domingo, 16 de junho de 2024

NEO-REALISMO / MEMÓRIAS GUARDADAS / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS

 



Créditos fotográficos:
Jorge Mourinha - Município de Estremoz


Integrada no Programa Comemorativo “50 anos em Liberdade: Comemorações do 50º Aniversário da Revolução de Abril de 1974”, decorreu ontem na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, a inauguração da exposição de artes plásticas NEO-REALISMO / MEMÓRIAS GUARDADAS / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS.

No acto inaugural, participaram cerca de 4 dezenas de convidados, cuja presença e afecto foi para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, a quem agradeço as palavras amigas, bem como ao Chefe de Divisão, Hugo Guerreiro, o qual no mesmo sentido o antecedeu no uso da palavra.  Seguidamente, coube-me a mim igual papel, tendo agradecido as facilidades concedidas pelo Município. De resto e como não podia deixar de ser, procurei dar uma visão do que que foi o movimento neo-realista português, o modo como surgiu e porque surgiu, os seus marcos mais importantes, as lutas em que se envolveu antes do 25 de Abril, bem como as suas naturais implicações.

A terminar, orientei uma visita guiada à exposição, procurando facilitar a leitura e interpretação das obras dos artistas plásticos patentes ao público: Júlio Pomar, António Cunhal, Lima de Freitas, Júlio Resende, Manuel Ribeiro de Pavia, Cipriano Dourado, Rogério Ribeiro, Alice Jorge, Jorge de Almeida Monteiro, Espiga Pinto, Querubim Lapa e Aníbal Falcato Alves. No seu conjunto, as obras expostas são em número de 40 e distribuem-se por diferentes tipologias: desenho a grafite, desenho a tinta-da-China, guache, aguarela, técnica mista, serigrafia, linoleogravura, xilogravura, litografia, água forte e água tinta e colagem. A mostra estará patente ao público até ao próximo dia 15 de Setembro.

Hernâni Matos





































sábado, 15 de junho de 2024

Álvaro Feijó - Diário de bordo




Diário de bordo
Álvaro Feijó (1916-1941)

Letra a letra,
hora a hora,
linha a linha,
marquei no Diário de Bordo
as fases da viagem.

Dias e dias no embalar das vagas,
sem que um bafo de brisa poluísse
o abandono tentador das velas;
expedições forçadas, abordagens;
fome e sede de carne, nos jejuns
de cem dias de Mar;
velhos contos de bordo, em noites podres,
sem lua e sem estrelas;
o escorbuto na alma, apodrecida
à espera dos combates;
os rateios da presa recolhida
e, ao fim,
a Ilha dos Amores de qualquer porto
onde as mulheres se vendem.
E tudo foi, profundamente, inútil.

Livro de Bordo de Corsário, deixa
que o tempo apague a tua prosa inútil
e escreve a história imensa
daquela frota em que tu vais partir
– como pobre navio auxiliar –
à demanda e à conquista
do Novo Continente
!

Álvaro Feijó (1916-1941)


#Poesia Portuguesa - 215

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Santo António na tradição oral


Capa da revista ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA nº 16 de 11 de Junho de 1906.

PRÓLOGO
É vasta a literatura de tradição oral portuguesa referente a Santo António. Debruçar-nos-emos aqui sobre o adagiário, tradições e superstições populares, orações populares e cancioneiro popular alentejano.

ADAGIÁRIO PORTUGUÊS.
Não é extenso, mas existe algum adagiário relativo a Santo António:

- “Água de Santo António tira o pão à gente e dá o vinho ao demónio.”
- “Ande o calor por onde andar, pelo Santo António, há-de chegar.”
- “Dia de Santo António, vêm comer as cerejas ao castanheiro.”
- “Entre António e João planta teu feijão.”
- “Não há sermão sem Santo António, nem panela sem toucinho.”
- “Nem Deus com um gancho, nem Santo António com um garrancho.”
- “Ovelha que é do lobo, Santo António Antônio não guarda.”
- “Santo António tira a dor, mas não tira a pancada.”

TRADIÇÔES E SUPERSTIÇÕES POPULARES
- No dia de Santo António deve-se colher um raminho de erva-pinheira, para pendurar em casa. Se este reverdecer, tal facto é indício de fortuna. [2]
- Para que Santo António opere o milagre de casar uma rapariga solteira, é preciso que uma sua imagem seja roubada a outra pessoa. [2]
- Rezar um responso a Santo António faz com que a pessoa ou o animal responsado não consiga andar para diante, mas apenas para trás, pelo que volta ao ponto de partida. [2]
- Na véspera do dia de Santo António, é costume ornamentar as portas ou as sacadas das casas com canas verdes. [7]

