terça-feira, 23 de julho de 2024

Os Bonecos de Estremoz foram à Feira de Vila do Conde

 

Stand de Carlos Alberto Alves

Stand de Inocência Lopes

Stand de Maria Isabel Pires e de Sara Sapateiro

A Feira
Foi inaugurada no passado dia 20 de Julho a 46ª Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, a qual decorrerá nos Jardins da Avenida Júlio Graça e ali estará aberta ao público até ao próximo dia 4 de Agosto.
O evento é uma organização conjunta da Câmara Municipal de Vila do Conde e da Associação para Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde.
O prestigiado certame reúne duas centenas de artesãos nacionais que asseguram a cobertura geográfica do País e a presença dos mais diversos materiais e formas de expressão que afirmam a excelência do artesanato português.
Na 46ª edição da Feira participa como país convidado, São Tomé e Príncipe, cujas artes tradicionais estarão em destaque.

Embaixada estremocense
Na Feira deste ano participam como bonequeiros de Estremoz, os barristas Carlos Alberto Alves, Inocência Lopes, Maria Isabel Pires e Sara Sapateiro, que se inscreveram a título individual e se apresentam em stands próprios. De registar ainda a participação da ADOE-Associação Dinamizadora da Olaria de Estremoz, liderada por Inês Crujo. De salientar igualmente a participação de Mestre Xico Tarefa, o qual foi formador dos jovens que integram a ADOE e se encontra ali a defender a sua dama: a olaria redondense.
À excepção do barrista Carlos Alberto Alves que cumprirá o período integral da Feira, todos os demais terminarão a sua participação no próximo sábado, dia 27 de Julho.

Concursos da Feira
No decurso da Feira terá lugar a 2ª edição do “Concurso Jovem Artesão”, destinado a galardoar um trabalho numa das áreas do artesanato tradicional e que visa incentivar e dar destaque à criatividade dos jovens até aos 30 anos. A ele concorrem 29 jovens artesãos, entre os quais três jovens barristas de Estremoz: Sara Sapateiro (Presépio de altar), André Filipe Carriço Carvalho (O Mestre Oleiro) e Maria do Carmo Ramos Padeiro Baptista Crujo (O meu avô).
Será reeditado ainda o “Prémio Feira Nacional de Artesanato”, o qual procura dignificar o artesanato e incentivar a qualidade e a defesa de valores de raiz histórico-cultural. Subordinado ao tema “Liberdade”, este prémio visa assinalar os 50 anos da Revolução de Abril e a ele concorrem 63 artesãos, entre os quais o barrista Carlos Alberto Alves com a composição “Liberdade”, que representa um carro de combate em cima do qual figuram militares e povo, festejando o 25 de Abril.
Qualquer dos prémios tem o patrocínio do Crédito Agrícola e os trabalhos submetidos a concurso estarão expostos durante o certame.

Animação e gastronomia
Nem só de artesanato vive a Feira. A música, a dança e os cantares tradicionais são uma presença constante, que anima o recinto e o palco da Feira. Também as Jornadas Gastronómicas permitem aos visitantes percorrer o País de Norte a Sul, fazendo uma viagem pelo melhor da Cozinha Portuguesa e, nos dois primeiros dias do evento, pelos sabores da inconfundível cozinha de São Tomé e Príncipe.

Stand da Associação Dinamizadora da Olaria de Estremoz

Stand da Olaria de Mestre Xico Tarefa

segunda-feira, 22 de julho de 2024

No tempo em que não havia “Barbies”






BONECAS DE TRAPO
(Colecção Hernâni Matos)

No tempo em que não havia “Barbies”, as crianças brincavam com bonecas de pano, vulgo “bonecas de trapo”, feitas por uma mulher da Família, aproveitando retalhos de tecidos que tinham sobrado da confecção de peças de vestuário. Havia ainda a possibilidade de aproveitar peças de vestuário que tinham caído em desuso, porque estavam puídas, rotas, rasgadas ou desbotadas.

Com uma tal manufactura, a mulher da Família (mãe, avó, tia ou irmã) dava à criança a quem a boneca era destinada, três grandes lições:

- A primeira era uma lição de economia circular, já que havia o reaproveitamento de tecidos que havia sido abatidos ao serviço, mas que assim continuavam a ter préstimo. A criança ficava assim a perceber a importância do combate ao desperdício;

- A segunda era uma lição de amor, dada pela mulher da Família à criança que a recebia, o que contribuía para o reforço dos laços inter-geracionais;

- A terceira lição era uma lição de pedagogia. já que a dádiva constituía um incentivo ao brincar, actividade insubstituível na formação e socialização da criança.

