quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Memórias do Espírito Santo

Nasci no número 14 do Largo do Espírito Santo, em Estremoz, no dia 19 de Agosto de 1946.
Nos anos 50, os meus pais mudaram-se para uma casa da rua da Misericórdia, hoje inexistente, mas pelo Largo continuei a viver e a brincar em permanência até 1956, ano até ao qual fiquei na casa dos meus tios, situada no número 17. A vida e os fluxos humanos que por ali se processavam nos anos 40-50 são-me pois familiares.

Fonte do Espírito Santo. Foto de J. Walowski -1891.

Convento dos Agostinhos. Foto de J. Walowski - 1891.

Torre das Couraças. Desenho de Cruz Louro – 1939.

A passagem do aguadeiro e do leiteiro, a passagem das lavadeiras para o Lavadouro Municipal, as carradas de lenha para a padaria do Beliz na rua da Levada, as entradas e saídas para a fábrica do Alves e Martins na Horta do Quiton, ao ritmo da sirene, as manobras mirabolantes dos camiões gigantescos da URMAL para conseguirem transpor os portões da Horta, as idas das meninas do asilo para a Escola Feminina do Caldeiro, assim como o trânsito dos carros de tracção animal, cuja passagem por ali era uma constante. A vida era muito, mas muito mais difícil do que é hoje. Ainda não havia água canalizada e muita gente não tinha iluminação eléctrica. Nas cozinhas, as mulheres trabalhavam com fornalhas a carvão ou fogareiros a petróleo e, de vez em quando, os bicos lá se entupiam devido às impurezas. A esmagadora maioria das casas não tinha casa de banho, tomava-se banho completo uma vez por semana, aos domingos, que era o dia de ver a Deus e os despejos, incluindo os dos penicos, faziam-se em pias, das quais muitas casas só tinham uma.
Não havia frigoríficos nem arcas congeladoras, nem supermercados, nem grandes superfícies, nem tão pouco sacos de plástico, pelo que os frangos nasciam no quintal de quem os tinha.
As idas ao talho e à praça do peixe eram por isso mais frequentes, desde que em casa houvesse dinheiro.
Nas idas ao mercado, levavam-se talegos, cestos de vime e canastras para transportar as compras. Quando se ia ao pão levava-se uma bolsa de pano. Nas mercearias, o grão, o feijão, o arroz, o açúcar, a farinha e o café eram vendidos a granel e embalados em cartuxos de papel. O sabão era vendido à barra, mas podia-se comprar qualquer quantidade que era embrulhada em papel de jornal. Para se comprar vinho, azeite ou petróleo, levava-se de casa uma garrafa provida da respectiva rolha.
Não havia Televisão e a Rádio era senhora e rainha com os seus folhetins, o futebol aos domingos e a Volta a Portugal em Bicicleta, que nos faziam vibrar com as proezas dos eternos rivais, Zé Maria Nicolau (do Benfica) e Alfredo Trindade (do Sporting).
A vida era dura, a Igreja Católica tinha uma influência muito maior na vida das pessoas que tem hoje e não se podia falar de política. Política só podia haver uma, a do único partido legal que era a União Nacional. Quem fosse contra isso, ia parar a Caxias como aconteceu ao carpinteiro José Lopes ou ao estofador Binadade Velez, meus amigos do tempo da outra senhora, seguramente aí desde os quinze anos. Nessa altura havia também quem se encarregasse de nos ensinar que a vida tinha que ser assim e ficarmos contentes com aquilo que segundo diziam, Deus nos deu.
Antes de em 1953, ir para a Escola do Caldeiro frequentar a 2º classe, andei na escola da Menina Teresinha, situada no nº 1 do Largo, nos baixos da casa onde morou o Poeta Sebastião da Gama. Do Largo ia obrigatoriamente para a catequese na Igreja de Santo André e para a formação nacionalista e paramilitar na Mocidade Portuguesa, na Rua da Cruz Vermelha. Na Igreja de S. Francisco fiz a Pimeira Comunhão, a Comunhão Pascal e a Solene, assim como o Crisma, tendo chegado a ensinar Doutrina aos mais novos, o que só foi perturbado com uma ruptura epistemológica aí pelos 12 anos, fruto da influência que a aprendizagem da História e das Ciências Naturais exerceram em mim e a que não terá também sido estranho, o convívio com dois velhos republicanos de 1910, o ferroviário Francisco Baptista, mais conhecido por Chico das Metralhadoras e o Cândido ferrador, combatente da guerra de 14-18, homem de grande corpanzil, que apesar de pacífico, dava apertos de mão como quem aperta uma tenaz. E se na Igreja tive algum êxito, ainda que efémero, até me tornar ateu, na Mocidade Portuguesa fui um completo atraso de vida, nunca passei da cepa torta, nunca passei de Lusito e nunca cheguei a Chefe de Quinas. Aquela coisa das formaturas e do marcar passo e do marchar e de fazer a saudação de braço levantado era uma grandessíssima chatice e eu não atinava com aquilo. Apenas me dava gozo a ginástica, o voleibol e o basquetebol. Mas o que é um facto, é que os tempos eram outros e as procissões e as paradas atraíam muito mais pessoas que hoje.
Grandes momentos na cidade eram as feiras como a de Maio ou Festas como as de Setembro.
No final dos ciclos de produção como as mondas, as ceifas ou a azeitona, circulava mais dinheiro pelas freguesias e pela cidade, mas em geral era tudo muito apertado, pois a maior parte do trabalho era sazonal, havia desemprego, salários de miséria e pior que tudo, tinha de se ter o bico calado.
Em alturas de crise era vulgar ver grupos de homens desempregados que iam de loja em loja, frente à qual um se destacava dentre os outros e descobrindo a cabeça, em sinal de humildade, pedia esmola em nome dos demais, agradecendo no final com um “Deus lhe pague”. Eu assisti a isso e sentia um nó no estômago.
Frente à Câmara e junto ao Café do Santos paravam os homens sem trabalho, sempre à espera de que alguém os contratasse, nem que fosse para uma única tarefa. Era então, bem amargo, o pão que Deus amassava.
No Adro do Largo do Espírito Santo funcionava a Sopa dos Pobres, que era para muitos a única tábua de salvação possível.
E esta era em traços gerais, a realidade nua e crua, não só no Largo do Espírito Santo como noutras zonas da cidade.
Permitam-me agora que vos conte algumas particularidades sobre a vida no Largo do Espírito Santo.

