domingo, 29 de janeiro de 2023

Outrora as viagens de combóio




Era uma maravilha viajar de comboio e era tanto melhor se os comboios eram a vapor, com carruagens do tempo de D. Luís e que tinham divisórias personalizadas, para onde se podia entrar de um lado e do outro. Nelas eu ainda viajei com os meus pais nos anos cinquenta do século passado, para irmos para a colónia de férias da FNAT na Caparica.
A viagem de Estremoz para o Barreiro era mais comprida que a légua da Póvoa. Havia apeadeiros e mais apeadeiros, porque era necessário servir o Zé Povo que não tinha automóvel. Só os ricos tinham automóvel, porque os outros não tinham dinheiro para o pagar e não tinham crédito, porque depois não podiam pagar, tal como hoje acontece. Só que hoje têm automóvel, não têm dinheiro, os bancos estão mais ricos e nós não temos comboios. Temos é uma grande saudade disso tudo. E é daquelas saudades que doem.
Que eu saiba, as viagens de comboio só tinham dois inconvenientes: Uma delas é que não se podiam fazer necessidades durante a paragem nas estações, por causa de não adubar a linha férrea. A outra é que os amantes da pinga como eu, tinham que ter cuidado na altura do arranque ou da travagem do comboio. Não se podia levar o copo à boca nessa altura. Quem o fizesse ficava baptizado e não era com água benta, era com tintol ou com brancol.
Certa vez, vi um passageiro anafado de corpo e vermelhusco de rosto, de certo adepto fiel e correligionário de Baco, ficar com as malfadadas marcas baptismais de tom bordeaux a conspurcar-lhe a alva camisa. Só queria que vissem a agilidade com que foi à casa de banho mudar de camisa, antes de chegar à estação onde disse a mulher o esperava. Hoje estou convencido que ele e a mulher não seguiam o mesmo culto. Se soubesse o que sei hoje, ter-lhe-ia dito na ocasião:
- Olhe amigo, diga à sua mulher que a culpa não foi sua, nem do vinho. Foi da maldita lei da inércia de Newton.

Publicado inicialmente a 20 de Fevereiro de 2010
Texto inserido no meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

CRÉDITOS DA FOTOGRAFIA
Locomotiva a vapor número 1, Dom Luiz, de duas rodas motoras e de sete pés de diâmetro. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. [CFT003 075602.ic] - Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Brincadeiras d'outrora



Nos meus tempos de miúdo, jogava aos amalhões, à mosca, à pateira, à roda, ao botão, ao berlinde e ao soco quando era preciso. E levava também no focinho, porque lá diz o rifão: “Quem vai à guerra, dá e leva.” Nas brincadeiras o que contava era a imaginação sem limites e a arte do desenrasca, em que o português ainda hoje é mestre.
Havia também a ida aos grilos e partidas que se pregavam aos tansos como a “ida aos gambosinos” ou fazer de estribo na “brincadeira do rei coxo”.
As meninas, salvo alguma Maria Rapaz, que as havia e algumas delas encantadoras, brincavam às donas de casa, passando a ferro, fazendo jantarinhos e dando banho e biberon aos bonecos.
Hoje, reconheço que o sistema estava montado para gerar diferença de género e havia coisas que, apesar de puto, eu tinha a noção que não deveriam ser assim.
Hoje o sistema travestiu-se e foi montado de maneira diferente. Porém, deu para o torto.
Além das brincadeiras de rapazes e tanto quanto me lembra a memória dos tempos idos, sempre tive gosto por colecções, entre elas, botões, cromos, moedas, selos, postais, panfletos publicitários e mais tarde, aí pelos 12 anos, livros.
A estas colecções vieram-se juntar outras, mas as colecções primitivas ainda hoje perduram. Entre elas, as colecções de cromos montadas nas respectivas cadernetas, como é o caso das RAÇAS HUMANAS, da HISTÓRIA DE PORTUGAL, da HISTÓRIA NATURAL e dos TRAJES TÍPICOS DE TODO O MUNDO, entre eles os de Portugal.
Decerto que foi com esta última que eu fiquei fascinado pela Etnografia, antes de saber que Garrett tinha sido o percursor, Leite de Vasconcellos o fundador e Luís Chaves e outros mais, os continuadores.
As cadernetas de cromos, foram as minhas pastilhas de Cultura. Foram o meu software, antes de terem inventado as consolas electrónicas que programam e condicionam o divertimento, assim como a raça maldita dos Magalhães, que põem os putos convencidos que fazer um trabalho de pesquisa, não é mais que uma mera operação de corte e colagem.
Não trocava uma caderneta de cromos por 10 Magalhães, nem sequer o meu talego de botões (com mirôlas e chapéuzinhos de chumbo) por consolas.
O registo das memórias passadas é o melhor investimento cultural que podemos deixar aos nossos netos....

Publicado inicialmente em 9 de Março de 2010
O presente texto integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Bonecos de Estremoz: Mariano da Conceição (1.ª parte)


Fig. 1 - Mariano da Conceição na sua oficina em pose para o fotógrafo Rogério de
Carvalho (1915-1988).  À sua direita, o Presépio de trono ou altar projectado por
Sá  Lemos e por ele executado. Este vistoso presépio não esteve presente na
Exposição do Mundo Português em 1940, pelo que terá sido criado posteriormente,
mas em data anterior a Dezembro de 1947, já que nesta data, a fotografia aqui
apresentada aparece a ilustrar a capa da revista “Mensário das Casas do Povo”,
nº 18. Arquivo fotográfico do autor.