ORAÇÕES POPULARES ALENTEJANAS
Um tipo de oração popular é a encomendação (recomendação) que se faz a Jesus, à Virgem Maria ou a um Santo, para eles livrarem o encomendante de qualquer bicho ou pessoa que lhe queira fazer mal, assim como de qualquer influência maléfica ou demoníaca que o possam afectar. Vejamos uma “Encomendação a Santo António”:

“Santo António se levantou,
Caminho e carreira andou,
Nossa Senhora encontrou,
Ela lhe perguntou:
- Aonde vais, António?
- À vossa Santa busca vou.
- Pois tu, António, irás
E na terra ficarás,
O meu corpo me guardarás
De mau lobo e de má loba,
De mau cão e de má cadela,
De mau homem e de má mulher
E de tudo mau que houver,
Que eu nunca tenha perca
Nem dano nem prejuízo algum.
Em louvor da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Ave Maria.” [5]

Um outro tipo de oração popular é o responso, entendido como uma oração a um Santo, visando o aparecimento de coisas desaparecidas ou que não ocorram males que se temem. Vejamos um “Responso de Santo António”:

“Santo António se levantou,
seu sapatinho calçou,
seu bordãozinho pegou,
seu caminho caminhou,
Jesus Cristo encontrou.
Jesus Cristo lhe perguntou:
- Onde vais, Beato António?
- Senhor, convosco vou.
- Comigo não virás,
na terra ficarás
guardando o que está perdido,
que à mão do dono seja restituído.
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Pai-Nosso e Ave-Maria.” [1]

Este responso reza-se três vezes, depois das quais, as coisas desaparecidas, aparecem.

CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO
O Povo não esquece a data festiva do Santo António:

“A treze do mês de Junho
Santo António se demove,
S. João a vinte e quatro,
e S. Pedro a vinte e nove.“ [6]

Pelo Santo António, S. Pedro e S. João é cantada a seguinte cantiga popular:

“Santo António, S. Pedro e S. João,
Santinhos padroeiros,
Do meu terno coração.
Olhai por mim,
Protegei-me, dai-me sorte,
Que eu serei vossa devota
Quer na vida quer na morte.” (Évora) [3]

O Povo considera que Santo António pertence a uma admirável geração:

“S. Francisco é meu primo,
Santo António é meu irmão,
Os anjos são meus parentes,
Ai que linda geração!” (Beja) [4]

Tem-no, naturalmente, na mais elevada estima:

“Ailé,
Senhor Santo António,
É o melhor cravo
Do meu oratório.“ [6]

O Santo é invocado para guardar olivais:

“Santo António de Lisboa,
Guardador dos olivais,
Guarda lá minha azeitona
Do biquinho dos pardais.“ [6]

Igualmente é invocado para guardar amores fugitivos:

“Santo António de Lisboa,
Guardador dos olivais,
Guardai-o meu lindo amor,
Que cada vez foge mais.“ [6]

Santo António é casamenteiro. Por isso, ele ou ela imploram:

“Ó meu amor, pede a Deus,
E eu peço a Santo António
Que nos deixe juntar ambos
No livro do matrimónio.“ (Alcáçovas) [4]

O homem confessa o objecto da sua fé:

“O sol bate de chapa,
Faz a maçã coradinha;
Tenho fé em Santo António
Que inda hás-de vir a ser minha.“ (Odemira) [4]

Por seu lado, a mulher suplica ao Santo que a case com determinado homem:

“Ó meu rico Santo António,
Eu bem alto aqui to digo;
Casai os rapazes todos,
O Josezinho comigo!“ (Alcáçovas) [4]

Chegam a chamar namoradeiro ao Santo:

“Santo António me acenou
De cima do seu altar,
Olha o maroto do santo,
Que também quer namorar." [6]

Apontam-lhe mesmo, certos episódios:

“Santo António, com ser santo,
Foi sempre um grande gaiato,
Foi à fonte com três moças,
recolheu, trazia quatro.“ [6]

Chegam ao ponto de lhe fazer determinadas insinuações:

“Senhor Santo António
Tem duas ladeiras:
Umas das casadas,
Outra das solteiras.“ (Moura) [4]

Por chalaça, Santo António é invocado pelas mulheres para escarnecer dos homens:

“Santo António de Lisboa,
Venha ver o que cá vai,
Deu a rabugem nos homens,
Como dá nos animais.“ [6]

Os homens respondem na mesma moeda:

“Santo António da Terrugem
Venha ver o que cá vai,
Anda a rabugem nas moças,
Té o cabelo lhes cai.“ [6]

No conceito popular, o Santo é portador da mais alta patente militar, daí que digam:

“Santo António de Lisboa
Não quer que lhe chamem santo,
Quer que lhe chamem António,
General, mar’chal de campo.“ [6]

Pelo poder que lhe é atribuído, não é de estranhar que Santo António seja invocado para livrar os mancebos da vida militar:

“Sant’Entóino é bom rapaz,
Que livrou seu pai da morte.
Também livrará meu bem
Quando for “tirar as sortes””. (Mina de S Domingos) [4]

Igualmente é invocado para ajudar a vencer desafios ainda maiores:

“Santo António é bom filho,
Que livrou seu pai da morte;
Ajudai-nos a vencer
Esta batalha tão forte.“ [6]

Como o ramo de loureiro era utilizado para sinalizar a porta das tabernas, houve quem ironizasse a decoração do altar do Santo:

“No altar de Santo António
‘Stá um ramo de lòreiro;
Olha que pouca vergonha,
Fazer de um santo vendeiro!“ (Évora) [4]

Os homens chegaram ao ponto de o acusar de reservar o vinho para as mulheres:

“Santo António de Cabanas
Tem uma pipa no monte,
As mulheres bebem vinho,
Os homens água da fonte.“ [6]

Chega a ser encarado como vendedor, a quem se solicita que seja pródigo no avio:

“Santo António vende peras,
Vende peras a vintém,
Lá irá o meu menino,
Santinho, aviai-o bem.“ [6]

A invocação da sua intercessão não conhece limites:

“Ó meu padre Santo António,
Vestidinho d’estamenha;
A quem quer ajudar
O vento lhe ajunta a lenha.“ [6]

O povo que tem convicções firmes e gosta de coisas rijas, considera que o Santo é mesmo um Santo com força nas canelas:

“Santo António da Terruge’
Feito de pau de azinho,
Tem mais força no canelo
Que um barrasco no focinho.“ (Terrugem) [4]

EPÍLOGO
Julgamos que dentro da literatura de tradição oral, as orações populares e o cancioneiro são reveladores da religiosidade própria do homem alentejano, em consonância com a sua própria identidade cultural.

(Texto publicado inicialmente a 15 de Junho de 2011) 

BIBLIOGRAFIA
[1] – ALVES, Aníbal Falcato. Rezas e Benzeduras. Campo das Letras. Porto, 1998.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Edição de Álvaro Pinto (Revista de Portugal). Lisboa, 1955.
[4] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Leite. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983.
[5] – POMBINHO JÚNIOR, A.P. Orações Populares de Portel. Edições Colibri-Câmara Municipal de Portel. Lisboa, 2001.
[6] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
[7] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Santo António na barrística popular estremocense


Santo António. Mariano da Conceição (1903-1959). Colecção do autor.

ESBOÇO BIOGRÁFICO DE SANTO ANTÓNIO
Santo António (1195-1231) nasceu em Lisboa no dia 15 de Agosto de 1195 numa família de mercadores e cavaleiros-vilãos, filho de Martim de Bulhões e de Maria Teresa Taveira Azevedo. Foi baptizado no Mosteiro de São Vicente de Fora com o nome de Fernão de Bulhões. Fez os primeiros estudos na Igreja de Santa Maria Maior, hoje Sé de Lisboa. Em 1209 ingressa como noviço na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, estabelecida naquele Mosteiro.
Em fins de 1210, princípios de 1211 transfere-se para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, pertencente à mesma Congregação e que na época era a nível europeu, um importante centro de cultura medieval e eclesiástica. Aí realizou estudos em Direito Canónico, Ciências, Filosofia e Teologia e veio a ser ordenado sacerdote entre 1218 e 1220.
Em Coimbra toma contacto com os franciscanos e é atraído pelos ideais de humildade, pobreza, evangelização e martírio, professados pela ordem italiana. O martírio de cinco franciscanos, decapitados em Marrocos e a vinda dos seus restos mortais em 1220 para Coimbra, levam Fernando a trocar a Regra de Santo Agostinho pela Ordem de São Francisco. Toma então o hábito franciscano, sob o nome de Frei António e recolhe-se no Eremitério dos Olivais de Coimbra.
Por essa época, decide dirigir-se a Marrocos num projecto isolado de conversão pacífica dos Mouros. Contudo, adoece quando atravessa o mar para ir a África, pelo que resolve regressar a Portugal, mas o barco que o transporta é desviado por uma tempestade e vê-se obrigado a aportar na Sicília. António dirige-se então a Assis, onde assiste em 1221 ao Capítulo Geral da Ordem. É em Itália, que António se notabilizará como teólogo exímio e grande pregador.
Em Março de 1222, em Forli, discursa para religiosos franciscanos e dominicanos de modo tão fluente e admirável que o Provincial da Ordem o destina imediatamente à evangelização e difusão da doutrina. Fixa-se então em Bolonha onde se dedica ao ensino da Teologia e à pregação, designadamente contra as heresias dos Cátaros, Patarinos e Valdenses. Segue depois para França, visando lutar contra os Albijenses e em 1225 ensina Teologia em Montpellier e Toulouse e, prega em Puy e em Limoges. Nessa época é-lhe confiada a guarda do Convento de Puy-en-Velay e torna-se custódio da Província de Limoges, um cargo eleito pelos frades da região. Dois anos mais tarde instala-se em Marselha, mas em breve será designado ministro-provincial na Emília, Norte de Itália, onde continua a pregar e a ensinar Teologia no Convento de Pádua. Aqui compõe os “Sermões” destinados a servir de modelo aos pregadores franciscanos, sermões esses caracterizados por alegorias extraídas da observação da natureza, facilmente compreendidas por um auditório ligado ao quotidiano material e concreto. A este período pertence o seu “Sermão aos peixes”.
Em 1228 assistiu à canonização de São Francisco e deslocou-se a Ferrara, Bolonha e Florença. No ano de 1229 as suas pregações dividiram-se entre Vareza, Bréscia, Milão, Verona e Mântua. Tratava-se de uma actividade que o absorvia de tal maneira, que a ela se passou a dedicar em exclusivo. Em 1231, após contactos com Gregório IX, regressa a Pádua, ficando a Quaresma do ano seguinte assinalada por múltiplos sermões da sua autoria.
A sua intensa vida religiosa e apostólica estará porventura na origem da sua morte, aos 36 anos, a 13 de Junho de 1231, no Convento de Arcella, perto de Pádua. Os seus restos mortais repousam na Basílica de Pádua, construída em sua memória.
Canonizado em Maio do ano seguinte pelo papa Gregório IX, foi declarado oficialmente Padroeiro de Portugal em 1932 e proclamado por Pio XII, Doutor da Igreja, em 1946. Santo António é assim o segundo Santo português após o início da Monarquia em 1139. O primeiro foi S. Teotónio (1092-1162).
Santo António é venerado pela Igreja Católica, que o considera um grande taumaturgo e lhe atribui um extraordinário número de milagres, não só em vida, como desde os primeiros tempos após a sua morte até aos dias de hoje.
Face à sua intensa actividade religiosa foram-lhe atribuídos epítetos como “Arca do Testamento“ (Gregório IX), “Martelo dos hereges”, “Defensor da fé”, “Oficina de milagres, etc.".
Santo António além de Padroeiro de Portugal e de Pádua, é considerado Padroeiro dos pobres, dos oprimidos, dos combatentes, dos doentes, dos náufragos, dos animais, dos noivos, dos casais, das casas e das famílias, das pessoas que desejam encontrar objectos perdidos, bem como aquele que livra os homens das tentações demoníacas.
Os atributos de Santo António são variados: um livro (alusão à sua posição como doutor da Igreja), o Menino Jesus (símbolo das suas aparições), um crucifixo, os peixes a escutar os seus Sermões, o burro ajoelhado perante a Hóstia, assim como um lírio. Observe-se que o lírio sempre foi encarado como o símbolo da pureza e relacionado com a Virgem Maria, em homenagem à sua pureza e por isso muito utilizado para decorar igrejas. Épocas houve em que retiravam do lírio os órgãos masculinos e femininos, pois só assim a flor seria "verdadeiramente virgem". Pelo seu simbolismo o lírio é também usado em bouquets de noiva. De resto, existia a crença que um bolbo da flor ajudava a reconciliar namorados desavindos e era uma planta mágica, protectora contra a bruxaria.
A circunstância de o dia festivo de Santo António (13 de Junho) coincidir com as festas do Solstício de Verão, faz com que seja celebrado em Portugal como um dos santos mais populares, com presença honrosa e permanente na literatura, na pintura, na escultura, na música, na toponímia, na filatelia, no folclore, na arte popular, especialmente na barrística, assim como na literatura oral.

PRESENÇA NA BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE
O culto de Santo António foi incentivado em Estremoz pelos religiosos da ordem de S. Francisco de Assis, sediados no Convento de S. Francisco, desde os primórdios da sua construção, no século XIII, em data imprecisa, balizada pelos reinados de D. Sancho II – D. Afonso III (1239-1255).
Lá diz o rifão “Não há bela sem senão”, pelo que na sequência da influência franciscana, o culto de Santo António popularizou-se e o povo fez de Santo António um Santo à sua maneira e de acordo com as suas necessidades e conveniências:

“Santo António de Lisboa,
Guardador dos olivais,
Guarda lá minha azeitona
Do biquinho dos pardais.“ [4]

“Ó meu padre Santo António,
Vestidinho d’estamenha;
A quem quer ajudar
O vento lhe ajunta a lenha.“ [4]

Já no século XVII o padre António Vieira dizia num dos seus famosos sermões (1), que os portugueses para tudo pediam o auxílio de Santo António. Pregava ele: “Se vos adoece o filho, Santo António; se vos foge o escravo, Santo António; se mandais a encomendas, Santo António; se esperais o retorno, Santo António; se aguardais a sentença, Santo António; se perdeis a menor miudeza da vossa casa, Santo António; talvez se quereis os bens da alheia, Santo António.”
Nos anos 50-60 do século passado havia arraiais de Santo António em Estremoz, no Largo do Almeida, nas traseiras da Igreja de Santo André e no Pátio dos Solares, na noite de 12 para 13 de Junho. Todos eles com um mastro donde irradiavam troços de festão com lanternas de papel suspensas, que conferiam colorido e iluminação ao arraial. E havia bazares de rifas decorados com flores de papel e ramos de louro, planta que além de ser utilizada em culinária, simboliza desde a Grécia Antiga, a recompensa ao mérito. Mas o que era verdadeiramente indispensável era o trono com a imagem de Santo António, ornado com manjericos, flores de papel e pavios de cera e lamparinas de azeite a arder. Recorde-se a propósito que a tradição dos tronos de Santo António remonta a 1755 quando o Terramoto destruiu Lisboa e foi efectuado um peditório para ajudar a reconstruir a Igreja de Santo António, que ficara parcialmente destruída. O costume manter-se-ia e alastraria a todo o país. E em Estremoz como noutros lugares, era corrente durante a quadra festiva, ver os miúdos a pedir “um tostãozinho para o Santo António”. Saltava-se também a fogueira, queimavam-se as alcachofras e largava-se no ar o balão de papel, movido a ar quente, que nem sempre subia bem alto, pois algumas vezes se incendiava logo à partida. No arraial, bailava-se alegremente e o petisco obrigatório eram sardinhas assadas, acompanhadas de batata cozida, salada de tomate e pimentos assados, bem regados com vinho tinto ou branco, à excepção dos miúdos que bebiam pirolito de berlinde. No ar uma indescritível mistura de aromas de sardinha assada, louro e manjerico. A festa, essa durava até ao raiar d'aurora.
A popularidade do culto antoniano levou o povo a recriar pequenos altares nas suas casas e a ter o Santo exposto em oratórios. A procura de imagens estará na origem do aparecimento da figura de Santo António na barrística popular estremocense. No acervo do Museu Municipal de Estremoz existem imagens que vão desde o século XVIII até à actualidade e com dimensões e atributos variáveis.
No exemplar aqui reproduzido, Santo António é representado em jovem e em pé, envergando um hábito franciscano e uma capa, ambos em castanho. O hábito tem mangas com punhos orlados a amarelo, que é também a cor da gola e da orla da capa. O hábito está cingido à cintura por um cordão igualmente amarelo, pendente a todo o comprimento do hábito. O Santo calça sandálias e está assente numa peanha oca que pretende imitar as de talha. Na mão esquerda, o Doutor da Igreja segura um livro no qual está sentado o Menino Jesus, que sobre o joelho esquerdo e com a mão esquerda segura a “esfera mundi”. Qualquer das imagens ostenta auréolas douradas, com linhas incisas que radiam do centro. A posição do braço direito do taumaturgo alvitra que a sua mão deve ter segurado um lírio ou um crucifixo, que conjuntamente com o livro e o Menino Jesus, são outros dos atributos deste Santo. De salientar que nesta imagem há elementos amovíveis (auréolas, Menino Jesus, Cruz e lírio), que eram retirados da imagem e guardados, até o devoto ver o ser desejo satisfeito. Daí que em muitas destas imagens faltem alguns destes elementos. A pressão sobre o Santo a fim de que produzisse milagres, ia ao ponto de alguns porem a sua imagem de castigo, virada para a parede, como outrora os mestres-escola procediam com os alunos cábulas. Em casos extremos, a imagem era posta de cabeça para baixo e até mesmo atada a um cordel e mergulhada num poço. Seria para o Santo refrescar as ideias e fazer o milagre pretendido? Vejam lá o extremo a que podia chegar a religiosidade popular…

(1) - O padre António Vieira pregou dois sermões sobre Santo António: um em Roma, na Igreja dos Portugueses, outro na Baía, na Igreja de Santo António. Vêm ambos na edição dos “Sermões” publicada em Lisboa no ano de 1855.

BIBLIOGRAFIA
[1] – ESPANCA, Túlio. Inventário Artístico de Portugal. Distrito de Évora. Concelhos de Arraiolos, Estremoz, Montemor-o-Novo, Mora e Vendas Novas. I volume. Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa, 1975.
[2] - GAMA, Estanislau Martins. Santos de Portugal. Edição de Luís G. Martins Gama. Estremoz, 1971.
[3] - PINHEIRO CHAGAS, M. Portugueses Ilustres. Lello e Irmão, Editores. Porto, 1983.
[4] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
Publicado inicialmente em 13 de Junho de 2011

sábado, 8 de junho de 2024

Hernâni Matos expõe acervo neo-realista no Museu Municipal de Estremoz



Integrada no Programa Comemorativo “50 anos em Liberdade: Comemorações do 50º Aniversário da Revolução de Abril de 1974”, terá lugar pelas 16 horas do próximo dia 15 de Junho, na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, a inauguração da exposição de artes plásticas NEO-REALISMO / MEMÓRIAS GUARDADAS / Colecção Hernâni Matos.

