(74 x 59 cm). Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa.
Do Tempo da Outra Senhora
A Escrita como Instrumento de Libertação do Homem
quinta-feira, 28 de maio de 2026
O calor no adagiário português
(74 x 59 cm). Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa.
terça-feira, 26 de maio de 2026
O recolector
Na abertura do catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR
PALAVRAS DA PROFESSORA
Conheço o Hernâni Matos há já muitos anos e nunca tive dúvidas de que nasceu para ser recolector, vocábulo de etimologia latina que, em sentido literal, significa aquele que tem por hábito recolher ou reunir. Na verdade, é este o labor que, desde sempre, dá sentido à sua existência, mas não se pense que o faz sem critério, como bem se prova na presente exposição, constituída por uma diversidade de objectos que são, antes de mais, o resultado de muitos anos de busca atenta junto de contactos pessoais que só um verdadeiro conhecedor possui, de acasos felizes que se dão no tempo e no lugar certos e do respeito que sente pelo trabalho destes artesãos que se perpetuaram através da sua arte. É ainda o resultado de um olhar treinado, e sobretudo informado, por muitos anos de leituras e de pesquisas incansáveis em livros e publicações sobre etnografia e etnologia, que foi igualmente reunindo e que são o chão da sua sólida (in)formação neste campo. É isso que lhe permite reconhecer, na sua habitual visita ao mercado de sábado e num simples relance, o valor ou o sentido verdadeiro de objectos incríveis que já poucos reconhecem e menos ainda valorizam.
Esta colecção que agora se apresenta ao público é também uma espécie de galeria de honra muito pessoal, constituída a partir da profunda admiração que o Hernâni Matos sente por cada dos artesãos aqui representados. Eles são para ele - sem desprimor de outros - uma verdadeira elite da chamada Arte Popular e Conventual Alentejana, na sua maioria autodidactas formados na grande escola da vida, mas senhores de grande sensibilidade e de um domínio técnico e artístico que não está ao alcance de qualquer um. Dela fazem parte objectos que contam histórias de outros tempos em que o vagar era coisa preciosa, que aproveitavam para dar largas à sua criatividade e para se abstraírem da aridez dos dias. Objectos que eram, para alguns, a única forma possível de beleza a que podiam aceder: a que eles criavam com as suas próprias mãos e com o auxílio de instrumentos e materiais também eles muito simples, de uso comum e a que tinham fácil acesso: o canivete, a madeira, as cabaças criadas na horta caseira, os chifres dos animais abatidos para alimentação... Objectos que, podendo ser funcionais, retratam tradições e costumes antigos de um povo e de uma região... Outros, de elaboração mais intrincada e exigente, exprimem crenças ou revelam, na graciosidade dos seus rendilhados e volutas, uma perícia técnica que deslumbra o olhar e que funciona, para quem os contempla (e talvez também para quem os fez com tanta mestria), quase como uma mandala de meditação.
Estes objetos fascinantes que o Hernâni Matos, com tanto afã, tem resgatado do esquecimento e da indiferença falam, pois, um dialecto próprio que ele conhece como poucos e que lhe enchem o peito de alegria. E como a maioria dos seus criadores já não está entre nós e não deixou discípulos, pode dizer-se que o fatum escolheu mesmo o nosso recolector para ser fiel depositário deste legado que agora partilha publicamente em forma não só de homenagem aos homens e mulheres que lhe deram origem, mas também à terra alentejana que o viu nascer e que ama de forma incondicional. Em boa hora o faz!
Hernâni Matos
Publicado em 26 de Maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
A abrir o catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR
PALAVRAS DO PRESIDENTE
No âmbito da celebração dos
100 anos de elevação de Estremoz a cidade, procuramos proporcionar aos
estremocenses uma oferta cultural diversificada, mas que seja também educativa.
O objetivo passa fundamentalmente por dar a conhecer o que foram estes 100 anos
na cidade, nas mais diversas vertentes.
Assim, lançámos o desafio ao
maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente, Hernâni Matos,
para que nos fizesse a retrospetiva possível, tendo como pano de fundo a sua
coleção, destes últimos 100 anos de artesanato na cidade.
O sucesso desta iniciativa é
evidente. Para além de conhecermos as melhores peças da coleção de Hernâni
Matos, as novas gerações terão acesso ao trabalho de um conjunto de artesãos já
falecidos, que de outra forma não fruiriam.
Fazer memória destes homens e
mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer
que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram
a quem quis aprender.
Infelizmente algumas artes
perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos
materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma
entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e
critério científico.
São estes testemunhos
materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”,
de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto
memória coletiva.
Publicado em 22 de Maio de 2026
sexta-feira, 22 de maio de 2026
ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás
Entre
15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal,
frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz.
Tratou-se
de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a
qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor
Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo
de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco
Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício.
O
Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já
algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com
especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial,
focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.
