quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Forno: da iluminura aos provérbios

 
c. 1370-1400 - Tacuinum sanitatis (ÖNB Codex Vindobonensis, series nova 2644).

Remontam aos primórdios dos tempos, os provérbios sobre a cozedura do pão, igualmente registada nas iluminuras medievais:
- "A quem coze e amassa não furtes a massa."
- "A quem tem seu pão no forno, podemos dar do nosso."
- "Ano caro, padeira em todo o cabo."
- "Ano caro, padeira em todo o caso."
- "Coze-se o pão, enquanto o forno está quente."
- "Descansai mulheres que caiu o forno."
- "Fazer a broa maior que a boca do forno."
- "Forno chorado, pão queimado."
- "Forno de padeira, com qualquer molho de lenha se aquece."
- "Forno feito, vintém no corucho."
- "Muitos padeiros não fazem bom pão."
- "Nam sejais forneira, se tendes a cabeça de manteiga."
- "Nem sempre o forno faz rosquilhas."
- "No fogo se ganha, no fogo se perde."
- "No forno e no moinho vai quem quer cochicho."
- "No forno se ganha a paz, no forno se perde."
- "No forno se ganha o pão, no forno se perde."
- "No Inverno forneira, no Verão taberneira."
- "O velho e o forno, pela boca se aguentam."
- "Para forno quente, três molhos de ramasca ou um torgo somente."
- "Para forno quente, uma torga somente."
- "Pela boca se aquenta o forno."
- "Quem mói no seu moinho e coze no seu forno, come o seu pão todo."
- "Se toda a gente fosse padeiro, ninguém comprava pão."
- "Uns aquecem o forno, outros amassam o pão."
 
c.1300 - Hispano-Moresque Haggadah (British Library Or. 2737, fol. 87v).
 
c. 1370-1400 - Tacuinum sanitatis (ÖNB Codex Vindobonensis, series nova 2644).
 
c. 1390-1400  -  Tacuinum Sanitatis (BNF NAL 1673, fol. 56).

1400  -  Tacuinum Sanitatis (BNF Latina 9333).

1400  -  Romance de Alexandre (Bodleian 264, fol. 83).

1432 - Decameron (BNF Arsenal 5070, fol. 223v).

c.1440-1450  -  “Outubro” num  Livro de Horas (PML M.358, fol. 10r).

c. 1465-1475 - Konzil von Konstanz (ÖNB 3044, fol. 48v).

1470-1475  -  “Dezembro” num Livro de Horas (KB 76 G 14, fol. 12r).

1475-1500  -  “Dezembro” num Livro de Horas (KB 76 G 19, fol. 12r).

1490-1500  “Dezembro” num Livro de Horas (KB 76 F 14, fol. 14r).

1500 - Tacuinum Sanitatis (BNF Latin 9333, fol. 61).
1500 - Tacuinum Sanitatis (BNF Latin 9333, fol. 62).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

In Vino Veritas


“Os bêbados” ou “Festejando o S Martinho” (sem data).
José Malhoa (1855-1933).
Estudo em carvão sobre papel (33x45 cm).

In Vino Veritas (No vinho a verdade) é uma máxima latina que traduz a liberdade com que o bêbado se exprime sempre, em virtude da embriaguez soltar a língua e fazer a verdade vir ao de cima. Para alguns, a sentença exprime igualmente a sacralidade e a inviolabilidade dos contratos confirmados com o vinho.
Julgo que In Vino Veritas seja o título mais adequado para designar a presente trilogia de histórias sobre bêbados. É que para além do sabor do vinho, há também as histórias deliciosas que este suscita. E estas são histórias reais.

Passou ou não passou?
Em meados do século passado, um conterrâneo meu da família dos Margalhos, conhecido por ser um bom bebedor, pretendia atravessar a fronteira em Badajoz. A isso se opunha a Guarda Civil, alegando que ele era portador dum garrafão com razoável quantidade de vinho. Vai daí, entraram em acesa discussão, porque o Margalho era teimoso que nem um jumento e o guarda espanhol não lhe ficava atrás. Passa e não passa. Passa e não passa. Passa e não passa. E não saíam dali, até que o Margalho que era esperto que nem um rato, se passa dos carretos e leva o garrafão às goelas, emborcando o conteúdo integral de uma assentada. Ingerido o último golo, questiona então o guarda:
- Posso ou não posso passar com o garrafão?
O guarda, contestado na sua autoridade e vermelho de raiva, não viu outra saída que não fosse a resposta que deu:
- Agora pode passar!
O Margalho, inchado de gozo por ter vencido a discussão, atravessou então a fronteira, ao mesmo tempo que “farpeava” o guarda com um bem medido gracejo, daqueles em que era pródigo:
- Então senhor guarda? Passou ou não passou?

