quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

As Jóias da Coroa


 Fig. 1 - Rei Mago em pé (Belchior). Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.


Pese embora a minha condição de republicano e plebeu, assiste-me o direito de ser rei de mim mesmo e usar a Coroa que livremente escolhi e defendo com pundonor no Livro de Horas do meu dia-a-dia. Essa Coroa não é mais que a minha colecção particular de Bonecos de Estremoz. Trata-se de uma colecção generalista, abarcando figuras de temas diversos, criadas por vários barristas­ desde os primórdios até à actualidade.
A colecção distribui-se por duas grandes áreas que usualmente se convencionou designar por “Bonecos da Tradição” e “Bonecos da Inovação”, que no meu livroBONECOS DE ESTREMOZ foram objecto de estudo em capítulos próprios. A primeira integra modelos que têm sido manufacturados desde sempre e a segunda os que foram sendo criados por cada barrista no decurso do tempo, já que “Outros tempos, outros costumes“.
É possível ainda, numa óptica temporal, destacar bonecos que na maioria dos casos têm de um a três séculos de existência, com uma pátine própria, já que “Os anos não perdoam” e “Sem tempo nada se faz“. Trata-se de exemplares que revelam em todo o seu esplendor a marca do tempo e do envelhecimento, quer por descoloração devida a decomposição fotoquímica, quer pela deposição de resíduos provenientes de poeiras ou fumos. São figuras que valorizam a colecção por serem mais antigas e menos vulgares. Constituem aquilo que, na qualidade de rei de mim mesmo, resolvi designar por “Jóias da Coroa”. Passo a referi-las:
- Imagens que integraram presépios do séc. XVIII e que, à excepção de uma, foram adquiridas em 2013 no Mercado das Velharias em Estremoz: Rei Mago em pé (Belchior) – Fig. 1, Rei Mago em pé (Baltasar) – Fig. 2, Rei Mago ajoelhado (Belchior), Rei Mago ajoelhado (Baltasar), Pastor ofertante ajoelhado – Fig. 3.
- Uma figura que fazia parte da sociedade de setecentos: Dama orando - Fig. 4.
- Exemplares que integraram um presépio de finais do séc. XIX que adquiri em 2015, no Mercado das Velharias em Estremoz: Nossa Senhora ajoelhada – Fig. 5, São José ajoelhado - Fig. 6, Rei Mago em pé (Belchior), Rei Mago em pé (Baltasar), Rei Mago em pé (Gaspar) – Fig. 7, Burro e vaca, Pastor de tarro e manta -  Fig. 8, Borregos e cão, Mulher ofertante com um borrego ao colo, Mulher ofertante com um borrego ao colo – Fig. 9.
- Figuras que não integraram o conjunto de figuras da colecção de Emídio Viana que veio a incorporar em 1929 a colecção da Biblioteca e Museu Municipal de Estremoz. Adquiri estes exemplares em 2018, na sequência do falecimento do filho de Emídio Viana: Porqueiro – Fig. 10, Mulher dos enchidos – Fig. 11, Mulher das castanhas – Fig. 12.
- Bonecos que integraram a colecção de Azinhal Abelho e que, por intermédio de José Maria de Sá Lemos, foram encomendados a Ana das Peles em 1938, conforme correspondência deste último para aquele e que acompanhava o lote de figuras que adquiri em 2018: Berço do Menino Jesus (das pombinhas) – Fig. 13, Nossa Senhora ajoelhada, São José ajoelhado, Pastor ajoelhado com um chapéu à frente, Pastor – Fig. 14, Pastor das migas, Fiandeira – Fig. 15, Mulher das castanhas – Fig. 16, Lanceiro com bandeira – Fig. 17, Sargento no jardim, Senhora de pezinhos - Fig. 18, Preta grande (preta florista), Galinha no choco (assobio), Cesto com ovos (assobio), Peralta, (assobio), Amazona (assobio) - Fig. 19).
São compras que por vezes me acabam por “Custar os olhos da cara” e a ficar “Com uma mão na frente e outra atrás”, daí que alguém conhecedor da minha condição de professor aposentado, tenha agourado:
- “Por esse caminho, ainda vais acabar a pedir esmola à porta da Igreja". 

 Fig. 2 - Rei Mago em pé (Baltasar). Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

 Fig. 3 - Pastor ofertante ajoelhado. Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

  Fig. 4 – Dama orando. Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

 Fig. 5 – Nossa Senhora ajoelhada. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

Fig. 6 - São José ajoelhado. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 7 - Rei Mago em pé (Gaspar). Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 8 - Pastor de tarro e manta. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 9 - Mulher ofertante com um borrego ao colo. Oficinas de Estremoz de finais do
 séc. XIX.

 Fig. 10 - Porqueiro. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção Emídio
Viana.

 Fig. 11 - Mulher dos enchidos. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção
Emídio Viana.

 Fig. 12 - Mulher das castanhas. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção
Emídio Viana.

 Fig. 13 - Berço do Menino Jesus (das pombinhas). Ana das Peles (1938). Ex-colecção
Azinhal Abelho.

Fig. 14 - Pastor. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

 Fig. 15 - Fiandeira. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

 Fig. 16 - Mulher das castanhas. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

Fig. 17 - Lanceiro com bandeira. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.
  
 Fig. 18 - Senhora de pezinhos. Ana das Peles (1938) Ex-colecção Azinhal Abelho.

Fig. 19 - Amazona (assobio). Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

Hernâni Matos

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Poesia Portuguesa - 095


José Gomes Ferreira (1976). Fotografia de Miranda Castela (1932-2011).


VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA
JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)


Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Arte pastoril alentejana


Colher (Dimensões: 31 x 8,5 cm; Peso: 82 g)Executada em 1974 em pau de bucho,
levou 35 horas a ser confeccionada e custou na época, 350$00, o que corresponde
hoje a 53,6 €. Colecção particular.

Tão certo como o Alentejo não ter sombra, senão a que vem do céu, é que sem sombra de dúvida, a arte pastoril alentejana é uma das mais ricas e expressivas manifestações de arte popular portuguesa.
Com uma simples navalha, ora se escava a madeira em baixo ou alto-relevo, ora se borda artística filigrana que nos faz lembrar o ouro minhoto. O motivo é fruto do imaginário do artista popular e tem sempre um significado expresso na pauta, muitas vezes de madeira, mas também de cortiça e de chifre, tal como um virtuoso violinista que com o seu preciso arco, faz vibrar as tensas cordas do seu violino. A sinfonia é a mesma. A peça executada tem sempre uma função para a qual foi concebida e executada: a de poder ser utilizada ou como forma de expressar a paixão nutrida pela mulher amada ou o respeito e consideração pelo patrão que dá trabalho. São certezas ancestrais que remontam à memória dos tempos. São estados de alma e convicções profundas que registam magistralmente naquilo que a terra dá, os traços indeléveis da identidade cultural alentejana.


Garfo (dimensões: (24 x 3,5 cm; Peso: 26 g).  Executado em 1973 em pau de
bucho. Em 1985 era vendido por 2000$00, o que corresponde hoje a 112,5 €.
Colecção particular.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Janeiro na Pintura Universal


FESTA REAL EM JANEIRO (1310-1320). Salmos da Rainha Mary, manuscrito com
iluminuras do Mestre da Rainha Mary. Folhas em pergaminho (27,5 x 17,5 cm).
British Library, London.

Janeiro é o primeiro mês do ano no calendário juliano e no calendário gregoriano e, tem 31 dias. A sua designação deriva do Ianuarius, undécimo mês do calendário na reforma de Numa Pompílio. Posteriormente começou a ser o primeiro do ano no calendário juliano, já que Júlio César determinou que a partir do ano 709 romano (45 a.C.), o ano deveria começar na primeira lua nova após o solstício de Inverno, que no hemisfério norte ocorria a 21 de Dezembro. Nessa altura o início do ano ocorreu oito dias após o solstício. Posteriormente o início do ano foi alterado para onze dias após o solstício.
Na concordância com o calendário republicano francês, o dia 1 de Janeiro corresponde a dia 11 do mês Nivoso e dia 31 de Janeiro ao 11 do mês Pluvioso.
“Janeiro” é o tema central de telas criadas por grandes nomes da pintura universal, dos quais destacamos, associados por épocas/correntes da pintura:
IDADE MÉDIA: Mestre da Rainha Mary, inglês; “Mestre dos pergaminhos de ouro” (Bruges), belga; irmãos Paul, Jean et Herman de Limbourg (1370-80-1416), holandês; Jean Fouquet (1415-20 - 1478-81), francês; Miniaturista Flamengo, flamengo.
RENASCENÇA: Simon Bening (1483-1561), belga; António de Holanda, holandês; Simon Bening (1483 – 1561), belga; Pieter Bruegel “O Velho” (c. 1525-1569), flamengo.
BARROCO: Sebastian Vrancx (1573-1647), flamengo.
E que nos mostram os mestres da pintura universal?
Paisagens com rios e lagos gelados. Casas com telhado coberto de neve, a qual também cobre o solo. Brincadeiras e jogos de crianças e de adultos, no gelo e na neve. Árvores despidas de folhas. Cenas de regresso da caça. Algumas actividades agro-pastoris. Pessoas que vestem roupas da época que as protegem do frio e que quando ao ar livre têm sempre a cabeça coberta. No interior das casas, pessoas que comem e se aquecem junto à lareira. 


