Cavaleiro tauromáquico (1934). Ilustração de Almada Negreiros na capa da PANORAMA – Revista de Arte e Turismo, nº 3, de Agosto de 1941.
Os anti-taurinos, comandados por uma minoria de
lunáticos alojados no Parlamento, pretende em nome de supostos valores
civilizacionais, criar por etapas, condicionantes que conduzam à erradicação da
Tauromaquia em Portugal.
Foi assim que na Assembleia da República, a
Ministra da Cultura declarou que tenciona manter a taxa de IVA de 13% para os
espectáculos tauromáquicos, prevista no Orçamento do Estado para 2018, argumentando
que "há valores civilizacionais que diferenciam políticas".
A reacção dos partidos
Quem ficou incomodado com as declarações da
Ministra da Cultura em relação às touradas foi o poeta e histórico socialista
Manuel Alegre que em declarações ao jornal Público no início do mês declarou: ”o que está em causa com as suas
declarações é a liberdade de uma grande tradição ibérica”, acrescentando “Agora
são as touradas, depois há de ser a caça e depois o livro que podemos ou não
ler”. E concluiu: “É este tipo de intolerâncias que cria os Bolsonaros. Atitudes
como esta colocam em causa a democracia”.
Da Ministra da Cultura discorda a maioria do Grupo
Parlamentar do PS, que com o seu líder Carlos César à cabeça, não dá cobertura aquela
Figura, auto-travestida em Ministra da Intolerância Tauromáquica.
António Costa há muito que percebeu e aceitou o
direito à diferença. Todavia, apesar de político experiente, vê-se metido numa grandessíssima
tourada, já que aceitou o direito à diferença da sua Ministra da Cultura, pelo
que não tem outro remédio, por maioria de razão, senão aceitar o direito à
diferença do seu Grupo Parlamentar em relação àquela e por arrastamento, em
relação a ele próprio.
A nível de Geringonça e desta tourada toda, sai
incólume o PCP, que tem peso político em municípios com tradições taurinas e há
muito percebeu que é preciso respeitar o Povo.
O PS é historicamente caracterizado por ter um pé
de um lado do rio e o outro do lado contrário, não vá o Diabo tecê-las. Apesar
dessas condicionantes todas, a matriz popular que ainda o incorpora e até ver, parece
ser favorável à Tauromaquia, o que a meu ver constituirá uma atitude sábia de
um partido que, no terreno social e político, se afirma e tem pretensões a ser
um partido charneira.
Do Bloco de Esquerda é melhor não falar, porque
fico mal disposto. Do PEV e do PAN, que são criações surrealistas de alguém em
maré imaginativa, tão pouco falo, já que são partidos urbanos e residuais, que
servem de bengala quando dá jeito.
A direita é comandada pelo CDS em nome da Tradição,
já que “La Noblesse oblige” e leva o PSD na sua peugada. Este partido, apesar
de estar na fase Rio, é como o PS, useiro e vezeiro por questões tácticas, em
apostar em dois cavalos ao mesmo tempo.
Outras
reacções
A PróToiro – Federação Portuguesa de Tauromaquia,
lançou uma “Petição para defender o respeito pela cultura
portuguesa, pela lei e pelos direitos inalienáveis do acesso de todos à
cultura, em liberdade, e sem discriminações.”
Como era de esperar, surgiu uma “Petição pela
abolição das touradas e de todos os espectáculos com touros” e uma “Petição que
defende um Referendo Nacional para abolição das touradas”.
Nas redes sociais, abolicionistas e
anti-abolicionistas deram conta dos seus pontos de vista. Assim a PróToiro
editou na sua página do Facebook, uma fotografia do poeta e histórico
social-democrata Vasco da Graça Moura, acompanhada do excerto de um discurso
seu no Parlamento Europeu: “As touradas
são um ritual diante do perigo em que arte e coragem, inteligência e perícia,
entusiasmo e audácia, criatividade e liberdade permitem (ao toureiro) revisitar
e refazer o mito imemorial da luta do Homem contra o que de mais obscuro e
brutal existe na natureza, concentrados no toiro que ataca.”