Torre das Couraças. Foto de Rogério Carvalho - cerca de 1940.

Ali havia um chafariz junto à fonte que ainda lá existe. Ali, eu e a miudagem do meu bando, chapinhávamos na água entre duas brincadeiras. O chafariz e a fonte eram o nosso regalo no pino do Verão. Nos anos sessenta, o chafariz foi sacrificado ao pseudo progresso, pois foi arrancado a fim de facilitar a circulação automóvel. Este foi um dos crimes de que primeiro me lembro terem sido cometidos nesta cidade. Hoje, o largo é um imenso parque de estacionamento e no local onde existia acolhedor um chafariz de água límpida, chegaram a jazer há anos, dois imundos contentores de lixo, ocupando praticamente o espaço que dantes era ocupado pelo chafariz. Tudo isto, repito, em nome do pseudo progresso.

Largo do Espírito Santo, à entrada para a Rua da Levada.
Foto de João Sabino de Matos – 1947.

Imitação da Fonte. Foto de João Sabino de Matos - cerca de 1950.

Normalmente passávamos a noite da missadura em casa da minha tia Estrela, no nº 17. Fazíamos o lume de chão para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão assim.
Por cima das nossas cabeças, o fumeiro – espécie de enfermaria para os enchidos – onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder repimpar com elas.
Ti Manel Alturas, o meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:

"Olha o Deus Menino
Nas palhas deitado,
A comer toicinho
Todo besuntado!"

A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas preparavam durante todo o dia. Ele era a boleima, o bolo podre, o bolo de laranja e as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos e regado com vinho da adega do Zé da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido falar em colesterol.
Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali cerca da meia noite quando me mandavam para a rua, ver o Pai Natal entrar pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos. Para vos falar disto é por que sei qual a diferença exacta que há entre os dois natais.

Largo do Espírito Santo. Foto Tony – cerca de 1950.

A Fonte do Espírito Santo. Desenho de Cruz Louro – 1939.

