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sexta-feira, 22 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás

 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 

LER AINDA
 
Como tudo começou

Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício.

O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz correspondeu na época à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos, a partir do “annus mirabilis” de 1983, consensualmente considerado o “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.     


100 anos de elevação de Estremoz a cidade

A convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio e, na condição de “maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente” (palavras suas), concebi uma exposição com base na minha colecção, visando dar uma retrospectiva possível dos últimos 100 anos de artesanato no concelho. Naturalmente que tive de fazer opções relativamente à tipologia de artesanato, o que me levou a excluir sem desprimor algum, o Figurado, a Olaria, a Cerâmica Vidrada e a Azulejaria de Estremoz. Cingi-me então à Arte Pastoril e à Arte Conventual (Papel Recortado, Pintura Judaica e Registos e Maquinetas), as quais decidi expor sob a epígrafe “ARTES DO VAGAR – Colecção Hernâni Matos”. 

Foi esta exposição que no passado sábado, dia 16 Maio, foi inaugurada na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho. À “vernissage” compareceram cerca de 6 dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, que usou da palavra a seguir à Directora do Museu, Isabel Água. Ainda que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto: reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem vêem, muito me congratulam e estimulam.

A exposição integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL SEROL GOMES (1957 -  )  Arte Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38 trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril (4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos); - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual - Pintura Judaica – (12 trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte Conventual – Registos e Maquinetas (28 trabalhos).     

Como nos diz no catálogo da exposição o Senhor Presidente da Câmara, “Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.” e acrescenta: “Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.” A terminar diz: “São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.”   

A exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026    
   




quinta-feira, 21 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 

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Palavras proferidas no acto inaugural da exposição
ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
que no dia 16 de Maio de 2026 teve lugar na
Sala de Exposições Temporárias do
Museu Municipal de Estremoz Professor Joaquim Vermelho


Exº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz e demais entidades presentes,
Minhas senhoras e meus Senhores:

Permitam-me que vos dê as boas vindas e agradeça a vossa presença nesta exposição, facto que muito me congratula.

Porque um homem sozinho não é ninguém e porque a ingratidão não é um timbre do meu traço de carácter, impõem-se aqui múltiplos agradecimentos:

- Em 1º lugar ao Senhor Presidente José Daniel Sadio, que me desafiou a realizar a presente exposição no âmbito da celebração dos 100 anos de elevação de Estremoz a cidade, desafio que aceitei sem hesitações e com um misto de prazer e espírito de missão. Em 1º lugar e ainda ao Senhor Presidente José Daniel Sadio que com as suas palavras de abertura no catálogo da exposição, muito me honra e dignifica o catálogo.

- Em 2º lugar à Professora Francisca de Matos, minha amiga de longa data, companheira de estradas culturais e grande senhora das palavras, pelo traçado do meu perfil biográfico como recolector, o qual igualmente muito me honra e dignifica o catálogo da presente exposição.

- Em 3º lugar à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água, que me deu todo o apoio possível e foi incansável na coordenação dos múltiplos aspectos e na “colagem das pontas soltas” que o edificar duma exposição deste quilate impõe, visando o seu sucesso.

- Em 4º lugar à Equipa Técnica do Museu Municipal de Estremoz, que com profissionalismo e dedicação, deu um vigoroso contributo para estarmos a inaugurar hoje e aqui, esta exposição.

- Em 5º lugar aos membros do Gabinete de Comunicação do Município que deram um inestimável contributo para o catálogo editado, o qual perdurará para a posteridade como visual e memória futura da exposição. São eles: Luís Dias (fotografia), Rui Louro (Grafismo) e Jorge Mourinha (Impressão e acabamento).

Terminado que é este período de cumprimentos e de agradecimentos, estarão decerto, algumas de Vªs Exªs a perguntar:

- ARTES DO VAGAR, PORQUÊ? Eu passo a explicar.

O vagar é uma marca de água da identidade cultural alentejana, já que os alentejanos são ancestralmente avessos a pressas e nutrem um desprezo olímpico pelo frenesim contemporâneo. Desde sempre adoptaram um modo de vida caracterizado por um ritmo de vida pausado, calmo e consciente. Trata-se de uma forma de estar que valoriza o tempo, a reflexão, a partilha e a ligação ao meio circundante.