Como aficionado partilhei o texto da PróToiro na
minha página do Facebook e imediatamente comecei a receber “Gostos”, mas também
comentários desajustados em relação a Vasco da Graça Moura e em relação a mim
mesmo. Comentários da parte de quem, gozando do direito democrático que a Constituição
lhe confere de não gostar de touradas, não admite que outros possam gostar de
touradas, graças a essa mesma Constituição. Chama-se a isso intolerância. É uma
atitude inadmissível num Estado de Direito, onde o direito à diferença está
consignado na lei.
Os activistas anti-touradas, que não são obrigados
a frequentá-las, pretendem por todos os meios que outros que as queiram
frequentar, não o possam fazer. Ainda não há muito tempo, Marco Pernas Fanéco,
da Tertúlia Tauromáquica Estremocense, se queixou na sua página do Facebook,
ter visto a sua integridade física em risco por um grupo de manifestantes
anti-taurinos, quando pretendia entrar na Praça do Campo Pequeno, em Lisboa.
Mas o que é isto? É caso para proclamar:
- Perdoai-lhes Pai, que eles não sabem o que fazem!
Foram cegados por fundamentalismos doutrinários e crêem-se detentores da
verdade.
Aspecto da assistência. Fotografia de Luís Guimarães.
O EVENTO EM SI
Pelas dezasseis horas do passado dia 2 de Setembro, teve
lugar na Igreja dos Congregados, em Estremoz, o lançamento e apresentação do livro
“FRANCO-ATIRADOR. TEXTOS DE CIDADANIA DE UM ALENTEJANO DE ESTREMOZ”, evento que
contou com a participação de mais de uma centena de pessoas.
O painel de apresentação do autor e do livro foi constituído
por Fernando Mão de Ferro (da editora Colibri), Hernâni Matos (autor), Francisca
Matos (prefaciadora), António Júlio Rebelo (posfaciador) e Armando Alves (autor
da capa), tendo-se registado intervenções dos quatro primeiros.
No local esteve ainda patente ao público uma exposição de exemplares
de figurado e de arte conventual de Estremoz, referidos no livro.
PALAVRAS DO AUTOR
MINHAS SENHORAS E MEUS
SENHORES:
Procurarei ser breve, tanto quanto possível. Começarei pelos agradecimentos.
Em primeiro lugar,
quero agradecer ao Pároco de Santo André Dr. Fernando Afonso, ter-me
possibilitado a apresentação do livro na Igreja dos Congregados, que além de estar
situada no centro da cidade é um espaço excelente, já que é amplo, com muita dignidade
e onde se respira espiritualidade. Tudo isso são factores favoráveis à
apresentação do livro neste local. Mas há duas outras razões e qualquer delas
tem a ver com o exercício da cidadania, que é o tema central do meu livro.
Em 1º lugar, a atitude de
resistência dos frades oratorianos que em 1808, no decurso da 1ª invasão
francesa, esconderam no Convento dos Congregados, a imagem da Rainha Santa
Isabel trazida da sua Capela no Castelo e que assim escapou ao saque dos
franceses.
Em 2º lugar, a Igreja
dos Congregados incompletamente construída nos anos 60 do séc. XX, simboliza a
determinação da comunidade local em ressarcir a Paróquia de Santo André do
derrube da Igreja homónima, a mando do Estado Novo, que acabaria por morrer de
velho.
São factos importantes
no meu registo de memória e que por isso constam no livro. Este, insere entre
outros os seguintes textos profusamente ilustrados:
- Senhor Jesus dos
Passos de Estremoz
- As Festas da Exaltação
da Santa Cruz de 1963
- Rainha Santa Isabel,
Padroeira de Estremoz
- Santo António na
Tradição Popular Estremocense
Daí que à semelhança do
que aconteceu em 2012 com o lançamento do livro anterior, me tenha lembrado de
expor na Igreja dos Congregados, exemplares de figurado e de arte conventual de
Estremoz, referidos naqueles textos.
Como artesão das
palavras foi a maneira encontrada de fazer ponte com artesãos do barro e da
arte conventual que são os melhores embaixadores desta terra transtagana, aquém
e além fronteiras. Também eles, vivos ou finados, são heróis que exalto ao
longo do livro, pelo fascínio que exercem em mim, as técnicas ancestrais que
dominam e lhe brotam miraculosamente à flor das mãos.
Em segundo lugar,
quero agradecer ao editor Fernando Mão de Ferro da Colibri, editora prestigiada
que tem um projecto editorial com o qual me identifico. Foi a ele que submeti
para apreciação o projecto de edição do presente livro, o qual foi aceite. Daí
estarmos hoje aqui.
Em terceiro lugar,
quero agradecer ao pintor Armando Alves, amigo de longa data e figura cimeira
da cultura nacional e com obra espalhada pelas sete partidas do Mundo. “Armando
Alves, Inventor de Céus e Planícies” no dizer de José Saramago, está
indissociavelmente ligado à História das Artes Plásticas em Portugal e
revolucionou as Artes Gráficas. Uma capa do Armando é uma obra de arte. Daí que
lhe tenha pedido para criar a capa, ao que ele acedeu sem hesitação alguma. O
resultado é bem conhecido e nele está magistralmente expresso o Alentejo
vermelho das terras de barro de Estremoz, gravado não só na sua como na nossa
alma e, que sob a direcção atenta e calorosa do seu olhar de visionário, as
suas mãos sabem com mestria transmitir a tudo aquilo que faz. A capa do Armando
elevou o livro a uma dimensão superior àquela que já tinha. Estou-lhe infinitamente
grato por isso.
Em quarto lugar,
quero agradecer aos professores Francisca de Matos e António Júlio Rebelo, duas
figuras prestigiadas da comunidade local, bem conhecidas nos meios culturais.
São também amigos de longa data, companheiros de trilhos culturais, com os
quais é gratificante caminhar. Tanto um como o outro me conhecem bem e à minha
escrita. Daí que tenha sido inescapável convidá-los a prefaciar e a posfaciar o
meu livro. À semelhança da capa do Armando, também o prefácio da Francisca de
Matos e o posfácio do António Júlio Rebelo elevaram o livro a uma dimensão
superior àquela que já tinha. Também a eles estou infinitamente grato por isso
e à Francisca de Matos também a revisão apurada e meticulosa do texto.
Em quinto lugar,
quero agradecer a presença de todos vós, a qual é para mim gratificante e me dá
estímulo para continuar.
Permitam-me agora falar um pouco de mim e do livro.
Como cidadão tenho uma
visão multifacetada do mundo e da vida, que me leva a interpretar a realidade
sob múltiplos ângulos interdisciplinares, na procura assimptótica da verdade. A
minha amiga Francisca Matos disse-me um dia: - “Nunca se sabe para onde é que o
Hernâni vai disparar!”. De facto, tenho um espectro largo de interesses
pessoais, os quais estão na origem das temáticas abordadas serem diversificadas
e muitas vezes, uma síntese dialéctica das mesmas.
Na
escrita assumi-me como franco-atirador, que como sabem é um atirador de
precisão. As minhas armas são os abastados arsenais da minha memória e da minha
biblioteca e arquivo pessoais, a que acresce a pesquisa incessante, a exigência
de rigor e a minha maneira própria de dizer as coisas.
Comofranco-atiradordopensamentoedaacção,osmeusdisparosnão sãoprevisíveis,nem sequercondicionáveisemuitomenoscontroláveis. No texto “Que farei com esta coluna?” inserido no livro, proclamo que:
“Um franco-atirador é comoumcavalo
à rédeasolta quecavalgaem sintoniacomacampina,pornecessidadetelúricaeoníricadeexercitaraliberdade.Legitima-meaforçadarazãoqueemanadaTerra-Mãe,doespíritodosantepassadosedamissãoinescapáveldepassarotestemunho.”
