sábado, 17 de outubro de 2020

J.R.: De Dallas para Estremoz


Peralta (2020). José Carlos Rodrigues (1970-  ).

Quem é quem
José Carlos Rodrigues (1970-  ) é um barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.
Não se tratou do seu primeiro contacto com o barro, visto que há mais de 20 anos pintou Bonecos para a barrista Fátima Estróia, da qual se considera discípulo. Aprendeu a vê-la modelar e em finais de Novembro de 2019, começou a modelar sob a sua orientação e nunca mais parou.

Uma encomenda
Há algum tempo atrás contactei o barrista, para lhe encomendar a figura de um Peralta para a minha colecção. Como “Tudo leva o seu tempo”, quando eu não estava à espera, recebi um telefonema dele a comunicar-me que já tinha aquela figura pronta para me entregar. Encontrámo-nos no Café e quando o Peralta ficou à vista, disse-lhe que gostava muito, que era diferente de tudo o que tinha e que iria escrever sobre ele. Agradeci-lhe, é claro, por ter correspondido à minha solicitação.
Já em casa, a minha primeira reacção escrita foi esta estrofe de quatro versos pentasilábicos de rima alternada:

“Grande chapelão
Comenta a malta,
Deste matulão
Que é Peralta.”

Depois, foi debruçar-me mais profundamente sobre o Boneco, para dele poder escrever com mais propriedade.

Descrição
Estamos em presença de uma figura antropomórfica masculina, trajando um fato e um chapéu ostentosos, contrastantes com um par de sapatos bastante discretos.
A imagem assenta numa base quadrangular com os vértices cortados em bisel, tem topo verde-seco e orla de cor Bordeaux.
No decurso da modelação, o barrista optou por conferir volumetria a alguns componentes da composição. Daí que a gola do casaco, os botões do mesmo, o lenço em torno do pescoço, o lenço que sai do bolso superior do casaco, a camisa e a fita do chapéu tivessem sido modelados em barro.
O casaco é tipo paletó, sem virados e bolsos frontais: os inferiores de chapa e o superior embutido. Atrás o casaco apresenta ao centro e na parte inferior, uma abertura com orla.
O chapéu tem copa de formato cilíndrico e aba circular virada lateralmente para cima, configurando um chapéu à cowboy (cowhat) usado pelos vaqueiros nos EUA.
A camisa tem colarinho algo levantado e punhos que saem das mangas do casaco. Junto ao pescoço um lenço cujas pontas se cruzam junto ao peito.
O fato, os botões do casaco e a orla do chapéu são de cor Bordeaux. A orla do casaco, assim como o chapéu, são cor verde-seco. A camisa é branca. Os lenços são laranja. Os sapatos são pretos. O cabelo é castanho.

Ónus simbólico
A figura é farta em mensagens que convém descobrir e destacar.
Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Bordeaux, cor quente  que confere um ar de requinte e  transmite a ideia de riqueza; - Verde-seco, uma variedade de verde, cor fria que, entre outras coisas está associada à vitalidade e à riqueza; - Laranja, cor quente que evoca as ideias de prazer, entusiasmo e dinamismo. O Bordeaux, um tipo de vermelho, predomina claramente no vestuário em relação ao verde seco. Por outras palavras, o barrista potencia fortemente o vermelho e deixa o verde, quase sem expressão. Será que tal desproporção é o reflexo do sentir da sua alma benfiquista e uma forte necessidade de afirmação em relação a tudo que é leonino?
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DO CHAPÉU, que para além da sua função protectora, é um elemento de moda carregado de valores estéticos e diferenciadores, que expressam a identidade do seu portador. O chapéu é mesmo um símbolo de distinção social. O adagiário português satiriza esse simbolismo, sentenciando: “Chapéu largo, camisa dura, de urso faz figura”.

