quarta-feira, 22 de maio de 2019

Bonecos de Estremoz: morfologia e cromática dos assobios zoomórficos


No conjunto dos Bonecos da Tradição incluem-se os assobios zoomórficos: Pomba (Fig. 1), Galo (Fig. 2), Galo no disco (Fig. 3), Galo na árvore (Fig. 4), Galo no pinheiro (Fig. 5), Galo no arco (Fig. 6), Galo no poleiro (Fig. 7), Galinha no choco (Fig. 8) e Cesto com ovos (Fig.  9). Procederei aqui ao estudo das formas que os assobios zoomórficos podem ter,  bem com a arte de neles combinar as cores.


 Fig. 1 - Pomba – José Moreira (sd).
Pomba branca com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico cor de zarcão, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e o pescoço ostenta atada uma fita azul claro, com duas pontas pendentes. As asas recolhidas estão definidas por dois traços negros e a cauda igualmente pintada de negro, apresenta incisões para definição das penas. As patas são dois pedaços de arame, os quais assentam na base circular, de cor branca e pintalgada de amarelo, verde e zarcão. A orla da base apresenta incisões, alternadamente pintadas a verde e a zarcão.  Bocal de sopro cor de barro.

Fig. 2 - Galo – José Moreira (sd).
Galo branco com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão, apresentando a última incisões. As asas recolhidas estão definidas por um traço negro, perpendicularmente ao qual se observam três traços negros para definição das penas. A cauda erguida ostenta igualmente três traços negros para definição das penas. As patas são dois pedaços de arame, os quais assentam na base circular, de cor branca e pintalgada de amarelo e zarcão. Bocal de sopro cor de barro.

Fig. 3 - Galo no disco – José Moreira (sd).
Galo branco com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo e empinado, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão. As asas recolhidas estão definidas por um traço negro e perpendicularmente ao qual se observam quatro traços negros para definição das penas. A cauda igualmente pintada de negro, apresenta incisões para definição das penas. O peito apresenta também quatro pontos negros para definição das penas. As patas são dois pedaços de arame apoiados num tronco cilindrico e branco, em cujo topo se observam as patas pintadas a amarelo. O tronco está assente numa peanha circular da mesma cor, alternando na orla, riscas a verde e a zarcão, bem como incisões, alternadamente pintadas de cada uma dessas cores. Bocal de sopro cor de barro.

 Fig. 4 - Galo na árvore – José Moreira (sd).
Galo branco com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão. As asas recolhidas estão definidas por um traço e três pontos negros para definição das penas. A cauda igualmente pintada de negro, apresenta incisões para definição das penas. O peito apresenta também quatro pontos negros para definição das penas. As patas são dois pedaços de arame apoiados no topo de uma árvore estilizada em forma de tronco cilindrico e branco, encimado por quatro elementos elípticos e a verde, para simbolizar a folhagem. Por sua vez, o tronco assenta numa base circular, de cor branca e pintalgada de amarelo, verde e zarcão. A orla da base apresenta incisões, alternadamente pintadas a verde e a zarcão.  Bocal de sopro cor de barro.

Fig. 5- Galo no pinheiro – José Moreira (sd).
Galo branco com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão. As asas recolhidas estão definidas por um traço que encima três  pontos negros para definição das penas. A cauda apresenta incisões e traços negros para definição das penas. O peito apresenta igualmente quatro pontos negros para definição das penas.  As patas são dois pedaços de arame apoiados no topo de um pinheiro estilizado em forma de tronco cilindrico e branco, coberto à frente por catorze elementos elípticos e a verde, para simbolizar a folhagem. Por sua vez, o tronco assenta numa base circular, de cor branca e pintalgada de amarelo, verde e zarcão. A orla da base apresenta incisões, alternadamente pintadas a verde e a zarcão.  Bocal de sopro cor de barro. 

Fig. 6 - Galo no arco – Maria Luísa da Conceição (sd).
Galo branco com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão. As asas recolhidas estão definidas por traços negros para definição das penas. A cauda igualmente pintada de negro, apresenta incisões para definição das penas. O peito apresenta também traços negros para definição das penas. As patas são dois pedaços de arame apoiados no topo de um arco cor de zarcão e em forma de U invertido, que apresenta de cada lado três elementos elípticos, verdes e pintalgados de amarelo, sugerindo folhagem. O arco assenta numa base circular, de cor branca e pintalgada de amarelo, verde e zarcão. Bocal de sopro cor de barro.   