Como escritor,
jornalista e blogger, utilizo a escrita como instrumento ao serviço do
exercício do direito de cidadania. Os meus textos constituem reflexões sobre
problemas individuais e sociais, visando potenciar uma tomada de consciência
por parte daqueles com quem interactuo, numa perspectiva de gerar dinâmicas de
intervenção e transformação social que tenham como referência os direitos
humanos.
O livro agora dado à
estampa, constitui uma compilação seleccionada de textos do período 1998-2017.
São escritos que foram publicados na imprensa local e no blogue “Do Tempo da
Outra Senhora”, bem como em catálogos de exposições, assim como textos utilizados
na apresentação de livros e como comunicações em sessões de índole diversa,
para as quais fui convidado. Cada texto está perfeitamente identificado não só
em termos de temporalidade, como no que respeita a local de publicação ou
divulgação.
Os jornais desaparecem
com o tempo e ficam confinados aos arquivos de bibliotecas e de editores. Daí
ser importante compilar textos jornalísticos em livro, o qual assegura a perpetuidade
dos textos, que assim servem para memória futura do que foi uma época.
O tema central do livro
é o exercício da cidadania nos seus múltiplos aspectos por parte de um
português, que tem a particularidade de ser um alentejano de Estremoz.
Por uma questão de
metodologia os textos foram sistematizados e ordenados em seis grandes capítulos
que designei sucessivamente por: Da Identidade, Das Palavras, Da Sociedade, Do
Património, Da Cultura, Da Memória.
“Da Identidade” reúne
textos que têm a ver com a minha matriz identitária como português, alentejano
e estremocense. “Das Palavras” congrega textos que são reflexões sobre o acto
de criação do texto literário e do texto jornalístico, bem como sobre a
deturpação da escrita, não só devido a “gralhas” como a modificação indevida de
textos na redacção, sem autorização prévia do autor. “Da Sociedade” junta
textos de crítica social e política, tanto a nível local como a nível nacional.
“Do Património” agrega textos referentes à defesa do património cultural,
material e imaterial a nível local.”Da Cultura” é uma compilação de textos da
área cultural relativos à minha actividade neste domínio. “Da Memória” é
integrado por textos “in memorian” de figuras destacadas da comunidade que já
partiram e cuja evocação me é grata.
A escrita vale por ela
própria e por isso o livro foi inicialmente concebido sem ilustrações. Porém, a
dada altura, pensei que seria positivo ilustrá-lo com imagens de Estremoz do
passado, maioritariamente pertencentes ao meu arquivo pessoal. Em boa hora o
fiz, porque o público é diversificado e a visualização de imagens reforça o conteúdo
do livro, que todavia não fica refém delas.
O livro foi dedicado à Memória de Francisco Joaquim
Batista (Chico das Metralhadoras), velho republicano que me iniciou no
exercício dos direitos de cidadania. Foi também dedicado a Manuel Madeira
(Cachila) cineasta e amigo de juventude que incentivou em mim o gosto pela
escrita.
A partir de agora este livro é também vosso.
Desejo-vos que tenham tanto prazer na sua leitura, como eu tive em redigir cada
texto.
Obrigado a todos pela vossa amizade e também pela
vossa presença.
devida vénia do programa da Grande Corrida de Toiros comemorativa dos 55 anos de alternativa do Mestre.
Jamais
esperei que a vida fosse tão generosa comigo.
Há
muito vim ao mundo.
