domingo, 16 de agosto de 2026

Arte pastoril - Os cochos

 

Fig.1 - Cocho com decoração em alto relevo na face posterior.


Um cocho é um recipiente em cortiça usado tradicionalmente no Alentejo para beber água que jorra duma fonte ou é vazada a partir de um cântaro de barro.

Morfologicamente, o cocho consta de duas partes: uma concava (concha) e outra plana (cabo ou pega), de geometria e tamanhos variáveis, mais ou menos inclinada em relação à primeira e provida ou não de uma abertura, igualmente de geometria e tamanho variáveis, que permite a sua suspensão numa parede ou a partir da cintura do utilizador.

A maioria dos cochos são lisos, mas podem apresentar-se também decorados. A decoração é efectuada habitualmente na face anterior da pega (Fig.2, Fig. 3 e Fig. 4) e manifesta-se geralmente sob a forma de arte linear, obtida por incisões na cortiça. De resto, o bordo da pega pode ou não ser talhado em forma de recortes de índole diversa.

É menos vulgar a decoração na parte posterior do cocho. A apresentada aqui (Fig. 1) é mesmo invulgar, já que se trata de uma decoração em alto relevo na parte posterior do cocho, distribuids pela face posterior.da pega e pela parte convexa da concha. Trata-se de uma figura feminina trajando vestido com decote  e mangas, a qual de braços abertos configura vontade de abraçar quem a olha. Quem sabe se esta representação com sabor a saudades do ente querido, não traduz a convicção de um pastor de que, algures num monte distante da choupana improvisada onde ele se encontra, a mulher amada aguarda o seu regresso. Quem sabe?

Hernâni Matos 


Fig. 2 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega,
a qual tem bordo denteado.

Fig. 3 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega,
a qual tem bordo recortado.

Fig. 4 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega.

sábado, 15 de agosto de 2026

Nossa Senhora no Azulejo Português


Nossa Senhora do Rosário (1640).
Painel de 7 x 5 azulejos (14 x 14 cm).
Arquidiocese de Évora.

Segundo os Evangelhos, Maria, vulgarmente conhecida por “Nossa Senhora” é mãe de Jesus a quem deu à luz em Belém e que foi adorado numa manjedoura como filho de Deus, não só por pastores como por reis magos (Lucas 2:1-20).
De acordo com a religião católica, a Maria estão associados quatro dogmas de fé: “Virgindade Perpétua”, “Maternidade Divina”, “Imaculada Conceição” e “Assunção aos Céus”.
A intensa devoção dos católicos por Maria, levou-os a atribuir-lhe inúmeros títulos devocionais, dentre os quais: Nossa Senhora…
...Aparecida, Aquiropita, Auxiliadora, da Abadia, da Ajuda, da Anunciação, da Anunciada, da Apresentação de Natal, da Apresentação, da Arábia, da Arrábida, da Anunciação, da Ascensão, da Assunção, da Boa Fé, da Boa Hora, da Boa Morte, da Boa Nova, da Boa Viagem, da Bonança, da Cabeça, da Candelária, da Carpição, da China, da Conceição, da Conceição da Abóboda, da Conceição de Vila Viçosa, da Conceição do Minho, da Consolação, da Consolação e Correia, da Coroa, da Defesa, da Divina Providência, da Encarnação, da Escada, da Esperança, da Estrela, da Evangelização, da Expectação, da Fé, da Glória, da Graça, da Guia, da Hora,  da Imaculada Conceição, da Lactação, da Lampadosa, da Lapa, da Luz, da Misericórdia, da Natividade, da Nazaré, da Oliveira, da Orada, da Ortiga, da Paz, da Piedade, da Praia, da Pena, da Penha de França, da Penha, da Piedade, da Ponte, da Porta, da Praia, da Pureza, da Purificação, da Saudação, da Saudade, da Saúde, da Serra, da Soledade, da Tourega, da Vila, da Visitação, da Vitória, das Alfândegas, das Angústias, das Brotas, das Candeias, das Cerejas, das Dores, das Dores e Regate, das Estrelas, das Graças, das Lágrimas, das Maravilhas, das Mercês, das Misericórdias, das Necessidades, das Neves, das Sete Dores, das Virtudes, das Vitórias, de Aires, de ao pé da Cruz, de Belém, de Campanhã, de Caravaggio, de Ceuta, de Copacabana, de Fátima, de Guadalupe, de La Salette, de Lourdes, de Lujan, de Machede, de Medugorje, de Monserrate, de Muquém, de Nazaré, de Pompeia, de Todas as Nações, de Vagos, de Vandoma, Desatadora de Nós, Divina Pastora, do Alívio, do Almortão, do Amor Divino, do Amparo, do Bodo, do Bastão, do Bispo, do Bom Conselho, do Bom Despacho, do Bom Parto, do Bom Socorro, do Bom Sucesso, do Brasil, do Cabo da Boa Esperança, do Cabo, do Cardal, do Carmo, do Castelo, do Coração Orante, do Desterro, do Leite, do Líbano, do Livramento, do Loreto, do Mato, do Mel, do Mileu, do Monte Carmelo, do Monte do Carmo, do Monte, do Novo Advento, do Ó, do Palmar, do Parto, do Patrocínio, do Perpétuo Socorro, do Pilar, do Pópulo, do Porto, do Povo, do Pranto, do Presépio, do Repouso, do Rocio, do Rosário de Fátima, do Rosário, do Sagrado Coração, do Sião, do Sinal, do Sobreiro, do Socorro Imediato, do Sorriso, do Terço, do Vencimento, dos Aflitos, dos Altos Céus, dos Anjos, dos Desamparados, dos Humildes, dos Mares, dos Mártires, dos Milagres, dos Navegantes, dos Prazeres, dos Remédios, Madre de Deus, Mãe da Igreja, Mãe de Deus, Mãe dos Homens, Medianeira, Menina, Peregrina, Porta do Céu, Protectora dos Fiéis, Rainha do Céu, Rainha dos Apóstolos, Rainha dos Homens.
A todos esses títulos correspondem imagens, muitas das quais estão representadas na azulejaria portuguesa, facto de que aqui damos conta, ainda que duma forma não exaustiva.

Publicado pela 1ª vez em 9 de Maio de 2012

Nossa Senhora da Conceição (1650 - 1675).
Painel de azulejos (86,6 x 87,7 cm).
Fabrico de Lisboa. Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Nossa Senhora com o Menino.(1º terço do século XVII).
 Olaria de Lisboa.
 Arquidiocese de Évora. 

Nossa Senhora da Conceição com os símbolos Marianos
(meados do século XVII).
Painel de azulejos, fabrico de Lisboa.
 Arquidiocese de Évora. 

Nossa Senhora da Piedade (séc XVII).
Painel de azulejos na Ermida de Nossa Senhora da Piedade,
 Ilha de Santa Maria, Açores.

Nossa Senhora do Mato (Séc. XVII).
Frontal de Altar. Capela de Nossa Senhora do Mato,
freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes.
 
Nossa Senhora da Misericórdia (1712).
Painel de azulejos de António de Oliveira Bernardes,
pintor e azulejista português dos séculos XVII e XVIII.
Antiga Igreja da Misericórdia de Estremoz.

Presépio e Adoração dos Reis Magos (Meados do séc. XVIII).
Painel de azulejos de composição figurativa (174 cm x 280 cm).
Arquidiocese de Évora.

Nossa Senhora da Natividade (2º quartel do Século XVIII).
Painel de azulejos (72 x 43 cm).
Colecção Berardo.

Nossa Senhora da Conceição e as Almas do Purgatório (1750).
Painel de azulejos (224 x 83 cm).
 Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Nossa Senhora do Rosário (1751).
Painel de azulejos (156 x 58 cm).
 Fabrico de Coimbra.
Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra.

São Marçal, Nossa Senhora da Conceição e São Francisco de Borja (1758).
Painel de azulejos (300 x 154 cm). Fabrico de Lisboa.
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Nossa Senhora do Carmo (1770-1780).
Painel de azulejos (195 x 91 cm). Fabrico de Coimbra.
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Nossa Senhora das Almas (1772).
Painel de azulejos (122 x 84 cm). Oficina de Manuel da Costa Brioso.
 Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra.

Nossa Senhora das Dores, Santa Rita e Santo António
com o Menino  (c. 1775-1780).
Painel de azulejos (7 x 6 - incompleto).
Autoria de Francisco Jorge da Costa. Fabrico de Lisboa. 
 Proveniente da Rua Bica do Marquês, 19, Lisboa. 
 Museu da Cidade, Lisboa.

Nossa Senhora da Penha de França (Último quartel do Século XVIII).
Painel de azulejos (155 x 54 cm).
Colecção Berardo.

Nossa Senhora do Carmo (Último quartel do Século XVIII).
Painel de azulejos (124 x 111,5 cm).
Colecção Berardo.

Nossa Senhora da Ascensão (Século XVIII).
 Painel de azulejos (128 x 57 cm).
Colecção Berardo.

 Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos
(séc. XVIII).
 Painel de azulejos da Sé de Aveiro.

Nossa Senhora da Conceição, São Marçal, Santo António
e São Pedro de Alcântara (1790).
Painel de azulejos da Travessa da Queimada, 11 – Lisboa .

Nossa Senhora da Conceição, Santo António e São Marçal 
(c. 1775-1790). 
 Painel de azulejos (99 x 269 cm).
Fabrico de Lisboa.  Colecção Solar, Lisboa. 
Nossa Senhora da Conceição, Santo António
e São Marçal (c. 1775-1790). 
 Painel de azulejos (99 x 269 cm).
 Fabrico de Lisboa.  Colecção Solar, Lisboa.

Nossa Senhora da Conceição, São Marçal,
Santo António de Lisboa e São Pedro de Alcântara (1790).
Painel de azulejos (68 x 135 cm).
 Real Fábrica de Louça, ao Rato, Lisboa.
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.


Nossa Senhora jogando às cartas com o Menino Jesus (séc. XVIII).
Painel de azulejos na nave da Sé Catedral de Beja.

Nossa Senhora da Conceição (1800).
Painel de azulejos (42 x 42 cm). Fabrico de Lisboa.
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Nossa Senhora das Sete Dores, São Marçal,
Santo António com o Menino e Almas do Purgatório (1800).
 Painel de azulejos (126 x 98 cm). Real Fábrica de Louça, ao Rato, Lisboa.
 Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Cristo crucificado, Nossa Senhora da Penha de França e São Marçal (1800 – 1810).
Painel de azulejos (148 x 72 cm). Real Fábrica de Louça, ao Rato, Lisboa.
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Nossa Senhora da Conceição e Santo António (1821). 
 Painel de azulejos da Rua da Palmeira, Mercês.

Nossa Senhora da Boa Viagem (1º quartel do Século XIX).
 Painel de azulejos (70 x 28 cm).
 Colecção Berardo.

Nossa Senhora com o Menino (1º quartel do Século XIX).
Painel de azulejos (71 x 46 cm).
Colecção Berardo.

Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Ascensão (1º quartel do Século XIX).
Painel de azulejos (92 x 56 cm).
Colecção Berardo.

Senhor dos Passos, Nossa Senhora da Nazaré (1º quartel do Século XIX).
Painel de azulejos (126 x 98 cm).
 Colecção Berardo.

Nossa Senhora, Protectora dos Fiéis (2º quartel do Século XIX).
Painel de azulejos (229,5 x 249 cm). 
Colecção Berardo.

Nossa Senhora do Almurtão (?).
Painel de azulejos na fachada de um edificio
 de Idanha-a-Nova.

Procissão de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego (1903).
Painel de azulejos do pintor, ceramista, ilustrador e caricaturista Jorge Colaço (1864-1942).
Estação da C.P. de S. Bento, Porto.

Nossa Senhora da Estrela (1938).
Painel de azulejos do pintor, ceramista, ilustrador e caricaturista Jorge Colaço (1864-1942).
Fabrico de Lisboa. Escadaria frontal da Igreja Matriz de Parada de Gonta, Tondela.

sábado, 8 de agosto de 2026

ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS

 

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 


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Integrada no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, foi inaugurada no passado sábado, dia 16 Maio. na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, a exposição de artesanato estremocense “ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS”.

À “vernissage” compareceram cerca de 6 dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, a quem agradeço as palavras amigas, bem como à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água, a qual no mesmo sentido o antecedeu no uso da palavra. Ainda que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto: reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem vêem, muito me congratulam e estimulam.

Seguidamente, coube-me a mim agradecer as facilidades concedidas pelo Município na realização da exposição, bem como o contributo de todos aqueles que a tornaram realidade, assim como viabilizaram de algum modo a publicação do catálogo da mesma, o qual perdurará para a posteridade como visual e memória futura do evento.

Falei seguidamente da exposição, a qual integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL SEROL GOMES (1957 -  )  Arte Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38 trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril (4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos); - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual - Pintura Judaica – (12 trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte Conventual – Registos e Maquinetas (28 trabalhos).     

A terminar, conduzi uma visita guiada à exposição, no decurso da qual fiz referência ao modo de produção de cada artesão, bem como a certos aspectos do respectivo perfil biográfico.

Como foi oportunamente divulgado, a exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz.

A mostra estará patente ao público até ao próximo dia 15 de Setembro.

Hernâni Matos 

Publicado a 20 de Maio de 2026