Nem sempre o passado foi melhor que o presente, mas em muitos casos foi e há contextos que podem ser apontados como exemplos a seguir. É o caso das “bonecas de trapo”, aqui apresentado como paradigma.

 Hernâni Matos

domingo, 21 de julho de 2024

Os Bairros do Castelo e de Santiago em Estremoz, um levantamento de Rui Pimentel

 




Créditos fotográficos:
Maria Miguéns - Município de Estremoz

Este o título da exposição inaugurada ontem pelas 16 horas na Galeria Municipal D. Dinis em Estremoz e que ali estará patente ao público até ao próximo dia 15 de Setembro.

A mostra é constituída por um conjunto de fotografias e plantas arquitectónicas elaboradas pelo arquitecto Rui Pimentel do grupo CIDADE e visam estudar a zona que constitui o cerne que está na génese da cidade de Estremoz.

Ao acto inaugural, presidido pelo Presidente do Município José Daniel Sadio, compareceram cerca de duas dezenas de pessoas que ali se deslocaram atraídas pelo trabalho de Rui Pimentel, cuja actividade polifacetada transpôs há muito o domínio formal da arquitectura e se espraiou aos campos do design gráfico, cenografia para teatro, banda desenhada, ilustração, concepção de exposições, caricatura e cartoon.

Coube a Isabel Borda d’Água, directora do Museu Municipal de Estremoz, a apresentação do arquitecto Rui Pimentel, que de seguida explanou o trabalho efectuado. A finalizar, o Presidente do Município, José Daniel Sadio, agradeceu o trabalho do arquitecto Rui Pimentel e referiu-se aos desafios que se põem ao Município e às condicionantes a que este está sujeito. Verificaram-se ainda algumas intervenções por parte de alguns elementos do público, que não quiseram deixar de exprimir as suas opiniões pessoais acerca de toda a problemática suscitada pela presente exposição.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

FEIRA INTERNACIONAL DE ARTESANATO 2024 / Carlos Alberto Alves distinguido com Menção Honrosa

 

Cante alentejano. Carlos Alberto Alves. Menção Honrosa do Concurso de Artesanato
Tradicional da FIA 2024.

O barrista Carlos Alberto Alves após receber a Menção Honrosa que lhe foi
atribuída pela FIA 2024 pela produção da figura composta "Cante alentejano".


O barrista estremocense Carlos Alberto Alves foi distinguido com uma Menção Honrosa atribuída pelo Júri do Concurso de Artesanato da FIA - Feira Internacional de Artesanato, certame que decorreu em Lisboa, entre 29 de Junho e 7 de Julho.
A distinção do Júri ocorreu na modalidade de Artesanato Tradicional e incidiu sobre a figura composta do Figurado de Estremoz, designada por “Cante Alentejano”. O barrista está de parabéns e com ele a cidade de Estremoz, em cuja comunidade bonequeira se insere.

IMPORTÂNCIA DA FIA
A FIA Lisboa é a maior feira internacional de artesanato da Península Ibérica e a segunda maior da Europa. Tem a duração de 9 dias e 30.000 m2 de área exposicional de artesanato nacional, internacional, uma área da gastronomia e um cartaz musical diário. Na sua edição deste ano recebeu mais de 48 mil visitantes, o que representa um aumento de mais de 12% relativamente à edição anterior.
De salientar a elevada qualidade do artesanato nacional, que se fez representar por alguns dos mais reconhecidos artesãos do país, perfazendo um total de 240 expositores directos. De realçar também um aumento do número de expositores internacionais, bem como o número de países representados, que este ano contou com 30 nacionalidades.

ECOS DA DISTINÇÃO A NÍVEL LOCAL
A nível local, a comunidade regozijou-se com a distinção atribuída ao barrista Carlos Alberto Alves, parabenizando-o, sobretudo a nível das redes sociais. O mesmo se verificaria com a maioria dos seus pares.
A nível oficial, em comunicado de imprensa emitido no próprio dia da proclamação dos vencedores dos Prémios de Artesanato da FIA 2024, o Município de Estremoz congratulou-se com a atribuição da menção honrosa ao barrista Carlos Alberto Alves, a quem endereçou a seguinte mensagem: “Parabéns ao Carlos Alves e a Estremoz, por mais uma vez se ouvir falar na arte do Figurado de Estremoz, Património Cultural Imaterial da Humanidade.” Por sua vez, na sua página do Facebook, o Presidente do Município, José Daniel Sadio, reiterou esta mensagem, endereçando ao barrista “Muitos parabéns!!!”.

TRIBUTO AO MÉRITO
O reconhecimento do trabalho do barrista Carlos Alberto Alves há muito que transvasou a comunidade local. Tendo começado a produzir em 2012, foi através da Internet que comercializou a sua produção, o que fez até 2014, ano em por motivos pessoais interrompeu a actividade, a qual só retomaria em 2019 e que culminaria com a sua certificação pela ADERE-Certifica em Maio de 2021, como artesão produtor de Bonecos de Estremoz.
De então para cá, não se “encostou” à certificação, antes pelo contrário, sentiu-se estimulado no sentido de um maior aperfeiçoamento do seu trabalho em termos globais. São factos notórios para quem tem acompanhado a sua produção ao longo dos tempos. Daí que não me surpreenda a distinção concedida ao barrista, a qual encaro como um tributo ao mérito e que decerto o estimulará a não ficar por aqui.
Paralelamente, o barrista tem efectuado uma persistente e eficaz divulgação do seu trabalho através das redes sociais, a qual tem conduzido ao reconhecimento do seu trabalho pelos coleccionadores de todo o país, os quais se têm vindo a fidelizar como seus clientes.

BONECOS DE ESTREMOZ NA FIA
A participação de barristas de Estremoz na FIA remonta ao século passado, tendo a 1ª FIA ocorrido em 1986.
As participações mais antigas serão das Irmãs Flores, de Maria Luísa de Conceição e de Isabel Catarrilhas Pires. Esta última, participou pela última vez com stand próprio em 2004. Já Maria Luísa da Conceição fê-lo em 2014.
Jorge da Conceição participou com stand próprio na FIA em 2014, 2015, 2016 e 2018.
A participação na FIA com stand próprio possibilita a cada artesão a possibilidade de submeter a concurso, peças de sua autoria. Foi assim que Jorge da Conceição viu ser-lhe atribuído em 2014, o 1º Prémio de Artesanato Tradicional, à composição “Fado”, que representa uma fadista acompanhada à guitarra e à viola, numa casa de fados. Foi assim também que este barrista viu ser-lhe outorgada em 2016 uma Menção Honrosa à composição “Presépio – Adoração dos Reis Magos”. Foi o que fez igualmente Carlos Alberto Alves em 2024, o qual participou na FIA com stand próprio e submeteu a concurso a composição “Cante alentejano”, a qual seria recompensada pelo Júri com uma menção honrosa.

Fado. Jorge da Conceição. 1º Prémio do Concurso de Artesanato Tradicional da FIA 2014.

Presépio - Adoração dos Reis Magos. Jorge da Conceição. Menção Honrosa do Concurso
de Artesanato Tradicional da FIA 2016.

A participação de artesãos na FIA em stands colectivos inviabiliza a submissão de peças suas a concurso. Foi o que se passou em 2022 com os barristas Carlos Alberto Alves, Inocência Lopes, Irmãs Flores, José Carlos Rodrigues, Madalena Bilro e Ricardo Fonseca, os quais participaram na FIA, no stand colectivo do Município de Estremoz. Foi o que se passou igualmente em 2024 com os barristas Inocência Lopes, Irmãs Flores, José Carlos Rodrigues, Ricardo Fonseca e Vera Magalhães, qua participaram na FIA, no stand colectivo da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo.

RESULTADOS GLOBAIS DO CONCURSO DE ARTESANATO FIA LISBOA 2024
Os resultados do Concurso de Artesanato FIA – LISBOA 2024 foram divulgados ao fim da tarde do passado dia 4 de Julho, ao mesmo tempo que as peças premiadas passavam a estar expostas à entrada do Pavilhão 2. Quanto à entrega de Prémios teve lugar ao fim da tarde da passada 6ª feira, dia 5 de Julho, no Auditório FIA – Pavilhão 2.
As distinções atribuídas pelo Júri foram as seguintes: - No âmbito do Artesanato tradicional, o 1º Prémio foi atribuído a Fernando de Araújo Pereira (Alforge Tradicional Barrosão) e as Menções Honrosas a Marta Teixeira da Cruz (Colcha de Labirinto), Carlos Alberto Alves (Cante Alentejano) e Maria da Conceição Medeiros (Superação); - No domínio do Artesanato Contemporâneo, o 1º Prémio coube a Catarina Tudella (Albarrada) e as Menções Honrosas foram concedidas a Isabel Carneiro (Tiara da Deusa Grega Gaia), Telmo Roque (Faca para cogumelos Alcaide) e Teodolinda Semedo (Abeira).
O Júri foi integrado por: Leandro Coutinho (FPAO - Federação Portuguesa de Artes e Ofícios), Alexandre Oliveira (IEFP - Instituto Emprego e Formação Profissional), Rita Jerónimo (DGARTES - Direcção-Geral das Artes), Graça Ramos (Portugal à Mão), Teresa Costa e equipa (ADERE-Certifica), Luís Rocha (CEARTE - Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património).