LER AINDA


Filho ilegítimo de Narciso Augusto da Conceição
No dia 24 de Setembro de 1912, na repartição do Registo Civil do concelho de Estremoz, sita no Rossio Marquês de Pombal da vila de Estremoz, perante António Luís da Cruz, ajudante de oficial do Registo Civil, no impedimento deste por motivo de saúde, compareceu Narciso Augusto da Conceição, solteiro, industrial, de 41 anos, natural da freguesia de Santo Antão de Évora e residente na freguesia de Santa Maria de Estremoz. Declarou que, no dia 26 de Janeiro de 1903, às 20 horas, nasceu na (nome da rua ilegível no Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz), freguesia de Santa Maria de Estremoz, um indivíduo de sexo masculino, que as testemunhas disseram ser filho ilegítimo do declarante, que agora o reconhece como seu filho para todos os efeitos legais. Pelas testemunhas foi dito que o rejeitando se iria chamar Mariano Augusto da Conceição. Foram testemunhas José Joaquim Correia, seleiro, solteiro, maior e Joaquim Hilário Cardoso Amante, casado, sapateiro, ambos residentes na vila de Estremoz (8).
Mariano era filho de oleiro pelo que viria a ser oleiro. Todavia, como iremos ver, não ficaria por aqui. Iria muito mais longe.
Casamento
A 8 de Novembro de 1931, Mariano Augusto da Conceição, de 28 anos, oleiro (Fig. 1, Fig. 5 e Fig. 6), natural da freguesia de Santa Maria de Estremoz e residente na Calçada da Frandina, nº 15 da mesma localidade, casou na Repartição do Registo Civil de Estremoz com Liberdade da Conceição Banha, de 18 anos, doméstica, filha legítima de José Ricardo Banha, corticeiro natural da mesma freguesia e de Agripina da Conceição Banha, doméstica, natural da freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa (11).
Mestre da Oficina de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
A 3 de Dezembro de 1930, na secretaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves de Estremoz, perante o Director Luís Fernandes de Carvalho e Reis, tomou posse como Mestre provisório da oficina de olaria, Mariano Augusto da Conceição, nomeado por alvará desse dia, que afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
De 25 a 27 de Março de 1931 faz concurso de provas (Fig. 2 a Fig. 7) para Mestre da oficina de olaria e é classificado com 15,6 valores, conforme consta do seu registo biográfico. A 29 de Abril de 1931 passa à condição de contratado (10). A 23 de Março de 1936, na secretaria da Escola, perante o Director José Maria de Sá Lemos, tomou posse como Mestre efectivo da oficina de olaria, nomeado por portaria de 22 de Fevereiro, publicada no Diário do Governo, n°65 - 2ª série, de 19 de Março de 1936. 0 empossado afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
A morte do pai de Mariano da Conceição
O pai de Mariano, Narciso Augusto da Conceição, suicidou-se por enforcamento na Olaria Alfacinha, a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos (14).
Com a morte do pai, Mariano da Conceição, o primogénito (eram 5 irmãos: Mariano, Jerónimo, Diocleciano, Caetano e Sabina) passou a dirigir a olaria que entretanto se tinha transformado em sociedade na qual participavam todos os irmãos. Mariano trabalhava como oleiro na oficina e simultaneamente dava aulas na Escola (13).
Depois da morte da matriarca Leonor das Neves Conceição em 1946 e de seu filho Jerónimo Augusto da Conceição, alguns anos depois, a mulher de Jerónimo e Mariano Augusto da Conceição, vendem a sua quota na Olaria Alfacinha aos irmãos. Mariano deixa então de trabalhar na Olaria, a qual passa a ser dirigida por seu irmão Caetano.
Mais tarde, em 11 de Abril de 1958, os irmãos Caetano Augusto da Conceição, Diocleciano Augusto da Conceição e Sabina Augusta da Conceição Santos, constituem a firma Leonor das Neves da Conceição Herdeiros. A família detém e trabalha na olaria até 1987, ano em que é vendida a Rui Barradas e sua mulher, Cristina. Em 1995 a Olaria Alfacinha encerra definitivamente.
De filho ilegítimo a filho legítimo
Por auto público de 14 de Junho de 1933, nos autos de inventário orfanológico, por óbito de Narciso Augusto da Conceição, que correu seus termos na Comarca de Estremoz, com sentença de 23 do mesmo ano, que transitou em julgado, Mariano Augusto da Conceição foi declarado filho legítimo de Narciso Augusto da Conceição e de sua mulher Leonor das Neves da Conceição, exposta. Ficaram arquivados uma certidão e um documento autêntico de consentimento do perfilhado.
Este averbamento, datado de 10 de Janeiro de 1957 e subscrito pelo Conservador, cuja assinatura é ilegível, integra o Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz, relativo a Mariano Augusto da Conceição (8).
Mariano da Conceição oleiro e bonequeiro
O escultor José Maria Sá Lemos, director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves conseguiu, entre 1933 e 1935, a recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, com a colaboração de ti’ Ana das Peles, uma barrista de idade já avançada. Impunha-se que houvesse continuadores. Daí que tenha lançado um repto a Mariano da Conceição, que o aceitou de bom grado e teve êxito, passando a ter uma tripla actividade: Oleiro na Olaria Alfacinha, Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves e bonequeiro.
A Exposição do Mundo Português
António Ferro (1895-1956), Secretário-Geral da Comissão Executiva da Exposição do Mundo Português era próximo de José Maria de Sá Lemos e esteve em Estremoz, onde convidou Mestre Mariano da Conceição a participar na Exposição. Este não o pôde fazer, devido às actividades lectivas na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Quem ali esteve presente durante todo o período da mesma, foi a sua mulher, Liberdade Banha da Conceição (1913-1990) (Fig. 8), que ali pintava os Bonecos por ele confeccionados em Estremoz e que depois eram transportados para Lisboa.
O êxito de vendas na Exposição do Mundo Português fez com que Mariano da Conceição a partir de 1942-43 se dedicasse à confecção [1] de Bonecos de Estremoz em oficina própria, actividade que acumulava com o seu magistério de Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras nº1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso nº 6 (13).
Mariano que não tinha forno próprio, cozia os seus Bonecos no forno de lenha da Olaria Alfacinha, a qual tinha dirigido. De resto, o barro utilizado por Mariano era preparado na Olaria e transportado numa carrinha pelo seu irmão Caetano, que levava os Bonecos para cozer arrumados em gaiolas de barro e os entregava a Mariano, depois de cozidos (13).
Em Estremoz, os Bonecos eram comercializados nos seguintes locais: Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30), Papelaria Ruivo (Largo da República, 24), Lojas de Artesanato de Rafael dos Santos Grades (Rua Victor Cordon, 27 e 30) e Papelaria A Tabaqueira de Alves & Simões, Lda. (Rossio Marquês Pombal 11 e 12 [2] (13).
Mariano da Conceição visto pelos outros
A 23 de Junho de 1951 reuniu o Conselho Escolar da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, sob a presidência do Director, Irondino de Aguillar, o qual, antes de se entrar na ordem do dia, quis dirigir algumas palavras a todos os presentes. “Lembrou-lhes que longe vai o tempo em que o professor entendia que a vida de professor se cumpre toda dentro das quatro paredes e dos cinquenta e cinco minutos de uma aula. 0 professor de hoje tem de não esquecer-se nunca de que é professor, de que é seu dever contribuir para o prestígio da sua classe e da sua escola e de que é seu dever maior que todos meditar na responsabilidade que tomou ao escolher tal profissão. Convidou os presentes a fazerem exame de consciência, que ele, Director, limitar-se-ia a fazer pública justiça ao Mestre de Olaria, Senhor Mariano Augusto da Conceição, que pelo seu zelo, pela sua honestidade no cumprimento do dever, confirmou largamente o que dele era de esperar pelo seu comportamento nos anos anteriores”(1).
O pintor Armando Alves (1935- ) foi aluno de Mariano da Conceição nos anos lectivos de 1949-1950 e 1950-1951. Na sua condição de ex-aluno, prestou-me, em 2012, o seguinte depoimento escrito (3): “Foi na década de quarenta do século passado que conheci o Mestre Mariano Alfacinha. Era eu por essa altura aluno na Escola Industrial e Comercial de Estremoz e o Mestre Mariano, professor de Olaria nessa escola.
