terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O avental da mulher portuguesa


MINHO
Minhotas. Ilustração de Alfredo Morais (1872-1971).
Almanaque DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 1954.

O avental é uma peça de vestuário muito importante que integra o traje popular da mulher portuguesa.
O avental de trabalho teve sempre por função proteger a roupa que cobria. Era usado desde o norte até ao sul do continente, do litoral até ao interior mais recôndito, à beira-mar, na borda de água, nas campinas, nas planícies, nas serranias e planaltos, bem como nas ilhas. Camponesas, pastoras, varinas, vindimadoras, mondadeiras, ceifeiras, todas elas usavam avental, com corte e padrões variáveis, normalmente de linho, de lã, de riscado ou de chita garrida, que acentuava a graciosidade da sua portadora.
Existia também o avental de festas e romarias, ricamente decorado, sobretudo no Minho que reforçava em quem o envergava a sua condição de mulher. Umas vezes guarnecido de rendas e fitas, outras vezes bordado a lã, a espiguilha ou a passamanaria.
As mulheres do povo, tanto no campo como na cidade, usavam também avental de lides domésticas no decurso da confecção de alimentos ou na limpeza da casa. No campo tanto era usado pela mulher do grande proprietário rural, como pelas serviçais, o mesmo se passando na cidade em casas abastadas, que por vezes tinham várias criadas. Os aventais que estas usavam, salientavam sempre a sua condição de serviçal, com folhos e rendas que eram usados sobretudo por quem ia atender pessoas à porta da rua. Deste modo, o avental usado pelas mulheres duma casa, tinha uma relação directa com a sua hierarquia naquela casa e na escala social.
Quando se gastavam devido ao uso, os aventais eram remendados ou reparados com um pedaço de tecido, nem sempre igual, porque muitas vezes não o havia. Em fim de vida, o avental podia ainda ser utilizado como rodilha ou retalhado para com os seus pedaços se confeccionarem taleigos para transportar os avios de casa.

Publicado inicialmente em 17 de Janeiro de 2012

TRÁS-OS-MONTES
Costumes de Trás-os-Montes.
 Bilhete-postal ilustrado reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes /1872-1971).
Colecção “Províncias de Portugal”. Edição António Vieira, Lda., Lisboa, s.d.

DOURO
Figurino "Chula do Douro" do bailado " Passatempo"
pela Cª Portuguesa de Bailados Verde-Gaio.
Teatro Nacional D. Maria II (1941). Thomaz de Mello (1906-1990).
Aguarela s/ cartão (33x25,2 cm). Museu Nacional do Teatro, Lisboa.

 BEIRA LITORAL
Póvoa do Valado (1938). Alberto de Souza (1880-1961).
 Aguarela sobre papel (26x37cm). Museu de Aveiro.


BEIRA ALTA
Madona da Serra - Beira Alta (1939). Augusto Tavares (1908-1984).
 Óleo s/ madeira (97,5 x 99,5 cm). Museu do Chiado - MNAC, Lisboa.

BEIRA BAIXA
Mulher da Beira Baixa. Aguarela de Laura Costa.
 Bilhete-postal ilustrado, editado por OLIVA –
Máquinas de Costura de Portugal. 

ESTREMADURA
Alzira (1940). Alberto de Souza (1880-1961).
Aguarela sobre cartão (52x37 cm).
Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha. 
 
RIBATEJO
Mulher do Ribatejo. Aguarela de Laura Costa.
Bilhete-postal ilustrado, editado por OLIVA –
Máquinas de Costura de Portugal.  

 ALENTEJO
Ceifeira (1937).
Bilhete-postal ilustrado nº 33 dos CTT,
da "Série B" - Costumes Portugueses.
Reprodução de aguarela de Alberto de Souza (1880-1961).


ALGARVE
Camponesa (1937).
Bilhete-postal ilustrado nº 36 dos CTT,
 da "Série B" - Costumes Portugueses.
 Reprodução de aguarela de Alberto de Souza (1880-1961).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Cabaça enfeitada


Cabaça enfeitada, adquirida no Mercado das Velharias, em Estremoz.

As minhas incursões ao Mercado das Velharias em Estremoz, dão regularmente os seus frutos. Recentemente adquiri uma cabaça enfeitada, cuja descrição passo de imediato a fazer.
Trata-se de uma cabaça com base plana e corpo de formato periforme. Superfície esculpida em baixo relevo, ornamentada com motivos fitográficos, configurando ramos de sobreiro com folhas e bolotas. Trabalho feito à navalha.
Aproximadamente a meio da altura, a cabaça apresenta um estrangulamento, envolvido por uma correia que serve de dispositivo de suspensão e que utiliza 3 passadores em madeira. Na parte superior, apresenta uma abertura fechada por uma tampa de madeira com um orifício para prender à correia. Junto à abertura, as iniciais TSG (Teresa Serol Gomes). Altura: 14 cm.
                                                        
Publicado inicialmente em 16 de Agosto de 2019

sábado, 31 de janeiro de 2026

Arte Pastoril - Memórias de um Coleccionador



Cartaz anunciador da Exposição

Catálogo da Exposição


ARTE PASTORIL – MEMÓRIAS DE UM COLECCIONADOR
Assim se chama a Exposição integrada por peças do meu acervo, as quais estarão patentes ao público na Galeria Municipal D. Dinis em Estremoz, entre 6 de Maio e 9 de Junho. A Exposição é uma organização da Câmara Municipal de Estremoz, do Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho e da Associação Filatélica Alentejana.

RAZÕES DUMA EXPOSIÇÃO
O fascínio da ruralidade e o culto da tradição oral, levam-me a procurar o convívio de camponeses, artesãos e poetas populares, com os quais procuro aprender e partilhar saberes. A arte pastoril, um dos traços mais marcantes da identidade cultural alentejana, integra as minhas memórias materiais de recolector. Para além do acto da colheita e mais que o fascínio da posse, importa-me a possibilidade de dissecação de cada peça recolhida, tal como é feito no catálogo desta Exposição. Interessa-me também o contacto, o convívio e a cumplicidade com o autor no próprio acto de criação. Tudo isto constitui um registo para memória futura e uma afirmação vigorosa da identidade cultural alentejana.

A ARTE PASTORIL COMO REFLEXO DA SOLIDÃO
Para além da vida ao ar livre, o dia-a-dia do pastor tinha uma particularidade evidente que era a permanente e incomensurável solidão. Lá diz o rifão: “Quem não tem que fazer, faz colheres”. Por isso, o pastor alentejano ocupava o tempo que lhe sobrava da guarda do rebanho, em confeccionar artefactos conhecidos genericamente por “arte pastoril”, presentes nesta exposição e aos quais estão indissociavelmente ligadas determinadas características:
1º - OS MATERIAIS: A arte pastoril era confeccionada com aquilo que era corrente na região: cortiça, corno, cana, bunho e madeira. Esta última podia ser de azinheira, buxo, carvalho, castanho, cerejeira, cipreste, esteva, figueira, laranjeira, nespereira, nogueira, oliveira, piorno, sabugo, sobro, vimeiro.
2º - A QUALIDADE DOS MATERIAIS: No caso da cortiça era preferida aquela que tinha menos poro, a fim de sobressair a decoração. Também com a mesma finalidade o corno devia ter uma superfície, o mais homogénea possível. No caso da madeira, o pastor escolhia um pau de qualidade, sem nós nem veios que viessem a fender depois da obra acabada.
3º - OS UTENSÍLIOS: Como principal instrumento de trabalho, servia-se da navalha ou da faca, mas utilizava também, por vezes, o ponteiro ou o lápis e a legra que transportava sempre consigo. Com o ponteiro ou o lápis era esboçada a geometria geral do artefacto, sendo o corte da madeira efectuado com a navalha ou a faca, ao passo que o côvado dos objectos, especialmente o das colheres, era escavado com a legra, utensílio constituído por uma navalha de barba, dobrada em gancho numa das extremidades.
4º - A FUNCIONALIDADE: Os objectos destinavam-se a desempenhar uma determinada função: uso doméstico, uso no trabalho, instrumento musical, brinquedo, prenda para a conversada, para a prometida, para o patrão ou para a patroa. Raras vezes o artefacto tinha função meramente decorativa ou de realce da habilidade e capacidade criativa do seu obreiro.
5º - A ERGONOMIA: É sabido que “A necessidade é mestra de engenho.” Daí que o pastor tivesse empiricamente adquirido competências que se traduziram na capacidade de conceber artefactos que fossem ergonómicos, isto é com qualidade de adaptação ao seu utilizador e à tarefa que ele tinha de realizar. Por outras palavras: os objectos deviam ser práticos de usar e facilitar o desempenho da função para que foram criados. Daí que tivessem de ser usáveis com eficácia, eficiência e satisfação. Com eficácia, porque distintos utilizadores eram capazes de se servir deles com bons resultados. Com eficiência, já que a sua utilização exigia pouco tempo e esforço físico. Com satisfação, tendo em conta a facilidade de utilização com parcos recursos de tempo e de esforço físico.
 6º - A DECORAÇÃO: Depois de por corte do respectivo material ter sido conseguida a forma geral do artefacto, este estava apto a ser decorado. Para tal e também com o auxílio do ponteiro ou do lápis, esboçava o desenho a executar, gravado ou escavado. Os motivos eram os mais diversos: vegetais (ramagens, folhas, flores), zoomórficos (mamíferos, aves, peixes), geométricos (triângulo, quadrado, círculo, rosetas, arabescos, cordas, zig zags), astrais (sol, lua, estrelas), simbólicos (coração, cruz, figa, signo saimão), imagens religiosas, etc. O traçado perfeito, rigoroso e absolutamente simétrico de rosetas, de estrelas e do signo saimão, não dispensava o uso do compasso.
Dentre os trabalhos executados podem citar-se os seguintes:
- De madeira: cáguedas, colheres, chavões, canudos para soprar o lume, ganchos de fazer meia, foicinheiras, etc.
- De cortiça: tarros, coxos, saleiros, caixas de costura, tropeços, etc.
- De corno: cornas azeiteiras, cornas azeitoneiras, polvorinhos, copos, caixas, colheres, etc.
- De cana: dedeiras, gaiolas para grilos, reque – reques, apitos, etc.
É de realçar a evolução da morfologia de alguns artefactos, que apesar de desempenharem genericamente funções idênticas, se foram diversificando e individualizando nos seus pormenores. São exemplos paradigmáticos, as colheres, as cáguedas e as cornas. A título de exemplo e no caso das colheres, eram determinantes: a capacidade da concha, a inclinação desta em relação ao cabo e o tamanho deste. A concha não podia ser minorca, tinha que possuir uma volumetria adequada, já que às vezes o seu utilizador a tinha de introduzir num barranhão colectivo donde comia ao desafio com outros camaradas. Também o ângulo entre a concha e o cabo devia assegurar um transporte do conteúdo até á boca do utilizador, sem o risco de entornar. Quanto ao cabo, este devia ser facilmente adaptável à mão do utilizador e no que concerne ao seu tamanho, decerto que a colher que o pastor ou o ganhão transportava consigo na fita do chapéu, o tinha menor que uma colher que fosse utensílio permanente da cozinha.
A colher conhecida por “colher de porqueiro” adquiriu uma tampa articulada, que aberta se transformava em prolongamento do cabo e quando fechada, reforçava a segurança do transporte na fita do chapéu. Já a colher conhecida por “colher provadora” era constituída por duas conchas ligadas através duma haste com um rego longitudinal e com um cabo perpendicular à haste, por onde era pegada por quem a utilizava. A concepção e utilização de uma colher com esta tipologia, remonta à época em que havia o receio de contágio por tuberculose. Deste modo, quem cozinhava a comida dos ganhões, recolhia a comida a provar com uma das conchas e inclinando a colher, fazia-a escorrer através do rego para a outra concha, donde era levada à boca para provar. A concha que era levada à boca nunca entrava em contacto com a comida no recipiente onde esta estava a ser confeccionada. Assim se procurava evitar o contágio e com ele mortes subsequentes.
A riqueza da nossa arte pastoril levou o etnólogo Virgílio Correia a afirmar em 1916 que "A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”
Também o escritor João Falcato disse em 1953, que “Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos. E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos. Perdão! nas mãos da sua conversada que cada Domingo as estende para receber a colher rendada com que se promete casamento ou o tarro com que se deseja abastança, e se acha ao fim e ao cabo como um poema em que se fala de amor.”