Fig. 7 - Galo no poleiro – Sabina Santos (sd).
Galo branco com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão. As asas recolhidas estão definidas por um traço negro, perpendicularmente ao qual se observam quatro incisões e três traços negros para definição das penas. A cauda apresenta igualmente três incisões e traços negros para definição das penas. As patas são dois pedaços de arame apoiados no topo de um poleiro castanho, constituido por duas barras paralelepipédicas, inclinadas em relação à vertical e terminadas em bico, sobrepostas a outras duas barras. A inferior é paralelepipédica e encontra-se na posição horizontal. A superior configura um sector circular tridimensional. A junção dos quatro componentes do poleiro é assegurada por quatro discos amarelos que sugerem rebites. O poleiro assenta numa numa base circular, de cor branca e pintalgada de amarelo, verde e zarcão. Bocal de sopro castanfo. 

Fig. 8 - Galinha no choco – Maria Luísa da Conceição (sd).
Galinha branca com corpo ovóide, pescoço de forma tronco-cónica e bico amarelo, de geometria cónica. Os olhos circulares são negros e a barbela e a crista são cor de zarcão. As asas recolhidas estão definidas por uma mancha negra. A cauda erguida ostenta igualmente traços negros e incisões para definição das penas. A galinha simula chocar ovos dentro de uma cesta de vime, de cor creme e com uma asa entrançada. A cesta assenta numa base circular, de cor branca e pintalgada de verde, amarelo e zarcão. Bocal de sopro cor de barro.

Fig. 9 - Cesto com ovos – Jorge da Conceição (2017).
Cesta de cor creme com incisões simulando vime e com uma asa entrançada da mesma cor. A cesta contem ovos de cor creme e assenta numa base circular, de cor verde e pintalgada de branco, amarelo, laranja e zarcão. Bocal de sopro verde-escuro.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Bonecos de Estremoz: Isabel Carona Bento


Isabel Carona ou Isabel Bento (1949-2006). Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

ISABEL RITA VARGAS CARONA BENTO (1949-2006)

A 23 de Julho de 1949, nasce na rua Direita nº1, em Estremoz, uma criança do sexo feminino, a quem foi dado o nome de Isabel Rita Vargas Carona, filha de António José Lopes Carona, trabalhador, e de Palmira de Jesus Moreira Vargas, doméstica (4).
A 6 de Julho de 1965, na qualidade de doméstica e com a idade de 15 anos, casou na igreja de São Francisco, em Estremoz, com José Manuel Mimoso Malhinhas, serralheiro, de 19 anos de idade, morador na rua Direita, nº 88 em Estremoz, filho de José Joaquim Malhinhas, natural da freguesia de Santo André em Estremoz e de Maria Joaquina Mimoso, natural da freguesia de São João Baptista, Castelo de Vide. Isabel passou então a usar o apelido Malhinhas (1).
O casamento foi dissolvido por divórcio em 1981, tendo Isabel deixado de usar o apelido Malhinhas, adoptado na altura do casamento. Isabel desloca-se então para Lisboa, onde, entre outras profissões, é empregada doméstica e empregada de um cinema.
A 3 de Outubro de 1984 e com a idade de 35 anos, Isabel casa na Conservatória de Registo Civil de Montijo, com Francisco José Cardoso Bento, de 29 anos de idade, natural da freguesia de Sarilhos Grandes, Montijo, filho de Francisco Ismael Bento e de Maria Antónia Cardoso. Isabel adopta então o apelido Bento (2). Fixa residência na rua do Poço Novo, nº 11, em Sarilhos Grandes, Montijo, onde vem a falecer a 26 de Junho de 2006, com a idade de 57 anos (3).
Isabel Carona Bento, conjuntamente com Fátima Estróia, foi uma das primeiras discípulas de Sabina Santos, com a qual trabalhou dez anos. Por motivos de natureza pessoal da discípula, Sabina prescindiu da sua colaboração. Ao fixar-se em Sarilhos Grandes, retoma a actividade bonequeira, mas não tem capacidade de cozer o que manufactura, pelo que os especímenes, depois de secos, são pintados e envernizados, sem terem sido cozidos. Só depois do segundo casamento, Isabel passa a cozer a sua produção e a marca de autor passa a ser diferente da anterior.
Ainda que discípula de Sabina Santos, e ao contrário de Fátima Estróia e das Irmãs Flores, a representação do olhar não é conseguida por Isabel, com as pestanas e as sobrancelhas afastadas da menina do olho. Ela utiliza apenas um traço para representar cada sobrancelha, acima da menina do olho. Os seus Bonecos não são, de resto, tão esguios e elegantes como os de Sabina.

BIBLIOGRAFIA
(1) - Isabel Rita Vargas Carona - Assento de Casamento 70 de 1965, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(2) - Isabel Rita Vargas Carona Assento de Casamento 148 de 1984, da Conservatória do Registo Civil do Montijo.
(3) - Isabel Rita Vargas Carona Assento de Óbito 248 de 2006, da Conservatória do Registo Civil do Montijo.
(4) - Isabel Rita Vargas Carona - Registo de Nascimento 326 de 1949, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.

sábado, 18 de maio de 2019

Bonecos de Estremoz: Francisca Vieira de Barros


Fig. 1 - Francisca Emília Guerra Vieira de Barros (1874-1957) com a idade de 47 anos,
fotografada com seu marido Manuel Duarte Baptista de Barros (1870-1958), com a
idade de 51 anos. Fotografia de Furtado e Reis, Rua de Santa Justa, nº 107, Lisboa,
obtida em 1921. Arquivo fotográfico do autor. 

