sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Carlos Alves e a cozinha dos ganhões

 

Cozinha dos ganhões (2021). Carlos Alves (1958-  ). Vista de frente. 

Cozinha dos ganhões (2021). Carlos Alves (1958-  ). Vista de trás. 

Cozinha dos ganhões (2021). Carlos Alves (1958-  ). Vista de cima. 

Ao barrista Carlos Alves:
Eu hoje acordei com o sete metido na cabeça.
O sete é como que um número mágico. De acordo
com o Génesis, Deus criou o mundo em seis dias e
descansou no sétimo, tornando-o um dia santo.
E o número sete passou a simbolizar perfeição e
conclusão. Perfeição que eu encontro na tua recriação
da Cozinha dos Ganhões, depois de estar concluída.
Utilizei então o número sete para lavrar uma estrofe
de quatros versos heptassilábicos, onde falo da tua
obra, aproveitando para realçar que eram pobres
os comeres dos ganhões:

A Cozinha dos Ganhões
tem ganharia à mesa.
Eram parcas refeições
e não havia sobremesa.

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Prólogo
A terminologia “cozinha dos ganhões” usada na designação da figura sobre a qual incide o presente estudo, impõe que seja feita a sua explicitação, para o que me irei socorrer de textos meus, já anteriormente publicados.
Ganhões
“Os "ganhões" eram assalariados agrícolas indiferenciados, que se ocupavam de tarefas como lavras, cavas, desmoitas, eiras, etc., com excepção de mondas, ceifas e gadanhas, que eram efectuadas por pessoal contratado sazonalmente pelos lavradores.
O conjunto dos ganhões era designado por "ganharia" ou "malta" e tinha por dormitório a chamada "casa da ganharia" ou "casa da malta", casa ampla que podia acomodar vinte a trinta homens, em tarimbas improvisadas ao longo das paredes.
No monte, as refeições da ganharia tinham lugar na chamada “cozinha dos ganhões”. Aí se sentavam em burros[i] dispostos ao longo de uma mesa comprida e estreita. A cozinha dispunha igualmente de uma lareira espaçosa onde se podia cozinhar em panelas de ferro. A comida era bastante frugal: açorda acompanhada com azeitonas, olha[ii] com batatas e hortaliças, sopas de cebola acompanhadas com azeitonas, olha de legumes com toucinho e morcela ou badana, gaspacho acompanhado com azeitonas ou batatas cozidas temperadas com azeite e vinagre.” (1)
“A mesa da cozinha dos ganhões era posta pelo abegão[iii] e pelo sota, que se sentavam cada um à sua cabeceira da mesa. A entrada dos ganhões na cozinha só se verificava depois do abegão ter bradado para o exterior: “Ao almoço!”, ”À ceia!” ou “Ao jantar!”, conforme a refeição de que se tratava. A malta acudia logo à chamada, tirava o chapéu e sentava-se à mesa sempre no mesmo lugar. O que era para comer já tinha sido previamente vazado pelo abegão e pelo sota, em grandes alguidares, conhecidos por “barranhões”. Só faltava migar as sopas de pão, o que cada um fazia puxando da navalha que trazia consigo. Lá diz o adagiário: "Sopa de ganhão, cada três um pão."
Amolecidas as sopas, o abegão dava ordem de comer, soltando um “Com Jesus!”. De cada barranhão comiam quatro a seis ganhões, cada um dos quais metia sempre a colher no mesmo local do barranhão, já que "Não há guerra de mais aparato que muitas mãos no mesmo prato."
O abegão e o sota comiam cada um deles em sua tigela, mais pequena que o barranhão e que era unicamente para cada um deles.” (2)
“No início do século passado, ainda persistia o costume de no final da refeição, o abegão juntar as mãos e dizer “Demos graças a Deus.” A malta punha então as mãos e pelo menos aparentemente, todos rezavam e só deixavam de o fazer, quando o abegão se benzia, dizendo: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”. Nessa altura benziam-se e só depois se retiravam.” (2)
A figura
Estamos em presença de uma figura composta que representa a refeição de três assalariados rurais (ganhões) sentados em torno de uma mesa assente numa base rectangular simulando o chão, cujo topo é cinzento cor de laje e a orla cor de zarcão.
