segunda-feira, 19 de abril de 2021

Dois em um

 

Bento Grossinho Dias. Engenheiro Mecânico. Gestor.


Há uns 15 anos que conheço o Hernâni Matos, Ser orgulhoso das suas origens, do seu Alentejo e da sua Estremoz, dos seus bonecos e tradições, que tão bem divulga na sua oralidade e escrita.
Mas sou amigo do Carmelo de Matos há 43 anos (tive que fazer um esforço mental para recuar tanto no tempo). E claro a lembrança para mim, jovem na altura com 16 anos, era o seu estranho nome, herdado do avô materno, que ouvido me soava a guloseima, sem que me atrevesse a esclarecer tal bizarria. Mas o meu não era muito melhor…
Aproximou-nos o coleccionismo, os postais, os inteiros postais, os postais máximos, dos quais o Carmelo de Matos foi e é expoente máximo… pela sua cultura, pelo gosto pelas ciências e pela história, que afortunadamente puderam ser ainda mais divulgados com a disseminação das redes sociais.
Mas o vozeirão (de que tão bem me lembro!) que caracterizava o contacto humano com o Carmelo de Matos, passou agora a ouvir-se na forma digital dos maravilhosos escritos do Hernâni Matos. Sempre mordaz, consciente das suas convicções e crente na sua mensagem, Hernâni Carmelo de Matos (agora na forma inteira) é uma daqueles poucos amigos que não esquecemos, pela força da sua presença.
Obrigado Carmelo de Matos, obrigado Hernâni Matos.

Bento Grossinho Dias
Lisboa, 30 de Março de 2021

Hernâni Matos

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Repórter de concertos de violino


Moringue antropomórfico. Fabrico da Olaria Alfacinha. Estremoz, anos 40 do séc. XX.

De vez em quando vislumbro objectos que tangem as tensas cordas de violino da minha alma. Então, olho-os melhor, miro-os e remiro-os, trespasso-os com o meu olhar e eles revelam-se em toda a sua plenitude, para além daquilo que é óbvio. Digo-lhes: Olá! Então e só então, eles me recebem de braços abertos, como se um deles se tratasse. Contam-me então as suas estórias, às quais outras estórias se seguirão. É então que eu, repórter de concertos de violino, escrevo na pauta de papel, tudo aquilo que tocaram e eu consegui entender.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Professor para sempre...


Laurinda Paulino. Professora.