Tive
o enorme privilégio de poder dedicar a minha vida, à minha paixão, os cavalos e
a Tauromaquia. Por esse mundo tauromáquico deambulei, Portugal, Espanha, França,
México, Venezuela, Angola, Moçambique e até na distante e exótica Indonésia,
pude tourear. Podia ter feito mais e melhor, no entanto as imperfeições eram
muitas e acima de tudo, sempre dei o melhor de mim. Pude compartilhar experiências
e conhecimentos adquiridos com muitos jovens que também tiveram o maior dos
sonhos "ser toureiro". Juntos aprendemos, juntos evoluímos! José João
Zoio, Rui Salvador, Frederico Carolino, José Luís Cochicho, João Cerejo ou o
meu filho Francisco, foram alguns deles.
De
tudo ficam para além das vivências, os amigos. Esses que a vida me foi
colocando no caminho e para sempre ficaram.
Para
o fim deixo o melhor do melhor, a família que Deus me deu. Para além da família
de berço, uma mulher, dois filhos e cinco netos.
Que
mais pode um homem de 79 anos querer no Outono da vida, do que estar rodeado de
quem mais ama? 0 meu filho Francisco padecendo do doce veneno da tauromaquia,
ambicionou organizar esta corrida para comemorar a longínqua data de 22 Abril
de 1962, já lá vão 55 anos...
Não
creio merecer tanto desta vida, mas não tive coragem de recusar. Voltar a
vestir a casaca da minha alternativa 55 anos depois, para fazer as cortesias,
ao lado do meu filho e sobretudo do meu querido neto, Francisco Jr., é para mim
uma enorme honra e emoção. 0 meu neto toureará, por mim e para mim, um novilho
nesta sua estreia e espero que única comparência nas arenas.
Não
posso deixar de referenciar a presença do grande e amigo João Moura também ele
acompanhado do seu filho Miguel, e todo o restante elenco que dará cor e emoção
à corrida.
Obrigado a todos os que
tornarão possível esta noite, que para sempre ficará na minha memória.
Francisco Cortes na corrida de 20 anos de alternativa. Praça de Touros de Estremoz.
5 de Setembro de 2015.
Há uma esquerda residual,
mais da rua da Palma, que da Soeiro Pereira Gomes ou do Largo do Rato. É uma
esquerda que em nome dos direitos dos animais, se manifesta contra as touradas.
Está no seu direito. E exerce-o ao melhor estilo taurino, farpeando aficionados
como eu.
Foi na condição de
aficionado, que nos nºs 132 e 133 deste jornal, defendi a Candidatura das
Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
É sabido que é meu timbre o
rigor que ponho em tudo aquilo que escrevo. Os meus textos são antecedidos de
pesquisa cruzada de informação que me permita não errar. Essa a minha aposta
permanente.
A leitura atenta da
CONVENÇÃO PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL, aprovada a 17 de
Outubro de 2003, pela Conferência Geral da UNESCO reunida em Paris,
permitiu-me concluir que as Candidaturas a Património Cultural Imaterial da
Humanidade devem dizer respeito a património cultural
imaterial, transmitido de geração em geração e que no caso das touradas em
Portugal remonta à Idade Média. Esse património cultural imaterial não pode
violar os direitos humanos e por outro lado, as artes do espectáculo nas quais
se integram as touradas, são consideradas pela UNESCO como património cultural
imaterial.
Insinuar que os dois textos aqui publicados anteriormente são fruto de sonhos delirantes ocorridos durante a “silly season”, é simplesmente infame e revela a ligeireza com que o assunto foi abordado. Para quem não saiba, a “silly season” é um anglicismo que designa o período de verão, em que como há falta de notícias importantes, os critérios de selecção jornalísticos tornam-se mais flexíveis, sendo dado relevância a assuntos que, de contrário não a teriam.
Este jornal é um espaço de liberdade e de cidadania e por isso como homem livre sou seu colaborador. Nunca me foi encomendado nem recusado nenhum texto e a iniciativa do mesmo foi sempre minha.
As touradas não são um tema frívolo ou estúpido, são um tema fracturante na sociedade portuguesa, como o mostra a verbosidade dos defensores dos direitos dos animais.