CALENDÁRIO DO MÊS DE JANEIRO. (c.1401-1433). Livro de Horas de D. Duarte.
Manuscrito e Iluminuras do “Mestre dos pergaminhos de ouro” (Bruges). Folhas
em pergaminho (17,0 x 24,0 cm). Torre do Tombo, Lisboa.

JANEIRO - Iluminura (22,5 x 13,6 cm) do “Livro de Horas do Duque de Berry”
(1412-16),  manuscrito com iluminuras dos irmãos Paul, Jean et Herman de
Limbourg (1370-80-1416), conservado no Museu Condé, em Chantilly, na França.

JANEIRO – UM HOMEM A COMER E A AQUECER-SE AO FOGO (c. 1470). Livro de Horas
de Tours, manuscrito com iluminuras de Jean Fouquet (1415-20 - 1478-81) e outros.
Folhas de pergaminho (12,5x 9 cm). Koninklijke Bibliotheek (Haia, KB, 74 G 28 fol. 1r).

MÊS DE JANEIRO (1490-1510). Iluminura (28 x 21,5 cm) de Miniaturista Flamengo.
Breviário Grimani. Biblioteca Marciana, Veneza.

JANEIRO – Iluminura (28 x 21,5 cm) do “Livro de Horas da Costa” (c/ 1515). Iluminado
por Simon Bening (1483-1561). Conservado na Morgan Library, Nova Iorque.

JANEIR0 - Iluminura (10,8x14 cm) do “Livro de Horas de D. Manuel I” [Século XVI
(1517-1551)], manuscrito com iluminuras atribuídas a António de Holanda, conservado
no Museu Nacional de Arte Antiga. Pintura a têmpera e ouro sobre pergaminho.

JANEIRO - Iluminura (9,8x13,3 cm) do “Livro de Horas de D. Fernando” [Século XVI
(1530-1534)], manuscrito com iluminuras da oficina Simon Bening (1483 - 1561), conservado
no Museu Nacional de Arte Antiga. Pintura a têmpera e ouro sobre pergaminho.

CAÇADORES NA NEVE – JANEIRO (1565).  Pieter Bruegel  “O Velho” (c. 1525-1569).
Óleo sobre painel (117 x 162 cm). Kunsthistorisches Museum, Vienna. 

JANEIRO. Sebastian Vrancx (1573-1647). Óleo sobre madeira (27 x 37 cm). 
Szépmûvészeti Múzeum, Budapest.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Provérbios de Janeiro


Página do calendário de Janeiro, do Golf Book (Livro de Horas, Uso de Roma),
oficina de Simon Bening, Bruges, Holanda, c. 1540, MS Adicional 24098, f. 18v.