O CONCURSO VISTO PELO JÚRI
Na óptica de Leandro Coutinho (FPAO), “Os Concursos de Artesanato Português da FIA Lisboa desempenham um papel crucial na valorização e preservação das atividades artesanais.
A FIA Lisboa não só celebra a riqueza cultural do nosso artesanato, mas também incentiva o desenvolvimento económico e social das comunidades artesanais, fortalecendo a identidade cultural e fomentando o orgulho nacional.”
Na opinião de Alexandre Oliveira (IEFP), “Participar como elemento do Júri nestes concursos de artesanato da FIA, tem sido para mim uma oportunidade única e enriquecedora para contactar com o melhor que o artesanato português produz, sendo uma ocasião especial para conhecer diretamente os artesãos, extraordinários mestres na perpetuação e desenvolvimento da arte popular e das tradições e cultura portuguesas.
Paralelamente esta participação acarreta sempre uma grande responsabilidade e uma grande constrição, porque é necessário escolher, de entre muitas participações excelentes, as peças que julgamos merecem os prémios de cada edição.”
Para Rita Jerónimo (DGArtes), “Os concursos de artesanato têm um importante papel no reconhecimento dos mestres artesãos, bem como na promoção e valorização de novos talentos. Enquanto membro júri, a participação da Direção Geral das Artes que tem atribuições nas artes performativas e outras expressões artísticas, alarga a sua vocação às artes e ofícios tradicionais, assumindo a sua contemporaneidade e importância.”
No entendimento de Graça Ramos (Portugal à Mão), “Como responsável por uma instituição que, há largos anos, trabalha no setor das artes e ofícios, vejo os Concursos de Artesanato da FIA Lisboa como um importante instrumento para a promoção e qualificação das artes e ofícios portugueses e para o envolvimento direto dos artesãos no processo de desenvolvimento, valorização e divulgação do setor.”
De acordo com Teresa Costa e equipa (ADERE-Certifica), “A equipa ACERTIFICA entende que o concurso de Artesanato promovido pela FIA, é por um lado um incentivo à criatividade dos artesãos, por outro lado um reconhecimento do seu trabalho, quer seja uma peça tradicional, quer seja contemporânea, dando notoriedade às suas produções. Participar é sempre o mais importante”-
Segundo Luís Rocha (CEARTE), “Os Prémios de Artesanato da FIA são um instrumento importante para valorizar, promover e celebrar os artesãos e o artesanato português.
Distingue, dos artesãos participantes na FIA, aqueles que se destacam pelas suas produções, sejam de natureza tradicional ou contemporânea, reconhecendo deste modo o exímio domínio do saber-fazer artesanal de que os artesãos são detentores, bem como, no contemporâneo, a sua capacidade para apresentar novas soluções, novos materiais e a conjugação do tradicional com a contemporaneidade.
Ao promover artesãos e o artesanato, contribui para a criação de valor a afirmação do valor patrimonial, cultural identitário, e económico do artesanato português.”

 Hernâni Matos

Publicado no jornal E, nº 339, de 19 de Julho de 2024

terça-feira, 16 de julho de 2024

Ceifeira adormecida - Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia


Ceifeira adormecida (1955). Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).
 Litografia sobre papel - prova nº 7. 26 x 36 cm (mancha).
Colecção Hernãni Matos

Ceifeira adormecida (1955). Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).
Litografia sobre papel 19/50. 26 x 36 cm (mancha).
Colecção Hernãni Matos.

