quarta-feira, 20 de março de 2019

Começou a Primavera


Primavera (1917).
José Maria Veloso Salgado (1864-1945).
Óleo sobre tela (108 x 160 cm).
Museu Abade de Baçal, Bragança. 

A Primavera (do latim primus, primeiro, et tempus, tempo), é a estação do ano que sucede ao Inverno e antecede o Verão. Marca a renovação da natureza, sendo especialmente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.
Entre nós, a Primavera tem início a 20 de Março e termina a 20 de Junho. Inicia-se no equinócio de Março, em que o dia e a noite têm exactamente a mesma duração. A partir daí, a cada dia que passa, a duração dos dias aumenta e a das noites diminui. É uma estação que corresponde aos meses de Março, Abril, Maio e Junho. Caracteriza-se pelo abrandamento dos rigores do tempo verificados durante o Inverno, pela fusão das neves, assim como pelo brotar e pelo florescer das plantas. As árvores privadas das suas folhas no Outono, revivescem graças à acção de chuvas frequentes e de temperaturas amenas, proporcionadas por um sol mais presente que durante o Inverno.
Algumas árvores de fruto assinalam a sua actividade através do aparecimento de flores, que cobrem igualmente os campos, nos quais a erva tenra, regala o gado, liberto da dieta de feno ocorrida durante o inverno.
É nesta estação que devido a um aumento significativo do calor, despertem as espécies hibernantes e regressem as migratórias.
É escasso o adagiário português onde é utilizada explicitamente a palavra Primavera:
- Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.
- Dizem os antigos, gente rude e sincera: nunca passou por mau tempo a chuva da Primavera.
- Um dia de Outono vale por dois de Primavera.
- Como vires a Primavera, assim pelo al espera.
Na pintura portuguesa, a Primavera foi um tema abordado por mestres como: Silva Porto (1850-1893), Alfredo Keil (1854-1907), Veloso Salgado (1864-1945), José Malhoa (1855-1933) e Eduardo Malta (1900-1967). Nos seus quadros a natureza está verdejante, florida e por vezes regista-se a presença de graciosas figuras femininas, visando reforçar a alegoria.


 Primavera (1882).
António Carvalho de Silva Porto (1850-1893).
Óleo sobre madeira (37,2 x 55 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa.
Primavera (1882).
Alfredo Keil (1854-1907).
Óleo sobre tela (114 x 76 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa. 
Primavera (1932).
José Malhoa (1855-1933).
Óleo sobre tela (24,5 x 33, 5 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.  
Primavera (1933).
José Malhoa (1855-1933).
Pastel sobre papel (30 x 23 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha. 
A Primavera (séc. XX).
Eduardo Malta (1900-1967).
Óleo sobre tela (46,2 x 33 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.


Allegro do concerto para violino
 “Primavera" das “Quatro Estações”
 de Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741),
executado pela orquestra Filarmónica de Israel
sob a direcção do Maestro Itzhak Perlman.

sábado, 16 de março de 2019

HERNÂNI MATOS, PRESENTE!



Todos somos actores num palco, interpretando cada um o seu papel numa peça cuja encenação lhes escapa completamente.
Num dia, somos um megálito imponente e brilhante, pujante de força e de energia. No outro, somos uma massa informe, tombada e sem qualquer capacidade anímica. Tudo, fruto de uma viagem (in)escapável no túnel do espaço-tempo-energia que nos conduz do palco da Vida ao palco da Morte. Aconteceu recentemente comigo, conforme relato clínico. Todavia, a saudade da família e dos amigos, os deveres de escrita e o amor à Arte Popular, fizeram-me arrepiar caminho. Cá estou novamente para o que der e vier. É caso para dizer:

- HERNÂNI MATOS, PRESENTE!

1 de Março de 2019


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Vou-me embora, vou partir...



A hora da despedida não é fácil para ninguém. Não é de admirar que Pançamoz, emocionado pela partida, trauteie a conhecida moda alentejana:

Vou-me embora, vou partir mas tenho esperança
de correr o mundo inteiro, quero ir
quero ver e conhecer rosa branca
e a vida do marinheiro sem dormir

E a vida do marinheiro branca flor
que anda lutando no mar com talento
adeus adeus minha mãe, meu amor
eu hei-de ir hei-de voltar com o tempo

O ouvinte não deixará de questionar:
- E Frei Ramos?
E replicará de imediato:
- A ver vamos...

sábado, 26 de janeiro de 2019

Ante-Prefácio de Hernâni Matos ao seu livro "Bonecos de Estremoz"




Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.