Engenheiro Brandy Lopes
Nos anos setenta do século passado, na Escola Industrial e Comercial de Estremoz, leccionava desenho técnico, um professor, agente técnico de formação, que a gíria estudantil alcunhara de engenheiro Brandy Lopes. É que o homem, a dar para o castiço, era um bebedor inveterado e andava quase sempre aconchegado interiormente com aquilo que se vende nas tabernas. Constava-se também que a esposa não lhe ficava atrás, existindo apenas uma diferença entre eles: um bebia do branco e outro bebia do tinto.
Certo dia regressavam a casa, depois de se abastecerem na mercearia mais próxima. Ele à frente com os dois garrafões. Numa mão o do branco e na outra o do tinto. Mais atrás, a esposa carregava um saco com o avio da mercearia.
Ou porque a calçada era irregular ou porque já ia “bem tratado”, o nosso engenheiro tropeça na calçada e para não se estatelar no chão, deixa escapar os garrafões. Como uma desgraça nunca vem só, um dos garrafões partiu-se. A esposa alarmada, não lhe chega a perguntar se ele se magoara ou não. Célere e instantaneamente apenas lhe faz esta pergunta lacónica:
- Foi o teu ou o meu?
Responde ele:
- Foi o meu!
Resposta da esposa:
- Então não faz mal!

O corte do petisco
Com a crise que atravessamos cada vez mingua mais o dinheiro disponível para o petisco, essa notável instituição alentejana. O dinheiro não dá para tudo. Ou se corta no vinho ou se corta no petisco, é o dilema que muitos enfrentam.
Ti Zé Venâncio, frequentador habitual das tabernas, queixava-se da situação, dado que não atinava entre optar pela bebida ou pela comida. Lamentava assim a sua triste sina de se ver nesta situação. E eis que entra na conversa, Ti Chico Pinguinhas, velho camponês de pele seca como o pechelim, que diz de rompante:
- Para mim só há uma saída. É a mesma que tivemos a seguir à grande Guerra, quando a miséria era grande.
Pergunta então o Zé Venâncio.
- E qual é, ti Chico?
- A gente bebe e não come. Era o que a gente fazia. Bebíamos um garrafão a olhar para um caroço de azeitona…

Hernâni Matos
Texto publicado no meu livro MEMÓRIAS DO TEMPO DA OUTRA SENHORA
https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2012/06/memorias-do-tempo-da-outra-senhora.html 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pedro Alves - O despontar de uma estrela


1 - Primavera de Plumas (2026) (frente). Pedro Alves (1991-  ).

Ficar de boca aberta
Há oitentões como eu, rodados na vida e que já “meteram o nariz” em tudo e mais alguma coisa, mesmo naquilo para o qual não foram chamados. Alguns estão mesmo convencidos de que já não há nada de novo para ver e que tudo vai dar ao mesmo. Não é o meu caso, manifestamente um desajeitado para o desempenho do papel de “velho do Restelo”.
Na verdade, creio convictamente que "A vida é uma caixinha de surpresas." e que "As surpresas acontecem quando menos se espera”. De tal modo que acabamos por "Ficar de boca aberta". Foi assim que há dias e em “maré de “Entrudo” deparei nas redes sociais com uma figura em barro pintado (Fig. 1 e Fig. 2), disponível para venda, a qual de imediato me fascinou. Foi “amor à primeira vista”. Em termos de linguagem cinegética foi um caso de “tiro e queda”. Parece que aquela figura tinha sido feita para me seduzir, o que de facto aconteceu e me fez “puxar os cordões à bolsa”, a qual, nestas andanças, vem “emagrecendo a olhos vistos”.
Primavera de Plumas
Curiosamente, na “maré de Entrudo”, acabei por adquirir uma “Primavera de Plumas”, que conjuntamente com as “Primaveras de Arco” e as “Bailadeiras”, integram a galeria dos Bonecos de Estremoz, com a designação genérica de “Primaveras”. Trata-se de alegorias à estação do ano homónima, bem como à sua chegada e simultaneamente figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, assimilados pela Igreja Católica que há séculos começou a comemorar o Entrudo.
Quem é quem
O barrista de que venho falando é Pedro Alves, um jovem de 35 anos, filho do barrista Carlo Alberto Alves e da artista plástica Cristina Malaquias. É caso para dizer que “Quem sai aos seus não degenera”, além de que “Filho de peixes, sabe nadar”, a que forçosamente terei de acrescentar “E de que maneira!”.
Passar a pente fino
A análise cuidada e pormenorizada da imagem permitiu-me concluir que a representação transmite harmonia, beleza e elegância. De salientar que a figura exibe uma postura vertical com os pés mais afastados do que é habitual. As pregas do vestuário e a posição desencontrada dos braços indiciam movimento. A modelação e a decoração são cuidadas e consistentes no seu todo. O cromatismo dominante da figura assenta no vermelhão e no cor de rosa, cores quentes através das quais se procura transmitir a energia, o calor e a vibração dos festejos de Entrudo.
É ou não é?
Chegados a este ponto somos confrontados com a sacramental pergunta: ”Estamos ou não em presença daquilo a que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz?"
A resposta óbvia é que sim, já que em primeiro lugar a técnica de modelação utilizou a combinação das três técnicas: a da bola, a do rolo e a da placa. Em segundo lugar a estética dos Bonecos de Estremoz é uma estética naturalista, que recorre a uma modelação que procura ser fiel ao original, sem introduzir pormenores que lhe são estranhos. Essa fidelidade estende-se ao domínio cromático, já que utiliza cores reais, ou seja, as cores possíveis daquilo que pretende representar.
Uma mudança de paradigma
Pese embora o estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, o barrista como, de resto, vem sendo prática corrente desde os primórdios da arte, ousou fazer algo de diferente, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto” e com essa diferença dar conta da sua individualidade e do seu modo de ver o mundo e a vida. E que fez o barrista de novo? Encurtou o vestido e dotou-o de um decote generoso. “Duma cajadada matou dois coelhos”: permitiu-se modelar pernas esbeltas e valorizar a representação do busto feminino. Ao proceder assim, o barrista conferiu sensualidade à sua Primavera de Plumas. Em termos de representação ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que importa sublinhar e valorizar.
Que fazer?
O futuro ao barrista pertence, o qual inescapavelmente irá percorrer o seu próprio caminho. O que até agora nos mostrou é revelador de talento e forte personalidade artística, aos quais decerto saberá adicionar resiliência aos “ditos e mexericos” dos “velhos do Restelo”, que temerosos de sair da sua “praia”, adoptam uma atitude céptica e conservadora perante a inovação. E vai daí desencandeiam as suas “Guerras do alecrim e da Mangerona” como forma de nos “Atirar poeira para os olhos”.
Mensagem final
A chegada de alguém muito especial ao universo dos barristas de Estremoz, leva-me a congratular-me com esse facto e a proclamar a sua chegada, anunciando o despontar de uma estrela que promete brilhar.


2 - Primavera de Plumas (2026) (trás). Pedro Alves (1991-  ).

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sou um actor


Como escritor, jornalista e bloger sou um actor. Represento o papel da minha própria vida. Esse e mais nenhum. Esse é o papel magno da minha carreira. Sou eu que escrevo o enredo e sou director de cena de mim mesmo. E cresço quando o silêncio se transmuta em palavras. Então sou maior do que eu, porque atinjo a dimensão de mim próprio.

Hernâni Matos
Publicado pela 1ª vez em 5 de Julho de 2013

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Dia de São Valentim



O marketing agressivo da sociedade capitalista, que em nome de São Cifrão tudo nos quer vender, leva-nos a descrer no culto a São Valentim, centrado no dia 14 de Fevereiro, dia em que é suposto que os amantes celebrem o amor, a paixão e a partilha de sentimentos. Pese embora a nossa descrença no mercantilismo e no pirosismo da efeméride, não queremos deixar de saudar todos aqueles que como nós, acreditam no Amor. A eles dedicamos esta série de imagens de bilhetes-postais ilustrados dos “Bons Velhos Tempos”. E que “Viva o Amor!” todos os dias.

Publicado inicialmente a 14 de Fevereiro de 2012 







sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O amor é cego



O Amor é cego. Jorge da Conceição (1963 - ). Colecção Hernâni Matos.

“O Amor é cego” é um Boneco de Estremoz cuja origem remonta ao séc. XIX. É considerado uma figura de Carnaval e uma alegoria à cegueira do amor e ao Cupido de olhos vendados. Trata-se de um tema recorrente na pintura universal, onde conheço os seguintes quadros: - Cupido com os olhos vendados (1452-1466) - Piero Della Francesca; - Primavera (c. 1482) - Sandro Botticelli (1445-1510); - Cupido, o pequeno amor com os olhos vendados perfura o peito de um jovem (séc. XVI) – Clément Marot; - O julgamento de Páris (1517-1518) – Niklaus Manuel; - Vénus e Cupido (c. 1520) – Lucas Cranach, o Velho; - Vénus a vendar Cupido (c. 1565) - Vecellio Tiziano; - Cupido castigado (séc. XVII-XVII) - Ignaz Stern; - Vénus a punir o amor profano (c. 1790) – Escola alemã.
 “O amor é cego” é um provérbio que traduz a cegueira do amor (falta de objectividade), relativamente à qual são conhecidos outros provérbios: “A amizade deve ser vidente e o amor, cego”, “O amor é cego e a Justiça também”, “O amor é cego, a amizade fecha os olhos”, “O amor é cego, mas vê muito longe”, “O amor não enxerga as cores das pessoas”, “O amor vem da cegueira, a amizade do conhecimento”, “Quem anda cego de amores não vê senão flores”, “Quem o feio ama, bonito lhe parece”.
O provérbio “O amor é cego” é muitas vezes atribuído ao filósofo grego Platão (427-348 aC), porque em “As Leis” escreveu “Aquele que ama é cego para o que ama”. No entanto, é errado, atribuir às palavras de Platão o significado que o provérbio tomou, porque naquele texto, o filósofo fala de amor-próprio como fonte de erro.
 “Amor é cego” é o título do soneto 137 de William Shakespeare (1564-1614) cuja primeira quadra traduzida pelo poeta António Simões nos diz que: “Tolo e cego Amor, a meus olhos que fazes agora, / Que eles olham e não vêem o que a ver estão? / Conhecem a beleza e onde ela se demora, / Mas, o que é pior, por melhor tomarão.”
A cegueira do amor está também retratada no cancioneiro popular alentejano (2): “O Cupido anda às cegas, / Cahe aqui, cahe acolá; / Em má hora eu te amei. / Em má hora, hora má.”
 “O amor é cego e vê” é o título de uma ária cantada por Tomás Alcaide (1901-1967) no filme “Bocage” a qual teve música de Afonso Correia Leite / Armando Rodrigues e letra de Matos Sequeira / Pereira Coelho. Roberto Alcaide (1903-1979), irmão de Tomás Alcaide tinha o hábito de afirmar que o boneco “O Amor é cego” tinha sido criado por Mariano da Conceição em homenagem ao irmão [Entrevista à barrista Maria Luísa da Conceição (1)]). Tal afirmação não tinha fundamento algum, já que a figura remonta ao séc. XIX e Mariano da Conceição nunca modelou “O Amor é cego”.

BIBLIOGRAFIA
(1) - MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
(2) - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses. 4 vol. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1902 (vol. I), 1905 (vol. II), 1909 (vol. III), 1012 (vol. IV).
Publicado inicialmente a 10 de Maio de 2019
Este texto integra o meu livro "BONECOS DE ESTREMOZ" publicado em 2018

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Do Carnaval à Quaresma - Notas de Literatura Oral


O Combate entre o Carnaval e a Quaresma (1559). Pieter Bruegel, o Velho (1526/1530–1569). Óleo
sobre madeira (164,5 x 118 cm). Museu de História de Arte, Viena. Do lado esquerdo, obeso, o
príncipe Carnaval que representa supostamente os protestantes, ao passo que à direita, o
indivíduo magro e triste, encarna os católicos.

A ACÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
A Quaresma é o período de quarenta dias que antecipam o Domingo de Páscoa, durante o qual se comemora a ressurreição de Jesus Cristo, que segundo a Igreja, passou quarenta dias no deserto, em jejum e oração, como preparação para a vida pública.
A Quaresma começa na quarta-feira de cinzas e termina na chamada Quinta-Feira Santa, data da celebração da última ceia de Jesus Cristo com os doze apóstolos. Após a Quaresma, inicia-se o chamado Tríduo Pascal, que finda no Domingo de Páscoa.
Na prática, o tempo de Quaresma são quarenta e sete dias, já que de acordo com o Cristianismo, o domingo, dedicado já como dia do Senhor, não é contado durante a Quaresma.
Durante a Quaresma, a Igreja convida os fiéis a um período de penitência e de meditação, através da prática do jejum, da esmola e da oração, como preparação para o Domingo de Páscoa.
Qual a origem da Quaresma? Em 313 da era cristã, o imperador romano Constantino, promulgou o Édito de Milão, que declarava a religião Cristã como legal e dotada de plena liberdade, ao mesmo tempo que anulava o vínculo até então existente entre o Estado Romano e a Religião pagã. Como consequência desse Édito, os templos e outros bens imóveis confiscados aos cristãos, foram devolvidos. Multidões de pagãos quiseram então entrar na Igreja. Foi assim que no séc. IV d. C, a Igreja criou a Quaresma.
O período de três dias que precedem a Quaresma é conhecido por Entrudo (Do latim introitus, -us, entrada, começo) ou Carnaval (Do francês carnaval, do italiano carnevale, de carnelevare, retirar a carne) e nele decorrem alegres brincadeiras e festas populares, que assumem múltiplas formas.
Apontado por muitos como tendo uma remota origem pré-cristã, o Carnaval assumiu importância no séc. IV d.C., quando a Igreja Católica, estabeleceu a Semana Santa antecedida dos quarenta dias da Quaresma. Um período de tão longa penitência e privações, incentivaria a realização de festas populares nos três dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma. Os três dias de Carnaval são conhecidos por dias gordos, especialmente a Terça-feira gorda.

ONOMÁSTICA E ALCUNHAS ALENTEJANAS
A onomástica portuguesa não permite que alguém tenha como nome próprio, “Carnaval” ou “Entrudo”. Permite todavia que alguém, homem ou mulher use o nome “Quaresma”, como segundo elemento do nome, podendo até o termo “Quaresma” ser pronome de família. [4] [6] Todavia o sábio povo alentejano soube tornear o problema, através da atribuição de alcunhas alentejanas: São conhecidas as seguintes:
- CARNAVAL – O visado nasceu em dia de Carnaval (Redondo e Castro Verde). [13]
- ENTRUDO – Alcunha atribuída em Reguengos de Monsaraz. [13]
- ENTRUDO CASTELHANO - alcunha aplicada em Moura. [13]
- QUARESMO(A) - alcunha outorgada em Avis e Grândola. [13]

TOPÓNIMOS E CALÃO
São desconhecidos topónimos [3] e praticamente desconhecidos termos de calão, tendo por base as palavras “Carnaval”, “Entrudo” e “Quaresma”. [7][9][10][12][14]. Todavia, o termo “Carnaval” é sinónimo de orgia [2] e designativo de tudo o que dá para a galhofa. [15] Por sua vez, no calão transmontano, “Entrudo”, designa uma pessoa gorda. [15]

SUPERSTIÇÕES POPULARES
São significativas as superstições populares relativas ao "Carnaval" e à "Quaresma". Destacamos algumas:
- “Não se deve fiar na Terça-Feira de Carnaval, porque isso seria fiar as barbas ao Entrudo. Se alguém fosse visto fazendo isso em tal dia, não passaria sem ver a roca e o fuso queimados.“ [17]
- “Na Quarta-Feira de Trevas não se deve fiar depois do pôr-do-sol, porque foi então que os Judeus fiaram as cordas com que prenderam Nosso Senhor Jesus Cristo.” [17]
- “É bom em Quarta-Feira de Trevas pôr um ferro sobre a ave que choca ovos, para que estes não gorem.” [17]
- “Desde Quarta-Feira de Trevas até à hora da Ressurreição de Sábado d'Aleluia não se deve secar roupa porque ela apareceria com pintas de sangue.” [17]
- “É um preservativo para afugentar as trovoadas, queimar palma benta em Domingo de Ramos e espalhar o fumo pela casa.” [17]
- “Quando fazem trovões, para que não aconteça mal algum, é bom acender um coto de vela, que tivesse estado aceso nalguma igreja em Quinta-Feira ou Sexta-Feira Santa.” [17]
- “No Sábado de Aleluia, é bom furtar-se água da pia de baptismo de uma igreja; três gotas desta água deitadas no comer livram de feitiços a quem as toma, mas há-de ser depois de o comer ser tirado do lume, porque antes é pecado.” [17]

