segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Dia de Finados


Dia dos mortos (1859). William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).
Óleo sobre tela. Musée des Beaux-Arts de Bordeaux.

Dia de Finados
A 2 de Novembro assinala-se o Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos. Este dia é celebrado entre nós com tristeza, pois recordam-se as pessoas de família e os amigos que já morreram. De acordo com a tradição católica, as pessoas acorrem aos cemitérios para prestar homenagem aos mortos. Para tal, deixam ramos de flores nas campas e acendem velas para iluminar os falecidos no caminho para o Paraíso, ao encontro da comunhão com Deus e oram e mandam rezar missas em sua memória. Para os católicos, o culto dos mortos é, em certo sentido, a festa da vida, já que acreditam na imortalidade da alma.
A veneração e o culto dos mortos integram as práticas de todas as religiões desde tempos imemoriais, tendo inicialmente estado ligado aos cultos agrários e de fertilidade. Os mais antigos acreditavam que, tal como as sementes, os mortos eram enterrados com vista à ressurreição. Em particular, desde os primórdios do cristianismo que a oração pelos mortos é uma prática corrente entre os cristãos, crentes no Purgatório e na eficiência das preces em benefício do descanso e da purificação da alma dos defuntos, familiares ou não, sobretudo aqueles que não tenham deixado na terra quem o pudesse fazer.
A igreja Bizantina consagrou uma data destinada a estas orações, fixando-a no sábado que antecedia o último domingo antes da Páscoa, enquanto na Igreja Siríaca a celebração decorria na sexta-feira dessa mesma semana. No Ocidente a prática manifestava-se no século VII, celebrada no interior dos mosteiros, ainda que em data variável.
A veneração e culto dos mortos compreende celebrações colectivas ou individuais, tais como exéquias ou ofícios fúnebres religiosos (missas de corpo presente, do 7.° e do 30.° dia, etc.). Todavia, a primeira referencia a comemorações por intenção dos defuntos, efectuadas anualmente e em data fixa, associadas à Festa de Todos os Santos é atribuída a Santo Isidoro de Sevilha (c. 560-636) no século VII, ainda que se deva ao abade de Cluny, Santo Odilon (c. 962-c.1048), a introdução do ritual litúrgico no seu mosteiro entre 1025 e 1030, daqui irradiando a todos os mosteiros da ordem e depois à Igreja no seu todo.
O Ofício de Defuntos é difundido pelos mosteiros a partir do século XIII, embora desde os tempos apostólicos possam encontrar-se textos alusivos à oração pelas almas.
Na Igreja Católica, na celebração litúrgica do Dia de Finados, recita-se o “Oficio de defuntos” e as missas são de “Requiem”, ainda que o dia 2 de Novembro calhe a um domingo.
Em 1915, por concessão de Bento XV (1854-1922), através da bula “Incruentum Altaris” foi autorizado a todos os sacerdotes da Igreja Católica celebrarem três missas no dia dos Fiéis Defuntos. Este privilégio já havia sido concedido a Portugal, Espanha e América Latina pelo papa Benedito XIV (1675-1758) em 1748, devido à influência desse costume na Igreja de Aragão, enquanto Leão XIII (1810-1903) estende a concessão a toda a igreja, pedindo que no último domingo de Setembro todos os sacerdotes celebrem urna missa para os defuntos, extensiva aos sacerdotes falecidos.
A nível da pintura europeia, a Missa e Ofício de Defuntos ilustram códices medievais e renascentistas, onde é se observa o uso dos paramentos negros pelos clérigos e vestimentas de luto negras por parte dos fiéis. A nível de pintura do séc. XIX conhecida, observa-se igualmente o uso de vestuário negro por parte daqueles que ocorrem aos cemitério no Dia de Finados.

Pão por Deus 
Para além das cerimónias fúnebres religiosas relacionadas com o culto dos mortos, as comemorações do Dia de Finados abarcam igualmente expressivas celebrações alimentares características desta ocasião, representadas principalmente pelos bolos especiais, pão e frutos secos, sobretudo a castanha.
As refeições cerimoniais próprias deste dia, sob a forma de manjares, refeições ou dádivas aos defuntos ou aos mesmos consagradas através dos seus familiares vivos, são reminiscências de práticas rituais ancestrais, identificadas com o culto dos mortos. 
Em Portugal, ainda são respeitadas outras crenças muito antigas, como não caçar nem pescar no Dia de Finados. 

BIBLIOGRAFIA
BARROS, Jorge; COSTA, Soledade Martinho. FESTAS E TRADIÇÕES PORTUGUESAS / Novembro e Dezembro. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.

Publicado inicialmente a 3 de Novembro de 2013

Ofício dos defuntos.
Livro de Horas, 82. 14--.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa.

 
Ofício dos mortos (c. 1401-1433).
Livro de Horas de D. Duarte (segundo o uso de Roma), 323v.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa.

 
Missa de exéquias. (1410). 
Anónimo.
Rationale Divinorum Officiorum de Guillaume Durand (1230-1296).
Edição francesa de 1410. 

 
Missa de exéquias (c. 1440).
Jan van Eyck (c. 1395-1441).
Livro de Horas de Turim-Milão.

 
Vigília junto a um defunto (c.1515).
Gerard Horenbout  (c. 1465–1541). 
Livro de Horas de Spínola.
J. Paul Getty Museum, Malibu.

 
Ofício dos mortos [Século XVI (1517-1551)] 
Atribuído a António de Holanda (1480-1557).
Livro de Horas de D. Manuel I, 129 v. 
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

 
Ofício dos Mortos (1530-1534).
Simon Bening (c. 1483/1484–1561).
Livro de Horas D. Fernando (1530-1534).
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Dia dos Finados (s/d). Aurélia de Sousa (1866-1922).
Óleo sobre tela ( 32×40 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

domingo, 1 de novembro de 2026

Dia de Todos-os-Santos


Regresso do "Pão por Deus" (1-11-1930).
Fotografia de autor desconhecido, recolhida "on line".


DIA DE TODOS-OS-SANTOS
O dia de Todos-os-Santos é celebrado pela Igreja Católica como uma festa em honra de todos os santos e mártires, conhecidos e desconhecidos.
No Alentejo, no dia de Todos-os-Santos, era ainda tradição nos anos sessenta-setenta do século passado, as crianças juntarem-se em pequenos grupos e andarem pelas ruas, de porta em porta, para “Pedir os Santinhos”. Naturalmente que só batiam às portas das casas mais abastadas ou julgadas como tal. Quando eram bem sucedidos e eram-no em geral, recebiam pão, bolos, maçãs, romãs, castanhas, nozes, amêndoas, etc. Eram oferendas que guardavam religiosamente nos seus talegos, nos quais as transportavam para as suas casas, onde ajudavam a mãe e o pai a fazer frente às duras condições de vida da esmagadora maioria dos intervenientes. Alguns desempregados, outros com empregos de miséria e outros ainda sujeitos à sazonalidade dos ciclos agrícolas de produção. Quanto aos ofertantes alguns eram-no por espírito de caridade cristã. Todavia, alguns imbuídos de espírito mais laico, faziam-no por espírito de solidariedade.
Uma tal tradição remonta a Lisboa no ano de 1756, um ano após o devastador terramoto que destruiu Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 e em que morreram milhares de pessoas, pelo que a população na sua maioria pobre, mais pobre ficou ainda.
A coincidência da data do terramoto com a data de 1 de Novembro, com significado religioso, conduziu a que sectores da população, aproveitando a solenidade do dia, tenham desencadeado, por toda a cidade, um peditório, visando atenuar a situação miserável em que se encontravam. Para tal, percorriam a cidade, batiam às portas e pediam esmola, mesmo que fosse pão, visto reinar a fome pela cidade. Pediam então: "Pão por Deus". Tal tradição perpetuou-se no tempo e propagou-se a todo o país, assumindo cambiantes em cada local. Todavia, a tradição está praticamente extinta desde os anos oitenta do século passado. Actualmente, os média, pressionados e distorcidos pelo peso globalizante da cultura anglo saxónica, ignoram completamente tradições como “Pedir os santinhos” e enfiam-nos pela casa dentro e pelas cachimónia abaixo, tradições como o “Halloween”, que nada têm a ver com a nossa identidade cultural.