Frequentar as suas aulas não era para a maioria de nós, alunos, apenas uma obrigação, antes pelo contrário, era um prazer. Para mim era mesmo uma espécie de necessidade, pois não só frequentava as aulas, como muitíssimas vezes aparecia para ajudar o Mestre Mariano nas tarefas mais fáceis – fazer bases, fazer pernas, fazer (nas pequenas formas de barro cozido), as cabeças dos bonecos. Com ele aprendi muitos dos segredos do barro e aprendi também a fazer os Bonecos de Estremoz.
O Mestre Mariano fazia invariavelmente os seus bonecos em grupos de seis, isto é: seis pastores, seis amazonas, seis cavaleiros, etc., E isto não era por acaso pois os bonecos são feitos por partes – as bases, as pernas, os troncos, os braços e as cabeças. À medida que se iam fazendo cada uma destas partes, (começando sempre pelas bases), o barro ia ganhando a dureza necessária para receber a colagem das pernas e dos troncos até à conclusão do boneco. A colagem das partes era feita com a lambugem, (lama do barro) e uns pequenos risquinhos que se faziam nas partes a colar, tendo sempre o cuidado de não deixar bolhas de ar, o que poderia causar dissabores na cozedura... O calor das mãos e um certo vento que de vez enquanto soprava e rachava o barro, eram também elementos a ter em conta.
Para tudo isto me chamava a atenção o Mestre Mariano com aquela presença muito forte e ao mesmo tempo muito doce que o caracterizavam.
Tive a sorte de ter privado com este Homem a quem agradeço o muito que me ensinou e a quem Estremoz continua a dever tudo o que ele fez pela nossa terra.”
Por sua vez, Leonor da Conceição Santos (1943-2014), filha de Sabina Santos, sobrinha de Mariano e Professora de Educação Especial aposentada, prestou-me, igualmente em 2012, o seguinte depoimento escrito (6): “Tenho uma ideia vaga do meu tio Mariano que era o mais velho e lembro-me de um homem muito alto, claro que eu também era muito pequena… Sabia que ele era professor na Escola Industrial e que a minha mãe tinha sido lá aluna. Lembro-me também, talvez com os meus 10 anos, e vivendo já na rua do Reguengo, de ter ido frequentar a Escola Comercial e Industrial, onde hoje é a Pousada. Via por lá o tio Mariano, que era professor de Olaria, e quando o via ia dar-lhe um beijo, e ele perguntava com aquele vozeirão:” Então como vai a Escola?” Eu fugia à resposta porque, na realidade, a escola ia muito mal. Gostava da disciplina de desenho e…pouco mais. Fui aluna da D. Joana, que era uma artista naquilo para que eu nunca tive jeito: bordados, tapetes e afins. Só frequentei o ano preparatório e depois, com grande sacrifício os meus pais mandaram-me para o Colégio do Mota, (a que chamavam o colégio dos ricos – não era uma verdade absoluta, mas isso são outras histórias…) onde realmente me senti ambientada. Era uma miúda pequena e um tanto frágil e aquela Escola Industrial fazia-me medo. Passei a ver o tio Mariano quando ia à Olaria e ele estava a fazer peças enormes, à roda, pois só uma pessoa alta, pujante e habilidosa como ele, conseguia “puxar” o barro na roda de oleiro para fazer essas peças (ânforas e outras). Também o visitava, em casa dele e tenho ideia, mas a minha prima Maria Luísa poderá confirmar, que ele tinha uma sala cheia de pássaros das mais diversas raças. Sempre achei interessante. Ele era caçador, e dos bons, matava perdizes, faisões e outra passarada e ao mesmo tempo gostava de aves canoras e sustentava-as. Será que a memória me está a atraiçoar? Penso que não.
Também estive muitas vezes, ao lado dele a vê-lo fazer os Bonecos de Estremoz. A tia Liberdade, sua mulher, que gostava muito de mim, arranjava-me um lanche e eu ficava sentada, numa daquelas cadeiras baixinhas, a ver o meu tio a trabalhar. Naquela altura fazia-me impressão como é que ele que tinha umas mãos enormes e uns dedos cheios também conseguia trabalhar minuciosamente cada figurinha e fazer as cabecinhas dos bonecos. Era isso que eu admirava nele: ora fazia coisas minúsculas, ora puxava, na roda ânforas gigantescas. Extraordinário!...”
A morte prematura de Mariano da Conceição
O Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz de 29 de Setembro de 1959 (17), sob a epígrafe “Um estúpido acidente atirou para a morte o Sr. Mestre Mariano”, relata o que se passou: “O caso deu-se no passado domingo, em pleno Rossio, quando da chegada dos cavaleiros que disputavam o raid hípico de Estremoz.
A anteceder os dois primeiros cavaleiros, que surgiram a par, a galope desenfreado, vinham um jeep e uma moto, mas tão devagar que, num instante, os cavalos estavam sobre eles. 0s cavaleiros gritavam, os veículos não tomavam velocidade e não houve outra solução senão guinar cada cavaleiro para seu lado.
Foi nesta altura que à frente de um dos cavalos surgiu o Sr. Mestre Mariano da Conceição, muito para lá da meta. O choque foi inevitável e o Sr. Mariano rolou pelo chão.
Imediatamente levado ao hospital, cheio de sangue, ali foi observado, recolhendo depois a um dos quartos particulares em estado de coma, com suposta fractura craniana e uma clavícula e várias costelas partidas. Quem diria que naquele luminoso domingo um estúpido acidente atiraria para o hospital o nosso Mestre Mariano?
Na madrugada de terça-feira 45, o Sr. Mestre Mariano expirou (9), por não ter podido resistir à gravidade dos ferimentos, tendo a Escola perdido assim, estupidamente, um dos seus agentes de ensino mais dedicados e a quem ela muito ficou a dever.
No funeral incorporaram-se muitos antigos e actuais alunos e todo o pessoal da Escola em exercício.” (7), (12), (17).
Reacções à morte de Mariano da Conceição
No dia 30 de Setembro de 1959, pelas 15 horas reuniu no gabinete do Director da EICE, o Conselho Escolar presidido pelo Director Rogério Peres Claro com a presença de todos os membros efectivos, Mestres Joana Simões e Eduardo Silva. No último ponto da ordem de trabalhos, por falecimento de Mestre Mariano da Conceição, deliberou o Conselho convidar o Mestre provisório José Alexandre Rosa para sua substituição. Antes de encerrar a sessão, o Director propôs com o fim de ser exarado em acta, um voto de pesar pelo falecimento do Mestre efectivo da Escola, Mariano Augusto da Conceição (2).
Sobre Mestre Mariano da Conceição recolhi um depoimento (15) daquele que era director à data da sua morte, Rogério Peres Claro (1921-2015), redigido a 11 de Novembro de 2012, aos 91 anos de idade: “Conheci o Sr. Mariano da Conceição como Mestre de Trabalhos Manuais na Escola Comercial de Estremoz, entre 1951 e 1961, período da minha presença lá como Director. Era conhecido como especialmente hábil na confecção de bonecos de barro com características locais, como aliás os outros membros da sua família. Trabalhava em oficina montada no pátio de entrada do castelo, onde trabalhava também o Sr. Joaquim Prudêncio Oliveira, hábil Mestre no trabalhar do mármore da região, para o qual formou muitos artistas. A maioria dos brasões que sustém a fonte luminosa que embeleza Setúbal frente ao mercado da Avenida Luísa Todi, foram trabalho seu e dos seus alunos.
Mestre Mariano ficou lembrado não apenas pelos seus bonecos, mas infelizmente também por ter falecido ao coice de um dos cavalos que em corrida festiva atravessavam o Rossio e que presenciei. Ficou o dito de que “só ao coice o Mestre Mariano poderia ser abatido”, tão forte que ele era “
No já referido depoimento escrito (6) de Leonor da Conceição Santos sobre o tio Mariano, datado de 2012, referindo-se à sua morte diz: “O Tio Mariano foi um artista e um grande Mestre de olaria. A sua arte poderia ter-se prolongado para enriquecimento da cultura e do artesanato estremocense … mas infelizmente um acontecimento inesperado ceifou-lhe a vida aos cinquenta e poucos anos. Podemos dizer que ele estava no sítio errado, à hora errada… Um cavalo que fazia parte do raid hípico que terminava no Rossio Marquês de Pombal, espantou-se e, ou por pouca sorte, ou por ineficácia do cavaleiro, atingiu o meu tio que assistia ao evento entre muitas pessoas, ferindo-o de morte. Ainda foi para o antigo hospital, mas viria a falecer pouco tempo depois.
Foi pena Tio Mariano. Ainda guardo essa memória, como se fosse hoje. Eu tinha 16 anos. Estremoz perdeu tragicamente um Alfacinha.
Recordo-o e recordá-lo-ei sempre. Foi com ele que a arte bonequeira renasceu. Todos lhe devemos isso.”
Mariano da Conceição morreu, mas os Bonecos não
O Mestre partiu mas legou-nos os seus Bonecos. A recuperação da manufactura dos Bonecos de Estremoz não podia ficar por aqui. Surgiram continuadores e a primeira foi a sua irmã, Sabina da Conceição Santos.