Epílogo
O barrista interpretou a figura do Peralta com uma estética muito pessoal, recorrendo a uma modelação de grande perfeição formal, que rematou com uma decoração de elevada carga simbólica.
A figura tem um rosto bem projectado, com olhos, nariz, boca, queixo e orelhas bem definidas, o mesmo se passando com o cabelo, a que há que acrescentar maçãs do rosto de ténue tonalidade rosa e uma representação do olhar característica da escola em que o barrista se insere (Sabina Santos através de Fátima Estróia): as sobrancelhas e as pestanas são paralelas, algo afastadas das meninas dos olhos. Todos estes aspectos parecem ser marcas identitárias do barrista.
O barrista criou uma figura de Peralta, vestida de uma forma elegante e extravagante, como de resto é apanágio de todos Peraltas, com a particularidade de usar um chapéu texano. O simbolismo intrínseco da figura leva-me a encarar esta como representando um elegante, rico e dinâmico texano e penso de imediato no personagem J.R. Ewing da telenovela Dallas (1978-1991). Esta retrata a vida de uma rica família do Texas, os Ewings, donos da companhia petrolífera Ewing Oil e do rancho de gado Southfork. J.R. era um implacável magnata do petróleo, ambicioso, egocêntrico, manipulador e amoral, permanentemente envolvido em esquemas e negócios escuros, visando saquear a riqueza dos seus adversários.
Felicito vivamente José Carlos Rodrigues pelo Peralta criado. Decerto que ele me desculpará se pelo seu espírito nunca se passou o filme aqui projectado. Ele brotou espontaneamente no meu pensamento, pelo que não havia nada a fazer, senão projectá-lo aqui. Como nos diz Carlos Oliveira pela voz de Manuel Freire: 

“Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre”
 
José Carlos Rodrigues pintando o Peralta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Vera Magalhães no Reino de Liliput

 
 
Ganchos de meia: Senhora de pézinhos (2,5 cm) e Peralta (2 cm).
Vera Magalhães (1966-  ).

Minorcas
Uma das questões e porventura das mais simples que se põem ao investigador de barrística de Estremoz é o conhecimento das dimensões dos exemplares estudados, o qual é variável e depende de múltiplos factores. Efectuado o levantamento dessas dimensões nos diversos tipos de Bonecos, põe-se seguidamente a questão de as balizar, o que corresponde a identificar o maior e o menor Boneco conhecidos.
No que respeita ao maior, temos que nos reportar a um Presépio de grandes dimensões, manufacturado por Sabina Santos e que esteve patente ao público, na quadra natalícia, à entrada da Igreja dos Congregados nos anos 60-70 do séc. XX. Este presépio integra o acervo do Museu Municipal de Estremoz e por ordem decrescente de altura, as dimensões das figuras em cm são as seguintes: S. José (58,5), Nossa Senhora (52,2) Reis Magos a cavalo (47), Reis Magos de pé (40), Pastor ofertante de pé (38,5), Berço do Menino Jesus (28), Pastor ajoelhado (24,5), Pastor ofertante ajoelhado (23), Vaca (17), Burro (16,5). Face a estes números somos levados a conclui que o maior Boneco de Estremoz até hoje conhecido é a figura de S. José (58,5 cm), pertencente ao referido Presépio.
No que concerne ao menor, há que começar por dizer que os Bonecos de Estremoz mais pequenos conhecidos até hoje, são os ganchos de meia, correntemente modelados com tamanhos que variam entre os 4 e os 5 cm. Isto era assim até há bem pouco tempo. Todavia, recentemente, Vera Magalhães modelou dois ganchos de meia com dimensões extraordinariamente pequenas: Uma Senhora de pezinhos com 2,5 cm e um peralta com 2 cm. Trata-se de ganchos de meia de uma outra dimensão: a dimensão de Liliput.

Liliputianos porquê?
Lilliput é uma ilha imaginária supostamente situada no Oceano Índico onde terá dado à costa e recuperado os sentidos, Lemuel Gulliver, cirurgião de um navio naufragado, personagem principal do romance “As viagens de Gulliver” de Jonathan Swift (1667-1745).
Gulliver fica surpreendido com a estatura da população local, a qual não ultrapassa os 15 cm. Por sua vez, os liliputianos, consideram-no um gigante.
Tomando como referência a altura média do homem português que é de 1,75 m, os liliputianos eram cerca de 6 vezes mais pequenos que Gulliver.
O termo "liliputiano" foi assimilado pelos dicionaristas a nível planetário e integra o léxico português actual como adjectivo aplicável a algo “Que tem dimensões muito reduzidas”.