Daí que a ARTE PASTORIL e A ARTE CONVENTUAL, as quais são objecto da presente exposição, sejam merecedoras de receber conjuntamente o epíteto de ARTES DO VAGAR.

Deixem-me falar agora da exposição em si

Sou conhecido e reconhecido como recolector e investigador da Cultura Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.

A minha amiga Francisca de Matos que me conhece há muito, diz que não tem dúvidas de que eu nasci para ser RECOLECTOR e o meu amigo António Júlio Rebelo condecorou-me há 2 anos atrás com o epíteto de GUARDADOR DE MEMÓRIAS.

Pois bem, o que está presente nesta exposição é uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao acervo pessoal de artesanato de Estremoz, pertencente ao recolector e guardador de memórias que sou eu.

Os trabalhos expostos distribuem-se por duas grandes áreas: - ARTE PASTORIL (Trabalhos em madeira, cabaça e em chifre, de Manuel António Capelins, Teresa Serol Gomes, Miguel Serol Gomes, Joaquim Carriço Rolo, José Carrilho Troncho, Roberto Carreiras; - ARTE CONVENTUAL [Papel recortado (Joana Simões e Joaquina Simões), Pintura judaica (Natália Simões) e Registos e maquinetas (Guilhermina Maldonado)]

Trata-se de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício. O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz corresponde à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos. Para além disso, tive o privilégio de conhecer e interactuar com os artesãos cujos trabalhos integram a presente exposição e pelos quais nutri e nutro uma incomensurável estima e admiração pelo seu saber-fazer. Daí não ser de estranhar que me tenha sentido motivado a reunir um conjunto de trabalhos desses artesãos a partir do “annus mirabilis” de 1983, o qual indubitavelmente constituiu “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.

Os trabalhos expostos são registos de memória providos das marcas identitárias dos seus criadores. Para além disso são também memórias guardadas por mim como respigador que agora as partilho com a comunidade e o público em geral.

Esta exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que esta exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

E disse.

Estou agora à vossa disposição para vos conduzir numa visita guiada à exposição.

(E esta aconteceu).

Hernâni Matos



sábado, 17 de janeiro de 2026

Crispim Serrano, Presente!

 

1 - Crispim Serrano, funcionário do Município de Estremoz, figura-chave na
recolha de peças utilizadas nas fainas agro-pastoris concelhias para o Museu
da  Alfaia Agrícola,  nos anos 80 do séc. XX.


“Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”
José Régio in Cântico Negro


Sem querer chover no molhado

Muito se tem falado e escrito a propósito disto e daquilo, das instalações definitivas do chamado Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz.
O debate perde-se na lonjura do tempo, é do domínio público e no decurso dele têm-se revelado opiniões críticas, de carácter piedoso em relação ao Museu e ao público alvo: a Comunidade e aqueles que nos visitam. Algumas delas tresandam a “gato escondido com o rabo de fora”, já que não conseguem disfarçar o fito de nos seus juízos, visarem zurzir o Executivo Municipal em exercício, o que já aconteceu sucessivamente com edilidades de diferentes colorações ideológicas.
Muitas das vezes as divergências não são mais que meros reflexos de caganifâncias resultantes de diferentes orientações metodológicas em termos de musealização ou necessidade de protagonismo dos seus fautores. Para além disso, são a assunção da ignorância flagrante duma verdade culinária clássica e de um provérbio tradicional português “Não se fazem omeletes sem ovos”. E no caso do Museu da Alfaia Agrícola, os ovos têm a ver com prioridades, oportunidades, projectos e financiamento.

Palavras do Presidente do Município
Em depoimento prestado ao jornal E e publicado no número anterior, o Presidente do Município, José Sadio deu conhecimento de dois factos relevantes: 1) Avançará em breve a aquisição do imóvel destinado às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola, uma vez que se encontram reunidas as condições necessárias para o fazer; 2) Está a ser desenvolvido internamente um novo Projecto de Musealização para o futuro espaço, o qual vai ser submetido a candidatura, visando o respectivo financiamento (*1).
Os meus parabéns ao Município na pessoa do seu Presidente, uma vez que a missão a que se propôs está em vias de ser concluída.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Desconheço inteiramente a designação que vai ser atribuída ao chamado “Museu da Alfaia Agrícola” nas suas futuras instalações. Há muitas hipóteses, das quais respigo algumas: Museu da Alfaia Agrícola, Museu Rural, Museu da Lavoura, Museu da Agricultura, Centro Interpretativo do Mundo Rural, Centro Interpretativo da Ruralidade, etc.
Outras designações haverá certamente. Caberá ao Executivo Municipal escolher aquela que melhor se ajuste à filosofia do Projecto subjacente às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola.
Para além disso, atrevo-me a sugerir ao Executivo Municipal que vá mais além. Vejamos porquê. É sabido que o Museu Municipal de Estremoz criado em 1880, foi transferido para as actuais instalações em 1972. Desde os anos 70 do século passado que o Professor Joaquim Vermelho desenvolveu uma actividade cultural intensa na Biblioteca e no Museu Municipal, sobejamente reconhecida pela Comunidade e fora dela. Daí que em 1 de Março de 2003, o Município de Estremoz o tenha homenageado postumamente, atribuindo ao Museu Municipal de Estremoz a designação “Professor Joaquim Vermelho”. Tratou-se de uma iniciativa inteiramente justa, reconhecida e aplaudida pela Comunidade, que via nele o “Pai” do Museu Municipal de Estremoz. É que “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”, como no diz José Régio no “Cântico Negro” e no caso do Museu Municipal de Estremoz, o “Pai” foi o Professor Joaquim Vermelho.

2 - Exposição de Maquinaria e Alfaias Agrícolas no decurso da III Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz, entre 25 e 28 de Julho de 1985.

E no caso do “Museu da Alfaia Agrícola”?
No caso do Museu da Alfaia Agrícola ou outra designação que venha a ser adoptada pelo Município, atrevo-me a propor ao Executivo Municipal, que lhe seja adicionada a designação “Crispim Serrano” (Fig. 1), pois foi ele o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Vejamos porquê.
Crispim Serrano, foi um camponês de rija tempera, daqueles que “comeram o pão que o diabo amassou” e trabalharam de sol a sol, a troco de pouco mais de coisa nenhuma, nas múltiplas tarefas sazonais que constituíam o dia a dia das herdades alentejanas. Conhecia como poucos as alfaias agrícolas e o seu modo de utilização, por ter trabalhado com elas mais os seus companheiros. Conhecia as estórias de vida de abegões que as confeccionaram e estórias de vida de homens como ele, que a soldo dos donos das terras e em condições a maioria das vezes adversas, tinham a seu cargo a nobre missão de assegurar a produção de bens pela Terra-Mãe, os quais iriam garantir a prosperidade do patrão e simultaneamente assegurar o seu ganha-pão.
Crispim Serrano tinha consciência da importância das alfaias agrícolas como registo dum passado que se estava a esvair e da importância das mesmas na elaboração de uma memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns, a transmitir às novas gerações.
Na qualidade de encarregado de pessoal, liderou uma equipa de funcionários do Município que a partir de 1983 e sob sua orientação começou a recolher alfaias agrícolas por cedências, empréstimos ou depósitos postos à disposição do Município e recolhidas nas Casas Agrícolas do Concelho. Nalguns casos, as peças recolhidas encontravam-se já em condições limite, abandonadas em telheiros, ao ar livre e mesmo em lixeiras, ao sabor das intempéries, correndo o risco de as ferragens serem corroídas pela ferrugem e as madeiras apodrecerem com a chuva e a humidade ou serem recolhidas para serem utilizadas como material de combustão.
A importância da recolha liderada por Crispim Serrano é incomensurável. A sua origem e passado camponês permitiram-lhe acumular ao longo do tempo, um valioso acervo de saberes, talentos e competências que se revelaram inestimáveis na recolha que liderou. Ele conhecia como ninguém, a área geográfica de cada freguesia, bem como a localização das peças que era importante recolher, tendo em conta a sua singularidade e a valorização que davam ao conjunto recolhido.
Os frutos da recolha então efectuada viriam a ser objecto de recuperação, limpeza e conservação em armazéns do Município situados na Horta do Quiton, em Estremoz, o que foi feito por funcionários do Município liderados igualmente por Crispim Serrano (*2). Da Horta do Quiton saíram cerca de 4000 peças utilizadas nas fainas agro-pastoris do concelho, as quais vieram a incorporar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola, primitivamente instalado em 1987 no edifício da Antiga Fábrica de Moagem e Electricidade na Rua Serpa Pinto, em Estremoz. Nos seus primórdios o Museu seria gerido pela chamada “Comissão da Alfaia Agrícola”, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho e dependente da CME.
Antes da sua integração no Museu da Alfaia Agrícola, algumas dessas peças já tinham participado em exposições associadas aos seguintes eventos: Festas da Exaltação da Santa Cruz em 1983 e 1984, bem como na III, IV e V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, realizadas respectivamente em 1985 (Fig. 2), 1986 e 1987. Neste último ano, a V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz integrou pela primeira vez a I FIAPE - Feira Internacional Agro-Pecuária e de Artesanato de Estremoz. Foi no decurso desta última que ocorreu a maior exposição de material agrícola que reuniu cerca de 4000 peças que posteriormente viriam a constituir o acervo do Museu da Alfaia Agrícola.