No número anterior deste jornal, defendi a
candidatura das touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade, o que
deixou algumas pessoas perplexas, por pensar que tal proposta não era compatível
com o conceito de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O que diz a
UNESCO
Para a compreensão do conceito de Património
Cultural Imaterial, há que ter em conta a CONVENÇÃO PARA A SALVAGUARDA DO
PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL, aprovada a 17 de Outubro de 2003, pela Conferência
Geral da UNESCO reunida em Paris. A Convenção no seu Capítulo I – DISPOSIÇÕES
GERAIS, tem dois artigos que importa aqui destacar: “ARTIGO 1º: FINALIDADES DA CONVENÇÃO. As finalidades da presente
Convenção são: (a) a salvaguarda do património cultural imaterial; (b) o
respeito do património cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos
envolvidos; (c) a sensibilização a nível local, nacional e internacional para a
importância do património cultural imaterial e da sua apreciação recíproca; (d)
a cooperação e assistência internacionais. ARTIGO 2º: DEFINIÇÕES. Para efeitos
da presente Convenção, 1. Entende-se por “património cultural imaterial” as
práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências – bem como
os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão
associados – que as comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos reconhecem
como fazendo parte do seu património cultural. Este património cultural
imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado
pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua interacção
com a natureza e da sua história, e confere-lhes um sentido de identidade e de
continuidade, contribuindo assim para promover o respeito da diversidade
cultural e a criatividade humana. Para efeitos da presente Convenção, só será
tomado em consideração o património cultural imaterial que seja compatível com
os instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos existentes, bem como
com a exigência do respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos, e de
um desenvolvimento sustentável. 2. O “património cultural imaterial” tal como é
definido no parágrafo I supra, manifesta-se nomeadamente nos seguintes
domínios: (a) tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do
património cultural imaterial; (b) artes do espectáculo; (c) práticas
sociais, rituais e actos festivos; (d) conhecimentos e usos relacionados com
a natureza e o universo; (e) técnicas artesanais tradicionais.”
As touradas
em Portugal
O toureio a cavalo remonta à Idade Média, como nos
relata Fernando Teixeira no seu livro TOUROS EM PORTUGAL – UM PATRIMÓNIO
HISTÓRICO, ARTÍSTICO E CULTURAL, dado à estampa em 1992, pelos Correios de
Portugal. As touradas incluem-se nas artes do espectáculo e as suas práticas
têm sido transmitidas de geração em geração, encontrando-se registadas ao longo
dos séculos na literatura portuguesa, como bem documenta a antologia:
O MUNDO DO TOUREIO NA LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA,
editada pela Portugália em 1966, com selecção e prefácio de Urbano
Tavares Rodrigues. Aí se toma conhecimento de que no âmbito da POESIA, a
tauromaquia foi abordada sucessivamente por autores como: João Roiz de Castel
Branco, Nicolau Tolentino, Alexandre da Conceição, António Nobre, Mário Beirão,
Carlos Queiroz e Azinhal Abelho. No domínio da PROSA daquela temática,
regista-se a existência de autores como Almeida Garrett, Rebelo da Silva,
Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Marcelino Mesquita, Abel Botelho,
Fialho de Almeida, João Viegas de Paulo Nogueira, Manuel Teixeira Gomes,
Trindade Coelho, Augusto de Castro, Norberto de Araújo, Noel Teles, Sousa
Costa, Mário Domingues, Augusto Casimiro, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Alves
Redol, Fernando Reis e Miguel Urbano Rodrigues. A nível do TEATRO há a referir
autores como Júlio Dantas e Bernardo Santareno.
Uma proposta
que faz sentido
De acordo com o exposto, faz todo o sentido, a defesa
da candidatura das touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade. De
resto, existem que eu saiba, 40 municípios com tradições taurinas, que
constituem uma secção da Associação Nacional de Municípios, alguns dos quais já
declararam as touradas como Património Cultural Imaterial de Interesse
Municipal. É o primeiro passo no sentido de concretização da candidatura a
apresentar à UNESCO.