António Gedeão (1906-1997)

in poema “Impressão Digital”


Este livro não é um livro de História dos Bonecos de Estremoz. Apesar disso, regista com rigor os principais marcos históricos da sua longa caminhada desde setecentos até aos dias de hoje. Fá-lo de uma forma não fastidiosa, procurando manter uma relação de cumplicidade afectiva com o leitor, para que este não deserte para outras paragens.
Este livro é um livro de estórias. Em primeiro lugar, estórias de vida dos barristas que dão vida aos bonecos. Em segundo lugar, as estórias que os bonecos nos contam, bem como as estórias que possamos urdir e que sejam pré-existentes aos bonecos por cuja génese foram responsáveis. Em terceiro lugar, as estórias de vida do autor, cujos escritos são uma simbiose de duas condições: a de coleccionador e a de investigador da arte popular alentejana. Trata-se de exercícios que pratica numa perspectiva polifacetada, predominantemente artística, antropológica e etnográfica. Se o conseguir também neste livro, tal facto será para si gratificante, pois mais importante que a posse de conhecimentos é a sua partilha com a comunidade, o que assegura a transmissão de saberes.
Tendo o autor exercido o magistério professoral durante 36 anos consecutivos, este livro reflecte as suas preocupações de não dissociar o rigor da escrita da clareza do texto e da motivação que cative o leitor.

Estremoz, Agosto de 2018




quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Apresentação do livro “Bonecos de Estremoz”, de Hernâni Matos



Texto lido por António Júlio Rebelo na sessão
“Bons filhos à casa tornam” que a 5 de Janeiro de 2019,
 teve lugar na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel em Estremoz,
para apresentação pública do  livro “Bonecos de Estremoz”, de Hernâni Matos.
Fotografia de Luís Mariano Guimarães.


Escrevi naquela ocasião, no prefácio, que este livro, “Bonecos de Estremoz”, era uma viagem. Agora venho reforçar esta ideia. Para isso, acrescento que essa viagem decorre de um olhar acerca daquilo que está escondido nos objetos materiais. Cada boneco – cada boneco de Estremoz para ser mais preciso – tem afinal uma vida, uma história que projeta o seu criador para o respetivo objeto criado. Dessa história feita de fragmentos vivos, damos conta de épocas e de lugares. É um fio de memórias que vem de longe, composto de episódios de cor e ânimo; um fio que é percurso longínquo e que, de repente, chega e apresenta-se, diz da história de uma terra e das pessoas que, desta configuração tão simples e criativa, a tem ao longo do tempo edificado. E essa terra é a nossa, Estremoz. Uma terra que, pela projeção feita de cada boneco seu, deve ser aberta ao mundo e partilhar com ele a arte, que sendo popular é tão nobre como as demais. Uma arte sentida e genuína, feita de muitos modos e vigores, imaginação e tentativas, e que se junta então a outras artes participando na construção daquilo que de melhor o humano pode ser. Por tudo isto, é mesmo de uma viagem que falamos.
Mas qualquer viagem tem, ou deve ter, sempre um guia. Há casos em que o guia poderemos ser nós próprios, sozinhos e esforçados; há outros casos, em que necessitamos de um guia que relate e detalhe, pesquise, descubra e ponha a claro. E que, sobretudo, não pare nessa descoberta da história humana materializada nos objetos que experimentamos no nosso sentir interior moldado por sensações. Seja a representação de atividades humanamente concretizadas, seja a representação da mera simbologia, o importante é que o escondido se mostre através da nossa sensibilidade nascida do ato de ver, do ato de tocar, mas igualmente do saber e do compreender. No caso presente, o guia da nossa viagem foi o Hernâni Matos, ele levou-nos história fora, por aí adiante até aos confins do quase impossível com uma paixão imensa e única que tem por Estremoz. Poucos o batem nessa alma grande. É o seu lado de investigador insatisfeito que permitiu trazer todos estes bonecos para a luz do dia, como que saídos da escuridão, tal Caverna de Platão. Os bonecos de Estremoz, vindos à claridade e tendo sido reconhecido o seu valor universal, são hoje a oportunidade para fazer de nós uma comunidade aberta ao mundo. Por tudo isto, é mesmo de uma viagem que falamos. 
Daqui, deste itinerário de procura que faço a teu lado, meu caro Hernâni – embora por outras andanças, é certo –, expresso-te uma singular gratidão e deixo-te um forte abraço de viajante.