Caganifâncias graciosas
Sem sombra de dúvida que os ganchos de meia de Vera Magalhães são verdadeiramente liliputianos, fruto da excelente coordenação motora fina da barrista, que lhe permite modelar com precisão e delicadeza.
Lá diz o adágio “Tudo o que é pequeno tem graça” e “Em terra pequena tudo se sabe”. Daí eu me ter assumido como arauto da excelência destas caganifâncias, parcas em minudências, mas graciosas, tanto na modelação como na cromática.
A partir de agora os ganchos de meia de Vera Magalhães, adquiriram o estatuto de vedetas e entraram por direito próprio no Livro de Registos da Memória Colectiva. O mérito, esse é da barrista.
Parabéns, Vera Magalhães!
 

Agradecimento - Quero agradecer a Isabel Água dos Serviços Educativos do Museu Municipal de Estremoz, ter-me facultado os dados dimensionais, relativos ao Presépio referido no texto. Bem haja!

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A Dama dos Girassóis de Vera Magalhães


Dama dos Girassóis. Vera Magalhães (1966-  ).

Em jeito de apresentação
Vera Magalhães (1966-   ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.

O seu a seu dono
A Dama das Camélias”, é um romance do escritor francês Alexandre Dumas Filho, publicado pela primeira vez em 1848. “A Dama dos Girassois” é um Boneco de Estremoz criado pela barrista Vera Magalhães em 2020.

A Dama de Vera Magalhães
A Dama traja um distinto vestido comprido, a demarcar os contornos de um corpo a que corresponde uma silhueta graciosa.
O vestido revela confecção em tecido estampado com padrão de girassóis em campo verde seco. É fechado em cima por uma gola branca e larga, fechada por um botão amarelo no centro e orlado de castanho, cor que também é a dos punhos do vestido e da banda ajustada à cintura e atada atrás, em jeito de laço com duas airosas pontas pendentes.
A cabeça encontra-se adornada por um elegante chapéu castanho, que pompeia à frente três plumas de cor verde seco matizada de castanho, os quais sublinham o garbo do chapéu. O cabelo é castanho puxado para trás e enrolado em forma de carrapito. De cada lado do rosto, aquilo que aparenta serem pendentes de ouro, reforçam a requinte e a distinção ligadas à figura.
Os sapatos negros, de bico, rematam na base, a distinção do modelo.

O simbolismo das cores
- Verde, cor fria que é a cor da natureza viva, sobretudo a cor da Primavera que é a estação da fertilidade. Está associada à frescura, ao crescimento, à juventude, à renovação, à plenitude, à alegria, à esperança, à liberdade, à saúde, à vitalidade, à estabilidade, à tranquilidade, ao equilíbrio, à harmonia, à ponderação, à coerência e à riqueza. É uma cor litúrgica usada nos Ofícios e Missas do Tempo Comum, pois ao simbolizar a cor das plantas e árvores, prenuncia a esperança da vida eterna.
- Amarelo, cor quente que está associada ao Sol, à luz, à claridade, ao brilho, ao calor, ao Verão, à temperatura morna. É uma cor que desperta, transmite energia, traz leveza, descontracção, vitalidade, optimismo, felicidade, alegria, juventude, recreação e prosperidade. É uma cor inspiradora e que desperta a criatividade, estimulando as actividades mentais e o raciocínio.
- Castanho, que por ser uma cor neutra sugere estabilidade, calma, conforto, maturidade e responsabilidade. Além disso é a cor da terra e da madeira e por isso está associada à natureza, aos produtos naturais, ao estilo de vida saudável, à simplicidade, à conservação, à qualidade e à seriedade. Finalmente e por ser a cor da terra, está associada à fertilidade e à feminilidade.
Branco, que é uma cor neutra e pura associada à infância, à pureza, à inocência, ao bem, à espiritualidade, à harmonia, à simplicidade, à tranquilidade, à calma, à paz, à juventude, à virtude, à virgindade, à limpeza, à frescura, à luminosidade, à dignidade, à elegância. É uma cor que harmoniza com todas as outras.

