sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Ave Maria
domingo, 23 de novembro de 2025
Tenores de Redondo
O número e a diversidade destes
grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente
crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou
seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o
termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um
recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por
destilação do vinho nos alambiques.
Redondo é simultaneamente terra
de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado
tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se
evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem
recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.
Daí que as olarias locais
manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos
no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem
asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente
caídos em desuso.
A opção dos adegueiros pelo uso
de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui
aplicáveis: “No poupar é que está o ganho", “A necessidade é
mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."
A terminar e como está frio,
brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente,
faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu
consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente”
"Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".
Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia.
Hernâni Matos
domingo, 26 de outubro de 2025
As flores na matriz identitária redondense
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
A tradição oleira de Estremoz
terça-feira, 30 de setembro de 2025
O curso natural das coisas
Nasci
em 1946 no número 14 do Largo do Espírito Santo em Estremoz, mesmo ali ao
cantinho (Fig. 1 e Fig. 2). Ao meio da Rua dos Banhos, do lado direito, morava o mestre oleiro e
barrista Mariano da Conceição. Bem perto da casa dos meus pais era também a rua
do Lavadouro, onde ao meio funcionara a Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio
Viana. Não seria isto um augúrio de que iria estar ligado à olaria? É caso para
dizer que “Eu não acredito em coincidências, mas que as há, há”.
Na
minha juventude, os passeios pelo Rossio levavam-me invariavelmente a deter nos
stands da Olaria Alfacinha (Fig. 3) e da Olaria Regional, onde mirava e remirava as
peças oláricas, mas onde não comprava nada, não só porque não chegara ainda a
altura de o fazer, mas porque como jovem de então, só tinha cotão nos bolsos
das calças.
Em 1963, a participação da olaria e da barrística no Cortejo Etnográfico integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz (Fig. 4 a Fig. 11) foram determinantes na tomada de consciência de um jovem de 17 anos como eu, de que tanto a olaria como a barrística eram manifestações vigorosas não só da identidade cultural estremocense, como da identidade cultural alentejana.
Entretanto,
ingressei na Universidade e só em 1972 comecei a comprar objectos oláricos e
Bonecos de Estremoz, após ter ingressado como professor na então Escola
Industrial e Comercial de Estremoz. Eram compras às pinguinhas, já que em
início de carreira ganhava pouco mais do que coisa nenhuma,
Naturalmente, que as aquisições causadas pelo fascínio do barro precisavam de ser consolidadas com conhecimentos. Foram determinantes na minha formação como coleccionador, livros como “Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho (Fig. 12), “Algumas palavras acerca de Púcaros de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos,(Fig. 12), “La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux (Fig. 13),e mais tarde “Barros de Estremoz”, de Joaquim Vermelho (Fig. 13),, a que se seguiram outros livros e brochuras, adquiridos muitas vezes no mercado alfarrabista.
As
leituras levaram-me a formular questões relativamente àquilo que leio e aos
objectos oláricos que vou adquirindo, pelo que a minha formação científica me
induz a investigar, visando "Pôr o preto no branco".
Com a morte em 2016 de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, constituiu uma tragédia cultural. Tornou-se real a necessidade de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, acção que em devido tempo veio a ser despoletada pelo Município de Estremoz, em parceria com entidades oficiais para isso vocacionadas.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
As primeiras memórias da olaria
Até
então, a água era distribuída por aguadeiros que a acarretavam em
cântaros de folha de Flandres ou de barro, transportados em cangalhas assentes
no dorso de burros ou em divisórias de carroças para o transporte de água. Recolhida nas fontes, assim ia parar à casa
dos fregueses. À chegada, à porta da rua, a água era transvasada do cântaro que
a transportara para um cântaro de barro do freguês.
Os
aguadeiros eram figuras do quotidiano diário da época que ficaram perpetuadas
na barrística de Estremoz.
Tal
como os aguadeiros também as mulheres das castanhas, como figuras
do quotidiano diário da época, ficaram perpetuadas na barrística de Estremoz.
Qualquer
das memórias desperta em mim outras memórias. Assim, a memória dos aguadeiros
carrega consigo a memória da frescura e do sabor inigualável da água contida em
recipiente de barro. Por outro lado, a memória das mulheres das castanhas
transporta consigo o odor e o sabor das castanhas assadas. É caso para dizer
que as memórias são como as cerejas, vêm umas atrás das outras.
Hernâni Matos
domingo, 28 de setembro de 2025
O guardador de memórias
Tenho
o coleccionismo na massa do sangue. Sou geneticamente um coleccionador e
cumulativamente um contador de estórias, não só de estórias
reais, mas também das estórias que as coisas me contam sobre os segredos que a
sua existência encerra.
Ao
longo da minha vida de coleccionador reuni mais de 200 objectos oláricos de
diferentes tipologias, morfologias, funcionalidades e tamanhos, os quais têm
entre si um elo comum: foram produzidos pelas extintas olarias de Estremoz. São,
pois, memórias do passado. Ao reunir um acervo pessoal dessas peças, tornei-me,
eu próprio, um guardador de memórias.
Estas
memórias guardadas, conjuntamente com muitas outras memórias, integram a
chamada memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter
a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e
experiências comuns.
É a
memória colectiva que nos permite aprender com os erros e sucessos do passado,
o que é essencial para o desenvolvimento e a evolução da sociedade.
Como
guardador de memórias, assumo-me como fiel guardião da nossa ancestral matriz
identitária, incumbido duma nobre missão: a de transmitir às novas gerações, a
importância e a riqueza da pluralidade do passado e das tradições do nosso
povo, para que elas tenham consciência de que urge resistir a uma globalização
castrante, que assimptoticamente procurará reduzir à chapa zero, as nossas
identidades culturais, a nível local, regional e nacional.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
A ADOE no rescaldo do 1º Encontro Nacional de Olaria em Évora Monte
No passado dia 21 de Setembro tive o privilégio de
participar no Castelo de Évora Monte no Colóquio “RECENTRAR - Memória, Barro e Saber-fazer“, integrado no Encontro Nacional de Olaria, que ali teve lugar.
A minha participação foi fruto do honroso convite que me foi
formulado pela Senhora Doutora Mathilda Dias Coutinho, coordenadora do projecto
de investigação 2LEGACY, no sentido de participar no Colóquio na qualidade de
coleccionador e investigador da olaria de Estremoz, convite a que naturalmente
acedi e que muito me congratulou.
A minha comunicação subordinada à epígrafe “O guardador de
memórias” e acompanhada de projecção em PowerPoint, teve o seguinte epílogo:
O legado da antiga tradição oleira de Estremoz constitui
indiscutivelmente Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal.
O legado é caracterizado pela excelência dos exemplares oláricos que o
integram, o que é revelador da exigência que constitui a sua recuperação e
preservação, visando a salvaguarda da identidade cultural estremocense.
Nessa missão está envolvida a ADOE, cujos associados têm recebido
formação continuada, ministrada por Mestre Xico Tarefa, visando o seu
aperfeiçoamento técnico e artístico. Tal só foi possível com o apoio
indispensável e insubstituível do Município de Estremoz e do CEARTE - Centro de
Formação Profissional para o Artesanato e Património.
Hernâni Matos
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
Colóquio “RECENTRAR: Memória, Barro e Saber-fazer “- Encontro Nacional de Olaria



