BIBLIOGRAFIA
(1) - Acta da sessão de 23 de Junho de 1951 in Livro de Actas do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1948-1951) (acta nº 12).
(2) - Acta da sessão de 30 de Setembro de 1959 in Livro de Actas nº 2 do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1959-1981) (acta nº 1).
(3) - ALVES, Armando José Ruivo. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Porto, 2012. sp.
(4) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre provisório da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 3 de Dezembro de 1930 in Livro de Posses 1930-59 (folha 1v).
(5) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre efectivo da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 23 de Março de 1936 in Livro de Posses 1930-59 (folha 7v).
(6) - CONCEIÇÃO SANTOS, Maria Leonor da. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Ribamar, 2012. sp.
(7) - Falecimento (Mariano da Conceição) in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 2).
(8) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(9) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Óbito nº 193 de 1959 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(10) - Mariano Augusto da Conceição – Processo Individual de professor nº 707, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.
(11) - Mariano Augusto da Conceição - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(12) - Mariano Augusto da Conceição in O Eco de Estremoz nº 2951, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 3).
(13) – MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
(14) – Narciso Augusto da Conceição – Registo de Óbito nº 71 e 1933 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(15) - PERES CLARO, Rogério. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Setúbal, 2012. sp.
(16) - Terminou o I RAID HIPICO ALENTEJANO in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959. (pág. 3).
(17) - Um estúpido acidente atirou para a morte o sr. mestre Mariano in Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 29/09/1959. Estremoz, 1959 (pág. 1).

Publicado pela 1ª vez em 13 de Setembro de 2019
Editado no meu livro BONECOS DE ESTREMOZ

Fig. 2 - Desenho duma forma cerâmica. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto
Gonçalves, realizada a 25 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 3 - Cópia dum motivo floral. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António
Augusto Gonçalves, realizada a 26 de Março de 1931. Fotografia de autor
desconhecido. Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 4 - Decoração. Prova de Concurso de Mariano Augusto da Conceição para
Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves,
realizada a 27 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 5 - Mariano Augusto da Conceição a modelar a peça projectada na oficina de
olaria da Escola Industrial de António Augusto  Gonçalves. Arquivo fotográfico do autor.

 Fig. 6 - Mariano Augusto da Conceição a desenfornar uma das peças projectadas
 na oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 7 - As peças projectadas e executadas por Mariano Augusto da Conceição
já cozidas. Arquivo fotográfico do autor.

  Fig. 8 - Liberdade da Conceição, mulher de Mariano da Conceição a pintar
Bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português. Fotografia do
documentário “A Grande Exposição do Mundo Português” (1940),
de António Lopes Ribeiro.


Fig. 9 - Carimbos usados sucessivamente por Mariano da Conceição para marcar os
seus bonecos: MADE IN PORTUGAL (3,4 cm x 0,3 cm), ESTREMOZ / PORTUGAL
(2 cm x 0,8 cm), ESTREMOZ (2 cm x 0,8 cm). Arquivo fotográfico do autor.



[1] Mariano modelava os bonecos que eram pintados por sua mulher, Liberdade da Conceição. Mariano só pintava em último caso, sempre que havia uma encomenda grande de Bonecos. Todavia, era ele que aplicava sempre o verniz, visto a sua mulher ser uma pessoa bastante doente (13).
[2] De salientar que só a partir do momento em que se estabeleceu como bonequeiro por conta própria é que Mariano passou a auferir proventos dessa actividade. Anteriormente só fazia Bonecos na Escola, os quais conjuntamente com os Bonecos manufacturados pelos alunos, eram comercializados e as receitas resultantes da sua venda destinavam-se a custear as despesas de funcionamento da própria Escola (13).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Roberto, guardador de vacas e artista popular


Roberto Carreiras (1930-2017)
Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
- Colecção Joaquim Vermelho.

Faleceu no passado dia 8 de Janeiro, Roberto Carreiras, um dos últimos intérpretes da Arte Pastoril concelhia. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual foi um legítimo representante.
Quem foi Roberto Carreiras
Roberto Francisco Pereira Carreiras (1930-2017), filho de José Joaquim Carreiras e de Francisca Bárbara, era natural da freguesia de Veiros, concelho de Estremoz, em cuja Quinta do Leão, nasceu a 25 de Janeiro de 1930.
Na vila de Veiros frequentou a Escola Primária e concluiu a 3ª classe. Porém, as dificuldades económicas da família, forçaram-no a abandonar a escola e a tornar-se vaqueiro naquela quinta. Ali trabalhou, até que a falta de saúde o obrigou a reformar-se.
À semelhança de outros artistas populares iniciou-se na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto, era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas profissões, história, religião, touradas, etc.
Como criador começou a trabalhar ao ar livre no decurso da sua actividade como vaqueiro. Após se ter reformado, passou a trabalhar numa garagem cedida graciosamente pela Junta de Freguesia de Veiros, que o reconhecia não só como artista popular, como motivo de orgulho para a freguesia em que nascera e vivera.
Roberto Carreiras participou desde 1983 nas Feiras de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, bem como nas exposições de presépios promovidas anualmente pelo Museu Municipal. Aí esteve também patente ao público, entre Agosto e Novembro de 2006, a sua exposição “Artesanato de Roberto Carreiras”, integrada no conjunto de eventos que visavam assinalar os 80 anos de elevação de Estremoz à categoria de cidade. Em Maio de 2008, trabalhou ao vivo no mesmo local, participando na actividade “VIRVER MUSEUS”.
Roberto Carreiras e a esposa Rosa Mariana Machado, com quem casou em 1965, concederam-me há muito tempo, o privilégio da sua amizade, pelo que era sempre um prazer falar com eles no decurso das Feiras em Estremoz, no que era igualmente correspondido.
Num momento que é de luto para toda a Família, não posso deixar de formular aqui e com intenso pesar, as minhas sentidas condolências pela partida do seu ente querido.
A preservação da Memória
Roberto Carreiras partiu, mas deixou-nos um legado que urge preservar para memória futura. Creio que a Junta de Freguesia de Veiros tem motivação e meios para musealizar o seu espólio e decerto não deixará de o fazer. Pessoalmente, orgulho-me de as minhas colecções de Arte Pastoril integrarem especímenes afeiçoados pelas suas mãos, que comandadas pela sua alma de visionário, nunca se renderam à rudeza do uso do cajado e do mester de vaqueiro. Foram mãos hábeis que aliadas a um espírito sensível, conseguiram filigranar e esculpir os materiais com mestria. Para que conste na nossa memória colectiva, aqui fica o registo do meu testemunho, o qual finalizo, proclamando:
- ROBERTO CARREIRAS, PRESENTE!
Aproveito ainda para aqui sugerir à Junta de Freguesia de Veiros que numa próxima atribuição de topónimos a ruas da Vila, seja contemplada a proposta: RUA ROBERTO CARREIRAS (Artista Popular).
Requiem pela Arte Pastoril
Em 1983, decorreu em Estremoz, entre 15 e 17 de Julho, A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Tratou-se de uma excelente feira, concretizada apenas com “prata da casa”. Identificados de uma forma mais ou menos evidente com a Arte Pastoril, encontravam-se ali 10 participantes: António Joaquim Amaral, Jacinto Lagarto Oliveira, Joaquim Carriço (Rolo), Joaquim Manuel Velhinho, José Carrilho (Troncho), José Francisco Chagas, José Joaquim Vinagre, Manuel do Carmo Casaca, Roberto Carreiras, Teresa Serol Gomes.
Desde então, nunca ninguém com responsabilidades no cartório, equacionou um Plano de Salvaguarda da Arte Pastoril, ainda que circunstancialmente possa vir a chorar lágrimas de crocodilo.
Após o passamento de Roberto Carreiras, restam José Joaquim Vinagre e Joaquim Carriço (Rolo), do segundo dos quais está prevista uma exposição no Museu Municipal. A partir daí, fica em aberto a celebração de um Requiem pela Arte Pastoril.
Aqui fica o aviso de alguém que não se cala e que nunca se rende. É a crónica anunciada de mais uma tragédia cultural que se avizinha.
Publicado pela 1º vez em 8 de Fevereiro de 2017

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

O jogo do botão


Os miúdos do Espírito Santo – foto de Manuel Gato – 1955. No 1º plano e da esquerda para a
 direita: Armando Pereira, Manuel Maria Gato, Jorge (maluco) e António Maria Craveiro. No
2º plano e da esquerda para a direita: Zé (prima do Manuel Maria), Manuel (da avó), Rodrigo
André (de mãos cruzadas), Hernâni Matos (com o braço à cintura), Maria Evelina Roma e
Guilhermina Massano. Os rapazes eram meus companheiros do jogo do botão.


O JOGO EM SI
Quando era puto jogava ao botão.
Vocês sabem como é que se jogava ao botão?
Em primeiro lugar, era preciso ter botões e eu tinha-os guardados num pequeno talêgo confeccionado pela minha mãe e que transportava sempre comigo num dos bolsos das calções, para não ser apanhado desprevenido quando era desafiado para jogar. A maioria das vezes por quem queria obter desforra por ter perdido em jogo anterior. O talêgo era para mim precioso, pois era nele que eu guardava ciosamente a existência utilizada na jogatina.
No caso mais simples de serem só dois, os rapazes a jogar, tirávamos à sorte para ver quem era o primeiro. Este, depois de escolher no seu talêgo, o botão com que queria jogar, atirava-o contra a parede, de forma a fazer ricochete e ir parar o mais longe possível. Era depois a vez do segundo jogador fazer o mesmo, procurando que o seu botão ficasse o mais próximo possível do botão do adversário. Duas coisas podiam então acontecer:
- Se o botão lançado ficasse a uma distância igual ou inferior a um palmo dos seus, ganhava o botão do oponente e guardava-o. Cabia-lhe então a ele reiniciar o jogo.
- Se o botão lançado ficasse a uma distância superior a um palmo dos seus, o primeiro jogador levantava o seu botão, atirando-o novamente à parede, procurando que ficasse a menos de um palmo do botão do outro jogador, para lho ganhar.
Ganhava naturalmente o jogo, aquele que ganhasse maior número de botões.
No meu caso, tinha por hábito pregar um berro, gritando “Palmo!”, no exacto momento em que demonstrava sem sofismas, com o meu palmo a servir de bitola, que acabara de ganhar o botão.
Desde puto que gosto de botões. Nasci e cresci no meio deles, já que o meu pai era alfaiate e eu um praticante emérito do jogo do botão, dado ser dotado de razoável pontaria, acrescida de um abonado palmo de mão, correspondente à minha, desde sempre avantajada figura.
E tanto jogava com uma mirôla (botão de ceroula), como com um chapéuzinho de chumbo ou de lata ou com o mais anónimo dos botões. Era tudo uma questão de estratégia e de controlar a batida na parede. Depois o meu palmo encarregava-se do resto. Por isso, quando chegava a casa, levava o talêgo sempre reforçado de munições e quase sempre cheio. Por vezes, o massacre do talêgo dos meus companheiros de botão, era interrompido pela voz da minha mãe:
- Hernâni, anda para a mesa, que são horas de almoço.
E lá ia eu num ápice, que a barriga já dava horas e o meu pai não gostava de faltas de respeito. Digam lá vocês, quem é que podia resistir a um chamamento destes?
Às vezes, nós os jogadores, trocávamos botões uns com os outros, sendo que os botões maiores e mais raros, valiam mais que os outros mais vulgares. O mesmo se passava com as mirôlas e os chapéuzinhos de chumbo e de lata. O valor de troca era sempre negociado entre as partes.
Eu gostava da mirôla quando queria atingir maiores distâncias. Para distâncias menores, o meu preferido era o chapéuzinho de lata, que fazia menos ricochete que a mirôla. Para distâncias ainda mais curtas, era mais adequado o chapéuzinho de chumbo, já que fazia menos ricochete.
A mirôla era mais adequada quando éramos os primeiros a jogar, para atirarmos o botão o mais longe possível. Já quando éramos os segundos, não era a o botão mais indicado, porque fazia mais ricochete ao cair e a posição final era mais incerta. Para isso era mais indicado o chapéuzinho de lata ou mesmo o de chumbo, se a distância fosse mais curta.