O “Pai” Crispim Serrano
Julgo ter ficado demonstrado duma forma insofismável a extraordinária importância que Crispim Serrano teve como recolector de peças das fainas agro-pastoris concelhias que viriam a integrar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola. Ele está indubitavelmente na génese deste Museu, o qual não existiria sem ele. Creio sinceramente que Crispim Serrano pode muito legitimamente ser considerado o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Daí que eu proponha ao Executivo Municipal que em sua homenagem, ao nome do Museu seja adicionada a designação “Crispim Serrano”. Será um tributo póstumo da Comunidade, prestado como reconhecimento que lhe é devido pelo mérito demonstrado com o seu contributo para a elaboração de uma memória colectiva de âmbito concelhio. É, de resto, um jeito belo e elegante de a Comunidade proclamar que ele permanece vivo na memória colectiva que ajudou a construir:
- CRISPIM SERRANO, PRESENTE!

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(*1) – De acordo com o que consegui apurar o financiamento será concretizado através do programa ARI (Autorização de Residência para Investimento), o qual financia projectos museológicos através da vertente de apoio ao património cultural, permitindo que investidores estrangeiros façam um donativo mínimo para a recuperação, restauro ou manutenção de museus e monumentos, com aprovação prévia do GEPAC (Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais), serviço integrado da administração directa do Estado português, que actua na área governativa da Cultura e que concede autorização de residência em troca do investimento cultural.
(*2) – Na época assisti de perto à recuperação de muitas dessas peças na Horta do Quiton, a qual frequentava desde a minha infância, já que nasci ali bem perto, no nº 14 do Largo do Espírito Santo. Envolvido em actividades culturais patrocinadas pelo Município de Estremoz, interactuei inúmeras vezes com Crispim Serrano, o qual me concedeu o privilégio da sua amizade.

Hernâni Matos
Publicado em 17 de Janeiro de 2026
Publicado no jornal E, nº 371 de 16-01-2026

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS - Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os canudos de lume, artefactos de arte pastoril

 

 Fig.1 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no  sentido do
comprimento. Tricromia verde – vermelho – preto.  60,5 cm x 3 cm.

Canudos de lume
da Colecção Hernâni Matos

À lareira, no Alentejo de outros tempos
No Alentejo de antanho, quando chegava o Inverno seroava-se à lareira, o que era prática corrente, tanto na casa dos camponeses como dos senhores da terra. As noites eram longas e o frio era de rachar, sobretudo nas casas dos pobres, menos confortáveis, muitas vezes com telhados de telha-vã [i] e pavimentos que eram de tijoleira e muitas vezes de laje de xisto.
O lume que crepitava frente às “bonecas”[ii] aquecia os membros da família sentados num “mocho”[iii] ou num “burro”[iv]. Simultaneamente, o fumo ascendente da lareira ia curar os enchidos do fumeiro suspensos de traves no interior da chaminé. Isto, é claro, se a família era daquelas que tinham posses para fazer a “matança do porco”, o que não constituía regra geral, nem lá perto.
Era à volta da lareira que a família fazia o balanço desse dia, se falavam dos planos para o dia seguinte, se evocavam aqueles que já tinham partido e os mais velhos davam conselhos aos mais novos. Era também à lareira que para “passar o tempo”, era transmitida de pais para filhos, a rica tradição oral que integra a matriz da nossa identidade cultural: estórias, cancioneiro popular, adivinhas, provérbios, lengalengas, rezas, etc.

