Do Tempo da Outra Senhora
A Escrita como Instrumento de Libertação do Homem
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Isabel Pires e a Alegoria do Outono
[i] Fernando Pessoa
(1888-1935).
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Provérbios de S. Miguel

O dia de S. Miguel tem uma presença marcante no adagiário português, já que tem a ver tradicionalmente com os ciclos agro-pastoris. Com efeito era pelo S. Miguel que os lavradores ajustavam anualmente os criados efectivos. Respigámos as seguintes sentenças:
Publicado inicialmente em 27 de Novembro de 2011
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
RUI SIMÕES ALVES (1956-2026) - Nota de pesar da Academia Portuguesa de Cinema
É com profunda tristeza que a
Academia Portuguesa de Cinema manifesta o seu pesar pelo falecimento de Rui
Alves, profissional de cinema, cenógrafo, aderecista, artista plástico e homem
de múltiplos talentos, cuja longa carreira ficou marcada por uma extraordinária
dedicação ao cinema e às artes.
Nascido em Estremoz, em 1956, Rui
Alves frequentou o Curso de Artes Gráficas da Escola António Arroio e iniciou,
em 1975, um percurso profissional que se estenderia por várias décadas e por
diferentes áreas da criação artística. Cinema, fotografia, teatro, publicidade,
decoração, adereços, efeitos especiais, pintura e escultura fizeram parte de
uma atividade marcada pela curiosidade, pela versatilidade e por uma permanente
disponibilidade para criar.
No cinema, construiu um percurso
particularmente rico, trabalhando em diferentes funções ligadas à cenografia,
aos adereços e à construção dos universos visuais dos filmes. Desde os
primeiros trabalhos como assistente de cenografia, no final da década de 1970,
colaborou em produções portuguesas e internacionais, assumindo ao longo dos
anos responsabilidades como aderecista, aderecista de plateau, assistente de
decoração e responsável pela construção de adereços.
O seu nome encontra-se associado
a numerosas produções, entre as quais O Conde de Monte Cristo, Le Cercle des
Passions, La Lettre Voullè, To Catch a King, Giovanni Toscanini, Arsène Lupin,
L'Accompagnatrice e Fado pour une jeune fille, revelando desde cedo a dimensão
internacional do seu percurso profissional.
Ao longo da sua carreira, Rui
Alves colaborou igualmente em importantes obras do cinema português. Foi
responsável pela construção de adereços em Non ou a Vã Glória de Mandar, de
Manoel de Oliveira, e trabalhou como aderecista de plateau e em efeitos especiais
em Sinais de Fogo, entre muitos outros filmes.
A sua relação com o cinema
estendeu-se ainda à cenografia e à decoração. Em A Moura Encantada, de Manuel
Costa e Silva, surge creditado como aderecista e cenógrafo, testemunhando a
amplitude das competências que colocou ao serviço das produções em que participou.
Mas a sua atividade artística não
se limitou ao cinema. Rui Alves foi também pintor e escultor, desenvolvendo uma
obra própria em que explorou formas, volumes, cores e texturas. Expôs
regularmente o seu trabalho, apresentando, entre outras, a exposição Casas, em
Lisboa, e mostras realizadas em Estremoz, Évora e Aveiro.
Essa multiplicidade de interesses
e saberes definia também a sua presença profissional: um artista capaz de
transitar entre o trabalho manual e a criação plástica, entre a construção de
objetos e a composição de espaços, colocando a sua experiência e imaginação ao
serviço das histórias que o cinema procurava contar.
Ao longo de uma carreira iniciada
ainda nos anos 70, Rui Alves deixou uma marca discreta mas profunda nos
bastidores de numerosas produções. O seu trabalho, muitas vezes invisível aos
olhos do espectador, foi essencial para dar corpo, matéria e autenticidade aos
mundos criados pelo cinema.
A Academia Portuguesa de Cinema
presta homenagem ao seu percurso e ao importante contributo que deu ao cinema
português, recordando um profissional de grande versatilidade e um artista cuja
generosidade criativa se manifestou em múltiplos campos.
Aos seus familiares, amigos,
colegas e a todos aqueles que com ele partilharam tantos anos de trabalho e
amizade, a Academia Portuguesa de Cinema apresenta as suas mais sentidas
condolências.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Ser híbrido triplo - Um Picasso invulgar
Adquiri recentemente uma peça
olárica em barro vermelho de Estremoz, inteiramente polida, de 44 cm de altura,
sem marca de autor, pertencente à classe das peças moldadas de feição
modernista, vulgarmente designada por Picassos.
Trata-se de uma jarra invulgar, constituída
por uma figura extremamente bela e elegante, assente numa base hexagonal.
A imagem configura ser a
representação de um ser híbrido triplo, com cabeça e torso humano, as asas de uma ave e
uma cauda de peixe. Não sei nem quero especular sobre a real intenção que na
mente do oleiro presidiu à concepção desta figura. Apenas posso passar em revista
marcos históricos que de algum modo têm a ver com a representação de seres. híbridos.
Na História da Arte, a representação
de figuras híbridas é uma das marcas mais fortes do Surrealismo, o qual revolucionou
a arte através da libertação do inconsciente, dos sonhos e da imaginação,
rejeitando o controlo da razão, da lógica e das convenções sociais ou morais.
Tais criaturas híbridas desafiam a lógica da realidade e combinam elementos
que, no mundo real, nunca existiriam juntos.
Na Idade Média, os Bestiários,
os Saltérios e os Livros de Horas também continham
ilustrações com seres híbridos, as quais misturavam o ar, a terra e o mar para
chocar o leitor. De acordo com o Genesis, Deus tinha separado o céu, a
terra e as águas, mas o Diabo tentava baralhar e fundir essas fronteiras. Ver
este híbrido triplo naqueles livros lembrava ao leitor o caos que o aguardava
no Inferno.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Bonecos de Estremoz liliputianos - 5
Figuras de assobio
Os assobios (figuras de
assobio) são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito
próprias, que os tornaram simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Tradicionalmente
eram agrupados em três grandes categorias: zoomórficos, antropomórficos e
compostos.
Os assobios confeccionados por
cada barrista, independentemente das marcas identitárias própria de cada um,
resumiam-se a cerca de 15 exemplares, naturalmente que com variantes e incluíam
apenas aves, cestos de ovos, sargentos, peraltas e senhoras de pezinhos,
montados a cavalo ou apeados. Houve quem achasse isto monótono e talvez tenha
pensado no soneto de Camões que proclama que: “Mudam-se os tempos, mudam-se
as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de
mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Vá daí que, sem fugirem à
técnica de produção e à estética do Boneco de Estremoz, tenham criado novos
exemplares nos quais a decoração das figuras de assobios é de tipo novo: Imagens
devocionais (Ana Catarina Grilo), Peças de Olaria Enfeitada
(Inocência Lopes) e Instrumentos Musicais Populares (Carlos Alberto
Alves). Tratou-se de uma inovação temática, a qual pessoalmente destaco e
valorizo.
À semelhança do que se passa
com o núcleo central do Figurado de Estremoz, também as figuras de assobio podem
de igual modo e muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz
liliputianos. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.
domingo, 20 de setembro de 2026
Bonecos de Estremoz liliputianos - 4
Figuras de Presépio de maquineta
Uma maquineta de Presépio é um
armário ou caixa de tamanho variável, a qual guarda e protege figuras de Presépio,
tanto da poeira como do manuseio.
As maquinetas de Presépio têm
origem conventual, uma vez que o conceito, a técnica de fabrico e a estética
destas peças, nasceu e desenvolveu-se nos conventos femininos portugueses no
decurso dos séculos XVII e XVIII.
São conhecidas maquinetas de
diferentes épocas, tipologias e materiais.
Podem assumir a forma de armário
em madeira entalhada, pintada ou dourada, com uma frente e até mesmo as partes
laterais envidraçadas, permitindo a visualização do interior. O armário aloja
uma cenografia relativa à Natividade, com figuras de Presépio, que no caso que
nos interessa, são minúsculos Bonecos de Estremoz.
Podem ainda adoptar a forma de
caixa de vidro com geometria variável assente numa base de madeira com pés, em
cujo interior uma cenografia alusiva à Natividade enquadra figuras de Presépio,
os quais podem ser minúsculos Bonecos de Estremoz.
As maquinetas de Presépio são
simultaneamente objectos de devoção doméstica e peças decorativas de prestígio
e mesmo objectos de luxo, comuns em antigas casas senhoriais ou em lares
burgueses.
O facto de as figuras de Presépio
de Estremoz que integram maquinetas terem dimensões minúsculas, levam-me a classifica-las
como Bonecos de Estremoz liliputianos.
Pucarinhos de Estremoz - Luís Brito da Luz
PUCARINHOS DE ESTREMOZ I
Bocas ásperas, pegajosas, sequiosas
A saliva ainda no estado de dormência
Gretados lábios rogam forte clemência
A seca língua c’as papilas ansiosas.
Feroz desejo pelas puras águas límpidas
Ocultadas no silêncio de seu ninho
Em sobressalto p’ra sair do pucarinho
E saciar a sede, àquelas almas ríspidas.
Fonte d’vida fresca a brotar do barro fino
Saboroso e oloroso, místico, divino
Como só a cândida cidade branca o tem.
Não há no mundo um pucarinho assim igual
Que torna esta linfa sublime, colossal
Ignorado das boas bocas de ninguém.
Estremoz - 11.09.2026
PUCARINHOS DE ESTREMOZ III
Famosos búcaros, na Espanha bem lendários
Benquistos a valer, de modo singular
Seus dons curativos, ninguém pôde negar
Bons predicados, destes barros centenários.
Exaltados por D. Filipe, El-Rei O Prudente
Por Velázquez coloridos com talento
Perduram naquele magnífico momento
Com as Meninas, companhia tão luzente!
Francisco Quevedo, satírico e mordaz
Ilustrava sua beleza que é fugaz
Que a vida é frágil e o humano ser vaidoso.
Lope de Vega, também Góngora afamaram
Nos seus dramas e poemas elogiaram
Este presente de Deus Padre, sumptuoso!
Estremoz - 15.09.2026
Luís Brito da Luz