O girassol e o seu simbolismo
O girassol é uma planta imponente e de porte majestoso, cujas flores arredondadas e radiadas constam de um disco floral castanho e de pétalas amarelo-douradas, que aparentam ser o Sol. Daí que em inglês seja designada por “sunflower”. Entre nós é designada por “girassol”, já que goza duma propriedade conhecida por “heliotropismo” e que consiste no movimento da planta em relação ao Sol. Ao amanhecer os girassóis têm as flores viradas para oriente. Ao longo do dia, seguem o Sol no seu movimento aparente de oriente para ocidente e à noite estão voltados para oriente.
O girassol não é uma flor anónima, já que marca presença na Poesia Portuguesa. Do girassol nos fala Fernando Pessoa (1888-1935), no poema “PASSA UMA NUVEM PELO SOL": “Passa uma nuvem pelo sol / Passa uma pena por quem vê. / A alma é como um girassol: / Vira-se ao que não está ao pé. // Passou a nuvem; o sol volta. / A alegria girassolou. / Pendão latente de revolta, / Que hora maligna te enrolou?”. Do girassol nos fala também Maria Alberta Menéres (1930-  ), no poema “O GIRASSOL”; “Girassol, Girassol, / Põe as pestanas ao sol! // O Girassol parece um olho aberto / Amarelo a olhar para tudo. // Passa uma perdiz e diz: / – Girassol, Girassol, / Põe as pestanas ao sol! // Passa uma abelha e diz: / – Girassol, Girassol,/ Põe as pestanas ao sol! //Passa a tarde e anoitece… / Girassol, Girassol, / Fecha as pestanas ao sol! // E o Girassol adormece…”
O girassol é um símbolo de felicidade, já que a sua cor amarela transmite energia, juventude e vitalidade, à semelhança do Sol. O girassol é também um símbolo de instabilidade, em virtude  da sua mobilidade em relação ao Sol. Por outro lado, de acordo com a mitologia grega simboliza a adoração a Hélio, o Deus grego do Sol, visto que o seu disco floral se assemelha a uma cabeça que virada sempre para o Sol, parece prestar-lhe culto. Finalmente, como o Sol é uma das formas de representar Cristo, que para os cristãos trouxe a esperança da salvação, o girassol partilha também do seu significado e é um símbolo pascal.

Epílogo
Vera Magalhães modelou a sua Dama com grande rigor formal e com uma estética muito própria, que incluiu uma decoração cromaticamente harmoniosa e de elevado valor simbólico. O rosto e o olhar da figura parecem constituir marcas identitárias da barrista.
No seu todo, a Dama de Vera Magalhães é uma figura na qual está patente a simplicidade e a espiritualidade, aliadas à distinção e à alegria, da qual irradia imensa frescura e luminosidade. Creio que por isso tudo, a barrista é merecedora que lhe demos todos os nossos parabéns:
- Parabéns Vera!

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O Peralta sou eu


Peralta. Joana Oliveira (1978-   ).

Uma pedrada no charco
Colecciono Bonecos de Estremoz há mais de quatro décadas e como é sabido sou um coleccionador da velha escola. Significa isso que tenho vindo a reunir exemplares desde o séc. XVIII até aos dias de hoje, de todos os barristas conhecidos e desconhecidos, o que me permite conhecer as marcas identitárias e os estilos de cada um, bem como aqueles que no modo de produção ao modo de Estremoz, foram mais conservadores e os que foram mais inovadores. Estou pois à vontade para falar do assunto e nele “navego como peixe na água”.
Foi em 2020 que tive o prazer de conhecer o trabalho da barrista Joana Oliveira e confesso-vos que foi “amor à primeira vista”. Concluí de imediato estar em presença de uma barrista de primeira linha, disposta a “dar pedradas no charco”, pelo que me tornei de imediato seu admirador e necessariamente cliente, já que sou coleccionador. A amizade e a defesa acérrima do seu trabalho, surgiram depois e continuam para o que der e vier.

Uma encomenda
Em devido tempo e pela segunda vez, contactei a barrista de quem queria possuir figuras que já tinha doutros criadores. “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, pelo que só em finais de Setembro, a encomenda me seria entregue por fiel portador.   
A encomenda vinha acompanhada de uma carta, da qual cito um excerto:
“Caro Hernâni:
Espero que estas peças o encantem bem, e cheguem até si inteiras e ao seu gosto.
Como tenho mau feitio e, tem que ser admitido, dificuldade em fazer o que me pedem, quando me pediu o Peralta e eu o comecei a modelar, digamos que o barro falou comigo e as minhas mãos comandaram. Quando fui a ver, o dito Peralta já tinha bigode e era um rapaz todo janota que enfim poderia ser o Hernâni, caso se fizesse uma versão “Peralta” do amigo Hernâni”. (…).

Aviso de recepção
Conferida a encomenda e lida a carta, expedi de imediato, via correio electrónico, o seguinte aviso de recepção:
“Joana:
A encomenda chegou nas melhores condições. E aconteceu um facto inesperado que nunca me passaria pela cabeça. A lotação era superior ao previsto e vinha um passageiro a mais. Brevemente, vou ter que falar dele, assim como das senhoras que o acompanhavam. Mas, para já, aqui fica a primeira impressão, em jeito de quadra popular:

“É um peralta.
Está a matar.
Nada lhe falta
para destoar.”

E assim terminei o aviso de recepção.
A estrofe de quatro versos pentasilábicos de rima alternada, com que encerrei a missiva, foi a primeira de um conjunto mais vasto que integra um poema dedicado a todos os Peraltas que tenho. Oportunamente será feita a apresentação pública dos mesmos, envergando vaidosos as estrofes que lhes compus.

Peralta à vista
Trata-se de um Peralta elegantemente vestido com traje de cerimónia.
Do conjunto sobressai um casaco preto, tipo paletó com lapelas em cetim da mesma cor (smoking), bem como um par de calças às listras pretas e cor de cinza, com bainhas.
Sob o casaco uma camisa branca, decerto com a frente trabalhada e cujo colarinho ostenta um vistoso laço (papilon) de seda preta. A camisa está supostamente cingida à cintura por uma faixa de seda preta que não é visualizável.
Nos pés, os clássicos sapatos pretos, de verniz, encimados por polainas brancas de veludo, que protegem a parte inferior das pernas.
O cabelo e bigode são de cor cinza, reveladora da patina do tempo. Os olhos grandes e profundos dão conta do muito que já viu e do muito que ainda anseia ver. Por isso tem os olhos bem abertos.
O chapéu às três pancadas dá-lhe um ar de “bon vivant”, que ainda está pronto para as curvas.
A postura das mãos indicia que se está a preparar para iniciar uma pirueta. A figura lembra-me de imediato o actor, cantor e bailarino Fred Astaire na canção “Andando Com Estilo” (Puttin´on The Ritz -1930).
 
E se fosse verdade?
Bom, se fosse verdade, o meu bigode teria de ter um penteado diferente, como disse em 2011 em texto dirigido a uma amiga:
O meu bigode é um bigode com as pontas reviradas para baixo. Você já me imaginou com o bigode revirado para cima, com ar de monárquico órfão à espera que El-Rei D. Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro? (Que me perdoem os meus amigos monárquicos, que os tenho, por tecer considerações sobre os seus reais bigodes). Mas eu, que sou realmente republicano, só posso usar um bigode com as pontas reviradas para baixo.”
Para além disso nada de apontamentos a sugerir que estou pronto para as curvas, já que as únicas que me são permitidas são as curvas da caligrafia.
Finalmente nada de insinuações que danço sapateado à maneira do Fred Astair. Creio ser mais credível sugerir que pertenço à tribo dos pés de chumbo.

Agradecimentos
Quero agradecer à barrista o ar simpático que conferiu ao meu rosto, que na prática é uma carantonha capaz de assustar um feroz touro Miura.
Quero agradecer-lhe também a linda roupa com que presenteou o meu representante e que me daria muito jeito, para me vestir à Peralta de vez em quando.
Quero agradecer-lhe finalmente toda a frescura e simpatia irradiantes que soube imprimir à representação de uma pessoa idosa, fruto da sua visão transformadora do mundo e da vida, em sintonia com a sua alma de criadora, transmitida ao barro pela dupla magia das sua mãos e da paleta de cores usadas.
Obrigado Joana por mais esta “pedrada no charco” e por partilhar connosco tesouros como este, que ficam a honrar a barrística de Estremoz.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Atributos, pormenores e estilo


Mulher a passar a ferro. Jorge da Conceição (1963-  ). Colecção do autor.


Prólogo
A barrística de Estremoz é diversificada, pelo que legitimamente se põe a questão de saber quais as características que os exemplares produzidos ao modo de Estremoz, não podem deixar de ter. Vou procurar dar uma resposta a essa questão num caso concreto.

Atributos
Na barrística de Estremoz, cada um dos chamados “Bonecos da Tradição”, goza de determinados atributos. Estes não são mais que as particularidades invariantes que obrigatoriamente um barrista deve ter em conta na confecção de cada uma dessas figuras. Essas particularidades estão associadas a cada uma dessas figuras e ajudam a identificá-las.
No caso da figura conhecida por “Mulher a passar a ferro” (Figs. 1 a 13) esses atributos são quatro: mesa, peça de roupa, ferro de engomar e mão direita da mulher a segurar o ferro;

Pormenores
Para além das particularidades invariantes atrás referidas, existem outras particularidades variáveis (pormenores) cuja inclusão na manufactura de uma figura, depende do livro arbítrio do barrista. No caso da figura conhecida por “Mulher a passar a ferro”, esses pormenores são os seguintes:
- MESA: pode variar o tipo de mesa, bem como a sua cor e a cor do tampo;
- FERRO DE ENGOMAR: pode ser de diferentes tipos;
- PEÇA DE ROUPA A SER ENGOMADA: de tipo e cor variável;
- PEÇAS DE ROUPA EXSTENTES EM CIMA DA MESA: Em número, tipo e cor variável;
- COBERTURA DO TAMPO DE MESA: pode existir ou não;
- MÃO ESQUERDA DA MULHER: pode estar assente sobre a mesa, segurando ou não a peça de roupa, mas pode estar também apoiada no corpo, em posição variável; 
- VESTIDO DA MULHER: de tipo, cor e componentes variáveis;
- OUTRO VESTUÁRIO DA MULHER: pode trajar avental ou ter um xaile nas costas;
- CABELO DA MULHER: o penteado é variável;
- CABEÇA DA MULHER: a cabeça pode estar a descoberto ou ser protegida por um lenço ou ainda estar ornamentada com uma canoa;
- GEOMETRIA DA BASE: rectangular ou trapezoidal, com as pontas vivas, adoçadas ou aparadas em bisel;
- TOPO DA BASE: verde-escuro simples ou pintalgado de zarcão, branco e amarelo. Em alternativa pode ter uma decoração que simula um chão, como por exemplo, de tijoleira;
- ORLA DA BASE: zarcão, castanho ou pintalgado com as cores da base.

Estilo
O estilo é o modo como cada barrista se exprime, revelando a sua individualidade através de marcas identitárias que lhe são próprias e que se repetem ao longo da sua produção.

Epílogo
A pluralidade de resultados distintos possíveis de obter na confecção de uma figura, mesmo dos chamados “Bonecos da tradição”, é reveladora da riqueza da barrística de Estremoz.


Oficinas de Estremoz do séc. XIX. Colecção do autor.

Ana das Peles (1859-1945). Colecção Jorge da Conceição.

Mariano da Conceição (1903-1959). Colecção Jorge da Conceição.

Sabina da Conceição (1921-2005). Colecção do autor.

Liberdade da Conceição (1913-1999). Colecção Jorge da Conceição.

José Moreira (1926-1991). Colecção do autor.


Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção Jorge da Conceição.

Jorge da Conceição (1963-  ). Colecção do autor.

Carlos Alves (1958-  ). Colecção do autor.

Ricardo Fonseca (1986-  ). Colecção do autor.

José Carlos Rodrigues (1970-   ). Colecção do autor.

Luís Parente (?  -   ). Colecção do autor.

Jorge Carrapiço (1968  -   ). Colecção do autor


#hernaimatos #bonecosdeestremoz #figurado de estremoz

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Os ganchinhos da Madalena


Peralta e Senhora de pezinhos.

Os Bonecos de Estremoz não são só figuras vistosas e alegóricas, como ”O Amor é cego” e a “Primavera”, nem só imagens devocionais como o “Santo António” e o “Milagre das Rosas”. São também isso, mas são muito mais.
São Bonecos de outras tipologias e funcionalidades, contextualizados em termos de passado e/ou de presente.
Alguns têm dimensões minúsculas como o caso dos “Ganchos de meia”, cujo tamanho ronda os 5 cm. Por isso fazem arregalar a vista, que simultaneamente se encanta com a sua visualização. Mas também despertam ternura, já que como diz o Povo, “Tudo o que é pequeno tem graça”.
Hoje chegou a vez de vos mostrar os “Ganchinhos da Madalena”, que bem perto de nós, na Freguesia de Arcos, modela com amor os Bonecos que tanto amamos e que nos fazem sonhar. São parte de uma encomenda que lhe fiz e que aqui mostro com orgulho semelhante ao da Barrista que os modelou e decorou a partir duma massa informe de barro, com a mestria das suas mãos e a sensibilidade da sua alma, que cria Poesia que nos faz sentir bem.
Parabéns Madalena pela beleza e graça dos Bonequinhos que criou. E sabe o que lhe digo? Fico à espera do resto da encomenda.

Nota biográfica
Madalena Bilro (1959-  ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.
Anteriormente já tivera formação na Academia Sénior de Estremoz, orientada por Isabel Água, do Museu Municipal de Estremoz.
Neste momento já tem “Carta de Artesão” e aguarda a todo o momento a sua Certificação como Produtora de Bonecos de Estremoz.


Nossa Senhora e Freira de Malta.

Padre e Sacristão.

Sargento.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Figuras da realidade local e inovação


Velhote de capote. Isabel Pires.

Figuras da realidade local da tradição
Nos anos 40 do séc. XX existiam 14 figuras representativas da realidade local na barrística popular de Estremoz, as quais são habitualmente distribuídas por 3 grupos:
- FIGURAS CIVIS: Aguadeiro com burro, Leiteiro, Mulher das castanhas, Mulher a vender chouriços, Senhora de pezinhos, Peralta, Homem do harmónio, Cavaleiro e Amazona.
- FIGURAS MILITARES: Lanceiro, Lanceiro com bandeira, Sargento e Sargento no Jardim.
- FIGURAS RELIGIOSAS: Frade a cavalo.

Figuras da realidade local e inovação
Actualmente e na sequência de complexo levantamento por mim efectuado, sujeito ao risco de omissões involuntárias, foram identificadas mais 64 figuras representativas da realidade local, produzidas desde então, as quais distribui por 3 grandes áreas:
- PROFISSÕES E ACTIVIDADES: Aguadeiro com carroça, Almocreve, Amola-tesouras, Barrista a modelar Bonecos de Estremoz, Barrista a pintar Bonecos de Estremoz, Brinholeira, Caçador, Caiadoras, Carteiro, Carteiro motorizado, Cauteleiro, Cavaleiro tauromáquico a cavalo, Cavaleiro tauromáquico a pé, Cigana, Cirurgião, Educadora de infância, Engraxador, Ervanário, Farmacêutico(a), Florista de lambreta, Forcado, Fotógrafo “à la minuta”, Frade orando, Geólogo, Homem dos foguetes, Hortelão a vender no mercado, Lavadeira, Louceiro, Maestro de orquestra, Médico, Militar do RC3, Mulher a vender queijos, Oleiro, Peixeiro, Polícia do exército, Polícia sinaleiro, Professor (a), Químico(a), Sapateiro, Taberneiro, Talhante, Tapeteira de Arraiolos, Tecelã, Tocadora de concertina, Turista, Vendedora de criação no mercado,
- CONTEXTOS: Bêbado, Casal de velhotes, Confissão, Homens a petiscar, Pega de caras, Professor no mercado das velharias, Velhote de capote.
- JOGOS E BRINCADEIRAS: A brincar se constrói a personalidade, Cavalinho de pau, Corrida de rodas, Jogador de bilhar, Jogo do botão, Jogo do pião.

Grandes inovadores
Todos os barristas têm contribuído em maior ou menor grau para a inovação. Todavia, no âmbito das figuras da realidade local, os maiores inovadores foram indiscutivelmente as Irmãs Flores e Ricardo Fonseca, respectivamente com 31 e 11 figuras, num total de 64.

Balanço Final
Analogamente ao que já se tinha verificado em domínios como “Figuras Devocionais”, “Presépios” e “Figuras dos ciclos agro-pastoris”, também no âmbito das “Figuras da realidade local”, ressalta a importância assumida pela “Inovação” como factor de enriquecimento e valorização.

Engraixador. Carlos Alves.

Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves, em Estremoz.


Hortelão a vender no Mercado. Irmãs Flores.

Vendedora de criação no mercado. Irmãs Flores.

Vendedora de queijos. Irmãs Flores.

Brinholeira. Irmãs Flores.

Padeiro. Irmãs Flores.

Talhante. Irmãs Flores.

Taberneiro. Irmãs Flores.

Homens a petiscar. Irmãs Flores.

Tecelã. Irmãs Flores.

Carteiro. Irmãs Flores.

 
Polícia sinaleiro. Irmãs Flores.

Professor. Irmãs Flores.

O Professor no Mercado das Velharias. Irmãs Flores e Ricardo Fonseca.

Homem dos foguetes. Irmãs Flores.

Pega de caras. Irmãs Flores.

Confissão. Irmãs Flores.

Jogador de bilhar. Irmãs Flores e Ricardo Fonseca.

Velhote de capote. Isabel Pires.

Casal de velhotes. Isabel Pires.

Barrista a modelar Bonecos de Estremoz. Jorge da Conceição.

Barrista a pintar Bonecos de Estremoz. Jorge da Conceição.

Médico. Jorge da Conceição.

Florista de lambreta. José Carlos Rodrigues.

Carteiro motorizado. José Carlos Rodrigues.

Frade orando. José Moreira.

Barrista a modelar Bonecos de Estremoz. Maria Luísa da Conceição.

Tapeteira de Arraiolos. Maria Luísa da Conceição.

Professora. Maria Luísa da Conceição.

Sapateiro. Maria Luísa da Conceição.

Fotógrafo "à la minuta". Maria Luísa da Conceição.

Caçador. Maria Luísa da Conceição.

Aguadeiro. Ricardo Fonseca. 

Amola tesouras. Ricardo Fonseca.

Cauteleiro. Ricardo Fonseca.

Educadora de infância. Ricardo Fonseca.

Geólogo. Ricardo Fonseca.

Educadora de infância. Ricardo Fonseca.

Cavaleiro tauromáquico a pé. Ricardo Fonseca.

Cavaleiro tauromáquico a cavalo. Ricardo Fonseca.

Forcado. Ricardo Fonseca.

Maestro de orquestra. Ricardo Fonseca.

Militar do RC3. Ricardo Fonseca.

Turista. Ricardo Fonseca.

Sabina Santos. Polícia do Exército.