terça-feira, 3 de novembro de 2026

Um púcaro de Estremoz de se lhe tirar o chapéu

 

Púcaro de Estremoz. Datação desconhecida. Colecção Victor Tavares Santos.



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Tu és a minha companha,
eu tenho-te á cabeceira
ó pucarinho de barro,
enfeite da cantareira.
ANTÓNIO SARDINHA (1887-1925)


Chapelada inicial
Victor Tavares Santos é um grande coleccionador de olaria e figurado português, os quais como actor de Teatro foi recolhendo no decurso das suas itinerâncias desde os anos 70 do século passado. Recentemente, divulgou no Facebook a imagem dum púcaro de barro vermelho de Estremoz. A visualização do mesmo despertou em mim, de imediato, um amor à primeira vista, corolário natural da beleza da sua morfologia arcaica e da simplicidade da sua decoração simbólica. O fascínio deste objecto olárico conduziu inescapavelmente à sua dissecação, patente no presente escrito.

Morfologia e decoração
Púcaro em barro vermelho, de base cilindriforme, pé cilindriforme de contornos côncavos, corpo esférico, colo tronco-cónico alto e bordo plano. Abaixo do bordo o púcaro exibe uma cercadura relevada, da qual partem duas asas verticais, de secção rectangular, arqueadas e simétricas, as quais terminam na parte média do corpo. Exemplar olárico de grande beleza morfológica. Superfície integralmente polida na qual foi efectuada decoração riscada (ramos de palmeira no corpo) e picada (marca de punção com extremidade em forma de circunferência circunscrita a uma estrela de 5 pontas, gravada em baixo relevo) no colo.

A estrela de cinco pontas
O simbolismo da estrela de 5 pontas está associado ao simbolismo do número 5. Este, é a soma do primeiro número par (2) e do primeiro número ímpar (3). Por outro lado, o número 5 está no meio dos nove primeiros números. Segundo os pitagóricos é o número do centro, da harmonia e do equilíbrio [2]. É, assim, um símbolo da ordem e da perfeição e como tal, símbolo da vontade divina, a qual não pode desejar senão a ordem e a perfeição [1]. A estrela de 5 pontas, pode assim ser encarada como um símbolo apotropaico, que neste caso protege o utilizador do púcaro, de espíritos malignos ou nocivos, tais como as bruxas ou o mau olhado.

A palma
Remonta à antiguidade clássica o hábito de receber heróis com palmas (ramos de palmeira). Daí que Jesus tenha sido recebido triunfalmente em Jerusalém com palmas e estas sejam encaradas como um símbolo cristão da vitória. Por outro lado, como as palmeiras se mantêm sempre verdes, a palma tem associado a ela o simbolismo da eternidade. A palma, é de resto, utilizada como atributo na representação de mártires, isto é, é utilizada como símbolo de martírio.
Admito que as palmas tenham sido utilizadas na decoração do púcaro, como modo de expressar ao seu utilizador, votos de vitória e de vida eterna.

Chapelada final
A grande beleza morfológica do arcaico púcaro, aliada ao forte simbolismo da sua decoração, poderão ter estado na base da dificuldade sentida pele proprietário em o adquirir ao antiquário Venceslau Lobo (1928-1986), do Museu dos Cristos, em Borba. A datação do exemplar olárico permanece uma incógnita, cuja decifração não esteve ao meu alcance.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CHAMPEAUX, Gérard de; STERCK, Sébastien. Introduction au monde des symboles. Zodiaque. Paris, 1966.
[2] - CHEVALIER; Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 6ª ed. José Olímpio. Rio de Janeiro, 1992.


Publicado inicialmente em 3 de Novembro de 2022

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Dia de Finados


Dia dos mortos (1859). William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).
Óleo sobre tela. Musée des Beaux-Arts de Bordeaux.