A TRADIÇÃO ORAL
O dia de Todos-os-Santos está registado no adagiário português, onde são conhecidas máximas como as seguintes:

- “De Todos os Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.” [4]
- “Pelos Santos, novos esquecem velho.” [4]
- “Por Todos os Santos semeia trigo, colhe cardos.” [1]
- “Por Todos os Santos, a neve nos campos.” [1]

A nível de cancioneiro popular, o dia de Todos-os-Santos é uma data grata para alguns:

“Dia de Todos os Santos
É que eu comecei a mar:
Quem com Santos principia
Com Santos deve acabar.” [3]

O Peditório do “Pão por Deus” está igualmente assinalado no cancioneiro popular:

“Bolinhos, Bolinhós,
Para mim e para vós,
Pelos vossos finados
Que estão enterrados
Ao pé da vera cruz
Para sempre. Amem, Jesus.
Truz; truz; truz.” (Coimbra) [2]

LONGE VÁ O AGOIRO
Faço votos para que nas condições duras que o país atravessa, não tenham muitos que recorrer ao Peditório do “Pão por Deus”, para conseguir fazer face às dificuldades diárias numa sociedade madrasta que alguns teimam em fazer retroceder no tempo.

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[2] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português. Volume III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1983.
[3] – THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progresso. Elvas, 1902.
[4] - ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1841.

ROSSIO E HOSPITAL REAL DE TODOS-OS-SANTOS
Painel de azulejos de oficina de Lisboa, da 1ª metade do século XVIII (114 cm x 348 cm) existente no Museu da Cidade, Lisboa. No primeiro plano, tipos populares comercializam bens de consumo. No lado esquerdo é representado o Chafariz de Neptuno, equiparado ao dedicado a Apolo, existente no Terreiro do Paço.
O Hospital Real de Todos-os-Santos tinha fachada virada para o Rossio. Mandado erigir por D. João II em 1492, a sua construção só terminou no reinado de D. Manuel I, nos primeiros anos do século seguinte. Edifício de vanguarda na época, acolheu os primeiros internamentos em 1502 e o número de enfermarias foi crescendo ao longo do tempo: 3 (1504), 16 (1520) e 25 (1715).
O Hospital Real de Todos-os-Santos foi desactivado na sequência do Terramoto de 1755, ocorrido a 1 de Novembro desse ano, o qual foi responsável pela destruição quase completa da cidade de Lisboa.

Publicado inicialmente a 2 de Novembro de 2011

Adagiário do Dia de Todos-os-Santos


OS PRECURSORES DE CRISTO COM SANTOS E MÁRTIRES (c.1423-24). Fra Angélico
(c. 1395 - 1455). Têmpera sobre madeira (31,9 x 63,5 cm). National Gallery, London.

A 1 de Novembro, a Igreja Católica celebra o Dia de Todos-os-Santos, como uma festa em honra de todos os Santos e Mártires, conhecidos e desconhecidos. Relativamente a esta efeméride, a literatura de tradição oral regista a presença dos seguintes adágios:
- De Santos a Santo André, um mês é; de Santo André ao Natal, três semanas.
- De Santos ao Natal, ou bom chover ou bem nevar.
- De Todos os Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- De Todos os Santos ao Natal, bom é chover e melhor nevar.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o capital.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o natural.
- De Todos os Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.
- Depois dos Santos, neve nos campos.
- Dos Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- Dos Santos ao Natal, bico de pardal.
- Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
- Dos Santos ao Natal é Inverno natural.
- Dos Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
- Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal.
- Dos Santos ao Natal, Inverno geral.
- Dos Santos ao Natal, perde o marinheiro o cabedal.
- O Verão de São Martinho, a vareja de São Simão e a cheia de Santos são três coisas que nunca faltaram nem faltarão.
- Pelos Santos, favas por todos os cantos.
- Pelos Santos, neve nos campos.
- Por Santos semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, neve nos campos; por dia de São Nicolau, neve no chão.
- Por Todos os Santos, semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, semeia trigo, colhe castanhas.

Publicado inicialmente a 1 de Novembro de 2022

sábado, 31 de outubro de 2026

ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos

 


ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos


- Exposição ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos
- ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
- ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!
-  ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás
- Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
-  O recolector - Francisca de Matos
- EXPOSIÇÃO "ARTES DO VAGAR" - Francisco Ramos
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

 

01 – Natália Simões (1924-2012).


Natural de Pavia e irmã das artesãs de papel recortado, Joana Simões e Joaquina Simões. Professora do ensino primário em Estremoz durante toda a sua carreira.

Após a aposentação dedicou-se aquilo a que chamava “pintura judaica” e que lhe foi sugerida pelo seu marido, o professor Aníbal Falcato Alves, intelectual polifacetado, que dedicou parte da sua vida à recolha de tradições da região Alentejo, entre elas as artes populares. Foi ele que recolheu um exemplar daquilo que é designado por “pintura judaica”, uma tipologia de arte popular alentejana cuja origem se perde na lonjura dos tempos. Depois de estudar o modo como o mesmo tinha sido executado, sugeriu a Natália o procedimento a seguir, visando recuperar e preservar a antiga tradição. Natália correspondeu ao desafio e recuperou a arte tradicional. Trata-se de uma pintura em vidro, na qual primitivamente, o vidro era pintado com betume judaico, sobre o qual era desenhado minuciosamente a lápis de carvão, o contorno do motivo decorativo. O interior desse contorno era seguidamente raspado, sobrepondo-se então papel de prata às zonas raspadas, as quais conferiam ao conjunto um aspecto de requintada peça de ourivesaria. Mais tarde, substituiu o uso do papel de prata pela pintura das zonas raspadas com tintas de outras cores. De resto, numa natural evolução, também a pintura com betume judaico viria a ser substituída pela pintura com spray.

A recolha etnográfica do marido fora o ponto de partida para a descoberta e para tudo o que se lhe seguiu, pois a Natália, criadora nata, revolucionou este tipo de trabalho artístico, catapultando-o à dimensão daquilo que sem ela não seria sequer imaginável.

Num texto de 1965, intitulado “VIDRO RENDILHADO”, o escritor neo-realista e médico Fernando Namora, referindo-se ao trabalho de Natália, disse com precisão cirúrgica: “Nestas mãos pacientes, que rendilham a superfície fosca e árida do vidro como se de bordados de oiro ou prata se tratasse, reaviva-se uma tradição artesanal e espelha-se o Alentejo onde o tempo modera o seu frenesi, contido pela charneca lânguida, espreguiçada, que dissolve a alucinação das vidas e empresta aos gestos um labor alentejano saboreado. O tempo, pois, não conta para estas mãos minuciosas, mãos alentejanas, que corrigem a placidez dos dias com uma arte de imaginação opulenta, recreada em filigranas e arabescos, a destoar, como um protesto da severidade do ambiente.”

Natália Simões participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizou exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)

02 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, com decoração fitomórfica e
 zoomórfica, polícroma com prata em fundo negro. Moldura elíptica. 71 x 46,5 cm.

03 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, que inclui Nossa Senhora da
Conceição, com cercadura de decoração fitomórfica e encimada pelo Sol. Decoração
polícroma com prata em fundo negro. Moldura quadrada. 44 x 44 cm.


04 - Pintura judaica. Composição constituída por monograma FH ao centro, inscrito
num campo de flores de forma circular, por sua vez inscrito num campo de flores de
forma quadrada. Em dourado sobre fundo azul escuro. Moldura quadrada. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Pintura judaica. Alegoria da Primavera. Composição constituída por
uma cercadura com decoração fitomórfica e geométrica, no centro da qual
um “putti” configura pôr uma coroa de flores na cabeça de outro. Em 
dourado sobre fundo azul. Moldura elíptica. 30 x 28 cm.

Publicado no jornal E nº 389, de 30 de Outubro de 2026

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Turismo em perspetiva / Os Bonecos de Estremoz

 

André Lopes


Artigo de André Lopes
transcrito com a devida vénia do
jornal E nº389,
de 30 de Outubro de 2026

O património cultural é uma parte essencial da identidade de qualquer território. Preservá-lo é importante, mas encontrar formas de o valorizar, divulgar e transmitir às gerações futuras é igualmente fundamental.

Nos últimos tempos, tenho dedicado particular atenção ao património cultural imaterial e às oportunidades que este pode representar para o desenvolvimento turístico dos territórios. É impossível pensar nesta temática sem olhar para Estremoz e para os seus Bonecos, uma arte secular reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2017.

Este reconhecimento é motivo de orgulho para Estremoz e evidencia a importância de continuar a preservar e divulgar uma tradição que faz parte da identidade do concelho. O trabalho desenvolvido em torno deste património é fundamental, mas a sua riqueza permite-nos também refletir sobre novas formas de o aproximar da comunidade e de quem nos visita.

Neste contexto, as Festas da Exaltação da Santa Cruz, em setembro, poderão constituir uma oportunidade para reforçar a presença dos Bonecos de Estremoz na programação cultural da cidade. A possibilidade de criar um espaço especialmente dedicado a esta arte, articulado com as iniciativas já existentes, permitiria dar maior visibilidade aos barristas, às suas peças e aos saberes que lhes dão vida.

Mais do que um espaço de exposição e venda, uma iniciativa desta natureza poderia incluir demonstrações de modelação, oficinas, conversas com os artesãos e atividades dirigidas aos mais novos. Seria uma forma de proporcionar aos visitantes um contacto mais próximo com esta tradição e de despertar o interesse das novas gerações.

A valorização do património cultural imaterial exige continuidade, criatividade e cooperação entre os diferentes agentes locais. Quando cultura e turismo se articulam, surgem oportunidades para enriquecer a experiência de quem visita o território, apoiar os artesãos e reforçar a identidade local.

Os Bonecos de Estremoz são muito mais do que peças de barro, representam conhecimentos, histórias e saberes transmitidos ao longo de gerações. Continuar a encontrar formas de os dar a conhecer é contribuir para que esta herança permaneça viva e continue a fazer parte do futuro da cidade.

Porque valorizar o património é também criar oportunidades para que aquilo que nos diferencia continue a ser conhecido, apreciado e transmitido às gerações futuras.

André Lopes


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Deus na boca do Povo


Fig. 1 – Matança do porco. José Moreira (1926-1991).

É arreigada a crença popular em Deus. Atesta-o a multiplicidade e a diversidade das manifestações de literatura de tradição oral: Adivinhas, Lengalengas, Mitologia Popular, Provérbios, Gíria Popular, Alcunhas Alentejanas e Cancioneiro Popular. Todavia, o Deus patente nas convicções populares não será provavelmente o mesmo Deus que é ensinado na Catequese ou pregado e venerado nas Igrejas. Será talvez um outro Deus que à escala humana tem dimensão divina, já que na concepção popular criou o Mundo e tudo o que nele nasce, cresce, se multiplica e morre. Para além disso, o convencimento de que é Ele que assegura o funcionamento ou não de tudo o que existiu, existe e poderá vir a existir. O Povo tem necessidade desse Deus para justificar tudo aquilo que não consegue explicar de outra forma. Trata-se de crenças que lhe brotam à flor do pensamento no decurso do trabalho (Fig. 1), às refeições (Fig. 2) ou no folguedo (Fig. 3). Vou passar algumas delas em revista.      
Adivinhas
Tenho conhecimento destas três: - "Alto está, / Alto mora; / Ninguém o vê, / Todos o adoram." (Deus). - Em que se parece Deus com o Sol? (Em ser só um e ninguém poder passar sem ele). - Qual é a coisa mais antiga? (Deus, porque existe antes do tempo).
Lengalengas
Apenas conheço a lengalenga dos dedos. Começa assim: “Dedo mindinho / Seu vizinho / Pai de todos / Fura bolos / E mata pulgas e piolhos.” E logo conclui: “Este diz: quero pão / Este diz: que não há / Este diz: que Deus o dará / Este diz: que furtará / Este diz: alto lá!”
Mitologia Popular
Existem algumas superstições populares ligadas ao conceito popular de Deus: - Quando o céu é atravessado por uma estrela cadente, deve dizer-se: - “Deus te guie!” – “Deus te guie!”, para que não aconteça mal. - Quando aparece o arco-íris, é sinal que Deus está bem connosco. Enquanto ele aparecer, o mundo não se acaba. - Quando uma pessoa está doente, e se desconfia que foi mal que lhe fizeram, deve dizer-se: “Fulano, (nome da pessoa) / Deus te cheirou, / Deus te criou, / Deus te tire o mal, / Que nesse corpo entrou.” - É bom manter relações com os defuntos, para eles intercederem por nós junto de Deus. Para tal, deve-se pregar um alfinete na roupa do defunto ou atirar-lhe uma mão cheia de terra para cima da cova. - Quando se fala de alguma pessoa morta deve dizer-se: - “Deus te chame lá, que ninguém te chama cá”. - Se se encontrar um corcunda pela manhã em jejum, deve dizer-se três vezes: - “Benza-te Deus, dinheiro fresco nos mande Deus”, porque se recebe dinheiro em breve.
Provérbios
É vasto o número de provérbios referentes a Deus. Uns são diferentes, outros são variantes do mesmo.
Desse amplo número, seleccionei alguns que agrupei por tópicos: - CRIAÇÕES DE DEUS: Com água e com sol, Deus é criador. De nada fez Deus o Mundo. Deus criou o Homem e o português o mestiço. Deus fez as almas aos pares. Deus fez o campo; o Homem a cidade. - PRESENÇA DE DEUS: Cada um em sua casa e Deus na de todos. Deus visita-nos sem bater à porta. - SABEDORIA DE DEUS: A Deus ninguém engana. Deus é quem sabe. Deus escreve por linhas tortas. Deus não dorme. Só Deus sabe o que está para vir. - PODER DE DEUS: A Deus nada é impossível. A Deus poderás mentir, mas não enganar. Deus cura os doentes e o médico recebe o dinheiro. Guerra começada, só Deus sabe quando acaba. O futuro a Deus pertence. Os homens fazem o almanaque e Deus manda o tempo. Quando Deus quer, água fria é remédio. Quando Deus quer, até o vento junta as folhas. Quando Deus quer, os santos ajudam. Sorte, só Deus pode dispor. - JUSTIÇA DE DEUS: A justiça de Deus é infalível. A justiça de Deus tarda mas não falta. Deus é o mesmo para todos. Não fez Deus a quem desamparasse. - AMOR DE DEUS: A quem Deus quer dar vida, a água da fonte é mezinha. A quem Deus quer, até o vento apanha a lenha. Não há melhor amigo que Deus e o dinheiro na algibeira. - BONDADE DE DEUS: Bom é Deus e está fechado no sacrário. De Deus vem o bem e das abelhas o mel. Deus dá a roupa conforme o frio. Deus dá o mal e a mezinha. - AJUDA DE DEUS: A casa é Deus quem a guarda. Cada um trata de si e Deus de todos. Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha. Deus nos livre de inimizades de amigos. Do falso amigo me guarde Deus. Faz tu e Deus te ajudará. Nem sempre Deus ajuda a quem muito madruga. - DÁDIVAS DE DEUS: Dá Deus asas a quem sabe voar. Dá Deus botas a quem já tem sapatos. Dá deus espeto a quem não tem toucinho. Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros. Deus dá a canga conforme o pescoço. Deus dá as nozes mas não as parte. Deus dá couves a quem não tem toucinho. Deus dá o pão mas não amassa a farinha. Deus o dá, Deus o tira. Quando Deus dá é para todos. Quando Deus manda chuva é para todos nós nos molharmos. - ESPERANÇA EM DEUS: Deus nunca falta aos seus. Deus tarda mas não falta. Para amanhã, Deus dará. Quando Deus tarda é porque vem no caminho. - DEUS E O DIABO: A quem Deus não dá filhos, o diabo dá sobrinhos. Com Deus no rosto e o diabo no coração. Deus criou a uva e o diabo fez o vinho. Deus dá farinha, o diabo furta o saco. Deus os fez e o diabo os juntou.
Gíria Popular
É extenso o número de expressões idiomáticas que substituem os termos usados tradicionalmente. Dentre elas, escolhi as seguintes: - DEUS LHE FALE NA ALMA: Deus o tenha em descanso; - DEUS LHE PONHA A VIRTUDE: Deus o abençoe; - DEUS OS FEZ, DEUS OS JUNTOU: diz-se de um casal que se dá muito bem; - DEUS QUEIRA QUE O BURRO VÁ À FEIRA: Deus queira que as coisas corram bem; - DEUS QUEIRA: oxalá assim seja; - DEUS SEJA LOUVADO: louvor que se ergue a Deus; - DEUS TE DÊ O QUE TE FALTA: diz-se a alguém pouco ajuizado; - DEUS TE LIVRE: exclamação para manifestar o desejo de que alguém não corra perigo; - DORMIR EM DEUS: estar morto; - ESTAR BEM COM DEUS E O DIABO: concordar com campos opostos; - ESTAR COM A VIDA QUE PEDIU A DEUS: viver segundo a sua vontade. - GRAÇAS A DEUS: felizmente; - HOMEM (MULHER) DE DEUS: pessoa piedosa; - IR COM DEUS: retirar-se em paz; - LOUVADO SEJA DEUS: exclamação de regozijo ou gratidão por um acontecimento feliz; - NEM À MÃO DE DEUS PADRE: de modo nenhum; - OH HOMEM (MULHER) DE DEUS: exclamação de espanto perante um acto que não se esperava de alguém; - PÃO POR DEUS: esmola tradicional do Dia de Todos os Santos; - QUANDO DEUS É SERVIDO: ocasionalmente; - QUE DEUS HAJA: diz-se de pessoa falecida; - QUE DEUS NOS ACUDA: exclamação para invocar a intervenção divina; - QUEIRA DEUS: oxalá; - QUERER DEUS PARA SI E O DIABO PARA OS OUTROS: ser egoísta; - ROUPA DE VER A DEUS: a melhor roupa que se tem; - SABE DEUS: exclamação proferida perante factos inexplicáveis; - SE DEUS O(A) DÁ: em abundância; - SE DEUS QUISER: dependendo do poder divino; - SER UM DEUS NOS ACUDA: ser uma grande confusão; - TAMBÉM SER FILHO DE DEUS: ter direito a ser tratado como os demais; - TEMENTE A DEUS: pessoa devota; - TENTAR A DEUS: desafiar a cólera divina; - VIVER COMO DEUS É SERVIDO: sofrer privações com resignação; - VIVER DA GRAÇA DE DEUS: viver da caridade.
Alcunhas Alentejanas
O conceito de Deus está igualmente representado no âmbito das alcunhas alentejanas, ainda que a sua presença seja diminuta, já que apenas são conhecidas as seguintes alcunhas: - DEUS ME LIVRE: Alcunha outorgada a indivíduo que usa frequentemente esta expressão (Estremoz). - DEUS NÃO DORME: Designação dada a idoso internado num lar, o qual quando estava aborrecido, usava aquela expressão, ao mesmo tempo que batia com a bengala no chão (Vendas Novas). - DEUS NOSSO SENHOR: O visado é muito religioso (Alandroal). Epíteto atribuído a um sujeito que está em todo o lado (Arraiolos). - LOUVA-A-DEUS: Epíteto conferido a indivíduo que tem por hábito, pôr as mãos de um modo semelhante às patas de um louva-a-deus (Ferreira do Alentejo). - VALHA-ME DEUS: Denominação atribuída a membros de um conjunto restrito de indivíduos, que no tratamento entre si, escolheram esta forma de tratamento (Estremoz).
Cancioneiro Popular
O Cancioneiro Popular de Deus é tematicamente diversificado e por vezes jocoso. Seleccionei algumas quadras que confirmam esta afirmação: - CRIAÇÃO DE ADÃO: “Quando Deus formou Adão / De um bocado de barro, / Nem as terras davam pão, / Nem o mar era sagrado.” - DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA: “Bem pudera Deus dar pão, / Na terra sem ser lavrada; / Bem poderá, ainda o digo, / Dar muito a quem não tem nada.” - DECLARAÇÃO DE AMOR: “Impossível, sem ser Deus, / Haver quem de ti me aparte; / Eu não quero nada do mundo, / Só vivo para adorar-te.” - AMOR NÃO CORRESPONDIDO: “Amor com amor se paga, / Porque não pagas amor, / Olha que Deus não perdoa / A quem é mau pagador.” - PEDIDO DE SAÚDE: “O mar pediu a Deus peixes / Para dar ao pescador/ E eu peço a Deus saúde / Para dar ao meu amor.” - PRAGUEJAR POR DESPEITO: “No meio da rua d’reita / Nasceram dois acyprestes: / Lá darás contas a Deus / Da paga que tu me deste.” - PROTECÇÃO DIVINA: “Dizia meu avô torto / Que ao menino e ao borracho, / Não acontecia p’rigo, / Põe-lhes Deus a mão por baixo.”
Conclusão
O presente epítome constitui um ensaio de abordagem ao tema “Deus na boca do Povo”. Visando adequar a dimensão do texto, tive que fazer opções, pelo que é natural que o mesmo seja omisso relativamente a alguns especimenes de literatura de tradição oral. Tal facto não me preocupa sobremaneira, visto que no essencial divulgo aqui a visão possível de “Deus na boca do Povo”, que pode ser compartilhada por todos. Sobre a verosimilhança de tal visão, sou tentado a citar a máxima latina: “Vox populi, vox Dei” (A voz do povo é a voz de Deus).
Estremoz, 7 de Novembro de 2019
(Jornal E nº 234, de 28-11-2019)

Fig. 2 – Cozinha dos ganhões. José Moreira (1926-1991).

Fig. 3 – Bailadeira grande. José Moreira (1926-1991).