domingo, 5 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES

 

Teresa Serol Gomes a trabalhar no pátio da sua residência em Estremoz.

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Marta Pereira e de
 Arquivo Fotográfico da CME (Teresa Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

2 - TERESA SEROL GOMES (1952-1988)

Filha de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmã de Miguel Serol Gomes (1957- ), nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos) e fez a instrução primária na escola da freguesia. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferira com a família. É nessa altura que começa a trabalhar com o pai. Por falecimento deste em 1974, dá continuidade ao seu legado artístico, utilizando as mesmas técnicas e tipo de decoração, porém com um cunho muito pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças e madeira: plátano, nogueira e choupo. Não trabalhou em chifre.

Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, candeeiros de cabaça, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, bases de copos e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera, Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém) e Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz 


Stand de Teresa Serol Gomes na II Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz (1984).

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos e geométricos, com tampa.
28 x15 cm.

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos, com tampa em madeira
e correia em couro para transporte. 15 x 12 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, zoomórfica e antropomórfica. Escudo monogramado com as letras
T, A, L, encimado por uma chave. 70 x 9 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, fitomórfica, zoomórfica, antropomórfica e religiosa (Natividade de Jesus). 
82 x 9 cm.       

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa, 
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 69 x 2 cm.

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa,
fitomórfica. 66,5 x 2 cm.

sábado, 4 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 5 - ASSOBIOS

 

30 - Cesta de ovos com asa (Ana das Peles)
31 - Pomba no choco com arco (Ana das Peles)
32 - Peralta (Ana das Peles)
33 - Amazona (Ana das Peles)

5 - ASSOBIOS

Os assobios são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornou simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Sob um ponto de vista morfológico são habitualmente classificados em zoomórficos, antropomórficos e compostos.

A presente colecção é constituída por um total de 189 assobios dos seguintes barristas: Ana das Peles (5), Sabina Santos (14), José Moreira (7), Maria Luísa da Conceição (13), Maria Inácia (3), Irmãs Flores (57), Jorge da Conceição (14), Ricardo Fonseca (1), João Sousa (1), Carlos Alberto Alves (9), Ana Catarina Grilo (21), Inocência Lopes (4), Manuel J. Broa (3), Inês da Conceição (5), Jorge Carrapiço (32).

34 - Senhora de pezinhos (Sabina Santos)
35 - Peralta (Sabina Santos)
36 - Sargento (Sabina Santos)
37 - Amazona (Sabina Santos)
38 - Peralta a cavalo (Sabina Santos)
39 - Sargento a cavalo (Sabina Santos)

40 - Galo no tronco (José Moreira) 
41 - Cesta de ovos com asa (José Moreira)
42 - Galo no pinheiro (José Moreira)
43 - Galo na árvore (José Moreira)
44 - Peralta (José Moreira)
45 - Pomba (José Moreira) 
46 - Sargento (José Moreira

47 - Galo (Maria Luísa da Conceição)
48 - Galo no pinheiro (Maria Luísa da Conceição)
49 - Galo no laço (Maria Luísa da Conceição)
50 - Galinha no choco (Maria Luísa da Conceição)

51 - Berço com bebé (Maria Luísa da Conceição)

61 - Senhora de pezinhos (Manuel José Broa)
62 - Peralta (Manuel José Broa)
63 - Sargento (Manuel José Broa)

69 - Harmónio (Carlos Alberto Alves)
70 - Ronca (Carlos Alberto Alves)
71 - Adufe (Carlos Alberto Alves)
72 - Tambor (Carlos Alberto Alves)
73 - Guitarra (Carlos Alberto Alves)

 Alguns dos assobios expostos são merecedores de uma referência especial.

