sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Bonecos de Estremoz: Mariano da Conceição (2.ª parte)


Berço do Menino Jesus (dos putto).

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que foram publicadas sucessivamente.
Esta é a 2.ª parte.

CRÉDITOS
Fotografias de Luís Mariano Guimarães (2012).
 Procissão pertencente ao Museu Municipal de Estremoz e
os restantes Bonecos propriedade do Museu Rural de Estremoz.


Já vimos que a velha bonequeira Ana das Peles (1.ª parte e 2.ª partefoi o instrumento primordial da recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, empreendida pelo escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971) nos anos 30 do séc. XX. Vimos igualmente que Mestre Mariano da Conceição (1.ª parte) foi o instrumento de continuidade dessa recuperação. Chegou a altura de conhecer alguns dos seus Bonecos. 


Presépio de trono ou de altar.

 Santo António.


Procissão.

Pastor de tarro e manta.

Pastor das migas.

Pastor a comer.

Maioral e ajuda a comer.

Pastor do harmónio.

Ceifeira.

Mulher dos perus.

Matança do porco.

Mulher dos enchidos.

Aguadeiro.

Mulher das castanhas.

Peralta.

Homem do harmónio.

Cavaleiro.

Amazona.

Lanceiro.

Frade a cavalo.

Mulher a lavar a roupa.

Mulher a passar a ferro.

Senhora a servir o chá.

Senhora ao toucador.

Senhora de pézinhos.

Preta florista.

Preto a cavalo.

Primavera.

Bailadeira pequena.

Barbeiro sangrador.

Púcaro enfeitado (ou Fidalguinho).

Cantarinha enfeitada.

Peralta a cavalo (assobio).

Estremoz, 11 de Outubro de 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Mariano da Conceição (1903-1959)


Mariano Augusto da Conceição - o Alfacinha (1903-1959)

O que de essencial escrevi sobre Mariano da Conceição, pode ser lido aqui:
Mariano da Conceição partiu há 60 anos
  
De 12 de Outubro a 30 de Novembro de 1019,
estará patente ao público no
Museu Municipal de Estremoz,
a exposição
 BONECOS DE ESTREMOZ DE MESTRE MARIANO DA CONCEIÇÃO

Estremoz, 10 de Outubro de 2019

Poesia Portuguesa - 094




VÍRGULA
ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928-1953)


Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928-1953)

Hernâni Matos


Homenagem a António Maria Lisboa (1997). Carlos Calvet (1928-2014). Serigrafia
a 30 cores sobre papel fabriano [58x38 cm (Dimensão da Mancha), 70x50 (Dimen-
são do Suporte): 70x50 cm – Tiragem: 200 exemplares].

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Mariano da Conceição partiu há 60 anos


Mariano da Conceição (1903-1959) na sua oficina. Fotografia de Rogério de Carvalho
(1915-1988). Arquivo fotográfico do autor.



Foi há 60 anos que no fatídico dia 29 de Setembro de 1959, faleceu prematuramente o barrista Mariano Augusto da Conceição (1903-1959), o “Alfacinha”. Foi vítima de atropelamento por um cavalo no final de um Raid Hípico com meta no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz.
Mariano era filho primogénito do oleiro Narciso Augusto da Conceição e neto de Caetano Augusto da Conceição, fundador da Olaria Alfacinha. À data da sua morte era Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Aqui o director, escultor José Maria Sá Lemos (1892-1971), natural de Vila Nova de Gaia, atribuíra a si próprio a missão de recuperação da manufactura dos Bonecos de Estremoz, extinta desde 1921. A velha bonequeira Ana das Peles (1859-1945) foi o instrumento primordial dessa recuperação conseguida em 1935 e devido à sua avançada idade, impunha-se que houvesse continuadores. Dai que Sá Lemos tenha lançado um repto a Mariano da Conceição, o qual viria a ser o instrumento de continuidade dessa recuperação. De facto, Mariano aceitou de bom grado o desafio e teve êxito, passando a ter uma tripla actividade: Oleiro na Olaria Alfacinha, Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves e bonequeiro.
Mariano partiu mas legou-nos os seus Bonecos e graças à acção de continuadores não se extinguiu a tradição da manufactura de Bonecos de Estremoz, cuja origem remonta pelo menos ao séc. XVII.
Da plêiade de continuadores de Mariano, sobressai o chamado clã dos alfacinhas: a irmã Sabina da Conceição (1921-2005), a mulher Liberdade da Conceição (1913-1990), a filha Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e o neto Jorge da Conceição (1963- ).
A transmissão de saberes ao longo de gerações em meio familiar e em contexto oficinal, bem como a singularidade do modo de produção, fez com que em 2017, a manufactura de Bonecos de Estremoz fosse inscrita pela UNESCO na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Estremoz, 29 de Setembro de 2019


Sá Lemos (1892-1971) trocando impressões com ti Ana das Peles (1859-1945) numa
sala de aulas da Escola  Industrial António Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério
de Carvalho (1915-1988), publicada no semanário estremocense “Brados do  Alentejo”
nº 250, de 10 de Novembro de 1935. Arquivo fotográfico do autor.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A visão multifacetada das coisas


Fig. 1 – Varredor de rua. Fotografia de Guy Le Querrec. Estremoz, 1967.

Prólogo
Alguns são historiadores. Uns são encartados e outros não. Eu sou simplesmente estoriador ou seja um contador de histórias ao jeito que já conhecem. São estórias de vida daqueles que me cercam. São também estórias de vida daqueles que já partiram, mas permanecem vivos no registo quântico da minha memória. São ainda estórias de vida que chegam até mim, através de imagens que observadores atentos captaram e fixaram para a posteridade. Cabe-me a mim, proceder à leitura dessas imagens. Em primeiro lugar daquilo que é óbvio e salta à vista de todos. Tanto pode ser uma como várias estórias. Depois vem a leitura daquilo que não é evidente e apenas é visível para observadores mais atentos e minuciosos. Segue-se a leitura do lado oculto das imagens, o que já exige outros dons. Só no fim vem a lição, a mensagem ou o aviso que essas imagens transmitem.
Pausa no trabalho                                                    
A imagem que me chegou às mãos e que é objecto da presente crónica, é da autoria do fotógrafo francês Guy Le Querrec e foi obtida em 1967, em Estremoz, à saída do Largo da República para a Rua Brito Capelo. Terá sido fruto da conjugação de um raro sentido de oportunidade e de um elevado grau de consciência antropológica do seu autor.
O personagem central da fotografia é um varredor de rua, encostado à parede e que no decurso de uma pausa no trabalho se prepara para enrolar um cigarro. Fumava tabaco de onça, que seria o único permitido pelo seu magro salário. Creio que no fim não terá lançado a beata para o chão, por cuja limpeza era responsável. À sua frente, os instrumentos de trabalho de que se serve, o vasculho e um carro de mão com dois baldes com tampa, dum dos quais espreita o cabo de uma pá de apanhar o lixo.
Loja de Artesanato
A personagem secundária da fotografia, mas com importância para a presente crónica, é a montra da Loja de Artesanato Regional da Olaria Alfacinha, situada no n.º 30 do Largo da República. No recheio da montra figuram Bonecos de Estremoz e destaca-se uma peça de Olaria enfeitada, conhecida por “Candelabro enfeitado”. O chão e o passeio estão limpos, o rodapé da parede, em pó de sapato, é elevado. À esquerda a parede está descascada, indiciando salitre. De resto a alvura da parede está comprometida pelos cabos eléctricos ali estendidos pela EDP.
A Loja de Artesanato da Olaria Alfacinha foi encerrada em 1987, quando do trespasse da Olaria pelo casal Rui e Cristina Barradas, que foram proprietários da Olaria até ao seu encerramento definitivo em 1995.
Mas isso são tempos que já lá vão. Foi Luís de Camões que disse: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o Mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.”
Talho
A loja mudou de ramo. Ali já não se vendem recordações que têm a ver com a matriz identitária local e regional. Ali já não se vendem Primaveras, Peraltas, Senhoras de Pezinhios, Frades a cavalo e Matanças de porco. É que a Loja de Artesanato deu origem a um talho. Agora vende-se ali dobrada, segredos, morcelas, farinheiras, costeletas, bifes da vazia e hamburguers feitos na hora. E não é só isto, mas muito mais, já que à matança do porco se acrescentou a do borrego, da vitela, dos frangos e dos perus. Há carne de todos os feitios e paladares, à vontade do freguês.
A imagem do exterior do talho (Fig. 2) é da autoria do barrista Ricardo Fonseca e foi obtida na actualidade. A montra da Loja de Artesanato deu origem a uma janela com persianas e cuja função é iluminar o talho com luz natural. O rodapé, agora mais vivo, baixou de altura. A alvura da parede é agora maior, como maior é o número de cabos da EDP a profanar a parede. À esquerda da montra, uma caixa também da EDP e à direita um gradeamento que evita o estacionamento no local e impede que os peões sejam atropelados pelos automóveis que por ali transitam.                        