Quando era miúdo, o meu avô Manuel Alturas,
ferroviário aposentado, republicano e amante da Festa Brava, levava-me aos
touros e comprava rebuçados que comíamos durante a corrida. Eu ficava encantado
com o ritual das cortesias e o evoluir elegante do ginete de Mestre João Branco
Núncio, a quem os mais velhos chamavam “O Califa de Alcácer”.
Quando ia às touradas usava calças de cós alto e
jaqueta que o meu pai, alfaiate de lavradores e de toureiros, confeccionara
para mim. Um pequeno chapéu à Mazantino completava os meus adereços. Desse
tempo, guardo como relíquia, a minúscula jaqueta que levava às touradas.
O cavalinho
de pau
Nos anos cinquenta do século passado, eram
frequentes, em Estremoz, o carro de tracção animal, os trens e as caleches, bem
como o próprio acto de montar a cavalo. Natural era, pois, que eu, habilitado
com as asas da minha imaginação, sonhasse em ser cavaleiro. E fazia-o,
brincando com o meu cavalinho de pau, o qual durante muito tempo foi a vassoura
de cabo alto, lá de casa.
Nas minhas cavalgadas, fazia como o “Califa de
Alcácer”. Por vezes mudava de montada e passava a cavalgar a cana de caiar.
Certo dia, a minha mãe, farta das minhas
traquinadas com os utensílios domésticos, acabou por me comprar um cavalinho de
pau, mesmo a sério, com cabeça de cavalo, crinas, arreios e tudo. E logo que o
estreei, como ele não dizia nada, com todo o meu contentamento fui eu próprio
que relinchei por ele, o que emprestou mais realismo à minha representação. E
sabem que mais? Quando montava o meu corcel, usava sempre um barrete feito de
papel de jornal, que o meu avô me ensinara a fazer numa tourada, quando me
esqueci de levar o meu chapéu à Mazantina.
O meu barrete de papel era um acessório importante.
Quando fazia de militar a cavalo, usava o barrete posto de trás para diante e
uma espada de madeira presa no cinto das calças. Já quando era cavaleiro
tauromáquico, punha o barrete de papel atravessado na cabeça e usava um pau a
fazer de farpa. Mas nada de usar jaqueta ou chapéu à Mazantina, porque isso era
só nos dias de festa.
As minhas representações equestres eram
diversificadas, iam do trote ao galope, passando pelo volteio. Nelas, na minha
imaginação, eu era sempre um garboso cavaleiro montado num puro-sangue de
Alter, que cavalgava horas a fio no Largo do Espírito Santo. Acontecia às vezes
que uma tourada ficava a meio do seu curso ou, o que era bem pior, não
conseguia concretizar uma carga de cavalaria. Sabem porquê? É que a minha mãe aparecia
à janela a gritar:
- “Hernâni anda para a mesa, que são horas de
comer!”
E eu não resistia à chamada, porque com tanta
cavalgada, já tinha a barriga a dar horas.
Aficionado de
gema
Como devem ter percebido, aprendi a gostar de
touradas como o meu avô e ainda hoje sou aficionado. Reconheço que as touradas
estão muito para além do mundo taurino: ganadeiros, campinos, forcadagem,
cavaleiros, toureiros, bandarilheiros, apoderados e empresários. É minha firme
convicção que as touradas estão na massa do sangue do Zé Povinho e integram a
Cultura Popular deste país. Daí que tal como os chocalhos de Alcáçovas devam
ser candidatadas a Património Cultural Imaterial da Humanidade. É caso para
dizer:
- MÃOS À OBRA!
Todavia, há por aí pessoas que não gostam de touradas
e que fazem campanha contra elas. Provavelmente irão atirar-se a mim, como gato
a bofe. Lembro-lhes que as touradas são um espectáculo legal e que ninguém é
obrigado a ir lá, tal como à missa ou ao futebol. O resto são filmes que se
passam na cabeça deles. O que vale é que como nos diz o rifoneiro popular: