sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Arte Conventual - O falar das mãos de Guilhermina Maldonado



Entre nós vivem pessoas relativamente às quais a Comunidade nutre profunda estima e admiração, pelas mais diversas e respeitáveis razões: o seu desempenho ou êxito profissional, o seu exemplo de vida, a sua participação cívica ou aquilo que criam, que é o caso da Senhora que é objecto do presente post.
Guilhermina Maldonado é uma artesã multifacetada cuja actividade se distribui entre outras artes pela criação de registos – bentinhos e lâminas, assim como de maquinetas.
Registos contendo gravuras representando Santos ou Passos das Sagradas Escrituras e que dependurados nas paredes dos quartos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.
Maquinetas contendo imagens devotas que são objectos de Culto ou encerram Presépios, através dos quais se evoca ciclicamente o nascimento de Cristo Salvador.
E o que é um registo? E o que é uma maquineta?
A designação de “registo” engloba ícones religiosos gravados em madeira, cobre, ou pintados sobre pergaminho, tecido ou papel ou impressos litograficamente.
Os de pequenas dimensões, além de relembrarem o dia festivo do Santo Protector, serviam para marcar uma dada passagem no missal ou noutro livro qualquer.
Independentemente das suas dimensões, os registos começaram a ser usados no século XVIII para emolduramentos conhecidos por “bentinhos”, designação que também abrange saquinhos de pano, bentos, que se usavam ao pescoço por debaixo da camisa, contendo papeis com orações, relíquias ou outros objectos de devoção.


Filha de uma mãe exímia e assombrosa na arte do papel recortado e sobrinha do antiquário Venceslau Lobo, Guilhermina Maldonado, nasceu em Estremoz, na freguesia de Santo André, no ano de 1937. Desde muito cedo, conviveu com registos, bentinhos, lâminas e maquinetas. Depois do casamento com o lavrador Luis Maldonado, foi morar para um monte, onde a necessidade de combater o isolamento, a levou a ocupar o tempo de maneira criativa.
Os trabalhos da mãe e a loja do tio que sempre a fascinou, emergiram então na sua memória, levando-a a recriar registos, a partir dos que já conhecia, sem necessitar de qualquer aprendizagem.


Prendada com uma vontade férrea e uma paciência sem limites, a elas soube aliar o prazer de criar, o que faz com uma imaginação espantosa, ainda que temperada pelo rigor e pela procura incessante da delicadeza, perfeição e harmonia, com requintes de minúcia, que são o seu timbre. Dotada de rara sensibilidade artística, das suas mãos de ouro, saem entre outras, inúmeras peças ao gosto conventual do século XVVIII, com um destaque muito especial para os registos e maquinetas ricamente trabalhados.


Desde a sua primeira exposição, ocorrida em 1987 na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, que o seu trabalho foi publicamente reconhecido, passando a receber antiquíssimos registos e maquinetas para restaurar, bem como encomendas para criar novos trabalhos.
Como matérias-primas, Guilhermina Maldonado utiliza papéis coloridos (simples ou metalizados), tecidos (lisos ou lavrados), galões, fitas de algodão e seda, laços, bordados a linha de vários matizes ou de fio prateado ou dourado, bem como pérolas, coral, lantejoulas, vidrilhos, missangas e contas das mais variadas cores. Utiliza também o barro, o miolo de sabugueiro, flores naturais, escamas de peixe ou cascas de árvore. Igualmente utiliza o cartão e o vidro.

As ferramentas utilizadas são as mais diversas: tesoura, lâminas, agulhas, teques, bastidores, pincéis e utensílios improvisados.
Nos bentinhos, a estampa começa por ser colada num cartão que é forrado com tecidos ricos e decorado com lantejoulas, vidrilhos ou papéis coloridos, entre outros materiais.
Guilhermina Maldonado domina e utiliza as múltiplas técnicas de trabalhar o papel: dobragem, vincagem, corte, recorte, enrolamento e picotagem. Com a ajuda da tesoura e da pinça, corta finamente o papel e enrola-o, compondo folhas, pétalas e caules finíssimos, assim como transforma retalhos de papel em preciosos bordados e rendas.


Na decoração é por vezes utilizado canotilho de ouro ou prata e bordados a fio de ouro e prata. Só depois a estampa é emoldurada com uma moldura ricamente trabalhada.
A geometria das molduras é variada: rectangular, quadrada, circular, oval, ogival, cruciforme, cuneiforme ou de contorno misto. A estampa em vez de ser emoldurada, pode ser montada numa caixa pacientemente armada em vidro, também ela de geometria variável, com as lâminas de vidro guarnecidas a papel, tecido, fitas de seda ou de algodão. Estamos então em presença de “lâminas”. Nelas, a dado momento, a estampa começou a ser substituída, por vezes, por pequenas esculturas de barro policromado, cera, marfim ou alguma massa de segredo conventual.



Além de registos – bentinhos e lâminas, Guilhermina Maldonado também executa “maquinetas”, que são caixas envidraçadas onde se expõem imagens devotas como o Menino Jesus ou cenas do Presépio. Os materiais e as técnicas são semelhantes aos dos registos, só que as caixas agora têm maior volume. Guilhermina Maldonado começou por montar maquinetas com figuras modeladas por outros, mas actualmente é ela própria que modela e decora as figuras das suas maquinetas.


Guilhermina Maldonado participa desde sempre na Feira de Artesanato de Estremoz, a qual constitui na sua opinião, a melhor forma de divulgação do seu trabalho. É lá que recebe grande parte das encomendas de clientes que ficaram seduzidos pelo seu trabalho.
Dentre as Exposições realizadas, destacamos entre outras:
-  REGISTOS (Exposição Colectiva), Museu Municipal de Estremoz, Março - Abril de 1986;
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, Dezembro de 1987- Janeiro de 1988;
- Exposição colectiva, Portalegre, Maio de 1992;
- GUILHERMINA MALDONADO E O FALAR DAS MÃOS (Exposição Individual), Câmara Municipal do Alandroal, Dezembro de 1995.
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Escola Secundária de Estremoz, Dezembro de 1999.
A continuidade da sua Arte foi uma questão que sempre a preocupou. Estela Marques Barata foi a colaboradora a quem transmitiu os seus saberes.
Vivemos numa época pautada pela exaltação dos valores materiais e pela globalização, ambos conducentes à insensibilidade artística e ao cinzentismo da perda de identidade cultural. Por isso é preciso cavar trincheiras e cerrar fileiras em tomo do que mais puro e genuíno tem a Cultura Popular, nas suas mais diferentes vertentes. Dai que procuremos transmitir às novas gerações, valores e estéticas, que sendo populares e regionais, são simultaneamente universais e intemporais.
Esse o sentido da Exposição, que de 16 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2010, esteve patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. tratou-se de uma Exposição, onde a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, nos fizeram render à Arte de Guilhermina Maldonado.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Bonecos de Estremoz na Academia Portuguesa de História


Selo da taxa de 0,55 €, destinado ao correio azul nacional, pertencente à emissão
“Barros de Portugal”,  posta em circulação pelos Correios de Portugal em 21 de
Abril de 2015. Nele aparecem dois exemplares pertencentes ao núcleo tradicional
do figurado de Estremoz. À direita “O cirurgião” e à esquerda, uma “Primavera”.

Os bonecos de Estremoz serão objecto de uma conferência a apresentar na Academia Academia Portuguesa de História no próximo dia 13 de Novembro. A prelecção estará a cargo do nosso colaborador Hernâni Matos, na qualidade de coleccionador e investigador da barrística popular estremocense. O dissertante abordará o tema “O figurado de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2017?”. A comunicação integra-se nas VIII Jornadas Nacionais de História e Filatelia, a decorrer a partir das 14 horas, no Palácio dos Lilazes, em Lisboa.
Outras conferências previstas estarão a cargo de: - Guilherme d'Oliveira Martins (Filatelia e o novo conceito de Património Cultural); - João Rui Pita e Ana Leonor Pereira (O património científico nos selos portugueses); - Maria Salomé Pais (O património vegetal - um tesouro a preservar); - Pedro Vaz Pereira (O património cultural português nos postais de correio comemorativos dos 400 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia). 
(Notícia saída no jornal E, de Estremoz, de 2-11-2017)

Hernâni Matos

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Estremoz – Caminhar nem sempre é fácil


No Largo de Santa Catarina, o parque de estacionamento em cima do passeio,
obriga os transeuntes a circular na estrada no sentido de progressão dos veículos.
Fotografia de Francisca de Matos.
Foi o poeta sevilhano António Machado (1875-1939), quem proclamou: “(…) caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar. / (…)”. A verdade e a universalidade de tal declaração são compatíveis com o reconhecimento da existência de bons e de maus caminhos. É esse dualismo que é objecto da presente crónica.  
Caminhar é preciso
Caminhar pode constituir um prazer e um modo de manter a boa forma física. Todavia, pode ser também uma obrigação inescapável de quem pretende chegar a determinado local. Neste último caso, caminhar pode ser uma penitência dolorosa ou representar um risco a que involuntariamente se é obrigado.
Da Rua 31 de Janeiro às Portas de Santa Catarina
Na cidade de Estremoz há quem se tenha que dirigir para as escolas do 1º Ciclo, Básica e Secundária, bem como para o Centro de Saúde de Estremoz. A opção de caminho pode passar pela Rua 31 de Janeiro, ladeada de passeios, pelo que após atravessar a multiplicidade de esplanadas aí existentes, entra no Largo de Santa Catarina, que antes da curva tem passeios, tanto de um lado como do outro. A seguir à curva também tem, mas inexplicavelmente o passeio do lado direito, nas traseiras da Messe de Sargentos foi transformado pelo Município num parque de estacionamento. A sua existência é absurda, não só por constituir uma barreira ambiental que obriga os transeuntes a circular na estrada no sentido de progressão dos veículos, bem como pelo facto de ao virar das esquinas, existirem dois parques de estacionamento: um do lado esquerdo (no Largo da Praça de Touros) e outro do lado direito (junto às Portas de Santa Catarina). A meu ver, o Município deveria eliminar este parque de estacionamento e orlar o passeio com mecos impeditivos de estacionamento no local. Seria uma medida que os transeuntes iriam aplaudir.
À saída das Portas de Catarina
No interior das Portas de Santa Catarina, o transeunte dispõe de passeio em qualquer dos lados, o mesmo se passando à saída, em direcção à Praça José Dias Sena.
Quem transita pelo passeio do lado esquerdo em direcção às Escolas do 1º Ciclo e à Escola Básica, fá-lo com segurança, seguindo um percurso que foi bem delineado pelo Município. Já o mesmo não se pode dizer de quem circula pelo passeio do lado direito. Este termina imediatamente antes de um sinal de trânsito que assinala a existência de uma passadeira que atravessa o IP2 e que é utilizada pelos transeuntes que se dirigem para a Escola Secundária. A passadeira dá acesso a um passeio que tem a particularidade de não ser horizontal, uma vez que regista uma inclinação acentuada entre os bordos exterior e interior, o que cria dificuldades de circulação pedonal a pessoas mais idosas ou de mobilidade reduzida.             
Em direcção ao Centro de Saúde
Quando termina o passeio do lado direito do IP2, quem se dirige para o Centro de Saúde de Estremoz, vê-se face a duas opções. Uma é a de entrar no parque de estacionamento em direcção ao Centro de Saúde, o que é péssimo quando chove, dada a natureza térrea do piso. A outra escolha é a de seguir junto aos rails que ladeiam a estrada, seguindo um percurso onde não há passeio, no sentido de progressão do trânsito automóvel. É uma opção arriscada, mas que muitos seguem. Creio que o Município tem um modo de corrigir o absurdo da situação criada. Passa por a valeta do parque de estacionamento ser desviada mais para o interior do mesmo, procedendo de igual modo em relação aos rails que bordejam a estrada, criando condições para que possa ser construído o prolongamento do passeio que foi interrompido junto ao sinal de passadeira. Para chegar ao Centro de Saúde falta atravessar a estrada que liga a Rua de São João de Deus ao IP2 e à Rua Professor Egas Moniz. Para atravessar esta estrada com segurança, haveria que marcar uma passadeira para travessia de peões, mesmo no seu termo, no local onde já existiu sinalização de stop marcada no chão, mas que deveria passar a ser vertical. O fluxo de trânsito automóvel nesta estrada de ligação passaria a ser mais lento, devido à circulação pedonal na passadeira. Todavia, os direitos dos peões sairiam reforçados, o que não deixaria de ser positivo.
As sugestões aqui ficam. Falta agora o Município reconhecer o absurdo das situações aqui apontadas e tomar as medidas concernentes a uma circulação pedestre mais segura.


 Quando termina o passeio do lado direito do IP2, quem se dirige para o Centro de
Saúde ou entra no parque de estacionamento ou segue junto aos rails que ladeiam
a estrada. Fotografia de Francisca de Matos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Grão a grão, enche a galinha o papo


Miniaturista italiano (c. 1398). Tacuinum Sanitatis, manuscrito
(Codex Vindobonensis S.N. 2644). Tamanho do fólio: 330 x 230 mm.
Biblioteca Nacional Austríaca, Viena.

As eleições autárquicas do passado dia 2 de Outubro deram uma vitória folgada ao MIETZ, o qual elegeu 4 vereadores contra os 3 conseguidos pelo PS. Pese embora a vitória, o Partido do Presidente perdeu um vereador a favor do Partido Socialista.
O MIETZ, partido furta-cores apresentou a sufrágio listas em que figuravam trânsfugas da CDU, do PCP, do PS e do PSD e nas quais era notória a presença de funcionários e assessores do Município. Pelos vistos, o eleitorado gostou, o que conduziu aquele Partido à vitória.
Estratégia eleitoral
Para além de arruadas, a campanha eleitoral do MIETZ assentou no forte impacto de eventos, sobretudo a partir de Maio e dos quais destaco: 
- Inauguração do Parque Industrial de Veiros (25-5); - Apresentação do Projecto Museológico do Museu Berardo de Estremoz, junto ao edifício do Palácio dos Henriques (Palácio Tocha) (4-7): - Anúncio da recuperação das Portas dos Currais e muralha adjacente (6-7); - Divulgação da aquisição de mais uma varredoura pelo Município de Estremoz (11-7); - Anúncio do começo das obras de interligação entre os Casais de Santa Maria e a Urbanização de Mendeiros (18-7); - A aprovação em reunião de Câmara da celebração de um Protocolo entre o Município e a Sociedade Filarmónica Veirense, respeitante à cedência gratuita, pelo prazo de 25 anos, de um imóvel situado na Praça Marquês da Praia e Monforte, em Veiros, visando a realização das obras de reparação necessárias à sua funcionalidade e utilização futura (26-7); - Passagem por Estremoz da Volta a Portugal em Bicicleta (1-8); - Anúncio da conclusão ainda em Agosto das obras de construção do relvado sintético, no campo de futebol do Sporting Clube Arcoense (4-8); - Anúncio das Portas de Évora estarem a ser objecto de recuperação (11-8); - Gala na RTP-1 em que Évora Monte participou no Concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, na categoria Aldeias Monumento (13-8); - Noite de Glamour junto ao Pelourinho (19-8); - Realização da Corrida Comemorativa dos 55 anos de Alternativa do cavaleiro José Maldonado Cortes (1-9); - Reabertura do Museu Rural em novo espaço do Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte (2-9); - Visita à Central Solar de Montes Novos, em São Bento do Ameixial, do Ministro da Economia e do Secretário de Estado da Energia (6-9); - Início da empreitada de “Contenção Periférica e de Fachada do Edifício Luís Campos”, a executar num prazo de 45 dias, pela Eco Demo - Demolições, Ecologia e Construção, S.A., de Leiria (6-9); - Apresentação no Teatro Bernardim Ribeiro da curta-metragem "Farpões Baldios" da estremocense Marta Mateus Cabaço, vencedora do Grande Prémio do Festival de Curtas de Vila do Conde (16-9); - Realização pelo Município e no decurso da campanha eleitoral, de 400 entrevistas para um concurso de atribuição de 80 postos de trabalho; - Manifestação de afectividades a eleitores idosos, a curta distância das assembleias de voto, situadas na Junta de Freguesia de Estremoz (2-10).

À laia de balanço
Muitos gritarão “Aqui-d’el-rei”, argumentando tratar-se de mero eleitoralismo. Todavia, eu que tenho queda para os provérbios, mais não digo que:
- “Grão a grão, enche a galinha o papo”. 

Hernâni Matos 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Poesia portuguesa - 086




Tabacaria (1)
Fernando Pessoa (1888-1935)

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 

Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 

Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 

Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 

Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

Fernando Pessoa (1888-1935)

(1) -  5-1-1928 / Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993): 252. 1ª publ. in Presença, nº 39. Coimbra: Jul. 1933.


 
Tabacaria Estrela Polar - Lisboa
"Tabacaria", poema de Álvaro de Campos na revista Presença n.º 39, Julho de 1933.

domingo, 8 de outubro de 2017

2.ªs Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial do Alentejo


A Mesa do 4º Painel. Fotografia de Luís Guimarães.

Decorreram no passado dia 16 de Setembro no Auditório São Mateus, em Elvas, as 2.ªs JORNADAS PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DO ALENTEJO, as quais relativamente ao Património Cultural Imaterial visavam: - Contribuir para a salvaguarda e uma mais ampla percepção da sua riqueza e diversidade; - Propagar a sua importância; - Promover e valorizar à escala local as suas mais diversificadas e singulares expressões que os indivíduos, os grupos e as comunidades protagonizam e que dão sentido à própria identidade do país.
Foram organizadas conjuntamente pela Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial e pela Câmara Municipal de Elvas, contando com a colaboração de várias Câmaras Municipais (Évora, Ferreira do Alentejo, Estremoz, Vidigueira, Grândola, Marvão e Campo Maior) da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e de outras instituições como Sociedade de Geografia de Lisboa, Museu de Arqueologia e Etnografia do distrito de Setúbal, Associação Pédexumbo e Pporto dos Museus.
Nas Jornadas foram apresentadas 13 comunicações distribuídas por 4 painéis, cada um deles com o seu moderador.
No 4º painel, foi apresentada por Hernâni Matos a comunicação “O FIGURADO DE ESTREMOZ COMO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE EM 2017?”. O comunicante, na sua qualidade de coleccionador e investigador do figurado de Estremoz, abordou sucessivamente os seguintes tópicos: 1 -Coleccionar bonecos de Estremoz; 2 - Invariância e mutabilidade nos bonecos de Estremoz; 3 - Marcas de identidade; 4 - Galeria dos bonecos de Estremoz; 5 - Tradição, inovação e mudança de paradigma; 6 -Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A comunicação acompanhada de projecção, realçou a singularidade da manufactura “sui-generis” do figurado de Estremoz que a distingue de todo o figurado português. Destacou ainda o facto de bonecos de Estremoz serem pela sua excelência, notórias marcas de identidade cultural estremocense e alentejana.
A terminar, o comunicante confessou ter os bonecos de Estremoz na massa do sangue, pelo que subscreveu com alma e coração, a sua Candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade e como jornalista, tem procurado através dos seus escritos, divulgar e potenciar uma Candidatura, que acredita será vitoriosa em Dezembro próximo.


Um aspecto da assistência. Fotografia de Luís Guimarães.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

E S T R E M O Z : Beldroegas para o Brasão Municipal, já!



Recentemente foi constituído na nossa cidade, um comité para a defesa dos direitos cívicos das beldroegas. Aquele colectivo vegetal fez-me chegar às mãos um documento, o qual dada a sua importância, reproduzo na íntegra e sem comentários.