Na mostra estarão patentes ao público, 40 trabalhos de artistas plásticos neo-realistas, pertencentes ao acervo pessoal de artes plásticas do Professor Hernâni Matos, nosso colaborador e reconhecido recolector e investigador da Cultura Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril e Cerâmica Vidrada de Redondo.
Visando descortinar o que será o certame, procurámos entrevistar o expositor, que desde logo acedeu à nossa solicitação.
Ivone Carapeto

 

Porquê esta exposição?
Esta exposição teve uma génese imprevista, a qual passo a relatar. É sabido que frequento as redes sociais, onde com fins pedagógicos e com espírito de missão, publico diariamente, nunca se sabendo previamente qual é a “ementa do dia”. O ”cardápio” é variado: Bonecos de Estremoz, Olaria de Estremoz, Cerâmica de Redondo, Arte Pastoril Alentejana, Usos e Costume do Alentejo, Literatura de Tradição Oral e tudo aquilo que me enche as medidas e aquece a alma.
Acontece que houve um dia do passado recente, no qual alguém me confrontou, perguntando-me porque é que eu não fazia nenhuma exposição. É claro que a pessoa não me conhecia, porque de contrário saberia que desde os anos 80 do século passado, não tenho feito outra coisa, convidado ou por iniciativa própria. Estaria, decerto, a pensar em tempos mais recentes. Foi então que lhe disse que mais recentemente, em 2004 e 2012, por convite do então Director do Museu Municipal de Estremoz, Hugo Guerreiro, a minha colecção de Arte Pastoril esteve exposta na Sala de Exposições Temporárias (2004) e na Galeria Municipal Dom Dinis (2012).
De qualquer modo, sempre lhe disse que se fosse convidado, estaria disponível para corresponder. Certo dia, cruzei-me à entrada do Museu Municipal com a actual Directora, Isabel Borda d´Água, a quem dei conta da minha disponibilidade em expor Bonecos de Estremoz, Arte Pastoril e Arte Neo-realista, se houvesse interesse por parte do Museu. Houve e esta foi a génese da exposição.

Qual a razão da designação dada à exposição?
O título da exposição surgiu-me num ápice à flor do pensamento. Não poderia ser doutro modo. Isto por que as obras neo-realistas são, elas próprias, registos da realidade de uma época nos seus múltiplos aspectos: social, económico e político. Por outro lado, ao reunir um acervo pessoal dessas obras, tornei-me, eu próprio, um guardador de memórias.

Não se importa de explicar aos leitores em que consiste o neo-realismo?
Trata-se dum movimento filosófico, literário e artístico. O neo-realismo português manifesta-se pela primeira vez em meados dos anos 30 através de polémicas literárias surgidas nos jornais “O Diabo” e “Sol Nascente”, bem como na revista “Vértice”, que defendiam uma arte virada para os verdadeiros problemas da sociedade, entrando em ruptura com o que era preconizado pela revista “Presença”, a qual defendia uma literatura expurgada de ideologia e não comprometida socialmente e que ao contrário do neo-realismo dava mais importância à “forma” que ao “conteúdo”.
Tais polémicas são fruto do contexto político-social da década de 30: a oposição entre comunismo e fascismo, o fim da Guerra Civil Espanhola e o deflagrar da II Guerra Mundial. Surge assim uma nova geração de escritores motivados para a intervenção cívica e cultural, em consonância com os propósitos progressistas da esquerda política europeia.
Constitui-se então uma frente cultural de escritores e artistas plásticos, descontentes com a política cultural do regime totalitário e fascista de Salazar, a qual se assume como “Movimento Neo-realista Português”. Este afirma-se como representante e porta-voz dos anseios das classes trabalhadoras, retratando a realidade social e económica do país e empenhando-se na transformação das condições sociais do mesmo. Nesse sentido, foca-se no homem comum, procurando saber como vivem operários e camponeses. Aborda e aprofunda temas como as desigualdades sociais e a exploração do homem pelo homem. Escrutina as injustiças e analisa o modelo social vigente. Pugna pela elevação moral dos oprimidos e deposita esperança no futuro do Homem. É claro que a defesa de todos estes valores se processa nas condições mais duras de repressão, que incluem no mínimo a censura e a apreensão de obras de arte e publicações e no limite, a prisão, a tortura e a interdição do desempenho de cargos públicos.

Identifica-se com o neo-realismo? Em caso afirmativo, porquê?
O neo-realismo retrata uma época que abrange a minha infância e a minha juventude: No decurso desta última tive plena consciência das injustiças sociais e da repressão que se exercia sobre quem se rebelava. Foi o período em que se começou a consolidar a minha consciência cívica e também política, não só em casa, como na escola e na sociedade, por interacção com amigos mais velhos, alguns dos quais já tinham estado “dentro” e outros que não o tendo estado, a vida não lhes “corria às mil maravilhas”. Daí que me identifique com o neo-realismo, enquanto arte de resistência e bandeira de luta antifascista. Pois claro!

