domingo, 29 de março de 2026

Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz


Mestre Mário Lagartinho (1935-2016)



Faleceu no passado dia 4 de Setembro, Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, o que constituiu uma tragédia cultural, numa cidade que já foi um dos maiores centros oleiros do Alto Alentejo. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual o Mestre foi um ícone.
Mário Augusto Raleira Lagartinho (1935-2016), filho de Marcolino Augusto Lagartinho e de Leonilde da Conceição Raleiro, era natural da freguesia de Santo André, concelho de Estremoz, em cuja Rua Magalhães de Lima-15, nasceu a 22 de Junho de 1935.
Sabe-se que começou a modelar o barro aos 12 anos de idade, na Olaria Regional, situada na Rua do Afã, em Estremoz e que era propriedade de Mestre José Ourelo (Zé Russo), formado na Olaria Alfacinha e que adquirira a oficina a Mestre Cassiano, fundador da Regional, já avançado na idade. A Olaria Regional viria a passar das mãos de José Ourelo para Mário Lagartinho, que nunca deixou os seus créditos em mãos alheias e foi um oleiro de nomeada. 
A necessidade de aumentar os seus proventos, levou-o nos anos 70 do século passado, a confeccionar bonecos de Estremoz, o que fez por auto-aprendizagem a partir de exemplares que lhe foram emprestados. Antes de terminar a sua actividade neste domínio, o que segundo dizia, fez por falta de tempo, transmitiu os seus saberes a Arlindo Ginja e a sua esposa, Ana Pascoal Ourelo Lagartinho, com quem casara catolicamente em 1958, na Igreja Paroquial de Santa Maria.
Mário Lagartinho, nunca conseguiu recuperar do abalo causado em 2011, pela morte do filho, também ele, Mário Lagartinho, ex-jogador de hóquei do Clube de Futebol de Estremoz, do qual foi treinador, assim como do Hóquei Clube Vasco da Gama, de Sines, cidade onde foi o grande impulsionador daquela modalidade.
Mestre Mário Lagartinho partiu, mas deixou connosco as suas criações: bilhas, moringues, garrafas de água, barris e púcaros, que entre outros, saíram das suas mãos mágicas de oleiro e que com os seus bonecos, estão dispersos por colecções particulares. Também o Museu Municipal de Estremoz, conta no seu acervo com exemplares, tanto de olaria como de figurado de Estremoz, afeiçoados pelas suas mãos.
Por iniciativa daquele Museu, a sua obra foi objecto de destaque recente nas exposições: “Mário Lagartinho - Olaria de Estremoz” (2004) e “Motivos decorativos na olaria de Estremoz do século XX” (2013), às quais há que acrescentar  “O vasilhame de barro  de Estremoz” (2012), graças à iniciativa da Associação Filatélica Alentejana.
Pessoalmente, Mário Lagartinho, a quem conhecia desde os anos 70 do século passado, concedeu-me o privilégio da sua amizade, o que permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da olaria de Estremoz na Escola Secundária, quando era director do seu Centro de Recursos. Foi um evento que nos marcou a todos, Mestre Mário, professores e alunos, já que as raízes da Escola entroncam na antiga Escola de Artes e Ofícios, por onde paira a memória do Curso de Olaria e de Mestre Mariano da Conceição (o Alfacinha), que conjuntamente com ti Ana das Peles, sob a acção do Director Sá Lemos, fizeram com que os bonecos de Estremoz, em processo de extinção, se tornassem numa Fénix renascida das cinzas.
Morreu Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz. Pessoalmente, como não tenho espírito sebastianista, não estou à espera dum novo Sá Lemos, que venha a reactivar a extinta olaria de Estremoz. Apenas me resta o registo da sua Memória, que me leva a proclamar, alto e bom som:
- MÁRIO LAGARTINHO, PRESENTE!
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 13 de Setembro de 2016


NOTA DE RODAPÉ
Decorridos onze dias sobre a edição deste post, o Grupo do PS na Assembleia Municipal de Estremoz, apresentou e viu aprovar por unanimidade a seguinte moção:
A Assembleia Municipal de Estremoz, reunida em sessão ordinária no dia 24 de Setembro de 2016, manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, o que constituiu uma tragédia cultural, numa cidade que já foi um dos maiores centros oleiros do Alto Alentejo. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual o Mestre foi um ícone.
Para além de oleiro, Mestre Mário Lagartinho foi bonequeiro e como tal foi um elo importante na cadeia de transmissão de saberes na produção de figurado de Estremoz, cuja candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade está em curso.
Como preito de homenagem a esta figura cimeira da cultura popular estremocense, a Assembleia Municipal de Estremoz, recolhe-se num minuto de silêncio em sua Memória.

sábado, 28 de março de 2026

Bonecos de Estremoz de Inocência Lopes

 

Nossa Senhora da Conceição

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“CURIOSIDADES” é o título da exposição de Bonecos de Estremoz da barrista evora montense Inocência Lopes, que desde 18 de Maio e até 3 de Setembro estará patente ao público no Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz.
A exposição intenta dar-nos uma ideia do que é o trabalho da barrista na actualidade, para o que recorre a cerca de 40 trabalhos, distribuídos por diferentes tipologias; - IMAGENS DEVOCIONAIS: Menino Jesus do Missal, Nossa Senhora da Conceição, Pão de Santo António, Rainha Santa Isabel (Milagre das Rosas), Santo António com o Menino ao colo; - PRESÉPIOS: Presépio de 3 figuras, Presépio da manta alentejana; - FIGURAS DA FAINA AGRO-PASTORIL NAS HERDADES ALENTEJANAS: Dia da espiga, Mulher dos carneiros, Mulher dos enchidos, Mulher dos perus, Par do Rancho Convenção de Évora Monte; - FIGURAS QUE TÊM A VER COM A REALIDADE LOCAL: Dama, Mulher a vender chouriços, Peralta; - FIGURAS INTIMISTAS QUE TÊM A VER COM O QUOTIDIANO DOMÉSTICO: Mulher a lavar a roupa, Senhora a servir o chá, Senhora ao espelho; - FIGURAS DE NEGROS: Preta florista, Rei negro (par); - FIGURAS ALEGÓRICAS: Amor é cego (par), Vitória de Estremoz, Primavera (duas), Primaveras de arco (três); - ASSOBIOS: Arco enfeitado, Candelabro enfeitado, Pucarinho enfeitado, Terrina enfeitada;
“CURIOSIDADES” (2023) é a primeira exposição individual de Inocência Lopes, que a encara como um misto de realização pessoal e de reconhecimento e valorização do seu trabalho. Uma exposição cuja visita recomendo vivamente.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 25 de Maio de 2023

Santo António com o Menino Jesus ao colo

Pão de Santo António

Menino Jesus do Missal

Rainha Santa Isabel (Milagre das Rosas)

Presépio de 3 figuras

Presépio da manta alentejana


Mulher dos carneiros

Mulher dos perus

Mulher dos enchidos

Dia da espiga

Par do Rancho Convenção de Évora Monte

Mulher a vender chouriços

Dama

Peralta

Mulher a lavar a roupa

Senhora a servir o chá

Senhora ao espelho

Preta florista


Reis negros (par)

Amor é cego (par)

Vitória de Estremoz

Primavera

Primavera

Primavera de arco

Primavera de arco

Primavera de arco

Arco enfeitado (assobio)

Candelabro enfeitado (assobio)

Pucarinho enfeitado (assobio)

Terrina enfeitada (assobio)

sexta-feira, 27 de março de 2026

A Dama dos Girassóis de Vera Magalhães


Dama dos Girassóis. Vera Magalhães (1966-  ).

Em jeito de apresentação
Vera Magalhães (1966-   ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.

O seu a seu dono
A Dama das Camélias”, é um romance do escritor francês Alexandre Dumas Filho, publicado pela primeira vez em 1848. “A Dama dos Girassois” é um Boneco de Estremoz criado pela barrista Vera Magalhães em 2020.

A Dama de Vera Magalhães
A Dama traja um distinto vestido comprido, a demarcar os contornos de um corpo a que corresponde uma silhueta graciosa.
O vestido revela confecção em tecido estampado com padrão de girassóis em campo verde seco. É fechado em cima por uma gola branca e larga, fechada por um botão amarelo no centro e orlado de castanho, cor que também é a dos punhos do vestido e da banda ajustada à cintura e atada atrás, em jeito de laço com duas airosas pontas pendentes.
A cabeça encontra-se adornada por um elegante chapéu castanho, que pompeia à frente três plumas de cor verde seco matizada de castanho, os quais sublinham o garbo do chapéu. O cabelo é castanho puxado para trás e enrolado em forma de carrapito. De cada lado do rosto, aquilo que aparenta serem pendentes de ouro, reforçam a requinte e a distinção ligadas à figura.
Os sapatos negros, de bico, rematam na base, a distinção do modelo.

O simbolismo das cores
- Verde, cor fria que é a cor da natureza viva, sobretudo a cor da Primavera que é a estação da fertilidade. Está associada à frescura, ao crescimento, à juventude, à renovação, à plenitude, à alegria, à esperança, à liberdade, à saúde, à vitalidade, à estabilidade, à tranquilidade, ao equilíbrio, à harmonia, à ponderação, à coerência e à riqueza. É uma cor litúrgica usada nos Ofícios e Missas do Tempo Comum, pois ao simbolizar a cor das plantas e árvores, prenuncia a esperança da vida eterna.
- Amarelo, cor quente que está associada ao Sol, à luz, à claridade, ao brilho, ao calor, ao Verão, à temperatura morna. É uma cor que desperta, transmite energia, traz leveza, descontracção, vitalidade, optimismo, felicidade, alegria, juventude, recreação e prosperidade. É uma cor inspiradora e que desperta a criatividade, estimulando as actividades mentais e o raciocínio.
- Castanho, que por ser uma cor neutra sugere estabilidade, calma, conforto, maturidade e responsabilidade. Além disso é a cor da terra e da madeira e por isso está associada à natureza, aos produtos naturais, ao estilo de vida saudável, à simplicidade, à conservação, à qualidade e à seriedade. Finalmente e por ser a cor da terra, está associada à fertilidade e à feminilidade.
Branco, que é uma cor neutra e pura associada à infância, à pureza, à inocência, ao bem, à espiritualidade, à harmonia, à simplicidade, à tranquilidade, à calma, à paz, à juventude, à virtude, à virgindade, à limpeza, à frescura, à luminosidade, à dignidade, à elegância. É uma cor que harmoniza com todas as outras.

O girassol e o seu simbolismo
O girassol é uma planta imponente e de porte majestoso, cujas flores arredondadas e radiadas constam de um disco floral castanho e de pétalas amarelo-douradas, que aparentam ser o Sol. Daí que em inglês seja designada por “sunflower”. Entre nós é designada por “girassol”, já que goza duma propriedade conhecida por “heliotropismo” e que consiste no movimento da planta em relação ao Sol. Ao amanhecer os girassóis têm as flores viradas para oriente. Ao longo do dia, seguem o Sol no seu movimento aparente de oriente para ocidente e à noite estão voltados para oriente.
O girassol não é uma flor anónima, já que marca presença na Poesia Portuguesa. Do girassol nos fala Fernando Pessoa (1888-1935), no poema “PASSA UMA NUVEM PELO SOL": “Passa uma nuvem pelo sol / Passa uma pena por quem vê. / A alma é como um girassol: / Vira-se ao que não está ao pé. // Passou a nuvem; o sol volta. / A alegria girassolou. / Pendão latente de revolta, / Que hora maligna te enrolou?”. Do girassol nos fala também Maria Alberta Menéres (1930-  ), no poema “O GIRASSOL”; “Girassol, Girassol, / Põe as pestanas ao sol! // O Girassol parece um olho aberto / Amarelo a olhar para tudo. // Passa uma perdiz e diz: / – Girassol, Girassol, / Põe as pestanas ao sol! // Passa uma abelha e diz: / – Girassol, Girassol,/ Põe as pestanas ao sol! //Passa a tarde e anoitece… / Girassol, Girassol, / Fecha as pestanas ao sol! // E o Girassol adormece…”
O girassol é um símbolo de felicidade, já que a sua cor amarela transmite energia, juventude e vitalidade, à semelhança do Sol. O girassol é também um símbolo de instabilidade, em virtude  da sua mobilidade em relação ao Sol. Por outro lado, de acordo com a mitologia grega simboliza a adoração a Hélio, o Deus grego do Sol, visto que o seu disco floral se assemelha a uma cabeça que virada sempre para o Sol, parece prestar-lhe culto. Finalmente, como o Sol é uma das formas de representar Cristo, que para os cristãos trouxe a esperança da salvação, o girassol partilha também do seu significado e é um símbolo pascal.

Epílogo
Vera Magalhães modelou a sua Dama com grande rigor formal e com uma estética muito própria, que incluiu uma decoração cromaticamente harmoniosa e de elevado valor simbólico. O rosto e o olhar da figura parecem constituir marcas identitárias da barrista.
No seu todo, a Dama de Vera Magalhães é uma figura na qual está patente a simplicidade e a espiritualidade, aliadas à distinção e à alegria, da qual irradia imensa frescura e luminosidade. Creio que por isso tudo, a barrista é merecedora que lhe demos todos os nossos parabéns:
- Parabéns Vera!
Publicado inicialmente em 12 de Outubro de 2020


Vera Magalhães (2020). Modelação da imagem de Nossa Senhora da Conceição.

quinta-feira, 26 de março de 2026

As Primaveras de Ana Catarina Grilo


Primaveras. Ana Catarina Grilo (1974-   ).

Estas Primaveras há muito que nos aquecem a alma. Sim, porque a alma também precisa de ser aquecida. E então sentimo-nos rejuvenescidos, mais novos que nós próprios e com vontade de nos transformar em borboleta e pousar de flor em flor, até nos transformarmos em larva e regressar na Primavera seguinte, novamente borboleta. É isso a vida. Uma sucessão de ciclos com picos primaveris que mantêm a chama da alma acesa.
Obrigado Ana por partilhar connosco estas Primaveras ternurentas. Bem-haja.

Hernâni Matos
Publicado a 20 de Maio de 2021

quarta-feira, 25 de março de 2026

Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Março de 2026.

O Centro Interpretativo para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz inaugura no dia 28 de março às 16:00 horas, na sua Sala de Exposições Temporárias, a Exposição “Moldar o Legado”, Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro.

Sara Sapateiro (1995) é uma jovem, natural de Estremoz, que iniciou o seu percurso na produção de Figurado em Barro de Estremoz em 2018 pelas mãos da Barrista Isabel Pires, sua Mestra, com quem aprendeu grande parte das técnicas e processos desta arte.

No final de 2019, frequentou o I Curso de Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz promovido pelo CEARTE em parceria com o Município de Estremoz.

Sempre com o apoio e incentivo da Mestra, tem vindo a dar continuidade ao seu trabalho e criando a sua própria identidade estética. Sara é hoje a mais jovem Barristas a produzir o Figurado em Barro de Estremoz, inscrito desde 2017, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO.

A mostra poderá ser visitada até dia 21 de junho.

Não falte, venha conhecer o "Legado" de Sara Sapateiro.

Hernâni Matos

domingo, 22 de março de 2026

17 – As Primaveras


Primavera com Arco. Oficinas de Estremoz (séc. XIX).
Colecção Júlio Reis Pereira. Museu Municipal de Estremoz.


A Primavera é a estação do ano que sucede ao Inverno e antecede o Verão. Marca a renovação da natureza, sendo especialmente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.
Na pintura, a Primavera é o tema central de obras de grandes mestres. A natureza é representada verdejante e florida. Por vezes são retratados trabalhos agrícolas ou de jardinagem, característicos do início da estação. As cenas são em geral iluminadas, reflectindo a claridade própria da época. Por vezes, a estação é tratada alegoricamente com recurso a uma ou mais figuras femininas enquadradas por flores, em ramos ou grinaldas.
Na vidraria francesa são conhecidas duas figuras do séc. XVIII, fabrico de Nevers, conhecidas por “Alegorias da Primavera”. São figuras masculinas, trajando à antiga e empunhando arcos com flores.
No figurado de Estremoz existem peças cuja origem remonta ao séc. XIX e das quais a designação consagrada pelo uso é a de “Primaveras”. Trata-se de uma designação genérica que abrange as chamadas “Primaveras de Arco”, as “Primaveras de Plumas” e as “Bailadeiras”. É ponto assente que tais especímenes são alegorias à estação do ano do mesmo nome. Todavia são mais do que isso, como procurarei justificar.
Desde tempos remotos que existem rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza. Tais ritos vieram a ser assimilados pela Igreja Católica que começou a comemorar o Entrudo ou Carnaval como preparação para a Quaresma.
Referindo-se ao Entrudo de antigamente diz Xavier da Cunha na revista OCCIDENTE, de 15 de Fevereiro de 1879: “Hoje de todos esses brinquedos, que passaram, restam apenas as decantadas danças de cavallões e marmanjos vestidos de pastorinhas a bailarem entre os costumados arquinhos de flores ao som do classico apito – elemento essencial da ordem no programma de toda aquella brincadeira”.
Também na capa da revista “PARODIA – COMEDIA PORTUGUEZA”, nº 6, de 18 de Fevereiro de 1903, Raphael Bordalo Pinheiro retrata vários mascarados num salão particular. À esquerda duas figuras supostamente de homens mascarados de figuras femininas, empunham um arco com flores.
Face ao exposto, julgo não ser despropositado concluir que no figurado de Estremoz, as “Primaveras”, para além de constituírem uma alegoria à estação do mesmo nome, são também figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza.

Hernâni Matos
Publicado pela 1º vez em 19 de Janeiro de 2015

sábado, 21 de março de 2026

Atrás da Primavera, outras Primaveras hão de vir

 


Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

Fascínio é o natural e intenso sentimento despertado pela imagem aqui apresentada. Lado a lado, duas Primaveras com os mesmos atributos, a mesma estética e o mesmo cromatismo, diferentes apenas no tamanho. Uma é Primavera adulta e a outra uma Primavera menina.
É notória uma forte ligação entre elas, patente na mão da mãe que segura a mão da filha, a quem comunica confiança e também ternura, igualmente transmitida pelo olhar que a Primavera menina absorve, encantada. É a partilha de saberes, de luz e de claridades, de cores e de tons, de perfumes e sons. É o legado de marcas identitárias ciclicamente propaladas à natureza e que assinalam a sua renovação. É uma mensagem de esperança nos dias da amanhã. É o revelar de um paradigma: Atrás da Primavera, outras Primaveras hão de vir.
O Testemunho da Primavera de Joana Santos é simultaneamente o testemunho do génio criativo e da mente brilhante de uma mulher ceramista, que há muito pôs a magia das suas mãos tecnicamente dotadas, em sincronia harmónica com os impulsos de alma. É um deleite de espírito a visualização e a contemplação das suas criações. É, de resto, um privilégio e isso para mim é muito importante, usufruir do privilégio da sua amizade.

Publicado em 18 de Março de 2023