quarta-feira, 29 de julho de 2026

A todas as Mulheres do Mundo...


Camponesa. Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957).


                                     ...mas em especial à Gina Ferro,
                                                       pelo privilégio da sua amizade.

As mulheres são nossas mães, nossas irmãs, nossas filhas, nossas companheiras, nossas amantes, nossas cúmplices, o bálsamo para os maus momentos, a nossa inspiração para a ode triunfal e o estímulo para a vitória.
Com elas apanhamos bebedeiras de azul, quando não gostam de vinho.
E fartos de azul, por elas bebemos vinho, até dizer basta!
Com elas e por elas, lutamos por amanhãs que não sabemos quando vêm, mas que temos a certeza inabalável que hão de vir.
A elas nos agarramos quando sentimos que estamos a mergulhar no abismo.
Delas gostamos do carinho, do amor e do sexo-porto de abrigo.
Nelas nos fundimos e com elas fazemos filhos, erguemos projectos e por vezes engendramos mudanças de paradigma.
Com elas nos derretemos em sangue, sémen, suor e lágrimas, com gemidos e ais, punhos erguidos e bandeiras vermelhas, raiva incontida que nos vem de baixo e que desfraldamos ao vento, porque somos insurrectos. É um direito que nos assiste!
Para além de sustentarem metade do céu sobre os seus ombros, as mulheres são a metade que nos falta, que nos dá força e que nos faz vacilar, qual travão que adocica o motor.
E mais não digo…

Publicado inicialmente em 8 de Dezembro de 2013

terça-feira, 28 de julho de 2026

Poesia neo-realista

 

Camponesas (1947). Serigrafia sobre papel, 50 x 44 cm. Manuel Ribeiro de Pavia
(1907-1957). Museu do Neo-realismo, Vila Franca de Xira.

ÁLVARO FEIJÓ
Gare
ALVES REDOL
ANTÓNIO REIS
ANTUNES DA SILVA
ARMINDO RODRIGUES
ARQUIMEDES DA SILVA SANTOS
Canção do camponês
CARLOS DE OLIVEIRA
Mãe pobre
DANIEL FILIPE
EGITO GONÇALVES
- Sobre os poemas
FERNANDO NAMORA
Vida
FRANCISCO JOSÉ TENREIRO
Ciclo do álcool
JOÃO JOSÉ COCHOFEL
JOAQUIM NAMORADO
ARS
JOSÉ  FERREIRA MONTE
Clamor
JOSÉ GOMES FERREIRA
Não
Ser
Meu galope é em frente
PAPINIANO CARLOS
Menino Povo
POLÍBIO GOMES DOS SANTOS
Testamento aberto
SOEIRO PEREIRA GOMES
Poema único - Para a C...
SIDÓNIO MURALHA
Amanhã
Romance
VIRGÍLIO FERREIRA
Veio ter comigo hoje a poesia



Publicado em 20 de Abril de 2024


PÁGINA EM CONSTRUÇÃO




domingo, 26 de julho de 2026

Juramento de fidelidade



Aqui me assumo como guardador de memórias que procura salvaguardar e preservar o registo material das marcas identitárias desta terra transtagana de antanho, patente nos utensílios de uso corrente de campaniços - servos da gleba, os quais comeram o pão que o diabo amassou, em épocas não muito remotas, que desejo não se voltem a repetir, dado o sofrimento que causaram.
Colecciono arte pastoril. Pois, claro!
Publicado em 12 de Setembro de 2024

sábado, 25 de julho de 2026

Uma carta fora do baralho


FIg. 1 - Lote de bonecos de Estremoz adquiridos por Jorge da Conceição no OLX.


Prólogo
Pode parecer um pouco estranho, intitular um texto de barrística de Estremoz, com uma bem conhecida frase idiomática, que aplicada a alguma coisa lhe confere conotação pejorativa por a depreciar. Todavia, a leitura do presente texto, revela que pode não ser assim.