ADIVINHAS
As adivinhas são outro elemento importante da nossa literatura oral, com presença significativa no período que temos vindo a abordar. Curiosamente não conseguimos localizar adivinhas relativas ao "Entrudo" ou "Carnaval", mas são múltiplas, aquelas cuja solução óbvia é “A Quaresma”:

“Posto que velha me vejas,
Já fui moça e sou formosa;
Deu-me o céu, em sete filhas,
Descendência venturosa.

Cinco destas são mui justas;
Uma por santa se exalta;
A mais velha é muito boa,
Teve contudo uma falta.

Todo o mundo nos tributa
Mais ou menos atenções;
Trata a todos com respeito.
Segue as nossas devoções.” [5]

“Sou uma velha, muito velha,
Com o ranço na garganta;
De sete filhas que tive
Só uma me saiu santa.” [5]

“Uma mãe com sete filhas: uma com faltas, cinco justas e uma santa. Qual é a mãe?” [5]

“Uma mãe com sete filhas:
Cinco justas,
Uma santa
E outra com falta” [11]

“Sete irmãs são,
uma é santa
e seis não.” [16]

O ADAGIÁRIO PORTUGUÊS
É interessante o adagiário relativo ao "Entrudo" ou "Carnaval". Como se trata de um período de certa licenciosidade, que é ansiosamente aguardado, o Povo sabe contar os dias:
-”Dos Santos ao Natal, cada dia mais mal; do Natal ao Entrudo, come-se capital e tudo.”
-”Do Natal ao Entrudo é um mês, quem bem contar sete semanas lhe há-de achar.”
-”Esta vida são dois dias e o Carnaval são três.”
-”Do Carnaval à Páscoa vão sete semanas.”
Há adágios que exprimem bem as características especiais de que se reveste a quadra festiva:
-”É Carnaval, ninguém leva a mal.”
-”No Carnaval nada parece mal.”
-”Em dia de Entrudo não há querela.”
-”No Entrudo, come-se tudo”.
-”Farta-te gato, que é dia de Entrudo.”
-“Namoro de Carnaval, não chega ao Natal.”
-”Alegria, Entrudo, que amanhã será cinza.”
-“O Entrudo, leva tudo.”
A observação do céu levou a criação de máximas relativas à astrologia do tempo, como é o caso desta:
-”Não há Entrudo sem Lua Nova, nem Páscoa sem Lua Cheia.”
Os adágios tecem, por vezes, considerações de natureza meteorológica:
-”Entrudo borralheiro, Páscoa soalheira.”
-”Carnaval na eira, Páscoa à lareira.”
-”Entrudo borralheiro, Natal em casa, Páscoa na praça.”
Outras vezes é a própria fauna que é observada:
-”Pelo Entrudo – cartaxo penudo.”
O adagiário, dá de resto, orientações relativas ao trabalho:
-”No Natal, fiar; no Entrudo, dobar; na Quaresma, tecer; e na Páscoa, coser.”
Dá igualmente recomendações para a Agricultura:
-”Pelo Natal semeia o teu alhal, e se o quiseres cabeçudo, semeia-o pelo Entrudo.”
-”Quem quiser o alho cabeçudo, sache-o pelo Entrudo.”
-”Quem quiser o alho cachapernudo, plante-o no mês do Entrudo.”
A "Quaresma" é mais escassa de adágios que o "Entrudo" ou "Carnaval", já que sendo um período de penitência, é menos do agrado popular. Com fundamento religioso é conhecido o adágio:
- “A Quaresma é muito pequena para quem tem de pagar a Páscoa.”
Por lei geral da Igreja, os fiéis de mais de 14 anos, não dispensados, devem abster-se de comer carne em certos dias do ano. Em Portugal, são dias de abstinência a Quarta-Feira de Cinzas e as sextas-feiras do ano que não coincidam com solenidades litúrgicas. Desta tradição penitencial da Igreja, nasceu o adágio:
- “Salmão e sermão têm na Quaresma a sua estação.”
A disciplina penitencial podia ser quebrada por Indulto Pontifício através duma licença canónica, a chamada Bula, que permitia comer carne nos dias de abstinência, mediante o pagamento de dinheiro que visava segundo a Igreja, a fundação e manutenção dos seminários. Assim, os ricos que já podiam comer carne todos os dias, também podiam pagar a Bula à Santa Sé, para comerem carne pela Quaresma. Pagavam à Igreja pelo pecado e eram abatidos da lista dos que iam para o Inferno. Daí que haja adágios que, como profunda crítica social, relatam a opinião dos pobres:
- “A Quaresma e a cadeia para o pobre é feita.”
- “A Quaresma e a cadeia para pobres é feita.”
A Bula, como forma de indulto vigorava desde 31 de Dezembro de 1914 (Papa Bento XV) e só cessou com a nova disciplina penitencial decretada pela Constituição Apostólica Paenitemini, que trata do jejum e da abstinência na Igreja Católica e foi promulgada por Paulo VI, em 1966.

CANCIONEIRO POPULAR
O Entrudo, de que o povo muito gosta, é um período de excelência gastronómica, cuidadosamente preparado:

“Eu hei-de mandar fazer,
Que eu não posso fazer tudo,
Uma ponte de filhoses
Para passar o Entrudo.” [8] – Castro Verde

O Entrudo é, naturalmente, um período de divertimento popular, considerado curto:

“Divertimos o Entrudo
Que se nos vai acabando;
Sabe Deus quem chegará
Desde que vem a um ano.” [8] – Castro Verde

Com o Entrudo, termina a gastronomia de excelência e entra-se na Quaresma, que exige penitência:

“Já lá se vai o Entrudo
Com galinhas e capões;
Agora vem na Quaresma,
Estudam-se as orações.” [8] – Vila Verde de Ficalho

“Já se acabou o Entrudo,
Já não se fazem funções;
Agora vem a Quaresma:
Calabaças com feijões. [8] – Alandroal

O povo, que gosta do Entrudo, refere o fim deste, de uma forma algo mordaz:

“Aí vai já o Entrudo
Pelo caminho do poço;
Vai gritando em altas vozes
Que lhe cortaram o pescoço.” [8] – Castro Verde

Todavia, para gáudio do Povo, decorrido um ano, aí estará de novo o Entrudo, qual Fénix renascida das cinzas.

Pulicado pela primeira vez em 10 de Fevereiro de 2011

BIBLIOGRAFIA
[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho - Editor. Lisboa, 1901.
[2] - BÍVAR, Artur. Dicionário Geral e Analógico da Lingua Portuguesa. Lello e Irmão, editores. Porto, 1948.
[3] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1981.
[4] – GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Volume 23. Editorial Enciclopédia, Limitada. Lisboa, s/d.
[5] - GUERREIRO, M. Viegas. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[6] - INSTITUTO DOS REGISTOS E DO NOTARIADO. Vocábulos admitidos e não admitidos como nomes próprios. [http://www.irn.mj.pt/sections/irn/a_registral/registos-centrais/docs-da-nacionalidade/vocabulos-admitidos-e/downloadFile/file/2010-09-30_-_Lista_de_nomes.pdf?nocache=1287071845.45]
[7] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[8] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983
[9] - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[10] - NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[11] - PIRES DE LIMA, Augusto C. O Livro das Adivinhas. 2ª Edição. Editiorial Domingos Barreira. Porto, s/d.
[12] - PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
[13] - RAMOS, Francisco Martins; SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[14] – SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[15] – SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
[16] - VIALE MOUTINHO, José. Adivinhas Populares Portuguesas. 6ª Edição. Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
[17] - PEDROSO, Consiglieri. Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos. Publicações D. Quixote. Lisboa, 1988.

Entrudo familiar. Augustus Earle (1793-1838). Aguarela sobre papel (34 x 21,6 cm).
 Biblioteca Nacional da Austrália, Canberra.

Carnaval. Capa da revista "Ilustração Portuguesa" nº 781, de 5 de Fevereiro de 1921,
com ilustração de Leal da Câmara (1876-1948).

Carnaval. Cartoon de Stuart de Carvalhais (1887-1961) na revista "Ilustração Portuguesa"
nº 524, de 6 de Março de 1916.

Carnaval. Capa da revista “Ilustração portugueza” nº 886, de 10 de Fevereiro de 1923,
com ilustração de Melendez.