do Palácio da Justiça; - Deficiente iluminação da rua; - Autismo por parte de quem devia fazer cumprir a lei e não faz, fingindo desconhecer todo o desperdício e porcaria que por ali grassa.
Pedonalizar, sim! Mas como?
Morador na rua desde 1973 (há 45 anos), encaro com bons olhos a pedonalização equacionada pelo Município, uma vez que a mesma se pode traduzir no aumento da qualidade de vida de quem por aqui vive e trabalha. Todavia e uma vez que desconheço a existência de qualquer projecto de pormenor, não posso assegurar que entre mim e o Município possa existir identidade de pontos de vista acerca da pedonalização.
A meu ver, esta deveria passar por: - Remover toda a calçada e passeios; - Renovar os esgotos e a rede de distribuição de água às casas; - Utilizar a abertura de valas para implantar uma conduta que pudesse alojar cabos de fornecimento de sinal eléctrico, telefónico ou de televisão, que permitisse eliminar toda a parafernália de cabos que inesteticamente cruzam a rua de um lado para o outro, com os quais os fornecedores de sinal têm poluído visualmente a cidade; - Eliminar as sarjetas; - Calcetar a rua, de modo que a calçada ficasse ligeiramente inclinada da periferia para o eixo central, no qual existiriam espaçadamente grelhas de ferro para escoamento de águas pluviais; - Levar os proprietários dos edifícios a fazer escoar os algerozes dos telhados directamente para a rede de escoamento de águas pluviais; - Implementar um ecoponto no local onde se encontram actualmente os contentores; - Pavimentar a rua com calçada à portuguesa, preferencialmente com representações do Figurado em Barro de Estremoz, já que a sua Produção integra a Lista Representativa do Património Cultural da Humanidade; - Melhorar a iluminação da rua.
Com uma pedonalização executada do modo apontado, a rua ficaria catita e a intervenção poderia constituir um projecto-piloto para que Estremoz pudesse, de facto, ter mais encanto. Os munícipes agradeceriam.

Hernâni Matos
Morador há 45 anos na rua de Santo André
(Texto publicado no jornal E nº 194, de 22-02-2018)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

No mesmo mar navegamos…



No tempo da outra senhora
No tempo da outra senhora, a teia de interesses urdida pela aranha salazarista, obrigava quem se candidatasse a integrar a função pública, a ser forçado a subscrever um documento com assinatura reconhecida, no qual se expressava: “Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. Estava-se no regime de partido único que através da castração política, exigia fidelidade canina e obediência cega ao então suposto bem amado chefe e dono disto tudo.
“Brados do Alentejo” e “E”
Entre nós, nesta terra transtagana, existem dois jornais locais: o “Brados do Alentejo” e o “E”, cada um deles à sua maneira, ao serviço de Estremoz e do seu termo. São jornais plurais, não só pelo que está consignado nos respectivos estatutos editoriais, mas também pela prática salutar de a um jornalismo factual e noticioso, acrescerem um jornalismo de análise e de opinião, subscrito com o nome dos seus autores, o qual chancela indelevelmente aquilo que pensam, acreditam, defendem e propõem.
A matriz pluralista de cada um dos jornais está na origem da sua bateria de colaboradores se espraiar por um espectro largo de visões do mundo e da vida, que vão do CDS ao BE, passando pelo PSD, PS e PCP, englobando também aqueles que não se revêem em nenhuma destas opções do catálogo ideológico.
Um desses jornais, o “E”, inclui uma página onde em cada número e sob a epígrafe “Parlamento”, os representantes das várias áreas ideológicas respondem a uma questão de índole local ou nacional, formulada por um deles, situação na qual se vão sucessivamente revezando. Neste “Parlamento” é notória a ausência de quem quer que seja que dê a cara pela associação local MIETZ. Não porque ali e o mesmo acontece no outro jornal, se ostracize esta Associação, mas simplesmente por que esta decidiu não participar no “campeonato”, não se sabe se por não ter argumentos sólidos ou se por excesso de auto-estima, não se querer confrontar com os outros, ao atribuir-se a si próprio o estatuto de pertencer a um escalão superior, no qual é como que um partido único.
Quem não é por nós, é contra nós
E vá daí, o Presidente da associação local MIETZ proclama que os “Brados do Alentejo” e o “E” são boletins do Partido Socialista. Trata-se de uma forma redutora de catalogar um jornalismo livre e independente que recusa algemas, mordaças e vendas, que se as aceitasse, o reduziriam à condição dócil de ser “a voz do dono”. Honra e glória, pois, aos dois jornais locais que, cada um deles à sua maneira, se comportam como os irredutíveis Astérix e Óbélix, na Gália ocupada pelo usurpador romano.
Navegar é preciso
Os “Brados do Alentejo” e o “E” são jornais pluralistas nesta terra transtagana, na qual alguém sonhou, sem todavia o conseguir, impor a “lei da rolha” e o “delito de opinião”.
Se os “Brados do Alentejo” e o “E” são boletins do Partido Socialista, todos os seus colaboradores, repórteres e cronistas, do BE ao CDS, estão na mesma nau. Somos todos “socialistas”, não necessariamente à António Costa ou à Catarina Martins, mas também à Jerónimo de Sousa, à Rui Rio ou à Assunção Cristas. No mesmo mar navegamos, à procura de bom porto.
Cronista do “Jornal E” e dos “Brados do Alentejo”

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A berardização da paisagem rural


Herdade das Carvalhas na estrada da Glória (Estremoz).

A identidade cultural alentejana       
O Alentejo tem marcas identitárias que o distinguem de qualquer outra região do país. São elas: a paisagem, o carácter do povo alentejano, a casa tradicional, o traje popular, os produtos regionais (ervas medicinais, azeites, vinhos, queijos, enchidos), a gastronomia, a arte popular, a tradição oral (adagiário, lendas, adivinhas, lengalengas, gíria popular, alcunhas, cancioneiro), o folclore (cante e saias), os jogos populares, os usos e costumes, etc.
Estas marcas identitárias conferem uma imagem de marca ao Alentejo, da qual muito justamente se orgulham e com a qual se identificam os alentejanos, tanto naturais como adoptivos. É o somatório desses timbres e da oferta turística, que é gerador de fluxos visitadores que muito contribuem para a economia regional. Daí ser preciso, imperioso e urgente que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento. Essa a razão da presente crónica.
A subversão das marcas identitárias
Quem transita pela estrada da Glória, ao chegar à Herdade das Carvalhas, fica atónito com a mudança de visual. A começar pela nova designação, que depois de travestida passou a ser a da marca “Quinta do Carmo”. Depois, ressalta à vista, a plantação de palmeiras de estaca, junto ao muro que bordeja a estrada. E por fim, blocos de mármore, pintados com cores variegadas e empilhados uns sobre os outros, formando conjuntos de altura variável. Que farão ali naquele cais? Será que aguardam a chegada de camiões de carga que os transportem ao Carnaval de Cascais? Não creio.
Não sou arquitecto paisagista, mas como regionalista convicto e esclarecido, julgo ser legítimo concluir que estamos perante um exemplo manifesto de lamentável “berardização” da paisagem rural. Aos que possam desconhecer a semântica de tal conceito, direi em bom e puro alentejano que consiste em “albardar o burro à vontade do dono”, manifestando um desprezo olímpico pelos usos e costumes locais, consignados pela tradição.
Dir-me-ão alguns que por ali não há burros e não me custa admitir que assim seja. Já quanto a camelos não estou tão certo, uma vez que é uma associação inescapável a que sou conduzido pela presença intrusa das palmeiras.
A prima Hifigénia, mulher de virtudes e com dotes de pitonisa era capaz de agourar:
- Para a imagem de califado ser ainda mais forte, só ali faltam tendas com beduínos a fumar narguilé, já que camelos não devem faltar.
Todavia e com grande mágoa minha, a prima já não pertence ao reino dos vivos. Contudo, o registo memorial das suas sábias alocuções, permanece perene nos nossos espíritos.

Hernâni Matos 
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-01-2018)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Reabilitação urbana da cidade de Estremoz - III


Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz.

O usufruto da cidadania passa pelo exercício dos direitos à mobilidade, a  espaços colectivos de fruição universal e à qualidade do ar. Que fazer para os conseguir foi o que me propus aqui analisar.

Uma cidade mais humana
A cidade deve proporcionar aos seus habitantes um sentimento de pertença e de segurança, já que o desfrute da cidadania pressupõe entre outros o direito à mobilidade, a espaços colectivos de fruição universal e à qualidade do ar e da água. Cada um destes direitos merece uma análise mais detalhada. Assim: - DIREITO À MOBILIDADE – A autarquia deve assegurar o direito à mobilidade, em especial da população sénior ou portadora de deficiência física ou doença, disponibilizando transporte público adaptado à realidade local, bem como combatendo a utilização indevida do espaço público, nomeadamente o estacionamento automóvel sem rei nem roque nos passeios, muitas vezes em locais onde nem sequer é permitido estacionar; - ESPAÇOS COLECTIVOS DE FRUIÇÃO UNIVERSAL – Os espaços públicos devem ser livres, inclusivos, acessíveis, ecológicos e de qualidade, propiciadores de interacção social, cultural, geracional e política, com reconhecimento das necessidades específicas e vulnerabilidades, entre as quais há que ter em especial atenção a população mais idosa e com necessidades especiais motivadas por deficiência física; - QUALIDADE DO AR E DA ÁGUA – Os efeitos das alterações climáticas resultantes da poluição, fazem sentir-se a nível local. Não é admissível que alguém polua e contamine bens e recursos comuns. A autarquia deve fiscalizar as fontes de poluição da água, o que na cidade passa pelo combate ao despejo de poluentes nos esgotos. A autarquia deve também dar o seu contributo para a preservação da qualidade do ar, o que passa pela redução das emissões de dióxido de carbono.
     
Um instrumento de concretização
Em Julho de 2016, o Sector de Gestão Urbanística, Planeamento e Projecto Municipal da CME, elaborou um “PLANO DE PORMENOR DE REABILITAÇÃO URBANA – CIDADE DE ESTREMOZ”, visando a captação de fundos comunitários através do programa “Estratégia Europa 2020 – Portugal 2020”.
Entre os dezassete OBJECTIVOS GERAIS do Plano, destaco: “- Promover a sustentabilidade ambiental, cultural, social e económica dos espaços urbanos; - Promover a melhoria geral da mobilidade, nomeadamente através de uma melhor gestão da via pública e dos demais espaços de circulação; - Promover a criação e a melhoria das acessibilidades para cidadãos com mobilidade condicionada.”
Por sua vez, entre os dezasseis OBJECTIVOS ESPECÍFICOS do Plano, saliento: “ - Melhorar o ambiente urbano, promovendo a mobilidade sustentável e a coesão urbana, garantindo uma melhor mobilidade, que contribua para qualidade ambiental e do espaço público, facilitando as deslocações pedonais, limitando o tráfego automóvel de atravessamento e ordenando restritivamente o estacionamento, bem como divulgando pontos de interesse turístico; - Aumentar as áreas de estadia e usufruto do espaço público; - Reabilitar o espaço público, equipamentos e infra-estruturas de suporte, situados a Sul e a Este do Rossio Marquês de Pombal e melhorar as condições de utilização do mercado de sábado”.

Medidas a tomar
Os direitos à mobilidade, a espaços colectivos de fruição universal e à qualidade do ar, estão interrelacionados.
A melhoria da qualidade do ar que respiramos e da qualidade de vida, passa pelo fomento do trânsito pedonal e de velocípedes sem motor, bem como pela diminuição do trânsito automóvel, o que pode ser conseguido pela dissuasão da utilização de veículos poluentes. À semelhança do que se passa noutras cidades, na zona central da cidade com vocação comercial, o estacionamento deve ser pago, salvaguardando residentes e comerciantes, o que longe de prejudicar o comércio tradicional só o potencia e valoriza. Em complemento devem ser criadas bolsas de estacionamento alternativo, na periferia da cidade, tanto para residentes como para visitantes. Com medidas deste tipo devolve-se a cidade aos cidadãos.

Rossio Marquês de Pombal
O Rossio Marquês de Pombal, uma das maiores praças do país, devia ter uma dignidade que não tem. Noutros locais há muito que a praça central se tornou num espaço de convívio cidadão. A talho de foice: Lisboa, Évora, Póvoa de Varzim, etc.
Entre nós, a praça central continua a funcionar como parque de estacionamento caótico, uma vez que por incúria do Município não estão delimitados espaços de estacionamento nem de circulação. A continuar a ser parque de estacionamento deveriam ser supridas aquelas omissões. E é claro que o estacionamento devia ser pago como forma de dissuadir a circulação automóvel no centro da cidade e melhorar a qualidade de vida de todos nós.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Reabilitação urbana da cidade de Estremoz - II


Fachada da Igreja do Convento de São Francisco de Assis, em Estremoz.

Os pombos vadios que proliferam na cidade de Estremoz, constituem uma praga atentatória da sanidade, da higiene e do bem-estar dos cidadãos. Urge fazer-lhe frente.

Os pombos vadios
Os pombos vadios (pombos de cidade ou pombos errantes) são o objecto da presente crónica”. Os pombos-correios e os pombos bravos não são para aqui chamados.
Os pombos vadios estão espalhados pela cidade de Estremoz, pondo em causa a sanidade, a higiene e o bem-estar dos cidadãos. Vejamos porquê.
Cada pombo produz cerca de 12 quilos de fezes por ano, contendo 17% de ácido fosfórico e 3,3% de ácido sulfúrico. Algumas dessas fezes são expulsas nos locais onde se asilam, mas tombam também em espaços públicos onde atingem cidadãos e automóveis, assim como espaços privados tais como telhados, varandas e estendais.
As fezes, de natureza ácida, corroem metais, descoram pedras e pinturas de edifícios, apodrecem madeira, danificam coberturas provocando infiltrações, assim como as pinturas dos automóveis de forma irreversível.
As penas, sós ou conjuntamente com as fezes, entopem algerozes, caleiras e ralos, pondo em causa o estado de telhados que vêem a sua capacidade de escoamento diminuída, originando infiltrações no interior dos edifícios.
Os pombos podem também transmitir doenças ao homem. De facto: - A inalação de partículas de poeiras provenientes de excrementos secos, causa infecções agudas no sistema respiratório (criptococose, e histoplasmose), sendo o risco maior nas camadas mais vulneráveis da população: crianças, idosos e pessoas com sistemas imunitários enfraquecidos, como os doentes de cancro ou VIH/SIDA; - A ingestão de alimentos crus ou mal cozinhados, contaminados com fezes de pombos, causa gastroenterites graves; - A inalação de aerossóis das fezes provoca tuberculose aviária; - O contacto com fezes secas, ectoparasitas e penas pode ainda causar problemas alérgicos e respiratórios, entre outros. – A nidificação de pombos por detrás de aparelhos de ar condicionado, contamina a qualidade do ar.

Melhorar o ambiente urbano
Em Julho de 2016, o Sector de Gestão Urbanística, Planeamento e Projecto Municipal da CME, elaborou um “PLANO DE PORMENOR DE REABILITAÇÃO URBANA – CIDADE DE ESTREMOZ”, visando a captação de fundos comunitários através do programa “Estratégia Europa 2020 – Portugal 2020”.
“Melhorar o ambiente urbano” é um dos múltiplos objectivos a atingir através daquele Plano, o qual considera dever ser concretizado através da promoção da “mobilidade sustentável e a coesão urbana, garantindo uma melhor mobilidade, que contribua para qualidade ambiental e do espaço público, facilitando as deslocações pedonais, limitando o tráfego automóvel de atravessamento e ordenando restritivamente o estacionamento, bem como divulgando pontos de interesse turístico.” Acho tudo isto excelente e louvável. Todavia, a meu ver, a melhoria do ambiente urbano deve também ser orientada noutras direcções. Uma delas passa por encarar de frente a praga de pombos vadios que proliferam na cidade de Estremoz. É um problema real a que urge fazer frente em nome da sanidade, da higiene e do bem-estar dos cidadãos. De acordo com a legislação em vigor é o Município quem tem competências para o fazer no exercício das suas atribuições nos domínios da defesa da saúde pública e do meio ambiente. Pois que o faça!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Morra o saco de plástico! Morra! Pim!

Rua Vitor Cordon, Estremoz, 1955. Fotografia de Henri Cartier-Bresson.
Ao fundo do lado esquerdo, um camponês carrega dois taleigos.

Desde tempos imemoriais que nas suas deslocações, o Homem teve necessidade de transportar mercadorias e entre elas, alimentos. Para tal, com a sua imaginária inventou sabiamente recipientes que facilitavam o seu transporte e que eram fáceis de manufacturar a partir daquilo que a Terra dá: - cestos de vime ou de cana; - alcofas de esparto, sisal, palha ou ráfia; - alforges de lã ou de couro; - taleigos de linho, lã, algodão ou seda, muitas vezes confeccionados por mãos femininas a partir de retalhos ou primorosamente bordados.
Quando se danificavam e ficavam impedidos de cumprir a sua missão, eram lançados à Terra Mãe que os tinha gerado e cujas entranhas, após degradação, passavam de novo a integrar:  “Todos saem do pó e para o pó voltam (Eclesiastes 3:20).
A utilização de recipientes como cestos, alcofas, alforges e taleigos está profusamente documentada nas iluminuras que ilustram os códices medievais e renascentistas, bem como em quadros pintados nos séculos posteriores.
Em meados do século passado, era vulgar a utilização de qualquer daqueles recipientes. Do mercado trazia-se fruta num cesto e batatas e hortaliça numa alcofa. Havia um taleigo para o pão, outro para os queijos, bem como outro para o feijão ou para o grão. Pagava-se com moedas ou notas que se traziam num taleigo dentro dum bolso. Eu, puto de bibe e de pião, tinha um taleigo para os berlindes e outro para os botões.
Nas mercearias e drogarias, as mercadorias eram embaladas em cartuchos de papel ou embrulhadas nele. O mesmo se passava com os medicamentos nas farmácias. Nas retrosarias, os tecidos, os acessórios ou a roupa confeccionada, eram embrulhados em papel.
Dos locais de compra, as mercadorias eram transportadas em taleigos, cestos ou alcofas, que se levavam de casa. E a vida lá ia decorrendo, em equilíbrio harmónico do Homem com a Terra Mãe. Todavia, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, foi assumindo importância crescente a nível mundial, uma matéria-prima conhecida genericamente por plástico, a qual por ganância da indústria química, passou a ser utilizada em tudo e mais alguma coisa, nomeadamente no fabrico de sacos de plástico.
Por influência maléfica do marketing agressivo daquela indústria, os comerciantes avalizam então uma política de utilização dos sacos de plástico, vantajosa para os fabricantes. É veiculada a mensagem errónea de que é chique ir às compras, de mãos a abanar, porque lá nos dão sacos de plástico. Como se o custo dos sacos não estivesse incluído no valor da transacção. Porém, toda a moeda tem duas faces. Foi assim que os cientistas descobriram que na prática, o plástico deve ser considerado como não biodegradável, uma vez que o seu tempo de decomposição, oscila entre os 100 e os 500 anos, dependendo do tipo de plástico. Uma tal estimativa, traduz a dificuldade de o plástico se fundir com a Terra Mãe, a qual irreversivelmente irá poluir, quebrando o ancestral equilíbrio harmónico entre os materiais perecíveis e a Natureza. Foi então que a responsabilidade social dos cientistas, os induziu a advogar a reciclagem do plástico, bem como o abandono do seu uso.
Em nome da sobrevivência, a civilização que inventou o saco de plástico, vê-se forçada a marginalizá-lo e a substitui-lo por produtos amigos do ambiente. É caso para dizer:
- VIVA O TALEIGO! VIVA!
- MORRA O SACO DE PLÁSTICO! MORRA! PIM!


A barrista Liberdade da Conceição (1913-1990), pintando Bonecos de Estremoz
na Exposição do Mundo Português. Do lado esquerdo da cadeira está  pendurado
 um taleigo. Imagem do filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)",
de António Lopes Ribeiro

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Pedalar é preciso

Foto recohida no grupo de Facebook “Massa crítica Lisboa”.

A circulação automóvel nas cidades constitui a principal fonte de poluição atmosférica, a qual tem efeitos nocivos na saúde em geral e na saúde respiratória em particular. Para além disso, a poluição atmosférica contribui para o chamado “efeito de estufa”, que se traduz no aquecimento global do planeta. Este tem consequências negativas: - alterações climáticas a nível mundial e a extinção de determinadas espécies de fauna e de flora; - fusão de gelo das calotes polares, que se traduz na subida do nível médio do mar, o qual determinará uma total reconfiguração dos continentes, tal como os conhecemos na actualidade; - aumento da frequência de catástrofes naturais (tufões, furacões, inundações, períodos longos de seca), que afectarão a produção agrícola a nível global, prejudicando o fornecimento de alimentos às populações.
Face ao panorama anterior, a consciência cívica de um número cada vez maior de jovens e adultos, tornou-os eco-militantes, levando-os a adoptar a bicicleta como meio de transporte nas cidades. Para além de ser um veículo amigo do ambiente, a bicicleta permite fugir aos engarrafamentos de trânsito, bem como evitar longas esperas de transportes públicos, assim como ultrapassar a dificuldade e o custo do estacionamento automóvel. De resto, a utilização da bicicleta é benéfica, uma vez que tonifica os músculos e facilita a circulação sanguínea, o que traz vantagens cárdio-respiratórias.
A necessidade de os ciclistas fazerem valer os seus direitos, levou-os a criar a chamada “massa crítica (bicicletada)”. Esta é um evento que assume a forma de um passeio auto-organizado e independente, de periodicidade mensal, no qual um grupo de ciclistas passeia numa determinada cidade. Não se trata de uma prova desportiva, nem de uma manifestação. Trata-se simplesmente de um percurso pela cidade, o qual não carece de qualquer pedido de autorização para se realizar, tal como acontece com os automóveis que se deslocam em fila.
A massa crítica visa: - afirmar o direito dos ciclistas à estrada; - divulgar as vantagens de utilização da bicicleta como meio de transporte vantajoso nas cidades; - alertar para a necessidade de mudanças no espaço urbano para melhor acomodar os ciclistas.
A massa crítica integra não só ciclistas, como skatistaspatinadores e pessoas com veículos de propulsão humana. Em geral, ocorre na última sexta-feira de cada mês, a partir das 18 horas, embora nalgumas localidades ocorram noutro dia e com outro horário.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Internacional das Florestas

CENAS DE CAÇA (1670). Pormenor de painel de azulejos (158 x 286cm), 
fabrico de Lisboa. Museu de Lamego.

A 21 de Março comemora-se o Dia Internacional das Florestas. A celebração deste dia teve início a 10 de Abril de 1872, no estado norte-americano do Nebraska, nos EUA (EUA). Aí, o jornalista e político Julius Sterling Morton, promoveu o “Dia da Árvore”, incentivando a plantação ordenada de árvores naquele estado.
Em Portugal, as primeiras Festas da Árvore tiveram início na fase final da Monarquia por iniciativa de organizações republicanas. Foi assim que a 26 de Maio de 1907 se realizou no Seixal a 1.ª Festa da Árvore, promovida pela Liga Nacional de Instrução. Dava-se assim início a um movimento cultural e cívico de celebração dos benefícios da Árvore e da Floresta, o qual se traduzia na plantação de árvores em ambiente festivo e de discursos de propaganda a favor da árvore. Por sua vez, o Dia Mundial das Florestas foi comemorado entre nós e pela primeira vez em 1974, tendo sido escolhida, como em muitos outros países do hemisfério norte, a data de 21 de Março, o primeiro dia de Primavera. A data de 21 de Março viria a ser declarada como Dia Internacional das Florestas, por resolução da Assembleia Geral da ONU, de 30 de Novembro de 2012.
No Dia Internacional das Florestas, têm lugar diversas acções de arborização e reflorestação a nível mundial. A comemoração da efeméride visa sensibilizar a população para a importância da preservação das árvores, não só ao nível do equilíbrio ambiental e ecológico, como da própria qualidade de vida dos cidadãos. Com efeito, estima-se que 1000 árvores adultas absorvem cerca de 6000 kg de dióxido de carbono. 30% da superfície terrestre está coberta por florestas, nelas se realizando a fotossíntese, através da qual há produção de oxigénio a partir de dióxido de carbono. Daí que as florestas sejam consideradas como “pulmões do mundo”. 


quinta-feira, 22 de março de 2012

Adágios para o Dia Mundial da Água



AGUADEIRO (Alentejo - Século XIX-XX).
José Malhoa (1855-1933).
Óleo sobre tela (44,5 x 41,3 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

À CATARINA, MINHA FILHA:

PRÓLOGO

A comemoração do Dia Mundial da Água, recurso finito, do qual estamos dependentes, passa pela consciencialização pública da importância de que se reveste a conservação, preservação e protecção da água.
Resolvemos dar um contributo para essa consciencialização, recorrendo à tradição oral e mais particularmente ao adagiário português sobre a água. Da nossa colecção de duzentos e noventa e cinco adágios sobre a água, extraímos alguns, visando contribuir para aqueles objectivos e sistematizar também o nosso pensamento sobre o assunto.

SINOPSE DUM ADAGIÁRIO PORTUGUÊS DA ÁGUA

A água é um agente de erosão:
- A água bate na rocha mas quem paga é o mexilhão.
- A água cava a dura pedra.
- A água é branda e a pedra dura; mas, gota a gota, fará fundura.
- Água escava a rocha, amolecendo-a.
- Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura.
- Não há água como a do Norte que até às pedras amolece.
A água tem alguns efeitos nocivos:
- A água arromba os navios.
- A água faz desabar as paredes.
A água é uma bebida de excelência:
- A água é a melhor bebida.
- Água que veja o sol: sem cor, sem cheiro e sem sabor,
- Antes sem luz que sem água.
- Bebedice de água nunca acaba.
- Estar com o bico na água e não beber.
- Ir com muita sede ao pote.
- Na fonte onde hás-de beber, não deites pedras.
- Não bebas água que não vejas, nem assines carta que não leias.
- Não sujes a água que hás de beber.
- Não vá com tanta sede ao pote.
- Ninguém suje a água que tem de beber.
- Nunca digas, desta água não beberei.
- Quando a vasilha é nova e tem água boa, todos querem beber por ela.
- Quando não puderes beber na fonte, não bebas no ribeiro.
- Quando puderes beber na fonte, não bebas no ribeiro.
- Quanto mais água, mais sede.
- Quem bebe água na bica, aqui fica.
- Quem come salgado, bebe dobrado.
- Quem tanta água há-de beber, há mister comer.
- Quem vai à fonte e não bebe... não sabe o que perde.
Os bêbados escarnecem da água:
- A água é boa para lavar os pés.
- A água é para os peixes e o minar para a toupeira.
- A água faz bem, mas só daquela que o vinho contém.
- A água faz criar rãs na barriga.
- Água não quebra osso.
- Água para os peixes, vinho para os homens.
- Com água cantam as rãs.
- Com água ninguém canta.
Todavia, os bêbados são escarnecidos devido à água:
- A água não empobrece, nem envelhece.
- Afoga-se mais gente em vinho do que em água.
- Com água ninguém se embebeda.
- Quem almoça vinho, janta água.
- Quem bebe água não se empenha.
- Quem ceia vinho, almoça água.
Quer-se água corrente para beber:
- Água corrente não faz mal à gente.
- Água corrente não mata a gente.
- Água corrente, água inocente.
- Água corrente, esterco não consente.
- Água corrida. não faz mal à barriga.
Para beber são desaconselhadas as águas paradas:
- A Água detida é má para bebida.
- A água silenciosa é a mais perigosa.
- Água de alagoa nunca é boa.
- Água detida é má para bebida.
- Água detida faz mal à vida.
- Água parada cria limos.
- Água parada: água estragada.
- Água que não soa não é boa.
- Água silenciosa é sempre perigosa.
- Águas paradas, cautela com elas.
- Não há água mais perigosa do que a que não soa.
- Não há pior água que a mansa.
- Não te fies em vilão, nem bebas água de charqueirão.
Aconselha-se a ferver a água:
- Água danificada, fervida ou coada.
- Água fervida alimenta a vida.
- Água fervida ampara a vida.
- Água fervida tem mão na vida.
A Medicina Popular refere-se à água:
- Água ao figo e à pêra vinho.
- Água fria e pão quente, mata a gente.
- Água fria e pão quente, nunca fizeram bom ventre.
- Água fria lava e cria.
- Água fria tem mão na vida.
- Água fria, sarna cria; água roxa, sarna escocha.
- Água gelada e pão quente, não fazem bom ventre.
- Água sobre mel, sabe bem e não faz bem.
- Água sobre mel, sabe mal e não faz bem.
- Com malvas e água fria, faz-se um boticário num dia.
- Come pão, bebe água: viverás sem mágoa.
- Onde a água sobra, a saúde falta.
- Quando Deus quer, água fria é remédio.
- Se queres beber sem receio, bebe água viva.
É variável a preferência por água fria ou água quente:
- A água é fria, mas mais é quem com ela convida.
- A quem tem vida, água fria é mezinha.
- Água quente adivinha outra.
- Água quente escalda a gente.
- Água quente, nem a são, nem a doente.
- Água quente, saúde para o ventre.
A água é um agente de lavagem:
- A água lava tudo.
- A água lava tudo, menos as más acções.
- A água lava tudo, menos as más-línguas.
- A água lava tudo, menos quem se louva e as más-línguas.
- Água suja sempre lava.
- Até ao lavar dos cestos é vindima.
- Lava mais água suja do que mulher asseada.
Com água se apagam fogos:
- O fogo e a água, são maus amos e bons criados.
- Queimada a casa, acudir com água.
- Sobre fogos, água; sobre peras, vinho.
A água é um agente de rega:
- A água é o sangue da terra.
- A água rega, o Sol cria.
A água comanda todo o calendário agrícola:
- A água de Janeiro traz azeite ao olival, vinho ao lagar e palha ao palheiro.
- A água de Janeiro vale dinheiro.
- Água de Janeiro mata o onzeneiro
- Janeiro quente trás o diabo no ventre.
- Por São Vicente (22 de Janeiro), toda a água é quente.
- Água de Fevereiro vale muito dinheiro.
- Água de Fevereiro, mata o Onzeneiro.
- Em Fevereiro entra o sol em cada ribeiro.
- Quando não chove em Fevereiro, nem bom prado nem bom celeiro.
- Água de Março é pior do que nódoa no fato.
- Quando o Março sai ventoso, sai o Abril chuvoso.
- A água com que no Verão se há-de regar, em Abril há-de ficar.
- A água de Abril é água de cuco, molha quem está enxuto.
- A água, em Abril, carrega o carro e o carril.
- Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.
- Abril, chuvas mil.
- Em Abril águas mil.
- Em Abril, lavra as altas, mesmo com água pelo machil.
- O Abril bem molhado, enche a tulha e farta o gado.
- A água, Maio a dá, Maio a leva.
- Água de Maio, pão para todo o ano.
- Águas da Ascensão, das palhas fazem grão.
- Uma água de Maio e três de Abril valem por mil.
- Chuva de São João (24 de Junho) tira vinho e azeite e não dá pão.
- A água de Junho, bem chovidinha, na meda faz farinha.
- A água de Santa Marinha (18 de Julho), na meda faz farinha.
- Água de Julho, no rio não faz barulho.
- Quando é Junho a valer, pouco costuma chover.
- A água de Agosto faz mal ao rosto.
- Água de Agosto: açafrão, mel e mosto.
- Águas verdadeiras, por São Mateus (21 de Setembro) as primeiras.
- Setembro molhado, figo estragado.
- Dos Santos (1 de Novembro) ao Natal (25 de Dezembro) é Inverno natural.
- Dos Santos (1 de Novembro) ao Natal (25 de Dezembro) ou bom chover ou bom nevar.
- Depois de São Martinho (11 de Novembro), bebe o vinho e deixa a água para o moinho.
- Água de nevão dá muito pão.
A água está presente na pesca:
- Água preta não dá peixe.
- Grandes peixes pescam-se em grandes rios.
- Na água revolta, pesca o pescador.
A água é um bem em movimento:
- A água acode sempre ao mais baixo.
- A água ao moinho de longe vem.
- A água corre para a água.
- A água corre para o mar.
- A água corre para o poço.
- A água corre sempre para o mais baixo.
- A água corredia, não guardes cortesia.
- A água o dá, a água o leva.
- A água, por onde passa, molha.
- Água vem, água vai.
- Águas passadas não movem moinhos.
- Corre a água para o mar e cada um para o seu natural.
A água é um bem com valor:
- Quando a fonte seca é que a água tem valor.
- Só se sente a falta de água, quando o cântaro está vazio.
A água é um bem finito, que deve ser conservado:
- A água da fonte é muita, mas também se acaba.
- A água falta nos meses, mas nunca falta no ano.
- Água que não hás-de beber, deixa-a correr.
- Quem não poupa água e lenha, não poupa o mais que tenha.
A água não podia deixar de estar presente na religião:
- Água benta e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
- Presunção e água benta, cada um toma a que quer.
- Presunção e água benta, cada um toma a que quer; mas a pia se esvazia, quando passa uma mulher.
- Quando a água benta é pouca e os diabos são muitos, não há quem os vença.
Referências também à água e à mulher:
- Água e mulher, só boa se quer.
- Quando uma mulher não sabe o que responder é porque não há mais água no mar.

EPÍLOGO
Mais poderíamos acrescentar, mas esta prosa já vai longa, pelo que preferimos rematá-la, acrescentando:

- Conselhos e água só se dão a quem pedir.