FRANCISCA EMÍLIA GUERRA VIEIRA DE BARROS (1874-1957)

Nasceu a 4 de Outubro de 1874 numa casa da Rua Direita, na freguesia de Vimieiro, concelho de Vimieiro. Filha legítima de João José Vieira, proprietário, natural da freguesia de Vimieiro e de Emília Vitória, de profissão governo de casa, natural da freguesia de Brotas, concelho de Évora. Francisca Emília seria baptizada a 9 de Novembro de 1874, na igreja paroquial do Vimieiro (3).
A 20 de Janeiro de 1897 e com a idade de 22 anos viria a casar com Manuel Duarte Baptista de Barros, de 26 anos, secretário da Santa Casa da Misericórdia de Estremoz. O casamento teria lugar na igreja paroquial de São Bento do Ameixial, concelho de Estremoz. A noiva viria a adoptar de seu marido o apelido Barros (4).
Manuel Duarte Baptista de Barros nascera a 23 de Outubro de 1870 numa casa do Largo da Porta Nova, em Estremoz. Filho legítimo de José Baptista de Barros, negociante e proprietário, natural de Santa Maria Madalena de Alvaiázere, concelho de Alvaiázare e de Maria Apolónia Duarte, governadeira de sua casa, natural da freguesia de Vidigão, concelho de Arraiolos. Manuel Duarte viria a ser baptizado a 22 de Novembro de 1870, na igreja paroquial de Santo André, em Estremoz (7).
O historiador Diogo Vivas (9) estabeleceu uma biografia muito completa do marido de Francisca Emília: “Manuel Duarte Baptista de Barros, filho de José Baptista de Barros e de Maria Apolónia Duarte, nasceu na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz, a 23 de Outubro de 1870. A sua educação ficou a cargo de um tio uma vez que ainda muito novo viria a perder os seus pais. Completada, às expensas do tio, a sua formação liceal em Évora teve por objectivo prosseguir os seus estudos em Lisboa, na Faculdade de Farmácia. Porém, não sendo aceite essa nova deslocação para estudo, manteve-se em Estremoz onde foi nomeado Secretário da Santa Casa da Misericórdia de Estremoz, cujo cargo desempenhou até à aposentação. Em 20 de Janeiro de 1897 casou com Francisca Emília Guerra Vieira de Barros, na freguesia de São Bento do Ameixial, concelho de Estremoz. Nas eleições de 14 de Novembro de 1917, candidatando--se nas listas do Partido Republicano Português, foi eleito Presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Estremoz. Tomou posse a 2 de Janeiro de 1918 estando em exercício de funções até 4 de Fevereiro do mesmo ano, quando a Comissão é dissolvida na sequência da chegada ao poder de Sidónio Pais. Terminado o consulado sidonista é novamente empossado como Presidente da referida Comissão a 7 de Março de 1919. Mantém-se no cargo até 1 de Janeiro de 1923. Iniciado a 22 de Julho de 1909 no Triangulo n.º 114, do REAA, de Estremoz com o nome simbólico “Marquês de Pombal”. Atingiu o grau 6.º em 20 de Fevereiro de 1918. Fundador do Triângulo e da Loja Propaganda em 10 de Janeiro de 1910. Filiado, por passagem, em 21 de Março de 1924 na Loja Acácia, n.º 281, de Lisboa. Faleceu a 2 de Abril de 1958 na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz.” Sabe-se que Francisca Emília e Manuel Duarte (Fig. 1) moravam no nº 28 e 30 da Rua Dr. Oliveira Salazar, antiga Rua de Santa Catarina e actual Rua 31 de Janeiro, em Estremoz. Francisca Emília era uma Senhora de Sociedade e modelava os seus Bonecos, por um misto de motivação interior e de recreação, não os comercializando, mas oferecendo-os a familiares e pessoas amigas.
A Dr.ª Maria Margarida Barros de Queiroz Martins Mantero Morais, nascida em Estremoz a 20 de Novembro de 1934, e sobrinha-neta de Francisca de Barros, prestou-me um interessante e valioso depoimento escrito (6) que ajuda a caracterizar a barrista, o qual passo a transcrever:A Tia Francisca Vieira de Barros (Fig. 1) minha Tia-Avó, era cunhada do meu Avô José Baptista de Barros, casada em 1897 com o seu único irmão Manuel Duarte de Barros. Em família, todos lhe chamavam Chica. Era a Tia Chica para a minha Mãe e minhas Tias, a Avó-Chica para o único neto, meu primo Manuel Joaquim Monteiro de Barros, poucos anos mais velho do que eu. As lembranças que guardo dela fazem parte das minhas memórias de criança. Datam dos meus 8 ou 9 anos, talvez 10, portanto de 1942, 43 ou 44, uma vez que eu nasci em 1934.
Era uma senhora muito recatada. Não era expansiva, nem muito alegre, mas serena, calma e afável. Não tenho qualquer ideia de vê-la fora de casa. Nunca participava nas reuniões familiares. Já o mesmo não se passava com o marido, o Tio Manuel, que visitava com alguma frequência os meus avós e que eu conhecia bem e encontrava por vezes na rua. Eu morava com os meus pais numa casa perto da sua, na mesma rua. Talvez fosse esta a principal razão por que ele me levou várias vezes até à Tia Chica para a ver a fazer bonecos.
Quando eu chegava, ela estava sempre sozinha numa pequena sala ao fundo do corredor, perto da cozinha, com muita luz, a trabalhar. Interrompia a sua actividade, parecia agradada com a minha presença e afavelmente explicava-me o que estava a fazer.
Recordo-a com um grande avental em frente de uma mesa de madeira onde havia barro, tintas e pincéis. Dizia-me que eu podia mexer onde quisesse e dava-me algum barro para eu modelar. Devo confessar que Deus não me fadou para tal arte e nada saía de jeito, mas gostava imensamente de ali estar naquela pequena sala muito iluminada pela luz do dia, num ambiente diferente e para mim um pouco estranho. Olhava-a maravilhada e admirada como era possível de um bocado de terra mole saírem santos, pastores e borreguinhos.
Um Natal deu-me um presépio com as três figuras principais, de que me restam apenas a Nossa Senhora e o São José.
A ideia que eu guardo da Tia Chica é a de uma Senhora que não fazia renda, não ia para as Termas como a minha Avó, nem saía de casa como a minha Mãe ou as minhas Tias. Vivia muito só, fechada no seu mundo e dedicava todo o tempo que lhe sobrava das tarefas domésticas a fazer os seus Bonecos de Estremoz.”
Aos Bonecos de Francisca Emília se refere o poeta e escritor Celestino David (1880-1952), no nº 628 do jornal Brados do Alentejo, de 31 de Janeiro de 1943 (1), no qual são reproduzidas e por ele descritas cerca de 50 figuras executadas pela barrista. Diz-nos ele: “Com esse pensamento, a sr.ª D. Francisca Vieira de Barros, fez com inteligência e aptidão artística, uma colecção muito interessante, interpretada por amadorismo da plasticidade, de sua inovação, cópia de modelos humanos de que ressalta a realidade das atitudes, expressões, indumentárias, cores, tudo de uma parecença exacta que é pena – esta senhora que me perdõe – não precisar viver disso para desenvolver o comércio desses novos Bonecos de Estremoz. Outros poderão tentá-lo com tal fim”.
Francisca Emília Guerra Vieira de Barros, após prolongado sofrimento, faleceu a 7 de Setembro de 1957, com a idade de 82 anos (5), (2), (8). Era mãe do Eng.º José Manuel Vieira de Barros e avó do Eng.º Manuel Joaquim Monteiro de Barros.
Francisca Emília está representada no acervo do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, o qual inclui figuras como “Primavera”, “Rei negro”, “Mulher a passar a ferro”, “Pastor” e “Mulher da azeitona”. Está ainda representada em colecções particulares como a de seu neto Eng.º Manuel de Barros, sua sobrinha neta Dr.ª Maria Margarida Mantero Morais, na colecção de Delfina Mota e na minha.
As Irmãs Flores informaram-me que, depois de elas terem aberto oficina por conta própria, uma senhora da família de Francisca Emília que morava na Praça Luís de Camões nº34, em Estremoz, foi à sua oficina oferecer-lhes os moldes em gesso que aquela barrista usava na feitura das caras dos Bonecos.

BIBLIOGRAFIA
(1) - DAVID, Celestino. A Plasticização do Barro de Estremoz in Brados do Alentejo nº 628, 31/01/1943. Estremoz, 1943 (pág. 14 e 15).
(2) - FALECIMENTOS – Francisca Emília Guerra Vieira de Barros in Brados do Alentejo nº 1368, 15/09/1957. Estremoz, 1957 (pág. 2).
(3) - Francisca Emília Guerra Vieira de Barros – Assento de Baptismo nº 67 de 1874 da Freguesia de Vimieiro, concelho de Estremoz.
(4) - Francisca Emília Guerra Vieira de Barros – Assento de Casamento nº 1 de 1897, da Freguesia de São Bento do Ameixial, concelho de Estremoz.
(5) - Francisca Emília Guerra Vieira de Barros – Extracto do Registo de Óbito nº 130 de 1957, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(6) - MANTERO MORAIS, Maria Margarida Barros de Queiroz Martins. Depoimento sobre Francisca Emília Guerra Vieira de Barros. Estremoz, 2018. sp.
(7) - Manuel Duarte Baptista de Barros – Assento de Baptismo nº 151 de 1870, da Freguesia de Santo André do Concelho de Estremoz.
(8) - NECROLOGIA – D. Francisca Emília Vieira de Barros in O Eco de Estremoz nº 2848, 15/09/1957. Estremoz, 1957 (pág. 2).
(9) - VIVAS, Diogo. Os Presidentes da Câmara Municipal de Estremoz 1910–2006. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2006. (pág. 59-60).

Fig. 2 - Primavera. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
Acervo do Museu Municipal de Estremoz.

Fig. 3 - Rei negro. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
 Acervo do Museu Municipal de Estremoz.

Fig. 4 - Mulher a passar a ferro. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
Acervo do Museu Municipal de Estremoz.

Fig. 5 - Pastor. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
Acervo do Museu Municipal de Estremoz.

 Fig. 6 - Mulher da azeitona. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
 Acervo do Museu Municipal de Estremoz.

Fig. 7 - Amazona. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
 Colecção particular.

Fig. 8 - São João Baptista. Francisca Vieira de Barros (1874-1957).
 Colecção particular.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Sai uma passadeira vermelha para o comendador!


José Berardo no decurso da audição na Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa
Geral de Depósitos no passado dia 10 de Maio. Fotografia da ARTV.

Estremoz vai ter não um, mas dois museus Berardo. Cumprindo-se a máxima de que não há duas sem três, há-de somar-se aos dois anunciados mais um museu Berardo, quiçá do anedotário nacional. Berardo é, como se sabe, um amigo do povo português e, logo, há-de incluir-se no seu ramalhete de afetos o povo cá do burgo, que espera que o dito personagem trágico--cómico nos remeta para um novo mundo, de primeiríssima categoria. Berardo é, pois, um amigo de Estremoz e como tal homenageado e, como tal, são-lhe lambidas as botas até brilharem luzidias de um lustro nunca visto. É assim que, orgulhosos, os estremocenses mais ilustres fazem gala em serem vistos ao lado do grande senhor, grande empresário, grande colecionador, grande amante da arte e, claro está, grande amigo do povo português em geral e dos estremocenses em particular, grande comendador em dose dupla.
Berardo não tem nada. Mas diz “minha” quando fala da coleção que, afinal, não é dele. Berardo faz Ah! Ah! na Assembleia da República e o advogado puxa-lhe o braço: o menino comporte-se! Que figurinha tão triste. Há uns anos alguém me diria “o homem não tem propósito nenhum!”, querendo dizer que não tem maneiras, que é, de facto e irremediavelmente, um homem sem maneiras, um boçal. Mas tem uma coleção de arte, que afinal não tem, mas que porque ele quer, preencherá as salas do Palácio Tocha, ou talvez não.
Berardo tem uma garagem. Pasme-se! Como é que ele não conseguiu não ter uma garagem? Como se deu tão inusitado descuido? Berardo não tem dívidas, ou, se as tem, não estão em seu nome, não senhora. Três bancos, entre os quais o nacional, uniram-se para cobrar a dívida que não é de Berardo porque não está no seu nome. O Palácio Tocha não é de Berardo, não está no seu nome. Só a desavisada garagem vai direitinha, para alegria dos três bancos cobradores, servir a grandiosa penhora que retirará à dívida que não é de Berardo um átomo talvez.
Berardo é assim um enorme e fenomenal logro. Um homem de esquemas. Um ilusionista. Em suma, o protagonista de uma grande vigarice que saiu cara aos portugueses.
Por cá, estendam mais umas passadeiras vermelhas para o comendador passar, tudo protocolado como manda o figurino. Ah! E não esquecer as inaugurações, as palmadinhas nas costas e as fotografias, que estas, para o bem e para o mal, sempre documentarão quem está com quem, onde e a fazer o quê.

Ivone Carapeto
(Jornal E nº 223 – 16-05-2019)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

COLECÇÕES BERARDO: Cama, mesa e roupa lavada


No decurso da inauguração da fachada do futuro Museu Berardo de Estremoz,
ocorrida no passado dia 18 de Janeiro, o Senhor José Berardo cumprimenta o
então Presidente da CME, Senhor Luís Mourinha.

