quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Os xexés


Xexé (1921). Ilustração de Leal da Câmara (1876-1948). Capa da revista “ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA”, nº 781 de 5 de Fevereiro de 1921

Uma figura característica do Carnaval doutros tempos, pelo menos até ao primeiro quartel do século XX, era o “xexé”, caricatura do Portugal miguelista, caído em desgraça. O personagem foi retratado entre outros por José Malhoa (1895), Rafael Bordalo Pinheiro (1903), Augusto Bobone (antes de 1910) e Leal da Câmara (1921). O xéxé trajava uma casaca de seda colorida, calção e meia branca, sapatos de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um enorme chapéu bicorne, à moda de finais do séc. XVIII - séc XIX. Usava muitas vezes lunetas, andava armado com um grande facalhão de madeira e um cacete adornado com um chavelho. De acordo com o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” [2], “Xexé” é um substantivo masculino que designa “Personagem carnavalesco típico, caracterizado como um velho ridículo e senil”. Para este dicionário, o termo terá sido utilizado pela primeira vez no “Dicionário Contemporâneo de Língua Portuguesa”, de Caldas Aulete. Como refere a “Gíria Portugueza” [1], “Chéché” é um termo popular que designa “Mascarado repelente e ridículo, em Lisboa, que importuna os transeuntes pedindo “dez reisinhos p’r’o velho””. De acordo com o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” [2], “Xexé” é também um substantivo e adjectivo com os dois géneros, aplicável a “quem está desprovido de lucidez em decorrência de idade avançada”, sendo sinónimo de ”senil”, “caduco” e “gagá”. É ainda aplicável “àqueles que possuem comportamento ridículo ou estúpido”. Julgo que é neste último sentido, que o termo seja aplicável aos responsáveis políticos ao mais alto grau que:
- Se queixam-se que as suas reformas chorudas não chegam para as despesas pessoais;
- Chamam “piegas” àqueles que civicamente protestam pela dureza das condições de vida que lhes estão a ser impostas;
- Mandam os licenciados, mestres e doutores emigrarem, por cá não arranjarem emprego; 
- Mandam os militares sair das fileiras, quando estes protestam civicamente;
- Reformados da política, nos sugam dinheiro diariamente com as suas benesses vitalícias.
Perante um panorama sombrio deste quilate, apenas uma atitude é possível: o direito à indignação, acompanhado da legítima conclusão de que somos governados por “xéxés”. É caso para bradar bem alto:
- ACABEMOS COM ESTE CARNAVAL!

Publicado inicialmente a 15 de Dezembro de 2012

BIBLIOGRAFIA
[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho - Editor. Lisboa, 1901.
[2] – HOUAISS, António et al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.

Xexé (1895). José Malhoa (1855-1933). Óleo sobre tela (27,4 x 47,4 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa.

Xexé (1898), desfilando na Praça D. Pedro IV, em Lisboa. Fotógrafo não identificado.
Negativo de gelatina e prata em vidro (9 x 12 cm). Arquivo Fotográfico da Câmara
Municipal de Lisboa.

Xexé (1903). Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). Capa da revista “A PARÓDIA”,
nº5 de 18 de Fevereiro de 1903.

Xexé (anterior a 1910), desfilando na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Augusto Bobone
(1852-1910). Negativo de gelatina e prata em vidro (9 x 12 cm). Arquivo Fotográfico da
Câmara Municipal de Lisboa.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CARNAVAL DE ESTREMOZ: Oh tempo, volta para trás!


1 - Corso carnavalesco de 1919 na Praça Luís de Camões, onde ainda não existia o
passeio junto ao qual estacionam os táxis na actualidade. Na parte central ao fundo,
é visível a torre sineira da Igreja da Antiga Misericórdia, situada no local onde está
hoje sedeada a Sociedade Recreativa Popular Estremocense (Porta Nova).