Os ganhões têm como traços comuns estarem sentados em “burros”, usarem na cabeça um chapéu aguadeiro[iv] negro e calçarem botas com diferentes tons de castanho.
O da esquerda com cabelo e suíças grisalhas configura ser idoso, o do centro com cabelo e bigode negros aparenta meia idade, enquanto o da direita com cabelo castanho parece ser um jovem imberbe.
Trajam de maneiras distintas: O da direita veste calças azuis, enverga uma camisa azul claro com botões da mesma cor e por cima dela um pelico castanho em pele de ovelha, debruado com couro castanho claro e com uma abotoadura provida de alamares em couro, algo mais escuro que o debrum. O do centro veste calças cinzentas cingidas à cintura com um cinto negro, camisa branca com botões da mesma cor e colete negro com abotoadura frontal de igual cor, apresentando costas em cinzento, de largura regulável por meio de um cinto e de uma fivela dessa mesma cor. O da direita traja calça castanha com cinto de tonalidade mais escura e camisa verde claro com botões de igual cor.
Todos têm à sua frente uma malga em barro vermelho vidrado, com açorda e ovo escalfado. O da frente parece levar uma colher de madeira à boca e tem do seu lado direito um copo de barro vidrado, supostamente contendo vinho. O da direita pega com a mão esquerda num copo como o anterior e tem uma colher de madeira assente na mesa junto à mão direita. O da direita pega numa colher de madeira com a mão esquerda e tem a mão direita próxima de um copo igual aos demais.
Sobre a mesa e à frente, da esquerda para a direita veem-se sucessivamente um chouriço cortado, uma navalha aberta e um pão igualmente cortado.
Análise contextual da figura
A criação da figura “cozinha dos ganhões” remonta segundo creio a José Moreira (1926-1991) e posteriormente a figura tem conhecido várias recriações por parte doutros barristas, todas elas ingénuas. Analisemos sob o ponto de vista da ingenuidade, a recriação de Carlos Alves:
- O chapéu aguadeiro de uso corrente pelos assalariados rurais alentejanos nos finais do séc. XIX e primórdios do século XX, é encarado em termos de traje como uma marca identitária alentejana. Todavia, os ganhões tal como vimos atrás, por uma questão de respeito e por prática religiosa, tiravam o chapéu da cabeça antes de se sentarem à mesa para comerem;
- A figura representa três ganhões e na prática estes eram em número superior, sentados de um lado e outro duma mesa comprida e estreita;
- Os ganhões não comiam de uma malga de uso individual, mas comiam vários de um barranhão de uso colectivo;
- Não era fornecido vinho às refeições, as quais eram modestas não incluindo chouriço ou queijo e mesmo ovo escalfado na açorda. De tal maneira que em certa ocasião, o ganhão e poeta popular Jaime da Manta Branca (1894-1955) foi levado a desabafar perante um lauto almoço do patrão com amigos: “Não vejo senão canalha / De banquete p'ra banquete / Quem produz e quem trabalha / Come açordas sem azête.”. Consta-se que a proeza lhe saiu cara e foi preso pela GNR. Estava-se em pleno Estado Novo.
O trabalho do barrista
A modelação e a decoração das figuras por parte deste barrista têm evoluído no sentido de uma maior minúcia, o que inclui também a representação de texturas. Deste modo, na decoração do presente conjunto e para além do sóbrio e harmonioso cromatismo naturalista dominante, foram representadas texturas[v] de alguns componentes: lã do pelico, cabelo e apêndices capilares, miolo do pão, veios da madeira e cortiça dos bancos. O artífice está a percorrer o seu próprio caminho e consolida o seu próprio estilo, o qual já é revelador de forte carácter artístico como barrista.
Na sequência da divulgação da presente figura por Carlos Alves no Facebook, comentou o consagrado barrista Jorge da Conceição: ”Continua a desenvolver o teu estilo e a dar consistência aos teus traços identitários que estás no bom caminho.”. É um comentário que provindo de quem vem, me apraz aqui registar.

BIBLIOGRAFIA
1 - MATOS, Hernâni. A novela Belmonte e a Poesia Popular de Estremoz. [Em linha]. [Editado em 27 de Novembro de 2013]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2013/11/a-novela-belmonte-e-poesia-popular-de.html [Consultado em 16 de Maio de 2021].
2 - MATOS, Hernâni. Cozinha dos ganhões. [Em linha]. [Editado em 26 de Abril de 2011]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2011/04/cozinha-dos-ganhoes.html [Consultado em 16 de Maio de 2021]. 

Publicado inicialmente a 19 de Maio de 2021
                                                                                                                                                                    


[i] Bancos rústicos confeccionados com pernadas de sobreiro.
[ii] Comida em cuja confecção podem entrar legumes frescos, legumes secos, batata, enchidos, carne.
[iii] A ganharia tinha como mandante o “abegão“, que só recebia ordens do grande lavrador, que o tinha como seu representante em todas as tarefas agrícolas. Era ele que dava as ordens para começar a trabalhar, comer ou parar e que tratava da acomodação e pagamentos da ganharia. O abegão trabalhava e comia juntamente com os ganhões, mas dormia em casa própria com o “sota“, que era coadjutor e substituto do abegão em tudo que podia e sabia.
[iv] O chapéu aguadeiro, típico no Alentejo de antanho, é um chapéu com copa semi-esférica e aba circular, larga e revirada integralmente para cima. A designação resulta de no caso de chover muito, reter a água da chuva, pelo que exigia ser revirado para baixo.
[v] Na barrística de Estremoz, a textura representada há mais tempo é a da pele de ovelha. No decurso do tempo outras se lhe foram adicionando numa perspectiva de fidelidade da representação naturalista. A título meramente exemplificativo, o barrista Jorge da Conceição já representou nas suas criações, texturas de materiais como: lã, cabelo, fio, pão, vime e cortiça.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A olaria tradicional como parte integrante da identidade cultural estremocense





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Jarro em barro vermelho de Estremoz, rodado e modelado. Morfologia ovóide com asa que une o bojo ao bordo. Base circular e abertura com bica.
Decoração mista, relevada, picada e polida, qualquer delas consignada pela tradição oleira local.
Alto relevo do Templo Romano de Évora, com o nome da cidade nele inscrito. Obtido por moldagem, seguida de colagem com barbutina no bojo.
Junto à base, faixa polida com recurso a teque.
Picagem realizada com escarpador em ferro na área disponível.
Ausência de tampa, presumivelmente extraviada.
Produção da Olaria Regional de Mário Lagartinho.
Jarro que é um registo material da antiga tradição oleira, cuja necessidade de recuperação é indissociável da salvaguarda da identidade cultural estremocense.

Publicado inicialmente em 15 de Outubro de 2024





 

domingo, 11 de outubro de 2026

Santo António dos Pobres, de Isabel Pires

 

Santo António dos Pobres. Isabel Pires (1955 -   ).

A minha colecção de Bonecos de Estremoz viu-se recentemente valorizada pela aquisição de uma imagem cuja descrição e estudo é objecto do presente texto.

Trata-se de uma imagem de Santo António (1195-1231), na qual é representado em jovem e em pé, envergando o característico hábito castanho dos franciscanos, com o capuz pendurado para trás, cingido à cintura por um cordão [1] acastanhado, pendente ao longo do hábito. Da cintura e paralelamente ao cordão pende um terço [2], do qual é visível a cruz, de cor negra.

O Taumaturgo [3], com os dedos do pé esquerdo a espreitar o hábito, está assente numa base minimalista de forma cilíndrica e cor verde escura, orlada superiormente a dourado e lateralmente com decoração fitomórfica simplificada, a azul escuro, amarelo e dourado.

O Doutor da Igreja [4] apresenta uma tonsura [5] no cabelo de cor castanha. Com a mão direita, segura um alforge de pão, de cor castanha, assente no ombro direito. Sobre a mão esquerda está sentado o Menino Jesus, de cabelo castanho encaracolado e descalço [6], o qual segura um pão com as mãos e traja um vestidinho de manga comprida, igualmente castanho e orlado a dourado na bainha e na gola,.

A imagem de Santo António acabada de descrever corresponde a uma alternativa iconográfica pouco comum, conhecida pelo nome de Santo António dos Pobres. Nela está implícita a sua caminhada pela França [7] no combate à heresia [8], bem como a sua preocupação com os mais desprotegidos, a qual partilha com o Menino Jesus [9], que se encarrega de retirar e distribuir o pão guardado no alforge, o chamado pão dos pobres.

Assim oferecido, o pão é simultaneamente alimento para o corpo e para o espírito – é o pão da Palavra que António repartiu com tanta generosidade.

A imagem que foi objecto da presente descrição e estudo foi criada pela hoje consagrada barrista de Estremoz, Maria Isabel Catarrilhas Pires (1955 - ) nos anos 80 do séc XX, no início da sua carreira. Daqui a saúdo e felicito pelo pendor fortemente naturalista desta sua criação, a qual muito me apraz e pela intensa espiritualidade que dela irradia.

Hernâni Matos

BIBLIOGRAFIA
MUSEU DE LAMAS. Santo António de Lisboa – A Peça do mês.  [Em linha]. Disponível em: https://museudelamas.blogspot.com/2011/06/santo-antonio-de-lisboa-peca-do-mes.html  [Consultado em 10 de Setembro  de 2026]. 




[1] Na arte e na iconografia religiosa, as imagens de Santo António a partir do séc. XV passaram a apresentar 3 nós no cordão cingido à cintura do hábito franciscano. Tal inclusão serve para recordar os votos perpétuos que o religioso professou: - POBREZA (Desprendimento total dos bens materiais); - CASTIDADE (Pureza de corpo, mente e coração); - OBEDIÊNCIA (Submissão humilde à vontade divina e às regras da Ordem). Contudo, mesmo no séc. XX, a maioria dos barristas de Estremoz não segue a “regra dos 3 nós”.
[2] O terço de que os franciscanos historicamente eram portadores junto ao hábito é o testemunho de uma vida de oração e intimidade com Deus e de profunda devoção à Virgem Maria. O terço surge na arte e na iconografia religiosa, ainda no séc. XVI.
[3] Aquele que opera milagres.
[4] Título oficial outorgado a Santo António em 16 de Janeiro de 1946, pelo Papa Pio XI, pelo profundo conhecimento das Escrituras e pelos seus Sermões.
[5] Este corte rente no topo da cabeça, sinaliza a sua vida monástica, a sua inteira consagração ao serviço de Deus, a renúncia às vaidades do mundo e a configuração a Cristo coroado de espinhos.
[6] Os pés descalços simbolizam aqui a humildade de Jesus.
[7] Esta missão ocorreu no período de 1224 a 1227, quando o Santo tinha entre 29 e 32 anos de idade e actuou como pregador itinerante e professor de teologia em cidades francesas como Montpellier, Toulouse, Le Puy e Limoges.
[8] Santo António combateu vigorosamente a heresia dos cátaros ou albigenses, concentrados no sul de França (regiões de Albi e de Toulouse), os quais professavam uma doutrina que afirmava que o mundo material era intrinsecamente mau, criado por um Deus maligno. Por isso, negavam a encarnação de Cristo e a presença real de Jesus na Eucaristia, dado que Deus não se misturaria com a matéria. Devido à sua admirável capacidade teológica e oratória para desmascarar estes erros doutrinários, recebeu dos cronistas medievais o epíteto de Martelo dos Hereges.
[9] - Na arte e na iconografia religiosa, as imagens de Santo António com o Menino Jesus ao colo só aparecem no séc. XVII.




quarta-feira, 7 de outubro de 2026

DIA NACIONAL DOS CASTELOS


Castelo de Estremoz.


A 7 de Outubro comemora-se o DIA NACIONAL DOS CASTELOS, efeméride Instituída em 1984, com o objectivo de promover em todo o País, acções que visem a reflexão sobre o Património fortificado, uma vez que os castelos, testemunhos da memória colectiva dos povos, constituem uma valorosa referência arquitectónica, histórica, cultural e simbólica de uma comunidade.

Neste dia são desenvolvidas actividades pedagógicas e lúdicas inteiramente dedicadas ao mundo dos castelos, para miúdos e graúdos, explorando as suas características próprias e evocando histórias, personagens e acontecimentos.

Outrora os castelos tinham funções defensivas e residenciais. Hoje perpetuam as memórias de um povo "conquistador" e fazem parte do imaginário infantil, tantos nos contos de princesas como nas construções de areia que o mar teima em derrubar.


Castelo de Estremoz.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)

 

01 - Roberto Carreiras (1930-2017)


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Cortesia do Arquivo Fotográfico da CME
(Roberto Carreiras) e Luís Dias (peças)
.


Natural da Veiros (Estremoz), onde nasceu na Quinta do Leão. Aqui começou como vaqueiro e ali trabalhou toda a vida até se reformar.

Iniciou-se na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto, era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas profissões, história, religião, touradas, etc.

Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983. 

Hernâni Matos


02 - Colheres antropomórficas (par). Madeira. Cabos com decoração antropomórfica
obtida por vazamento, configurando um homem e uma mulher, de corpo inteiro. 42 x 6 cm.

03 - Colher e garfo. Madeira. Cabos com decoração incisa, fitomórfica e cordiforme. 35 x 5 cm.

04 - Rainha Santa Isabel. Madeira. Decoração incisa. 28 x 8 cm.

05 - Nossa Senhora do Rosário. Escultura em madeira. 27 x 5,5 cm.

Publicado no jornal E nº 387, de 2 de Outubro de 2026


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

RUI SIMÕES ALVES (1956-2026) - Nota de pesar da Academia Portuguesa de Cinema




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É com profunda tristeza que a Academia Portuguesa de Cinema manifesta o seu pesar pelo falecimento de Rui Alves, profissional de cinema, cenógrafo, aderecista, artista plástico e homem de múltiplos talentos, cuja longa carreira ficou marcada por uma extraordinária dedicação ao cinema e às artes.

Nascido em Estremoz, em 1956, Rui Alves frequentou o Curso de Artes Gráficas da Escola António Arroio e iniciou, em 1975, um percurso profissional que se estenderia por várias décadas e por diferentes áreas da criação artística. Cinema, fotografia, teatro, publicidade, decoração, adereços, efeitos especiais, pintura e escultura fizeram parte de uma atividade marcada pela curiosidade, pela versatilidade e por uma permanente disponibilidade para criar.

No cinema, construiu um percurso particularmente rico, trabalhando em diferentes funções ligadas à cenografia, aos adereços e à construção dos universos visuais dos filmes. Desde os primeiros trabalhos como assistente de cenografia, no final da década de 1970, colaborou em produções portuguesas e internacionais, assumindo ao longo dos anos responsabilidades como aderecista, aderecista de plateau, assistente de decoração e responsável pela construção de adereços.

O seu nome encontra-se associado a numerosas produções, entre as quais O Conde de Monte Cristo, Le Cercle des Passions, La Lettre Voullè, To Catch a King, Giovanni Toscanini, Arsène Lupin, L'Accompagnatrice e Fado pour une jeune fille, revelando desde cedo a dimensão internacional do seu percurso profissional.