António Júlio Rebelo
Estremoz, 2 de janeiro de 2019

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Alquimista e Templário




Há dias, alguém me perguntou com desdém:
- Então Hernâni, fizeste mais um livro?
É claro que eu não faço livros. Fazem-se filhos, mas livros não. Os livros nascem como as dores nas costas e as rugas, fruto do ciclo natural das coisas. Por vezes, a partir de quase coisa nenhuma. Todavia, o acumular de pequenas coisas, origina em certo momento um salto qualitativo e uma mudança de paradigma.
A procura incessante da Verdade, leva-nos a respigar, escavar, reciclar e destilar coisas, numa simbiose de Alquimista à procura da Pedra Filosofal e de um Templário em demanda do Santo Graal.
A procura da Verdade e, em particular, a reconstrução da Memória do Passado, é uma tarefa ciclópica, mas não é uma missão impossível, ainda que jamais venha a ter fim.
A procura da Verdade é um combate. Sempre que um combatente tomba, outros se levantarão com redobrado vigor, como elos duma cadeia que remonta aos tempos primordiais. Segundo reza a lenda, no acto de morrer, Spartacus terá proclamado:
- Voltarei e serei milhões!
A procura da Verdade é uma tarefa de espectro largo, que por um lado nos transporta do nível trivial do quotidiano, à profundidade das caganifâncias quânticas e, pelo outro nos catapulta à imensidão dos domínios astrofísicos.
A procura da Verdade será sempre uma missão que impomos a nós mesmos como livres pensadores. Haverá sempre momentos de encruzilhada, em que se formulará a inescapável pergunta de Lenine:
- Que fazer?
A única resposta possível é sugerida pelo poeta sevilhano António Machado:
……………………………..
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
………………………
Quando nos nasce um livro, o nado-vivo é o resultado de muitas caminhadas, muitas vezes acompanhado, mas a maioria das vezes sozinho. É esse o desafio. Caminhar sempre, sem parar.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

BONECOS DE ESTREMOZ: O que é o livro para mim




O meu livro chama-se ”Bonecos de Estremoz”. Sim, simplesmente “Bonecos de Estremoz”, com a mesma simplicidade que “Maria” é simplesmente “Maria” e “José” é simplesmente “José”.

Pelas suas dimensões de 27,5 cm x 27,5 cm, pelo peso de 1377 g, pelo número de páginas que é 180, pelo número de imagens que é 360 e pelo número de notas de rodapé que é 60, este livro é um livro XXXL. Outra coisa não seria de esperar da parte de um autor que astrologicamente é leão com ascendente de touro, que nasceu no pino do Verão, num dia grande de Agosto, neto de um homem chamado Manuel, cuja alcunha alentejana era o Alturas. E vejam lá que o bom do homem, tinha menos 15 cm que o neto. 

Este livro é um livro de amor aos Bonecos de Estremoz. Mas é igualmente e sobretudo um livro de respeito e admiração por todos os barristas do passado e do presente, sem excepção.

Este livro é o livro de horas do meu dia-a-dia. Foi lavrado e filigranado na mais rigorosa, ainda que voluntária clausura na cela monástica em que se tornou o meu escritório. Para trás ficaram as minhas incursões exploratórias ao Mercado das Velharias em Estremoz e às leiloeiras e aos alfarrabistas, tanto reais como virtuais.

Este livro foi uma longa caminhada. Como diria o poeta sevilhano António Machado (1875-1939):

……………………………..
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
………………………

Nessa longa caminhada, este livro é seguramente, mais uma etapa que liga pólos de romagem à barristica popular de Estremoz. Outros há que me falta visitar e entender.
Com o filósofo António Telmo aprendi que existe sempre um lado oculto das coisas, cuja codificação urge decifrar, visando a sua revelação para que, em nome da verdade, se faça luz. Este livro envolve assim, linhas ocultas de investigação, que a seu tempo terei oportunidade de partilhar convosco em edição futura.