Origem do Carnaval
O período de três dias que precedem a Quaresma é conhecido por Carnaval e nele decorrem alegres brincadeiras e festas populares, que assumem múltiplas formas.
Apontado por muitos como tendo uma remota origem pré-cristã, o Carnaval assumiu importância no séc. IV d.C., quando a Igreja Católica estabeleceu a Semana Santa antecedida dos quarenta dias da Quaresma. Um período de tão longa penitência e privações, incentivaria a realização de festas populares nos três dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma. Os três dias de Carnaval são conhecidos por dias gordos, especialmente a Terça-feira Gorda.
Carnavais com personalidade própria
O Carnaval é uma festa de âmbito planetário. Por esse mundo fora ocorrem Carnavais afamados como os de Veneza, Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleães e Rio de Janeiro. Cada um deles tem a sua identidade cultural intrínseca, forjada por vezes há mais de 100 anos e consolidada pelo tempo. São Carnavais com personalidade própria, que não têm necessidade de copiar outros Carnavais. Sem sombra de dúvida que o mais famoso de todos é o Carnaval do Rio de Janeiro, considerado a maior festa do mundo, que decorre durante 5 dias e se manifesta de múltiplas formas, das quais a mais mediática é o desfile das escolas de samba no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
Em Portugal são inúmeros os locais onde de modos variados é comemorado o Carnaval. Deles destaco os Carnavais de Lindoso, Podence, Lazarim, Cabanas de Viriato, Guimarães, Barcelos, Torres Vedras e Loures, por terem individualidade própria e não serem decalcados de outros.
A 1ª Batalha de Flores em Estremoz
Em Estremoz, a primeira notícia conhecida e referente à realização de um corso carnavalesco, remonta a Fevereiro de 1919, na sequência do final da I Grande Guerra Mundial, travada entre 28 de Julho de 1914 e 11 de Novembro de 1918. A seguir ao horror e à destruição daquele conflito europeu e entre muitas outras coisas, alteraram-se os padrões de vida. Daí não ser de estranhar a criação de um corso carnavalesco em Estremoz. Estava-se na ante porta dos loucos anos 20 e o corso assumiu a forma de uma “Batalha de flores”. Os carros, pertencentes a lavradores e a elementos da melhor sociedade de então, iam enfeitados com flores que deles eram também lançadas sobre a assistência que se encontrava ao longo do percurso, o qual é seguido ainda hoje. Tratou-se de uma batalha amigável em que os projécteis eram flores de cores variegadas e que perfumavam o ar.
O Orfeão e a revitalização do Carnaval de Estremoz
Após a criação em 1930 do Orfeão de Estremoz "Tomaz Alcaide", este chamou a si a iniciativa de promover corsos carnavalescos designados também por “Batalhas de flores”, integradas por carros alegóricos, grupos de cavaleiros, grupos de ciclistas, grupos de foliões e ranchos folclóricos do concelho. Os corsos eram abrilhantados pelas bandas locais, Sociedade Filarmónica Luzitana e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, as quais tocavam música portuguesa, assegurando a animação do evento. “Cabeçudos” e “gigantones” completavam o ramalhete de animação que percorria as ruas da parte baixa da cidade, previamente engalanadas.
O primeiro corso carnavalesco organizado pelo Orfeão teve lugar em 1935 e saldou-se por um assinalável êxito, não só pela participação da população, como pelo impacto junto de forasteiros que visitaram a cidade. O sucesso reeditou-se nos anos subsequentes até 1939, ano em que em 1 de Setembro teve início a II Guerra Mundial. Após o interregno causado pelo conflito bélico, o Orfeão retomou a organização dos corsos carnavalescos em Estremoz em 1951. O auge do Carnaval de Estremoz terá acontecido nos anos 50-60 do século passado. As flores já eram de papel e os projécteis eram papelinhos, serpentinas e saquinhos com serradura. Também apareciam saquinhos com areia e dalguns carros lançavam-se tremoços ou grão-de-bico e ocorriam também as inevitáveis farinhadas e bisnagadas. A música era bem portuguesa e havia foliões que em grupo ou individualmente fizeram História: Joaquim António Chouriço, José Gancho, João Mourinha, Padre-Santo, José Manuel Figo, Francisco Chouriço, José Albano França, Joaquim Viana, António José Martins (Costeleta), Ezequiel Chouriço e António Pegado (Pendão). Não deixavam o seu crédito por mãos alheias, quer encarnassem o papel de um personagem respeitável ou pelo contrário fossem caricaturalmente exagerados. Eram a elite vanguardista e bem disposta de um Carnaval bem português: o Carnaval de Estremoz. Isto no “Tempo da Outra Senhora”. 
Abrasileiramento do Carnaval de Estremoz
Com o eclodir da Guerra Colonial em 1961, os corsos carnavalescos viriam a ser interrompidos e só seriam retomados pontualmente em 1972 e 1973, graças à iniciativa particular de um grupo de foliões estremocenses. Fruto de múltiplas condicionantes, a organização dos corsos carnavalescos só seria retomada pelo Orfeão em 1993, ano em que para além daquilo que era tradicional no Carnaval de Estremoz, alguém teve a triste ideia de acrescentar “escolas de samba”. Foi o abrasileiramento do Carnaval de Estremoz, que fez com que este se abastardasse e que por isso constituiu um atentado histórico e social à sua identidade cultural local.
Actualmente, o Carnaval de Estremoz tem o samba como música de fundo, ao som da qual os blocos de marchantes “sacodem as pulgas”, enquanto no seu imaginário é projectado um filme em que se sentem bailarinos duma escola de samba. Foram obliterados pela colonização brasileira e sentem-se como passistas no Sambódromo da Marquês de Sapucaí no Rio de Janeiro, quando afinal estão no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz. Querer transformar as ruas de Estremoz em sambódromo é como em Lisboa, querer meter o Rossio na Rua da Betesga.
O samba, expressão privilegiada da cultura popular brasileira, música e dança alegre para quem as sente no corpo e na alma porque é brasileiro, faz tanto sentido no Carnaval de Estremoz como um elefante numa loja de cristais. Quem desfila por aqui ao som da aparelhagem sonora, não consegue transmitir a alegria nem tem o poder de comunicação dos marchantes cariocas. É uma tristeza. É como se Domingo e Terça-feira Gorda se tivessem transformado em Quarta-feira de Cinzas. O Carnaval de Estremoz é um arremedo do Carnaval carioca. Daí que seja legítimo questionar:
- Quem te manda a ti sapateiro, tocar rabecão?
No corso carnavalesco de Estremoz constata-se a ausência de qualquer tipo de crítica social ou política. Para além disso e pese embora o Carnaval ser um período propício a consumos proscritos durante a Quaresma, não é pedagógica e eticamente aceitável que marchantes consumam álcool durante o desfile, já que esse consumo pode transmitir a ideia errada que para haver alegria é preciso haver consumo de álcool.     
É Carnaval, ninguém leva a mal
Curiosamente, no desfile deste ano, o locutor de serviço proclamava de vez em quando:
- O Carnaval de Estremoz tem o apoio incondicional da Câmara Municipal de Estremoz!
Da minha parte só uma resposta é possível:
- É Carnaval. Ninguém leva a mal.