Um Protocolo que dá que falar
Na sua reunião de 17 de Abril, a Câmara Municipal de Estremoz (CME), deliberou por unanimidade (MIETZ e PS), aprovar a celebração de um Protocolo de Cooperação entre o Município de Estremoz e a Associação de Colecções (ADC), visando a realização de exposições de arte africana da "Colecção Berardo" no edifício da antiga Fábrica da Companhia de Moagem e Electricidade de Estremoz e Veiros", sito na Rua Serpa Pinto, n.ºs 83, 85 e 87 e Traseiras da Rua Serpa Pinto, em Estremoz, o qual é propriedade da ADC. O edifício encontra-se em processo de classificação na categoria de Monumento de Interesse Municipal, por deliberação da CME de 6 de Fevereiro de 2019.
A assinatura do Protocolo teve lugar no dia 29 de Abril, sendo a CME representada pelo Presidente Francisco Ramos e a ADC pelo Presidente do Conselho de Administração, José Berardo. Ao acto compareceu ainda o anterior Presidente do Município, Luís Mourinha, afastado do cargo por razões conhecidas.
Nos termos dos respectivos pressupostos, o Protocolo visa a introdução de uma forte componente cultural e artística no Município de Estremoz, a fim de colocar o concelho entre os destinos de lazer de maior sofisticação, capaz de atrair um turismo de qualidade, representando, simultaneamente, uma mais valia económica no que respeita à relação entre Cultura e Turismo;
O Protocolo encontra-se ligado e só será válido e definitivo com a aprovação do projecto de candidatura ao abrigo dos apoios financeiros comunitários do Portugal 2020, no âmbito da reabilitação daquele edifício, com vista à instalação ali do “Museu Berardo Estremoz – Arte Africana”. A validade do Protocolo é de 5 anos, com início na data de abertura do Museu e renovável automaticamente por iguais períodos, caso não seja denunciado por qualquer das Partes.

Obrigações da Câmara Municipal de Estremoz
CME obriga-se a: - Pagar todos os custos de manutenção relativos ao bom funcionamento do Museu, tais como: água, luz, aquecimento, ventilação, ar condicionado, telefone, Internet e elevador, bem como outros que aqui possam estar omitidos; - Contratar e custear os vencimentos do pessoal afecto ao Museu; - Pagar toda e qualquer despesa relativa a serviços que, eventualmente, sejam realizados por empresas exteriores. A título de exemplo: vigilância e segurança, contabilidade, limpeza, manutenção de elevadores e manutenção geral do edifício, entre outros; - Pagar a despesa total relativa à produção das exposições, nomeadamente, embalagem e acondicionamento das obras de arte, transporte, seguros das obras de arte pelo período a determinar, desembalagem ou abertura de caixas, montagem de exposições, material museográfico, informativo e comunicativo, ou outras que aqui possam estar omissas, a acordar caso a caso entre as partes; - Contratar um seguro de responsabilidade civil que cubra, em cada momento, todos os riscos de perecimento, furto e roubo das obras de arte expostas no Museu; - Efectuar a gestão geral e cultural do Museu; - Conceptualizar, produzir e divulgar um plano de comunicação do Museu, que crie notoriedade e um posicionamento consistente, quer do produto museológico e expositivo, quer da zona de influência onde está enquadrado, explorando as suas potencialidades de Turismo Cultural; - Assegurar a colocação de sinalética direccional no Concelho e se possível nos Concelhos vizinhos; - Usar de toda a diligência para que a utilização, temporária ou permanente, do espaço envolvente do edifício não perturbe, mas antes assegure, a dignidade do Museu; - Estabelecer relações com terceiros em nome do Museu; - Negociar com terceiros os serviços de dinamização do Museu, nestes se incluindo a organização de exposições temporárias, serviço educativo, seminários, colóquios, workshops e outro tipo de eventos culturais.

Obrigações da Associação de Colecções
A ADC obriga-se a: - Disponibilizar o edifícipara o funcionamento do Museu a título gratuito; - Assegurar a disponibilidade das obras integrantes das diversas colecções, que compõem o acervo de arte africana da “Colecção Berardo” para serem expostas no Museu; - Ceder gratuitamente as obras de arte que vierem a compor as exposições; - Apoiar a gestão cultural do Museu através do acompanhamento da concepção, produção e montagem das exposições em articulação com a Direcção do Museu; - Ceder todas as informações disponíveis relativas às obras de arte, nomeadamente, fichas de inventário, fotografias e pareceres técnicos; - Implementar um circuito de vídeo vigilância digital, de monotorização e controlo via internet, mediante equipamento assegurado no âmbito do projecto de reabilitação; - Contratar e manter em seu nome um seguro de responsabilidade civil que cubra todos os riscos relativos ao edifício; - Contratar e manter em seu nome e no da “Colecção Berardo” um seguro de responsabilidade civil que cubra, em cada momento, todos os riscos de perecimento, furto e roubo das obras de arte armazenadas no edifício.

Proveitos
Pertencerão à CME todas as receitas de visitas ao Museu, cujo preço será por ela fixado. Constituem proveitos da ADC todas as receitas provenientes de rendas dos estabelecimentos de apoio ao Museu (cafetaria, livraria e serviços similares) que venham a ser instalados no espaço físico do edifício e cujo montante será por ela fixado.

Comentários Finais
O Senhor José Berardo é um finório afamado, perito em negócios da China com gestores do erário público, o qual recebe um chouriço por cada porco que lhe dá. Primeiro foi o Governo Português, presidido por outro José – o Sócrates, que lhe serviu de barriga de aluguer e lhe albergou a colecção de Arte no Centro Cultural de Belém. Depois foi o Município de Estremoz que se disponibilizou a dar “cama, mesa e roupa lavada” à sua colecção de Azulejos no Palácio Tocha e à colecção de Arte Africana na antiga Fábrica de Moagem e Electricidade.
A Câmara Municipal de Estremoz com o orçamento apertado, não tem dinheiro para mandar cantar um cego, mas deixou-se cair no conto do vigário do Senhor José Berardo. Os nossos edis podem como escuteiros ter praticado uma boa acção com este Senhor, convictos das dificuldades que ele atravessa, visto ser devedor à Banca de 980 milhões de euros. Todavia por essa boa acção não vão receber bem aventuranças no Reino dos Céus, mas manifestações de desagrado cá na Terra.
Os munícipes são sugados até ao tutano com impostos e taxas, de âmbito nacional ou municipal, cuja listagem me dispenso de enumerar, uma vez que esta crónica já vai longa. São esses impostos e taxas, que conjuntamente com o financiamento europeu quando o há, asseguram o orçamento municipal. Aos munícipes desagrada-lhes serem forçados a contribuir para o peditório do Senhor José Berardo. No meu caso, o desagrado transformou-se em repúdio que aqui fica registado para que conste.
Depois da berardização da paisagem na Herdade das Carvalhas na Glória, tudo indica que vamos assistir à berardização da Museologia em Estremoz. Ao que isto chegou.
Estremoz, 10 de Maio de 2019
(Jornal E nº 223 – 16-05-2019)

O Senhor José Berardo tendo a seu lado o actual Presidente da CME, Senhor
 Francisco Ramos. Fotografia obtida no decurso da inauguração da fachada do
futuro Museu Berardo de Estremoz, ocorrida no passado dia 18 de Janeiro.

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS – Fotografias recolhidas no Facebook do Município de Estremoz e aqui reproduzidas com a devida vénia.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Bonecos de Estremoz: os assobios


Fig. 1 - Pomba no choco - Ana das Peles (1938)

Os modelos tradicionais de assobio, em número de quinze, distribuem-se por três grandes categorias:
- ASSOBIOS ZOOMÓRFICOS [Pomba (Fig. 2), Galo (Fig. 3), Galo no disco (Fig. 4), Galo na árvore (Fig. 5), Galo no pinheiro (Fig. 6), Galo no arco (Fig. 7), Galo no poleiro (Fig. 8), Galinha no choco (Fig. 9) e Cesto com ovos (Fig.  10)];
- ASSOBIOS ANTROPOMÓRFICOS [Senhora (Fig. 11), Peralta (Fig. 12) e Sargento (Fig. 13)];
- ASSOBIOS COMPOSTOS (ZOOMÓRFICOS E ANTROPOMÓRFICOS) [Amazona (Fig. 14), Peralta a Cavalo (Fig. 15) e Sargento a Cavalo (Fig. 16)].
Os assobios compostos têm base rectangular e o bocal de sopro está localizado na cauda do cavalo. Um rolo de barro foi aí colado com barbotina e depois furado com um arame grosso da base exterior do rolo para o interior, até cerca de metade do comprimento. Na parte superior
do rolo foi depois efectuado outro furo, até encontrar o primeiro.
Os assobios zoomórficos e antropomórficos têm uma base cilíndrica de altura diminuta ou em forma de menisco convexo, nos quais está inserido o bocal de sopro. Desde sempre que este bocal era manufacturado, montando e furando um rolo de barro, tal como era feito para os assobios compostos. Todavia, Maria Inácia Fonseca, uma das Irmãs Flores, introduziu uma técnica diferente: o menisco convexo passa a ser mais alto e dele, por estiramento numa determinada direcção, resulta o indispensável tubo, que é furado da maneira anterior. O bocal de sopro passa então a ser mais curto e a proeminência correspondente, mais suave e mais discreta.
O interesse despertado pelos assobios (apitos) em barro de Estremoz, não é consensual entre os estudiosos. Assim, Pires de Lima (2), Director do Museu Etnológico e de História do Porto, não os incluiu entre os “Brinquedos Musicais” no seu estudo sobre “Brinquedos”, ao passo que António Ferro (1), Director do Secretariado de Propaganda Nacional, os distinguiu com uma referência no Prefácio de “Vida e Arte do Povo Português”: “Aqueles bonecos de barro, por exemplo, continuam a dizer-nos, na voz dos seus apitos, que Santo António, com o Menino Portugal nos seus braços, era de Lisboa e não de Pádua.”

BIBLIOGRAFIA
(1) - FERRO, António. Prefácio in Vida e Arte do Povo Português. Secretariado da Propaganda Nacional. Lisboa, 1940 (pág. 3).
(2) - PIRES DE LIMA, Fernando de C. Brinquedos in A Arte Popular em Portugal, vol III. Editorial Verbo. Lisboa, 1975 (pág. 250 a 290).


 Fig. 2 - Pomba – José Moreira (sd).

Fig. 3 - Galo – José Moreira (sd).

Fig. 4 - Galo no disco – José Moreira (sd).

 Fig. 5 - Galo na árvore – José Moreira (sd).

Fig. 6 - Galo no pinheiro – José Moreira (sd).

Fig. 7 - Galo no arco – Maria Luísa da Conceição (sd).

 Fig. 8 - Galo no poleiro – Sabina Santos (sd).

Fig. 9 - Galinha no choco – Maria Luísa da Conceição (sd).

Fig. 10 - Cesto com ovos – Jorge da Conceição (2017).

Fig. 11 - Senhora – Irmãs Flores (2010).

Fig. 12 - Peralta – José Moreira (sd).

 Fig. 13 - Sargento – José Moreira (sd).

Fig. 14 - Amazona – Sabina Santos (sd).

Fig. 15 - Peralta a cavalo – Sabina Santos (sd).

Fig. 16 - Sargento a cavalo – Irmãs Flores (2018).

sexta-feira, 10 de maio de 2019

O amor é cego


O Amor é cego (s/d) – Fátima Estróia (1948- ).

“O Amor é cego” é um Boneco de Estremoz cuja origem remonta ao séc. XIX. É considerado uma figura de Carnaval e uma alegoria à cegueira do amor e ao Cupido de olhos vendados. Trata-se de um tema recorrente na pintura universal, onde conheço os seguintes quadros: - Cupido com os olhos vendados (1452-1466) - Piero Della Francesca; - Primavera (c. 1482) - Sandro Botticelli (1445-1510); - Cupido, o pequeno amor com os olhos vendados perfura o peito de um jovem (séc. XVI) – Clément Marot; - O julgamento de Páris (1517-1518) – Niklaus Manuel; - Vénus e Cupido (c. 1520) – Lucas Cranach, o Velho; - Vénus a vendar Cupido (c. 1565) - Vecellio Tiziano; - Cupido castigado (séc. XVII-XVII) - Ignaz Stern; - Vénus a punir o amor profano (c. 1790) – Escola alemã.
 “O amor é cego” é um provérbio que traduz a cegueira do amor (falta de objectividade), relativamente à qual são conhecidos outros provérbios: “A amizade deve ser vidente e o amor, cego”, “O amor é cego e a Justiça também”, “O amor é cego, a amizade fecha os olhos”, “O amor é cego, mas vê muito longe”, “O amor não enxerga as cores das pessoas”, “O amor vem da cegueira, a amizade do conhecimento”, “Quem anda cego de amores não vê senão flores”, “Quem o feio ama, bonito lhe parece”.
O provérbio “O amor é cego” é muitas vezes atribuído ao filósofo grego Platão (427-348 aC), porque em “As Leis” escreveu “Aquele que ama é cego para o que ama”. No entanto, é errado, atribuir às palavras de Platão o significado que o provérbio tomou, porque naquele texto, o filósofo fala de amor-próprio como fonte de erro.
 “Amor é cego” é o título do soneto 137 de William Shakespeare (1564-1614) cuja primeira quadra traduzida pelo poeta António Simões nos diz que: “Tolo e cego Amor, a meus olhos que fazes agora, / Que eles olham e não vêem o que a ver estão? / Conhecem a beleza e onde ela se demora, / Mas, o que é pior, por melhor tomarão.”
A cegueira do amor está também retratada no cancioneiro popular alentejano (2): “O Cupido anda às cegas, / Cahe aqui, cahe acolá; / Em má hora eu te amei. / Em má hora, hora má.”
 “O amor é cego e vê” é o título de uma ária cantada por Tomás Alcaide (1901-1967) no filme “Bocage” a qual teve música de Afonso Correia Leite / Armando Rodrigues e letra de Matos Sequeira / Pereira Coelho. Roberto Alcaide (1903-1979), irmão de Tomás Alcaide tinha o hábito de afirmar que o boneco “O Amor é cego” tinha sido criado por Mariano da Conceição em homenagem ao irmão [Entrevista à barrista Maria Luísa da Conceição (1)]). Tal afirmação não tinha fundamento algum, já que a figura remonta ao séc. XIX e Mariano da Conceição nunca modelou “O Amor é cego”.

BIBLIOGRAFIA
(1) - MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
(2) - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses. 4 vol. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1902 (vol. I), 1905 (vol. II), 1909 (vol. III), 1012 (vol. IV).