Largo do Espírito Santo- Foto Tony – cerca de 1950.
0
Os miúdos do Espírito Santo – foto de Manuel Gato – 1955. No 1º plano e da esquerda
para a direita: Armando Pereira, Manuel Maria Gato, Jorge (maluco) e António Maria
Craveiro. No 2º plano e da esquerda para a direita: Zé (prima do Manuel Maria), Manuel
(da avó), Rodrigo André (de mãos cruzadas), Hernâni Matos (com o braço à cintura), 
Maria Evelina Roma e Guilhermina Massano.

Nesse tempo, eu e os putos como eu, íamos no Verão tomar banho ao tanque da galega, ali na rua do Lavadouro, junto à Fonte do Espírito Santo. Ora, como o tanque era um tanque de lavagem da roupa, muitas vezes tomávamos banho em água de sabão. Outros, mais afoitos, corriam riscos maiores e iam tomar banho aos charcos das pedreiras. Mas os mais audazes eram, os que de noite ou em pleno dia, iam tomar banho ao lago do Gadanha, mesmo nas barbas da polícia, que de chanfalho na mão se aproximava pronta a infligir castigo. E como era giro, ver os putos bater a sola, dar às de Vila Diogo e deixar os polícias para trás, rubros de raiva e impotência.
Vêm-me também à memória as fogueiras dos Santos Populares que se faziam no Largo do Espírito Santo e também na rua do Almeida, entre a Adega do Zé da Glória e a fábrica de refrigerantes do Massano. Se calhar todos sabem que a Adega do Zé da Glória era onde está hoje a Adega do Isaías. Provavelmente já lá foram comer burras assadas. Talvez não saibam é o que é um pirolito de berlinde. Pois eu e os putos como eu, homens que andam por aí hoje na berlinda, sabíamos bem o que era um pirolito de berlinde. Além de dar para arrotar depois de bebido, dava para jogar ao berlinde, pois claro! Nessa época não havia brinquedos com comando a distância, nem computadores, nem joysticks, pelo que jogávamos ao berlinde, aos amalhões, à mosca, à pateira, ao botão e ao peão, pois o software da época não dava para mais. E éramos felizes no território onde o nosso bando era rei e senhor e assim aprendíamos a ser homens.
Foi ali no Largo do Espírito Santo que ao brincar, vi o destemido bombeiro Mário, mobilizado pelo toque de fogo, vir lançado de bicicleta, rua do Mau Foro abaixo, na gáspea. Falta de travões ou curva mal feita, não sei. O que é verdade é que o bombeiro Mário já não foi apagar o fogo nesse dia. Impávido e sereno, o umbral do portão da Horta do Quiton, metera-lhe a testa para dentro, marcando-lhe o rosto para o resto da vida. Alguém terá dito a propósito: “ - Devagar se vai ao longe!”.
No nº 2 – 2º morava o poeta Sebastião da Gama, natural de Azeitão e que viera para Estremoz em 1950, como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Estremoz e que estabeleceu uma forte ligação afectiva com a nossa cidade, patente nos seus Poemas e no seu Diário.



Sebastião da Gama sofria de tuberculose renal, diagnosticada muito cedo e tinha consciência que ia ter uma morte prematura, por isso amou a vida e a natureza intensamente, o que se reflectiu nos seus escritos.
A 5 de Fevereiro de 1952 deixaria para sempre o Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º, rumo ao Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Lembro-me desse fatídico dia 5 de Fevereiro de 1952, como se fosse hoje. Lembro-me de ele, meu vizinho, partir para uma viagem sem regresso.
Eu, hoje com 63 anos, um metro e noventa de altura e mais de cem quilos de peso, era um puto que usava bibe e andava numa Mestra, a Menina Teresinha, percursora das actuais Educadoras de Infância e que dava Escola no nº 1, nos baixos da Casa de Sebastião da Gama. Eu, que na época tinha veleidades ciclistas, andava de triciclo no passeio em frente da Casa de Sebastião da Gama, que me conhecia muitíssimo bem e que por vezes me fazia uma festa na cabeça, como se faz aos miúdos, sem maldade alguma.
Ainda guardo um desdobrável impresso a sépia com a sua foto e uma cabeça de Cristo crucificado, com poemas seus, que após a sua morte, foi oferecido aos amigos e aos vizinhos, em Sua Memória.
Hoje, estou aqui a falar dele e do Largo que ele tanto amava. Cinquenta e sete anos depois, é uma modesta, mas sentida evocação do puto ciclista que impunemente andava de triciclo frente à sua casa. E que ao contrário do que Veloso ouviu de Camões no Canto V dos Lusíadas, jura que nunca ouviu do Poeta o comentário. "Ouve lá, Hernâni amigo, este passeio é melhor de descer que de subir!".
É altura de terminar que a prosa já vai longa e a paciência dos leitores é inversamente proporcional ao tamanho do texto, pelo que para terminar pergunto:

- “Quem é o espírito que acode ao Largo?”