Hernâni Matos (Texto)
Luís Pereira (Fotografias)
Jorge Mourinha (Trabalho de imagem) 
Publicado inicialmente em 7 de Maio de 2012

CORNA AZEITONEIRA
Recipiente destinado a transportar azeitonas ou outro conduto, manufacturado a partir da parte central do corno, por ser a mais larga. Dimensões (cm): altura com tampa: 14,5; diâmetro superior: 6,8; diâmetro inferior: 6. Primorosamente lavrada com cenas de caça, tema da máxima universalidade e abrangência. Omnipresente, Cristo crucificado. Fundo de cortiça aplicado sob pressão. Abertura vedada por uma tampa igualmente de cortiça, tendo gravada uma rosácea hexalobada. No corno e inserida num círculo, a marca JR (Joaquim Rolo). Último quartel do séc. XX.


COLHERES COMUNS
Em madeira, de pequenas dimensões, por vezes transportadas por pastores e ganhões na fita do chapéu. Normalmente aquelas que tinham uma decoração mais requintada, eram destinadas a oferecer à conversada, à prometida, ao patrão ou à patroa. Da esquerda para a direita:
- Cabo com decoração floral e cordiforme. Comprimento (cm): 15;
- Cabo com decoração floral no topo e geométrica na base. Comprimento (cm): 17;
- Cabo com harmoniosa simetria axial povoada por motivos geométricos e vegetalistas, finamente bordados e realçados a cor. Comprimento (cm): 16.
Qualquer delas da primeira metade do séc. XX.

 CHAVÕES OU PINTADEIRAS
Marcadores em madeira, usados para marcar o pão ou decorar bolos, confeccionados muitas vezes em fornos colectivos. Independentemente da sua complexidade, cada um deles foi executado a partir de um único pedaço de madeira. Da direita para a esquerda:
- Chavão simples com a forma de pirâmide octogonal, ligada por um cilindro a uma argola. Face do carimbo decorada por uma rosácea hexalobada, inserida em dois círculos pontinhados, concêntricos. Dimensões (cm): comprimento: 11; diâmetro do carimbo: 4. Primeira metade do séc. XX.
- Chavão duplo constituído por dois troncos de cone que, alargando-se, partem em direcções opostas de um prisma hexagonal. Faces do carimbo decoradas por rosáceas hexalobadas diferentes, inseridas em dois círculos concêntricos, um simples e o outro pontinhado. Dimensões (cm): comprimento: 11; diâmetro dos carimbos: 2,5. Primeira metade do séc. XX.
- Chavão simples com a forma de tronco de cone, ligado por um cilindro a uma argola, por sua vez ligada a um elo. Face do carimbo decorada por uma rosácea hexalobada, inserida num cordão circular. Tronco de cone decorado com motivos geométricos e cilindro esculpido com triângulos em madeira. No tronco d e cone está inscrita a data: 24.5.1951. Dimensões (cm): comprimento com argola e elo: 10; diâmetro do carimbo: 4;
- Chavão duplo constituído por dois chavões simples com a forma de tronco de cone com argola, ligadas a outra argola. Faces dos carimbos decoradas, orladas por cordões circulares nos quais se inserem, num uma rosácea octolobada e no outro uma rosácea também octolobada, mas na qual corações alternam com lágrimas. Dimensões (cm): comprimento total: 15,5; diâmetro dos carimbos: 5. Primeira metade do séc. XX.

PENTE
Em madeira.Com 12 dentes que emergem da parte superior quadrangular com suspensão de recorte pentagonal irregular. Topo quadrangular com entalhes geométricos, simétricos, distintos nas duas faces.
Dimensões (cm): comprimento: 18; largura: 7; espessura: 0,6. Primeira metade do séc. XX.

FORCA DE FAZER CORDÃO
Artefacto em madeira, usado na tecnologia têxtil. Constituído por três conjuntos de elementos talhados na mesma peça plana: as hastes e o cabo constituído por duas secções, uma com forma elíptica e outra com forma circular. Dimensões da forca (cm): 5,2 x 0,5 x 15,8. Dimensões das diversas secções (cm): secção circular: 2,3; secção elíptica: 7,5; hastes: 6. As hastes, dispostas paralelamente, são utilizadas para fazer o entrançado do cordão que é enrolado à volta do cabo à medida que é feito. Para evitar a sua acumulação, o cabo apresenta um orifício ao centro da secção elíptica, através do qual o cordão já feito é retirado da forca. Fina e profusamente decorada com motivos florais e geométricos distintos em ambas as faces, com bordado com simetria axial em relação ao eixo vertical da forca. Primeira metade do séc. XX.  

CABAÇA DE COLO DIREITO COM PEGA E TAMPA
Recipiente para líquidos. Cabaça e madeira. Dimensões (cm): altura com tampa: 29; diâmetro do bojo: 16. Trabalho feito à navalha, com a superfície da peça pintada a anilina e coberta de rebaixos escavados, desenhando motivos geométricos. No fundo, a marca MSG (Miguel Serol Gomes). Último quartel do séc. XX. 

TARRETA
Recipiente em cortiça, com tampa, com puxador em corno, em forma de argola. Destinada a transportar e conservar os alimentos. Dimensões (cm): altura: 12; largura: 16; comprimento: 35. Peça com a forma de tronco elíptico, feito à navalha e decorada com entalhes, desenhando motivos geométricos. Num dos lados, no sentido do comprimento tem inscrita a data: 1962.

BORSAL
Estojo para protecção do machado corticeiro, com a forma característica da folha do mesmo. Constituído por duas metades em cortiça que encaixam uma na outra e que sujeitam a folha do machado com o auxílio de uma correia de couro, provida de fivela metálica. Decoração efectuada por entalhe, distinta nas duas faces, mas incluindo em qualquer delas, motivos geométricos, vegetalistas e simbólicos como o signo-saimão. Numa das faces, a marca J.A.V. e na outra, a data: 26.7.75. Dimensões (cm): comprimento: 25; altura: 17; espessura: 4.  

CORNA AZEITEIRA
Vasilha em corno, destinada ao transporte do azeite que fazia parte das comedorias dos pastores e era confeccionada a partir dos cornos dos bois de trabalho, os quais apresentavam hastes de maiores dimensões.Peça de forma curva, em corno de tons creme e acastanhado, madeira, ferro e couro. Dimensões (cm): Comprimento com vedantes de madeira: 42; Diâmetro da abertura: 6,5. Decoração entalhada com figuras humanas, zoomórficas e geométricas. Marca JR (Joaquim Rolo). Abertura vedada por uma tampa de corno, entalhada com quadrados, em cujo centro está embutido um tubo cilíndrico em madeira, vedado por uma tampa, igualmente em madeira. Visando facilitar o transporte, as duas extremidades da corna estão ligadas por uma tira de couro, fixa a argolas de ferro, ligadas a pitons do mesmo metal. Último quartel do séc. XX. 

POLVORINHO
Recipiente usado para guardar e transportar pólvora, bem como para alimentar armas de fogo de carregar pela boca. Peça de forma curva, em corno de tons creme e acastanhado, madeira, ferro e couro. Comprimento com tampa: 33 cm. Trata-se de um artefacto manufacturado em ponta de corno e com decoração entalhada com cena pastoril e figuras zoomórficas inseridas em molduras decoradas com motivos geométricos. O fundo, do mesmo material, embutido no corno, foi entalhado com losangos. Na extremidade oposta, uma tampa de madeira, cilíndrica. Na face com decoração zoomórfica, a marca JR (Joaquim Rolo). O polvorinho tem uma tira de couro que serve para suspensão. Esta, está atada à tampa com uma tira de couro presa na outra extremidade a uma argola de corno, fixa ao polvorinho por meio de um piton em ferro. Último quartel do séc. XX.

DANÇARINO
Brinquedo popular alentejano destinado a animar grupos de pessoas ao serão ou em festas. Tronco de cortiça. Cabeça e membros articulados em madeira de oliveira, que é a que melhor som produz sobre a base que funciona como piso de dança. Boa expressão facial. Cor do vestuário evocando as cores, verde e rubra da bandeira republicana. Manipulação horizontal ao nível do manipulador, o qual segura uma vara de madeira que encaixa pela retaguarda no orifício do centro do peito. O manipulador senta-se em cima duma tábua que fica com uma das extremidades livres e assenta os pés do fantoche em cima da tábua. Seguidamente imprime pancadas na tábua com o ritmo desejado, o que a faz vibrar e saltitar o boneco. Nos montes alentejanos, a manipulação era feita pelo chefe da família para entreter os filhos pequenos, o que acontecia quando regressava do trabalho ou ao serão, à luz da candeia ou do candeeiro a petróleo. Dimiensões (cm): 6 x 2 x 21,7. Primeira metade do séc. XX.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O guardador de memórias e o Mercado das Velharias em Estremoz

 

Caixa em madeira. Joaquim Carriço Rolo.


A identidade cultural alentejana
Participei em 1998 na batalha pela regionalização, apresentando publicamente uma comunicação [i], no fim da qual concluí:
“Julgo ter ficado sobejamente demonstrado que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.
Como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento.”

Guardador de memórias
A batalha pela regionalização foi perdida, mas tal desfecho não fez esmorecer em mim o que me motivara a intervir naquele Encontro - a minha actividade de guardador de memórias, epíteto que me viria a ser atribuído pelo António Júlio Rebelo [ii]:
“Hernâni Matos é um guardador de memórias.
Quem guarda memórias não vive no passado, faz do passado um tempo presente e futuro. Olhar para as raízes do tempo é compreender melhor o que está e o que virá, com sabedoria, com afectividade, e nunca o seu contrário.
Quem guarda memórias olha para os acontecimentos e vê neles um fio estendido, que vem de tão longe e pode projectar-se para tão longe.
Quem guarda memórias habita o mundo com um saber feito dos outros, da terra funda, da comunidade, e tudo isso passa para nós, é-nos proporcionado, dando-nos com dedicação esse mundo imenso feito de vida”.
Sou assumidamente um guardador de memórias. Memórias de camponeses, de ganhões, de pastores, de ceifeiros, de varejadores e de mulheres da azeitona. Memórias de artesãos e de poetas populares. Memórias de outras vidas, de outros saberes, de outros anseios, de outros modos de ver o mundo e a vida.
Como guardador de memórias, assumo-me como fiel guardião da nossa ancestral matriz identitária, incumbido duma nobre missão: a de transmitir às novas gerações a importância e a riqueza da pluralidade do passado e das tradições do nosso povo, para que elas tenham consciência de que urge resistir a uma globalização castrante que assimptoticamente procurará reduzir à chapa zero, as nossas identidades culturais, a nível local, regional e nacional.

O Mercado das Velharias em Estremoz
Em texto auto-biográfico datado de 2012[iii], escrevi:
“Desde os longínquos tempos do bibe e do pião que é recolector de objectos materiais que fazem vibrar as tensas cordas de violino da sua alma. Nessa conjuntura se tornou filatelista, cartofilista, bibliófilo, ex-librista e seareiro nos terrenos da arte popular, muito em especial a arte pastoril e a barrística popular de Estremoz.
Respigador nato, cão pisteiro, farejador de coisas velhas, o seu olhar cirúrgico procede sistemática e metodicamente ao varrimento de scanner no mercado das velharias em Estremoz, no qual é presença habitual e onde recolecta objectos que duma forma virtual, pré-existiam no seu pensamento.
O fascínio da ruralidade e o culto da tradição oral, levam-no a procurar o convívio de camponeses, artesãos e poetas populares, com os quais procura aprender e partilhar saberes.
A arte pastoril, um dos traços mais marcantes da identidade cultural alentejana, integra as suas memórias materiais de recolector. Para além do acto da colheita e mais que o fascínio da posse, importa-lhe a possibilidade de dissecação de cada peça recolhida e a cumplicidade com o autor no próprio acto de criação, constituindo um registo para memória futura e uma afirmação vigorosa da identidade cultural transtagana.”
O Mercado das Velharias em Estremoz é um os palcos da minha acção. Na antecâmera do novo ano que aí vem, dou-vos conta das mais recentes memórias no domínio da arte pastoril, que ali foram recolhidas por mim.
Termino, desejando-vos a todos um BOM ANO DE 2024.


[i] MATOS, Hernâni. A necessidade da criação da Região Administrativa do Alentejo in Encontro promovido pelo Movimento “Alentejo – Sim à Regionalização por Portugal”. Estremoz, Junta de Freguesia de Santa Maria, 24 de Outubro de 1998.
[ii] REBELO, António Júlio. Guardador de memórias. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2021/02/guardador-de-memorias.html [Consultado em 29 de Dezembro de 2023].
[iii] MATOS, Hernâni. Acerca de mim in catálogo da Exposição ARTE PASTORIL - MEMÓRIAS DE UM COLECCIONADOR. Museu Municipal de Estremoz. Estremoz, 6 de Maio de 2012. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/p/acercva-de-mim.html [Consultado em 29 de Dezembro de 2023].

Publicado inicialmente em 29 de Dezembro de 2023


Caixa em madeira. Joaquim Carriço Rolo.

Tarreta em cortiça. Autor desconhecido.

Tabaqueira em chifre e madeira. Joaquim Carriço Rolo.

Colher e garfo em madeira. Autor desconhecido.

Chavão ou pintadeira em madeira. Autor desconhecido.

Cágueda em madeira com decoração apotropaica. Autor desconhecido.

Castanholas em madeira. Joaquim Carriço Rolo.

Nossa Senhora do Rosário. escultura em madeira. Joaquim Carriço Rolo (?).


Rosário em madeira e arame. Joaquim Carriço Rolo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Arte Conventual - O falar das mãos de Guilhermina Maldonado


Guilhermina Maldonado (1937-2019).

LER AINDA:

Entre nós vivem pessoas relativamente às quais a Comunidade nutre profunda estima e admiração, pelas mais diversas e respeitáveis razões: o seu desempenho ou êxito profissional, o seu exemplo de vida, a sua participação cívica ou aquilo que criam, que é o caso da Senhora que é objecto do presente post.
Guilhermina Maldonado é uma artesã multifacetada cuja actividade se distribui entre outras artes pela criação de registos – bentinhos e lâminas, assim como de maquinetas.
Registos contendo gravuras representando Santos ou Passos das Sagradas Escrituras e que dependurados nas paredes dos quartos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.
Maquinetas contendo imagens devotas que são objectos de Culto ou encerram Presépios, através dos quais se evoca ciclicamente o nascimento de Cristo Salvador.
E o que é um registo? E o que é uma maquineta?
A designação de “registo” engloba ícones religiosos gravados em madeira, cobre, ou pintados sobre pergaminho, tecido ou papel ou impressos litograficamente.
Os de pequenas dimensões, além de relembrarem o dia festivo do Santo Protector, serviam para marcar uma dada passagem no missal ou noutro livro qualquer.
Independentemente das suas dimensões, os registos começaram a ser usados no século XVIII para emolduramentos conhecidos por “bentinhos”, designação que também abrange saquinhos de pano, bentos, que se usavam ao pescoço por debaixo da camisa, contendo papeis com orações, relíquias ou outros objectos de devoção.


Filha de uma mãe exímia e assombrosa na arte do papel recortado e sobrinha do antiquário Venceslau Lobo, Guilhermina Maldonado, nasceu em Estremoz, na freguesia de Santo André, no ano de 1937. Desde muito cedo, conviveu com registos, bentinhos, lâminas e maquinetas. Depois do casamento com o lavrador Luis Maldonado, foi morar para um monte, onde a necessidade de combater o isolamento, a levou a ocupar o tempo de maneira criativa.
Os trabalhos da mãe e a loja do tio que sempre a fascinou, emergiram então na sua memória, levando-a a recriar registos, a partir dos que já conhecia, sem necessitar de qualquer aprendizagem.


Prendada com uma vontade férrea e uma paciência sem limites, a elas soube aliar o prazer de criar, o que faz com uma imaginação espantosa, ainda que temperada pelo rigor e pela procura incessante da delicadeza, perfeição e harmonia, com requintes de minúcia, que são o seu timbre. Dotada de rara sensibilidade artística, das suas mãos de ouro, saem entre outras, inúmeras peças ao gosto conventual do século XVVIII, com um destaque muito especial para os registos e maquinetas ricamente trabalhados.


Desde a sua primeira exposição, ocorrida em 1987 na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, que o seu trabalho foi publicamente reconhecido, passando a receber antiquíssimos registos e maquinetas para restaurar, bem como encomendas para criar novos trabalhos.
Como matérias-primas, Guilhermina Maldonado utiliza papéis coloridos (simples ou metalizados), tecidos (lisos ou lavrados), galões, fitas de algodão e seda, laços, bordados a linha de vários matizes ou de fio prateado ou dourado, bem como pérolas, coral, lantejoulas, vidrilhos, missangas e contas das mais variadas cores. Utiliza também o barro, o miolo de sabugueiro, flores naturais, escamas de peixe ou cascas de árvore. Igualmente utiliza o cartão e o vidro.

As ferramentas utilizadas são as mais diversas: tesoura, lâminas, agulhas, teques, bastidores, pincéis e utensílios improvisados.
Nos bentinhos, a estampa começa por ser colada num cartão que é forrado com tecidos ricos e decorado com lantejoulas, vidrilhos ou papéis coloridos, entre outros materiais.
Guilhermina Maldonado domina e utiliza as múltiplas técnicas de trabalhar o papel: dobragem, vincagem, corte, recorte, enrolamento e picotagem. Com a ajuda da tesoura e da pinça, corta finamente o papel e enrola-o, compondo folhas, pétalas e caules finíssimos, assim como transforma retalhos de papel em preciosos bordados e rendas.


Na decoração é por vezes utilizado canotilho de ouro ou prata e bordados a fio de ouro e prata. Só depois a estampa é emoldurada com uma moldura ricamente trabalhada.
A geometria das molduras é variada: rectangular, quadrada, circular, oval, ogival, cruciforme, cuneiforme ou de contorno misto. A estampa em vez de ser emoldurada, pode ser montada numa caixa pacientemente armada em vidro, também ela de geometria variável, com as lâminas de vidro guarnecidas a papel, tecido, fitas de seda ou de algodão. Estamos então em presença de “lâminas”. Nelas, a dado momento, a estampa começou a ser substituída, por vezes, por pequenas esculturas de barro policromado, cera, marfim ou alguma massa de segredo conventual.



Além de registos – bentinhos e lâminas, Guilhermina Maldonado também executa “maquinetas”, que são caixas envidraçadas onde se expõem imagens devotas como o Menino Jesus ou cenas do Presépio. Os materiais e as técnicas são semelhantes aos dos registos, só que as caixas agora têm maior volume. Guilhermina Maldonado começou por montar maquinetas com figuras modeladas por outros, mas actualmente é ela própria que modela e decora as figuras das suas maquinetas.


Guilhermina Maldonado participa desde sempre na Feira de Artesanato de Estremoz, a qual constitui na sua opinião, a melhor forma de divulgação do seu trabalho. É lá que recebe grande parte das encomendas de clientes que ficaram seduzidos pelo seu trabalho.
Dentre as Exposições realizadas, destacamos entre outras:
-  REGISTOS (Exposição Colectiva), Museu Municipal de Estremoz, Março - Abril de 1986;
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, Dezembro de 1987- Janeiro de 1988;
- Exposição colectiva, Portalegre, Maio de 1992;
- GUILHERMINA MALDONADO E O FALAR DAS MÃOS (Exposição Individual), Câmara Municipal do Alandroal, Dezembro de 1995.
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Escola Secundária de Estremoz, Dezembro de 1999.
A continuidade da sua Arte foi uma questão que sempre a preocupou. Estela Marques Barata foi a colaboradora a quem transmitiu os seus saberes.
Vivemos numa época pautada pela exaltação dos valores materiais e pela globalização, ambos conducentes à insensibilidade artística e ao cinzentismo da perda de identidade cultural. Por isso é preciso cavar trincheiras e cerrar fileiras em tomo do que mais puro e genuíno tem a Cultura Popular, nas suas mais diferentes vertentes. Dai que procuremos transmitir às novas gerações, valores e estéticas, que sendo populares e regionais, são simultaneamente universais e intemporais.
Esse o sentido da Exposição, que de 16 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2010, esteve patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. tratou-se de uma Exposição, onde a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, nos fizeram render à Arte de Guilhermina Maldonado.

Publicado inicialmente em 5 de Abril de 2010

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Bonecos de Estremoz - Figuras de negros


 Fig. 1 - Preto a cavalo (s/d) – 
- José Moreira (1926-1991).

A produção bonequeira dos diversos barristas dos sécs. XX-XXI tem um elo comum: os chamados “Bonecos da Tradição”. Trata-se de um conjunto de cerca de 100 figuras que são comuns à produção individual de cada barrista. Naquele conjunto existem três figuras de negros que são reveladoras da colonização africana ocorrida no Alentejo: Preto a cavalo (Fig. 1), Preta grande (Preta florista) (Fig. 2) e Preta pequena (Fig. 3).
Na freguesia de Santa Vitória do Ameixial no concelho de Estremoz, existe o chamado Monte dos Pretos, situado junto à mina abandonada que foi explorada no período da ocupação romana da região, a qual começou no séc. I, mas foi mais significativa nos sécs. III-IV. A existência dum Monte com aquela designação, é indicativo de que existiram escravos negros na região. Em Estremoz, como noutras localidades do país, existe a Rua dos Malcozinhados. Estes eram tabernas populares onde se reuniam escravos, trabalhadores braçais e prostitutas e, se consumia vinho barato e comida feita à pressa como peixe frito e iscas. A nível nacional, os malcozinhados são conhecidos desde o tempo das descobertas. O facto de existir em Estremoz uma Rua dos Malcozinhados é um indicador de que por aqui houve escravos negros. Jorge Fonseca em “Religião e Liberdade / Os negros nas irmandades e confrarias portuguesas (séculos XV a XIX)” [(2) - pág.50-51] dá conta que: “Em Estremoz houve duas confrarias do Rosário, sendo aparentemente e ao contrário do que se passa noutros locais, a dos Negros de fundação mais tardia que a outra. Segundo Frei Jerónimo de Belém foi erigida a confraria na Igreja do Convento de São Francisco, em 1545. Em 1585 D. Filipe I autorizou os respectivos confrades a pedirem esmolas pela vila e pelo termo, durante dois anos. Porém, em 1633, os homens e mulheres pretos moradores na vila de Estremoz obtiveram do rei, como governador da ordem de Avis, licença para criarem a confraria e irmandade de Nª Sª do Rosário, na igreja matriz de Nª. Sª. da Assunção, situada na vila intramuros (ao contrário do convento referido), que era da mesma ordem militar. Mas esta deve ter tido duração efémera, ou ter sido unificada com a primeira, tendo em conta um livro seiscentista pertencente à confraria do convento franciscano, com a entrada de irmãos a partir de 1676. Entre pessoas das mais variadas profissões e níveis sociais, aparece Isabel Mendes, escrava de Manuel Garcia Mendes, em 1692”. Resta na cidade, como testemunho da piedade dos descendentes de africanos, uma escultura de São Benedito, setecentista, na igreja de Nª. Sª. do Socorro.” Arlindo Caldeira em “Escravos em Portugal / Das origens ao século XIX” [(1) - pág.308], diz que “Como instituição, as irmandades já funcionavam desde o século XII na Europa, nomeadamente em Portugal, com fins religiosos e de solidariedade. No entanto, não seria no seio das já existentes que os africanos encontrariam acolhimento. Tiveram de criar, com o apoio de algumas ordens religiosas, associações completamente novas. Foi assim que proliferaram estas confrarias, com marcada distinção étnica, e em que ao nome do patrono religioso, se acrescentava “dos homens pretos” ou, sobretudo depois do século XVIII “dos homens pretos e pardos”. Na mesma obra [(1) - pág. 308] refere que: “Embora varie a invocação religiosa que aparece na designação dessas associações, a mais comum é a da Nossa Senhora do Rosário, decorrente do culto do rosário, muito popular desde o séc. XIII, promovido pela ordem dos Dominicanos.” O mesmo autor [(1) - pág. 305] informa que “Além das festas informais de rua, os músicos e dançarinos negros, nomeadamente os escravos, eram os elementos imprescindíveis das festividades anuais das confrarias ditas “de pretos e mulatos” e participavam também nos principais acontecimentos festivos da cidade, sendo uma presença sempre aguardada nas touradas, nos cortejos e nas procissões…” O mesmo historiador revela que: “A música e a dança, uma e outra de raiz claramente africana, eram o prato forte das festividades domingueiras. Estas manifestações de exotismo despertavam, por um lado, a curiosidade, mas, para outros sectores da sociedade eram vistas como sinais de barbarismo pagão ou mesmo de demonismo.” A terminar é de referir de que nos dá conta que [(1)-305]: “Algumas das festas de africanos ligadas às irmandades, mas não só, incluíam a nomeação, em geral com a duração de um ano, de um “rei” e de uma “rainha”, que, além da função decorativa, eram uma espécie de mordomos dos festejos, cabendo-lhes, por exemplo, animar os peditórios para angariação de esmolas.” Julgo ter provado de uma vez por todas e duma forma insofismável que a presença de negros na barrística popular estremocense se dever à existência desde tempos remotos de escravos negros, os quais foram representados pelos barristas.

BIBLIOGRAFIA
(1) - CALDEIRA, Arlindo M. Escravos em Portugal / Das origens ao século XIX. A Esfera dos Livros. Lisboa, 2017 (págs. 304, 305, 308 e 310).
(2) - FONSECA, Jorge. Religião e Liberdade / Os negros nas irmandades e confrarias portuguesas (séculos XV a XIX). Editora Húmus. Vila Nova de Famalicão, 2016 (págs. 50, 51).

Publicado inicialmente em 8 de Maio de 2019

Fig. 2 - Preta grande (Preta florista) (s/d) –
- Liberdade da Conceição (1913-1990).

Fig. 3 - Preta pequena (2018) –
- Irmãs Flores (1957, 1958- ).