Bonecos comprados no OLX
O barrista Jorge da Conceição colecciona Bonecos de Estremoz, confeccionados pelo avô Mariano da Conceição, pela avó Liberdade da Conceição e pela mãe Maria Luísa da Conceição. Recentemente adquiriu um lote de 3 Bonecos no OLX (Fig. 1), minutos antes de eu dar por eles. Tratava-se das bem conhecidas figuras “Mulher a lavar a roupa” e “Mulher a dobar” da autoria de seu avô e ostentando na base, a bem conhecida marca ESTREMOZ/PORTUGAL, inclinada [i] (Fig. 2). A eles há a acrescentar um terceiro Boneco (Fig. 4), o qual me foi dispensado por aquele barrista, visto não ser do seu interesse. Dele falarei mais adiante.

Produção de Bonecos de Estremoz na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
Os bonecos e as peças de olaria produzidos na Escola Industrial de António Augusto Gonçalves eram vendidos pela Escola, funcionando assim como receita da mesma. Os alunos da Escola recebiam por isso salário, de acordo com notícia do jornal Brados do Alentejo [ii], em 1935. Quando a Escola, designada Escola Industrial e Comercial de Estremoz desde 1948, transitou para o Castelo onde actualmente funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, os alunos continuaram a poder participar na manufactura de Bonecos de Estremoz para vender aos turistas. É o que nos diz o artigo “Primeiro passo: a estante” inserido no “Diário”19 da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, Ano I, nº 57, 28 de Março de 1954 [iii] (2): “Dentro de horas, será inaugurada, ao cimo da escadaria principal da Escola, uma estante. E logo dentro dela surgirão Bonecos de Estremoz, moringues e pucarinhos para vender aos visitantes da torre, que todos os dias são numerosos.
Assim se inicia a grande campanha de angariação de fundos para a compra do que à Escola faz falta, para ser completa a acção cultural e pedagógica.
Dentro de dias, serão convidados alunos de maior mérito artístico a dar a sua colaboração, fornecendo a Escola os materiais e pagando ainda, embora com pouco dinheiro, a mão de obra.
Conseguiremos assim, antes das férias grandes, um enorme sortido de lembranças que, enquanto estivermos a descansar, irão creando dinheiro para, quando voltarmos, então poder-mos dar início às nossas compras.
Mas podem haver outras ideias. Elas que venham, pois muitas cabeças a pensar será concerteza melhor do que uma só.”

A marcação dos Bonecos da Escola
Os Bonecos comercializados pela Escola, ostentavam a marca do carimbo “ESTREMOZ / PORTUGAL” (2 cm x 0,8 cm) (Fig. 3). Trata-se do carimbo mais usado por Mariano da Conceição. O carimbo, foi de resto utilizado por sua mulher Liberdade da Conceição, sua filha Maria Luísa da Conceição e seu neto, Jorge da Conceição. Como estes quatro membros do clã alfacinha usaram todos esta marca, só a tipologia de modelação e/ou de decoração, permite identificar o autor de um determinado boneco com a referida marca.
Mariano não terá usado em exclusivo o carimbo de que venho falando, já que no Museu Municipal de Estremoz existem exemplares da aquisição feita à Escola Industrial António Augusto Gonçalves em 1941, que ostentam a marca do citado carimbo e não apresentam as características da modelação de Mariano. Trata-se de figuras afeiçoadas por alunos e que eram também comercializadas pela Escola.

Um boneco singular
O terceiro Boneco (Fig. 4) é um exemplar que não pertence aos chamados “Bonecos da Tradição”, conjunto de cerca de 100 figuras que através dos tempos, têm sido produzidas pela maioria dos barristas.
Trata-se de um pastor de chapéu aguadeiro na cabeça, com a perna esquerda ajoelhada e a perda direita dobrada e assente no solo. Usa safões que lhe protegem as pernas e samarra que lhe protege o peito, as costas e o traseiro. À sua direita tem o cajado assente no solo. À frente tem um tarro com comida. A mão direita empunha uma colher e a mão esquerda apoia-se na perna direita.
Trata-se de uma figura extraída da parte de um todo que é lhe anterior, figura essa conhecida por “Maioral e ajuda a comer” [iv] (Fig. 6). Na base figura a marca manuscrita “Estremos / Portugal”.
Uma vez que esta figura integrava o lote adquirido pelo barrista Jorge da Conceição, na qual existiam dua figuras do seu avô, Mestre Mariano da Conceição, sou levado a admitir que possam ter sido adquiridas na Escola e esta última tenha sido produzida por um aluno. Não há dúvida que se trata de uma figura singular, já que o autor produziu um Boneco que não se integra no chamado conjunto dos Bonecos da Tradição, além de que pompeia manuscrita, a marca “Estremoz / Portugal”, o que é invulgar. Daí lhe termos atribuído o epíteto “Uma carta fora do baralho”, recorrendo a uma bem conhecida frase idiomática, que integra a gíria popular portuguesa.

Epílogo
O presente texto ficaria incompleto, se não se atribuísse um nome à figura que está na sua origem. Ora, uma vez que ela é uma parte da bem conhecida figura composta “Maioral e ajuda a comer”, julgo não ser despropositado chamar-lhe “Maioral a comer”.





[i] A inclinação da marca deve-se ao facto de ela ser obtida pela percussão de um carimbo, constituído por duas filas de caracteres tipográficos verticais, ligados por um fio que ao dar de si, permitiu que as letras da marca ficassem inclinadas.
[ii] Escola Industrial António Augusto Gonçalves in Brados do Alentejo nº 239, 25/08/1935. Estremoz, 1935 (pág. 1).
[iii] O “Diário” era dactilografado a preto e com títulos a vermelho, Os cabeçalhos eram desenhados pelos alunos com mais jeito para desenho. Em todos os cabeçalhos figurava do lado esquerdo, um carimbo batido a preto, que funcionava como logótipo da Escola. Nele figuram um moringue e um púcaro, simbolizando o Curso de Olaria. Aparecem ainda um picão, uma maceta e um escopro, simbolizando o Curso de Cantaria. O conjunto é completado por um ramo de uma planta não identificada, sendo encimado pela legenda “ESCOLA IND. E COMERC. DE ESTREMOZ”, ao longo de um círculo. As datas de publicação do Diário foram as seguintes: Ano I - nº 1 - 9/2/1954, até nº 103 -23/6/1954; Ano II - nº 1 -1/10/1954, até nº 194 - 18/6/1955.
[iv] Na “Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz” da extinta olaria Alfacinha, existe uma figura composta, designada por “Pastores a merendar”. A meu ver, trata-se de uma designação inadequada, já que a representação de dois pastores a comer, não permite concluir se eles estão ou não a merendar. Para além disso, aquela designação não traduz a existência de uma hierarquia entre eles. Daí, que a meu ver, a designação mais adequada para a composição seja “Maioral e ajuda a comer”.

Publicado em 2 de Janeiro de 1922

Fig. 2 - Marca de carimbo" ESTREMOZ / PORTUGAL", com as letras inclinadas.

Fig. 3 - Marca de carimbo" ESTREMOZ / PORTUGAL", com as letras na posição normal.


Fig. 4 - Maioral a comer.

Fig. 5 - Marca manuscrita "Estremos / Portugal".  


Fig. 6 - Maioral e ajuda a comer. Mariano da Conceição. Museu Rural de Estremoz.

sábado, 18 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES

 

Miguel Serol Gomes na actualidade, no Atelier Memórias e Tradições,
em Monte Gordo.


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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Célia Freitas (Miguel Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

3 - MIGUEL SEROL GOMES (1957- )

Filho de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes (1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não eram compatíveis com a modelação do barro.

Na arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai, utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas em madeira e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.

Hernâni Matos

Cabaça colorida com anilina e lavrada com motivos geométricos,
com asa e tampa em madeira. 29 x 16 cm.

Cabaça escurecida com viochene e lavrada com motivos fitomórficos,
 com tampa em madeira e correia em couro para transporte. 45 x 12 cm.


Publicado no jornal E nº 384, de 17 de Julho de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A “Alegoria da Música” no figurado de Estremoz

 

Alegoria da Música. Jorge da Conceição.


UM TEXTO DO BARRISTA JORGE DA CONCEIÇÃO


A ideia de produzir uma figura alegórica relativa à música partiu do colecionador Prof. Hernâni Matos, amigo e cliente de há longa data, a propósito de uma exposição que estava a planear fazer, alusiva à representação do tema Música no figurado de Estremoz.

São sobejamente conhecidas as figuras do mundo rural e urbano a tocar harmónio, a banda de música que acompanha a procissão do Sr. dos Passos (muitas vezes vendida em separado das restantes figuras da procissão), bem como as variadíssimas figuras de assobio. Em todas estas tipologias a coleção de figurado de Estremoz do Prof. Hernâni Matos é rica e variada. Faltava, no entanto, uma figura alegórica alusiva à Música. Com efeito, no conjunto das figuras alegóricas, em que as mais conhecidas são as Primaveras, as Bailadeiras e o Amor é Cego, não existia uma representação alegórica da música, pois  a mesma nunca terá sido feita pelos barristas em todos estes séculos de produção de Bonecos de Estremoz.

 Assim, colmatar essa lacuna foi o desafio que me foi colocado e que aceitei com muito agrado e motivação.

 Usei como inspiração várias representações clássicas de Euterpe, a musa da música na mitologia grega, e repassei à exaustão imagens das figuras alegóricas de figurado de Estremoz, dos séculos XVIII e XIX, que temos o privilégio de ter no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho.

 Depois, deixando trabalhar a imaginação e imprimindo o meu próprio estilo, acabou por nascer a minha interpretação da Alegoria da Música. É uma figura na linha das Bailadeiras, com uma roupagem clássica enriquecida com atributos muito característicos das nossas figuras alegóricas, que ostenta uma lira e uma flauta. Trata-se de uma peça com uma função decorativa mas também utilitária, tal como muitas das nossas figuras alegóricas, que podem ser usadas como castiçais ou paliteiros. Neste caso a figura pode servir como paliteiro utilizando os furos da flauta.

 Toda a estética da figura que desenvolvi, desde a forma e decoração da base, à postura do corpo da figura, ao acabamento final e ao grau de serenidade e candura que transmite, foi trabalhada para ser completamente fiel à estética tão característica dos nossos Bonecos de Estremoz e, como não podia deixar de ser, ao meu estilo pessoal.

 Foi com alegria que registei a aceitação da peça que concebi e é motivo de muito orgulho constatar que foi a minha criação a selecionada para ilustrar o cartaz da exposição.

Jorge da Conceição
Estremoz, Maio de 2026

Hernâni Matos

terça-feira, 7 de julho de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

 



A abrir o catálogo da minha exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ


PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

Os Bonecos de Estremoz são absolutamente transversais em termos da política cultural do Município de Estremoz. Com eles dinamizamos a cidade, os museus e inclusivamente, a hotelaria e o comércio.

Para valorizar os barristas e a sua produção, convidamos anualmente vários deles a trabalharem connosco nas ações educativas. Estamos ainda unidos à Confraria do Boneco de Estremoz para levar o figurado às principais feiras nacionais. Concretizámos recentemente uma rota cultural sob esta temática e com muito gosto, procuramos unir esforços com colecionadores de referência, para com estes darmos a conhecer peças únicas deste património cultural imaterial.

Ora foi exactamente com este propósito, que surgiu o trabalho com Hernâni Matos, o maior e mais representativo colecionador de Figurado de Estremoz. Este tem um labor incomparável no domínio do colecionismo, ao qual une a investigação e um conhecimento privilegiado dos artesãos do séc. XX e XXI. A exposição que nos apresenta, demonstra isto mesmo. Temos assim a honra de conhecer e dar a conhecer, uma pequena parte da maravilhosa coleção deste estremocense, se bem que apenas sob a temática da música. Juntamos a esta, a memória das dezenas de mostras que Hernâni Matos já realizou nos espaços da autarquia e assim apercebemo-nos da maravilha deste trabalho, paciente e apaixonado.

Caro Hernâni Matos, teremos sempre espaço para mostrar os seus e nossos, Bonecos de Estremoz. Bem-haja pela partilha e deixo aqui um reconhecimento público pela sua ação na valorização deste património, que deixou de ser apenas de Estremoz e hoje é da Humanidade.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz