sábado, 25 de julho de 2026

Uma carta fora do baralho


FIg. 1 - Lote de bonecos de Estremoz adquiridos por Jorge da Conceição no OLX.


Prólogo
Pode parecer um pouco estranho, intitular um texto de barrística de Estremoz, com uma bem conhecida frase idiomática, que aplicada a alguma coisa lhe confere conotação pejorativa por a depreciar. Todavia, a leitura do presente texto, revela que pode não ser assim.

Bonecos comprados no OLX
O barrista Jorge da Conceição colecciona Bonecos de Estremoz, confeccionados pelo avô Mariano da Conceição, pela avó Liberdade da Conceição e pela mãe Maria Luísa da Conceição. Recentemente adquiriu um lote de 3 Bonecos no OLX (Fig. 1), minutos antes de eu dar por eles. Tratava-se das bem conhecidas figuras “Mulher a lavar a roupa” e “Mulher a dobar” da autoria de seu avô e ostentando na base, a bem conhecida marca ESTREMOZ/PORTUGAL, inclinada [i] (Fig. 2). A eles há a acrescentar um terceiro Boneco (Fig. 4), o qual me foi dispensado por aquele barrista, visto não ser do seu interesse. Dele falarei mais adiante.

Produção de Bonecos de Estremoz na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
Os bonecos e as peças de olaria produzidos na Escola Industrial de António Augusto Gonçalves eram vendidos pela Escola, funcionando assim como receita da mesma. Os alunos da Escola recebiam por isso salário, de acordo com notícia do jornal Brados do Alentejo [ii], em 1935. Quando a Escola, designada Escola Industrial e Comercial de Estremoz desde 1948, transitou para o Castelo onde actualmente funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, os alunos continuaram a poder participar na manufactura de Bonecos de Estremoz para vender aos turistas. É o que nos diz o artigo “Primeiro passo: a estante” inserido no “Diário”19 da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, Ano I, nº 57, 28 de Março de 1954 [iii] (2): “Dentro de horas, será inaugurada, ao cimo da escadaria principal da Escola, uma estante. E logo dentro dela surgirão Bonecos de Estremoz, moringues e pucarinhos para vender aos visitantes da torre, que todos os dias são numerosos.
Assim se inicia a grande campanha de angariação de fundos para a compra do que à Escola faz falta, para ser completa a acção cultural e pedagógica.
Dentro de dias, serão convidados alunos de maior mérito artístico a dar a sua colaboração, fornecendo a Escola os materiais e pagando ainda, embora com pouco dinheiro, a mão de obra.
Conseguiremos assim, antes das férias grandes, um enorme sortido de lembranças que, enquanto estivermos a descansar, irão creando dinheiro para, quando voltarmos, então poder-mos dar início às nossas compras.
Mas podem haver outras ideias. Elas que venham, pois muitas cabeças a pensar será concerteza melhor do que uma só.”

A marcação dos Bonecos da Escola
Os Bonecos comercializados pela Escola, ostentavam a marca do carimbo “ESTREMOZ / PORTUGAL” (2 cm x 0,8 cm) (Fig. 3). Trata-se do carimbo mais usado por Mariano da Conceição. O carimbo, foi de resto utilizado por sua mulher Liberdade da Conceição, sua filha Maria Luísa da Conceição e seu neto, Jorge da Conceição. Como estes quatro membros do clã alfacinha usaram todos esta marca, só a tipologia de modelação e/ou de decoração, permite identificar o autor de um determinado boneco com a referida marca.
Mariano não terá usado em exclusivo o carimbo de que venho falando, já que no Museu Municipal de Estremoz existem exemplares da aquisição feita à Escola Industrial António Augusto Gonçalves em 1941, que ostentam a marca do citado carimbo e não apresentam as características da modelação de Mariano. Trata-se de figuras afeiçoadas por alunos e que eram também comercializadas pela Escola.

