domingo, 16 de junho de 2019

30 - São João Baptista, Precursor, Profeta e Mártir


São João Baptista.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

São João Baptista (2 a.C. - 27 d.C.) foi um pregador judaico do início do século I, citado pelo historiador Flávio Josefo (37 ou 38 - ca. 100) e pelos autores dos quatro Evangelhos da Bíblia (Mateus, Marcos. Lucas e João). Era filho do sacerdote judaico Zacarias e de Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus.
João, que em hebraico se diz Iohanan, com o significado de “Favorecido de Deus”, veio à luz em idade avançada de seus pais (Lucas 1,36). Muito jovem retirou-se para o deserto. Chamava-se "Baptista" devido a pregar um baptismo de penitência (Lucas 3,3). Quando estava a baptizar crentes no rio Jordão, apareceu Jesus, que também se apresentou para se baptizar. Logo o reconheceu apelidando-O, de “Cordeiro de Deus”, o Messias anunciado pelos profetas. Introduziu o baptismo como cerimónia que mais tarde seria adoptada pelo Cristianismo como prática na conversão de gentios,  rito entendido como purificação e vida nova, constituindo o primeiro sacramento da iniciação cristã.
Censurou Herodes Antipas (20 a.C. – 39 d.C.), governador da Galileia, por ter cometido adultério ao casar-se com Herodíade, sua sobrinha e cunhada, cujo marido ainda estava vivo. Na sequência da sua prisão, as suas imprecações incomodaram Herodíade, que através da sua filha Salomé, induziu Herodes a mandá-lo degolar. É considerado o primeiro mártir do Cristianismo.
É o único santo cujo nascimento (24 de Junho) e martírio (29 de Agosto) são evocados em duas solenidades cristãs. É correntemente representado como um adulto ascético, vestido de pele de carneiro, com um cordeiro e um estandarte com a legenda “Ecce Homo”. É padroeiro das cidades do Porto e de Braga, onde é festejado com alegria pelo povo, de 23 para 24 de Junho. Trata-se de uma festa com origem no solstício de Junho e que inicialmente se tratava de uma festa pagã, na qual as pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Como tal é uma festa repleta de tradições, como a utilização dos alhos-porros (símbolos fálicos da fertilidade masculina) para bater nas cabeças de quem vai a passar, assim como de ramos de cidreira (símbolo dos pelos púbicos femininos), usados pelas mulheres para pôr na cara dos homens que passam. A Igreja viria a cristianizar essa festa pagã e atribuiu-lhe São João como Padroeiro.
São João Baptista está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário destacamos: “Ande por onde andar o Verão, há-de vir pelo São João”, “Pelo São João, ceifa o pão”, “Lavra pelo São João: terás palha e grão”, “A chuva de São João bebe o vinho e come o pão”, “Pelo São João deve o milho cobrir o cão”, “Pelo São João semeia o teu feijão”, “Pelo São João, figo na mão”, “Galinhas de São João, pelo Natal, ovos dão”, “Tem o porco meão pelo São João”, “Sardinha de São João pinga no pão”. No que respeita ao cancioneiro popular alentejano, salientamos duas quadras brejeiras. Uma: “Onde está o Baptista, / Elle não está na egreja, / Anda de mastro em mastro, / Para vêr quem no festeja.” E esta outra: “Lá vem o Baptista abaixo / Subindo aquellas ladeiras, / Dando abraços ás viúvas / E beijinhos às solteiras.”

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santo António na tradição oral


Capa da revista ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA nº 16 de 11 de Junho de 1906.

PRÓLOGO
É vasta a literatura de tradição oral portuguesa referente a Santo António. Debruçar-nos-emos aqui sobre o adagiário, tradições e superstições populares, orações populares e cancioneiro popular alentejano.

ADAGIÁRIO PORTUGUÊS.
Não é extenso, mas existe algum adagiário relativo a Santo António:

- “Água de Santo António tira o pão à gente e dá o vinho ao demónio.”
- “Ande o calor por onde andar, pelo Santo António, há-de chegar.”
- “Dia de Santo António, vêm comer as cerejas ao castanheiro.”
- “Entre António e João planta teu feijão.”
- “Não há sermão sem Santo António, nem panela sem toucinho.”
- “Nem Deus com um gancho, nem Santo António com um garrancho.”
- “Ovelha que é do lobo, Santo António Antônio não guarda.”
- “Santo António tira a dor, mas não tira a pancada.”