O COLECCIONISMO DE BOTÕES 
Colecciono botões desde os meus tempos do jogo do botão. O meu pai era alfaiate e também herdei os botões dele, embora só tenha ficado com alguns. Como coleccionador, dada a diversidade de botões, senti necessidade de me especializar. Quem herdou então a maioria dos meus botões foi a minha filha, que os guarda religiosamente num monumental boião, que eu atempadamente baptizei de “Catedral do Botão”. Quanto a mim, resolvi especializar-me em botões de latão, porque o latão é a minha paixão. Daí que nas feiras de velharias procure sempre botões amarelos de fardamentos, que tenho organizados numa caixa com divisórias. E sabem que mais? Procuro completar um conjunto destes botões com a mesma coroa real portuguesa, para substituir os do “blaser”, que uso no dia de ser chique.

OS BOTÕES NA LITERATURA ORAL
Preocupado com questões de oralidade da língua, dei-me ao trabalho de pesquisar a presença dos botões na literatura oral.
A nível do adagiário popular é conhecido o provérbio:
- “Falar para com os seus botões.”
Daí que o cancioneiro popular, pela voz irónica do algarvio António Aleixo (1899-1949), proclame que:

“Dizem lá com seu botões,
Pessoas ricas e nobres:
Dez mil reis em meios tostões,
Davam para duzentos pobres.”

Os botões podem de resto ser motivo de agrado por uma peça de vestuário:

“Ó Joaquim, Joaquim,
Ó Joaquim Ramalhete;
já me cá estão a agradar
os botões do teu colete.” [1]

Ao jogo do botão são aplicáveis os provérbios do “perder” e do “ganhar”:

- “Ninguém perde sem outro ganhar.“
- “Nunca um perde, sem outro ganhar.“
- “ Perder deu mais pesar, que deu prazer o ganhar.“
- “Perder e ganhar, tudo é jogar.“
- “Quando um perde, o outro ganha.“
- “Quem ganha, também perde.“
- “Só ganha quem joga. “

Em termos de literatura oral, existem adivinhas cuja solução é o “botão”:

“Qual é a coisa,
qual é ela,
que mesmo dentro de casa
está sempre fora dela?”

“Qual é a coisa,
qual é ela,
que mal entra em casa,
se põe logo à janela? “

“Qual é a coisa
que tem o lugar
no meio da casa?”

“Qual é a coisa
que faz mais falta numa casa? “

“Minha casa
não tem telha,
quando entro
vou de esguelha.”

“Feito de ossos de animais,
sendo redondo sou chato:
tenho um olho, raro três,
muitas vezes dois ou quatro. 

"Tenho uma casa só minha,
não entra lá nunca alguém:
vivo nela ou junto dela,
não cabe lá mais ninguém.“

Também conheço uma adivinha cuja solução é “botões”:

“São muitos vizinhos
com os mesmos modos;
quando um erra,
erram todos.”

A nível de lengalengas conheço esta:

“Rei, capitão
Soldado, ladrão
Menina bonita
Do meu coração.”

Esta lengalenga era acompanhada seguindo a sequência dos botões da peça de vestuário com o dedo polegar, a partir duma das extremidades. Assim, se a peça de vestuário tinha um botão, era-se “rei”, o que era o máximo. Se tivesse dois, era-se “capitão”, o que ainda era bom. Com três, era-se “soldado”, o que era menos bom. Com quatro, era-se “ladrão”, o que ninguém gostava de ser. Para os rapazes era péssimo ter cinco botões na peça de vestuário, pois então era-se “menina bonita”, o que era motivo de risota geral. Conta-se que alguns faziam birra em casa para não levarem para a escola, nada que tivesse cinco botões. Vejam lá as partidas que a língua portuguesa pregava aos pais de então.

[1] - JUNCEIRA (Tomar). Recolha de REDOL, Alves. Cancioneiro do Ribatejo. Centro Bibliográfico. V. Franca de Xira: 1950.

Publicado pela primeira vez em 23 de Agosto de 2010
O presente texto integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

domingo, 22 de janeiro de 2023

Livro de Leitura da Primeira Classe


Livro de Leitura da Primeira Classe

Há sessenta anos atrás
Sou duma geração que há sessenta anos atrás se iniciou na leitura, através do bem conhecido livro de leitura da 1ª Classe do Ensino Primário. Tratava-se de um livro profusamente ilustrado, com um grafismo que marcou uma época. Através dele aprendíamos a juntar as letras, formando sílabas, que reunidas geravam palavras, ali ilustradas, para o reforço visual apoiar a memorização.
Estávamos no Estado Novo, pelo que não é de admirar que doutrinariamente o livro veiculasse a Trilogia da Educação Nacional: “Deus, Pátria e Família”. O mesmo se passava com aqueles que se lhe seguiram até à 4ª classe.
Na Aritmética, decorávamos a tabuada até à casa do 10. Qualquer um de nós sabia de cor, o resultado de 100 operações de multiplicação, as quais iam desde o 1x1 até ao 10x10. Na aula, o professor passava-nos contas para fazer, o que era feito em lousas de ardósia nas quais escrevíamos com lápis de pedra. Era o “Magalhães” que Salazar e bem, punha à nossa disposição. Assim adquiríamos aptidão de cálculo mental e treinávamos o cálculo necessário à nossa vida do dia a dia.
Levávamos como trabalho para casa, fazer contas num caderno quadriculado, para disciplinar a escrita e a dimensão dos algarismos. E tínhamos sempre uma cópia para fazer, não só para aperfeiçoar a caligrafia, mas também porque a cópia ajudava à memorização. Para o efeito, usava-mos um caderno de linhas. Porém, aqueles que tinham uma escrita mais irregular faziam cópias em cadernos de duas linhas, para aprenderem a dimensionar as letras, até conseguirem ficar com uma caligrafia padrão.
Fazíamos também ditados, nos quais o professor nos lia pausadamente um texto relativamente curto, que nós tínhamos que escrever no caderno. Assim treinávamos a capacidade de converter a oralidade da língua na sua forma escrita. E acabava-mos por não dar erros.
Fazíamos ainda redacções com tema igual para todos, visando despertar e exercitar a capacidade criadora de cada um, bem como exercitar a correcção da ortografia e da caligrafia.
Fazíamos igualmente desenhos com lápis de carvão e lápis de cor, para o que utilizávamos um caderno de folhas lisas.
Os cadernos tinham geralmente na capa, ilustrações apelando ao amor à Pátria ou exaltando instituições gratas ao Regime, como era a Mocidade Portuguesa. Na capa do caderno, escrevíamos sempre o nosso nome, o número e a classe.
Tínhamos também um “caderno de significados”, que era um caderno de duas linhas com um traço vertical a vermelho, onde registávamos por indicação do professor, as palavras difíceis à esquerda do traço e o respectivo significado à direita.
Escrevíamos com canetas de molhar o aparo nos tinteiros que havia em cada carteira. Não se podia molhar de mais para não borrar. Ao virar a página, tínhamos que secar com um mata- borrão que trazíamos sempre dentro do caderno.
A caneta de molhar, os aparos, o lápis de carvão, os lápis de cor, o apara-lápis e a borracha eram guardados dentro duma caixa de madeira, com tampa de correr. Esta, conjuntamente com os cadernos, o livro de leitura e mais tarde outros livros, era transportada numa sacola de serapilheira que levávamos a tiracolo.

E hoje?
Pelos mais diversos motivos, algumas das práticas escolares atrás referidas foram abandonadas. Algumas naturalmente por serem obsoletas. Hoje não faz sentido escrever com canetas de molhar e provavelmente fazer contas em lousa de ardósia. Mas não é a posse e a utilização de um “Magalhães” que treina o cálculo mental e a prática das operações elementares, bem como a prática da caligrafia e a execução livre de desenhos.
Hoje já não se usam sacolas de serapilheira, mas mochilas à medida da bolsa dos pais de cada um. Aí o personagem principal é o “Magalhães” – Faz Tudo!
Já não é preciso saber fazer contas, basta ter o “Magalhães” ligado à Internet e fazem-se as contas no Google. Este motor de busca é a cabeça deles.
Fazer cópias para quê? Por um lado não precisam de memorizar nada e por outro lado basta utilizar o “Magalhães” e escrever no Word. Podem dar erros à vontade, que o Word assinala a vermelho os erros de ortografia e a verde os erros de sintaxe. Depois basta tirar uma cópia na impressora. Esta é a caneta deles.
A caligrafia é a que eles quiserem, é o tipo de letra que escolherem no Word, seja ela Areal, Times New Roman, Comic Sans MS, ou outro tipo qualquer, que lhes der na real gana. Não há caligrafia individualizada, reflexo do todo uno que é cada ser humano. Há o estereótipo gráfico porque cada um optou, no tamanho que escolheu.
O desenho é executado no “Magalhães” com um programa gráfico melhor ou pior, que permite gerir espessuras de traço, cores, luminosidade, contraste, texturas e estilos de desenho. A procura de perfeição a desenhar tem a ver com o domínio do programa utilizado. Essa é a arte deles.
Cadernos de significados para quê? Vai-se ao Google e lá está a Wikipédia. A Wikipédia diz tudo. Para que é que eles precisam de saber, se está na Wikipédia?
Fazer redacções hoje é fácil. Vai-se à Wikipédia e com o ponteiro do rato, copia-se e cola-se. Pesquisa em múltiplas fontes? Rearranjo dos materiais recolhidos em linguagem própria? Trabalho de síntese? Para quê? O que está na Wikipédia é que é! Mas cautela meninos, que os professores dispõem de um programa gratuito existente na Internet que permite ver se os meninos copiaram e colaram ou não. Depois não se queixem se forem acusados de ter copiado à letra, o trabalho apresentado, muitas vezes de forma abrasileirada.

Aviso à navegação
Assiste-se hoje aos mais diferentes níveis, ao facilitismo que o pervertido Sistema Educativo Português concede aos alunos, impreparando-os para a vida. E tudo começa por uma coisa muito simples. O esquecimento ou a ignorância de que cada um de nós só dá valor aquilo que foi fruto do seu esforço pessoal de aprendizagem e aperfeiçoamento, o que longe de facilitismos, passa pela aquisição e memorização de saberes, sem os quais o ser humano não consegue em cada instante julgar e decidir com propriedade.
Corremos o risco de estar a preparar seres humanos dependentes do “Magalhães”, da Internet e da Wikipédia, os quais longe de serem pessoas livres, estão condicionados à informação padrão veiculada “on line”.
Cerca de dois mil anos depois de Spartacus, o gladiador, ter liderado um exército de mais de cem mil escravos contra a opressão do Império Romano, é chegada a altura em que como homens livres, devemos consciencializar toda a gente dos riscos resultantes em termos de liberdade, da utilização de informação estereotipada e padronizada, bem como pela subordinação da criança e do jovem às rotinas do “Magalhães” – Faz tudo.

Texto publicado inicialmente em 28 de Setembro de 2011
O presente texto integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

 Caderno "Lusito"
Lousa
Caderno de significados