Um boneco singular
O terceiro Boneco (Fig. 4) é um exemplar que não pertence aos chamados “Bonecos da Tradição”, conjunto de cerca de 100 figuras que através dos tempos, têm sido produzidas pela maioria dos barristas.
Trata-se de um pastor de chapéu aguadeiro na cabeça, com a perna esquerda ajoelhada e a perda direita dobrada e assente no solo. Usa safões que lhe protegem as pernas e samarra que lhe protege o peito, as costas e o traseiro. À sua direita tem o cajado assente no solo. À frente tem um tarro com comida. A mão direita empunha uma colher e a mão esquerda apoia-se na perna direita.
Trata-se de uma figura extraída da parte de um todo que é lhe anterior, figura essa conhecida por “Maioral e ajuda a comer” [iv] (Fig. 6). Na base figura a marca manuscrita “Estremos / Portugal”.
Uma vez que esta figura integrava o lote adquirido pelo barrista Jorge da Conceição, na qual existiam dua figuras do seu avô, Mestre Mariano da Conceição, sou levado a admitir que possam ter sido adquiridas na Escola e esta última tenha sido produzida por um aluno. Não há dúvida que se trata de uma figura singular, já que o autor produziu um Boneco que não se integra no chamado conjunto dos Bonecos da Tradição, além de que pompeia manuscrita, a marca “Estremoz / Portugal”, o que é invulgar. Daí lhe termos atribuído o epíteto “Uma carta fora do baralho”, recorrendo a uma bem conhecida frase idiomática, que integra a gíria popular portuguesa.

Epílogo
O presente texto ficaria incompleto, se não se atribuísse um nome à figura que está na sua origem. Ora, uma vez que ela é uma parte da bem conhecida figura composta “Maioral e ajuda a comer”, julgo não ser despropositado chamar-lhe “Maioral a comer”.





[i] A inclinação da marca deve-se ao facto de ela ser obtida pela percussão de um carimbo, constituído por duas filas de caracteres tipográficos verticais, ligados por um fio que ao dar de si, permitiu que as letras da marca ficassem inclinadas.
[ii] Escola Industrial António Augusto Gonçalves in Brados do Alentejo nº 239, 25/08/1935. Estremoz, 1935 (pág. 1).
[iii] O “Diário” era dactilografado a preto e com títulos a vermelho, Os cabeçalhos eram desenhados pelos alunos com mais jeito para desenho. Em todos os cabeçalhos figurava do lado esquerdo, um carimbo batido a preto, que funcionava como logótipo da Escola. Nele figuram um moringue e um púcaro, simbolizando o Curso de Olaria. Aparecem ainda um picão, uma maceta e um escopro, simbolizando o Curso de Cantaria. O conjunto é completado por um ramo de uma planta não identificada, sendo encimado pela legenda “ESCOLA IND. E COMERC. DE ESTREMOZ”, ao longo de um círculo. As datas de publicação do Diário foram as seguintes: Ano I - nº 1 - 9/2/1954, até nº 103 -23/6/1954; Ano II - nº 1 -1/10/1954, até nº 194 - 18/6/1955.
[iv] Na “Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz” da extinta olaria Alfacinha, existe uma figura composta, designada por “Pastores a merendar”. A meu ver, trata-se de uma designação inadequada, já que a representação de dois pastores a comer, não permite concluir se eles estão ou não a merendar. Para além disso, aquela designação não traduz a existência de uma hierarquia entre eles. Daí, que a meu ver, a designação mais adequada para a composição seja “Maioral e ajuda a comer”.

Publicado em 2 de Janeiro de 1922

Fig. 2 - Marca de carimbo" ESTREMOZ / PORTUGAL", com as letras inclinadas.

Fig. 3 - Marca de carimbo" ESTREMOZ / PORTUGAL", com as letras na posição normal.


Fig. 4 - Maioral a comer.

Fig. 5 - Marca manuscrita "Estremos / Portugal".  


Fig. 6 - Maioral e ajuda a comer. Mariano da Conceição. Museu Rural de Estremoz.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Testamento dum franco-atirador



Hernâni Matos - O tempo que já lá vai...

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Numa tarde soalheira de Agosto, nasceu uma criança do sexo masculino, a quem foi dado o nome de Hernâni António Carmelo de Matos.
Hernâni António, por causa do Dr. Cidade, prestigiado literato da vizinha vila oleira do Redondo, o que configurando uma pré-cognição, terá correspondido a um empenho onomástico dos padrinhos, os quais terão apostado no sentido de o recém-nascido vir a ter queda para as letras, com especial interesse em falar de artefactos de barro, matéria prima que de acordo com o Génesis, terá sido usada por Deus, para modelar o primeiro homem. Mas António também, por inspiração onomástica do taumaturgo lisboeta e santo milagreiro, que entre inúmeros epítetos, teve o de “Oficina de Milagres”.
A criança de quem estou falando, sou eu e os meus pais foram João Sabino de Matos (alfaiate) e Selima Augusta Carmelo (telefonista). A eles devo o código genético, a criação e a educação, o que não foi pouco e por isso lhes estou agradecido.
Foi há 70 anos atrás, no dia 19, que rasguei o ventre a minha mãe, ao mesmo tempo que iniciava um monumental choro, forma instintiva de dizer:
- Porra! Já nasci!
Não fui enviado do Céu e tão pouco transportado por uma cegonha a partir de Paris. Nasci em Estremoz e isso é quanto basta.
Depois da Escola Primária, frequentei os bancos da Catequese, as formaturas da Mocidade Portuguesa e as aulas dum Colégio privado. Longe de constituírem ferretes e de me terem deixado estigmas, imunizaram-me contra tudo aquilo que representam. A fé cega, o espírito de obediência e o estatuto de casta com que me quiseram moldar, não resultaram. A fé foi substituída pela razão e pelo espírito científico. A obediência deu lugar à consciência crítica, à insubmissão e à ânsia de percorrer caminhos não pré-determinados. O estatuto de casta foi trocado pelos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, adoptados desde a Revolução Francesa, por todos aqueles que lutam contra a tirania e a opressão, em defesa da justiça e da solidariedade social. Daí que me tenha tornado laico e republicano. A isso não foi estranha a  candidatura do general Humberto Delgado em 1958, o convívio com velhos republicanos, a influência de alguns professores, a que se seguiu a participação nas lutas estudantis dos anos 60. Foram estes os ingredientes que me levaram a receber Abril de braços abertos.
Muito cedo percebi que tudo o que tem valor, não nos é dado, é fruto do nosso trabalho, do nosso esforço, da nossa dedicação. E aprendi a cultivar a amizade e a gostar de pessoas com carácter, que honram a palavra dada e lutam por ela. Pessoas com coluna vertebral, que não são vassalas de ninguém e respeitam a sua matriz identitária, em toda a sua plenitude. Pessoas que não se vendem, não se rendem e que sempre que as pretendem tombar, se levantam com redobrado vigor.
Tenho a escrita na massa do sangue como reflexo do pensamento dum espírito livre e insubmisso. A minha pena é o arado com que lavro as minhas crónicas de cidadania e os meus textos de intervenção cívica. Como franco-atirador, esse é o legado que deixo como testamento aos que me amam, a todos que me concederam o privilégio da sua amizade, bem como àqueles que se revêem nos meus textos, como guia prático para a acção. A nobreza de espírito assim o exige e é isso que aqui fica solenemente registado.

Publicado inicialmente em 20 de Agosto de 2016

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A génese da arte pastoril


COLHER EM MADEIRA - Artefacto de arte pastoril alentejana
da autoria de Joaquim Teodoro da Cruz. Orada, 1940.
Colecção Hernâni Matos.


Ao meu Amigo António Carmelo Aires,
distinto coleccionador de arte pastoril,
no dia do seu aniversário.