TRADIÇÔES E SUPERSTIÇÕES POPULARES
- No dia de Santo António deve-se colher um raminho de erva-pinheira, para pendurar em casa. Se este reverdecer, tal facto é indício de fortuna. [2]
- Para que Santo António opere o milagre de casar uma rapariga solteira, é preciso que uma sua imagem seja roubada a outra pessoa. [2]
- Rezar um responso a Santo António faz com que a pessoa ou o animal responsado não consiga andar para diante, mas apenas para trás, pelo que volta ao ponto de partida. [2]
- Na véspera do dia de Santo António, é costume ornamentar as portas ou as sacadas das casas com canas verdes. [7]

ORAÇÕES POPULARES ALENTEJANAS
Um tipo de oração popular é a encomendação (recomendação) que se faz a Jesus, à Virgem Maria ou a um Santo, para eles livrarem o encomendante de qualquer bicho ou pessoa que lhe queira fazer mal, assim como de qualquer influência maléfica ou demoníaca que o possam afectar. Vejamos uma “Encomendação a Santo António”:

“Santo António se levantou,
Caminho e carreira andou,
Nossa Senhora encontrou,
Ela lhe perguntou:
- Aonde vais, António?
- À vossa Santa busca vou.
- Pois tu, António, irás
E na terra ficarás,
O meu corpo me guardarás
De mau lobo e de má loba,
De mau cão e de má cadela,
De mau homem e de má mulher
E de tudo mau que houver,
Que eu nunca tenha perca
Nem dano nem prejuízo algum.
Em louvor da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Ave Maria.” [5]

Um outro tipo de oração popular é o responso, entendido como uma oração a um Santo, visando o aparecimento de coisas desaparecidas ou que não ocorram males que se temem. Vejamos um “Responso de Santo António”:

“Santo António se levantou,
seu sapatinho calçou,
seu bordãozinho pegou,
seu caminho caminhou,
Jesus Cristo encontrou.
Jesus Cristo lhe perguntou:
- Onde vais, Beato António?
- Senhor, convosco vou.
- Comigo não virás,
na terra ficarás
guardando o que está perdido,
que à mão do dono seja restituído.
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Pai-Nosso e Ave-Maria.” [1]

Este responso reza-se três vezes, depois das quais, as coisas desaparecidas, aparecem.

CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO
O Povo não esquece a data festiva do Santo António:

“A treze do mês de Junho
Santo António se demove,
S. João a vinte e quatro,
e S. Pedro a vinte e nove.“ [6]

Pelo Santo António, S. Pedro e S. João é cantada a seguinte cantiga popular:

“Santo António, S. Pedro e S. João,
Santinhos padroeiros,
Do meu terno coração.
Olhai por mim,
Protegei-me, dai-me sorte,
Que eu serei vossa devota
Quer na vida quer na morte.” (Évora) [3]

O Povo considera que Santo António pertence a uma admirável geração:

“S. Francisco é meu primo,
Santo António é meu irmão,
Os anjos são meus parentes,
Ai que linda geração!” (Beja) [4]

Tem-no, naturalmente, na mais elevada estima:

“Ailé,
Senhor Santo António,
É o melhor cravo
Do meu oratório.“ [6]

O Santo é invocado para guardar olivais:

“Santo António de Lisboa,
Guardador dos olivais,
Guarda lá minha azeitona
Do biquinho dos pardais.“ [6]

Igualmente é invocado para guardar amores fugitivos:

“Santo António de Lisboa,
Guardador dos olivais,
Guardai-o meu lindo amor,
Que cada vez foge mais.“ [6]

Santo António é casamenteiro. Por isso, ele ou ela imploram:

“Ó meu amor, pede a Deus,
E eu peço a Santo António
Que nos deixe juntar ambos
No livro do matrimónio.“ (Alcáçovas) [4]

O homem confessa o objecto da sua fé:

“O sol bate de chapa,
Faz a maçã coradinha;
Tenho fé em Santo António
Que inda hás-de vir a ser minha.“ (Odemira) [4]

Por seu lado, a mulher suplica ao Santo que a case com determinado homem:

“Ó meu rico Santo António,
Eu bem alto aqui to digo;
Casai os rapazes todos,
O Josezinho comigo!“ (Alcáçovas) [4]

Chegam a chamar namoradeiro ao Santo:

“Santo António me acenou
De cima do seu altar,
Olha o maroto do santo,
Que também quer namorar." [6]

Apontam-lhe mesmo, certos episódios:

“Santo António, com ser santo,
Foi sempre um grande gaiato,
Foi à fonte com três moças,
recolheu, trazia quatro.“ [6]

Chegam ao ponto de lhe fazer determinadas insinuações:

“Senhor Santo António
Tem duas ladeiras:
Umas das casadas,
Outra das solteiras.“ (Moura) [4]

Por chalaça, Santo António é invocado pelas mulheres para escarnecer dos homens:

“Santo António de Lisboa,
Venha ver o que cá vai,
Deu a rabugem nos homens,
Como dá nos animais.“ [6]

Os homens respondem na mesma moeda:

“Santo António da Terrugem
Venha ver o que cá vai,
Anda a rabugem nas moças,
Té o cabelo lhes cai.“ [6]

No conceito popular, o Santo é portador da mais alta patente militar, daí que digam:

“Santo António de Lisboa
Não quer que lhe chamem santo,
Quer que lhe chamem António,
General, mar’chal de campo.“ [6]

Pelo poder que lhe é atribuído, não é de estranhar que Santo António seja invocado para livrar os mancebos da vida militar:

“Sant’Entóino é bom rapaz,
Que livrou seu pai da morte.
Também livrará meu bem
Quando for “tirar as sortes””. (Mina de S Domingos) [4]

Igualmente é invocado para ajudar a vencer desafios ainda maiores:

“Santo António é bom filho,
Que livrou seu pai da morte;
Ajudai-nos a vencer
Esta batalha tão forte.“ [6]

Como o ramo de loureiro era utilizado para sinalizar a porta das tabernas, houve quem ironizasse a decoração do altar do Santo:

“No altar de Santo António
‘Stá um ramo de lòreiro;
Olha que pouca vergonha,
Fazer de um santo vendeiro!“ (Évora) [4]

Os homens chegaram ao ponto de o acusar de reservar o vinho para as mulheres:

“Santo António de Cabanas
Tem uma pipa no monte,
As mulheres bebem vinho,
Os homens água da fonte.“ [6]

Chega a ser encarado como vendedor, a quem se solicita que seja pródigo no avio:

“Santo António vende peras,
Vende peras a vintém,
Lá irá o meu menino,
Santinho, aviai-o bem.“ [6]

A invocação da sua intercessão não conhece limites:

“Ó meu padre Santo António,
Vestidinho d’estamenha;
A quem quer ajudar
O vento lhe ajunta a lenha.“ [6]

O povo que tem convicções firmes e gosta de coisas rijas, considera que o Santo é mesmo um Santo com força nas canelas:

“Santo António da Terruge’
Feito de pau de azinho,
Tem mais força no canelo
Que um barrasco no focinho.“ (Terrugem) [4]

EPÍLOGO
Julgamos que dentro da literatura de tradição oral, as orações populares e o cancioneiro são reveladores da religiosidade própria do homem alentejano, em consonância com a sua própria identidade cultural.


BIBLIOGRAFIA
[1] – ALVES, Aníbal Falcato. Rezas e Benzeduras. Campo das Letras. Porto, 1998.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Edição de Álvaro Pinto (Revista de Portugal). Lisboa, 1955.
[4] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Leite. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983.
[5] – POMBINHO JÚNIOR, A.P. Orações Populares de Portel. Edições Colibri-Câmara Municipal de Portel. Lisboa, 2001.
[6] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
[7] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Estremoz - Surpresas do Mercado das Velharias - 02


Mercado das Velharias, em Estremoz. Fotografia de autor desconhecido.

Fiel frequentador do Mercado das Velharias em Estremoz, reincido em ir ali todos os sábados, como peregrino que vai cumprir uma promessa. Trata-se do compromisso assumido de por ali deambular à procura de registos do passado, que me permitam não só deleitar o espírito, como saciar a minha avidez de contar estórias. É que os objectos encerram em si estórias que se torna imperativo decifrar, para que possam ser transmitidas à comunidade. Daí que aqui dê conta de três exemplares de arte pastoril alentejana ali recentemente adquiridos.