Largo do Espírito Santo – Vista Geral da Fonte e do prédio derrocado.
Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Largo do Espírito Santo – Vista à saída da Rua das Freiras
Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Largo do Espírito Santo – pormenor do prédio derrocado. 
Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Texto publicado inicialmente em 19 de Abril de 2010.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

DIA NACIONAL DOS CASTELOS


Castelo de Estremoz.


A 7 de Outubro comemora-se o DIA NACIONAL DOS CASTELOS, efeméride Instituída em 1984, com o objectivo de promover em todo o País, acções que visem a reflexão sobre o Património fortificado, uma vez que os castelos, testemunhos da memória colectiva dos povos, constituem uma valorosa referência arquitectónica, histórica, cultural e simbólica de uma comunidade.

Neste dia são desenvolvidas actividades pedagógicas e lúdicas inteiramente dedicadas ao mundo dos castelos, para miúdos e graúdos, explorando as suas características próprias e evocando histórias, personagens e acontecimentos.

Outrora os castelos tinham funções defensivas e residenciais. Hoje perpetuam as memórias de um povo "conquistador" e fazem parte do imaginário infantil, tantos nos contos de princesas como nas construções de areia que o mar teima em derrubar.


Castelo de Estremoz.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Repercussões do 5 de Outubro no leito dos portugueses


Fig. 1 - Alegoria republicana em costas de cama de ferro.
Cortesia de Manuela mendes.

São conhecidos diversos tipos de camas de ferro com a coroa real portuguesa, dos quais os exemplares da Fig. 2 e da fig. 3 são apenas dois. Com a implantação da República Portuguesa em 5 de Outubro de 1910, há uma mudança de paradigma em múltiplos aspectos da vida social da época. Não admira, pois, que algum fabricante de camas de ferro, com sentido de oportunidade para o negócio, tivesse decidido adaptar a sua produção aos novos tempos.

A imagem da Fig. 1 mostra-nos em pormenor o topo das costas de uma cama de ferro. Em moldura elíptica de orla rendilhada, está patente uma alegoria republicana. Em primeiro plano, o barrete frígio, símbolo republicano da liberdade. Em segundo plano, um facho que emite luz, virado para a esquerda do observador, o qual integra a simbologia maçónica.

Aqueles dois símbolos conjuntamente quererão significar que “por detrás da República está a Maçonaria” ou “a República é de inspiração maçónica” ou ainda “por detrás da República está a ânsia da liberdade”.

O barrete frígio e o facho de luz estão implantados num campo de flores, que a serem mimosas, simbolizam a inocência e a pureza, virtudes que na alegoria estarão associadas à República e à Maçonaria.

Há entre nós, respigadores natos, farejadores de fino olfacto, guardadores de memórias compulsivos, os quais deambulam por aqui e por ali, em casas de adelo e mercados de velharias, “em busca do tempo perdido", como diria Marcel Proust. São heróis na maioria anónimos, muitas vezes com limitados ou mesmo parcos recursos, que a expensas suas, tomam a iniciativa e a liberdade de trazer à luz do dia, testemunhos e por vezes despojos do passado, que são importantes memórias materiais indispensáveis à construção e à explicitação da nossa memória histórica enquanto Povo e da nossa identidade cultural enquanto Nação.

MUITO OBRIGADO, MANUELA MENDES!

Hernâni Matos

Publicado inicialmente em 6 de Outubro de 2024


Fig. 2 - Alegoria monárquica em costas de cama de ferro.
Imagem recolhida na internet.

Fig. 3 - Alegoria monárquica em costas de cama de ferro.
Imagem recolhida na internet.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quando a mudez fala por si

 

Fig. 1 - Bacia em barro vermelho vidrado de Redondo.