É um livro para ficar, mas é também um livro para continuar, já que o autor não tem reumático intelectual e não é pessoa para se acomodar.

Parafraseando Luís Vaz de Camões na estrofe 155 do Canto X, direi que:

“Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.”

O meu fado é este: o de me cruzar com as linhas de força do espaço-tempo da barrística popular estremocense. Não sei se são aquelas linhas que convergem para mim ou se, porventura, sou eu que me dirijo para elas. O que sei é que vou por aí. É esse o meu sonho.

Parafraseando António Gedeão na Pedra Filosofal direi que:

“Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.”

A partir de agora, o meu livro é também o vosso livro. Tomai-o e partilhai-o, mas divulgai-o também como seus arautos, tal como Azinhal Abelho foi arauto da recuperação da extinta manufactura dos Bonecos de Estremoz.

De acordo com o Capítulo 2 do Génesis, Deus criou o homem e depois a mulher, para que o homem não vivesse sozinho e a partir daí pudesse viver em sociedade.
Como nos ensina Aristóteles em Política I, “O homem é um animal social” que necessita de coisas e de outras pessoas para alcançar a sua plenitude.
Significa isto que um homem sozinho não é ninguém.
Por isso, este livro para além de ser um livro de afectividades, é também um livro de cumplicidades. Ele não teria sido possível sem a colaboração de todos que comigo colaboraram desinteressadamente e cada um à sua maneira. Para eles são devidos agradecimentos:

  Ao professor José Carlos Cabaço Salema, director da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel de Estremoz, que desde 2012 e até ao presente me facultou o acesso ao Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, bem como às suas sucessoras.
 A António José Lopes Anselmo, presidente da Câmara Municipal de Borba, por me ter facultado a consulta, em Julho de 2018, do espólio documental do poeta Azinhal Abelho, adquirido pelo Município em 2007.
 Aos vendedores do Mercado das Velharias em Estremoz e às leiloeiras que ao longo dos anos têm procurado mitigar a minha fome e saciar a minha sede de Bonecos de Estremoz.
 Aos alfarrabistas e às leiloeiras que no decurso do tempo me têm alimentado com papel velho.
 Aos depoentes: Armando José Ruivo Alves (aluno de Mariano da Conceição), Rogério Peres Claro (Director da Escola Industrial e Comercial de Estremoz), José Manuel Silva Madeira (neto de Ana das Peles), Maria Leonor da Conceição Santos (filha de Sabina Santos e sobrinha de Mariano da Conceição) e Maria Margarida Barros de Queiroz Martins Mantero Morais (sobrinha-neta de Francisca Emília Guerra Vieira de Barros).
  Aos barristas: Irmãs Flores, Jorge Manuel da Conceição Palmela, Maria Luísa Banha da Conceição e Ricardo Jorge Moreira Fonseca, que me transmitiram muito do seu saber.
  A todos aqueles que me facultaram fotografias e são referidos nos créditos fotográficos.
 Ao director do Museu Municipal de Estremoz, Hugo Guerreiro, meu companheiro de estrada nestas andanças e com quem tenho partilhado informação.
 À directora da Biblioteca Municipal de Estremoz, Maria Helena Mourinha, pelo apoio prestado na consulta da imprensa periódica local.
 À directora do Arquivo Municipal de Estremoz, Paula Gonçalves, e às funcionárias Sílvia Arvana e Joaquina Babau, pelo apoio prestado na pesquisa documental.
 Ao director do Arquivo Distrital de Évora, Jorge Janeiro, e à funcionária Maria Célia Caeiro Malarranha, pelo apoio prestado na pesquisa documental.
 A todos os funcionários da Conservatória do Registo Civil, Predial, Comercial e Automóvel de Estremoz, pelo apoio prestado na pesquisa de documentos paroquiais e de registo civil.
 Ao Luís Mariano Guimarães, que desde 2012 fotografou, a meu pedido, Bonecos das colecções dos Museus Rural e Municipal de Estremoz, bem como exemplares da minha colecção particular e do pintor Armando Alves.
  À Francisca de Matos, que reviu o texto.
  Ao António Júlio Rebelo, que prefaciou o livro.
  Ao Armando Alves, que com mestria assumiu o design gráfico.
  E os últimos são os primeiros: ao Casino da Póvoa de Varzim, que custeou a edição do livro.
  Bem hajam.