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sábado, 18 de abril de 2026

Repórter de concertos de violino


Moringue antropomórfico. Fabrico da Olaria Alfacinha. Estremoz, anos 40 do séc. XX.

De vez em quando vislumbro objectos que tangem as tensas cordas de violino da minha alma. Então, olho-os melhor, miro-os e remiro-os, trespasso-os com o meu olhar e eles revelam-se em toda a sua plenitude, para além daquilo que é óbvio. Digo-lhes: Olá! Então e só então, eles me recebem de braços abertos, como se um deles se tratasse. Contam-me então as suas estórias, às quais outras estórias se seguirão. É então que eu, repórter de concertos de violino, escrevo na pauta de papel, tudo aquilo que tocaram e eu consegui entender.

Publicado inicialmente em 15 de Abril de 2021

domingo, 12 de abril de 2026

Armando Alves, um amigo que partiu

 

1 – Armando Alves (1935-2026).

Falar de amigo
O artista plástico e designer gráfico Armando Alves (Fig. 1), natural de Estremoz e figura incontornável da arte contemporânea portuguesa, faleceu no passado dia 31 de Março, em Matosinhos.
Radicado naquela região desde a sua juventude, manteve desde sempre uma forte ligação ao Alentejo e à cidade que o viu nascer. Aqui regressava amiúde ou não fosse o Alentejo o tema central da sua obra.
O Armando, assim o tratava, concedera-me há muito o privilégio da sua amizade e franqueara-me igualmente as portas da sua casa em Estremoz. Sempre que o entendia e sobretudo quando não nos encontrávamos no Café Alentejano, o Armando telefonava-me para aparecer lá por casa (Fig. 2), geralmente para me dar conta de um projecto ou de uma exposição que aí vinha. Era enriquecedor falar com ele. Para além disso, creio que o Armando gostava de falar comigo e tinha apreço pela minha opinião, o que eu naturalmente retribuía.
Num momento que é de dor e de profundo pesar para a Família e para os amigos, entendi ser desajustado falar aqui da sua vida e da sua obra, repetindo o que tem sido publicado nos jornais nos últimos dias, a partir de catálogos das suas muitas exposições e com referências a opiniões de críticos de arte. Seria desconfortável fazê-lo e eu não quero ir por aí. Prefiro dar conta do que foi a minha interacção com o Armando. Essa a forma encontrada de partilhar com a Família e os amigos tudo aquilo que me vai na alma, bem como honrar a sua Memória.

Companheiros de estrada

2 – Hernâni Matos e Armando Alves no atelier deste último em Estremoz, Março de 2013. 

O Armando é da “colheita de 1935” e eu sou da “colheita de 1946”, o que levou o Armando a dizer-me uma certa vez: - “Tu és um rapaz comparado comigo” e tinha razão. O Armando acabou o Curso de Pintura da Escola de Belas Artes do Porto com média de 20 valores em 1962 e entrou logo para Assistente da mesma. Por essa altura eu tinha 16 anos e ainda andava a cabular no Colégio do Mota, em Estremoz. De qualquer modo, já o conhecia da livraria do Aníbal, onde ele tertuliava sempre que vinha do Porto. Eu era um puto do Cine Clube de Estremoz e por ali cirandava, para ouvir os mais velhos falarem de coisas que eu gostava de ouvir.
Um dia deixei der ser puto e tive de ir para a Universidade. A minha escola de vida deixou de ser a livraria do Aníbal e passou a ser a Associação de Estudantes da minha Faculdade. Então passei a encontrar o Armando ainda menos.
Regressado a Estremoz em 1972, passei a intervir activamente nas actividades culturais a nível local, sobretudo a partir dos anos 80 do século passado. É uma altura em que se vai consolidando em mim a imagem do Armando enquanto artista plástico e gráfico, o que me conduz a um elevado apreço pela sua Obra. Apesar disso, os encontros entre nós são casuais, quase sempre no Café Alentejano, local historicamente ligado à sua Família. A partir do novo milénio, os nossos encontros passam a ser mais frequentes e por vezes com grande gáudio meu, o Armando tem a gentileza de me oferecer um catálogo da sua mais recente exposição. Com a criação em 2009 do meu blogue “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, passo a fazer a divulgação das mesmas, o que por vezes também faço na imprensa local. Foi assim que eu, guardador de memórias e contador de estórias, me tornei companheiro de estrada do Armando.