MANIFESTO DAS BELDROEGAS
Bilhete de identidade
Nós beldroegas, designadas cientificamente por “Portulaca oleracea”, somos encaradas como ervas daninhas, pois desenvolvemo-nos muito bem em climas temperados, solos drenados e a céu aberto. Daí brotar-mos em hortas, pomares, quintais, calçadas e passeios. Vivemos mais de um ano e temos crescimento rápido, chegando a medir 40 cm de comprimento. Somos rasteiras, com folhas espessas e carnudas e flores amarelas pequenas de cinco pétalas.
Há quem nos considere plantas invasoras, difíceis de ser erradicadas, pois cada uma de nós pode produzir elevado número de pequenas sementes, as quais podem permanecer viáveis por mais de dez anos. Todavia há quem nos considere invasoras benéficas em plantações, por sermos consideradas plantas companheiras doutras como é o caso do milho.
Utilização culinária
Temos sabor ligeiramente ácido e os nossos caules, as nossas folhas e as nossas flores podem ser comidos crus ou cozinhados sob a forma de sopas, saladas, esparregado ou infusão. São bem conhecidas sopas como: sopa de beldroegas, sopa de beldroegas com arroz, sopa de beldroegas com coentros, sopa de bacalhau com tomate e beldroegas, sopa de grão com beldroegas salteadas, arroz de beldroegas e açafrão, arroz integral de tomate e beldroegas. Já quanto a saladas, destacamos: salada de beldroegas, salada de beldroegas com tomate e cebola, salada de batata com beldroegas e alcaparras.
Uso medicinal
Somos ricas em substâncias como ómega-3, glicose, frutose, sacarose, α-tocoferol, β-caroteno, glutationa, vitaminas A, B, C, minerais como magnésio, cálcio, potássio e ferro.
Temos propriedades diuréticas, emolientes, emenagogas, laxantes, vermífugas, anti-escorbúticas, sudoríferas, depurativas, anti-inflamatórias, anti-hemorrágicas, anti-oxidantes e anti-cancerígenas.
Somos eficazes na depuração do sangue, no tratamento de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, doenças da vista, da bexiga, rins e vias urinárias, disenteria, enterite aguda, mastite, hemorróidas, cistite, hemoptises, queimaduras, úlceras, artrite e outros distúrbios inflamatórios e auto-imunes, bem como no cancro.
Os nossos talos e folhas pisadas podem ser aplicados sobre queimaduras e feridas, pois aliviam a dor e aceleram o processo de cicatrização. O suco das nossas folhas pode ser utilizado para tratar inflamações oculares, queimaduras, eczemas, erisipelas e calvície, quando aplicado directamente na área afectada. O nosso suco ingerido trata problemas de fígado, bexiga e rins. Sob a forma de chá temos propriedades diuréticas. As nossas sementes quando ingeridas combatem vermes intestinais.
Uso ornamental
Por sermos floridas, há variedades nossas que são cultivadas em jardins, canteiros, vasos e floreiras. Propagamo-nos rapidamente, florescemos todo o ano e não exigimos cuidados especiais para além de sol e água.
Nós e o Executivo Municipal
O nosso relacionamento com o Executivo Municipal é excelente e é mesmo o melhor de sempre. Outra coisa não seria de esperar, já que nos permite crescer à vontade por tudo o que é calçada e passeio. Como as ruas estão por varrer, pensamos que seja gentileza da sua parte, a fim de que não tenhamos falta de nutrientes. O nosso grande problema é a seca. Daí que façamos um apelo a que nos mandem regar. As beldroegas agradecem.
Uma justa reivindicação
A nossa proliferação pela cidade e o nosso carácter ornamental, são reveladores do nosso empenho bairrista em corporizar o slogan do Município: ESTREMOZ TEM MAIS ENCANTO.
A Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia é responsável pelo baixo indicie de cultivo de cereais no nosso concelho e entre eles, o tremoceiro que figura no Brasão Municipal. Daí e dada a nossa abundância, não é despropositado reivindicar a nossa inclusão naquela composição heráldica, em substituição do tremoceiro. Daí que proclamemos:
- BELDROEGAS PARA O BRASÃO MUNICIPAL, JÁ!

Comité para a Defesa dos Direitos Cívicos das Beldroegas

Hernâni Matos