Con­­sagração eucarística
A imagem mostra um invulgar exemplar de arte pastoril em madeira, representando o cálice, vaso sagrado onde, na Missa, se consagra o vinho no Sangue de Jesus Cristo. Vê-se ainda a hóstia circular, que se torna no seu Corpo às palavras da consagração.
O artefacto em madeira simboliza a Con­­sagração Eucarística, mo­men­to culminante da Missa em que, às pa­lavras de Jesus Cristo na Última Ceia, proferidas em sua me­mória pelo sacerdote celebrante, o pão e o vinho se transubstanciam no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo.


Consagração eucarística.

Forca de fazer cordão
Trata-se de uma alfaia em madeira usada em tecnologia têxtil rural na manufactura de cordão e cuja origem remonta ao período viking (01) e medieval (02). O seu uso terá diminuído depois do séc. XII (02) e renascido no séc. XVII (04), para diminuir novamente no início do séc. XIX (3). Era usada no fabrico de cordão para utilizar no vestuário ou para pendurar objectos do cinto.
A forca de fazer cordão tem sempre uma extremidade em forma de lira, na qual se manufactura o cordão e, na extremidade oposta uma alça pela qual a forca se segura na mão que não está a ser utilizada na produção de cordão. No caso presente, a alça da forca é de forma circular e assemelha-se à cabeça de uma cágueda (fecho de coleira de gado com chocalho suspenso). Está dividida em duas partes: um circulo central e uma coroa circular que lhe é circundante, ambos lavrados. O círculo central simula uma flor com pétalas irradiando do centro e ligeiramente encurvadas para a direita do observador. A coroa, à excepção da sua parte inferior está decorada com um padrão de zig-zag. A inscrição “ANTONIO” gravada no verso da forca, perpetua na madeira o antropónimo do artista popular que a concebeu e executou.
  
Forca de fazer cordão.

Descamisador
O descamisador (ou sovino) era uma alfaia agrícola, outrora utilizada nas descamisadas, para retirar as folhas que envolvem as maçarocas de milho após a respectiva colheita, de modo a prepará-las para a debulha. O descamisador era muitas vezes em madeira, consistindo de um pau pontiagudo, mais ou menos trabalhado. Com uma mão segurava-se uma maçaroca e com a outra empunhava-se o descamisador, cuja ponta era feita incidir longitudinalmente sobre a maçaroca, de modo a cortar as folhas sobrepostas, que depois eram separadas dela. A descamisada era um trabalho colectivo nocturno, de entreajuda e de convívio da comunidade vicinal.

Descamisador.

BIBLIOGRAFIA
(01) PETTERSSON, Kerstin.  En gotländsk kvinnas dräkt. Kring ett textilfynd från vikingatiden, Tor 12. Societas Archaeologica Upsaliensis. Uppsala, 1967-1968 (pág. 174- 200).
(02) - MACGREGOR, Arthur. Bone, Antler, Ivory and Horn: The Technology of Skeletal Materials since the Roman Period.  Croom Helm. London, 1985.
(03) - GROVES, Sylvia. The History of Needlework Tools and Accessories. Hamlyn Publishing. Middlesex, 1966.
 (04) - Oxford English Dictionary. Ver: “Lucets”.

domingo, 9 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Preta florista


Preta florista. Ana das Peles (1859-1945).


Figura antropomórfica feminina, seminua [1], cor de chocolate, de pé, com as mãos segurando uma canastra com flores, à altura da cintura. A canastra [2] é amarela e apresenta lateralmente linhas incisas e inclinadas que se cruzam para parecer que a canastra foi entretecida com verga [3]. A canastra comporta flores policromáticas e folhas verdes.
Na cabeça, o cabelo curto é negro e picado para imitar carapinha.
A cabeça está envolvida superiormente por um turbante de forma cilíndrica, cor de zarcão e com linhas incisas na horizontal [4]. O turbante está decorado na parte lateral esquerda com um laço amarelo, do qual pende a ponta do turbante que cai até ao peito da figura. As linhas incisas do turbante, apresentaram uma pintura amarela, praticamente toda sumida [5].
Os olhos são dois círculos negros em fundo circular branco [6]. O nariz é uma saliência larga e a boca está pintada de vermelho.
Das orelhas pendem duas argolas amarelas de formato oval, representando brincos. O pescoço é de formato cilíndrico e está envolto por um lenço cor de zarcão [7] com as pontas pendentes e unidas na parte frontal superior do tronco.
Os braços são cilindriformes, arqueados para dentro e na sua extremidade, as mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. Cada um dos ombros está ornamentado com três flores policromáticas, de forma cónica.
As pernas são cilindriformes e nas suas extremidades os pés apresentam linhas incisas, configurando os dedos [8].
A figura veste uma saia curta e rodada, cor de zarcão, ornamentada próximo do fundo com uma barra amarela, de aspecto cordiforme [9]. Na cintura, um fita amarela [10] que termina num laço de pontas pendentes na parte posterior.
A figura assenta numa base circular de cor verde, com círculos entalhados e da mesma cor, junto à orla [11].





[1] A figura está seminua porque usa apenas saia e tem o tronco a descoberto. A representação é comum aos demais barristas estudados, exceptuando-se José Moreira, cujo modelo enverga um vestido.
[2] No Bonecos de Ana das Peles, de Liberdade da Conceição e de Maria Luísa da Conceição, a canastra não apresenta pegas, como acontece nos restantes barristas estudados.
[3] Ana das Peles imita o entretecimento da verga na canastra recorrendo a incisões. Maria Luísa da Conceição fá-lo recorrendo a linhas inclinadas cor de laranja, as quais se cruzam. Os restantes barristas estudados não simulam o entretecimento da verga. Apenas a canastra de Liberdade da Conceição está decorada no bordo superior com traços alternadamente azuis e cor de zarcão.
[4] O turbante da imagem de José Moreira, ao contrário dos demais, é de cor amarela com uma faixa cor de zarcão e não apresenta linhas incisas na horizontal.
[5] O mesmo acontece nas linhas do turbante do exemplar de Mariano da Conceição. Já nas figuras de Sabina da Conceição e das Irmãs Flores, a pintura amarela das linhas incisas do turbante é bem visível. Por sua vez, nas imagens de Liberdade da Conceição e de Maria Luísa da Conceição, as linhas incisas do turbante foram pintadas a vermelho.
[6] O mesmo se passa em todos os exemplares estudados, à excepção do de Maria Luísa da Conceição, no qual os olhos são dois círculos negros em fundo elíptico branco.
[7] É o que acontece nas restantes figuras estudadas, à excepção da de Mariano da Conceição, em que o lenço é amarelo com pintas cor de zarcão, assim como na das Irmãs Flores, na qual o lenço apresenta uma faixa amarela e outra cor de zarcão, no sentido longitudinal.
[8] Ana das Peles e Mariano da Conceição não configuraram as unhas, o que não acontece nos restantes barristas estudados. Nestes, as unhas podem aparecer com diferentes cores: creme (José Moreira), castanho (Sabina da Conceição), cor de zarcão (Liberdade da Conceição e Maria Luísa da Conceição) e cinzento claro (Irmãs Flores).
[9] O artefacto de José Moreira, ao contrário dos restantes, não apresenta junto do fundo, uma barra amarela de aspecto cordiforme. Apresenta sim, duas barras lisas, uma cor de zarcão na orla do vestido e outra azul-escuro, mais para cima.
[10] No espécimen de José Moreira, a fita é cor de zarcão.
[11] Os círculos são da mesma cor verde da base. Exceptua-se o exemplar de José Moreira, no qual os círculos foram alternadamente pintados de branco e cor de zarcão. Exceptua-se ainda o artefacto de Liberdade da Conceição, no qual os círculos foram preenchidos a azul- escuro.

Preta florista. Mariano da Conceição (1903-1959).

Preta florista. Sabina da Conceição (1921-2005).

Preta florista. Liberdade da Conceição (1913-1990).


Preta florista. José Moreira (1926-1991).


Preta florista. Irmãs Flores (1957, 1958-)


Preta florista. Maria Luísa da Conceição (1934-2015).

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Quirina Alice Marmelo


Fig. 1 - Quirina Marmelo (1922-2009) a trabalhar na sua oficina perante o olhar
embevecido de uma admiradora, a minha madrinha de baptismo Maria da
Conceição Carmelo Figueira. Fotografia de autor desconhecido, c. 2000.
 Arquivo fotográfico do autor.

Nasceu a 10 de Janeiro de 1922 numa casa dos montes da Igreja, na freguesia de São Lourenço de Mamporcão, concelho de Estremoz. Filha legítima de Silvestre António Marmelo, de 50 anos, trabalhador, natural da freguesia de Santo António da Terrugem do concelho de Elvas e de Joaquina de Jesus, de 40 anos, doméstica, natural da freguesia de São Lourenço de Mamporcão, concelho de Estremoz (6).
A 3 de Março de 1973, com 51 anos de idade, casou catolicamente com António Lino de Sousa, de 54 anos, oleiro, natural da freguesia de Redondo, concelho de Redondo. O casamento ficou sujeito ao regime imperativo de separação de bens, nos termos da alínea b) do nº 1 do artº 1920 do Código Civil. A celebração do matrimónio decorreu na Igreja Matriz de Santa Maria de Estremoz e foi presidida pelo Padre Júlio Luís Esteves (3).
Quirina começou a trabalhar no campo aos 11 anos, onde trabalhou até ingressar como cozinheira no refeitório da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, em 15 de Novembro de 1962, na qualidade de contratada. O Contracto Individual de Trabalho foi assinado a rogo de Quirina, visto esta não saber ler. Em 25 de Setembro de 1981 deixa de ser cozinheira e passa à condição de servente contratada, tendo sido dispensada da habilitação (4ª classe) por certidão passada pela Direcção-geral de Educação de Adultos. De 3 de Novembro de 1982 até à sua aposentação, em 29 de Outubro de 1986, teve a categoria de contínua de 2ª classe. A última classificação de serviço que teve foi Bom (5).
Quirina enviuvou a 5 de Junho de 1982, com a idade de 60 anos, tendo o marido sido vítima de insuficiência cardíaca – edema agudo do pulmão. (1)
Ainda em vida do marido, Quirina confeccionava Bonecos com ele e pintava os de ambos, visto que a pintura não era uma tarefa que agradasse ao marido. Após se ter aposentado como cozinheira, Quirina (Fig. 1) dedicou-se em exclusivo à manufactura de Bonecos na sua oficina-loja na Rua Arco de Santarém, nº 4, onde também comercializava louça do Redondo e de São Pedro do Corval. Outro ponto de venda dos seus Bonecos era o Museu Municipal de Estremoz.
A cozedura dos Bonecos era feita inicialmente num forno a lenha que o marido António Lino construíra no quintal da sua residência. Só nos últimos anos da sua vida é que Quirina passou a cozer numa mufla eléctrica, actualmente utilizada por seu neto, Duarte Catela.
As suas figuras tanto antropomórficas como zoomórficas têm um aspecto por um lado vigoroso e por outro lado simplificado quando comparado com as de outros barristas. A esta manufactura sui-generis está associada uma pintura que utiliza cores não convencionais. Tudo isto torna inconfundíveis os seus Bonecos.
Enquanto foi viva, Quirina participou primeiro na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz e na FIAPE depois, bem como na Feira de São Mateus, em Elvas. Participou ainda em exposições individuais e colectivas, promovidas pelo Museu Municipal de Estremoz. Viria a falecer no dia 23 de Setembro de 2009, com 87 anos de idade. Morava então na Rua Alexandre Herculano, nº 100, em Estremoz (4), (2).

BIBLIOGRAFIA
(1) - António Lino de Sousa - Assento de Óbito nº 87 de 1982, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(2) - QUIRINA ALICE MARMELO – Agradecimento in Brados do Alentejo nº 721, 01/10/2009. Estremoz, 2009 (pág. 2).
(3) - Quirina Alice Marmelo - Assento de Casamento nº 18 de 1973, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(4) - Quirina Alice Marmelo - Assento de Óbito nº 181 de 2009, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(5) - Quirina Alice Marmelo - Processo Individual de funcionária nº 748.
(6) - Quirina Alice Marmelo - Registo de Nascimento nº 81 de 1922, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: António Lino de Sousa


Fig. 1 – Operação de desenfornar na Olaria Alfacinha nos anos 50 do séc. XX.
Ao centro António Lino de Sousa (1918-1982) com cerca de 40 anos. À sua
esquerda Caetano da Conceição e à sua direita Jerónimo da Conceição.
Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988). Arquivo fotográfico do autor. 

Nasceu a 4 de Junho de 1918 numa casa da rua do Poço Novo, na freguesia da Anunciação, concelho de Redondo. Filho legítimo de José Arnaldo de Sousa Meneses, de 24 anos, oleiro, natural da freguesia da Conceição, concelho de Vila Viçosa e de Isabel Maria Lopes, de 19 anos, doméstica, natural da freguesia da Anunciação, concelho de Redondo (3).
Aos 12 anos entrou como aprendiz na Olaria Alfacinha, onde chegou a rodista. Era popularmente conhecido por duas alcunhas “Mouco” e “Redondeiro”.
A 3 de Março de 1973, com 54 anos de idade, casou catolicamente com Quirina Alice Marmelo, de 51 anos, cozinheira, natural da freguesia de São Lourenço, concelho de Estremoz. O casamento ficou sujeito ao regime imperativo de separação de bens, nos termos da alínea b) do nº 1 do artº 1920 do Código Civil. A celebração do matrimónio decorreu na Igreja Matriz de Santa Maria de Estremoz e foi presidida pelo Padre Júlio Luís Esteves, pároco da freguesia (4).
Foi na Olaria Alfacinha (Fig. 1) que, com Mestre Mariano da Conceição, aprendeu a manufactura de Bonecos de Estremoz, visando reforçar o seu magro salário. A isso se dedicava nos dias de folga, no que era acompanhado por Quirina, que além de manufacturar os seus próprios Bonecos, pintava os de ambos, visto que ao marido não lhe agradava pintar. O barro utilizado por António Lino era por ele recolhido nos Barreiros e preparado para modelar. A cozedura dos Bonecos era feita num forno a lenha que construíra no quintal da sua residência.
Por motivos de saúde, António Lino teve em 1976 de deixar a Olaria Alfacinha, dedicando-se então em exclusivo à confecção de Bonecos na sua oficina-loja na Rua Arco de Santarém, nº 4, onde igualmente comercializava louça do Redondo e de São Pedro do Corval. Outro local de venda dos seus Bonecos era o Museu Municipal de Estremoz, próximo da sua casa. Nunca frequentou feiras.
Uma coisa chama desde logo a atenção nas suas figuras: as dimensões diminutas das suas bases.
António Lino viria a falecer no dia 5 de Junho de 1982, com 64 anos de idade, vítima de insuficiência cardíaca – edema agudo do pulmão. Morava na Rua Arco de Santarém, nº 4 (2), (1).

BIBLIOGRAFIA
(1) - AGRADECIMENTO - António Lino de Sousa in Brados do Alentejo nº 67, 25/06/1982. Estremoz, 1982 (pág. 2).
(2) - António Lino de Sousa - Assento de Óbito nº 87 de 1982, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(3) - António Lino de Sousa - Registo de Nascimento nº 185 de 1918, da Conservatória do Registo Civil do Redondo.
(4) - António Lino de Sousa - Assento de Casamento nº 18 de 1973, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Os Militares


Lanceiro. Sabina da Conceição.

No conjunto dos “Bonecos da Tradição” existem figuras que têm a ver com a realidade local, nas quais se insere um sub-conjunto de imagens que são os militares: Lanceiro (Fig. 1), Lanceiro com bandeira (Fig. 2), Sargento (Fig. 3) e Sargento no Jardim (Fig. 4).
Estremoz foi desde sempre uma praça militar com alguma importância estratégica, daí que a comunidade local se tenha habituado a conviver com a instituição militar e alguns dos seus membros estejam representados nos “Bonecos da Tradição”. Desde 5 de Abril de 1875 que o Regimento de Cavalaria n.º 3 se encontra definitivamente instalado em Estremoz. O RC3 é herdeiro das tradições e património do Regimento dos Dragões de Olivença e do Regimento de Lanceiros n.º 1.

 Lanceiro com bandeira. Ana das Peles.

Sargento. Isabel Carona.

Sargento no jardim. Mariano da Conceição.