Hernâni Matos
Cronista do Jornal E, folião e tudo
Publicado inicialmente em 11 de Fevereiro de 2018
(Texto publicado no jornal E nº 194, de 22-02-2018)

CRÉDITOS DAS FOTOGRAFIAS
1 - Fotografia de Mendes Lopes – Jaime dos Santos. Arquivo de Hernâni Matos.
2,3,6,7 – Fotografias de Rogério de Carvalho (1915-1988). Arquivo do Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”.
4 - Fotografia de Manuel Gato (1908-1994). Arquivo de Hernâni Matos.
5 - Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988). Arquivo de Hernâni Matos.


  2 Corso carnavalesco de 1935. Carro alegórico da papelaria “A Tabaqueira”.

 3 - Corso carnavalesco de 1935. Carro alegórico de temática equestre frente ao
Quiosque Maniés.


4 - Anos 30 do séc. XX. Mascarados fazendo-se transportar numa Dona-elvira
descapotável e florida, com uma matrícula digna de figurar num vetusto
relicário. Ao fundo, o edifício do RC3 com uma cerca de tabuinhas,
no mesmo local onde hoje existe uma sebe de buxo.

 
 5 - Corso carnavalesco de 1951, frente ao edifício do extinto Círculo Estremocense,
sociedade recreativa frequentada pela alta sociedade da época e cuja criação
em 1850 foi autorizada por alvará régio de D. Pedro V.

6 -Corso carnavalesco de 1954. Grupo de “cabeçudos” e “gigantones”
junto ao Jardim Municipal. 