Os canudos de lume
À medida que o tempo passava, a lenha ia sendo consumida e o lume ficava mais fraco. Tornava-se necessário reavivá-lo, acrescentando mais lenha ou/e atiçando o fogo, o que se conseguia utilizando o “canudo de lume”.
Este é um utensílio tradicional de forma tubular, utilizado como soprador de lume, o qual permite direccionar o ar para as brasas ou para a lenha, visando avivar o fogo. Para tal, o utilizador sopra na extremidade do orifício mais largo, saindo o ar pela extremidade oposta com o orifício mais estreito, em direcção ao lume.
O canudo de lume pode ser de metal, de madeira ou de cana, perfuradas. Nestes dois últimos casos, a superfície dos canudos de lume pode se encontrar finamente trabalhada e decorada, o que torna os canudos de lume, artefactos de arte pastoril.


Hernâni Matos


[i] O telhado de telha-vã era um tipo de cobertura em que as telhas de canudo (telhas mouriscas) de barro eram aplicadas directamente sobre a estrutura de suporte (barrotes e ripas de madeira), sem a instalação de qualquer forro por baixo.
Este tipo de cobertura favorecia a ventilação natural do espaço situado abaixo, o que era benéfico no Verão mas péssimo no Inverno, além de que oferecia fraco isolamento acústico, o que constituía um enorme inconveniente em períodos de ventania.
[ii] Ornamento interior das chaminés.
[iii] Banco baixo, confeccionado em madeira e com travessas para fortalecer os pés, empalhado em buinho.
[iv] Também designado por “tripeça”, já que é um assento de três pés e sem encosto, confeccionado toscamente, a partir de tronco de sobreiro ou de azinho.


Fig. 2 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
Pentacromia verde – vermelho – azul – amarelo – laranja. 60,5 cm x 3 cm.

Fig. 3 – João Catarino (Orada). Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
81 cm x 2,5 cm.

Fig. 4 – João Catarino (Orada - Borba). Incisões em baixo relevo sobre cana.
Decorado com motivos geométricos distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 87 cm x 2,5 cm.

Fig. 5 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Heptacromia verde – vermelho – azul – amarelo – rosa - lilás – preto. 
69 cm x 2 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 6 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 53,5 cm x 2.5 cm.

Fig. 7 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos florais que se distribuem no sentido do comprimento.
66,5 cm x 2 cm.

Fig. 8 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos que se distribuem
no sentido do comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene.
69 cm x 1,9 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 9 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos e florais distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene. 65,5 cm x 2,2 cm.
A extremidade da saída do ar termina em bisel.

Fig. 10 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira
Decorado com motivos geométricos, florais, zoomórficos e antropomórficos distribuídos
por faixas no sentido do comprimento. A decoração com motivos zoomórficos e
antropomórficas recorre a excrescências da madeira. 74 cm x 3 cm.
Mais estreito numa das extremidades que na outra.

domingo, 23 de novembro de 2025

Tenores de Redondo



Na vila de Redondo existem diversos grupos corais activos, tanto masculinos como femininos e mistos. São eles: Grupo de Cantadores do Redondo, Cantadeiras do Redondo, Grupo Coral e Instrumental Academia de Afectos, Grupo Coral Polifónico da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense e Trovadores de Redondo.

O número e a diversidade destes grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por destilação do vinho nos alambiques.

Redondo é simultaneamente terra de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.

Daí que as olarias locais manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente caídos em desuso.

A opção dos adegueiros pelo uso de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui aplicáveis: “No poupar é que está o ganho",A necessidade é mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."

A terminar e como está frio, brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente, faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente” "Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".

Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia. 

Hernâni Matos

domingo, 9 de novembro de 2025

Os pisadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Pisador. Colecção Hernâni Matos.


Um pisador é um utensílio em madeira usado em culinária com recurso a gral ou não e que permite triturar, moer e misturar substâncias sólidas. É recorrendo a um pisador que se prepara o piso utilizado na confecção da açorda alentejana, usando sal grosso, alho, coentros ou poejos.

Os pisadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 6), constituem graciosos exemplares de arte pastoril.

 Hernâni Matos


2. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

3. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

4. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

5. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

6. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

sábado, 8 de novembro de 2025

Os esfolhadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

O esfolhador é uma alfaia agrícola usada outrora na cultura do milho. Trata-se de um artefacto com uma extremidade pontiaguda, manufacturado em madeira, usado tradicionalmente para descamisar o milho. Os esfolhadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 4), constituem belos exemplares de arte pastoril.

A operação de descamisar o milho, realizada após a colheita, consistia em separar a maçaroca de milho do folhelho, camisa ou carapela, conjunto de folhas finas e esbranquiçadas que revestem as maçarocas.

Para descamisar o milho, pegava-se manualmente numa maçaroca, com o esfolhador rasgava-se o folhelho, que depois era afastado da maçaroca. Seguidamente com uma mão a segurar a maçaroca, dava-se com a outra um puxão no folhelho, o qual era assim separado daquela.

A operação de descamisar o milho ocorria em ajuntamentos comunitários conhecidos como descamisadas, desfolhadas ou esfolhadas e tinha lugar nas eiras em finais de Setembro ou início de Outubro, após a colheita do milho.

As desfolhadas eram tradições comunitárias, actualmente descontinuadas, que assumiam a forma de festas comunitárias realizadas nas eiras, à noite e ao luar, em que se socializava, cantando e contando estórias alegres e brejeiras

Depois da desfolhada seguia-se a debulha e, finalmente, o milho era estendido na eira para seca, até ser armazenado para posterior consumo.

Hernâni Matos

2. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

3. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

4. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Uma singular colher-garfo, artefacto bifuncional de arte pastoril

 

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A Cristina Carvalho que me cedeu
o exemplar de arte pastoril
que foi objecto do presente estudo

Prólogo
O artefacto em madeira que é objecto do presente estudo (fig. 1), configura ser uma colher articulada constituída por duas partes: uma concha ovóide lisa (fig.2) e uma tampa plana de perfil ovóide (fig. 3), com decoração incisa no interior (fig. 4) e no exterior (fig. 5).

Decoração incisa no interior da tampa
O simbolismo da decoração incisa global passa pelo simbolismo do coração transpassado por uma seta e pelo simbolismo da Cruz de Cristo (fig. 4)
O elemento central da decoração incisa é a Cruz de Cristo ou Cruz de Portugal, com os braços verticais e horizontais proporcionais, formando um quadrado. Simboliza a religiosidade cristã e foi usada pelos Templários durante as cruzadas (sécs. XI-XIII) e pelos navios portugueses no decurso das expedições na época das descobertas marítimas (sécs. XV-XVI).
O coração transpassado por uma seta simboliza o amor romântico, a paixão, o ser "atingido" pelo amor. A presença de dois corações em posições anti-simétricas um em relação ao outro, significa que a força do amor em cada um deles actua em direcção oposta à do outro, mas com igual intensidade. Estamos, pois em presença da representação de um afecto profundo e da ligação entre dois corações e duas almas, um homem e uma mulher, a quem a colher é oferecida.
Os dois corações trespassados pelas setas têm a Cruz de Cristo a liga-los entre si, o que traduz a condição cristã do homem e da mulher apaixonados, bem como o compromisso de um casamento cristão a selar a união entre ambos.

Decoração incisa no exterior da tampa
À primeira vista parece que o exterior da tampa plana da colher (fig. 5) tem uma decoração incisa cuja componente dominante é um garfo. Todavia uma observação mais atenta revela que aquilo que na tampa configura ser a representação incisa de um garfo, é mesmo um garfo articulado (fig. 6), cuja articulação é coaxial com a colher e com a respectiva tampa. Esta foi escavada em baixo relevo no seu exterior, visando permitir o encaixe do garfo quando este não está a ser utilizado.

Epílogo
Uma análise mais atenta do artefacto que era objecto de estudo revelou que aquilo que inicialmente configurava ser um artefacto monofuncional (colher), revelou ser afinal um artefacto bifuncional (colher-garfo). Lá diz o rifão "As aparências iludem”, o que é equivalente a dizer que “Nem tudo o que parece é", bem como ainda “As coisas não são como são, mas como a gente as vê".

Hernâni Matos


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