Prólogo
Proponho-me analisar um objecto cerâmico (Fig. 1) que não pode integrar a chamada “cerâmica falante”, visto não conter dizeres inscritos. Todavia, tem muito para nos contar, como veremos de seguida.

Identificação e dimensões
Trata-se de uma bacia em barro vermelho vidrado de Redondo, decoração pintada em tons de verde, amarelo e ocre. As dimensões são as seguintes: diâmetro da base: 34 cm; diâmetro exterior da abertura: 46 cm; diâmetro interior da abertura: 44 cm; largura do bordo: 1 cm; Altura: 11 cm.

Decoração
Bordo liso, pincelado irregularmente a verde. Pinceladas amarelas, ocres e verdes, reunidas em grupos afastados entre si. Estas pinceladas dirigem-se todas do bordo para o fundo, ao longo do covo, desviadas para a direita.
O fundo da bacia está decorado com uma bandeira quadrada e bipartida verticalmente em duas cores, verde escuro e ocre, ficando o ocre do lado da tralha. Ao centro e sobreposta à união das cores, figura uma esfera armilar em amarelo e assente sobre elas um escudo de armas com uma alegoria à República. Esta é materializada sob a forma de figura feminina, usando na cabeça um barrete frígio vermelho, o qual desde o séc. XVIII é conhecido como um símbolo de liberdade.

Bandeira nacional
Com a queda da Monarquia a 5 de Outubro de 1910, ocorre uma mudança de paradigma. As instituições e símbolos monárquicos (Rei, Cortes, Bandeira Monárquica e Hino da Carta) são proscritos e substituídos pelas instituições e símbolos republicanos (Presidente da República, Congresso da República, Bandeira Republicana e A Portuguesa), o mesmo se passando com a moeda e as fórmulas de franquia postais.
Visando a criação de uma nova bandeira para o regime republicano, por decreto de 15 de Outubro de 1910, o Governo Provisório nomeou uma “Comissão da Bandeira” integrada por Columbano Bordalo Pinheiro (pintor), Abel Botelho (escritor), João Chagas (jornalista e político), Ladislau Pereira (tenente) e Afonso Palla (capitão).
Poucos dias depois, em 29 de Outubro, a Comissão apresentou ao Governo Provisório uma primeira proposta de bandeira (Fig. 3), assente num cromatismo verde-rubro, o qual remonta ao movimento do 31 de Janeiro de 1891. Também em 5 de Outubro, foi utilizado por Machado Santos na Rotunda e, depois, em todos os quartéis e no alto do Castelo de São Jorge. A proposta, foi de resto, inspirada na bandeira da Carbonária (Fig. 2), sociedade secreta e revolucionária, que teve papel determinante na Revolução de 5 de Outubro de 1910.
Para além daquela proposta e como resultado do entusiasmo popular que então se vivia, surgiram ainda inúmeras outras propostas, suscitando todas elas um debate público muito vivo, centrado no cromatismo e no simbolismo da bandeira.
A 29 de Novembro, após algumas alterações à primeira proposta da Comissão, o Governo Provisório aprovou o projecto final da bandeira (Fig. 4): a bandeira verde e rubra, que após ser produzida pela Cordoaria Nacional, foi distribuída por todo o país.
A decisão do Governo Provisório viria a ser ratificada por decreto aprovado pela Assembleia Nacional Constituinte, na sua sessão inaugural, a 19 de Junho de 1911.

Datação da bacia
A bandeira que decora o fundo da bacia não corresponde ao modelo aprovado pelo Governo Provisório, pelo que se trata de um dos inúmeros projectos que vieram a público, antes do modelo ser aprovado. Tal facto, leva-nos a admitir que a bacia tenha sido produzida no período 1910-1911. Vejam lá a estória que a bacia tinha para nos contar.

