terça-feira, 27 de setembro de 2022

Esta é a estória de ser coleccionador



Ando sempre à "coca" de coisas que povoam o meu imaginário. Nessas andanças descubro também, coisas que nunca me passou pela cabeça que pudessem existir e outras que jamais pensei que pudessem vir até mim. Sim, porque por vezes, as coisas vêm até mim, sem as procurar. É como se eu as atraísse e há coisas a que de modo algum consigo resistir..
Tenho o coleccionismo na massa do sangue. Sou geneticamente um coleccionador e cumulativamente um contador de estórias, não só de estórias reais, mas também das estórias que as coisas me contam sobre os segredos que a sua existência encerra. Bom e há ainda também as estórias que eu invento, que me nascem, florescem e frutificam na cabeça. São estórias e mais estórias...

domingo, 25 de setembro de 2022

Isabel Pires e a Alegoria do Outono

 

Alegoria do Outono (2018). Isabel Pires (1955-  ).

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Folhas secas e frutos maduros
O Outono é a estação do ano compreendida entre o Verão e o Inverno, que corresponde entre nós, aos meses de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro. Caracteriza-se por um declínio gradual da temperatura e é marcada por tempo chuvoso, ventoso e pouco ensolarado.
Uma das características principais da estação é a mudança da coloração das folhagens das árvores, que passam a apresentar tons amarelados e avermelhados e caem. O Outono é assim a estação da libertação que abre as portas a uma futura renovação na Primavera seguinte.
No Outono, os frutos já estão maduros e começam a cair no chão, pelo que têm lugar as colheitas das culturas de Verão (milho, girassol, etc.), de muitos tipos de frutos (uvas, maçãs, peras, marmelos, etc.) e de frutas secas (castanhas, nozes, avelãs, etc.).

O Outono na Tradição Oral
As colheitas de Outono estão presentes na tradição oral. Em particular, no CANCIONEIRO POPULAR, que põe os meses a falar: “Eu sou o Setembro / Que tudo recolho, / Trigos e milhos, / Palhas e restolho.” e “Eu sou o Outubro, / O mês dos Outonos, / Engrosso as terras / Proveito dos donos.”.
As colheitas de Outono estão igualmente presentes no ADAGIÁRIO. Relativamente a Setembro, o adagiário regista que “Agosto amadura, Setembro derruba” e “Em Setembro, colhendo e comendo”, mas recomenda: “Para vindimar deixa Setembro acabar”. Para além disso, afirma que: “Pelo São Miguel (29/09) os figos são mel” e “Setembro que enche o celeiro, salva o rendeiro”.
No que respeita a Outubro, o adagiário proclama que “Outubro sisudo colhe tudo” e pormenoriza algumas dessas colheitas: - Milho e feijão: “Em Outubro não fies só lã; recolhe o teu milho e o teu feijão, senão de Inverno tens a tua barriga em vão”; - Castanha: “Pelo São Simão (28/10), quem não faz um magusto, não é cristão”; - Fava: “Por São Simão (28/10), fava na mão” - Uva: “ Por São Lucas (18/10) bem sabem as uvas” e “Por São Simão e São Judas (28/10), colhidas são as uvas”.

Referências poéticas
A temática do Outono tem sido abordada por muitos poetas portugueses. Do Outono nos fala Fernando Pessoa[i] no poema “No entardecer da terra”[ii] : “No entardecer da terra / O sopro do longo Outono / Amareleceu o chão. / Um vago vento erra, / Como um sonho mau num sono, / Na lívida solidão.  (…)
Do Outono fala também Florbela Espanca[iii] no soneto “Outonal”[iv]: (…) / “Outono dos crepúsculos doirados, / De púrpuras, damascos e brocados! / - Vestes a terra inteira de esplendor!” (…). No soneto “Ruínas” [v] acrescenta: “Se é sempre Outono o rir das Primaveras, / Castelos, um a um, deixa-os cair... / Que a vida é um constante derruir / De palácios do Reino das Quimeras!” (…).
Do Outono nos fala ainda Miguel Torga [vi]  no poema homónimo: “ Tarde pintada / Por não sei que pintor. / Nunca vi tanta cor / Tão colorida! / Se é de morte ou de vida, / Não é comigo. / Eu, simplesmente, digo / Que há tanta fantasia / Neste dia, / Que o mundo me parece / Vestido por ciganas adivinhas, / E que gosto de o ver, e me apetece / Ter folhas, como as vinhas.”

Alegorias do Outono na Pintura
Em Portugal, pintores como Columbano Bordalo Pinheiro[vii] e José Malhoa[viii], entre outros, utilizaram as características do Outono atrás referidas ao criarem composições alegóricas desta estação do ano.
Essas mesmas características constituem o tema central de telas criadas por grandes nomes da pintura universal, dos quais destaco cronologicamente: Francesco del Cossa[ix], Giuseppe Arcimboldo[x], Pieter Pauwel Rubens[xi], Nicolas Poussin[xii], Rosalba Carriera[xiii], Jacob van Strij[xiv],  Jacob Cats[xv] , Jean-François Millet[xvi] e Frederic Edwin Church[xvii].

Alegoria do Outono na Barrística de Estremoz
Na Barrística de Estremoz, existem exemplares designados genericamente por Primaveras, cuja característica principal é ostentarem um arco com flores apoiado nos ombros e circundando a cabeça. A origem de tais Bonecos remonta pelo menos ao séc. XIX. Para além de serem figuras de Entrudo, são alegorias à estação homónima, que evocam remotos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, os quais vieram a ser assimilados pela Igreja Católica, que começou a comemorar o Entrudo.
O ano tem quatro estações, pelo que faz sentido existirem alegorias para todas elas. Foi o que pensou a barrista Isabel Pires que criou alegorias para as estações em falta. O presente texto tem por finalidade analisar a Alegoria do Outono de Isabel Pires.

Morfologia da figura
Formalmente e em termos morfológicos a Alegoria do Outono é semelhante à de alguns modelos de Primavera. Assim: 1 - Ostenta um arco ornamentado com o que simula serem folhas secas de uma planta indeterminada e parras secas repartidas em lóbulos pontiagudos que configuram estrelas, tal como o arco da Primavera está enfeitado com flores; 2 - Segura numa das mãos um cacho de uvas e na outra, um cabaz de vime com os frutos da época: diospiros, romãs, marmelos, castanhas, nozes, uvas. Existe aqui uma analogia com o que se passa nalguns modelos de Primavera, que sustentam uma cornucópia numa das mãos e na outra um ramalhete de flores; 3 - A cabeça está adornada com uma grinalda de folhas secas, tal como a cabeça da Primavera pode estar ataviada com plumas, toucados ou chapéus.
Para além destas analogias formais entre a Alegoria do Outono de Isabel Pires e certos modelos de Alegorias das Primavera, há a salientar que a Alegoria do Outono: 1 - Traja um vestido rodado em tom de Bordeaux, com gola verde de inspiração vegetalista e orla bicolor verde-amarela, cores que para além do Bordeaux são igualmente cores de folhas. As mangas do vestido estão decoradas com um fileira de folhas secas dispostas no sentido longitudinal. Uma guirlanda de folhas secas desce do ombro esquerdo em direcção ao cesto e ali se bifurca em duas guirlandas que seguem em direcção à orla do vestido, donde pendem parcialmente; 2 – Calça meias brancas e botas de cor Bordeaux. Estas têm a extremidade do cano com uma orla verde de inspiração vegetalista, da qual pendem folhas secas de cor Bordeaux e amarelo acastanhado; 3 - Assenta numa base circular de cor verde, orlada no topo com girassóis; 4 – O rosto está muito bem definido e é revelador do tratamento fortemente naturalista que a barrista imprime às suas criações. De salientar que os brincos pendentes das orelhas configuram duas folhas, de cor amarela.

Cromatismo da figura
Sob um ponto de vista cromático são dominantes os tons de Bordeaux e de amarelo, característicos das folhas secas e da fruta da época.

Simbolismo da Alegoria
Em termos simbólicos, a Alegoria do Outono, tal como a Alegoria da Primavera, está ligada à renovação da natureza. Assenta numa base verde, cor que simboliza a esperança e a renovação, aqui associadas ao Outono. As parras secas que ornamentam a composição, configuram estrelas, fontes de luz associadas ao simbolismo celeste, nomeadamente a esperança e a renovação. Os girassóis que ornamentam a base, dada a sua mobilidade em relação ao Sol, são um símbolo de instabilidade, aqui associado ao fluir da natureza e à sucessão cíclica das estações do ano.

Epílogo
O Outono é a estação das frutas, das folhas secas, da renovação. É o Inverno que se avizinha. Mas no dizer de Albert Camus[xviii], “Outono é outra Primavera, cada folha uma flor.”. Essa a intuição e também a convicção de Isabel Pires, que teve a sagacidade de criar uma Alegoria do Outono ou melhor, a primeira Alegoria do Outono na Barrística de Estremoz. Para além da qualidade da execução e da criatividade, pelo seu pioneirismo é merecedora de toda a nossa admiração, o que aqui registo e sublinho.
 
BIBLIOGRAFIA
ESPANCA, Florbela. Charneca em Flor. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
ESPANCA, Florbela. Livro de Máguas - Soror Saudade. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
EVANGELISTA, Júlio. Cantares de todo o ano. Colecção Educativa – Série F – N.º 6. Campanha Nacional de Educação de Adultos. Lisboa, s/d.
PESSOA, Fernando. No entardecer da terra in Ilustração Portuguesa , 2ª série, nº 83. Lisboa, 28-1-1922.
TORGA, Miguel. Diário X. Edição do autor. Coimbra, 1968.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 7 de Novembro de 1920

[i] Fernando Pessoa (1888-1935). 
[ii] Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922.
[iii] Florbela Espanca (1894-1932).
[iv] De “Charneca em Flor”.
[v] De “Livro de Máguas - Soror Saudade”.
[vi] De “Diário X”.
[vii] Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929, pintor naturalista e realista.
[viii] José Malhoa (1855-1933), pintor naturalista.
[ix] Francesco del Cossa (c. 1435-c. 1477), pintor italiano, renascentista.
[x] Giuseppe Arcimboldo (1526-1593), pintor italiano, maneirista.
[xi] Pieter Pauwel Rubens (1577-1640), pintor flamengo, barroco.
[xii] Nicolas Poussin (1594-1665), pintor francês, barroco.
[xiii] Rosalba Carriera (1675-1757), pintora italiana, barroca.
[xiv] Jacob van Strij (1756-1815), pintor holandês, barroco.
[xv] Jacob Cats (1741-1799), pintor holandês, rócócó.
[xvi] Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês, realista.
[xvii] Frederic Edwin Church (1826-1900), pintor americano, romântico.
[xviii] Albert Camus (1913-1960), escritor franco-argelino.
 


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Hoje há perdiz


Prato covo, de grandes dimensões (40 x 28 x 10 cm), de aba larga, ligeiramente
côncava.  Decoração esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia
verde-amarelo-- ocre castanho, sobre fundo amarelo palha. Olaria e decorador
desconhecidos. 1ª metade do séc. XX.
 
Ao meu amigo António Carmelo Aires,
afamado caçador, reputado gastrónomo
e ilustre investigador da cerâmica de Redondo.

Entradas
A afirmação que escolhi como título do presente escrito tem um triplo alcance.
Por um lado, o prato que foi objecto da minha atenção e estudo, ostenta no fundo uma perdiz como elemento decorativo principal.
Em segundo lugar, porque da visualização do mesmo ressalta a existência de marcas de uso que a lavagem não conseguiu remover. São elas as falhas de vidrado e a patine conferida pela gordura nela entranhada. Já no tardoz, a patine assume a forma de uma camada negra entranhada no fundo do prato, configurando partículas de carvão, fixadas por gordura e que indiciam que o prato, de considerável covo, tenha sido usado na confecção de assados em forno de lenha. E, dada a decoração do prato, não me repugna nada admitir que possa ter sido usado para fazer assados de perdiz e tenha sido sempre esse o seu uso. Quem sabe até, se em casa de algum caçador.
Em terceiro lugar, porque entendi fazer uma abordagem etnográfica do tema “perdiz”, centrada na sua gastronomia e em múltiplos aspectos da sua tradição oral.

O prato
Prato covo, de grandes dimensões (40 x 28 x 10 cm), de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo amarelo palha. Olaria e decorador desconhecidos. 1ª metade do séc. XX.
A aba encontra-se enfeitada com sucessivos pedúnculos num total de onze, com geometria sinusoidal achatada, ladeados de folhas verdes e que culminam em botões a ocre castanho (decoração olho-de-boi), orientados no sentido anti-horário.
O fundo está decorado com uma perdiz a olhar para a esquerda, pousada num ramo do qual saem dois pedúnculos com folhas e flores, que a ladeiam.

Gastronomia
A carne de perdiz tem muito baixo teor de gordura.
 É uma carne muito muito saborosa, macia e dietética que pode ser cozinhada fervida, estufada, frita, assada e recheada. A composição da carne de perdiz e as suas propriedades tornam-na uma carne de uso aconselhado em culinária. O conteúdo calórico é mínimo, pelo que a tornam indicada para pessoas que sofrem de obesidade. A composição inclui enzimas que aceleram o metabolismo e removem o colesterol. Regula o nível de hemoglobina no sangue, relaxa e fortalece o sistema nervoso, melhora a memória e aumenta a concentração e ajuda a tratar doenças respiratórias. É afrodisíaca. Normaliza o trato digestivo em caso de envenenamento, obstipação e diarreia. Regula os níveis de biotina, a qual regula o metabolismo do açúcar e trava a progressão da diabetes.
Existe um número considerável de pratos em cuja confecção entra a perdiz. Destaco alguns dos mais conhecidos e afamados: açorda de perdiz, arroz de perdiz à Fialho de Almeida, canja de perdiz, cataplana de perdiz e cogumelos silvestres, confit de perdiz, perdiz à algarvia, perdiz à castelhana (receita de Bulhão Pato), perdiz à Convento da Cartuxa, perdiz à Convento de Alcântara, perdiz à Montemor, perdiz assada, perdiz com couve, perdiz com repolho, perdiz de escabeche, perdiz estufada, perdiz fria à moda de Coimbra, perdiz frita à caçador, perdiz na cerveja, raviolli de perdiz, sopa de castanhas e perdiz, tigelada de perdiz.

Adagiário
O adagiário da perdiz incide sobre a gastronomia da ave e sobre o desenvolvimento e caça da mesma, incidindo então sobre quase todos os meses do ano:
- A perdiz e o frade, de manhã ou à tarde.
- A perdiz é perdida, se quente não é comida.
- A perdiz, com a mão no nariz.
- Antes pardal na mão que perdiz a voar.
- Caça à perdiz com o vento pelo nariz e às narcejas pelas costas o vejas.
- Das aves, boa é a perdiz, mas melhor a codorniz.
- Do peixe a pescada, da ave a perdiz, da carne a vitela.
- Do peixe a pescada, da carne a perdiz.

- Em Abril, cheio está o covil.[1]
- Em Agosto espingardas ao rosto [2]
- Em Fevereiro, recocaneiro. [3]
- Em Janeiro acasala com o seu parceiro. [4]
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro.
- Em Maio chocai-o. [5]
- Em Março, três ou quatro. [6]
- Enquanto não é tempo de muda, caçai comigo aos perdigotos.
- Fevereiro couveiro faz a perdiz ao poleiro.
- Maio, Maio, pio pio pelo mato.
- Não há carne perdida, senão lebre assada e perdiz cozida.
- O coelho e a perdiz, uma mão na boca e outra no nariz.
- Perdigão Gordo, pássara magra.
- Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha.
- Perdiz açorada, meia assada.
- Perdiz derreada, perdigotos guarda.
- Quando a perdiz canta, bom prado tem.
- Quem a truta come assada e cozida a perdiz, não sabe o que faz nem sabe o que diz.
- Quem aos trinta anos come lebre assada e cozida a perdiz, não sabe o que faz nem sabe o que diz.
- São João, leva-os ao pão.
[7]
- São Tiago(ua) leva-os à água. [8]
Actualmente a caça à perdiz só está autorizada no início de Outubro, mas antigamente começava a 15 de Agosto. Os caçadores tinham então memorizada uma sequência de adágios sobre perdizes, relativos a cada mês do ano e através dela sabiam reconhecer a fase da evolução das perdizes desde o acasalamento até à abertura da caça. Uma tal sequência, à laia de lengalenga podia ser esta: “Em Janeiro acasala com o seu parceiro; Em Fevereiro, recocaneiro; Em Março, três ou quatro; Em Abril, cheio está o covil; Em Maio chocai-o; São João, leva-os ao pão; São Tiago(ua) leva-os à água; “Em Agosto espingardas ao rosto”. Todavia a sequência podia ter composição diferente.

Cancioneiro
É diminuto o cancioneiro popular da perdiz. Todavia entendi dele seleccionar a quadra “Debaixo da trovisqueira / Saiu a perdiz cantando; / Deixemos falar quem fala, / É mundo, vamos andando.” (5), seguida desta outra “A perdiz anda no monte, / Come da erva que quer; / É como o moço solteiro / Enquanto não tem mulher.” (9) e ainda de outra “A perdiz canta no bosque, / Na charneca o lavrador. / Eu só canto quando vejo / Os olhos do meu amor.” (10)

Lengalengas
Localizei apenas 3 lengalengas onde intervém a perdiz e delas destaquei a seguinte: “Serapico, pico, pico / Quem te fez tamanho bico? / Foi a velha do capuz / Que anda lá com uma luz / À procura da perdiz / Para a filha do juíz / Que está presa pelo nariz!”

Adivinhas
A consulta de diversos livros de adivinhas, apenas me permitiu identificar uma em cuja formulação entra a perdiz como personagem: “Um atirador disparou sobre três perdizes e matou uma. Quantas ficaram?” A resposta, para alguns algo imprevista e da qual está ausente o cálculo mental é “Não ficou nenhuma, que as outras fugiram”.

Alcunhas alentejanas
É reduzido o número de alcunhas alentejanas em que intervém a perdiz: PERDIZ (alcunha outorgada a indivíduo que caça muitas perdizes (Avis e Estremoz), PERDIZ CHUMBADA (denominação atribuída a indivíduo que em criança apanhou uma perdiz à mão, mas ela já estava chumbada (Alter do Chão)), PERDIZEIRO (o visado consegue caçar muitas perdizes).

Toponímia
Também é escasso o número de presenças da perdiz na toponímia portuguesa. Apenas localizei os seguintes topónimos: BECO DAS PERDIZES (arruamento de Albufeira), CAMINHO DAS PERDIZES (arruamento em Arruda dos Vinhos), FONTE DAS PERDIZES (fonte de água potável no concelho de Ourém), FONTE DAS PERDIZES (lugar do concelho de Grândola), MONTE DAS PERDIZES (lugar da zona norte do Parque Florestal de Monsanto), MONTE DAS PERDIZES (quinta agrícola do sítio do Quatrim - Quelfes, Olhão, com alojamento turístico), PARQUE DAS PERDIZES (parque de Paço de Arcos), QUINTA DO VALE DA PERDIZ (lugar nas proximidades de Torre de Moncorvo), RUA DA PERDIZ (arruamento de Ponte de Lima), VILAR DE PERDIZES (freguesia do concelho de Montalegre, celebre pela realização dos Congressos de Medicina Popular, impulsionados pelo padre Fontes desde 1983 e que ali atraem bruxos, cartomantes, curandeiros e videntes).

Gíria popular
É parca a gíria popular sobre a perdiz. Todavia foi-me possível identificar alguns termos: OLHO DE PERDIZ (calosidade redonda e pequena entre os dedos dos pés), OLHO DE PERDIZ (padrão de tecido de lã), OLHO DE PERDIZ (qualidade de madeira utilizada em mobiliário), OLHO DE PERDIZ (variedade de batata de polpa e pele amarelas, com manchas vermelhas), OLHO DE PERDIZ (variedade de figo arredondado e adocicado, de tamanho médio e coloração arroxeada), PÉ DE PERDIZ (arbusto medicinal cuja raiz tem acção anti-inflamatória, cicatrizante, anticancerígena, antimicótica, antibacteriana e antiviral, sendo utilizada no combate de inúmeras doenças), PÉ DE PERDIZ (casta de videira de uva branca), PÉ DE PERDIZ (variedade de pera), PERDIZ (peça teatral que deu prejuízo), PERDIZ (receita que não cobre a despesa), PERDIZ DE ALQUEIVE (sapo), PERDIZADA (bando de perdizes), SALTO DE PERDIZ (salto de sapato alto, vermelho, muito usado pelas elegantes no séc. XVIII).

Desenlace
Coleccionar não é só juntar exemplares daquilo que se decidiu coleccionar. Pelo contrário, exige uma observação minuciosa e atenta, bem como um estudo profundo desses exemplares, independentemente da sua origem, natureza, composição, tipologia e função. Foi o que se passou com o prato de Redondo que foi objecto do presente escrito. Encontrei-o disponível no mercado de antiguidades e entre nós estabeleceram-se, de imediato, fortes laços de empatia, já que o prato começou a falar comigo. Na sequência da sua aquisição e porque sou um contador de estórias, tinha que falar do prato, relatando as estórias que ele tinha para me contar. Foi o que procurei fazer com espírito de missão, missão que não terminou aqui e que será prosseguida inescapavelmente com o surgimento do próximo objecto olárico, igualmente capaz de estabelecer comigo um relacionamento empático.

BIBLIOGRAFIA
(1) - AMIGOS DE CAPELINS. A perdiz [Em linha]. Disponível em: https://amigosdecapelins.blogspot.com/2020/11/662-fauna-das-terras-de-capelins-perdiz.html [Consultado em 22 de Setembro de 2022].
(2) - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
(3) - COMIDA SAUDÁVEL PERTO DE MIM. Perdiz [Em linha]. Disponível em: https://pt.healthy-food-near-me.com/partridge-description-of-meat-benefits-and-harm-to-human-health/ [Consultado em 18 de Setembro de 2022].
(4) - MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
(5) - COUTINHO, Artur. Cancioneiro da Serra de Arga. Edição do autor. Viana do castelo, 1980.
(6) – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
(7) - MOUTINHO, José Viale. Adivinhas Populares Portuguesas. 6ª edição. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1988.
(8) - RAMOS, Francisco Martins; SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
(9) - BRAGA, Theophilo. Cancioneiro Popular Português. 2ª ed. A. Rodrigues & CV. Editores. Lisboa, 191.
(10) - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. II. Typographia Progesso. Elvas, 1905.
(11) - VÁRIOS. Grande Enciclopédia Luso-Brasileira, vol. 21. Lisboa, Rio de Janeiro, s/d.