Recuperar a Olaria
A Olaria Alfacinha foi extinta em 1995 e a última Olaria existente, a Olaria Regional, acabou com a morte de Mestre Mário Lagartinho em 2016. Há 3 anos que se encontra extinta a Olaria em Estremoz. É um interregno que começa a doer, como doeu o interregno de 14 anos na manufactura de Bonecos, entre 1921 e 1935, até á revitalização promovida nos anos 30 do século passado, por Sá Lemos, Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Como não tenho espírito sebastianista, não estou à espera de um novo Sá Lemos, que venha reactivar a extinta Olaria de Estremoz. Creio torna-se necessário gizar um plano para a sua recuperação e salvaguarda. Não basta a Olaria estar musealizada, é preciso que esteja viva.
A Olaria, filha bastarda da Barrística
A Barrística Popular Estremocense tem duas componentes: a manufactura de Bonecos e a Olaria. A primeira desde 2017 que integra a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da humanidade.
Quanto à Olaria é uma arte popular tradicional mais antiga que os Bonecos e que na cidade se firmou desde tempos remotos e que por isso mesmo tem também a ver com a identidade cultural local e regional. Todavia, a Câmara há muito que virou a cara para o lado e assobia distraidamente, como se não fosse nada com ela. É caso para lhes perguntar:
- “Porque é que só se interessam pelos Bonecos?”
É claro que não vão responder, mas a resposta que ocorrerá, decerto, a muito boa gente é que:
- “Os Bonecos é que estão a dar!”
É caso para lhes perguntar:
- “E a Olaria não é gente?”
A meu ver, a recuperação da extinta Olaria tradicional de Estremoz é necessária,
inadiável e urgente, o que me incita a dar algumas recomendações à Câmara:
- “Metam o assobio no bolso. Arrepiem caminho. Abram os olhos, que ainda não chegou o tempo de os fechar.”
E acrescento:
“Já vos foi sugerido um caminho com viabilidade assegurada, visando aquela recuperação. Todavia, alguém que já não está aí, não quis. Decerto que há outros caminhos alternativos àquele que vos foi sugerido. Têm é de escolher um e percorrê-lo até ao fim. Não podem é enterrar a cabeça na areia como o avestruz.” 
Literatura de Tradição Oral
A literatura de tradição oral faz uma abordagem antropológica da figura do varredor. Assim, na GÍRIA POPULAR, o varredor é conhecido por “Almeida” e por “Escrivão de pena grande”. A nível de PROVÉRBIOS são conhecidos alguns: “Lixo é o que não presta”, “A vassoura nova é que varre bem” e “Se caiu no chão é para quem varrer a rua”. Quanto a SUPERSTIÇÕES são conhecidas estas: “Varrer os pés de uma pessoa faz com ela nunca se case” e “Varrer a casa ao meio-dia e deitar cisco fora é muito mau, porque se deita fora a fortuna”. No âmbito das LENGALENGAS é bem conhecida esta: “Varre, varre vassourinha / Varre, varre vassourinha / Varre bem esta casinha / Se varreres bem dou-te um vintém / Se varreres mal dou-te um real.” No domínio das ALCUNHAS ALENTEJANAS, “Varredor” é uma alcunha de origem profissional (Redondo), “Vassourinha” a designação aplicada a uma mulher que em criança era muito irrequieta (Arraiolos) e “Vassoura dos penicos” o cognome atribuído a uma mulher muito vaidosa (Redondo). No que respeita a TOPONÍMIA e apesar da importância social de que sempre se revestiu a actividade diária dos varredores, estes estão ausentes da toponímia nacional. Por outro lado, também não conheço qualquer referência ao varredor no CANCIONEIRO POPULAR. Todavia no álbum “Madrugada dos trapeiros” editado em 1977, o cantor Fausto termina a canção “O varredor”, dizendo: “Neste trabalho braçal / de tudo varre o varredor: / gato morto e um aborto semanal / o que nos falta em rigor, sim senhor, é varrer o capital.”
Epílogo
A realidade é multifacetada, pelo que variando a profundidade da observação há que sucessivamente perscrutar o óbvio, sondar o menos visível e penetrar no oculto. A realidade é também multidimensional no espaço e no tempo. Por isso, a análise de uma imagem tem que se lhe diga. Requer mais instrumentos que os ingredientes comportados pelo cozido à portuguesa. Pensem bem nisto e não se deixem arrastar pelo óbvio.
(Estremoz, 15 de Setembro de 2019)

Fig. 2 – Janela de talho. Fotografia de Ricardo Fonseca. Estremoz, 2019.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Ricardo Fonseca (1.ª parte)


Fig. 1 - Ricardo Fonseca (1986- ). Fotografia de 2018 da autoria de Luís Mendeiros.
Arquivo fotográfico do autor.

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que serão publicadas sucessivamente.
Esta é a 1.ª parte.
A 2ª parte será editada proximamente.

Ricardo Jorge Moreira Fonseca nasceu a 20 de Setembro de 1986 no Monte da Estrada, situado no lugar de Mártires, freguesia de Santa Maria do concelho de Estremoz. Filho legítimo de João Francisco Fonseca, de 26 anos, motorista, e de Maria José Ramalho Moreira Fonseca, de 30 anos, doméstica (1).
De 1998 a 2004, foi aluno da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Aqui frequentou o 12º ano de escolaridade, cursando Artes e adquirindo saberes no âmbito da Pintura, da Escultura e da História de Arte (2).
Sobrinho de peixe sabe nadar. O seu tio Ilídio foi oleiro na Olaria Alfacinha, onde ainda trabalhava em 1983. As irmãs Flores, suas tias, são bonequeiras. A Maria Inácia desde 1972 e a Perpétua desde 1976. Não admira pois que se tenha sentido fascinado pela plasticidade do barro e pelas transmutações que ele permite já que, como diz o poeta António Simões: “Barro incerto do presente, / Vai moldar-te a mão do povo / Vai dar-te forma diferente, / Para que sejas barro novo.” Daí que Ricardo tenha começado a manusear o barro aí pelos catorze anos, fazendo a aprendizagem com as sua tias. Aos quinze anos já fazia pequenos presépios e algumas imagens que vendia aos turistas, assegurando assim a mesada para os seus gastos juvenis.
Ao sair da Escola, em 2005, começou a trabalhar (Fig. 1) com as tias na oficina-loja do Largo da República (Fig. 2). Foi então que a manufactura de Bonecos deixou de ser uma brincadeira e passou a ser o seu mester. A execução das figuras continuou, todavia, a ser feita com imenso prazer e igual paixão, pois como diz o adagiário “O trabalho é o mestre do ofício” e “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”.
Trabalha muitas vezes por encomenda, o que é caso para dizer “A boa obra, se vai pedida, já vai comprada e bem vendida”. Confecciona espécimes dentro e fora do conjunto dos “Bonecos da Tradição”. Entre os modelos que registam maior procura figuram: “O Amor é Cego”, “Primavera”, “Rainha Santa Isabel” e “Presépios”. São de sua criação, figuras como “O professor”, “Fernando Pessoa”, “Cavaleiro Tauromáquico”, “Forcado”, “Rainha Santa Isabel alimentando um pobre”, “Santiago”, “Senhor dos Passos com Nossa Senhora” e “Paliteiros zoomórficos”.
A procura de coleccionadores leva-o a criar variantes de muitos exemplares, o que acontece sobretudo com “Presépios”, mas também com imagens como “Santo António”, “Nossa Senhora da Conceição” e “Rainha Santa Isabel”, o que se torna estimulante, sob um ponto de vista criativo. De resto e por auto-desafio vai criando peças cada vez mais complexas, sem abandonar porém os preceitos inerentes à manufactura dos Bonecos de Estremoz. É caso para dizer que: “Aprende por arte e irás por diante”.
De parceria com as tias tem executado exemplares como “Coreto Municipal”, “Presépio de Galinheiro” e “Jogador de bilhar”.
É sabido que cada barrista tem o seu próprio modo de observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor. Lá diz o adagiário: “As obras mostram quem cada um é” e “Pela obra se conhece o artesão”. No caso de Ricardo, o perfeccionismo está-lhe na massa do sangue, o que o leva a dedicar-se aos pormenores, não só na pintura, como na própria manufactura do rosto, das mãos, dos pés e dos enfeites que adornam as figuras.
Quanto às suas marcas de autor são múltiplas: - “RicardoFonseca” com ou sem data ou com data e “Estremoz”, manuscritas e com iniciais maiúsculas; - RF com ou sem data, pintado em cor variável, etc.
Ricardo tem participado em exposições colectivas, não só em Estremoz, como em Espanha e Itália, assim como em Feiras de Artesanato (FIAPE e a FATACIL), no stand das tias.
Ganhou o 1º Prémio no Concurso de Barrística “Rainha Santa Isabel”, promovido pelo Município de Estremoz no decurso da FIAPE 2011.
Se tivesse que se dedicar à manufactura de um único tipo de figuras, escolheria os Presépios, já que estes possibilitam um número ilimitado de cenários, o que é estimulante, sob um ponto de vista criativo.
Restaura também Bonecos de Estremoz e outras peças de cerâmica. Como gosta de artes plásticas em geral, ocasionalmente também desenha e pinta em casa.
Apesar de por opção própria trabalhar na oficina-loja das tias, Ricardo não é um aprendiz, é um barrista de corpo inteiro, que por ser deles o benjamim, tem nas suas mãos a pesada herança de assegurar o futuro dos Bonecos de Estremoz. Força, Ricardo! “Parar é morrer” e “Para a frente é que é caminho”.

BIBLIOGRAFIA
1 - Ricardo Jorge Moreira Fonseca - Assento de Nascimento Informatizado nº 256 de 2008, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
2 - Ricardo Jorge Moreira Fonseca – Processo Individual de aluno nº 11921, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.

Hernâni Matos


Fig. 2 - Irmãs Flores. Perpétua (1958- ) à esquerda e Maria Inácia (1957) à direita.
Fotografia de 2018 da autoria de Luís Mendeiros. Arquivo fotográfico do autor.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Cabaça enfeitada


Cabaça enfeitada, adquirida no Mercado das Velharias, em Estremoz.

As minhas incursões ao Mercado das Velharias em Estremoz, dão regularmente os seus frutos. Recentemente adquiri uma cabaça enfeitada, cuja descrição passo de imediato a fazer.
Trata-se de uma cabaça com base plana e corpo de formato periforme. Superfície esculpida em baixo relevo, ornamentada com motivos fitográficos, configurando ramos de sobreiro com folhas e bolotas. Trabalho feito à navalha.
Aproximadamente a meio da altura, a cabaça apresenta um estrangulamento, envolvido por uma correia que serve de dispositivo de suspensão e que utiliza 3 passadores em madeira. Na parte superior, apresenta uma abertura fechada por uma tampa de madeira com um orifício para prender à correia. Junto à abertura, as iniciais TSG (Teresa Serol Gomes). Altura: 14 cm.