- A água de Janeiro traz azeite ao olival, vinho ao lagar e palha ao palheiro.
- A água de Janeiro vale dinheiro.
- Água de Janeiro, todo o ano tem concerto,
- Até Janeiro qualquer burro passa o regueiro, mas daí para a frente, tem que ser forte e valente.
- Bons dias em Janeiro pagam-se em Fevereiro.
- Bons dias em Janeiro, enganam o homem em Fevereiro.
- Canta o melro em Janeiro, temos neve até ao rolheiro.
- Cebola ramuda, com neves em Janeiro, anuncia dinheiro.
- Chuva de Janeiro, cada gota vale dinheiro.
- Chuva em Janeiro e não frio, riqueza no Estio.
- De flor de Janeiro ninguém enche o celeiro.
- Em Janeiro deixa a fonte e vai ao ribeiro.
- Em Janeiro deixa o rábano ao rabaneiro.
- Em Janeiro faz a cama em palheiro.
- Em Janeiro todo o burro é sendeiro.
- Em Janeiro meia o celeiro; se o vires meado, come regrado.
- Em Janeiro não metas obreiro.
- Em Janeiro neve e frio, é de esperar ardor no estio.
- Em Janeiro pasta a lebre no lameiro e o coelho à beira do regueiro.
- Em Janeiro põe-te no outeiro e se vires verdear, põe-te a chorar, e se vires terrear, põe-te a cantar.
- Em Janeiro seca a ovelha suas madeiras no fumeiro e em Março no prado e em Abril as vai urdir.
- Em Janeiro semeiam-se muitas abóboras.
- Em Janeiro sobe ao outeiro e se vires verdejar, põe-te a chorar e se vires torrear, põe-te a cantar.
- Em Janeiro sobe ao outeiro: se vires verdegar, põe-te a chorar; se vires terregar, põe-te a dançar.
- Em Janeiro sobe ao outeiro; se vires terrear, põe-te a cantar; se vires verdejar, põe-te a chorar.
- Em Janeiro todo o cavalo é sendeiro.
- Em Janeiro, busca parceiro.
- Em Janeiro, cada ovelha com seu cordeiro.
- Em Janeiro, mete obreiro, mês meante que não ante. Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro.
- Em Janeiro, o boi e o leitão engordarão.
- Em Janeiro, sete capelos e um sombreiro.
- Em Janeiro, sete casacos e um sombreiro.
- Em Janeiro, sobe ao outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar; se vires tarrejar, põe-te a cantar.
- Em Janeiro, um porco ao sol, outro ao fumeiro.
- Em Janeiro, um porco morto, outro no fumeiro.
- Em Janeiro, um salto de carneiro.
- Em mês de Janeiro Verão, nem palha nem pão.
- Em metade de Janeiro mete obreiro.
- Em minguante de Janeiro, corta o madeiro.
- Em São Vicente (22/1) de Janeiro sobe ao outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar; se vires terrear, põe-te a cantar; se vires luzir, põe-te a sorrir.
- Fermento de Janeiro, de quarteiro.
- Janeiro e Fevereiro, enchem ou vazam o celeiro.
- Janeiro frio e molhado não é bom para o gado.
- Janeiro frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.
- Janeiro frio ou temperado, passa-o enroupado.
- Janeiro geadeiro afoga a mãe no ribeiro.
- Janeiro geadeiro, Fevereiro aguadeiro. Março chover cada dia seu pedaço. Abril águas mil coadas por um funil, Maio pardo celeiro grado, Junho foice em punho.
- Janeiro geadeiro, nem boa meda nem bom palheiro.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar. Agosto engavelar, Setembro vindimar. Outubro revolver. Novembro semear. Dezembro nascer.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Agosto recolher. Setembro vindimar.
- Janeiro gear. Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer. Junho ceifar, Julho debulhar, Agosto engavelar. Setembro vindimar, Outubro revolver. Novembro semear, Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Janeiro geoso. Fevereiro nevoso, Março mulinhoso. Abril chuvoso. Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro greleiro, não enche o celeiro.
- Janeiro molhado, bom para o tempo e mau para o gado.
- Janeiro molhado, se não cria pão, cria gado.
- Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o arado.
- Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o gado.
- Janeiro não choveu, o temporão se perdeu.
- Janeiro quente, traz o diabo no ventre.
- Janeiro quer-se geadeiro.
- Janeiro, cada sulco seu regueiro.
- Janeiro, como entra assim sai.
- Janeiro, desapartadeiro.
- Janeiro, geadeiro.
- Janeiro, gear.
- Janeiro, porcos em sendeiro, um dia e não cada dia.
- Laranjas e Janeiro, dão que fazer ao coveiro.
- uar de Janeiro não tem parceiro, senão o de Agosto, que lhe dá de rosto.
- Mês de Janeiro e Fevereiro, ou enche ou vaga (vaza) o celeiro.
- Mês de Janeiro, bom cavaleiro, assim acaba como à entrada.
- Mês de Janeiro, procura a perdiz o companheiro. Fevereiro faz o rapeiro; Março põe três ou quatro; Abril enche o covil; Maio, pi-pi pelo mato.
- Minguante de Janeiro corta madeiro.
- No mês de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.
- No primeiro de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.
- O bom tempo de Janeiro faz o ano galhofeiro.
- O mês de Janeiro, como bom cavalheiro, assim acaba como na entrada.
- O que Janeiro deixa nado, Maio deixa espigado.
- Outubro, revolver; Novembro, semear; Dezembro, nasceu um Deus para nos salvar; Janeiro, gear; Fevereiro, chover; Março, encanar; Abril, espigar; Maio, engrandecer; Junho, ceifar; Julho, debulhar; Agosto, engravelar; Setembro, vindimar.
- Pelo São Sebastião (20/1), cada perdiz com o seu perdigão.
- Pelo São Vicente (22/1) pare a chuva e venha o vento.
- Pelo São Vicente (22/1) toda a gente é quente.
- Pelo São Vicente (22/1), toda a água é quente.
- Por São Fabião (20/1), laranjinha na mão.
- Por São Sebastião (20/1), laranjinha na mão.
- Por São Sebastião (20/1), laranjinha no chão.
- Por São Vicente (22/1), alça a mão da semente.
- Por São Vicente (22/1), toda a água é quente.
- Primeiro de Janeiro, primeiro dia de Verão.
- Quando o Janeiro vem quente, traz o diabo no ventre.
- Quem azeite colhe antes de Janeiro, azeite deixa no madeiro.
- São Sebastião (20/1), laranja na mão.
- São Vicente (22/1), alça a mão da semente.
- Se chover dia de Reis (6/1), lavradores não vos descuideis.
- Se gela no São Suplício, haverá ano propício.
- Sol de Janeiro sempre anda atrás do outeiro.
- Trovão em Janeiro, nem bom prado, nem bom palheiro.
- Trovões em Janeiro, searas de quarteiro.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

75 anos da morte de Ana das Peles


Presépio de três figuras (1938). Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor.

LER AINDA

Presépio de três figuras
Os barristas de Estremoz vêm representando a Natividade, seguramente desde o século XVIII, pelo que existe uma grande diversidade de Presépios. Aquele que ilustra a presente crónica é o chamado Presépio de três figuras da autoria de Ana das Peles (1869-1945), que de acordo com correspondência que tenho em meu poder, foi encomendado em 1938 pelo poeta Azinhal Abelho (1911-1979) ao escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945.
De salientar que este modelo de Presépio foi manufacturado pela primeira vez por Ana das Peles sob a supervisão de Sá Lemos que o concebera. Além de ser integrado pelo chamado “Berço do Menino Jesus”, inclui as figuras de Nossa Senhora e São José, ajoelhados numa base de cor ocre amarelo, de forma rectangular com os cantos adoçados e denteado na orla vertical.
O renascer dos Bonecos
Após a sua chegada a Estremoz, Sá Lemos constatou que a manufactura de Bonecos de Estremoz se encontrava extinta desse 1921, após a morte da barrista Gertrudes Rosa Marques. Atribuiu então a si próprio a missão da sua recuperação, para o que precisaria da colaboração de alguém que em tempos os tivesse confeccionado. Teve conhecimento da existência de Ana Rita da Silva (Ana das Peles), então com 63 anos de idade, que em tempos manufacturara os Bonecos de assobio e assistira à feitura dos restantes, mas entendia que não era capaz de os confeccionar. Sá Lemos intuiu que seria, por se lhe ter tornado evidente que a técnica era a mesma. Dois anos levaram a convencê-la, o que aconteceu em Julho de 1935 no decurso da Feira de Santiago, no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz. A partir daí, Sá Lemos estimulou-a, orientou-a e trabalhou em conjunto com ela na Escola. Em 10 de Novembro de 1935, no artigo “Os bonecos de Estremoz / “Versos Irónicos em barro””, publicado no jornal “Brados do Alentejo”, confessou que a sua missão fora coroada de êxito.
A estética dos Bonecos
Sá Lemos que além de escultor era professor de Desenho na Escola, no decorrer da revitalização da extinta manufactura de Bonecos de Estremoz, gizou a estética dos mesmos, tanto a nível morfológico como a nível cromático. Para tal, utilizou como modelos, exemplares pertencentes à Biblioteca-Museu Municipal de Estremoz, ao Museu Municipal de Elvas e ao Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945).
A estética projectada por Sá Lemos foi apreendida por Ana das Peles, a partir do aconselhamento e acompanhamento do escultor. A idade avançada de Ana das Peles (66 anos em 1935) levou Sá Lemos a interessar na manufactura dos mesmos, o oleiro Mariano da Conceição (1903-1959), Mestre de Olaria da Escola desde 3 de Dezembro de 1930, que em 1935 tinha 32 anos e estava na força da vida. Mariano aceitou de bom grado o repto e a partir de então a sabedoria e a magia das suas mãos, voltaram-se também para a manufactura dos Bonecos que vira Ana das Peles modelar. Creio que Mariano só terá começado a modelar Bonecos depois de 1937, uma vez que ao contrário de Ana das Peles, os Bonecos de Mariano não estiveram presentes em 1936 na Exposição de Arte Popular Portuguesa realizada em Lisboa, nem em 1937 na Exposição Internacional de Paris. Mariano só participou em 1940 na Exposição do Mundo Português, na qual estiveram também presentes Bonecos de Ana das Peles.
Sá Lemos também aconselhou e acompanhou Mariano da Conceição nos primeiros tempos, mas posteriormente veio a fornecer-lhe desenhos de figuras concebidas por si e que à data de falecimento de Mariano (29 de Setembro de 1959) ainda existiam na sua casa. À semelhança de Ana das Peles, Mariano assimilou também a estética de Sá Lemos e conferiu-lhe igualmente as suas marcas próprias de identidade, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto”.
Ana das Peles
Ana Rita da Silva (1869-1945) nasceu a 22 de Novembro de 1869 numa casa da Rua da Porta da Lage, na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz. Filha legítima de Manuel Joaquim da Silva, proprietário, natural de Fornos de Algodres e de Maria Domingas, governadeira de sua casa, natural da freguesia de S. Bento do Cortiço, concelho de Estremoz. Ana Rita seria baptizada a 15 de Setembro de 1869, na igreja paroquial de Santo André, Estremoz.
Em data que não é conhecida, casou com Jacinto Manuel, natural de Bencatel, de quem enviuvou em 1935.
Ana Rita da Silva, mais conhecida por Ti Ana das Peles, era irmã de Ti Luzia, casada com Mestre Cassiano que viera de Elvas e aprendera o ofício de barro fino na Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana, situada na Rua do Lavadouro, em Estremoz. Dali saiu para montar uma olaria de barro grosso, conhecida por Olaria Regional, na Rua do Afã, 36-B, no Bairro de Santiago, em Estremoz.
Ana das Peles vendia louça de barro vermelho de Mestre Cassiano no mercado de sábado em Estremoz e durante a semana era almocreve, uma vez que se deslocava às aldeias e vilas do concelho, com um burro aprestado de alforges, contendo pratos, panelas e outros objectos utilitários que vendia. Nas suas deslocações comprava peles secas de animais que viriam a ser utilizadas na manufactura de golas, casacos, pantufas, tapetes, etc., o que está na origem da sua alcunha “Ana das Peles”.
Era uma mulher independente, que assegurava a vida da família num tempo em que as mulheres raramente saíam à rua, ficando em casa e ocupando o seu tempo nas tarefas domésticas, bem como nos bordados e na costura.
Ana das Peles tinha o dom de fazer mezinhas e de curar pessoas, como era corrente naquele tempo, quando as famílias não tinham posses para ir aos médicos. Exercia essas práticas não só junto da família, como de outras pessoas que a procuravam.
Ana das Peles está indissociavelmente ligada à recuperação dos “Bonecos de Estremoz”. Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa realizada em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português.
Os Bonecos de Estremoz, de Ana das Peles foram nestas exposições, um ex-líbris de excelência da cidade de Estremoz. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram, simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de grande qualidade. Os Bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente grande notoriedade pública.
Ana Rita da Silva faleceu a 19 de Fevereiro de 1945 no Hospital da Misericórdia de Estremoz, com 75 anos de idade. O elogio fúnebre de Ana da Peles foi feito por Sá Lemos em artigo intitulado “Morreu a Ti Ana das Peles”, publicado no jornal Brados do Alentejo em 25 de Fevereiro de 1945.
Dois vizinhos
Ana das Peles morava e tinha oficina na Rua Brito Capelo n.º 21, onde ainda há bem pouco tempo era a churrasqueira “Frango e Companhia” de José Maria Calquinhas. Era aí que comercializava as suas criações.
Mariano morava no n.º 13 da mesma rua, mas nunca trabalhou ali. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras n.º1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso n.º 6.
75 anos da morte de Ana das Peles
A 25 de Fevereiro de 2020 completam-se 75 anos sobre a morte de Ana das Peles. Como reconhecimento do papel desempenhado por ela na recuperação duma tradição extinta e que hoje é motivo de orgulho para todos os estremocenses, impõe-se que a efeméride seja assinalada condignamente. Dou sugestões:
- PERPETUAÇÃO DA MEMÓRIA DA BARRISTA, INCLUINDO O SEU NOME NA TOPONÍMIA LOCAL - Até agora a toponímia estremocense já perpetuou o nome dos seguintes barristas: Mariano da Conceição (1903-1959), Sabina da Conceição (1921-2005), Liberdade da Conceição (1913-1990), Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e Quirina Marmelo (1922-2009). A omissão do nome de Ana das Peles na toponímia local é profundamente injusta. Aqui como em tudo, não pode haver filhos e enteados;
- DESCERRAMENTO DUMA LÁPIDE NA PAREDE DO PRÉDIO ONDE A BARRISTA TEVE OFICINA – Esta iniciativa poderia constituir a primeira doutras congéneres em relação a outros barristas falecidos;
- MONTAGEM DUMA EXPOSIÇÃO DE BONECOS DE ESTREMOZ MODELADOS PELA BARRISTA.
As sugestões aqui ficam.
- TEM A PALAVRA O MUNICÍPIO!

Estremoz, Natal de 2019
(Jornal E nº 236, de 26-12-2019)

Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
Arquivo fotográfico do autor.

Ana das Peles a pintar Bonecos na sua oficina na Rua Brito Capelo n.º 21, em Estremoz.
Atrás de si é visível um Presépio de três figuras. Fotografia de Rogério de Carvalho
(1915-1988). Arquivo fotográfico do autor.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Natal, pois claro!


Presépio de trono ou altar (1983) - Liberdade da Conceição (1913-1990)
Colecção particular.

Natal à porta
Entrámos no período de Natal. Este é a festividade cristã que enaltece o nascimento de Jesus Cristo. A data da sua celebração ocorre a 25 de Dezembro (Igreja Católica Apostólica Romana) ou a 7 de Janeiro (Igreja Ortodoxa). O Natal é, de resto, mundialmente encarado por pessoas de diferentes credos, como o dia consagrado à família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.
Tradições de Natal
No período de Natal cumprem-se ciclicamente tradições. Assim, no início do mês de Dezembro, semeiam-se as searinhas do menino Jesus, monta-se o presépio e a árvore de Natal. Na noite de Natal queima-se o madeiro no adro da igreja ou no largo principal. Vai-se à missa do galo e só depois decorre a ceia de Natal. À lareira ou junto do madeiro de natal são entoadas loas ao Menino Jesus, as quais integram o Cancioneiro Popular de Natal. Estas loas são muitas vezes acompanhadas com toque de ronca. Os presentes só são distribuídos no dia de Natal.
O Natal é também objecto de superstições, as quais integram a Mitologia Popular de Natal. Igualmente, existem numerosos provérbios de Natal.
Passemos em revista algumas das tradições referidas.
Searinhas do Menino Jesus
Uma tradição que ainda hoje se cumpre no Alentejo é a sementeira das “searinhas do Menino Jesus”, que se efectua no dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição.
Consiste esta tradição em semear em pequenos recipientes (pires ou chávenas) com terra, alguns grãos de trigo que são humedecidos com água para germinar, após o que são diariamente borrifados com a mesma, a fim de os rebentos se manterem viçosos.
As searinhas, dedicadas ao Menino Jesus, são utilizadas no presépio e no oratório, assim como são levadas à mesa da Consoada, na crença de que o Menino Jesus abençoe o trigo, de modo que nunca falte pão em casa e na mesa. No dia de Reis (6 de Janeiro), as searinhas devem ser transplantadas para a terra.
A tradição teve início no século XVI quando o cardeal e teólogo ascético francês Pierre de Bérulle (1575-1629) decidiu adornar o presépio com searinhas e laranjas para que as sementeiras e árvores de fruto fossem abençoadas e dessem muito durante o ano inteiro.
Parece não restarem dúvidas que se trata de mais um aproveitamento cristão duma tradição pagã. Na verdade, a festa pagã do solstício de Inverno que comemorava o renascimento do Sol, foi substituída pela festa cristã do Natal, que celebra o nascimento de Cristo. Daí que usos e costumes que lhe estavam associados tenham sido adaptados ao Cristianismo, pelo que são reminiscência das antigas crenças.
O Presépio
Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau (1638-1734) e Cândido de Figueiredo (1846-1925), a palavra “presépio” provem do latim “praesepium”, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos.
Conhecem-se presépios de barro de Estremoz desde o séc. XVIII e crê-se que eles terão sido aqui introduzidos pelos monges do Convento de S. Francisco, edificado em meados do séc. XIII e cuja tradição presepista é bem conhecida, desde que o fundador da Ordem, S. Francisco de Assis, montou o primeiro presépio do mundo em Greccio (Itália), no Natal de 1223, com a função didáctica de explicar o nascimento de Jesus, ao mesmo tempo que desgostado com as liberdades da Natividade dentro dos Templos, sustinha a adoração do Natal, como nos diz Luís Chaves (1888-1975).
Da multiplicidade de presépios de Estremoz, o mais vistoso é o chamado “presépio de trono ou de altar”, com figuras montadas em cantareira de barro, pintada à maneira tradicional das casas alentejanas.
As figuras do presépio são em número de nove e encontram-se dispostas hierarquicamente em três degraus da cantareira, hierarquizados de baixo para cima e da esquerda para a direita: 1º DEGRAU - OS PASTORES (Pastores alentejanos trajando à moda da primeira metade do século XX): - pastor ofertante em pé com um cesto com uma pomba branca; - pastor ajoelhado e de cabeça descoberta, orando com o chapéu à frente; - pastor ofertante em pé, segurando um borrego e com tarro enfiado no braço esquerdo. 2º DEGRAU – A SAGRADA FAMÍLIA: - São José ajoelhado; - Menino Jesus deitado numa manjedoura; - Nossa Senhora ajoelhada. 3º DEGRAU – OS REIS MAGOS: Gaspar, Baltazar e Belchior. Todos de pé e segurando as respectivas ofertas.
Na parede, por detrás dos reis magos, rasgam-se duas janelas de arco românico. A da esquerda, através da paisagem que por ela se vislumbra, contextualiza o local, onde na realidade nasceu Jesus. Por isso, esta janela mostra-nos, ao longe, uma casa de perfil palestiniano, ladeada por uma palmeira, árvore característica da região. Quanto à janela da direita, revela-nos o firmamento e nele a estrela, símbolo do poder divino que iluminou e conduziu os reis magos a Jesus
A ronca
A ronca é um instrumento musical tradicional do Alentejo, bastante rudimentar, pertencente à classe dos membranofones de fricção. É composto essencialmente por um reservatório, que pode ser um cântaro de barro ou outro recipiente qualquer. É ele que serve de caixa de ressonância e cuja boca é cerrada com uma pele esticada, a qual vibra quando se fricciona uma pequena e fina cana presa por uma das extremidades no seu centro. O som resultante, grave e fundo, é transformado pela caixa de ressonância no ronco característico do instrumento. A espessura e a qualidade da pele, é importante por causa do som. Por isso, usa-se pele de ovelha, borrego, carneiro, cabra, cabrito ou chibo, bem como bexiga de porco ou de carneiro.
É um instrumento usado no acompanhamento de canções de Natal ou das Janeiras, podendo ainda pode ser encontrado na zona raiana (região de Portalegre, Elvas, Terrugem e Campo Maior), onde grupos de homens agasalhados nos seus capotes para arrostar o frio, percorrem as ruas em compasso lento e solene, entoando cantares, parando aqui e ali, para dedicar os seus cantos aos moradores de determinadas casas.
Durante a sua utilização, a ronca é levada debaixo de um dos braços, enquanto o outro fricciona a cana longitudinalmente, com força. A eficácia do funcionamento da ronca exige que, de vez em quando, os tocadores cuspam para a mão que empunha a cana, a fim de lubrificar a pele da ronca. Os cânticos entoados podem ser dos mais diversos. Por exemplo: “Qualquer filho de homem pobre / Nasce num céu de cortinas. / Só tu, Menino Jesus, / Nasceste numas palhinhas.” Ou então: 
“Ó mê Menino Jasus / Da Lapa do coração, / Dai-me da vossa merenda, / Que a minha mãe não tem pão.”
Sobre a ronca, diz-nos António Thomaz Pires (1850-1913): "Das nove horas até à meia-noite de Natal percorrem as ruas da cidade diferentes grupos de homens do povo, cantando em altas vozes, em coro, e núm rhytmo e entoação especial, trovas ao Menino Jesus, acompanhadas pelo som àspero da ronca: alcatruz de nora, ou panella de barro, a cujo bocal se adapta uma membrana, ou pelle de bexiga, atravessada por um pau encerado, pelo qual se corre a mão com força para produzir um som rouco. Somente pelo Natal é este instrumento ouvido."
Mitologia Popular de Natal
A presente colectânea de superstições e tradições populares sobre o Natal, mostra a riqueza da nossa Mitologia Popular: - A construção ou reparação do lar deve ser efectuada na noite de Natal; - À meia-noite do dia de Natal deve sair-se para o campo e colher arruda, alecrim, salva e erva-terrestre. A arruda frita-se em azeite para usar nas fricções e das outras plantas faz-se chá para beber quando se está doente; - À rosa de Jericó é atribuída a virtude de facilitar o nascimento das crianças. Para tal, a rosa é lançada numa tigela com água e à medida que vai abrindo, o parto é facilitado. Também é boa para a enxaqueca quando se aspira o aroma que exala ao abrir-se. Colocada num oratório na noite de Natal, encontra-se aberta pela manhã. (Elvas); - Quando canta na noite de Natal, o galo diz: “Jesus é Cristo.” (Elvas); - Havendo luar na noite de Natal, é sinal de no próximo ano haver muito leite; - Uvas comidas seguidamente à meia-noite de Natal, livram de sezões (Évora); - É bom ficar a mesa posta no fim da ceia de Natal, que é para os Apóstolos virem comer. (Barcelos); - Ao meio-dia do dia de Santa Bárbara devem deitar-se algumas galinhas para tirarem na noite de Natal. Todo o galo nascido nessa noite, cantará sempre à meia-noite; - As pessoas nascidas no dia de Natal ou de Ano Bom são muito felizes; - As pessoas nascidas no dia de Natal vivem muito tempo; - O cepo da fogueira do Natal e os cotos de velas usadas nessa época, têm grandes virtudes contra as coisas más; - No presépio, a mula espalhava o feno e a vaca juntava-o. Daí a maldição de Nossa Senhora à mula: —"Não parirás! — prometendo à vaca que a carne dela seria a que sustentaria mais (Elvas). 
Provérbios de Natal
É vasto o número de provérbios sobre o Natal, Muitos deles atinentes aos ciclos agrícolas. Eis alguns: Ande o frio por onde andar, pelo Natal cá vem parar. Depois de o Menino nascer, é tudo a crescer. Galinhas de São João, pelo Natal ovos dão. Laranja antes do Natal livra o catarral. No Natal, só o peru é que passa mal. No Natal, todo o lobo vira cordeiro. O Natal em casa e junto da brasa. Pelo Natal, cada ovelha em seu curral. Pelo Natal, poda natural. Pelo Natal, sachar o faval. Pelo Natal, semeia o teu alhal e se o quiseres cabeçudo, semeia-o no Entrudo. Quem quer bom ervilhal semeia antes do Natal. Quem quiser bom pombal, ceva-o pelo Natal. Quem varejar antes do Natal, deixa azeite no olival.

Estremoz, 10 de Dezembro de 2019
(Jornal E nº 235, de 12-12-2019)

Searinha do Menino Jesus. Fotografia recolhida em”vimeo.com” ( https://vimeo.com ).

Tocadores de ronca. Fotografia recolhida em “Folclore de Portugal” ( https://folclore.pt ).