 

O Alentejo é terra de vagares. Na charneca, o tempo cresce e recresce para o pastor de ovelhas. Nesse contexto, os palpites de alma fazem das suas. Logo um impulso criador detona e pelas redes neuronais é transmitido às mãos calejadas. Estas manobram com destreza uma navalha afiada com a qual entalha, grava ou filigrana, o material nativo que recolheu na Terra Mãe, mesmo ali à mão de semear.

Com a magia dum alquimista, transmuta a madeira, a cortiça e o chifre, em autênticas Obras de Arte, graças a um nato saber-fazer, aliado a um refinado bom gosto, pautado por ideias ancestrais que lhe povoam a mente.

Cruzes, estrelas, flores, signo-saimões, hexafólios e corações, integram a simbologia, a maioria das vezes apotropaica ou mesmo sagrada, com que lavra a superfície dos materiais e que nos transmitem mensagens e estórias codificadas que o artífice compôs, visando homenagear o destinatário ou a destinatária da sua Obra: a conversada, a mulher amada, o patrão ou a patroa que lhe asseguram o ganha-pão.

Não se trata, pois, de artefactos confeccionados para matar o tempo, como alvitra a proclamação rifoneira: “Quem não tem que fazer, faz colheres”. Pelo contrário, são manufactos criados graças à generosidade do tempo que cresce e recresce nesta terra de vagares.

Publicado em 1 de Novembro de 2025

BORSAL - Estojo em cortiça para protecção do machado corticeiro. Autor desconhecido.
Colecção Hernâni Matos.

TABAQUEIRA EM CHIFRE E MADEIRA. Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).
Colecção Hernâni Matos.

ARTEFACTO BIFUNCIONAL - Constituído por uma carretilha e 3 chavões móveis
ao longo de uma argola circular. Colecção Hernâni Matos.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

No tempo em que não havia “Barbies”






BONECAS DE TRAPO A LENTEJANAS
(Colecção Hernâni Matos)

No tempo em que não havia “Barbies”, as crianças brincavam com bonecas de pano, vulgo “bonecas de trapo”, feitas por uma mulher da Família, aproveitando retalhos de tecidos que tinham sobrado da confecção de peças de vestuário. Havia ainda a possibilidade de aproveitar peças de vestuário que tinham caído em desuso, porque estavam puídas, rotas, rasgadas ou desbotadas.

Com uma tal manufactura, a mulher da Família (mãe, avó, tia ou irmã) dava à criança a quem a boneca era destinada, três grandes lições:

- A primeira era uma lição de economia circular, já que havia o reaproveitamento de tecidos que havia sido abatidos ao serviço, mas que assim continuavam a ter préstimo. A criança ficava assim a perceber a importância do combate ao desperdício;

- A segunda era uma lição de amor, dada pela mulher da Família à criança que a recebia, o que contribuía para o reforço dos laços inter-geracionais;

- A terceira lição era uma lição de pedagogia. já que a dádiva constituía um incentivo ao brincar, actividade insubstituível na formação e socialização da criança.

Nem sempre o passado foi melhor que o presente, mas em muitos casos foi e há contextos que podem ser apontados como exemplos a seguir. É o caso das “bonecas de trapo”, aqui apresentado como paradigma.

 Hernâni Matos 

Publicado inicialmente em 22 de Julho de 2024

terça-feira, 21 de julho de 2026

Acerca de Senhoras de pezinhos


Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves.

Dedicatória
O presente texto é dedicado a todos os barristas que frequentaram o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que em 2019 teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Tem por finalidade dar-lhes uma visão polifacetada duma figura que modelaram durante o Curso.
A sua publicação foi antecedida duma consulta ao barrista Jorge Conceição, Professor do Curso, visando a emissão de um parecer sobre o mesmo, não se desse o caso de inadvertidamente estar a defender pontos de vista contrários ao que foram ensinados no Curso.
O Professor Jorge Conceição emitiu um parecer, no qual após várias considerações, termina dizendo: Em resumo, acho o seu texto muito completo e uma mais-valia para todos os barristas terem como referência, quer os novos quer os antigos e não vai em nada contra o que ensinámos no curso. Acho igualmente que mesmo que alguma das características que refere não tenha sido aplicada em peças antigas, tudo o que descreve é parte dessa época e poderá perfeitamente ser usado na recriação de peças que se façam agora. 
Uma figura da tradição
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
É possível recuperar a figura da Senhora de pezinhos, reinterpretando-a através dos seus componentes, o que é possível concretizar de inúmeras maneiras.
Forma do vestido
A forma tronco-cónica da parte inferior do vestido, poderá ter maior ou menor inclinação em relação à horizontal. Em alternativa, poderá ser armada em forma de balão.
Fecho do vestido
O vestido poderá ser fechado à frente e abrir atrás, apresentando aqui uma abotoadura vertical.
Poderá igualmente abrir à frente e apresentar aqui a abotoadura vertical.
O vestido pode ser fechado até acima e poderá ter ou não gola ou coloarinho, os quais apresentarão abotoadura.
Poderá alternativamente apresentar decote de tamanho variável e de forma variável (circular ou quadrada).
Os ombros poderão ou não estar a descoberto.
Manga
O vestido poderá ter manga comprida com punhos, com ou sem abotoadura. Poderá ter manga curta, a qual poderá ser em balão. Poderá não ter manga por ter alças ou ser um cai cai.
Superfície do vestido
A superfície do vestido poderá ser lisa, plissada, apresentar folhos ou pode ser decorada com aquilo que configure renda ou aplicações em feltro.
Cor do vestido
Depois há a questão da cor do vestido, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
As cores são sempre muito importantes. O simbolismo das cores e dos elementos usados no padrão da roupa, são de ter em conta. As cores devem ligar umas com as outras e ser contrastantes para diferenciar os diferentes componentes da figura. A partir delas pode-se caracterizar a figura e dar-lhe alma. Só vida é que não.
Cintura
A cintura do vestido pode ser na posição normal ou situar-se logo abaixo do busto (Período Império: 1804-1813). Com a cintura na posição normal é possível cingir a cintura com uma fita atada atrás em forma de laço. A cintura pode igualmente ser cingida por um cinto com uma vistosa abotoadura ou fivela à frente ou atrás.
Cabeça da figura
A cabeça da Senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa ou por uma ou mais flores. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, folhas secas, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Mãos
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: luvas, leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e sombrinha.
As luvas compridas ficam bem se o vestido tiver manga curta ou for um vestido cai cai. Penso que no caso da modelação incluir uma sombrinha, esta deverá ter o cabo apoiado num dos pulsos e a sombrinha parcialmente embutida no vestido e apoiada no sapato ou no ar, mas nunca tocando no chão. Só assim não se violará o "dogma" do assentamento da Senhora se verificar apenas nos pezinhos e na parte de trás da saia.
Jóias
Se o vestido for decotado, fica bem uma jóia ao pescoço. Se o vestido não tiver mangas, fica bem uma pulseira no pulso.
A terminar
O presente texto corresponde a uma reflexão profunda da minha parte e simultaneamente procura rasgar horizontes aos novos barristas, dando-lhes conta que todos os que os antecederam procuraram sempre inovar e o fizeram. Lá diz o rifão “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Por isso é legítimo que os novos barristas também o façam. Se assim não fosse, se cada barrista não introduzisse marcas identitárias muito próprias, a barrística de Estremoz estaria morta. Tal não acontecerá se os barristas no seu todo continuarem a recusar-se integrar como que uma linha de montagem que se limita a reproduzir figuras que lhes são pré-existentes. É necessário que as reinterpretem a seu modo e simultaneamente modelem novas figuras. Alguns dirão que “Não é ao modo de Estremoz”. Não se preocupem, a barrística de Estremoz sempre teve os seus “velhos do Restelo” e decerto continuará a ter. Se Vasco da Gama se tivesse deixado atemorizar pelas profecias do velho do Restelo, nunca teria descoberto o Caminho Marítimo para a Índia. Em caso de dúvidas, consultem quem vos ensinou. Esse é o melhor caminho.  
Termino, formulando sinceros votos de que o presente texto seja da máxima utilidade aos novos barristas. Se assim for, isso será para mim bastante gratificante.
Publicado inicialmente em 21 de Julho de 2020

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor. 

 Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Jorge da Conceição. 

 Sabina da Conceição (1921-2005). Colecção do autor. 

José Moreira (1926-1991). Colecção do autor. 

Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção Jorge da Conceição.


Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Colecção do autor.

Ana Grilo (1974, -  ). Colecção do autor.

Luísa Batalha (1959, -  ). Colecção do autor.

Madalena Bilro (1959, -  ). Colecção do autor.

sábado, 18 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES

 

Miguel Serol Gomes na actualidade, no Atelier Memórias e Tradições,
em Monte Gordo.


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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Célia Freitas (Miguel Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

3 - MIGUEL SEROL GOMES (1957- )

Filho de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes (1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não eram compatíveis com a modelação do barro.

Na arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai, utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas em madeira e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.

Hernâni Matos

Cabaça colorida com anilina e lavrada com motivos geométricos,
com asa e tampa em madeira. 29 x 16 cm.

Cabaça escurecida com viochene e lavrada com motivos fitomórficos,
 com tampa em madeira e correia em couro para transporte. 45 x 12 cm.


Publicado no jornal E nº 384, de 17 de Julho de 2026

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Provérbios de Julho


Cena da Vida Rural. Alentejo, década de 40.
Fotografia de Artur Pastor (1922-1999).

- A jeira de Maio vale os bois e o carro, e a de Julho vale os bois e o jugo.
- Água de Julho no rio não faz barulho.
- Água de Julho, no rio não faz barulho.
- Água de Julho, no rio não faz barulho.
- Aí por Sant' Ana limpa a pragana.
- Aí por Santa Marinha vai ver tua vinha; qual a achares, tal a vindima.
- Aí por Santa Marinha vai ver tua vinha; tal a acharás, tal a vindimarás.
- Ao quinto dia verás que mês terás.
- Chuva de Julho que não faça barulho.
- Chuva de Julho, por Santa Marinha, vem com a cabacinha; por São Tiago traz o canado.
- Chuva de Julho, Sant'Ana vem com a cabacinha e Santiago traz o canado.
- Chuva de Julho: Santa Marinha vem com a cabacinha e S. Tiago com o canado.
- Chuva de Julho: Santa Marinha vem com a cabacinha e S. Tiago com o canado.
- Chuva de Santa Marinha vem com a cabacinha e pelo São Tiago traz o canado.
- Deus ajudando, vai em Julho mercando.
- Dezembro com Julho ao desafio traz Janeiro frio.
- Dia de São Tiago, pinta o bago.
- Dia de São Tiago, vai à vinha e acharás bago.
- Dia de São Tiago, vai à vinha e prova o bago.
- Em dia de São Tiago, vai à vinha e acharás baço.
- Em dia de São Tiago, vai à vinha e acharás bago.
- Em Julho abafadiço, fica a abelha no cortiço.
- Em Julho ceifo o trigo e debulho e, em o vento soprando, o vou limpando.
- Em Julho eu o ceifo e o debulho.
- Em Julho eu o ceifo e o debulho.
- Em Julho faz vasculho.
- Em Julho já há pouco gorgulho.
- Em Julho nunca a água do rio fez barulho.
- Em Julho tudo farás, só o teu verde não ceifarás.
- Em Julho tudo farás, só o teu verde não ceifarás.
- Em Julho, ao quinto dia verás que mês terás.
- Em Julho, ceifa o trigo e faz o debulho. E, em o vento soprando, vai-o limpando.
- Em Julho, ceifo o trigo e o debulho, e em o vento soprando o vou limpando.
- Em Julho, esperam-se à água.
- Em Julho, eu o ceifo e o debulho.
