Do Tempo da Outra Senhora
A Escrita como Instrumento de Libertação do Homem
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Livro de Leitura da Primeira Classe
domingo, 6 de setembro de 2026
ARTES DO VAGAR - Notas de uma exposição
A exposição Artes do Vagar é um acontecimento que não pode ser ignorado ou tratado de um modo ligeiro.
A exposição em causa traz-nos a
salvaguarda de um mundo que a tecnologia hoje ameaça. Compõe-se de trabalhos de
artesãos, com rosto e nome, que reconheceram na madeira, no papel e naquilo de
que são feitos os chifres, a mestria humana, a criatividade, a imaginação, a
própria vida retratada, com esforço ou mistério.
Estamos do outro lado do mundo
efémero, veloz, onde o tempo é um ápice, uma migalha, a mediocridade sedutora
que nos aniquila. A natureza daqueles artesãos encontrou, na sua sensibilidade,
uma forma de fazer com que o tempo não os pressionasse, mas também não deixaram
que o tempo fosse ocasião para o esvair, sem sentido, daquilo que se faz, como
uma indolência surda que nos consome.
Não. O tempo é, por eles, visto
como uma terceira possibilidade: é aquilo que leva cada pessoa na direcção da
perfeição. É isso que a exposição mostra: alcançar a perfeição sem o recurso às
mais variadas tecnologias; mostrar a perfeição de que um ser humano é capaz,
simplesmente porque é humano e porque o tempo é o seu melhor companheiro para
obter esse atributo.
Olhando a sala daquela exposição,
é como se o mundo fosse outro, uma nave, um bunker. Parece que ali
adquirimos protecção. Deixámos para trás aquilo de que muitos tanto gostam: as
tecnologias usurpadoras e manipuladoras que nos fazem engolir o tempo até à
exaustão. Não há ali espectáculo; há tão-somente o belo conseguido pela
perfeição humana.
Por isso, Hernâni, a cidade
está-te grata, muito grata, mesmo que os pobres responsáveis e muitos de nós
não percebamos isso.
Obrigado, caríssimo e bom amigo!
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Figurado de Estremoz - Luís Brito da Luz
Secular arte genuína Estremocense
Em barro, com muita elegância plasmado
Pelas finas mãos destas gentes bem tratado,
Bonecos brotam do talento que convence.
Em setecentos, na alvorada desta prática
Iniciaram as antigas bonequeiras
Técnica ímpar, da qual foram pioneiras
Precursoras desta única, distinta fábrica.
Bem inculcada de geração em geração
Modelada com total zelo em comunhão
Expressão plena da identidade cultural.
No âmago d’esta cabal terra, singular
No íntimo deste povo tão peculiar
Nossa pura alma aqui se torna natural.
Estremoz - 30.08.2026
Luís Brito da Luz
FIGURADO DE ESTREMOZ II
Finos bonecos apurados, elegantes
Por mãos diferentes, criados com esmero
Paciente labor mimoso, assaz, sincero
Peças singulares de colecção, brilhantes!
Três geometrias bem distintas e claras
Bola, Rolo, Placa, dimensões diferentes
A partir destas boas bases bem presentes
O todo criado origina peças raras.
Os avoengos bonecos de tradição
C’os hodiernos bonecos de inovação
Fecham a galeria desta identidade.
C’a dual matriz tão sagrada e bem profana
Riqueza cultural desta gente humana
Herança imaterial da humanidade.
Estremoz - 01.09.2026
Luís Brito da Luz
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
80 anos - A mudança de paradigma
Do meu pai, alfaiate e comerciante, homem da classe média, à qual ascendeu a pulso, herdei atavicamente traços de carácter que em mim perduram. Um deles, é a moderação, a qual visando assegurar o equilíbrio no dia a dia, não só a nível pessoal como nas relações interpessoais, me leva a demarcar de extremos tanto minimalistas como maximalistas. O meu pai, utilizava amiúde a expressão idiomática “Nem oito, nem oitenta”, algebricamente correspondente a uma escala de 10 termos afastados entre si de 8 unidades. A frase expressa a convicção de que “No meio é que está a virtude”. Trata-se de pilares de pensamento nos quais me venho firmando, desde que me lembro de mim mesmo. Hoje mesmo completo 80 anos medidos no Calendário Gregoriano, uma vez que como viajante do cosmos completo 80 translações completas em torno do Sol. E é aqui que começa a tragédia. “É aqui que a porca torce o rabo”, expressão idiomática que dá conta do ponto crítico atingido por mim enquanto terráqueo. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que abalou inexoravelmente um dos pilares de pensamento herdado dos meus ancestrais: “Nem oito nem oitenta”. Há que construir um novo paradigma que como pilar de pensamento me assegure o equilíbrio. Interrogo-me a mim mesmo sobre a eventual complexidade e dificuldade de construção desse novo paradigma. A resposta que dou a mim próprio é invariavelmente a mesma: - ÓI! TENTA!. Assim me encorajo a fazer um esforço na procura de um resultado que à partida é incerto. |
domingo, 16 de agosto de 2026
Arte pastoril - Os cochos
Um cocho é um recipiente
em cortiça usado tradicionalmente no Alentejo para beber água que jorra duma
fonte ou é vazada a partir de um cântaro de barro.
Morfologicamente, o cocho consta
de duas partes: uma concava (concha) e outra plana (cabo ou pega),
de geometria e tamanhos variáveis, mais ou menos inclinada em relação à primeira
e provida ou não de uma abertura, igualmente de geometria e tamanho variáveis,
que permite a sua suspensão numa parede ou a partir da cintura do utilizador.
A maioria dos cochos são lisos,
mas podem apresentar-se também decorados. A decoração é efectuada habitualmente
na face anterior da pega (Fig.2, Fig. 3 e Fig. 4) e manifesta-se geralmente sob a forma de arte linear,
obtida por incisões na cortiça. De resto, o bordo da pega pode ou não ser
talhado em forma de recortes de índole diversa. Todavia, também existem exemplares com decoração em alto relevo na face anterior da pega (Fig.5).
É menos vulgar a decoração na
parte posterior do cocho. A apresentada aqui (Fig. 1) é mesmo invulgar, já que se trata
de uma decoração em alto relevo na parte posterior do cocho, distribuida pela face posterior da pega e pela parte convexa da concha. Trata-se de uma figura feminina trajando vestido com decote e mangas, a
qual de braços abertos configura vontade de abraçar quem a olha. Quem sabe se
esta representação com sabor a saudades do ente querido, não traduz a convicção
de um pastor de que, algures num monte distante da choupana improvisada onde ele
se encontra, a mulher amada aguarda o seu regresso. Quem sabe?
sábado, 1 de agosto de 2026
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
(1935-2023)
Nasceu na Aldeia de Cima (Glória) e só conheceu o mundo das letras aos
trinta e sete anos. Trabalhou no campo, onde foi guardador de porcos, pastor de
ovelhas e tosquiador, entre muitos outros trabalhos agro-pastoris. Trabalhou
também nas pedreiras, foi empregado numa grande unidade de distribuição de
mercadorias, foi enfermeiro no posto médico da sua freguesia, foi sacristão e
pertenceu à Orquestra Típica de Estremoz. De resto tinha jeito para trabalhos
de carpinteiro, canalizador, electricista e pedreiro.
A sua actividade como artesão da madeira e do chifre processou-se numa
pequena oficina junto à sua residência e começou a efectuar-se cerca dos anos
80 do século XX. Toda ela entroncava na técnica e na estética da arte pastoril
com que bordava a madeira e o chifre no decurso da pastorícia.
Os materiais usados foram: cabaças, chifre e madeiras: cedro,
laranjeira, oliveira, cerejeira, cipreste, nogueira, buxo, vimeiro, sabugo e
nespereira. Para os trabalhar recorreu a utensílios como: navalha, goivas,
limas, grosas, serras, serrotes, serra de disco, torno, maceta, escopro.
A decoração das peças é rica e diversificada, recorrendo a motivos
geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, os três últimos de
inspiração regional.
Executou trabalhos como cabaças lavradas, colheres, talheres, chavões,
sopradores de lume, bengalas, agulheiros, rosários, argolas de guardanapo,
cigarreiras, caixas, guarda-jóias, brinquedos, dançarinos articulados, gaiolas
para grilos, chamadores de perdizes, quadros em baixo relevo, painéis com
alfaias agrícolas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, tabaqueiras e
pulseiras.
O trabalho deste artesão é caracterizado todo ele por uma elevada
qualidade técnica, aliada a uma expressiva e fina individualidade artística de
matriz popular, que sempre apostou na criatividade em detrimento da cópia.
Apesar disso executou as réplicas dos Bonecos de Santo Aleixo com que trabalha
o CENDREV – Centro Dramático de Évora. Participou nas feiras de artesanato de
Estremoz desde 1983 e em várias exposições individuais. Os seus trabalhos
integram colecções museológicas das quais a mais importante é a do Museu
Municipal Professor Joaquim Vermelho, em Estremoz.
sábado, 18 de julho de 2026
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
3 - MIGUEL
SEROL GOMES (1957- )
Filho
de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes
(1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até
aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do
Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde
fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos
na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta
actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua
esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes
frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não
eram compatíveis com a modelação do barro.
Na
arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai,
utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.
Os
materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e
choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões,
sovela, mini-serrote e lixa.
Executou
trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras,
polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas
em madeira e quadros.
Participou
em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril,
Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de
Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.


















