Ao longo da sua carreira, Rui Alves colaborou igualmente em importantes obras do cinema português. Foi responsável pela construção de adereços em Non ou a Vã Glória de Mandar, de Manoel de Oliveira, e trabalhou como aderecista de plateau e em efeitos especiais em Sinais de Fogo, entre muitos outros filmes.

A sua relação com o cinema estendeu-se ainda à cenografia e à decoração. Em A Moura Encantada, de Manuel Costa e Silva, surge creditado como aderecista e cenógrafo, testemunhando a amplitude das competências que colocou ao serviço das produções em que participou.

Mas a sua atividade artística não se limitou ao cinema. Rui Alves foi também pintor e escultor, desenvolvendo uma obra própria em que explorou formas, volumes, cores e texturas. Expôs regularmente o seu trabalho, apresentando, entre outras, a exposição Casas, em Lisboa, e mostras realizadas em Estremoz, Évora e Aveiro.

Essa multiplicidade de interesses e saberes definia também a sua presença profissional: um artista capaz de transitar entre o trabalho manual e a criação plástica, entre a construção de objetos e a composição de espaços, colocando a sua experiência e imaginação ao serviço das histórias que o cinema procurava contar.

Ao longo de uma carreira iniciada ainda nos anos 70, Rui Alves deixou uma marca discreta mas profunda nos bastidores de numerosas produções. O seu trabalho, muitas vezes invisível aos olhos do espectador, foi essencial para dar corpo, matéria e autenticidade aos mundos criados pelo cinema.

A Academia Portuguesa de Cinema presta homenagem ao seu percurso e ao importante contributo que deu ao cinema português, recordando um profissional de grande versatilidade e um artista cuja generosidade criativa se manifestou em múltiplos campos.

Aos seus familiares, amigos, colegas e a todos aqueles que com ele partilharam tantos anos de trabalho e amizade, a Academia Portuguesa de Cinema apresenta as suas mais sentidas condolências.




quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ser híbrido triplo - Um Picasso invulgar

 

Ser híbrido triplo. Jarra moldada de Estremoz. 44cm de altura.
Sem marca de autor. Colecção Hernâni Matos.


Adquiri recentemente uma peça olárica em barro vermelho de Estremoz, inteiramente polida, de 44 cm de altura, sem marca de autor, pertencente à classe das peças moldadas de feição modernista, vulgarmente designada por Picassos.

Trata-se de uma jarra invulgar, constituída por uma figura extremamente bela e elegante, assente numa base hexagonal.

A imagem configura ser a representação de um ser híbrido triplo, com cabeça e torso humano, as asas de uma ave e uma cauda de peixe. Não sei nem quero especular sobre a real intenção que na mente do oleiro presidiu à concepção desta figura. Apenas posso passar em revista marcos históricos que de algum modo têm a ver com a representação de seres. híbridos.

Na História da Arte, a representação de figuras híbridas é uma das marcas mais fortes do Surrealismo, o qual revolucionou a arte através da libertação do inconsciente, dos sonhos e da imaginação, rejeitando o controlo da razão, da lógica e das convenções sociais ou morais. Tais criaturas híbridas desafiam a lógica da realidade e combinam elementos que, no mundo real, nunca existiriam juntos.

Na Idade Média, os Bestiários, os Saltérios e os Livros de Horas também continham ilustrações com seres híbridos, as quais misturavam o ar, a terra e o mar para chocar o leitor. De acordo com o Genesis, Deus tinha separado o céu, a terra e as águas, mas o Diabo tentava baralhar e fundir essas fronteiras. Ver este híbrido triplo naqueles livros lembrava ao leitor o caos que o aguardava no Inferno.

Esse hibridismo triplo simbolizava uma criatura que rompia as barreiras da Criação divina. Em vez de respeitar a ordem estabelecida por Deus, misturava planos opostos (o céu da ave e o abismo do peixe), tornando-se uma representação do caos e da subversão espiritual.