BIBLIOGRAFIA

- ARQUIVO NACIONAL ALFREDO PIMENTA. República na Cidade. [Em linha]. Disponível em: https://www.amap.pt/p/hist-republica-na-cidade-2 [Consultado em 01 de Outubro de 2021].
- COMISSÃO NACIONAL PARA AS COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DA REPÚBLICA. Projectos de bandeira nacional. [Em linha]. Disponível em: https://5outubro.centenariorepublica.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=100&Itemid=98 [Consultado em 01 de Outubro de 2021].
- MUSEU DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Bandeira Nacional. [Em linha]. Disponível em: https://www.museu.presidencia.pt/pt/conhecer/simbolos-nacionais/bandeira-nacional/ [Consultado em 01 de Outubro de 2021].
- PARTIDO POPULAR MONÁRQUICO DE BRAGA. Bandeira nacional de Portugal. [Em linha]. Disponível em: https://ppmbraga.blogspot.com/2014/02/bandeira-nacional-de-portugal.html [Consultado em 01 de Outubro de 2021]. 

Publicado inicialmente a 4 de Outubro de 2021

Fig. 2 - Bandeira da Carbonária.

Fig. 3  - Bandeira portuguesa - 1.ª proposta da Comissão de Bandeira.

Fig. 4 - Bandeira portuguesa - 2.ª proposta da Comissão de Bandeira.

domingo, 4 de outubro de 2026

A revolução do 5 de Outubro de 1910 e a mudança de paradigma


Fig. 1 - Proclamação da República Portuguesa. Estampa de autor desconhecido 1910.

O derrube da Monarquia a 5 de Outubro de 1910 foi fruto da acção doutrinária e política do Partido Republicano Português, criado em 1876 e cujo objectivo essencial foi desde o princípio, a substituição do regime.
As questões ideológicas não eram primordiais na estratégia dos republicanos, uma vez que para a maioria dos seus simpatizantes, bastava ser contra a Monarquia, a Igreja e a corrupção política dos partidos tradicionais.
Determinados eventos como as Comemorações do Tri-Centenário da Morte de Camões (1880) (Fig. 2) e o Ultimatum inglês (1890) (fig.3) foram aproveitados pela propaganda republicana, que se procurou identificar com os sentimentos nacionais e as aspirações das massas populares. O Partido Republicano alcançou então enorme popularidade.
Na noite de 3 para 4 de Outubro de 1910, eclodiu em Lisboa um Movimento Revolucionário, impulsionado pelo Partido Republicano e apoiado pela Marinha de Guerra e por forças do Exército. Após dois dias de combate (Fig.4 a fig.19), o Movimento Revolucionário triunfa devido à incapacidade de resposta do Governo, que não conseguiu reunir tropas que dominassem os cerca de duzentos revolucionários que na Rotunda resistiam de armas na mão. Ao Governo monárquico não resta outra saída senão demitir-se. A família real abandona o país. A República é proclamada na manhã de 5 de Outubro, das janelas da Câmara Municipal de Lisboa (Fig. 20 a fig. 23) e é constituído imediatamente um Governo Provisório (Fig. 25), presidido pelo Dr. Teófilo Braga, que assume como tarefa fundamental uma mudança radical nas instituições vigentes. [1]
Com a queda da Monarquia a 5 de Outubro de 1910, há uma mudança de paradigma. Uma Monarquia com oito séculos é substituída por uma República que tomou o poder nas ruas de Lisboa e depois de o proclamar às varandas da Câmara Municipal, o transmitiu para a província à velocidade do telégrafo.
As instituições e símbolos monárquicos (Rei, Cortes, Bandeira Monárquica e Hino da Carta) são proscritos e substituídos pelas instituições e símbolos republicanos (Presidente da República, Congresso da República, Bandeira Republicana e A Portuguesa), o mesmo se passando com a moeda e as fórmulas de franquia postais.

[1] – De acordo com a Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910, era o seguinte, O PROGRAMA Do GOVERNO: “Desenvolver a instrução; assegurar a defeza nacional, procurando colocar Portugal em condições de verdadeiro e sério aliado com a Inglaterra; desenvolver as colónias sob a base do self-gouvernement; conceder plena autonomia ao poder judicial; criar o sufrágio universal e livre, assegurar o crédito público; desenvolver a economia nacional; estabelecer o equilíbrio do orçamento; fazer respeitar todas as liberdades necessarias, expulsar frades e freiras em harmonia com as nossas seculares leis liberaes; instituir a assistencia social, decretar a separação da egreja do estado; remodelar os impostos.”
0
Publicado inicialmente a 3 de Outubro de 2010  


Fig. 2 -  Festas do Tri-Centenário da Morte de Camões – Chegada do Cortejo
Cívico à Praça Luís de Camões (Desenho de Casanova -  Revista “O Occidente”,
nº 61 de 8 de Julho de 1880).

Fig. 3 - Manifestação patriótica em Lisboa, de repúdio pelo Ultimatum inglês, junto
ao monumento aos Restauradores (Desenho de L. Freire – Revista “O Occidente”,
nº 399 de 21 de Janeiro de 1890).

Fig. 4 - A Avenida da Liberdade, palco da Revolução (Fotografia reproduzida na Revista
“O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 5 - Um aspecto do acampamento revolucionário, no alto da Avenida da Liberdade
(Cliché da “Mala da Europa”, reproduzido na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145
de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 6 - No acampamento revolucionário, o povo armado, nas barricadas que levantou
(Fotografias reproduzidas na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 7 - O acampamento revolucionário, povo, soldados de Infantaria 16 e Artilharia 1,
fazendo pontarias (Fotografias reproduzidas na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145
de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 8 - Revolucionários do 5 de Outubro entrincheirados na Rotunda (Fotografia de
Anselmo Franco – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).

Fig. 9 - No acampamento revolucionário, alguns momentos de armistício (Instantâneos
de Joshua Benoliel, reproduzidos na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de
Outubro de 1910).

Fig. 10 - Revolucionários triunfantes hasteando a bandeira da República no seu
acampamento na avenida da Liberdade (Fotografia reproduzida na Revista
“O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 11 - Revolucionários na Rotunda (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo PCD).

Fig. 12 - Mulheres presentes nas barricadas da Rotunda (Fotografia de Joshua Benoliel –
- Arquivo PCD).

Fig. 13 - Mulheres presentes nas barricadas da Rotunda (Fotografia de autor não identificado,
provavelmente  Joshua Benoliel).

Fig. 14 - Lado a lado, civis e militares nas barricadas da Rotunda (Fotografia de Joshua
Benoliel – Arquivo PCD).

Fig. 15 - Os marinheiros que desembarcaram dos navios de guerra, passando no Rocio,
dirigem-se para o acampamento da Revolução na Avenida da Liberdade (Fotografia da
Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 16 - Manifestação entusiástica de apoio à revolução republicana por parte de
populares e de soldados da Guarda Fiscal que empunham a bandeira republicana.
(Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).

Fig. 17 - O quartel-general dos revolucionários instalado na casa
do Sr. Costa Lopes na Avenida da Liberdade (Fotografia reproduzida
na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 18 - No Largo das duas Igrejas. Os revolucionários percorrem em trens
as ruas de Lisboa (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”,
nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).

Fig. 19 - No Rocio – Os revolucionários saúdam o povo de Lisboa que os aclama
(Fotografia do Estúdio Mário Novais - Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal
de Lisboa).

Fig. 20 - O povo em frente à Câmara Municipal de Lisboa durante a proclamação da
República (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal
de Lisboa).

Fig. 21 - O povo em frente à Câmara Municipal de Lisboa aclama a proclamação da
República (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal
de Lisboa).

Fig. 22 - O Governador Civil, Eusébio Leão, à varanda da Câmara Municipal de Lisboa, após a proclamação
da República, aconselha comedimento nos ânimos populares (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo
Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).

Fig. 23 - Inocêncio Camacho, à varanda da Câmara Municipal de Lisboa, após a proclamação da República,
lê os nomes dos membros do Governo Provisório (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do
Arquivo Municipal de Lisboa).

Fig. 24 - Depois da revolução, recolhendo as armas (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”,
nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).


Fig. 25 - Bilhete-postal humorístico da época com o GOVERNO PROVISÓRIO DA REPÚBLICA. Da esquerda
para a direita: BRITO CAMACHO (Ministro do Fomento), AMARO JUSTINIANO DE AZEVEDO GOMES
(MINISTRO DA MARINHA E DO ULTRAMAR), ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA (Ministro do Interior), TEÓFILO
BRAGA  (Presidente do Conselho de Ministros), ANTÓNIO XAVIER CORREIA BARRETO (Ministro da Guerra),
BERNARDIM MACHADO (Ministro dos Negócios Estrangeiros), AFONSO COSTA (Ministro da Justiça e Cultos),
JOSÉ RELVAS (Ministro das Finanças).