 


[1] Significa que durante o mês de Abril a perdiz continuava a pôr ovos, que podiam atingir a dezena e meia e enchiam o ninho.
[2] Expressa que em Agosto, os perdigotos já estavam bem-criados, pelo que podiam ser caçados.
[3] Revela que em Fevereiro, o casal perdiz-perdigão recocava, isto é, manifestava um cantar manso e terno.
[4] Indica que é em Janeiro que uma perdiz acasalava com um perdigão, ficando juntos até à criação dos perdigotos.
[5] Diz-nos que no mês de Maio, as perdizes chocavam os ovos e nasciam os perdigotos.
[6] Significa que em Março, a perdiz começara a pôr ovos e o ninho já devia ter 3 ou 4.
[7] São João comemora-se a 24 de Junho, mês das colheitas por os cereais estarem maduros, alimentando as perdizes e os perdigotos. Este o sentido do adágio.
[8] São Tiago comemora-se a 25 de Julho, mês em que os perdigotos já estavam crescidos e voavam por cima de cursos de água, onde iam beber. Tal o sentido do adágio.


terça-feira, 20 de setembro de 2022

Marcas de fabrico da Olaria Alfacinha


Olaria Alfacinha - Estremoz (anos 40 do séc. XX),  fotógrafia
de Artur Pastor (1922-1999), natural de Alter do Chão.

PRÓLOGO

Sou coleccionador de longa data de louça de barro vermelho de Estremoz, sobre a qual tenho publicado textos, nos quais destaco as marcas de fabrico ostentadas pelas peças oláricas, em particular as produzidas pela Olaria Alfacinha. Entretanto, descobri a existência de outras marcas de fabrico, algumas através de imagens publicadas em sites de venda na internet. Daí surgiu a ideia de sistematizar todas as marcas de fabrico por mim conhecidas. Tal é o objectivo do presente texto.
A Olaria Alfacinha, foi fundada por Caetano Augusto da Conceição em 1881, na Rua do Arco, transferindo-se sucessivamente para a Casa das Fardas e para a Rua de Santo Antonico, todas em Estremoz. A olaria esteve na posse da família até 1987, tendo produzido louça não vidrada e louça vidrada.
Em 1987, a olaria foi vendida a Rui Pires de Zêzere Barradas, professor, que conjuntamente com sua mulher Cristina, dela foi co-proprietário até 1995, ano em que a Olaria cessou a sua actividade. Neste último período, a olaria produziu apenas louça vidrada.
No estudo das marcas de fabrico da Olaria Alfacinha considerei dois períodos: 1º Período (1881-1987) e 2º Período (1987-1995). Dentro de cada um deles, ordenei as marcas de fabrico, por uma sequência cronológica, de acordo com os dados de que disponho. Vejamos então, as marcas por mim identificadas dentro de cada um desses períodos.

1.º PERÍODO (1881-1987)

Fig. 1 - MARCA TIPO 1 - Marca “OLARIA ALFACINHA / EXTREMOZ“, aposta por carimbo, inscrita numa coroa circular, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro. As inscrições “OLARIA ALFACINHA” e “ESTREMOZ” encontram-se separadas por dois elementos indefinidos, que poderão, eventualmente, ser, cruzes trevoladas, semelhantes às que integram as marcas de Tipo 2 e do Tipo 3. A marca aqui reproduzida, figura na página 365 da CERAMICA PORTUGUEZA, de José Queiroz (1907), a qual não refere os diâmetros exterior e interior da coroa circular.

Fig. 1 - MARCA TIPO 1 - 

Fig. 2 - MARCA TIPO 2 - Marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, aposta por carimbo, inscrita numa coroa circular de 2,3 cm e 1,4 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro. As inscrições “OLARIA ALFACINHA” e “ESTREMOZ” encontram-se separadas por duas cruzes trevoladas.

Fig. 2 - MARCA TIPO 2

Fig. 3 - MARCA TIPO 3 - Marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, aposta por carimbo, inscrita numa coroa circular de 2,5 cm e 1,7 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro. As inscrições “OLARIA ALFACINHA” e “ESTREMOZ” encontram-se separadas por duas cruzes trevoladas.

Fig. 3 - MARCA TIPO 3

Fig. 4 - MARCA TIPO 4 - Marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL“, aposta por carimbo, distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 1, 2 cm x 3 cm.

Fig. 4 - MARCA TIPO 4

Fig. 5 - MARCA TIPO 5 - Marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL”, aposta por carimbo, distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 2,5 cm x 4,5 cm.

Fig. 5 - MARCA TIPO 5

Fig. 6 - MARCA TIPO 6 - Marca linear “Olaria + Alfacinha + Estremoz”, aposta por carimbo, com as palavras separadas por uma cruz trevolada.

Fig. 6 - MARCA TIPO 6

De salientar que as marcas tipo 2, 3 e 4, além de serem utilizadas como marcas de fabrico da Olaria Alfacinha, foram usadas também como marca de fabrico de Bonecos de Estremoz, pela barrista Sabina da Conceição Santos, membro da Família Alfacinha.

2.º PERÍODO (1987-1995)

Fig. 7 - MARCA TIPO 7 - Marca "Olaria / Alfacinha / Estremoz / Portugal / Joana”, manuscrita, distribuída por quatro linhas.

Fig. 7 - MARCA TIPO 7

Fig. 8 - MARCA TIPO 8 - Marca “OLARIA / ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL”, manuscrita, distribuída por quatro linhas.

Fig. 8 - MARCA TIPO 8

Fig. 9 - MARCA TIPO 9 - Marca “O.A / ESTREMOZ / Portugal”, manuscrita, distribuída por 3 linhas.  


Fig. 9 - MARCA TIPO 9

Fig. 10 - MARCA TIPO 10 - Marca “olaria / Alfacinha / ESTREMOZ / Portugal”, manuscrita, distribuída por quatro linhas.

Fig. 10 - MARCA TIPO 10

Fig. 11 - MARCA TIPO 11 - Marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL”, aposta por carimbo, distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 2,5 cm x 4,5 cm. Esta marca é exactamente a mesma da MARCA TIPO 5 do 1.º período.

Fig. 11 - MARCA TIPO 11

ESPÉCIMES OLÁRICOS QUE PATENTEIAM AS MARCAS DE FABRICO DESCRITAS

Fig. 12 – Medalha de barro vermelho, oblonga, com o brasão de armas da cidade, encimado pela coroa real e tendo por baixo a legenda em alto-relevo “ESTREMOZ”. Dimensões: 6,7 cm x 5 cm; Peso: 26 g. No verso da medalha, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 2.

Fig. 12

Fig. 13 – Medalha de barro vermelho, oblonga, com o brasão de armas da cidade, encimado pela data de 1933 e tendo por baixo a legenda em alto-relevo “FESTAS EM ESTREMOZ”. Dimensões: 6,3 cm x 4,2 cm; Peso: 15 g. No verso da medalha, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 3.

Fig. 13

Fig. 14 – Medalha de barro vermelho, oblonga, na qual figura ao centro e em alto relevo, a imagem do andor do Senhor Jesus dos Passos de Estremoz. Esta, está ladeada à esquerda pela legenda também em alto-relevo “FESTAS DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ / EM ESTREMOZ / 1963”, distribuída por três níveis. À direita da imagem do andor, um ramo de uma flor não identificada, também em alto relevo. Dimensões: 6,3 cm x 4,2 cm, Peso: 21 g. No verso da medalha, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 4.

Fig. 14

Fig. 15 – Terrina com as seguintes dimensões (cm): altura total – 28,5; altura sem tampa – 17; altura da tampa – 15; diâmetro do fundo – 17,8; diâmetro do bojo – 22,5; diâmetro exterior da abertura – 14; diâmetro interior da abertura – 12,5; diâmetro exterior da tampa – 15; - PRATO: diâmetro exterior da aba – 27; diâmetro do fundo – 18. No que respeita a peso (g), as características são: - TERRINA – 1277g; - TAMPA: 756 g; - PRATO: 1206 g. No verso da medalha, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 5.

Fig. 15

Fig. 16 – Decantador com tampa. Bojo com decoração de natureza fitomórfica e geométrica, obtida por polimento. As dimensões e o peso são desconhecidos, uma vez que a imagem foi recolhida na internet. No bojo, junto ao fundo, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 6.


Fig. 17 – Prato raso, vidrado. Na parte superior da aba, a inscrição pintada “FESTAS EXALTAÇÃO Stª CRUZ”. Na parte inferior da aba, a inscrição “1990”, ladeada por dois ornatos de natureza fitomórfica, tudo pintado. No fundo do prato e ao centro, em alto relevo, a imagem do Senhor Jesus dos Passos de Estremoz, obtida a partir do molde em gesso, utilizado pela Olaria Alfacinha nos anos 60 do séc. XX, na produção de medalhas em barro, comemorativas daquelas Festas. Diâmetro superior do prato: 17, 5 cm. No tardoz, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 7.

Fig. 18 – Prato raso, vidrado, com decoração de temática rural (Pastor e cão num montado), pintada na aba e no fundo. Diâmetro superior do prato: 14, 5 cm. No tardoz, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 8.

Fig. 18

Fig. 19 – Prato raso, vidrado, com decoração fitomórfica e geométrica, pintada na aba e no fundo. As dimensões e o peso são desconhecidos, uma vez que a imagem foi recolhida na internet. No tardoz, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 9.

Fig. 19

Fig. 20 – Prato raso, vidrado, com decoração fitomórfica e geométrica, pintada na aba e no fundo. As dimensões e o peso são desconhecidos, uma vez que a imagem foi recolhida na internet. No tardoz, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 10.

Fig. 20

Fig. 21 – Prato raso, vidrado, com decoração fitomórfica e zoomórfica, pintada na aba e no fundo. As dimensões e o peso são desconhecidos, uma vez que a imagem foi recolhida na internet. No tardoz, marca de fabrico da Olaria Alfacinha, do tipo 5.

Fig. 21 

EPÍLOGO

Ainda que tenha por base o estudo de mais de 200 peças oláricas da minha colecção, a presente sistematização das marcas de fabrico da Olaria Alfacinha, é necessariamente incompleta. Estou certo que com o decorrer do tempo, outras marcas surgirão, pelo que em devido tempo, delas terá conhecimento o leitor. 

BIBLIOGRAFIA

MATOS, Hernâni. Estremoz - Surpresas do Mercado das Velharias – 01 [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2019/05/estremoz-surpresas-do-mercado-das.html [Consultado em 18 de Setembro de 2022].

MATOS, Hernâni. Louça vidrada de barro vermelho, da Olaria Alfacinha [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2022/02/louca-vidrada-de-barro-vermelho-da.html [Consultado em 18 de Setembro de 2022].

MATOS, Hernâni. Medalhas de barro de Estremoz [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2012/11/medalhas-de-barro-de-estremoz.html [Consultado em 18 de Setembro de 2022].

MATOS, Hernâni. Terrina de Estremoz [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2013/12/terrina-de-estremoz.html [Consultado em 18 de Setembro de 2022].

QUEIROZ, José. Ceramica portugueza. Typographia do Annuario Commercial. Lisboa, 1907.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Homenagem a Joaquim Vermelho




Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 19 de Setembro de 2022

No próximo dia 21 de setembro completam-se 20 anos sobre a morte de Joaquim Vermelho. Para assinalar a data, o Município de Estremoz irá abrir ao público um conjunto de exposições denominadas “Homenagem a Joaquim Vermelho na passagem do 20º aniversário da sua morte”. Estas exposições dividem-se por 3 espaços que muita memória têm do trabalho exercido neles por Joaquim Vermelho, enquanto funcionário e voluntário no Município de Estremoz.
A Biblioteca Municipal irá recordar na sua exposição Joaquim Vermelho como escritor, jornalista, poeta. No Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz o visitante terá oportunidade de conhecer parte da coleção de Figurado de Estremoz que Joaquim Vermelho deixou em legado ao Museu Municipal de Estremoz. Para terminar este conjunto de exposições, no Teatro Bernardim Ribeiro poderá ser visitada a reposição da exposição biográfica que relembra todo o seu trabalho em prol da história e do desenvolvimento cultural da cidade.
Joaquim Vermelho nasceu em Estremoz em 1927, exerceu funções no Município de Estremoz como responsável da Biblioteca Municipal e diretor do Museu Municipal. O seu trabalho junto das Associações locais e dos vários equipamentos culturais do Município, tornou-o num dos estremocenses que mais marcou a cidade de Estremoz no campo cultural no séc. XX.
Foi um homem apaixonado pela escrita, pela fotografia e pela arte popular, tendo dedicado parte da sua vida à divulgação, valorização e salvaguarda do artesanato muito em particular do Figurado de Estremoz.
Estas exposições de “Homenagem a Joaquim Vermelho na passagem do 20º aniversário da sua morte” poderão ser visitadas até dia 18 de novembro de 2022.

domingo, 18 de setembro de 2022

Os bailes das Sociedades



Em Estremoz, nos anos 60 do século passado, uma forma de encostar a calça à saia, era meter pé de dança nos bailes das Sociedades.
Os ricos iam aos bailes do Círculo. A classe média ia aos Artistas. E todos iam às Sociedades mais populares como a Lusitana, a União, a Porta Nova, os Bombeiros e o Orfeão. Havia bailes no aniversário de cada Sociedade, pelo Carnaval, pela Pinhata, pelo Natal, pela Passagem do Ano e pelo Ano Novo. Os salões eram os de cada colectividade e ainda o chamado Jardim de Inverno, no Teatro Bernardim Ribeiro, onde o Orfeão organizava os seus bailes.
Os homens iam aos bailes de fato e gravata ou de papilon e as senhoras com o seu melhor vestido. O mesmo se passava com os respectivos rebentos, fossem rapazes ou raparigas.
Para se entrar nos bailes tinha que se ser sócio e ter as quotas em dia. Podia-se também ser apresentado por um sócio, desde que não se fosse natural da cidade.
Os ritmos eram outros. Dançava-se: bolero, tango, passodoble, valsa, mambo, cha-cha-cha, merengue e uns cheirinhos de bossa nova, de samba e de rock and roll.
Os bailes decorriam com o máximo respeito e quem se portasse mal era chamado ao Gabinete da Direcção. Após uma primeira advertência, era posto no olho da rua, sem apelo nem agravo.
Nos salões de baile, havia quase sempre duas filas. Na da frente ficavam as meninas casadoiras, com idade de dançar, com namorado ou com ganas de o ter. Na da retaguarda ficavam as matronas, senhoras suas mães, guardiãs da virgindade das filhas.
Para dançar era preciso agradar à filha e à mãe, pois as mães, é que sabiam. Os pais não eram para aqui chamados. Ficavam no bufete, a relembrar uns com os outros, glórias de tempos idos, enquanto emborcavam copos e mastigavam moelas. A honra deles era entrar na função e meter um pé de dança com a respectiva matrona, já depois do intervalo, depois de estarem bem tratados, a fim de demonstrarem que ainda estavam como devia ser. Porém, nem sempre a defesa da honra corria bem, pois alguns devido ao avançado estado de alcoolemia, apanhavam uma “tampa” da respectiva matrona, ao passo que outros se estatelavam no soalho, quando porventura executavam alguma reviravolta menos comedida. Era a altura em que os mirones cantavam o “Já estás com os copos! Já estás com os copos!”.
Os bailes eram abrilhantados por conjuntos como o afamado MARILYNG, fundado a 21 de Janeiro de 1955 e que com composição variável perdurou até 1975-76. Do grupo fundador, faziam parte, da esquerda para a direita da fotografia: ANTÓNIO CONDINHO (saxofone alto), FRANCISCO XARCAS (saxofone alto e clarinete), GENARO MANTEIGAS (rabecão), MÁRIO RATO (bateria e vocalista), JOÃO MANAÇAS (piano e acordeão) e ADELINO CANHOTO (trompete). Do grupo fundador falta na fotografia, JOAQUIM CARMO PEQUITO (vocalista), antigo barítono do Teatro de Ópera de S. Carlos e proprietário da Agência de Publicidade APAL, “A Palavra Mágica da Propaganda”, conforme slogan da sua própria autoria. Apesar de pertencer ao grupo fundador, o Pequito não esteve muito tempo no Marilyng e a ele pertencia a aparelhagem sonora utilizada pelo conjunto.
O Marilyng era um conjunto integrado por músicos da Real Sociedade Filarmónica Luzitana e da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, todos eles com histórias de vida para além da Música. Esta não lhes dava para sustento, pelo que tinham que fazer pela vida, fora da Música. O Condinho, o Charcas e o Canhoto eram canteiros. O Genaro era merceeeiro, o Rato era alfaiate e o Manaças era empregado de escritório do prestigiado advogado oposicionista Rodrigues Pereira.
De todos, aquele que conheci melhor, era o do rabecão, o Genaro Manteigas, que tinha uma mercearia, onde ainda recentemente era o PÉ DE LÃ, mesmo ao lado da TIPOGRAFIA BRADOS DO ALENTEJO, quando se vai às burras assadas e ao briol, à taberna que antes de ser do falecido Isaías, era do seu pai Zé da Glória, onde eu ia buscar aguardente para as filhoses da minha tia e ia provando pelo caminho. Se os grandes gostavam daquilo, onde é que está o mal? Pois o Genaro tinha uma mercearia à maneira, que rivalizava com a mercearia do Adriano Pimenta, depois LOJA DO POVO e mesmo em frente dos Brados do Parelho, que antes de pregar um tiro no toutiço, escreveu a sua auto-biografia para publicar no jornal. Eu era cliente habitual do Genaro onde ia comprar rebuçados com cromos da bola. Nasci nas bordas daquela zona em 1946 e por ali morei numa casa que foi derrubada para se travestir doutra coisa. De futebol não gosto desde que o meu pai me pregou com um guarda-chuva na cornamenta por causa do malfadado pseudo-desporto em que andam 22 tarados a perseguir um coiro. Dos rebuçados é que já não gosto muito, prefiro pasteizinhos de bacalhau, mesmo que não sejam VQPRD. Agora o que continuo a gostar é de colecções e comecei a ser coleccionador a ir e vir à loja do Genaro, assim como a encher o meu talêgo no jogo do botão, já que além de razoável pontaria fui dotado pela natureza de um bom palmo, os quais consegui transmitir à minha filha que chegava a casa todos os dias com uma saquilada de berlindes ganhos aos outros na escola do ciclo da Maria Gonçalves. Talvez o ditado adequado seja: “Filha de botaneiro, sabe belindrar!”.
As histórias do Marilyng passam quase todas pelo Genaro. Vou contar algumas.
O Genaro tinha o hábito de, por vezes, talvez para se concentrar na música, tocar rabecão com os olhos fechados, dando a impressão de estar a dormir, se é que não dormia mesmo. Quem não lhe perdoava era o Mário Rato, que lhe dava cada safanão que era um consolo.
Pelo Carnaval, o Marilyng actuava durante cinco dias seguidos em bailes que acabavam já de manhã. Começavam no sábado e acabavam na quarta-feira. A rapaziada chegava ao fim, já rebentada pelas noitadas. Certa vez, deu-lhes para ir a uma farmácia comprar algodão iodado por causa das dores do peito. O pior foi que já no baile e com o calor que tinham, após uma paragem tiveram que se ver livre das pastas de algodão iodado que debaixo da roupa, lhes protegiam a tampa do peito. Onde é que hão de pôr o algodão, onde é que não hão de, o melhor sítio que arranjaram e alguém alvitrou, foi o rabecão do Genaro. Este, ao retomar a actuação, constatou que o rabecão não tinha ressonância e teve esta saída: “ - Não sei o que é que tem o rabecão, que parece que está surdo.”. Foi uma risada geral, descobriu-se a marosca e tudo acabou em bem.
Certa vez, durante umas Festas de Setembro realizadas no Rossio, no dancing dos pobres actuou o conjunto Bass do Alandroal, ao passo que no dancig dos ricos, actuou um conjunto espanhol, que tinha um vocalista alto e corpulento como o Carmo Pequito com quase 2 metros de altura e muito mais que 100 quilos de peso. Este vocalista tinha a particularidade de procurar comunicar bastante com o público, para o que se agachava, mesmo à boca do palco, ao mesmo tempo que, empunhando o microfone, se aproximava dos pares dançantes. Esta actuação teve muito êxito e foi muito bem recebida pelo público. Passado algum tempo, houve um baile na Porta Nova e o Carmo Pequito que integrava ainda o Marilyng, proclamou aos seus companheiros: “ - Hoje vou cantar como o espanhol das Festas de Setembro!” O que ele se esqueceu foi que o palco da Porta Nova não tinha a profundidade do palco do dancing dos ricos nas Festas de Setembro. Tudo correu bem até ao momento em que com ele agachado, num gesto mais arrebatado, o Genaro lhe enfia com as varas do trombone ao fundo das costas. O colossal Pequito desequilibra-se e lá vai palco abaixo, caindo em cima dumas velhas que nessa noite tiveram o azar de sair de casa. Só não foi chamado o INEM, porque nessa altura ainda não existia.
O Genaro e o Pequito eram impagáveis e viam-se envolvidos em situações que eles próprios não tinham criado. Certa vez, num baile da Lusitana, aconteceu uma que é famosa. O João Manaças, o pianista, namorava aquela que viria a ser a sua mulher. Esta, por uma questão de afecto tinha-se sentado junto ao palco mesmo à frente dele. A certa altura, talvez devido a excesso de carga, apaga-se a luz e o João Manaças, farto de estar sentado, levanta-se. O Pequito, farto de estar de pé, senta-se. A namorada do Manaças, aproveita a escuridão e resolve fazer umas festas nas canelas do Manaças. Porém, de repente acende-se a luz e o que vêem os bailarinos? A namorada do Manaças a fazer festas numa canela do Pequito. Foi uma risada geral.

Eram outros os tempos…

(Publicado inicialmente em 12 de Março de 2010)
Texto inserido no meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora".