domingo, 5 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES

 

Teresa Serol Gomes a trabalhar no pátio da sua residência em Estremoz.

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Marta Pereira e de
 Arquivo Fotográfico da CME (Teresa Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

2 - TERESA SEROL GOMES (1952-1988)

Filha de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmã de Miguel Serol Gomes (1957- ), nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos) e fez a instrução primária na escola da freguesia. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferira com a família. É nessa altura que começa a trabalhar com o pai. Por falecimento deste em 1974, dá continuidade ao seu legado artístico, utilizando as mesmas técnicas e tipo de decoração, porém com um cunho muito pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças e madeira: plátano, nogueira e choupo. Não trabalhou em chifre.

Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, candeeiros de cabaça, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, bases de copos e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera, Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém) e Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz 


Stand de Teresa Serol Gomes na II Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz (1984).

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos e geométricos, com tampa.
28 x15 cm.

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos, com tampa em madeira
e correia em couro para transporte. 15 x 12 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, zoomórfica e antropomórfica. Escudo monogramado com as letras
T, A, L, encimado por uma chave. 70 x 9 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, fitomórfica, zoomórfica, antropomórfica e religiosa (Natividade de Jesus). 
82 x 9 cm.       

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa, 
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 69 x 2 cm.

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa,
fitomórfica. 66,5 x 2 cm.

sábado, 4 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 5 - ASSOBIOS

 

30 - Cesta de ovos com asa (Ana das Peles)
31 - Pomba no choco com arco (Ana das Peles)
32 - Peralta (Ana das Peles)
33 - Amazona (Ana das Peles)

5 - ASSOBIOS

Os assobios são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornou simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Sob um ponto de vista morfológico são habitualmente classificados em zoomórficos, antropomórficos e compostos.

A presente colecção é constituída por um total de 189 assobios dos seguintes barristas: Ana das Peles (5), Sabina Santos (14), José Moreira (7), Maria Luísa da Conceição (13), Maria Inácia (3), Irmãs Flores (57), Jorge da Conceição (14), Ricardo Fonseca (1), João Sousa (1), Carlos Alberto Alves (9), Ana Catarina Grilo (21), Inocência Lopes (4), Manuel J. Broa (3), Inês da Conceição (5), Jorge Carrapiço (32).

34 - Senhora de pezinhos (Sabina Santos)
35 - Peralta (Sabina Santos)
36 - Sargento (Sabina Santos)
37 - Amazona (Sabina Santos)
38 - Peralta a cavalo (Sabina Santos)
39 - Sargento a cavalo (Sabina Santos)

40 - Galo no tronco (José Moreira) 
41 - Cesta de ovos com asa (José Moreira)
42 - Galo no pinheiro (José Moreira)
43 - Galo na árvore (José Moreira)
44 - Peralta (José Moreira)
45 - Pomba (José Moreira) 
46 - Sargento (José Moreira

47 - Galo (Maria Luísa da Conceição)
48 - Galo no pinheiro (Maria Luísa da Conceição)
49 - Galo no laço (Maria Luísa da Conceição)
50 - Galinha no choco (Maria Luísa da Conceição)

51 - Berço com bebé (Maria Luísa da Conceição)

61 - Senhora de pezinhos (Manuel José Broa)
62 - Peralta (Manuel José Broa)
63 - Sargento (Manuel José Broa)

69 - Harmónio (Carlos Alberto Alves)
70 - Ronca (Carlos Alberto Alves)
71 - Adufe (Carlos Alberto Alves)
72 - Tambor (Carlos Alberto Alves)
73 - Guitarra (Carlos Alberto Alves)

 Alguns dos assobios expostos são merecedores de uma referência especial.

52 - Galo no tronco (Irmãs Flores)
53 - Galo no laço (Irmãs Flores)
54 - Galinha no choco (Irmãs Flores)
55 - Pombos na árvore (Irmãs Flores)

56 - Galo no arco (Irmãs Flores)

Anteriormente às Irmãs Flores, os assobios zoomórficos e antropomórficos tinham uma base cilíndrica de altura diminuta ou em forma de menisco convexo, nos quais estava inserido o bocal de sopro. Desde sempre que este bocal era manufacturado, montando e furando um rolo de barro, tal como era feito para os assobios compostos. Todavia, Maria Inácia Fonseca, uma das Irmãs Flores, introduziu uma técnica diferente: o menisco convexo passa a ser mais alto e dele, por estiramento numa determinada direcção, resulta o indispensável tubo, que é furado da maneira anterior. O bocal de sopro passa então a ser mais curto e a proeminência correspondente, mais suave e mais discreta. Há aqui uma mudança de paradigma que importa sublinhar e registar. Para além disso, as Irmãs Flores reavivaram o coleccionismo de assobios, já que ao contrário dos barristas que as precederam, foram criando inúmeras variantes dum mesmo tipo de assobio, por introdução de diferentes pormenores na modelação e na decoração, a que imprimiram um cromatismo muito vivo, visualmente apelativo.

64 - Galo no poleiro (Jorge da Conceição)
65 - Galo na azinheira (Jorge da Conceição)
66 - Galinha no choco com arco (Jorge da Conceição)
67 - Galinha e pintos (Jorge da Conceição)

68 - Cesto de flores (Jorge da Conceição) 

Os assobios de Jorge da Conceição são caracterizados por uma modelação e uma decoração muito minuciosas, fortemente naturalistas, que os transformam em peças extremamente apelativas. Deste modo, transcendem o âmbito restrito daquilo que podiam ser apenas brinquedos e instrumentos musicais, passando a ser também objectos decorativos, o que está em consonância com a alma do barrista. Jorge da Conceição demanda a beleza, a elegância, o equilíbrio e a harmonia em tudo o que faz. Para além dos modelos tradicionais de assobio, os quais recriou, Jorge da Conceição criou novas figuras de assobio: Cesta de Flores, Galinha e Pintos, Galo no Roseiral, Galo na Azinheira, Galo na Vinha e Galo no Jardim.

81 - Sagrada Família (Inês da Conceição)
82 - Santo António (Inês da Conceição)
83 - Galo no mocho (Inês da Conceição)
84 - Gato no mocho (Inês da Conceição)
85 - Cão no mocho (Inês da Conceição)

Inês da Conceição produziu assobios de base ovóide semelhante à dos assobios de seu pai, com uma expressão mais simplificada, as pintas da base mais miudinhas e um tubo de sopro de cor verde bandeira, igualmente adoçado na embocadura. Dois desses assobios são assobios devocionais (Sagrada Família e Santo António) e três são assobios zoomórficos (galo, gato e cão) com a particularidade de não estarem assentes numa base ovóide, mas sim num “mocho” tradicional alentejano, cujos pés é que assentam nessa base.

74 - Santo António (Ana Catarina Grilo)
75 - São João Baptista (Ana Catarina Grilo)
76 - Nossa Senhora (Ana Catarina Grilo)
77 - Nossa Senhora a orar (Ana Catarina Grilo)
78 - Sagrada Família (Ana Catarina Grilo)

79 - Berço do Menino Jesus (Ana Catarina Grilo)
80 - Menino Jesus Bom Pastor (Ana Catarina Grilo)

Os assobios de Ana Catarina Grilo chamam a atenção pela simplicidade, pelo cromatismo suave e harmonioso, pelo tamanho adequado do tubo de sopro e o não adoçamento da extremidade. Quanto às dimensões são aquelas que era suposto serem as de um brinquedo de criança. Para além dos tradicionais assobios que integram o núcleo central do figurado de Estremoz, a barrista apresenta novas criações como “Palhaço” e 7 exemplares de  assobios devocionais (Nossa Senhora, Nossa Senhora a orar, Berço do Menino Jesus, Menino Jesus Bom Pastor, Milagre das Rosas, Santo António e São João Baptista).

57 - Pucarinho enfeitado (Inocência Lopes)
58 - Terrina enfeitada (Inocência Lopes)
59 - Candelabro enfeitado (Inocência Lopes)
60 - Arco enfeitado (Inocência Lopes)

Tradicionalmente, os assobios de barro vermelho de Estremoz integravam na sua decoração uma figura zoomórfica, antropomórfica ou mista. Porém, Inocência Lopes criou muito recentemente quatros assobios: Pucarinho enfeitado, Candelabro enfeitado, Terrina enfeitada e Arco enfeitado, passando os assobios a incorporar também espécimes de olaria enfeitada como elementos decorativos. Trata-se de uma inovação visualmente harmoniosa, que eu aplaudi e subscrevi, assim que se tornou conhecida.

86 - Pomba no choco com arco (Jorge Carrapiço)
87 - Pombo no tronco (Jorge Carrapiço)
88 - Galinha no choco (Jorge Carrapiço)
89 - Galo no pinheiro (Jorge Carrapiço)
90 - Galo no arco (Jorge Carrapiço)
91 - Galo no tronco com rebentos (Jorge Carrapiço)

Os assobios de Jorge Carrapiço inspiraram-se maioritariamente nos assobios de sua bisavó Ana das Peles e de outros mais antigos, pertencentes à colecção do Museu Nacional de Etnologia. Têm um cunho muito popular com modelação e decoração muito simplificadas. Bases com fundo branco, pintalgadas com pintas verdes bandeira e vermelhas, de forma irregular e espaçadas. Extremidade do tubo de sopro não pintada, permanecendo na cor do barro. As figuras estão sempre viradas para o lado oposto do tubo de sopro, de modo que a sua parte frontal esteja virada para os ouvintes e a parte traseira para o apitador.

Hernâni Matos

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 4 - SOLISTAS

 

8 - Pastor do harmónio (Mariano da Conceição)
9 - Tocador de harmónio (Liberdade da Conceição)
10 - Tocador de harmónio (Maria Luísa da Conceição)
11 - Pastor do harmónio (Maria Luísa da Conceição)

4 - SOLISTAS

Os solistas são músicos que executam uma peça musical ou parte dela, sozinhos ou em destaque num grupo musical. No figurado de Estremoz podem-se considerar solistas os Tocadores de Harmónio, dos quais figuram na colecção, 19 exemplares manufacturados por Mariano da Conceição (1), Sabina Santos (4), Liberdade da Conceição (2), José Moreira (4), Fátima Estróia (1), Irmãs Flores (1), Mário Lagartinho (1), Maria Luísa da Conceição (2), Quirina Marmelo (1), Duarte Catela (1) e Ricardo Fonseca (1). O exemplar deste último barrista é acompanhado dum desenho onde o barrista nos mostra as sucessivas fases de execução do seu Boneco.

Para além dos Tocadores de Harmónio, a colecção apresenta 6 outros solistas como Trovador (Irmãs Flores), duas figuras diferentes de Preto Guitarrista (Irmãs Flores), Figura de Entrudo com Pandeireta (Irmãs Flores), Tocador de Gaita de Foles (José Moreira) e Tocador de Guitarra (José Moreira).  

Hernâni Matos

12 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
13 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
14 - Tocador de harmónio (Sabina Santos)


15 - Pastor do harmónio (Fátima Estróia)
16 - Pastor do harmónio (Irmãs Flores)
17 - Pastor do harmónio (Mário Lagartinho)
18 - Pastor do harmónio (Quirina Marmelo)
19 - Pastor do harmónio (Duarte Catela)

20 - Pastor do harmónio (Ricardo Fonseca)

21 - Pastor do harmónio (José Moreira)
22 - Tocador de harmónio (José Moreira)
23 - Tocador de harmónio (José Moreira)
24 - Tocador de gaita de foles (José Moreira)
25 - Tocador de guitarra (José Moreira)

26 - Trovador (Irmãs Flores)
27 - Figura de Entrudo com pandeireta (Irmãs Flores)
28 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)
29 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.4 – Dia de Sortes

 

Dia de Sortes (Carlos Alberto Alves)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-4. - Dia de Sortes (Carlos Alberto Alves)

No decurso da guerra colonial (1961-1974), os jovens eram convocados para as “Inspecções” aos 18/19 anos. Tratava-se da inspecção militar, que consistia em provas físicas e médicas, visando determinar se os mancebos estavam ou não aptos para serem incorporados no Serviço Militar Obrigatório.

Os apurados nas inspecções eram incorporados no ano em que cumpriam o 20.º aniversário e o tempo de "tropa" podia chegar a quatro anos ou mais.

O “Dia das Inspecções” era na gíria popular conhecido por “Dia de Sortes”, designação devida ao facto de ser nesse dia que cada mancebo inspeccionado ficava a saber qual a “sorte” que lhe tinha cabido na inspecção militar: apurado, livre ou adiado. A cada sorte estava associada simbolicamente uma fita colorida, de acordo com a seguinte convenção: APURADO=VERDE, LIVRE=VERMELHO, ADIADO=BRANCO.

À saída das inspecções cada jovem identificava-se com a “sorte” que lhe tinha cabido. Para tal exibia a correspondente fita colorida, pregada no peito, no boné ou no chapéu. À sua espera um tocador de harmónio contratado que os acompanhava pelas ruas da cidade, enquanto cada um deles tocava a sua própria pandeireta. Era um modo simples e tradicional de partilhar com a comunidade, o conhecimento da “sorte” que lhe tinha cabido. Era de certo modo, um ritual de puberdade que se extinguiu tal como o Serviço Militar Obrigatório.

O Dia de Sortes” foi perpetuado no figurado de Estremoz pelo barrista Carlos Alberto Alves, que para o efeito criou um grupo alegórico constituído por um tocador de harmónio e 3 tocadores de pandeireta com “sortes” diferentes uns dos outros: um “apurado”, um “livre” e outro “adiado”.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.3 – Cante Alentejano

 

Cante Alentejano (Ana Bossa)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-3. - Cante Alentejano (Ana Bossa)

A identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o Cante Alentejano, que de acordo com a tese litúrgica do padre António Marvão teve origem em escolas de canto popular fundadas em Serpa, por monges paulistas do Convento da Serra d’Ossa, os quais tinham formação em canto polifónico.

O Cante Alentejano foi proclamado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014. 

A barrista Ana Bossa que nos anos 90 do séc. XX, frequentou o atelier das irmãs Flores, perpetuou no barro um Grupo de 9 cantadores como expressão do Cante Alentejano.

Hernâni Matos

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.2 – Música Popular Alentejana

 

Música Popular Alentejana (Carlos Alberto Alves)

3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-2. Música Popular Alentejana (Carlos Alberto Alves)

Os executantes e os instrumentos musicais populares alentejanos são parte integrante da identidade cultural alentejana, a qual urge preservar e valorizar enquanto memória do povo.

Etno-musicólogos como Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça calcorrearam os campos do Alentejo nos anos 60 do século passado e efectuaram o registo etno-musical da região.

Conhecedor deste registo e daqueles que nele participaram, entre eles o seu tio Aníbal Falcato Alves, o barrista Carlos Alberto Alves, no mais estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, criou um conjunto de figuras sob a epígrafe “MÚSICA POPULAR ALENTEJANA”, o qual incorpora os tocadores dos seguintes instrumentos musicais populares alentejanos: adufe, pandeireta, bombo, tambor, ronca, cana rachada, cântaro, udu, ferrinhos, reque-reque, tamboril, trancanholas, castanholas, chocalho, guizos, flauta, viola campaniça e harmónio, num total de 18. Com esta criação procura homenagear todos aqueles que contribuíram para o registo etno-musical do Alentejo.

Hernâni Matos

domingo, 28 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.1 - Bandas Filarmónicas


Banda Filarmónica (Jorge Carrapiço)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3.1 - Banda Filarmónica (Jorge Carrapiço e outros)

No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, Sociedade Filarmónica Veirense e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, que actuam em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).

Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, perpetuada no barro por Mariano da Conceição nos anos 40 de séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.

Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição não permite saber o que são.

A presente colecção integra uma Banda de Música de José Moreira (12 figuras) e outra de Quirina Marmelo (10 figuras), as quais apresentam algumas das características acima referidas, o que me levou a desejar possuir uma Banda de Música que traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado.

A banda viria a ser executada pelo barrista Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trombone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense. Na execução da Banda foi fundamental a consultadoria do Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, que definiu o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO [caixa (2), bombo (1), pratos (1)], METAIS [tuba (1), trombone (1), contrabaixo (1), bombardino (1), trompa (1), trompete (2)], PALHETAS [clarinete (4), sax alto (1), sax barítono (1), sax tenor (1)] e FLAUTAS [flauta (2)]. Ao todo são 22 figuras, número que inclui o Maestro e o Porta-estandarte. O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.

A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma, facto que aqui atesto e registo para memória futura.