- Em Julho, foice na mão.
- Em Julho, prepara o vasculho.
- Em Julho, reina o gorgulho.
- Em Julho, tudo farás, só o teu verde não ceifarás.
- Em Junho, Julho e Agosto, senhora não sou vosso.
- Frio em Julho, abrasa em São Tiago.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar. Agosto engravelar, Setembro vindimar. Outubro revolver. Novembro semear. Dezembro nascer.
Janeiro gear. Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer. Junho ceifar, Julho debulhar, Agosto engravelar. Setembro vindimar, Outubro revolver. Novembro semear, Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Julho abafadiço, fica a abelha no cortiço.
- Julho abafadiço: abelhas no cortiço.
- Julho calmoso faz o ano formoso.
- Julho claro como olho de gado.
- Julho debulhar; Agosto engravelar.
- Julho é o mês das colheitas, Agosto é o mês das festas.
- Julho é o mês das colheitas, Agosto o mês das festas.
- Julho fresco, Invemo chuvoso, estio perigoso.
- Julho fresco, pouco vinho no teu copo.
- Julho passado sempre foi melhor.
- Julho pela manhã, recorre à lua figueira.
- Julho quente traz o Diabo no ventre.
- Julho quente, seco e ventoso, trabalha sem repouso.
- Julho sem pulgas no cão, vento norte e muito frio é sinal de pouco pão.
- Julho, ceifa-se o trigo e a debulha.
- Julho, debulhar.
- Julho, debulhar; Agosto, engravelar.
- Julho, o verde e o maduro.
- Junho, como punho; Julho, já fazem barulho; Agosto, mudam o rosto.
- Junho, Julho e Agosto, senhora não sou vosso.
- Junho, Julho, Agosto, senhora, não sou vosso.
- Luar de Janeiro, sol de Julho.
- Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar.
- Não há maior amigo do que Julho com seu trigo.
- Nevoeiro de S. Pedro, põe em Julho o vinho a medo.
- Não há maior amigo que Julho com seu trigo.
- Não há maior amigo que o Julho com seu trigo.
- Não há maior inimigo que Julho com seu trigo.
- Não há melhor amigo que Julho com o seu trigo.
- Nevoeiro de S. Pedro, põe em Julho o vinho a medo.
- Nevoeiro de São Pedro põe em Julho o vinho a medo.
- No dia de São Tiago, a velha vai ao bago.
- No São Tiago pinta o bago.
- O mês de Julho dá o pão e o gorgulho.
- Outubro, revolver; Novembro, semear; Dezembro, nasceu um Deus para nos salvar; Janeiro, gear; Fevereiro, chover; Março, encanar; Abril, espigar; Maio, engrandecer; Junho, ceifar; Julho, debulhar; Agosto, engravelar; Setembro, vindimar.
- Passado Julho, o celeiro atulho.
- Pela Madalena recorre à tua figueira.
- Pelo S. Tiago pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.
- Pelo São Tiago cada pingo vale um cruzado.
- Pelo São Tiago pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.
- Pelo São Tiago pinta o bago.
- Pelo São Tiago vai à vinha e apanha o bago.
- Pelo São Tiago vai à vinha e prova o bago.
- Pelo São Tiago, na vinha acharás bago; se não for maduro, será inchado.
- Por muito que Julho queira ser, pouco há-de chover.
- Por muito que queira Julho ser, pouco há-de chover.
- Por Sant’Ana limpa a pragana.
- Por Santa Maria vai ver a tua vinha e qual a achares tal a vindima.
- Por Santa Maria vai ver a tua vinha.
- Por Santa Marinha visita a tua vinha; tal a acharás, tal vindima farás.
- Por São Tiago na vinha pinta o bago.
- Por São Tiago, vai à vinha e acharás bago.
- Por todo o mês de Julho, o celeiro atulho.
- Quando Julho está a começar, as cegonhas começam a voar.
- Quem em Julho ara e fia, ouro cria.
- Quem trabalha em Julho, para si trabalha.
- Se Julho for abafadiço, fica a abelha no cortiço.

Publicado inicialmente em 3 de Julho de 2010