A
realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz
correspondeu na época à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros,
identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.
No
catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio
Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e
Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um
grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como
forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”
Com
a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz,
ocorre uma mudança de paradigma.
Artesãos
e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta
de cidadania”, perdoem-me a
linguagem metafórica.
A I Feira de Arte Popular e Artesanato do
Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas
localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é
legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983
foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a
adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".
Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios. E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos, a partir do “annus mirabilis” de 1983, consensualmente considerado o “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.
100 anos de elevação de Estremoz a cidade
A convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio e, na condição de “maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente” (palavras suas), concebi uma exposição com base na minha colecção, visando dar uma retrospectiva possível dos últimos 100 anos de artesanato no concelho. Naturalmente que tive de fazer opções relativamente à tipologia de artesanato, o que me levou a excluir sem desprimor algum, o Figurado, a Olaria, a Cerâmica Vidrada e a Azulejaria de Estremoz. Cingi-me então à Arte Pastoril e à Arte Conventual (Papel Recortado, Pintura Judaica e Registos e Maquinetas), as quais decidi expor sob a epígrafe “ARTES DO VAGAR – Colecção Hernâni Matos”.
Foi
esta exposição que no passado sábado, dia 16 Maio, foi inaugurada na Sala de
Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho. À
“vernissage” compareceram cerca de 6
dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao
evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena
Sadio, que usou da palavra a seguir à Directora do Museu, Isabel Água. Ainda
que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto:
reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram
a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem
vêem, muito me congratulam e estimulam.
A
exposição integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo
pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL
ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL
SEROL GOMES (1957 - ) – Arte
Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38
trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte
Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO
CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril
(4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos);
- NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual
- Pintura Judaica – (12
trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte
Conventual – Registos e Maquinetas (28
trabalhos).
Como nos diz no catálogo da exposição o Senhor Presidente da Câmara, “Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.” e acrescenta: “Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.” A terminar diz: “São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.”
A
exposição tem por objectivos: - Comemorar o
Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como
reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva;
- Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios
da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de
artesãos locais naqueles domínios.
Creio
que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não
seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou
simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.
Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026
quinta-feira, 21 de maio de 2026
ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!
Exº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz e demais entidades presentes,
Minhas senhoras e meus Senhores:
Permitam-me que vos dê as boas vindas e agradeça a vossa presença nesta
exposição, facto que muito me congratula.
Porque um homem sozinho não é ninguém e porque a ingratidão não é um
timbre do meu traço de carácter, impõem-se aqui múltiplos agradecimentos:
- Em 1º lugar ao Senhor Presidente José Daniel Sadio, que me desafiou a
realizar a presente exposição no âmbito da celebração dos 100 anos de elevação
de Estremoz a cidade, desafio que aceitei sem hesitações e com um misto de
prazer e espírito de missão. Em 1º lugar e ainda ao Senhor Presidente José
Daniel Sadio que com as suas palavras de abertura no catálogo da exposição,
muito me honra e dignifica o catálogo.
- Em 2º lugar à Professora Francisca de Matos, minha amiga de longa
data, companheira de estradas culturais e grande senhora das palavras, pelo
traçado do meu perfil biográfico como recolector, o qual igualmente muito me
honra e dignifica o catálogo da presente exposição.
- Em 3º lugar à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água,
que me deu todo o apoio possível e foi incansável na coordenação dos múltiplos
aspectos e na “colagem das pontas soltas” que o edificar duma exposição deste
quilate impõe, visando o seu sucesso.
- Em 4º lugar à Equipa Técnica do Museu Municipal de Estremoz, que com
profissionalismo e dedicação, deu um vigoroso contributo para estarmos a
inaugurar hoje e aqui, esta exposição.
- Em 5º lugar aos membros do Gabinete de Comunicação do Município que
deram um inestimável contributo para o catálogo editado, o qual perdurará para
a posteridade como visual e memória futura da exposição. São eles: Luís Dias
(fotografia), Rui Louro (Grafismo) e Jorge Mourinha (Impressão e acabamento).
Terminado que é este período de cumprimentos e de agradecimentos,
estarão decerto, algumas de Vªs Exªs a perguntar:
- ARTES DO VAGAR, PORQUÊ? Eu passo a explicar.
O vagar é uma marca de água da identidade cultural alentejana, já que
os alentejanos são ancestralmente avessos a pressas e nutrem um desprezo
olímpico pelo frenesim contemporâneo. Desde sempre adoptaram um modo de vida
caracterizado por um ritmo de vida pausado, calmo e consciente. Trata-se de uma
forma de estar que valoriza o tempo, a reflexão, a partilha e a ligação ao meio
circundante.
Daí que a ARTE PASTORIL e A ARTE CONVENTUAL, as quais são objecto da
presente exposição, sejam merecedoras de receber conjuntamente o epíteto de
ARTES DO VAGAR.
Deixem-me falar agora da exposição em si
Sou conhecido e reconhecido como recolector e investigador da Cultura
Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte
Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.
A minha amiga Francisca de Matos que me conhece há muito, diz que não
tem dúvidas de que eu nasci para ser RECOLECTOR e o meu amigo António Júlio
Rebelo condecorou-me há 2 anos atrás com o epíteto de GUARDADOR DE MEMÓRIAS.
Pois bem, o que está presente nesta exposição é uma selecção de 123
trabalhos pertencentes ao acervo pessoal de artesanato de Estremoz, pertencente
ao recolector e guardador de memórias que sou eu.
Os trabalhos expostos distribuem-se por duas grandes áreas: - ARTE
PASTORIL (Trabalhos em madeira, cabaça e em chifre, de Manuel António Capelins,
Teresa Serol Gomes, Miguel Serol Gomes, Joaquim Carriço Rolo, José Carrilho
Troncho, Roberto Carreiras; - ARTE CONVENTUAL [Papel recortado (Joana Simões e
Joaquina Simões), Pintura judaica (Natália Simões) e Registos e maquinetas
(Guilhermina Maldonado)]
Trata-se de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se
fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram
em várias edições da saudosa Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz, iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.
Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara
Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da
Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu
Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros
pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e
Manuel Ferreira Patrício. O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha
efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas
diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de
Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e
artes tradicionais.
A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz corresponde à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros,
identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.
No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara,
José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do
Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas
que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de
desenvolvimento de toda uma sociedade.”
Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.
Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por
muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de
cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.
A I Feira de Arte Popular e
Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com
novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia
é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de
1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a
adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus
mirabilis".
Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato
do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o
fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses
a outros domínios. E foi assim que
descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto
pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao
longo dos anos. Para além disso, tive o privilégio de conhecer e interactuar
com os artesãos cujos trabalhos integram a presente exposição e pelos quais
nutri e nutro uma incomensurável estima e admiração pelo seu saber-fazer. Daí
não ser de estranhar que me tenha sentido motivado a reunir um conjunto de
trabalhos desses artesãos a partir do “annus mirabilis” de 1983, o qual
indubitavelmente constituiu “o alfa e o ómega” da divulgação do
saber-fazer dos nossos artesãos.
Os trabalhos expostos são registos de memória providos das marcas
identitárias dos seus criadores. Para além disso são também memórias guardadas
por mim como respigador que agora as partilho com a comunidade e o público em
geral.
Esta exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da
Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos
identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; -
Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da
Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de
artesãos locais naqueles domínios.
Creio que esta exposição atingirá completamente os objectivos visados e
outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata”
do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os
franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo
de Sousa.
E disse.
Estou agora à vossa disposição para vos conduzir numa visita guiada à exposição.
(E esta aconteceu).
quarta-feira, 20 de maio de 2026
ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME)
Integrada
no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, foi
inaugurada no passado sábado, dia 16 Maio. na Sala de Exposições Temporárias do
Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, a exposição de artesanato
estremocense “ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS”.
À
“vernissage” compareceram cerca de 6 dezenas de convidados, cuja presença foi
para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara
Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, a quem agradeço as palavras
amigas, bem como à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água, a
qual no mesmo sentido o antecedeu no uso da palavra. Ainda que formalmente
distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto: reconhecimento da
singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram a dedicação da
minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem vêem, muito me
congratulam e estimulam.
Seguidamente,
coube-me a mim agradecer as facilidades concedidas pelo Município na realização
da exposição, bem como o contributo de todos aqueles que a tornaram realidade,
assim como viabilizaram de algum modo a publicação do catálogo da mesma, o qual
perdurará para a posteridade como visual e memória futura do evento.
Falei
seguidamente da exposição, a qual integra uma selecção de 123 trabalhos
pertencentes ao meu acervo pessoal de artesanato de Estremoz, assim
distribuídos pelos artesãos: - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte
Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17
trabalhos); - MIGUEL SEROL GOMES (1957 -
) – Arte Pastoril (3 trabalhos);
- JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38 trabalhos); - JOSÉ
CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO CARREIRAS
(1930-2017) – Arte Pastoril (4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E
JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12
trabalhos); - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual - Pintura Judaica
– (12 trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte Conventual –
Registos e Maquinetas (28 trabalhos).
A
terminar, conduzi uma visita guiada à exposição, no decurso da qual fiz referência
ao modo de produção de cada artesão, bem como a certos aspectos do respectivo
perfil biográfico.
Como
foi oportunamente divulgado, a exposição tem por objectivos: - Comemorar o
Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como
reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva;
- Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios
da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de
artesãos locais naqueles domínios.
Creio
que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não
seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de
Estremoz.
A
mostra estará patente ao público até ao próximo dia 15 de Setembro.
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