7 - Corso carnavalesco de 1957. Carro Alegórico do Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Cipriano Dourado e a apanha da azeitona

 

Rabisco. Litografia sobre papel 6/20. 42 x 35,5 cm. 1956.


Conjuntamente com a terra, a mulher é o tema dominante na obra de Cipriano Dourado (1921-1981), tanto no desenho, como na gravura ou na pintura. Nos seus trabalhos e independentemente da adversidade do contexto, sobressai sempre o encanto da feminilidade, resultado da delicadeza do seu traço.
No núcleo neo-realista do meu acervo pessoal de artes plásticas, tenho duas obras onde o artista aborda a apanha da azeitona.

Rabisco. Litografia sobre papel 6/20. 42 x 35,5 cm. 1956.
A litografia representa uma mulher do povo, de cabeça coberta por um lenço, com avental de trabalho e descalça, o que indicia a sua condição de pobreza. Encontra-se junto a uma oliveira, dobrada sobre si própria e apanha azeitona caída da árvore. No tempo do fascismo havia quem por necessidade tivesse que “andar ao rabisco”, isto é, ir à apanha da azeitona caída no chão, uma vez que tivesse terminado a safra. Era uma actividade de subsistência e último recurso, praticada por quem vivia miseravelmente. Nalgumas regiões era uma prática consentida pelos proprietários dos olivais, noutras não. Neste último caso, não era raro ver desgraçados entrar numa vila ou aldeia qualquer, à frente da guarda a cavalo. Como não tinham com que pagar a coima prevista, iam descansar as costas na prisão.
A litografia participou na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, a qual ocorreu entre 7 e 31 de Dezembro de 1957 nas salas de exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes em Lisboa. A tiragem da litografia foi de 20 exemplares e era vendida no local ao preço de 200$00 cada exemplar. Não foi editada pela GRAVURA, fundada no ano anterior, cujas tiragens eram na época de 100 exemplares e da qual Cipriano Dourado foi sócio fundador. Esta litografia fez parte da colecção do Eng. Frederico Marechal Spargo Pinheiro Chagas. Aquisição através de leiloeira.

Camponesa. Litografia sobre papel – prova de ensaio. 
45 x 33 cm. 1957.

Camponesa. Litografia sobre papel – prova de ensaio. 45 x 33 cm. 1957.
A litografia representa uma camponesa alentejana a colher azeitona de uma oliveira, a qual deposita no avental arregaçado. A cabeça encontra-se bem protegida por um lenço e as saias foram apanhadas em forma de calças, tal como usavam as ceifeiras. Aquisição feita a um antiquário. Litografia editada pela GRAVURA numa tiragem normal de 100 exemplares.

Cipriano Dourado (1921-1981)
Cipriano Dourado nasceu em 8 de Fevereiro de 1921 em Penhascoso (Mação). Em Lisboa, após frequentar a Escola Industrial Marquês de Pombal, inicia o seu percurso artístico como autodidacta. Com 14 anos, começou a trabalhar como desenhador-litógrafo e a perícia adquirida faz com que nas suas mãos, a litografia passe a ser gravura como arte maior.
O seu talento e vocação para as artes plásticas levaram-no a frequentar em 1939 a Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, como aluno do curso nocturno, iniciando a sua participação nas exposições com trabalhos a aguarela, pois a gravura não tinha ainda entrada em exposições oficiais. Nos Salões de Inverno da SNBA, onde a aguarela e o desenho tinham acesso, Cipriano Dourado participou em 1947, com trabalhos de aguarela que obtiveram o 2º prémio Roque Gameiro e uma menção honrosa.
Entre 1949 e 1956 participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, na qualidade de desenhador, pintor e gravador. Em 1953, participou no “Ciclo do arroz” e em 1956 foi um dos sócios fundadores da Gravura – Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses. Como ilustrador colaborou em publicações como Seara Nova, Vértice, Colóquio-Letras e ilustrou livros de Orlando Gonçalves, Armindo Rodrigues, Mário Braga, Augusto Gil e Antunes da Silva, entre outros.
Participou em inúmeras exposições, tanto em Portugal como no estrangeiro. Encontra-se representado em museus como: Museu Nacional de Arte Contemporânea (Lisboa), Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira) e outros, bem como em inúmeras colecções públicas e privadas.

Publicado inicialmente em 19 de Julho de 2025

Sebastião da Gama, presente!


No passado dia 7 de Fevereiro completaram-se sessenta e quatro anos sobre a morte de um estremocense adoptivo, muito estimado pela comunidade local e que a gadanha da morte ceifou prematuramente aos 28 anos de idade. Foi a 7 de Fevereiro de 1952 que morreu em Lisboa, o poeta, professor e pedagogo Sebastião da Gama (1924-1952), natural de Vila Nogueira de Azeitão, onde nasceu a 10 de Abril de 1924. Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947, ainda nesse ano iniciou a sua actividade de professor do Ensino Técnico, que exerceu em Lisboa, Setúbal e Estremoz.
Atingido pela tuberculose, a conselho médico foi viver para a Serra da Arrábida, que conjuntamente com a sua tragédia pessoal são temas principais da sua obra. Esta inclui: Serra-Mãe (poesia, 1945); Loas a Nossa Senhora da Arrábida (poesia, 1946); Cabo da Boa Esperança (poesia, 1947); O Segredo é Amar (prosa, compilação de Matilde Rosa Araújo, 1969); A Região dos Três Castelos (prosa, 1949); Campo Aberto (poesia, 1951); Pelo Sonho é que Vamos (poesia, 1953); Diário (1958); Itinerário Paralelo (poesia, compilação de David Mourão-Ferreira, 1967); Cartas I (1994). Foi ainda colaborador de jornais como O Setubalense e Brados do Alentejo, bem como de revistas como Árvore e Távola Redonda.
Em Estremoz, a sua prática pedagógica, fruto da sua rara sensibilidade, da sua personalidade e do seu carácter, deixou marcas profundas no coração dos alunos, que sempre o recordaram com saudade, pela sua extraordinária dimensão humana no convívio escolar.
Conheci o poeta na minha infância e dele falo na minha crónica ”Memórias do Espírito Santo”, datada de 2010: “No nº 2 – 2º morava o poeta Sebastião da Gama, natural de Azeitão e que viera para Estremoz em 1950, como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Estremoz e que estabeleceu uma forte ligação afectiva com a nossa cidade, patente nos seus Poemas e no seu Diário.
Sebastião da Gama sofria de tuberculose renal, diagnosticada muito cedo e tinha consciência que ia ter uma morte prematura, por isso amou a vida e a natureza intensamente, o que se reflectiu nos seus escritos.
A 5 de Fevereiro de 1952 deixaria para sempre o Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º, rumo ao Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Lembro-me desse fatídico dia 5 de Fevereiro de 1952, como se fosse hoje. Lembro-me de ele, meu vizinho, partir para uma viagem sem regresso.
Eu, hoje com 63 anos, um metro e noventa de altura e mais de cem quilos de peso, era um puto que usava bibe e andava numa Mestra, a Menina Teresinha, percursora das actuais Educadoras de Infância e que dava Escola no nº 1, nos baixos da Casa de Sebastião da Gama. Eu, que na época tinha veleidades ciclistas, andava de triciclo no passeio em frente da Casa de Sebastião da Gama, que me conhecia muitíssimo bem e que por vezes me fazia uma festa na cabeça, como se faz aos miúdos, sem maldade alguma.
Ainda guardo um desdobrável impresso a sépia com a sua foto e uma cabeça de Cristo crucificado, com poemas seus, que após a sua morte, foi oferecido aos amigos e aos vizinhos, em Sua Memória.
Hoje, estou aqui a falar dele e do Largo que ele tanto amava. Cinquenta e sete anos depois, é uma modesta, mas sentida evocação do puto ciclista que impunemente andava de triciclo frente à sua casa. E que ao contrário do que Veloso ouviu de Camões no Canto V dos Lusíadas, jura que nunca ouviu do Poeta o comentário. "Ouve lá, Hernâni amigo, este passeio é melhor de descer que de subir!".”
Presentemente já não ando de triciclo, mas sou um homem de caminhadas ou se preferirem um caminheiro da esperança, que se revê no profundo humanismo da obra que nos legou Sebastião da Gama. Daí que a terminar, cite o seu poema “O sonho”, incluído na obra póstuma ”Pelo Sonho é que Vamos”: “Pelo sonho é que vamos, / comovidos e mudos. / Chegamos? Não chegamos? / Haja ou não haja frutos, / pelo sonho é que vamos. // Basta a fé no que temos. / Basta a esperança naquilo / que talvez não teremos. / Basta que a alma demos, / com a mesma alegria, / ao que desconhecemos / e ao que é do dia a dia. // Chegamos? Não chegamos? // – Partimos. Vamos. Somos.”

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 11 de Fevereiro de 2016

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Bonecos de Estremoz: As Primaveras


Primavera de arco. Mariano da Conceição (1903-1959). Colecção Jorge da Conceição.

Na galeria dos Bonecos de Estremoz existem exemplares cuja origem remonta ao séc. XIX e das quais a designação consagrada pelo uso é a de “Primaveras”. Trata-se de uma designação genérica que abrange as chamadas “Primaveras de Arco”, as “Primaveras de Plumas” e as “Bailadeiras”. Trata-se de alegorias à estação do ano do mesmo nome, bem como à sua chegada. Todavia são mais do que isso. Desde tempos remotos que existem rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza. Tais ritos vieram a ser assimilados pela Igreja Católica que começou a comemorar o Entrudo. Referindo-se ao Entrudo de antigamente diz Xavier da Cunha (1) na revista OCCIDENTE, de 15 de Fevereiro de 1879: “Aquilo, sim, que era bom tempo! e fossem lá dizer-lhes que trocassem, a ver se queriam, pela desenxabida insipidez do carnaval d’hoje aquellas folgazãs intrudadas de que todos riam. Hoje de todos esses brinquedos, que passaram, restam apenas as decantadas danças de cavallões e marmanjos vestidos de pastorinhas a bailarem entre os costumados arquinhos de flores ao som do classico apito – elemento essencial da ordem no programma de toda aquella brincadeira”. Significa isto que em 1879, no desfile de Entrudo referido pelo articulista, supostamente decorrido em Lisboa, há a registar a presença de marmanjos (mariolas) vestidos de pastorinhas a bailarem com arcos de flores. Também na capa da revista “PARODIA – COMEDIA PORTUGUEZA”, nº 5, de 18 de Fevereiro de 1903 (2), o traço magistral de Raphael Bordalo Pinheiro retrata vários mascarados num salão particular. À esquerda, duas figuras supostamente de homens mascarados de figuras femininas, empunham um arco com flores. A finalizar e face ao exposto, julgo não ser despropositado concluir que as “Primaveras”, para além de constituírem uma alegoria à estação do mesmo nome, são também figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza. Como apontamento final desta nota de rodapé, saliento que no Museu Municipal Frédéric Blandin (Nevers-França) existem duas estatuetas em vidro do séc. XVIII, que são alegorias da Primavera. Trata-se de figuras masculina vestidas à antiga, uma com túnica e outra com saiote, que por cima da cabeça sustentam um arco de flores, símbolo da Primavera.

BIBLIOGRAFIA
(1) - CUNHA, Xavier. O Carnaval Português in OCCIDENTE, 2º ano, vol. II, nº 28, 15 de Fevereiro de 1879 (pág. 31 e 32). Lisboa, 1879.
(2) - PARODIA – COMEDIA PORTUGUEZA, nº 5, de 18 de Fevereiro de 1903 (pág. 1).
Hernâni Matos
Publicado inicialmente a 26 de Junho de 2014

Bailadeira grande. Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Bailadeira pequena. Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sou um actor


Como escritor, jornalista e bloger sou um actor. Represento o papel da minha própria vida. Esse e mais nenhum. Esse é o papel magno da minha carreira. Sou eu que escrevo o enredo e sou director de cena de mim mesmo. E cresço quando o silêncio se transmuta em palavras. Então sou maior do que eu, porque atinjo a dimensão de mim próprio.

Hernâni Matos
Publicado pela 1ª vez em 5 de Julho de 2013

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Estórias de um não caçador confesso

Rola.

Aos meus amigos do
Clube Literário Cinegético

O primeiro tiro
Vou procurar explicar tintim por tintim, qual a razão porque não sou caçador. Em primeiro lugar porque não fui bem sucedido no primeiro disparo, ocorrido aí pelos quinze anos de idade, já que por mau aconchego da coronha no ombro, assim que disparei, apanhei com ela nas ventas e fiz marcha atrás devido ao coice da espingarda. Foi um baptismo de fogo que me marcou para o resto da vida. Hoje, a minha consciência crítica interroga-se, perguntando:
- Quem te mandou a ti sapateiro, tocar rabecão?
Só no sétimo ano do Liceu, aí pelos dezoito anos, vim a perceber como funcionam a Física e a Matemática relativas ao disparo de uma arma de fogo e em particular, o facto de cada disparo ter associado a ele um recuo da arma, o qual na gíria dos caçadores é conhecido por “coice”. Trata-se de um fenómeno dinâmico que envolve a lei da igualdade da acção e da reacção e a lei da conservação da quantidade de movimento. Face à primeira daquelas leis, a qualquer acção de um corpo sobre outro corresponde uma reacção oposta e de grandeza igual à acção. Daí que à força propulsora que faz mover o chumbo de caça esteja associada uma força oposta associada à arma e daí o “coice”. Por outro lado face à segunda daquelas leis, num sistema isolado, a quantidade de movimento do sistema permanece constante. A quantidade de movimento de um sistema é o produto da massa pela velocidade. No nosso caso, o sistema é a espingarda com um cartucho lá dentro. Antes do disparo, a quantidade de movimento da espingarda com um cartucho lá dentro, é zero. Terá de ser o mesmo depois do disparo. Mas após este, o sistema separou-se em duas partes. Daí que a quantidade de movimento do chumbo expelido seja simétrica da quantidade de movimento da arma disparada.
O “coice” que me atingiu ocorreu no decurso de férias grandes passadas em casa do meu tio paterno, na aldeia da Cunheira, no concelho de Alter do Chão. O meu tio era um exímio caçador e assistiu ao infortúnio com a espingarda que me emprestara para eu dar o meu primeiro tiro. Como era um grande brincalhão, nesse dia à tarde submeteu-me à chacota dos frequentadores da taberna de que era proprietário e eu senti-me vexado com as chalaças do meu tio. Como eu o costumava acompanhar a ele e aos caçadores nos petiscos de fim de tarde, bebendo “traçadinhos”, nessa tarde inverti as proporções e usei mais vinho que pirolito de berlinde. O resultado está à vista. Tive que ir mais cedo para a cama e no outro dia de manhã acordei com a boca a saber-me a bicicletas partidas.
A espera às rolas
Noutro dia daquelas fatídicas férias o meu sempre bem disposto tio, levou-me com ele à caça às rolas na modalidade de “espera”. Para tal ficámos emboscados numa choça construída pelo meu tio com vegetação existente no local. O nosso quartel-general fora implantado pelo meu tio à distância julgada conveniente de uma nascente de água existente no meio do mato e onde as rolas iam beber no pino do calor. Todavia, apesar do engenho e arte do meu tio, tanto na construção da choça como pela experiência de tiro, as rolas tardavam em descer dos ares e não se iam dessedentar ao nascente. Intrigado com o que se estava a passar e que não era habitual, o meu tio saiu para fora da choça para avaliar melhor a situação. A conclusão a que chegou foi rápida. As rolas não se aproximavam da nascente, porque eu com quinze anos de idade, tinha um metro e setenta e cinco de altura e metade das pernas fora da choça, a denunciar a nossa presença às rolas. Nesse dia à tarde, fui outra vez alvo das graçolas do meu tio e das risadas dos caçadores. É que ele disse na taberna:
- Hoje fui às rolas e pela primeira vez apanhei uma “grade”. Sabem porquê? É que o meu sobrinho tem pernas de girafa e espantou as rolas.
Nessa tarde cheguei à conclusão que fora talhado para ser não caçador, pelo que fiquei com a cabeça fria. Bebi os traçadinhos com mais pirolito que vinho, deitei-me à hora normal e no dia seguinte acordei fresco que nem uma alface.
Daí que por mim, siga o adágio:
- Quem quer caça vai à praça.

Hernâni Matos 
Publicado inicialmente em 8 de Setembro de 2014