52 - Galo no tronco (Irmãs Flores)
53 - Galo no laço (Irmãs Flores)
54 - Galinha no choco (Irmãs Flores)
55 - Pombos na árvore (Irmãs Flores)

56 - Galo no arco (Irmãs Flores)

Anteriormente às Irmãs Flores, os assobios zoomórficos e antropomórficos tinham uma base cilíndrica de altura diminuta ou em forma de menisco convexo, nos quais estava inserido o bocal de sopro. Desde sempre que este bocal era manufacturado, montando e furando um rolo de barro, tal como era feito para os assobios compostos. Todavia, Maria Inácia Fonseca, uma das Irmãs Flores, introduziu uma técnica diferente: o menisco convexo passa a ser mais alto e dele, por estiramento numa determinada direcção, resulta o indispensável tubo, que é furado da maneira anterior. O bocal de sopro passa então a ser mais curto e a proeminência correspondente, mais suave e mais discreta. Há aqui uma mudança de paradigma que importa sublinhar e registar. Para além disso, as Irmãs Flores reavivaram o coleccionismo de assobios, já que ao contrário dos barristas que as precederam, foram criando inúmeras variantes dum mesmo tipo de assobio, por introdução de diferentes pormenores na modelação e na decoração, a que imprimiram um cromatismo muito vivo, visualmente apelativo.

64 - Galo no poleiro (Jorge da Conceição)
65 - Galo na azinheira (Jorge da Conceição)
66 - Galinha no choco com arco (Jorge da Conceição)
67 - Galinha e pintos (Jorge da Conceição)

68 - Cesto de flores (Jorge da Conceição) 

Os assobios de Jorge da Conceição são caracterizados por uma modelação e uma decoração muito minuciosas, fortemente naturalistas, que os transformam em peças extremamente apelativas. Deste modo, transcendem o âmbito restrito daquilo que podiam ser apenas brinquedos e instrumentos musicais, passando a ser também objectos decorativos, o que está em consonância com a alma do barrista. Jorge da Conceição demanda a beleza, a elegância, o equilíbrio e a harmonia em tudo o que faz. Para além dos modelos tradicionais de assobio, os quais recriou, Jorge da Conceição criou novas figuras de assobio: Cesta de Flores, Galinha e Pintos, Galo no Roseiral, Galo na Azinheira, Galo na Vinha e Galo no Jardim.

81 - Sagrada Família (Inês da Conceição)
82 - Santo António (Inês da Conceição)
83 - Galo no mocho (Inês da Conceição)
84 - Gato no mocho (Inês da Conceição)
85 - Cão no mocho (Inês da Conceição)

Inês da Conceição produziu assobios de base ovóide semelhante à dos assobios de seu pai, com uma expressão mais simplificada, as pintas da base mais miudinhas e um tubo de sopro de cor verde bandeira, igualmente adoçado na embocadura. Dois desses assobios são assobios devocionais (Sagrada Família e Santo António) e três são assobios zoomórficos (galo, gato e cão) com a particularidade de não estarem assentes numa base ovóide, mas sim num “mocho” tradicional alentejano, cujos pés é que assentam nessa base.

74 - Santo António (Ana Catarina Grilo)
75 - São João Baptista (Ana Catarina Grilo)
76 - Nossa Senhora (Ana Catarina Grilo)
77 - Nossa Senhora a orar (Ana Catarina Grilo)
78 - Sagrada Família (Ana Catarina Grilo)

79 - Berço do Menino Jesus (Ana Catarina Grilo)
80 - Menino Jesus Bom Pastor (Ana Catarina Grilo)

Os assobios de Ana Catarina Grilo chamam a atenção pela simplicidade, pelo cromatismo suave e harmonioso, pelo tamanho adequado do tubo de sopro e o não adoçamento da extremidade. Quanto às dimensões são aquelas que era suposto serem as de um brinquedo de criança. Para além dos tradicionais assobios que integram o núcleo central do figurado de Estremoz, a barrista apresenta novas criações como “Palhaço” e 7 exemplares de  assobios devocionais (Nossa Senhora, Nossa Senhora a orar, Berço do Menino Jesus, Menino Jesus Bom Pastor, Milagre das Rosas, Santo António e São João Baptista).

57 - Pucarinho enfeitado (Inocência Lopes)
58 - Terrina enfeitada (Inocência Lopes)
59 - Candelabro enfeitado (Inocência Lopes)
60 - Arco enfeitado (Inocência Lopes)

Tradicionalmente, os assobios de barro vermelho de Estremoz integravam na sua decoração uma figura zoomórfica, antropomórfica ou mista. Porém, Inocência Lopes criou muito recentemente quatros assobios: Pucarinho enfeitado, Candelabro enfeitado, Terrina enfeitada e Arco enfeitado, passando os assobios a incorporar também espécimes de olaria enfeitada como elementos decorativos. Trata-se de uma inovação visualmente harmoniosa, que eu aplaudi e subscrevi, assim que se tornou conhecida.

86 - Pomba no choco com arco (Jorge Carrapiço)
87 - Pombo no tronco (Jorge Carrapiço)
88 - Galinha no choco (Jorge Carrapiço)
89 - Galo no pinheiro (Jorge Carrapiço)
90 - Galo no arco (Jorge Carrapiço)
91 - Galo no tronco com rebentos (Jorge Carrapiço)

Os assobios de Jorge Carrapiço inspiraram-se maioritariamente nos assobios de sua bisavó Ana das Peles e de outros mais antigos, pertencentes à colecção do Museu Nacional de Etnologia. Têm um cunho muito popular com modelação e decoração muito simplificadas. Bases com fundo branco, pintalgadas com pintas verdes bandeira e vermelhas, de forma irregular e espaçadas. Extremidade do tubo de sopro não pintada, permanecendo na cor do barro. As figuras estão sempre viradas para o lado oposto do tubo de sopro, de modo que a sua parte frontal esteja virada para os ouvintes e a parte traseira para o apitador.

Hernâni Matos

Rainha Santa Isabel, Padroeira de Estremoz


Fig. 1 – Imagem da Rainha Santa Isabel venerada na cidade de Estremoz. Foi oferecida
à  Capela da Rainha Santa Isabel por D. João V, em 1729. Encontra-se actualmente na
Igreja de Santa Maria, no Castelo de Estremoz.


O FALECIMENTO DA RAINHA SANTA ISABEL EM ESTREMOZ
A Rainha Santa Isabel de Aragão (1270-1336), esposa de el-Rei D. Diniz (1261-1325), faleceu no Castelo de Estremoz, com 66 anos de idade, no dia 4 de Julho de 1336, de uma doença súbita surgida quando se dirigia para a raia em missão de apaziguamento entre o filho, D. Afonso IV (1291-1357), e o neto, Afonso XI de Castela (1311-1350). Contra o conselho de todos, D. Afonso quis cumprir o propósito de sua mãe ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara. A longa trasladação fez-se sob o sol aceso de Julho e, para assombro de todos, apesar dos grandes calores que se faziam experimentar, o ataúde exalava um perfume tão aprazível que "tão nobre odor nunca ninguém tinha visto", assim se lê na sua primeira e anónima biografia, conhecida por “Lenda ou Relação”, redigida imediatamente após a sua morte, por alguém que de perto com ela conviveu, provavelmente o seu confessor, Frei Salvado Martins, bispo de Lamego, ou então uma das donas de Santa Clara que a assistiram durante o tempo de viuvez.
As virtudes da Rainha, mais tarde considerada Santa, estiveram na origem da sua beatificação por Leão X (1475-1521), em 1516, com autorização de culto circunscrito à Diocese de Coimbra. Em 1556, o papa Paulo IV (1476-1559) torna extensiva a devoção isabelina a todo o Reino de Portugal. Seria o papa Urbano VIII (1568-1664), dada a incorrupção do corpo e o relato dos milagres, quem proclamaria em 1625, a canonização de Isabel de Aragão como Rainha Santa.

A IMAGEM DA RAINHA SANTA ISABEL
Entre igrejas, capelas e ermidas, Estremoz tem 22 edifícios religiosos onde se encontram expostas imagens religiosas que são objecto de culto pelos fiéis. Uma delas é a imagem da Rainha Santa Isabel (Fig. 1 e Fig. 2), Padroeira de Estremoz (Fig. 3), actualmente venerada na Igreja de Santa Maria, no Castelo. Esta imagem encontrava-se até há uns anos atrás na Capela da Rainha Santa Isabel, também no Castelo. A imagem, em madeira policromada, foi oferecida por D. João V (1689-1750), descendente em linha directa da Rainha Santa Isabel e que a seus pés orou, quando visitou a Capela com a sua esposa, D. Mariana de Áustria (1683-1754), em 30 de Janeiro de 1729. A Rainha veste o hábito de freira clarissa, tal como veio morrer a Estremoz. Todavia o véu branco é de viúva e não de clarissa. Na cabeça uma coroa aberta do tipo barroco e na mão um bordão de peregrina, ambos de prata. A mão esquerda segura o regaço, no qual se vêem rosas, alegoria ao lendário “Milagre das Rosas”.

A CONSTRUÇÃO DA CAPELA DA RAINHA SANTA ISABEL
É de salientar que pertenceu à Rainha Dona Luísa de Gusmão (1613-1666), mulher de El-Rei D. João IV (1604-1856), a ideia de adaptar a Capela, os supostos aposentos da Rainha Santa no Castelo de Estremoz, em acção de graças pela vitória do exército português sobre o exército espanhol, na batalha das Linhas de Elvas, travada a 14 de Janeiro de 1659. A Capela que ficou a cargo da Congregação do Oratório de São Filipe Néri, encontrou em El-Rei D. João V (1689-1750) um mecenas e foi sob a sua égide que se concluíram as obras da Capela em 1706.

A TRANSFERÊNCIA DA IMAGEM DA RAINHA SANTA PARA O CONVENTO DOS CONGREGADOS
Durante a 1ª invasão francesa, as tropas napoleónicas, comandadas pelo general Loison (1771-1816), “O maneta”, saquearam a vila de Estremoz em 1808, com especial destaque para a famosa Sala de Armas de D. João V, no Castelo. A esse tempo já os Oratorianos tinham posto a salvo a Imagem da Santa, a sua Relíquia e alguns Vasos Sagrados que secretamente esconderam na sua Congregação. Todavia, os franceses conhecidos pelas suas profanações e impiedades, não só não profanaram a capela, como não tocaram numa única preciosa Alfaia ou Ornamento que ali se guardasse. Tal facto foi pela população atribuído a beneficência da mão de Deus pela intercessão da Rainha Santa.
A 3 de Julho de 1808, véspera da festividade da Rainha Santa, as tropas francesas evacuaram completamente a vila de Estremoz, após activarem minas para arrasarem a Torre da Menagem, o que arrasaria também a Capela da Rainha Santa, contígua à Torre. Para além da horrível explosão, as minas não produziram o efeito desejado, o que foi atribuído a Intervenção Divina, por empenho daquela Santa Advogada.

A TRASLADAÇÃO DA IMAGEM DA RAINHA SANTA PARA A SUA CAPELA
A 11 de Julho os nobres habitantes de Estremoz animados de espírito patriótico e tendo à cabeça o Juiz de Fora, Doutor António Gomes Henriques Gaio, animados de espírito patriótico, sacudiram o jugo do inimigo e entre mil vivas e demonstrações de júbilo, aclamaram como seu único e legítimo Soberano, Sua Alteza Real o Príncipe Regente. Disto chegou notícia ao general Loison que se encontrava na capital e que com infantaria, cavalaria e artilharia, partiu para o Alentejo, com o desígnio de entrar em Évora e em Estremoz e de não deixar pedra sobre pedra. Em Évora, Loison entrou a 29 de Julho, onde apesar da resistência militar e civil, terá saqueado a cidade, causando uma chacina que causou entre 2.000 e 8.000 mortos, conforme os autores, bem como 200 prisioneiros. Daqui se dirigiram para Estremoz, onde não tiveram a menor hostilidade nem com moradores, nem com as casas, nem com os seus bens, partindo depois para Elvas. Em tal facto, foi reconhecida novamente a Intervenção Divina, por empenho da Rainha Santa. Os Oratorianos decidem então promover uma solene e pomposa Festividade de Acção de Graças à Rainha Santa Isabel no dia em que a sua devota imagem fosse transportada para a sua Capela no Castelo, o que aconteceu a 29 de Outubro, dia em que a Igreja soleniza a trasladação do Venerável Corpo da Rainha Santa.
A 20 de Outubro iniciam-se na Capela da Senhora das Dores do Convento do Congregados, preces públicas com o Santíssimo Sacramento exposto, pela extinção dos inimigos do Reino, pela restauração da nossa Monarquia e pela vida e conservação do Príncipe Regente, as quais se repetiram nos dias seguintes até á véspera do dia destinado para a Festividade.
Na tarde do dia 28 de Outubro, a Capela da Senhora das Dores estava vistosamente adornada com a imagem da Rainha Santa colocada num andor, por debaixo de um rico docel. Um excelente coro e orquestra instrumental executaram com elegância uma sinfonia, finda a qual o Capelão deu início às Vésperas. À noite o Convento dos Congregados esteve iluminado, o mesmo se passando com as moradias do Rossio, tendo sido lançado também variado e vistoso fogo de artifício.
Na manhã do dia 29 de Outubro, continuou-se a venerar a Santa Imagem e pelas 11 horas, o Capelão deu início à Missa solene com o Santíssimo Sacramento exposto e com acompanhamento musical. Foi orador o Padre Luiz Marques, da Congregação do Oratório, que traduziu através de douto e emocionado discurso, o reconhecimento da população à Rainha Santa. A terminar, a elevação da Santa Hóstia foi acompanhada do lançamento de fogo de artifício no Rossio, a que correspondeu a guarnição do Castelo com uma salva de artilharia. A cerimónia terminou pelas 14 horas, iniciando-se pelas 16, a procissão que com pompa e circunstância trasladou através das ruas da vila, a sacrossanta imagem da Padroeira até à sua Capela no Castelo.
O desfile através das ruas da vila, iniciou-se com o lançamento de fogo de artifício no Rossio, a que respondeu uma salva de artilharia no Castelo. A Procissão, meticulosa e simbolicamente estruturada, dirigiu-se para a Capela do Castelo, onde a Imagem da Santa foi reposta no seu Altar, seguindo-se sermão de Frei José de Almada, continuado por cânticos, findos os quais a guarda militar disparou três descargas de mosquete, a que respondeu a guarda do Castelo com uma salva de artilharia.

A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS
A assinatura da Convenção de Évora Monte, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828-1834) entre liberais partidários de D. Pedro IV (1798-1834) e absolutistas partidários de D. Miguel (1802-1866), teve inúmeras consequências. Uma delas foi a extinção das Ordens Religiosas em Portugal. Esta reforma visava aniquilar o que se considerava ser o excessivo poder económico e social do clero, privando-o para tal dos seus meios de riqueza e da capacidade de influência política. Recorde-se que o claro português tinha apoiado em grande parte, o absolutismo e quem ganhou a Guerra Civil foram os liberais. Daí que o Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar (1792-1843), que viria a ser conhecido por “Mata Frades", redigisse o texto do Decreto de Extinção das Ordens Religiosas, assinado por Pedro IV e publicado em 30 de Maio de 1834. Por esse diploma, eram declarados extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares (art. 1º), sendo os seus bens secularizados e incorporados à Fazenda Nacional (art. 2º), à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam entregues aos ordinários das dioceses (art. 3º).
A extinção das Ordens Religiosas, entre elas a Congregação da Ordem do Oratório de S. Filipe Néri, teve reflexos a vários níveis. No caso da Capela da Rainha Santa Isabel, pelo facto de estar sob administração dos Oratorianos, o seu recheio foi posto em hasta pública, sendo a Capela encerrada de seguida.
D. Pedro V (1837-1861) teve consciência que estava em causa a manutenção do venerável culto da Rainha Santa, pelo que confirmou o compromisso da Irmandade da Rainha Santa, a qual recuperou os seus direitos de manutenção material e religiosa da Capela, que teve capelão de missa diária e tesoureiros privativos.

BIBLIOGRAFIA
(1) – CIDRAES, M. Lourdes. Os Painéis da Rainha. Edições Colibri/Câmara Municipal de Estremoz. Lisboa, 2005.
(2) – COSTA, Mário Alberto Nunes. Estremoz e o seu concelho nas “Memórias Paroquiais de 1758”. Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. XXV. Coimbra, 1961.
(3) – COSTA, Mário Alberto Nunes. Património Religioso de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2001.
(4) - ESPANCA, Túlio. Inventário Artístico de Portugal-Distrito de Évora, Vol.I. Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa, 1975.
(5) - MENDEIROS, José Filipe. RAINHA SANTA /Mãe da Paz, da Pátria e de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 1988.
(6) – RELAÇÃO DA POMPA E MAGNIFICÊNCIA COM QUE OS PADRES DA CONGREGAÇÃO DO ORATÓRIO DE S. FILIPPE NERI DA VILLA DE ESTREMOZ SOLEMNIZARÃO A TRASLADAÇÃO DA DEVOTA IMAGEM DE SANTA SABEL, RAINHA DE PORTUGAL, Para a sua Real Capela situada na Cidadella da mesma Praça de Armas; e dos motivos, que concorrerão para esta plausível Festividade. Imprensa Régia. Lisboa, 1808. (Fig. 4)

Publicado inicialmente em 21 de Novembro de 2012

Fig. 2 – Imagem da Rainha Santa Isabel quando ainda se
encontrava na sua Capela. A escadaria que dava acesso ao
púlpito e que se vê à direita, também já não existe actualmente.
Cliché de Foto Tony, cerca dos anos 60 do século XX.

Fig. 3 – Rainha Santa Isabel, Padroeira de Estremoz.
Cliché de Foto Tony, cerca dos anos 60 do século XX.
 Fotomontagem mostrando a Rainha Santa pairando sobre
a cidade, numa nítida alegoria a ser sua Protectora.

Fig. 4 – Rosto duma brochura de 14 páginas de autor desconhecido
e editada pela Imprensa Régia em 1808, em Lisboa e na qual se relata
 a trasladação da imagem da Rainha Santa Isabel para a sua Capela a
 partir do Convento dos Congregados, em Estremoz, onde estivera
 escondida para escapar ao saque dos invasores franceses.  

Fig. 5 - O MILAGRE DAS ROSAS. Painel de azulejos (126 x 173,5 cm) de meados do  séc. XVIII,
da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes (1695-1778), pintor e azulejista alentejano,
pertencente ao chamado ciclo dos mestres, período em que se produziram as melhores
peças azulejares, do barroco português. Igreja do Convento de São Francisco, Estremoz. 

Fig. 6 - MILAGRE DA CRIANÇA SALVA DAS ÁGUAS (c. 1725). Teotónio dos Santos (?). Painel
de azulejos (2,60 m x 2,40 m). Capela da Rainha Santa Isabel do Castelo de Estremoz.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 4 - SOLISTAS

 

8 - Pastor do harmónio (Mariano da Conceição)
9 - Tocador de harmónio (Liberdade da Conceição)
10 - Tocador de harmónio (Maria Luísa da Conceição)
11 - Pastor do harmónio (Maria Luísa da Conceição)

4 - SOLISTAS

Os solistas são músicos que executam uma peça musical ou parte dela, sozinhos ou em destaque num grupo musical. No figurado de Estremoz podem-se considerar solistas os Tocadores de Harmónio, dos quais figuram na colecção, 19 exemplares manufacturados por Mariano da Conceição (1), Sabina Santos (4), Liberdade da Conceição (2), José Moreira (4), Fátima Estróia (1), Irmãs Flores (1), Mário Lagartinho (1), Maria Luísa da Conceição (2), Quirina Marmelo (1), Duarte Catela (1) e Ricardo Fonseca (1). O exemplar deste último barrista é acompanhado dum desenho onde o barrista nos mostra as sucessivas fases de execução do seu Boneco.

Para além dos Tocadores de Harmónio, a colecção apresenta 6 outros solistas como Trovador (Irmãs Flores), duas figuras diferentes de Preto Guitarrista (Irmãs Flores), Figura de Entrudo com Pandeireta (Irmãs Flores), Tocador de Gaita de Foles (José Moreira) e Tocador de Guitarra (José Moreira).  

Hernâni Matos

12 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
13 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
14 - Tocador de harmónio (Sabina Santos)


15 - Pastor do harmónio (Fátima Estróia)
16 - Pastor do harmónio (Irmãs Flores)
17 - Pastor do harmónio (Mário Lagartinho)
18 - Pastor do harmónio (Quirina Marmelo)
19 - Pastor do harmónio (Duarte Catela)

20 - Pastor do harmónio (Ricardo Fonseca)

21 - Pastor do harmónio (José Moreira)
22 - Tocador de harmónio (José Moreira)
23 - Tocador de harmónio (José Moreira)
24 - Tocador de gaita de foles (José Moreira)
25 - Tocador de guitarra (José Moreira)

26 - Trovador (Irmãs Flores)
27 - Figura de Entrudo com pandeireta (Irmãs Flores)
28 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)
29 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.4 – Dia de Sortes

 

Dia de Sortes (Carlos Alberto Alves)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-4. - Dia de Sortes (Carlos Alberto Alves)

No decurso da guerra colonial (1961-1974), os jovens eram convocados para as “Inspecções” aos 18/19 anos. Tratava-se da inspecção militar, que consistia em provas físicas e médicas, visando determinar se os mancebos estavam ou não aptos para serem incorporados no Serviço Militar Obrigatório.

Os apurados nas inspecções eram incorporados no ano em que cumpriam o 20.º aniversário e o tempo de "tropa" podia chegar a quatro anos ou mais.

O “Dia das Inspecções” era na gíria popular conhecido por “Dia de Sortes”, designação devida ao facto de ser nesse dia que cada mancebo inspeccionado ficava a saber qual a “sorte” que lhe tinha cabido na inspecção militar: apurado, livre ou adiado. A cada sorte estava associada simbolicamente uma fita colorida, de acordo com a seguinte convenção: APURADO=VERDE, LIVRE=VERMELHO, ADIADO=BRANCO.

À saída das inspecções cada jovem identificava-se com a “sorte” que lhe tinha cabido. Para tal exibia a correspondente fita colorida, pregada no peito, no boné ou no chapéu. À sua espera um tocador de harmónio contratado que os acompanhava pelas ruas da cidade, enquanto cada um deles tocava a sua própria pandeireta. Era um modo simples e tradicional de partilhar com a comunidade, o conhecimento da “sorte” que lhe tinha cabido. Era de certo modo, um ritual de puberdade que se extinguiu tal como o Serviço Militar Obrigatório.

O Dia de Sortes” foi perpetuado no figurado de Estremoz pelo barrista Carlos Alberto Alves, que para o efeito criou um grupo alegórico constituído por um tocador de harmónio e 3 tocadores de pandeireta com “sortes” diferentes uns dos outros: um “apurado”, um “livre” e outro “adiado”.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.3 – Cante Alentejano

 

Cante Alentejano (Ana Bossa)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-3. - Cante Alentejano (Ana Bossa)

A identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o Cante Alentejano, que de acordo com a tese litúrgica do padre António Marvão teve origem em escolas de canto popular fundadas em Serpa, por monges paulistas do Convento da Serra d’Ossa, os quais tinham formação em canto polifónico.

O Cante Alentejano foi proclamado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014. 

A barrista Ana Bossa que nos anos 90 do séc. XX, frequentou o atelier das irmãs Flores, perpetuou no barro um Grupo de 9 cantadores como expressão do Cante Alentejano.

Hernâni Matos

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.2 – Música Popular Alentejana

 

Música Popular Alentejana (Carlos Alberto Alves)

3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-2. Música Popular Alentejana (Carlos Alberto Alves)

Os executantes e os instrumentos musicais populares alentejanos são parte integrante da identidade cultural alentejana, a qual urge preservar e valorizar enquanto memória do povo.

Etno-musicólogos como Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça calcorrearam os campos do Alentejo nos anos 60 do século passado e efectuaram o registo etno-musical da região.

Conhecedor deste registo e daqueles que nele participaram, entre eles o seu tio Aníbal Falcato Alves, o barrista Carlos Alberto Alves, no mais estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, criou um conjunto de figuras sob a epígrafe “MÚSICA POPULAR ALENTEJANA”, o qual incorpora os tocadores dos seguintes instrumentos musicais populares alentejanos: adufe, pandeireta, bombo, tambor, ronca, cana rachada, cântaro, udu, ferrinhos, reque-reque, tamboril, trancanholas, castanholas, chocalho, guizos, flauta, viola campaniça e harmónio, num total de 18. Com esta criação procura homenagear todos aqueles que contribuíram para o registo etno-musical do Alentejo.

Hernâni Matos