O Armando, Bonequeiro de Estremoz

3 - Armando Alves com a idade de 14 anos.
 Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).

Após me aposentar em 2008, tive acesso ao Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Foi então que descobri que o Armando (Fig. 3), nascido em 1935, entre 1942 a 1945 frequentara a Escola Primária do Castelo, situada no actual edifício do Museu Municipal de Estremoz. De 1946 a 1949, frequentou o Colégio do capitão Grincho e, de 1949 a 1952, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Estremoz, onde teve aulas de oficinas de olaria com Mestre Mariano da Conceição.
Foi no ano lectivo de 1951-52, já com a Escola Industrial e Comercial de Estremoz instalada no Castelo, no local onde hoje funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, que o Armando começou a confeccionar os seus Bonecos de Estremoz.
O trabalho de modelação, cozedura, pintura e envernizamento era feito na própria Escola. O Armando não terá feito mais que 10 modelos de Bonecos: - Figuras que têm a ver com a realidade local: Amazona, Leiteiro, Mulher a vender chouriços e Homem do harmónio; - Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico: Mulher a lavar; - Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas: Ceifeira, Mulher da azeitona, Pastor de tarro e manta, Pastor com um borrego e Pastor do harmónio (Fig. 4).

4 - O Pastor do harmónio criado pelo jovem Armando
no ano lectivo de 1951-52.

Ao todo, não terá manufacturado mais de cinquenta Bonecos, os quais eram comercializados na Papelaria Ruivo, situada no Largo da República, 24, em Estremoz, exactamente um dos locais em que também eram comercializados os Bonecos de Mestre Mariano da Conceição. Fê-lo a pedido da proprietária, a sua tia Joana Ruivo. Cada figura era vendida ao preço de vinte e cinco tostões, enquanto os de Mestre Mariano custavam 12$50.

5 - A marca "Armando" manuscrita, pintada a verde na base do “Pastor do harmónio”.

Mestre Mariano marcava os seus Bonecos, estampando na base a marca ESTREMOZ/PORTUGAL em maiúsculas, distribuídas por duas linhas. Porém, o jovem Armando vai além do Mestre e assina simplesmente “Armando” (Fig. 5), em caracteres manuscritos. Fá-lo a verde, o verde da esperança e das searas que, já doiradas, ondularão mais tarde as suas telas de artista consagrado. Tratou-se então de uma aposta forte, visando o futuro, uma espécie de premonição da Obra que iria construir. Daí a razão de assinar simplesmente “Armando”. Sabem porquê? É simples. Toda a gente sabe quem é o Armando. Pois claro! É um consagrado artista plástico a quem José Saramago prestou tributo, chamando-lhe “Inventor de Céus e Planícies”.
O Armando não fazia ideia de quem eram as pessoas que compravam os seus Bonecos. Todavia, lembra-se da tia uma vez lhe ter dito que uma dessas pessoas era o coleccionador e médico calipolense, Dr. Couto Jardim (1879-1961).

Eu, o Armando e a Colecção Pinto Tavares
Em data que não consigo precisar, comprei ao Alfarrabista António Oliveira, de Évora, o catálogo da Exposição de Barristas Alentejanos realizada em Évora em 1962, onde participou a afamada ex-colecção de Bonecos de Estremoz do Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945), em nome das suas filhas Maria Filipina Avelar e Guilhermina Avelar. Ora eu sabia quem é que tinha sido a herdeira desta última senhora e seria na posse dela que deveria estar a famosa colecção do Tenente-coronel. Todavia, não ousei fazer nenhuma proposta de compra e deixei andar.
Por necessidade, a herdeira vendeu a colecção em 2011 a um comerciante do Mercado das Velharias, que por sua vez a vendeu ao Armando. Trata-se de uma extraordinária colecção de Bonecos de Estremoz de finais do séc. XIX, que me escapou das mãos porque eu cheguei ao Mercado às 8 da manhã e ele tinha chegado mais cedo. Acreditem ou não, fiquei abalado psicologicamente por causa dessa perda e andei doente durante uma semana ou mais. Valeu-me a abertura do Armando que me permitiu fotografar os bonecos, visando o seu estudo posterior.

Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo

6 – Cartaz do II TORNEIO DE BILHAR “ANTÓNIO TELMO” (2014),
da autoria de Armando Alves.

Em 23 e 24 de Agosto de 2014 tiveram lugar em Estremoz, as “Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo”. Tratou-se duma iniciativa do Círculo António Telmo, associação cultural cuja missão é preservar a memória e o legado daquele pensador. As comemorações incluíram o “II Torneio de Bilhar António Telmo” e um almoço, ambos realizados na Sociedade Recreativa Popular Estremocense (Porta Nova), da qual o Armando e o António Telmo eram sócios e onde jogavam ao bilhar, do qual eram praticantes exímios.
Cerca de um mês antes, o Armando encontrou-me, mostrou-me o magnífico cartaz (Fig. 6) que tinha criado para o torneio de bilhar e procurou envolver-me na organização do evento. Disse-lhe que nem era do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova e nem sequer sabia jogar bilhar. Não serviu de nada, porque me deu a volta quando meteu os Bonecos de Estremoz à baila, dizendo:
- “Que dizes a mandarmos fazer um Boneco de Estremoz para servir de troféu a disputar no torneio?’’
Caí que nem um patinho ao responder:
- “A ser criado um Boneco para esse efeito, deveria configurar o António Telmo a jogar o bilhar, de chapéu na cabeça e tudo!
Era o que ele queria ouvir, pelo que me disse mais ou menos isto:
- “Boa ideia! Encarregas-te de o mandar fazer?”
- “Naturalmente que sim e é às Irmãs Flores” – disse eu, acrescentando:
- “Um desenho teu ajudava muito”.
O desenho surgiu ali de imediato, feito enquanto “O diabo esfrega um olho”. Passado 15 dias, o Boneco estava pronto (Fig. 7), feito a 4 mãos, pelas consagradas barristas Irmãs Flores (o jogador de bilhar), pelo seu também consagrado sobrinho Ricardo Fonseca (mesa de bilhar) e pelo próprio Armando (o taco de bilhar em madeira).

7 - Jogador de bilhar (2014). Irmãs Flores (1957, 1958- ) e Ricardo Fonseca (1986- ). 
Composição projectada pelo pintor Armando Alves para servir de troféu em disputa
no II Torneio de Bilhar "António Telmo". Colecção da Sociedade Recreativa Popular
Estremocense (Porta Nova), Estremoz.

O tempo foi passando e cerca de uma semana antes do evento, eu não sabia nada, a não ser que havia um cartaz distribuído e um troféu a atribuir. Como sou dado a minudências, perguntei-lhe:
- “Ouve lá Armando, quem é que vai falar no início da cerimónia?”
Mais valia ter ficado calado, já que a resposta veio de imediato:
- “Conversas é contigo, que eu já fiz o cartaz”.
Estava tudo a correr tão bem, que não seria eu que iria estragar a festa, borrando a escrita. Foi assim que não sendo do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova, nem jogador de bilhar, me coube a incumbência de “botar faladura” no início da cerimónia. Para complicar a coisa e pese embora o respeito e consideração que nutro pela figura do António Telmo, eu era um desconhecedor do pensamento télmico. Que fazer então? Só tinha uma saída: falar de bilhar. Foi o que fiz, assumindo a pele de contador de estórias. Lá gizei um texto a que dei o título “António Telmo e o bilhar”. No dia e à hora aprazada lá estava eu a “soltar o verbo”, acabando por ser aplaudido no final, tanto por télmicos como por bilharistas e ainda por aqueles que não eram nem uma coisa nem outra. Senti-me aliviado, porque tinha conseguido “descalçar a bota” que o Armando me “enfiara no pé”.

Apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”

8 - Mesa da apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, em Dezembro
de 2014. Da esquerda para a direita, Hernâni Matos, Armando Alves e Luís Mourinha.

Em 6 de Dezembro de 2014 fiz a apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, no auditório da Casa de Estremoz (Fig. 8).
A obra, uma colectânea de depoimentos em prosa e em verso, constitui um tributo ao Armando. O livro, publicado pela editora “Modo de Ler”, foi prefaciado por Isabel Pires de Lima e congrega textos de 53 autores, entre os quais Albano Martins, António Simões, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Hernâni Matos, José Saramago, Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Urbano Tavares Rodrigues e Vasco Graça Moura.
A apresentação da obra esteve a meu cargo e contou com a presença de Armando Alves e de Luís Mourinha, Presidente do Município, o qual presidiu ao evento. Foi depois visionado o vídeo “Armando Alves, 60 anos de Pintura”, seguindo-se a leitura de poemas e de textos por Adelaide Glória, Francisca Matos, Odete Ramalho e Zulmira Baleiro.
Na apresentação que fiz do livro, tive a oportunidade de afirmar: “”Escrito na cal e outros lugares poéticos” é um tributo à Obra ímpar de Armando Alves. Não um tributo de medieva vassalagem ao poder de um senhor da terra, mas o reconhecimento e a exaltação da dimensão intelectual daquele a quem outorgamos os títulos de “senhor da luz” e de “príncipe das cores”, e que, com os seus pincéis mágicos, povoa as telas que nos embriagam os sentidos.
Imagens que têm forma, volume, medida, profundidade, cor, textura, contraste, luminosidade e brilho. Telas que têm vida e respiram como nós. Cores que bailam porque ecoa na planície o som ritmado do tocador de harmónio do jovem Armando.
O Armando é um seareiro que desbrava as telas para nelas fazer as suas searas, que de verde se transmutam em oiro. Searas cujo ondular se pressente e se sente com o Suão. Mas o Armando é também o semeador que, com o seu gesto augusto, lança a cor à tela para que dela desponte vida que é pão de espírito para todos nós.”

Capa do meu livro “FRANCO-ATIRADOR”

9 - Capa do livro FRANCO ATIRADOR, de Hernâni Matos, editado em 2012 pela Colibri, com capa da
autoria de Armando Alves.

Em 2017 publiquei através das Edições Colibri, o livro FRANCO-ATIRADOR (Fig. 9), cujo tema central é o exercício da cidadania nos seus múltiplos aspectos por um alentejano de Estremoz, que por sinal sou eu.
O livro tinha que ter uma capa, pelo que eu, zeloso do conteúdo do livro, não queria uma capa qualquer. Ora, é sabido que uma capa do Armando é uma obra de arte. Daí que lhe tenha ido “bater à porta” e pedido para criar a capa, ao que ele acedeu sem hesitação alguma. O resultado é bem conhecido e nela está magistralmente expresso o Alentejo vermelho das terras de barro de Estremoz, gravado não só na sua como na nossa alma e que sob a direcção atenta e calorosa do seu olhar de visionário, as suas mãos sabiam transmitir com mestria a tudo aquilo que fazia. A capa do Armando elevou o livro a uma dimensão superior àquela que já tinha. Fiquei-lhe infinitamente grato por isso.

Grafismo do meu livro “Bonecos de Estremoz”

10 – Livro BONECOS DE ESTREMOZ, de Hernâni Matos, editado em 2018
pela Afrontamento, com grafismo de Armando Alves.

Independentemente do conteúdo textual de uma obra, a sua impressão graças aquilo que em tempos remotos foi adjectivado como “Divina Arte Negra”, não passa de uma floresta mais ou menos densa de caracteres que traduzem aquilo que se passou na alma do autor. É certo que a inserção de imagens quebra a monotonia da floresta textual. Todavia a sua distribuição ao longo do texto não pode ser arbitrária. É preciso um arquitecto paisagista que reestruture a paisagem, que a organize e valorize cromaticamente para deleite visual dos futuros leitores. A gestão do espaço-tempo do livro passa assim pela sua reformulação topológica, conferindo-lhe cor, ritmo, harmonia, beleza, vida e alma. É esse o papel do designer gráfico, que no caso do meu livro “Bonecos de Estremoz” (Fig. 10), editado em 2018 pela Afrontamento, foi o maior de todos eles desde sempre, o Armando. A sua Mestria valorizou muito o livro, o que muito me congratula e honra.
O livro há muito esgotado, é hoje uma preciosidade bibliográfica e uma raridade alfarrabística. Aguarda que alguém com responsabilidades na salvaguarda do Boneco de Estremoz, esteja disponível para patrocinar uma reedição, a qual é do interesse público.

Para ti, Armando
Sei da tua preocupação e mesmo tristeza em teres visto passar o tempo e não veres edificado “in loco” o teu Monumento ao Boneco de Estremoz. Sei mesmo da tua dor, sobretudo pela premência da transmissão do sentido simbólico do Monumento - a celebração e homenagem aos barristas do passado e do presente, aliada à valorização dos barristas do presente, enquanto elemento vivo de Estremoz.
Lamento dizer-te que a concretização da edificação do teu Monumento ao Boneco de Estremoz, tal como diz o povo, “Ficou em águas de bacalhau”, que é o mesmo que dizer “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes!”. Que fazer então? “Ficar à espera do amanhã que há de vir”? E mais não digo, por receio de errar.
Para ti, Armando, um fraternal abraço do Hernâni. Até sempre, amigo!

Publicado em 12 de abril de 2026



Publicado no jornal E, nº 377 de 10 de Abril de 2024


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fotografias inéditas de Mário Lagartinho, Mestre Oleiro de Estremoz

 






LER AINDA

A memória mais antiga que guardo de Mestre Mário Lagartinho (1935-2016) é a da sua participação no Cortejo Etnográfico de 1963 em Estremoz, integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz desse ano. Tratou-se de um evento histórico de grande impacto, o qual celebrou as profissões tradicionais do Alentejo, com especial destaque para a Olaria e os Bonecos de Estremoz. Num dos carros alegóricos à olaria e que desfilavam pela Avenida 9 de Abril, Mário Lagartinho, então com 28 anos (eu tinha 17) ia modelando peças oláricas.                     

Só após a minha saída da Universidade viria a ter uma relação mais próxima com Mário Lagartinho, o que aconteceu nos anos 70 do séc. XX. O Mestre viria então a conceder-me o privilégio da sua amizade, o que me permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da Olaria de Estremoz na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Fi-lo na condição de coordenador do Centro de Recursos da Escola. O evento designado por “Encontro com a Olaria Alentejana” e realizado no átrio consistiu basicamente numa exposição de peças oláricas de Estremoz pertencentes à minha colecção pessoal e ainda, o que foi o mais importante, um workshop orientado por Mário Lagartinho. O público alvo foi a comunidade escolar e muito em especial, os alunos da área das Artes.

São dessa época as fotografias inéditas de Mário Lagartinho aqui divulgadas e das quais naturalmente estou ausente, já que estava por detrás da objectiva.

De salientar que o magnífico painel de azulejos patente no átrio da Escola é da autoria da artista plástica Estrela Faria (1910-1976).

 Hernâni Matos

Alegoria ao Ensino (1962). Estrela Faria (1910-1976). Painel de azulejos (300 x 600 cm).
Escola Secundária Rainha Santa Isabel, Estremoz.

domingo, 23 de novembro de 2025

Tenores de Redondo



Na vila de Redondo existem diversos grupos corais activos, tanto masculinos como femininos e mistos. São eles: Grupo de Cantadores do Redondo, Cantadeiras do Redondo, Grupo Coral e Instrumental Academia de Afectos, Grupo Coral Polifónico da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense e Trovadores de Redondo.

O número e a diversidade destes grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por destilação do vinho nos alambiques.

Redondo é simultaneamente terra de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.

Daí que as olarias locais manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente caídos em desuso.

A opção dos adegueiros pelo uso de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui aplicáveis: “No poupar é que está o ganho",A necessidade é mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."

A terminar e como está frio, brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente, faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente” "Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".

Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia. 

Hernâni Matos

domingo, 26 de outubro de 2025

As flores na matriz identitária redondense

 



Louça de barro vidrado de Redondo,
pertencente à colecção Hernâni Matos


As Ruas Floridas de Redondo conquistaram o Prémio Alentejo 2025, na categoria Mais Prazeres & Sensações, promovido pela revista Mais Alentejo. A cerimónia de entrega dos prémios teve lugar ontem, no Teatro Pax Julia, em Beja.
As Ruas Floridas de Redondo são um evento bienal de base popular, onde os moradores da vila decoram as ruas com flores e artefactos manufacturados com papel colorido. Trata-se de uma tradição que remonta ao século XIX e que integra a matriz identitária redondense, à semelhança do que se passa com a louça de barro vidrado de Redondo, a qual muitas vezes é decorada com motivos florais.








quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A tradição oleira de Estremoz

 

Púcaro com decoração polida. Produção da Escola Industrial António Augusto Gonçalves.
Finais dos anos 30 do sé. XX.

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

A olaria tradicional de Estremoz é extremamente rica em múltiplos aspectos. Na verdade, observando-a como um todo, revelam-se de imediato uma grande variedade de funcionalidades, tipologias, morfologias, tipos de decoração e tamanhos. Como tal, é uma das expressões mais elevadas da nossa identidade cultural local.

Funcionalidade
A funcionalidade das peças oláricas de Estremoz é servirem predominantemente de vasilhame para conter e transportar água, conter flores, dinheiro, velas, ou então servirem de elementos decorativos. Algumas funcionalidades deixaram de ser utilizadas, devido ao desenvolvimento tecnológico. É o caso dos tijolos, telhas, canos, sifões e manilhas.

Tipologia
É diversificada a tipologia das peças oláricas de Estremoz. As principais são: Assadores, Barris, Bilhas, Cafeteiras, Cântaros, Cantis, Cinzeiros, Copos, Fogareiros, Garrafas, Jarras, Mealheiros, Medalhas, Moringues, Palmatórias, Pratos, Púcaros, Reservatórios, Troncos, Vasos de flores, etc.

Morfologia
A uma dada tipologia de objecto olárico podem corresponder várias morfologias. Assim um moringue pode ter um corpo ovóide, esferóide, cilindróide segundo a vertical ou a horizontal, bem como qualquer outra forma distinta das anteriores.

Dimensões
Em geral, uma peça olárica de determinada tipologia e com uma dada morfologia, existe em vários tamanhos, os quais eram numerados de tal modo que ao tamanho maior correspondia o número maior. Este número pode aparecer gravado na base da peça ou aí marcado a giz, depois da cozedura ou então nem sequer ter sido marcado.

Proporções
É óbvio que as proporções entre as 3 dimensões de qualquer peça olárica no seu todo ou entre os seus componentes, não é arbitrária. São proporções que os oleiros de várias gerações foram perpetuando no barro, após a magia das suas mãos as ter tornado harmoniosas.

Tipos de decoração
Os tipos de decoração utilizados nas peças oláricas de Estremoz são de cinco tipos principais:
- 1 - O polido, que utiliza o contraste entre a superfície baça e os motivos que foram polidos com recurso a um seixo ou a um teque;
- 2 - O empedrado, no qual meniscos convexos de argila, decorados com minúsculos fragmentos de quartzo, são colados à peça com barbutina;
- 3 - O riscado, que recorre a sulcos gravados na superfície, com recurso a um teque, um arame, um prego ou uma sovela;
- 4 - O picado, que utiliza formas geométricas que são gravadas na superfície por percussão de objectos ou perfis cuja secção tem uma determinada geometria, como é o caso dos invólucros de bala e dos cartuxos de caça;
- 5 - A relevada, na qual brasões de Estremoz ou outros, assim como inscrições como “RECORDAÇÃO DE” ou “LEMBRANÇA DE”, bem como elementos fitomórficos (folhas, bolotas, ramos de sobreiro) ou zoomórficos (coelhos, lagartos) são moldados em barro e colados com barbutina à superfície;
Para além disso são conhecidos exemplares que ostentam uma decoração obtida pela utilização conjunta de alguns dos tipos referidos anteriormente.

Marcas
O levantamento das marcas de olaria de Estremoz é um trabalho que ainda está em curso, que precisa de ser continuado e que nunca se pode dar por concluído. Para além das marcas de fabrico, apostas por carimbo ou gravadas manualmente, podem existir também marcas de tamanho, gravadas manualmente ou manuscritas a giz. Podem, finalmente, aparecer ainda marcas simbólicas com significado apotropaico, apostas por carimbo ou gravadas manualmente. Caso das estrelas de 5 e de 6 pontas (Signo de Salomão), do trevo de 4 folhas ou da cruz trevolada).

Estética
A estética das peças oláricas de Estremoz é determinada por quatro factores distintos, mas de igual importância: o cromatismo vermelho do barro, aliado à morfologia, às proporções e à decoração. É da conjugação desses factores, sabiamente combinados, que resulta a excelência das peças oláricas tradicionais de Estremoz, por transmitirem sempre harmonia, perfeição, beleza e elegância.

Hernâni Matos

Moringue antropomórfico com decoração polida.
Fabrico da Olaria Alfacinha.

Depósito com tampa, onde estão patentes 3 tipos de decoração: 
empedrado, o riscado e o polido. Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).

Pote com tampa e duas asas, no qual foram usados 2 tipos de decoração:
 o riscado e o picado. Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).

Jarro de forma cilíndrica com decoração relevada fitomórfica,
picada e polida.

Bilha em forma de tronco, com decoração relevada, brasonada, fitomórfica, 
zoomórfica, picada e polida.

Moringue com decoração relevada fitomórfica, picada e polida.

Jarro de forma ovóide com decoração relevada fitomórfica, picada e polida.

Garrafão com decoração polida, picada, relevada fitomórfica e brasonada.
Fabrico desconhecido. 1ª metade do séc. X

Prato com decoração relevada. Início do séc. XX. Fabrico da Olaria Alfacinha.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O curso natural das coisas

 

Fig. 1 - Com cerca de 1 ano de idade, no Largo do Espírito Santo, em Estremoz.

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

Nasci em 1946 no número 14 do Largo do Espírito Santo em Estremoz, mesmo ali ao cantinho (Fig. 1 e Fig. 2). Ao meio da Rua dos Banhos, do lado direito, morava o mestre oleiro e barrista Mariano da Conceição. Bem perto da casa dos meus pais era também a rua do Lavadouro, onde ao meio funcionara a Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana. Não seria isto um augúrio de que iria estar ligado à olaria? É caso para dizer que “Eu não acredito em coincidências, mas que as há, há”.

Fig. 2 - Largo do Espírito Santo - Estremoz. Foto Tony, cerca de 1950.

Na minha juventude, os passeios pelo Rossio levavam-me invariavelmente a deter nos stands da Olaria Alfacinha (Fig. 3) e da Olaria Regional, onde mirava e remirava as peças oláricas, mas onde não comprava nada, não só porque não chegara ainda a altura de o fazer, mas porque como jovem de então, só tinha cotão nos bolsos das calças.

Fig. 3 - Stand da Olaria Alfacinha no Rossio Marquês de Pombal em Estremoz, no ano de 1974.

Em 1963, a participação da olaria e da barrística no Cortejo Etnográfico integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz (Fig. 4 a Fig. 11) foram determinantes na tomada de consciência de um jovem de 17 anos como eu, de que tanto a olaria como a barrística eram manifestações vigorosas não só da identidade cultural estremocense, como da identidade cultural alentejana.


Fig. 4 - Acarreto de barro previamente extraído do barreiro.

Fig. 5 - Oleiro  modelando uma peça na roda.

Fig. 6 - Brunideiras decorando o vasilhame de barro antes de ser cozido.

Fig. 7 - Bonequeiras modelando e pintando Bonecos de Estremoz. 

Fig. 8 - Fabrico de tijolo burro por moldagem.

Fig. 9 - Retirados dos moldes os tijolos burros são postos a secar ao sol durante vários
dias, antes de ser cozidos no forno

Fig. 10 - Uma carrada de lenha para alimentar o forno onde são cozidas as peças de barro.

Fig. 11 - Alimentação com lenha do forno onde será  efectuada a cozedura
 das peças de barro.  

Entretanto, ingressei na Universidade e só em 1972 comecei a comprar objectos oláricos e Bonecos de Estremoz, após ter ingressado como professor na então Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Eram compras às pinguinhas, já que em início de carreira ganhava pouco mais do que coisa nenhuma,

Naturalmente, que as aquisições causadas pelo fascínio do barro precisavam de ser consolidadas com conhecimentos. Foram determinantes na minha formação como coleccionador, livros como “Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho (Fig. 12), “Algumas palavras acerca de Púcaros de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos,(Fig. 12), “La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux (Fig. 13),e mais tarde “Barros de Estremoz”, de Joaquim Vermelho (Fig. 13),, a que se seguiram outros livros e brochuras, adquiridos muitas vezes no mercado alfarrabista.

Fig. 12 - Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho e  “Algumas palavras acerca de Púcaros
de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos.

Fig. 13 - La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux e “Barros de
Estremoz”, de Joaquim Vermelho.

As leituras levaram-me a formular questões relativamente àquilo que leio e aos objectos oláricos que vou adquirindo, pelo que a minha formação científica me induz a investigar, visando "Pôr o preto no branco".

Em 2009, criei o blogue “Do tempo da Outra Senhora” (Fig. 14), onde vou publicando escritos de olaria e de barrística de Estremoz, com a pedalada que me é possível, pois as minhas motivações culturais dispersam-se simultaneamente por outros centros de interesse. Foi assim que em 2018 publiquei o livro “BONECOS DE ESTREMOZ” (Fig. 15), dado à estampa pelas Edições Afrontamento.

Fig. 14 - Aspecto parcial da página de entrada do blogue "Do Tempo da Outra Senhora".

Fig. 15 - "BONECOS DE ESTREMOZ”, de Hernâni Matos. Edições Afrontamento, 2018.

Com a morte em 2016 de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, constituiu uma tragédia cultural. Tornou-se real a necessidade de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, acção que em devido tempo veio a ser despoletada pelo Município de Estremoz, em parceria com entidades oficiais para isso vocacionadas. 

Fig. 16 - Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), decano da olaria e o último oleiro de Estremoz.
 Fotografia do Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
Colecção Joaquim Vermelho.

Fig. 17 - Uma aula do 1º módulo do Curso de Olaria em 2021. Fotografia da ADOE.

Creio que a realização do presente colóquio, integrado neste 1º Encontro Nacional de Olaria, indicia que os trabalhos de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, marcham no bom caminho. Creio igualmente que nessas tarefas de missão é relevante o papel dos coleccionadores, no duplo papel de colectores e de investigadores, produtores de conhecimento, que dão um inestimável contributo para a arte avançar. Daí que me atreva a efectuar aqui, ainda que duma forma sucinta, aquela que é na minha óptica a caracterização da tradição oleira de Estremoz.

Hernâni Matos