Em que consiste a exposição?
Trata-se de uma mostra de 40 trabalhos de artistas plásticos neo-realistas, os quais integram o meu acervo pessoal de artes plásticas.

Quais são os artistas plásticos representados?
Trata-se de um conjunto diversificado de pintores, desenhadores e gravadores, entre os quais se situam alguns dos mais representativos e direi mesmo icónicos criadores da 3ª geração modernista. Com a particularidade de, num certo período da sua vida e obra, terem integrado as fileiras do movimento neo-realista português. São eles: Jorge de Almeida Monteiro, Alice Jorge, Júlio Pomar, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Lima de Freitas, Júlio Resende, Manuel Ribeiro de Pavia, Cipriano Dourado, Aníbal Falcato Alves e Espiga Pinto. Para além deles, há a registar ainda a presença incomum de uma obra de António Cunhal, irmão mais velho de Álvaro Cunhal e por mim considerado um percursor do movimento.

Que variedades de artes plásticas estarão patentes ao público?
Os trabalhos expostos são de diferentes tipologias: desenho a grafite, desenho a tinta-da-China, guache, aguarela, técnica mista, serigrafia, linoleogravura, xilogravura, litografia, água forte e água tinta e colagem. De salientar, por um lado, a ausência de tipologias como a escultura, a cerâmica e a pintura a óleo ou acrílico, já que o valor de mercado das mesmas não é compatível com a minha capacidade financeira. De destacar igualmente, por outro lado, a predominância das várias tipologias de gravura artística, mais consentâneas com o meu poder de aquisição. Não foi por acaso que os neo-realistas viram na gravura artística, um meio privilegiado de tentativa de democratização da prática artística e de aproximação da arte do povo. Finalmente, apraz-me registar a presença na exposição de cinco trabalhos (2 xilogravuras e 3 colagens) da autoria do meu saudoso amigo Aníbal Falcato Alves.

O que é que o levou a reunir este conjunto de trabalhos de artistas plásticos neo-realistas?
Tanto quanto me lembro, sempre gostei de arte e a minha predisposição para o coleccionismo remonta aos 10 anos de idade. Todavia, há várias circunstâncias que estão na origem do presente acervo.
Em primeiro lugar, foi determinante a influência de Aníbal Falcato Alves, de quem me tornei amigo logo na minha juventude e que nos anos 60 do século XX me deu a conhecer a existência de uma arte de resistência e me falou doutros artistas com quem privava: Rogério Ribeiro, Manuel Ribeiro de Pavia e Cipriano Dourado. Foi ele também que me falou pela primeira vez da existência e importância da GRAVURA-Sociedade Portuguesa de Gravadores, bem como da relevância das Exposições Gerais de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes. De resto, foi nos anos 80-90 que reuni os trabalhos de Aníbal Falcato Alves que integram o meu acervo.
Em segundo lugar, foi igualmente decisivo ter conhecido Espiga Pinto na minha juventude, pois eu frequentava o Externato Liceal de São Joaquim e o pintor, seis anos mais velho do que eu, era professor de Desenho na Escola Industrial e Comercial, o que aconteceu no período 1960-1965. Foi a época em que deixou marcas da sua intervenção no Café Águias de Ouro, com trabalhos de forte registo etnográfico, que me fascinaram desde logo. Era presença habitual na Livraria e Papelaria Aníbal, a qual eu também frequentava. Todavia, só em 2018 comecei a adquirir trabalhos seus.
Em terceiro lugar, terei conhecido Rogério Ribeiro em 1977, data duma gravura com uma dedicatória do pintor. Mais tarde, em 1981, entrevistei-o para o jornal Brados do Alentejo e aí se falou de neo-realismo. Porém, só tive oportunidade de adquirir trabalhos seus, a partir igualmente de 2018.
Do exposto é fácil de concluir que me senti motivado a coleccionar, não só por me identificar com o tema “neo-realismo”, como também por uma questão afectiva e de admiração da obra daqueles artistas plásticos.
Entretanto, fui conhecendo a obra de outros pintores, desenhadores e gravadores, de tal modo que, sempre que me foi possível, fui acrescentando outros nomes ao meu acervo: Júlio Resende, Manuel Ribeiro de Pavia, Alice Jorge, Júlio Pomar, Querubim Lapa, Lima de Freitas e Jorge de Almeida Monteiro.

A divulgação da exposição tem por base o grafismo de uma mulher a apanhar a azeitona. Quer-nos explicar por quê?
Em primeiro lugar porque optei por associar o grafismo da exposição ao Alentejo, não só porque a mostra decorre nesta região, mas também e sobretudo porque os camponeses alentejanos foram dos principais protagonistas da arte e da literatura neo-realistas.
Em segundo lugar porque a actividade representada era uma prática corrente no Alentejo. A litografia representa uma mulher do povo, de cabeça coberta por um lenço, com avental de trabalho e descalça, o que indicia a sua condição de pobreza. Encontra-se junto a uma oliveira, dobrada sobre si própria e apanha azeitona caída da árvore. No tempo do fascismo havia quem por necessidade tivesse que “andar ao rabisco”, isto é, ir à apanha da azeitona caída no chão, uma vez que tivesse terminado a safra. Era uma actividade de subsistência e último recurso, praticada por quem vivia miseravelmente.
Em terceiro lugar escolhi uma litografia de Cipriano Dourado, pois na sua obra, independentemente da adversidade do contexto, sobressai sempre o encanto da feminilidade, resultado da delicadeza do seu traço.

Quer-nos falar do catálogo da exposição?
O catálogo é uma peça chave da exposição, a começar pelo grafismo centrado na camponesa alentejana que anda ao rabisco da azeitona. É uma imagem muito bela e ao mesmo tempo fortemente expressiva, já que dela transparece a miséria, a dureza e a precariedade da condição feminina no Alentejo de antanho.
O catálogo inventaria sequencialmente as obras expostas, cujas características técnicas estão identificadas e às quais está associado um número de ordem que corresponde igualmente à respectiva imagem no catálogo.
Simultaneamente, cada obra é acompanhada duma nota de fim, já que cada uma delas encerra em si uma estória que merece ser descodificada e revelada. É esse o papel do recolector, o qual se torna inescapavelmente um contador de estórias. Estórias plurais e multifacetadas que envolvem o relato do que está na génese da criação, a gesta do acto criador e o impacto que teve na comunidade.
Estórias que passam igualmente pelo relato do contexto da aquisição de cada obra, da identificação de anteriores proprietários, das particularidades das dedicatórias de autores e das estórias de vida de quem foi o destinatário da dedicatória.
O catálogo apresenta na abertura um texto da autoria do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, que muito me honra e valoriza o catálogo. Nas suas palavras, o Senhor Presidente reconhece o valor e o interesse de parte do meu acervo estar patente ao público, o que o levou a dar o seu aval no sentido da exposição de artes plásticas “NEO-REALISMO / MEMÓRIAS GUARDADAS / Colecção Hernâni Matos”, integrar as COMEMORAÇÕES "50 ANOS EM LIBERDADE: COMEMORAÇÕES DO 50° ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO DE ABRIL DE 1974”, promovidas pelo Município de Estremoz.
O catálogo insere igualmente com muito orgulho, o texto “O imaginário desceu à terra” da autoria de António Júlio Rebelo. Trata-se de um texto a partir do qual se torna difícil extrair excertos, já que com as suas sábias palavras, o nosso estimado filósofo erigiu um monumento de pensamento. De qualquer modo, com bastante modéstia, destaco e sublinho algumas passagens: “O neo-realismo mostra que é possível identificar a realidade e transcender a visão que o nosso olhar sonda, em silêncio, emocionado e doído.” E mais adiante: “Quem trouxe esse imaginário que desceu à terra? O nosso dedicado guardador de memórias, aquele que as colhe, guarda e protege, e que tem para connosco a bondade e o cuidado de as mostrar, confirmando que, segundo a melhor sabedoria ditada na história, o passado, o presente e o futuro são uma só verdade.” Já a finalizar: “Em nome da esperança, sigam com o melhor olhar que tenham a exposição que a todos é facultada.”

Que expectativas tem em relação à exposição?
As expectativas são naturalmente positivas. Em primeiro lugar, a curadoria da exposição é de Isabel Borda d’Água, Directora do Museu Municipal de Estremoz, que se tem mostrado inexcedível na preparação da exposição e na divulgação da mesma. Conta de resto com o apoio de uma equipa de montagem com provas dadas, importante naquilo que será o concretizar do “visual da exposição”.
Em segundo lugar, as iniciativas patrocinadas pelo Município, como é o caso, têm uma excelente divulgação, não só na imprensa escrita e falada, sobretudo a nível regional, como também nas redes sociais.
Em terceiro lugar e modéstia à parte, eu próprio constituirei um pólo de atracção da exposição, não só pela curiosidade suscitada pela vontade de conhecer o acervo por mim reunido, como acrescer o facto de no acto inaugural, eu próprio conduzir uma visita guiada à exposição. Por isso venham. Estão todos convidados. Parafraseando Zeca Afonso: - Venham e tragam outro amigo também!
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:.
Luís Mariano Guimarães

CIPRIANO DOURADO (1921-1981). Rabisco (1956). 
Litografia sobre papel 6/20. 42 x 35,5 cm (mancha).

ANTÓNIO CUNHAL (1910-1932). Semeador (s/d). 
Desenho a tinta-da-China sobre cartolina.
 25 x 16 cm (mancha).