Dia de Finados
A 2 de Novembro assinala-se o Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos. Este dia é celebrado entre nós com tristeza, pois recordam-se as pessoas de família e os amigos que já morreram. De acordo com a tradição católica, as pessoas acorrem aos cemitérios para prestar homenagem aos mortos. Para tal, deixam ramos de flores nas campas e acendem velas para iluminar os falecidos no caminho para o Paraíso, ao encontro da comunhão com Deus e oram e mandam rezar missas em sua memória. Para os católicos, o culto dos mortos é, em certo sentido, a festa da vida, já que acreditam na imortalidade da alma.
A veneração e o culto dos mortos integram as práticas de todas as religiões desde tempos imemoriais, tendo inicialmente estado ligado aos cultos agrários e de fertilidade. Os mais antigos acreditavam que, tal como as sementes, os mortos eram enterrados com vista à ressurreição. Em particular, desde os primórdios do cristianismo que a oração pelos mortos é uma prática corrente entre os cristãos, crentes no Purgatório e na eficiência das preces em benefício do descanso e da purificação da alma dos defuntos, familiares ou não, sobretudo aqueles que não tenham deixado na terra quem o pudesse fazer.
A igreja Bizantina consagrou uma data destinada a estas orações, fixando-a no sábado que antecedia o último domingo antes da Páscoa, enquanto na Igreja Siríaca a celebração decorria na sexta-feira dessa mesma semana. No Ocidente a prática manifestava-se no século VII, celebrada no interior dos mosteiros, ainda que em data variável.
A veneração e culto dos mortos compreende celebrações colectivas ou individuais, tais como exéquias ou ofícios fúnebres religiosos (missas de corpo presente, do 7.° e do 30.° dia, etc.). Todavia, a primeira referencia a comemorações por intenção dos defuntos, efectuadas anualmente e em data fixa, associadas à Festa de Todos os Santos é atribuída a Santo Isidoro de Sevilha (c. 560-636) no século VII, ainda que se deva ao abade de Cluny, Santo Odilon (c. 962-c.1048), a introdução do ritual litúrgico no seu mosteiro entre 1025 e 1030, daqui irradiando a todos os mosteiros da ordem e depois à Igreja no seu todo.
O Ofício de Defuntos é difundido pelos mosteiros a partir do século XIII, embora desde os tempos apostólicos possam encontrar-se textos alusivos à oração pelas almas.
Na Igreja Católica, na celebração litúrgica do Dia de Finados, recita-se o “Oficio de defuntos” e as missas são de “Requiem”, ainda que o dia 2 de Novembro calhe a um domingo.
Em 1915, por concessão de Bento XV (1854-1922), através da bula “Incruentum Altaris” foi autorizado a todos os sacerdotes da Igreja Católica celebrarem três missas no dia dos Fiéis Defuntos. Este privilégio já havia sido concedido a Portugal, Espanha e América Latina pelo papa Benedito XIV (1675-1758) em 1748, devido à influência desse costume na Igreja de Aragão, enquanto Leão XIII (1810-1903) estende a concessão a toda a igreja, pedindo que no último domingo de Setembro todos os sacerdotes celebrem urna missa para os defuntos, extensiva aos sacerdotes falecidos.
A nível da pintura europeia, a Missa e Ofício de Defuntos ilustram códices medievais e renascentistas, onde é se observa o uso dos paramentos negros pelos clérigos e vestimentas de luto negras por parte dos fiéis. A nível de pintura do séc. XIX conhecida, observa-se igualmente o uso de vestuário negro por parte daqueles que ocorrem aos cemitério no Dia de Finados.

Pão por Deus 
Para além das cerimónias fúnebres religiosas relacionadas com o culto dos mortos, as comemorações do Dia de Finados abarcam igualmente expressivas celebrações alimentares características desta ocasião, representadas principalmente pelos bolos especiais, pão e frutos secos, sobretudo a castanha.
As refeições cerimoniais próprias deste dia, sob a forma de manjares, refeições ou dádivas aos defuntos ou aos mesmos consagradas através dos seus familiares vivos, são reminiscências de práticas rituais ancestrais, identificadas com o culto dos mortos. 
Em Portugal, ainda são respeitadas outras crenças muito antigas, como não caçar nem pescar no Dia de Finados. 

BIBLIOGRAFIA
BARROS, Jorge; COSTA, Soledade Martinho. FESTAS E TRADIÇÕES PORTUGUESAS / Novembro e Dezembro. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.

Publicado inicialmente a 3 de Novembro de 2013

Ofício dos defuntos.
Livro de Horas, 82. 14--.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa.

 
Ofício dos mortos (c. 1401-1433).
Livro de Horas de D. Duarte (segundo o uso de Roma), 323v.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa.

 
Missa de exéquias. (1410). 
Anónimo.
Rationale Divinorum Officiorum de Guillaume Durand (1230-1296).
Edição francesa de 1410. 

 
Missa de exéquias (c. 1440).
Jan van Eyck (c. 1395-1441).
Livro de Horas de Turim-Milão.

 
Vigília junto a um defunto (c.1515).
Gerard Horenbout  (c. 1465–1541). 
Livro de Horas de Spínola.
J. Paul Getty Museum, Malibu.

 
Ofício dos mortos [Século XVI (1517-1551)] 
Atribuído a António de Holanda (1480-1557).
Livro de Horas de D. Manuel I, 129 v. 
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

 
Ofício dos Mortos (1530-1534).
Simon Bening (c. 1483/1484–1561).
Livro de Horas D. Fernando (1530-1534).
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Dia dos Finados (s/d). Aurélia de Sousa (1866-1922).
Óleo sobre tela ( 32×40 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

domingo, 1 de novembro de 2026

Dia de Todos-os-Santos


Regresso do "Pão por Deus" (1-11-1930).
Fotografia de autor desconhecido, recolhida "on line".


DIA DE TODOS-OS-SANTOS
O dia de Todos-os-Santos é celebrado pela Igreja Católica como uma festa em honra de todos os santos e mártires, conhecidos e desconhecidos.
No Alentejo, no dia de Todos-os-Santos, era ainda tradição nos anos sessenta-setenta do século passado, as crianças juntarem-se em pequenos grupos e andarem pelas ruas, de porta em porta, para “Pedir os Santinhos”. Naturalmente que só batiam às portas das casas mais abastadas ou julgadas como tal. Quando eram bem sucedidos e eram-no em geral, recebiam pão, bolos, maçãs, romãs, castanhas, nozes, amêndoas, etc. Eram oferendas que guardavam religiosamente nos seus talegos, nos quais as transportavam para as suas casas, onde ajudavam a mãe e o pai a fazer frente às duras condições de vida da esmagadora maioria dos intervenientes. Alguns desempregados, outros com empregos de miséria e outros ainda sujeitos à sazonalidade dos ciclos agrícolas de produção. Quanto aos ofertantes alguns eram-no por espírito de caridade cristã. Todavia, alguns imbuídos de espírito mais laico, faziam-no por espírito de solidariedade.
Uma tal tradição remonta a Lisboa no ano de 1756, um ano após o devastador terramoto que destruiu Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 e em que morreram milhares de pessoas, pelo que a população na sua maioria pobre, mais pobre ficou ainda.
A coincidência da data do terramoto com a data de 1 de Novembro, com significado religioso, conduziu a que sectores da população, aproveitando a solenidade do dia, tenham desencadeado, por toda a cidade, um peditório, visando atenuar a situação miserável em que se encontravam. Para tal, percorriam a cidade, batiam às portas e pediam esmola, mesmo que fosse pão, visto reinar a fome pela cidade. Pediam então: "Pão por Deus". Tal tradição perpetuou-se no tempo e propagou-se a todo o país, assumindo cambiantes em cada local. Todavia, a tradição está praticamente extinta desde os anos oitenta do século passado. Actualmente, os média, pressionados e distorcidos pelo peso globalizante da cultura anglo saxónica, ignoram completamente tradições como “Pedir os santinhos” e enfiam-nos pela casa dentro e pelas cachimónia abaixo, tradições como o “Halloween”, que nada têm a ver com a nossa identidade cultural.

A TRADIÇÃO ORAL
O dia de Todos-os-Santos está registado no adagiário português, onde são conhecidas máximas como as seguintes:

- “De Todos os Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.” [4]
- “Pelos Santos, novos esquecem velho.” [4]
- “Por Todos os Santos semeia trigo, colhe cardos.” [1]
- “Por Todos os Santos, a neve nos campos.” [1]

A nível de cancioneiro popular, o dia de Todos-os-Santos é uma data grata para alguns:

“Dia de Todos os Santos
É que eu comecei a mar:
Quem com Santos principia
Com Santos deve acabar.” [3]

O Peditório do “Pão por Deus” está igualmente assinalado no cancioneiro popular:

“Bolinhos, Bolinhós,
Para mim e para vós,
Pelos vossos finados
Que estão enterrados
Ao pé da vera cruz
Para sempre. Amem, Jesus.
Truz; truz; truz.” (Coimbra) [2]

LONGE VÁ O AGOIRO
Faço votos para que nas condições duras que o país atravessa, não tenham muitos que recorrer ao Peditório do “Pão por Deus”, para conseguir fazer face às dificuldades diárias numa sociedade madrasta que alguns teimam em fazer retroceder no tempo.

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[2] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português. Volume III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1983.
[3] – THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progresso. Elvas, 1902.
[4] - ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1841.

ROSSIO E HOSPITAL REAL DE TODOS-OS-SANTOS
Painel de azulejos de oficina de Lisboa, da 1ª metade do século XVIII (114 cm x 348 cm) existente no Museu da Cidade, Lisboa. No primeiro plano, tipos populares comercializam bens de consumo. No lado esquerdo é representado o Chafariz de Neptuno, equiparado ao dedicado a Apolo, existente no Terreiro do Paço.
O Hospital Real de Todos-os-Santos tinha fachada virada para o Rossio. Mandado erigir por D. João II em 1492, a sua construção só terminou no reinado de D. Manuel I, nos primeiros anos do século seguinte. Edifício de vanguarda na época, acolheu os primeiros internamentos em 1502 e o número de enfermarias foi crescendo ao longo do tempo: 3 (1504), 16 (1520) e 25 (1715).
O Hospital Real de Todos-os-Santos foi desactivado na sequência do Terramoto de 1755, ocorrido a 1 de Novembro desse ano, o qual foi responsável pela destruição quase completa da cidade de Lisboa.

Publicado inicialmente a 2 de Novembro de 2011

Adagiário do Dia de Todos-os-Santos


OS PRECURSORES DE CRISTO COM SANTOS E MÁRTIRES (c.1423-24). Fra Angélico
(c. 1395 - 1455). Têmpera sobre madeira (31,9 x 63,5 cm). National Gallery, London.

A 1 de Novembro, a Igreja Católica celebra o Dia de Todos-os-Santos, como uma festa em honra de todos os Santos e Mártires, conhecidos e desconhecidos. Relativamente a esta efeméride, a literatura de tradição oral regista a presença dos seguintes adágios:
- De Santos a Santo André, um mês é; de Santo André ao Natal, três semanas.
- De Santos ao Natal, ou bom chover ou bem nevar.
- De Todos os Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- De Todos os Santos ao Natal, bom é chover e melhor nevar.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o capital.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o natural.
- De Todos os Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.
- Depois dos Santos, neve nos campos.
- Dos Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- Dos Santos ao Natal, bico de pardal.
- Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
- Dos Santos ao Natal é Inverno natural.
- Dos Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
- Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal.
- Dos Santos ao Natal, Inverno geral.
- Dos Santos ao Natal, perde o marinheiro o cabedal.
- O Verão de São Martinho, a vareja de São Simão e a cheia de Santos são três coisas que nunca faltaram nem faltarão.
- Pelos Santos, favas por todos os cantos.
- Pelos Santos, neve nos campos.
- Por Santos semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, neve nos campos; por dia de São Nicolau, neve no chão.
- Por Todos os Santos, semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, semeia trigo, colhe castanhas.

Publicado inicialmente a 1 de Novembro de 2022

sábado, 31 de outubro de 2026

ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos

 


ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos


- Exposição ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos
- ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
- ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!
-  ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás
- Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
-  O recolector - Francisca de Matos
- EXPOSIÇÃO "ARTES DO VAGAR" - Francisco Ramos
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

 

01 – Natália Simões (1924-2012).


Natural de Pavia e irmã das artesãs de papel recortado, Joana Simões e Joaquina Simões. Professora do ensino primário em Estremoz durante toda a sua carreira.

Após a aposentação dedicou-se aquilo a que chamava “pintura judaica” e que lhe foi sugerida pelo seu marido, o professor Aníbal Falcato Alves, intelectual polifacetado, que dedicou parte da sua vida à recolha de tradições da região Alentejo, entre elas as artes populares. Foi ele que recolheu um exemplar daquilo que é designado por “pintura judaica”, uma tipologia de arte popular alentejana cuja origem se perde na lonjura dos tempos. Depois de estudar o modo como o mesmo tinha sido executado, sugeriu a Natália o procedimento a seguir, visando recuperar e preservar a antiga tradição. Natália correspondeu ao desafio e recuperou a arte tradicional. Trata-se de uma pintura em vidro, na qual primitivamente, o vidro era pintado com betume judaico, sobre o qual era desenhado minuciosamente a lápis de carvão, o contorno do motivo decorativo. O interior desse contorno era seguidamente raspado, sobrepondo-se então papel de prata às zonas raspadas, as quais conferiam ao conjunto um aspecto de requintada peça de ourivesaria. Mais tarde, substituiu o uso do papel de prata pela pintura das zonas raspadas com tintas de outras cores. De resto, numa natural evolução, também a pintura com betume judaico viria a ser substituída pela pintura com spray.

A recolha etnográfica do marido fora o ponto de partida para a descoberta e para tudo o que se lhe seguiu, pois a Natália, criadora nata, revolucionou este tipo de trabalho artístico, catapultando-o à dimensão daquilo que sem ela não seria sequer imaginável.

Num texto de 1965, intitulado “VIDRO RENDILHADO”, o escritor neo-realista e médico Fernando Namora, referindo-se ao trabalho de Natália, disse com precisão cirúrgica: “Nestas mãos pacientes, que rendilham a superfície fosca e árida do vidro como se de bordados de oiro ou prata se tratasse, reaviva-se uma tradição artesanal e espelha-se o Alentejo onde o tempo modera o seu frenesi, contido pela charneca lânguida, espreguiçada, que dissolve a alucinação das vidas e empresta aos gestos um labor alentejano saboreado. O tempo, pois, não conta para estas mãos minuciosas, mãos alentejanas, que corrigem a placidez dos dias com uma arte de imaginação opulenta, recreada em filigranas e arabescos, a destoar, como um protesto da severidade do ambiente.”

Natália Simões participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizou exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)

02 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, com decoração fitomórfica e
 zoomórfica, polícroma com prata em fundo negro. Moldura elíptica. 71 x 46,5 cm.

03 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, que inclui Nossa Senhora da
Conceição, com cercadura de decoração fitomórfica e encimada pelo Sol. Decoração
polícroma com prata em fundo negro. Moldura quadrada. 44 x 44 cm.


04 - Pintura judaica. Composição constituída por monograma FH ao centro, inscrito
num campo de flores de forma circular, por sua vez inscrito num campo de flores de
forma quadrada. Em dourado sobre fundo azul escuro. Moldura quadrada. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Pintura judaica. Alegoria da Primavera. Composição constituída por
uma cercadura com decoração fitomórfica e geométrica, no centro da qual
um “putti” configura pôr uma coroa de flores na cabeça de outro. Em 
dourado sobre fundo azul. Moldura elíptica. 30 x 28 cm.

Publicado no jornal E nº 389, de 30 de Outubro de 2026

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Turismo em perspetiva / Os Bonecos de Estremoz

 

André Lopes


Artigo de André Lopes
transcrito com a devida vénia do
jornal E nº389,
de 30 de Outubro de 2026

O património cultural é uma parte essencial da identidade de qualquer território. Preservá-lo é importante, mas encontrar formas de o valorizar, divulgar e transmitir às gerações futuras é igualmente fundamental.

Nos últimos tempos, tenho dedicado particular atenção ao património cultural imaterial e às oportunidades que este pode representar para o desenvolvimento turístico dos territórios. É impossível pensar nesta temática sem olhar para Estremoz e para os seus Bonecos, uma arte secular reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2017.

Este reconhecimento é motivo de orgulho para Estremoz e evidencia a importância de continuar a preservar e divulgar uma tradição que faz parte da identidade do concelho. O trabalho desenvolvido em torno deste património é fundamental, mas a sua riqueza permite-nos também refletir sobre novas formas de o aproximar da comunidade e de quem nos visita.

Neste contexto, as Festas da Exaltação da Santa Cruz, em setembro, poderão constituir uma oportunidade para reforçar a presença dos Bonecos de Estremoz na programação cultural da cidade. A possibilidade de criar um espaço especialmente dedicado a esta arte, articulado com as iniciativas já existentes, permitiria dar maior visibilidade aos barristas, às suas peças e aos saberes que lhes dão vida.

Mais do que um espaço de exposição e venda, uma iniciativa desta natureza poderia incluir demonstrações de modelação, oficinas, conversas com os artesãos e atividades dirigidas aos mais novos. Seria uma forma de proporcionar aos visitantes um contacto mais próximo com esta tradição e de despertar o interesse das novas gerações.

A valorização do património cultural imaterial exige continuidade, criatividade e cooperação entre os diferentes agentes locais. Quando cultura e turismo se articulam, surgem oportunidades para enriquecer a experiência de quem visita o território, apoiar os artesãos e reforçar a identidade local.

Os Bonecos de Estremoz são muito mais do que peças de barro, representam conhecimentos, histórias e saberes transmitidos ao longo de gerações. Continuar a encontrar formas de os dar a conhecer é contribuir para que esta herança permaneça viva e continue a fazer parte do futuro da cidade.

Porque valorizar o património é também criar oportunidades para que aquilo que nos diferencia continue a ser conhecido, apreciado e transmitido às gerações futuras.

André Lopes


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)