No Alentejo de outros tempos, a colheita do trigo recorria à ceifa manual, actividade sazonal dificultada pelo rigor do clima. Ceifeiros e ceifeiras sentiam-no bem no corpo. O trabalho penoso e mal pago, realizava-se de “sol a sol”, interrompido apenas por refeições rápidas e frugais. A “bucha” ao pegar no trabalho, o “almoço” pelas 10 horas da manhã, o “jantar” sensivelmente pelas 2 da tarde, a que se seguia a “sesta” de duas horas para um retemperar de forças. A sesta ocorria à sombra de uma azinheira ou de molhos de trigo e durava até serem acordados pelo manajeiro. A faina prolongava-se até às 8 da noite, altura em que tinha lugar a “ceia”, a última refeição do dia, finda a qual trabalhavam até haver luz e o manajeiro dar a ordem de “solta”. Depois era o descanso nocturno, até ao nascer do sol do dia seguinte.

A sesta dos ceifeiros é um tema recorrente na arte portuguesa. Manuel Ribeiro de Pavia na litografia “Ceifeira adormecida” (Fig. 2 e Fig. 3) patenteia uma ceifeira a descansar, encostada a uma árvore e protegida pela sua sombra. Observe-se que a litografia é anterior à criação da GRAVURA - Sociedade Portuguesa de Gravadores (1956). A prova nº 7 da litografia “Ceifeira adormecida” (Fig. 1) é uma prova de cor com um cromatismo mais vivo que o trabalho final (Fig. 2), o qual teve uma tiragem de 50 exemplares cujo cromatismo é mais sóbrio.

José Malhoa (Fig. 3) no óleo sobre tela “A sesta dos ceifeiros” (1895), mostra um grupo de ceifeiros a descansar à sombra de uma árvore, a qual não aparece representada.

Dordio Gomes (Fig. 4) no óleo sobre tela “A sesta dos ceifeiros” (1918), representa ceifeiros a descansar, protegidos por molhos de trigo. 

 Hernâni Matos

Fig. 3 - A sesta dos ceifeiros (1885). José Malhoa (1855-1933). Óleo sobre tela (95 x 132 cm).
Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, Lisboa.

Fig. 4 - A sesta dos ceifeiros – Alentejo (1918). Dórdio Gomes (1890-1976).
Óleo sobre tela (74 x 59 cm). Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Sei que não vou por aí!


Foto de Almada Negreiros (1893-1970), na I Conferência Futurista, em Abril de 1917.

O respeito às raízes e à nossa matriz identidária, bem como a verticalidade de carácter, são o que há de mais importante nas nossas vidas.
Não se compram numa grande superfície, nem tão pouco se adquirem em qualquer retiro de avental. Têm a ver com os nossos genes, com o que aprendemos com os nossos pais e avós, bem como aquilo que partilhamos com os nossos companheiros de estrada. São eles os nossos melhores conselheiros. Com eles aprendemos a caminhar e a descobrir caminho, caminhando.
São marcas de quem nunca se rende e não prescinde da sua individualidade, tendo assumidamente a coragem de não se esconder comodamente atrás de um qualquer colectivo. Cartilhas há muitas, algumas das quais castram e subjugam o individual em nome dum colectivo que alguém supostamente mandatado e auto-predestinado, controla. Por mim e em nome da ânsia de liberdade que é meu timbre, sou levado a parafrasear José Régio no “Cântico Negro”:

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 15 de Julho de 2013

domingo, 14 de julho de 2024

Agente do FBI? Nem pensar!

 

Fotografia de Luís Dias.


Frequentador assíduo do Mercado da Velharias em Estremoz, sou considerado por muitos como fazendo parte da “mobília”. E não sou “cristão novo”! A minha fé no Mercado remonta aos tempos da sua criação.

Por ali tenho conhecido algumas das minhas maiores alegrias como coleccionador e tenho cimentado amizades sólidas e de respeito mútuo com muitos vendedores, com os quais tenho partilhado conhecimentos e com os quais também tenho aprendido muito.

Com Sebastião da Gama, partilho entre muitas outras coisas, a firme convicção de que o sábado é o melhor dia da semana. Por isso, nos sábados de manhã, o meu escritório é ali. Quem me quiser encontrar já sabe onde eu assento arraiais e cumpro os meus preceitos e rituais de coleccionador da velha guarda.

Foi no Mercado das Velharias que no passado dia 27 de Abril fui surpreendido pelo fotógrafo Luís Dias, o que me levou instintivamente a esboçar um sorriso com que iluminei aquilo a que os outros convencionaram chamar um “ar carrancudo”. Foi um sorriso parcialmente eclipsado pelas lentes fotocromáticas que me protegem dos ultravioletas.

Agente do FBI? Nem pensar?