Conheci o Hernâni no dia 11 de novembro de 1980, na sala 14 (anfiteatro do primeiro piso) da Escola Secundária de Estremoz quando se apresentou como professor de Física da turma C do 12.º ano, à qual eu pertencia. Ensinou-me conteúdos de Física que se integravam nos ramos da Mecânica, da Cinemática, da Dinâmica e da Estática, mas também me ensinou Matemática, nomeadamente Álgebra e Análise Vetorial e foi com ele que eu aprendi “a derivar”.
Eu vivi a escola (e a universidade) nos anos em que foram implementadas profundas transformações no sistema educativo (1974-1986) e fui uma das “cobaias” a experimentar o curso geral unificado, o curso complementar, o 12.º ano de escolaridade em substituição do ano propedêutico, novos programas e novos modelos de avaliação. Portugal estava a equiparar o seu sistema de ensino com os outros países europeus, estabelecendo 12 anos de escolaridade obrigatória antes do ensino superior. Por isso, eu como aluna, e o Hernâni como professor, experimentámos pela primeira vez aquele programa de Física. Não havia manual, os apontamentos/fichas com exercícios do professor eram indecifráveis pois apresentavam uma caligrafia que me faziam doer os olhos de tantas horas que levava a olhar para aqueles gatafunhos. Às vezes conseguia-os descodificar, outras vezes adivinhava-os após algumas investidas e noutras desistia mesmo e ia para a biblioteca escolar estudar através dos livros que o professor aconselhara.
O Hernâni era um bom professor, dominava completamente os assuntos que abordava, preparava as aulas e lecionava-as de forma muito profissional e por vezes, adicionava uma “pitada” de humor nas suas exposições. Mas quando se zangava… era de fugir. “A malta” respeitava-o e gostava dele.
No segundo período o professor Hernâni rumou a outras paragens e deixou-nos com “a filha nos braços”. Foi substituído por uma jovem professora do Norte. A turma sentiu a sua falta.
No final do 12.º ano fiz uma limpeza à papelada que havia em casa e joguei fora todos os cadernos da escola de todas as disciplinas, exceto o de Física do 12.º ano. Vá-se lá saber porquê!... Conteria informação preciosa? Mais de 40 anos depois, voltei a abri-lo para pesquisar o esclarecimento que hoje necessito. No primeiro ano da universidade, enrascada com a Mecânica, recorri aos apontamentos do Hernâni Matos, que me deram jeito e me safaram no exame de Física Geral I.
Em 1986, regressei à Escola Secundária de Estremoz como professora do grupo 4.ºA (Física e Química). O Hernâni era o delegado de grupo e voltou a dar-me uma lição no que respeita à dedicação e envolvimento nesta sua função na escola. Desde a preparação das reuniões, planificações, participação nas discussões até à realização de exposições e outras atividades, rotulagem e catalogação de materiais e equipamentos, o Hernâni despendia todo o seu potencial e deixou na escola, algumas referências que os colegas ainda hoje utilizam. Considero-o “um homem sem medo”, decidido, desenrascado, sincero, frontal, lutador e como ele próprio dizia “capaz de apanhar o touro pelos cornos”. Com o aparecimento e desenvolvimento das novas tecnologias, o Hernâni depressa criou uma simbiose com os computadores, e também me considero sua discípula neste território devido a algumas aprendizagens que fiz com ele.
Compartilhámos ações de formação, reuniões, materiais, momentos de trabalho e momentos de convívio. A relação profissional evoluiu para uma afinidade que se estabeleceu entre nós, gerando uma amizade, e tenho pelo Hernâni um sentimento de afeto, carinho, confiança e admiração por tudo aquilo que faz.
Para além de professor de Física e Química, o Hernâni deu outras grandes lições. Quando comparecemos em exposições de filatelia enriquecemos os nossos conhecimentos históricos sobre temas associados a acontecimentos, lugares, países, objetos… e ele organizou muitas. Quando assistimos às suas palestras aprendemos sempre algo na exposição divulgada e ele deu algumas sempre motivantes, enriquecedoras e bem-humoradas.
Em 1998 fiz parte da Direção da Escola e o Hernâni deu-nos todo o seu apoio, fazendo parte da Assembleia de Escola e foi convidado a dinamizar o Centro de Recursos, fazendo como é seu apanágio, um excelente trabalho.
Aposentou-se como professor da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel de Estremoz tendo-me oferecido algum do seu património na área da Física e da Química. Reformou-se mas não parou de doutrinar, divulgar e mostrar toda a sua dedicação à Cultura Portuguesa com ênfase nos Bonecos e Olaria de Estremoz.
Não sei se diga que o Hernâni entregou a sua vida a dar lições ou se deu uma grande lição de vida onde florescem ideias que se casam uma nas outras, se multiplicam e acrescentam pontos para completar um conto que vai com certeza fazer parte da História de Estremoz.

Laurinda Paulino. Professora.
Estremoz, 1 de Abril de 2021

domingo, 11 de abril de 2021

Quando levantar o cerco


 António Morais Arnaud. Engenheiro Mecânico. Doutor em Informática.
Professor Universitário.

Todas as Terras deviam ter um Hernâni que conhecesse a sua História, as suas gentes, que apreciasse a sua beleza e as defendesse com a palavra amplificada pelas tecnologias, da informação pós-Gutenberg e da comunicação digital. Muitas tiveram a sorte de terem sido berço de escritores que perpetuaram em livro a memória da época em que viveram e algumas foram estudadas por apaixonados que reuniram memórias etnográficas, arquitetónicas, com respeito pelos concidadãos que as cuidaram.
Só conheci o Hernâni neste século, apesar de ter ido para a Valeja, a 14 km de Estremoz, com uma semana de idade e de aí ter passado até aos 20 anos, Natais, Páscoa e parte das férias grandes, com idas a Estremoz, semanais e nos dias de festa. Só passei a conhecer Estremoz e a lembrar aspectos do meu crescimento com o blogue que o Hernâni tem mantido vivo, com a sua paixão multifacetada, acompanhando e defendendo a integridade do património cultural com independência, isenção e conhecimento meticuloso. 
São inúmeros os agradecimentos que deveria fazer ao Hernâni, da gastronomia que partilhámos, às conversas na Feira de Velharias, onde ele salvava objectos abandonados, passando pelos muitos amigos comuns e vivências relembradas. 
Só aguardo o levantar deste cerco às nossas vidas para voltar ao Sábado à Terra de que mais gosto neste país que tenho percorrido e almoçar com o Hernâni no Tira-Picos.
 
António Morais Arnaud
Lisboa, 20 de Março de 2021

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Hernâni, o professor, o colega, o pai de Catarina e o amigo


Helena Fidalgo Marques. Professora.
 
Nos finais dos anos 80, do século passado, o Hernâni foi meu professor de Física e Química, no 10º e 11º ano. Ainda me recordo das suas aulas, no anfiteatro, que a Escola Secundária de Estremoz tinha na ala direita, onde atualmente estão os gabinetes e a biblioteca. Sempre, muito empenhado, em explicar aquelas matérias difíceis, mas interessantes, pelo menos para mim. Foi um bom professor e, dos tempos de aluna, ficaram memórias de luz.
Os professores contagiam e eu voltei à escola para, também, ser professora. E tive o privilégio de rever alguns dos meus professores e, entre eles, estava o colega Hernâni. Éramos os dois professores de Física. Só que ele da Física e Química e eu da Educação Física. Inércia, atrito, leis de Newton, velocidade, força e resistência, entre outros assuntos, são aspetos comuns às duas. Foram matérias que, também aprendi, no 9º ano, com a Fátima.
Em Abril de 2001, organizámos conjuntamente uma estafeta entre Évora e Estremoz, assegurada por cerca de 50 alunos da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. A estafeta constituiu uma das actividades de animação das Exposições Filatélicas “ESTREMOZ 2001” e “FILAMOZ 2001”, integradas no programa da FIAPE e visava transportar a mala postal entre a Estação dos Correios do Largo das Portas de Moura, em Évora e o Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz, local do acto inaugural daquelas exposições. A mala transportada sucessivamente pelos alunos, continha correspondência marcada à partida com a marca de dia de serviço na Estação, assim como o carimbo de trânsito de “Correio por Estafetas”, sendo marcada à chegada com o “Carimbo Comemorativo do Centenário de Tomaz Alcaide”.
Quando a Catarina, filha da Fátima e do Hernâni, chegou ao ensino secundário, foi a minha vez de ser a sua professora.
Somos exemplo, de como a escola nos ligou. E, quando passados, cerca de 35 anos, recebo o seu convite para escrever, chamo-lhe amizade.
Obrigado Hernâni pelos seus ensinamentos e pelo gosto insaciável de partilhar conhecimento.
 
Helena Fidalgo Marques
Estremoz, 14 de março de 2021


Os alunos participantes na estafeta Évora-Estremoz realizada em Abril de 2001
posando para a posteridade.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

E os passarinhos não se calam


Primavera 2021. Desenho a lápis de cor. Cristina Malaquias.

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A ilustradora Cristina Malaquias publicou na sua página do Facebook, um magnífico desenho que não resisto a reproduzir aqui com a respectiva legenda “E os passarinhos não se calam”, que me mereceu o seguinte comentário:
Senão fosse o arco, eu diria que a figura era um "Amor é cego" que tirou a venda para a usar como máscara comunitária. Mas está lá o arco... E está muito bem, que isto de espetar o arco nas costas não lembra a ninguém.
O arco empunhado na mão direita tem outro encanto. Quem sabe se a figura não evoca um desfile de floristas em luta pelo direito a vender flores? Parece que estou a vê-las gritar:
- FLORES, SIM! COVID, NÃO!
Palavra de ordem que vão alternando, por vezes, com uma palavra de ordem mais reformista:
- COVID ESCUTA, QUE O POVO ESTÁ EM LUTA!
Todavia, as floristas mais revolucionárias clamam bem alto:
- MORRA O COVID! MORRA! PIM!
É caso para dizer:
- CAMARADAS: SÓ A MORTE DO BICHO, PORÁ FIM À NOSSA LUTA!
Cristina Malaquias respondeu:
- Lindo texto, sim senhor!!
Que dizer então? A minha resposta foi imediata e o seu relato vem de seguida:
Eu sou um contador de estórias. Que poderia fazer eu para além do óbvio lugar comum do "Parabéns Cristina pelo seu belo desenho!" Como diz o Hino da Intersindical:
- LUTAREMOS COM AS ARMAS QUE TEMOS NA MÃO!
Foi dito e feito. Contei uma estória que é uma das coisas que sei fazer. Foi a forma encontrada de lhe procurar retribuir a beleza com que nos prendou.

terça-feira, 6 de abril de 2021

"O Amor é cego" com a "Sagrada Família" no coração

 

"O Amor é cego" com a "Sagrada Família" no coração (2020). Isabel Pires (1955 -  ).

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Uma figura composta

Tive recentemente conhecimento de uma interessante figura da Barrística Popular de Estremoz, criada por Isabel Catarrilhas Pires em 2020. Trata-se de uma figura composta por outras duas figuras.
Um dessas figuras é “O Amor Cego”, Boneco de Estremoz cuja origem remonta ao séc. XIX e é considerado uma figura de Carnaval. Trata-se de uma alegoria à cegueira do amor, expressa através do Cupido de olhos vendados. É representado como uma figura feminina, alada e de olhos tapados. Enverga um vestido rodado e vistoso, de cores garridas e decorado com motivos florais. Na cabeça usa um turbante que pompeia superiormente quatro plumas tricolores e ostenta frontalmente um coração - símbolo do amor. Calça botas apetrechadas com cordões entrelaçados. Na mão esquerda empunha um ramo de flores, enquanto que a mão direita segura um coração trespassado por dua setas e mostrado em corte. A figura assenta numa base circular, de cor verde, orlada de motivos florais no topo.
A outra figura, ela própria uma figura composta é um “Presépio de 3 figuras” ou “Sagrada Família”, envergando trajes bíblicos de fantasia. Está alojada no interior do coração de “O Amor é Cego”, mostrado em corte.

Da Natividade à Quaresma
Estamos em presença de uma figura composta tematicamente bivalente, uma vez que é simultaneamente um Presépio e uma figura de Carnaval.
O Presépio é um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal, festividade cristã que enaltece o nascimento de Jesus Cristo.
O Carnaval é o período de 3 dias, caracterizado por alegres festas populares que precedem o período da Quaresma, o qual antecede o domingo de Páscoa. Durante a Quaresma, a Igreja convida os fiéis a um período de penitência e de meditação, através da prática do jejum, da esmola e da oração, como preparação para o Domingo de Páscoa, durante o qual se comemora a Ressurreição de Jesus Cristo.
A figura composta objecto do presente estudo, sintetiza a vida de Jesus Cristo, recorrendo a figuras que integram há muito a Barrística Popular de Estremoz.
 
Cromatismo da composição
A cor dominante é o ocre amarelo, cor da terra onde decorreu a vida de Jesus. Segue-se o azul do céu para o qual, segundo o cristianismo, decorreu a Ascensão de Jesus, quarenta dias após a Ressurreição. Depois vem o vermelho, simbolizando o sangue derramado por Jesus e finalmente o verde, prenunciando a esperança da vida eterna.
De salientar ainda que o negro da venda de ”O amor é cego” simboliza a escuridão,  a tristeza e a dor da morte de Jesus.

A análise
A figura aqui dissecada é a meu ver daquelas que encerram em si uma mudança de paradigma, com a Barrística Popular de Estremoz a ascender a um patamar superior aquele que é habitual.
Trata-se da magistral criação de uma barrista com um estilo acentuamente personalizado, assente numa profunda interpretação naturalista e num cromatismo muito vivo, que tornam apelativas as figuras que fruto dum pulsar de alma lhe brotam à flor das mãos. Como tal, a barrista é merecedora dos meus melhores encómios, os quais aqui registo para que conste agora e para memória futura.

Hernâni Matos