segunda-feira, 25 de maio de 2020

Rainha Santa Isabel, Padroeira de Estremoz


Fig. 1 – Imagem da Rainha Santa Isabel venerada na cidade
de Estremoz. Foi oferecida à Capela da Rainha Santa Isabel
por D. João V, em 1729. Encontra-se actualmente na Igreja
de Santa Maria, no Castelo de Estremoz.

O FALECIMENTO DA RAINHA SANTA ISABEL EM ESTREMOZ
A Rainha Santa Isabel de Aragão (1270-1336), esposa de el-Rei D. Diniz (1261-1325), faleceu no Castelo de Estremoz, com 66 anos de idade, no dia 4 de Julho de 1336, de uma doença súbita surgida quando se dirigia para a raia em missão de apaziguamento entre o filho, D. Afonso IV (1291-1357), e o neto, Afonso XI de Castela (1311-1350). Contra o conselho de todos, D. Afonso quis cumprir o propósito de sua mãe ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara. A longa trasladação fez-se sob o sol aceso de Julho e, para assombro de todos, apesar dos grandes calores que se faziam experimentar, o ataúde exalava um perfume tão aprazível que "tão nobre odor nunca ninguém tinha visto", assim se lê na sua primeira e anónima biografia, conhecida por “Lenda ou Relação”, redigida imediatamente após a sua morte, por alguém que de perto com ela conviveu, provavelmente o seu confessor, Frei Salvado Martins, bispo de Lamego, ou então uma das donas de Santa Clara que a assistiram durante o tempo de viuvez.
As virtudes da Rainha, mais tarde considerada Santa, estiveram na origem da sua beatificação por Leão X (1475-1521), em 1516, com autorização de culto circunscrito à Diocese de Coimbra. Em 1556, o papa Paulo IV (1476-1559) torna extensiva a devoção isabelina a todo o Reino de Portugal. Seria o papa Urbano VIII (1568-1664), dada a incorrupção do corpo e o relato dos milagres, quem proclamaria em 1625, a canonização de Isabel de Aragão como Rainha Santa.

A IMAGEM DA RAINHA SANTA ISABEL
Entre igrejas, capelas e ermidas, Estremoz tem 22 edifícios religiosos onde se encontram expostas imagens religiosas que são objecto de culto pelos fiéis. Uma delas é a imagem da Rainha Santa Isabel (Fig. 1 e Fig. 2), Padroeira de Estremoz (Fig. 3), actualmente venerada na Igreja de Santa Maria, no Castelo. Esta imagem encontrava-se até há uns anos atrás na Capela da Rainha Santa Isabel, também no Castelo. A imagem, em madeira policromada, foi oferecida por D. João V (1689-1750), descendente em linha directa da Rainha Santa Isabel e que a seus pés orou, quando visitou a Capela com a sua esposa, D. Mariana de Áustria (1683-1754), em 30 de Janeiro de 1729. A Rainha veste o hábito de freira clarissa, tal como veio morrer a Estremoz. Todavia o véu branco é de viúva e não de clarissa. Na cabeça uma coroa aberta do tipo barroco e na mão um bordão de peregrina, ambos de prata. A mão esquerda segura o regaço, no qual se vêem rosas, alegoria ao lendário “Milagre das Rosas”.

A CONSTRUÇÃO DA CAPELA DA RAINHA SANTA ISABEL
É de salientar que pertenceu à Rainha Dona Luísa de Gusmão (1613-1666), mulher de El-Rei D. João IV (1604-1856), a ideia de adaptar a Capela, os supostos aposentos da Rainha Santa no Castelo de Estremoz, em acção de graças pela vitória do exército português sobre o exército espanhol, na batalha das Linhas de Elvas, travada a 14 de Janeiro de 1689. A Capela que ficou a cargo da Congregação do Oratório de São Filipe Néri, encontrou em El-Rei D. João V (1689-1750) um mecenas e foi sob a sua égide que se concluíram as obras da Capela em 1706.

A TRANSFERÊNCIA DA IMAGEM DA RAINHA SANTA PARA O CONVENTO DOS CONGREGADOS
Durante a 1ª invasão francesa, as tropas napoleónicas, comandadas pelo general Loison (1771-1816), “O maneta”, saquearam a vila de Estremoz em 1808, com especial destaque para a famosa Sala de Armas de D. João V, no Castelo. A esse tempo já os Oratorianos tinham posto a salvo a Imagem da Santa, a sua Relíquia e alguns Vasos Sagrados que secretamente esconderam na sua Congregação. Todavia, os franceses conhecidos pelas suas profanações e impiedades, não só não profanaram a capela, como não tocaram numa única preciosa Alfaia ou Ornamento que ali se guardasse. Tal facto foi pela população atribuído a beneficência da mão de Deus pela intercessão da Rainha Santa.
A 3 de Julho de 1808, véspera da festividade da Rainha Santa, as tropas francesas evacuaram completamente a vila de Estremoz, após activarem minas para arrasarem a Torre da Menagem, o que arrasaria também a Capela da Rainha Santa, contígua à Torre. Para além da horrível explosão, as minas não produziram o efeito desejado, o que foi atribuído a Intervenção Divina, por empenho daquela Santa Advogada.

A TRASLADAÇÃO DA IMAGEM DA RAINHA SANTA PARA A SUA CAPELA
A 11 de Julho os nobres habitantes de Estremoz animados de espírito patriótico e tendo à cabeça o Juiz de Fora, Doutor António Gomes Henriques Gaio, animados de espírito patriótico, sacudiram o jugo do inimigo e entre mil vivas e demonstrações de júbilo, aclamaram como seu único e legítimo Soberano, Sua Alteza Real o Príncipe Regente. Disto chegou notícia ao general Loison que se encontrava na capital e que com infantaria, cavalaria e artilharia, partiu para o Alentejo, com o desígnio de entrar em Évora e em Estremoz e de não deixar pedra sobre pedra. Em Évora, Loison entrou a 29 de Julho, onde apesar da resistência militar e civil, terá saqueado a cidade, causando uma chacina que causou entre 2.000 e 8.000 mortos, conforme os autores, bem como 200 prisioneiros. Daqui se dirigiram para Estremoz, onde não tiveram a menor hostilidade nem com moradores, nem com as casas, nem com os seus bens, partindo depois para Elvas. Em tal facto, foi reconhecida novamente a Intervenção Divina, por empenho da Rainha Santa. Os Oratorianos decidem então promover uma solene e pomposa Festividade de Acção de Graças à Rainha Santa Isabel no dia em que a sua devota imagem fosse transportada para a sua Capela no Castelo, o que aconteceu a 29 de Outubro, dia em que a Igreja soleniza a trasladação do Venerável Corpo da Rainha Santa.
A 20 de Outubro iniciam-se na Capela da Senhora das Dores do Convento do Congregados, preces públicas com o Santíssimo Sacramento exposto, pela extinção dos inimigos do Reino, pela restauração da nossa Monarquia e pela vida e conservação do Príncipe Regente, as quais se repetiram nos dias seguintes até á véspera do dia destinado para a Festividade.
Na tarde do dia 28 de Outubro, a Capela da Senhora das Dores estava vistosamente adornada com a imagem da Rainha Santa colocada num andor, por debaixo de um rico docel. Um excelente coro e orquestra instrumental executaram com elegância uma sinfonia, finda a qual o Capelão deu início às Vésperas. À noite o Convento dos Congregados esteve iluminado, o mesmo se passando com as moradias do Rossio, tendo sido lançado também variado e vistoso fogo de artifício.
Na manhã do dia 29 de Outubro, continuou-se a venerar a Santa Imagem e pelas 11 horas, o Capelão deu início à Missa solene com o Santíssimo Sacramento exposto e com acompanhamento musical. Foi orador o Padre Luiz Marques, da Congregação do Oratório, que traduziu através de douto e emocionado discurso, o reconhecimento da população à Rainha Santa. A terminar, a elevação da Santa Hóstia foi acompanhada do lançamento de fogo de artifício no Rossio, a que correspondeu a guarnição do Castelo com uma salva de artilharia. A cerimónia terminou pelas 14 horas, iniciando-se pelas 16, a procissão que com pompa e circunstância trasladou através das ruas da vila, a sacrossanta imagem da Padroeira até à sua Capela no Castelo.
O desfile através das ruas da vila, iniciou-se com o lançamento de fogo de artifício no Rossio, a que respondeu uma salva de artilharia no Castelo. A Procissão, meticulosa e simbolicamente estruturada, dirigiu-se para a Capela do Castelo, onde a Imagem da Santa foi reposta no seu Altar, seguindo-se sermão de Frei José de Almada, continuado por cânticos, findos os quais a guarda militar disparou três descargas de mosquete, a que respondeu a guarda do Castelo com uma salva de artilharia.

A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS
A assinatura da Convenção de Évora Monte, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828-1834) entre liberais partidários de D. Pedro IV (1798-1834) e absolutistas partidários de D. Miguel (1802-1866), teve inúmeras consequências. Uma delas foi a extinção das Ordens Religiosas em Portugal. Esta reforma visava aniquilar o que se considerava ser o excessivo poder económico e social do clero, privando-o para tal dos seus meios de riqueza e da capacidade de influência política. Recorde-se que o claro português tinha apoiado em grande parte, o absolutismo e quem ganhou a Guerra Civil foram os liberais. Daí que o Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar (1792-1843), que viria a ser conhecido por “Mata Frades", redigisse o texto do Decreto de Extinção das Ordens Religiosas, assinado por Pedro IV e publicado em 30 de Maio de 1834. Por esse diploma, eram declarados extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares (art. 1º), sendo os seus bens secularizados e incorporados à Fazenda Nacional (art. 2º), à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam entregues aos ordinários das dioceses (art. 3º).
A extinção das Ordens Religiosas, entre elas a Congregação da Ordem do Oratório de S. Filipe Néri, teve reflexos a vários níveis. No caso da Capela da Rainha Santa Isabel, pelo facto de estar sob administração dos Oratorianos, o seu recheio foi posto em hasta pública, sendo a Capela encerrada de seguida.
D. Pedro V (1837-1861) teve consciência que estava em causa a manutenção do venerável culto da Rainha Santa, pelo que confirmou o compromisso da Irmandade da Rainha Santa, a qual recuperou os seus direitos de manutenção material e religiosa da Capela, que teve capelão de missa diária e tesoureiros privativos.

BIBLIOGRAFIA
(1) – CIDRAES, M. Lourdes. Os Painéis da Rainha. Edições Colibri/Câmara Municipal de Estremoz. Lisboa, 2005.
(2) – COSTA, Mário Alberto Nunes. Estremoz e o seu concelho nas “Memórias Paroquiais de 1758”. Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. XXV. Coimbra, 1961.
(3) – COSTA, Mário Alberto Nunes. Património Religioso de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2001.
(4) - ESPANCA, Túlio. Inventário Artístico de Portugal-Distrito de Évora, Vol.I. Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa, 1975.
(5) - MENDEIROS, José Filipe. RAINHA SANTA /Mãe da Paz, da Pátria e de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 1988.
(6) – RELAÇÃO DA POMPA E MAGNIFICÊNCIA COM QUE OS PADRES DA CONGREGAÇÃO DO ORATÓRIO DE S. FILIPPE NERI DA VILLA DE ESTREMOZ SOLEMNIZARÃO A TRASLADAÇÃO DA DEVOTA IMAGEM DE SANTA SABEL, RAINHA DE PORTUGAL, Para a sua Real Capela situada na Cidadella da mesma Praça de Armas; e dos motivos, que concorrerão para esta plausível Festividade. Imprensa Régia. Lisboa, 1808. (Fig. 4)


Fig. 2 – Imagem da Rainha Santa Isabel quando ainda se
encontrava na sua Capela. A escadaria que dava acesso ao
púlpito e que se vê à direita, também já não existe actualmente.
Cliché de Foto Tony, cerca dos anos 60 do século XX.

Fig. 3 – Rainha Santa Isabel, Padroeira de Estremoz.
Cliché de Foto Tony, cerca dos anos 60 do século XX.
 Fotomontagem mostrando a Rainha Santa pairando sobre
a cidade, numa nítida alegoria a ser sua Protectora.

Fig. 4 – Rosto duma brochura de 14 páginas de autor desconhecido
e editada pela Imprensa Régia em 1908, em Lisboa e na qual se relata
 a trasladação da imagem da Rainha Santa Isabel para a sua Capela a
 partir do Convento dos Congregados, em Estremoz, onde estivera
 escondida para escapar ao saque dos invasores franceses.  

sábado, 23 de maio de 2020

Alquimista e Templário




Há dias, alguém me perguntou com desdém:
- Então Hernâni, fizeste mais um livro?
É claro que eu não faço livros. Fazem-se filhos, mas livros não. Os livros nascem como as dores nas costas e as rugas, fruto do ciclo natural das coisas. Por vezes, a partir de quase coisa nenhuma. Todavia, o acumular de pequenas coisas, origina em certo momento um salto qualitativo e uma mudança de paradigma.
A procura incessante da Verdade, leva-nos a respigar, escavar, reciclar e destilar coisas, numa simbiose de Alquimista à procura da Pedra Filosofal e de um Templário em demanda do Santo Graal.
A procura da Verdade e, em particular, a reconstrução da Memória do Passado, é uma tarefa ciclópica, mas não é uma missão impossível, ainda que jamais venha a ter fim.
A procura da Verdade é um combate. Sempre que um combatente tomba, outros se levantarão com redobrado vigor, como elos duma cadeia que remonta aos tempos primordiais. Segundo reza a lenda, no acto de morrer, Spartacus terá proclamado:
- Voltarei e serei milhões!
A procura da Verdade é uma tarefa de espectro largo, que por um lado nos transporta do nível trivial do quotidiano, à profundidade das caganifâncias quânticas e, pelo outro nos catapulta à imensidão dos domínios astrofísicos.
A procura da Verdade será sempre uma missão que impomos a nós mesmos como livres pensadores. Haverá sempre momentos de encruzilhada, em que se formulará a inescapável pergunta de Lenine:
- Que fazer?
A única resposta possível é sugerida pelo poeta sevilhano António Machado:
……………………………..
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
………………………
Quando nos nasce um livro, o nado-vivo é o resultado de muitas caminhadas, muitas vezes acompanhado, mas a maioria das vezes sozinho. É esse o desafio. Caminhar sempre, sem parar.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O Dia da Espiga (2ª edição)

Esta é a 2ª edição do post, cuja 1ª edição, datada de 6 de Março de 2010, foi agora ampliada com diversas referências de literatura oral: adagiário português (4), superstições populares (6) e cancioneiro popular (1). Foram igualmente adicionadas, novas fontes bibliográficas (3).

Bilhete-postal ilustrado dos anos 20 do século XIX,
reproduzindo ilustração de A. Rey Colaço.

De acordo com o calendário litúrgico cristão, na Quinta-Feira de Ascensão comemora-se a ascensão de Cristo Salvador ao Céu, após ter sido crucificado e ter ressuscitado. Esta data móvel encerra um ciclo de quarenta dias após a Páscoa. Lá diz o adágio: "Da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão."
Na Quinta-Feira de Ascensão celebra-se igualmente o Dia da Espiga. Era tradição e igualmente superstição [2], as pessoas irem para o campo neste dia, para apanhar a espiga de trigo e outras plantas e flores silvestres. Faziam um ramo que incluía pés de trigo e/ou centeio, cevada, aveia, um ramo florido de oliveira, papoilas e margaridas.
O ramo tinha um valor simbólico. Simbolizava a fecundidade da terra e a alegria de viver. As espigas simbolizavam o pão e a abundância, as papoilas o amor e a vida, o ramo de oliveira a paz e as margaridas o ouro, a prata e o dinheiro.
Nalguns locais, o ritual da colheita da espiga era muito preciso. Na 5ª Feira de Ascensão, devia ir-se ao campo, do meio-dia para a uma hora, colher flores de oliveira, espigas de trigo e flores amarelas e brancas, tudo em número de cinco. Deviam rezar-se igualmente cinco Padres-Nossos, cinco Ave Marias e cinco Gloria Patres, para que durante o ano, houvesse sempre em casa, azeite, ouro e prata. [6]
De acordo com a tradição, o ramo devia ser pendurado dentro de casa, na parede da cozinha ou da sala, aí se conservando durante um ano, até ser substituído pelo ramo do ano seguinte. Havia a crença que o ramo funcionava como um poderoso amuleto que trazia a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Lá diz o adágio: "Quem tem trigo da Ascensão, todo o ano terá pão." E porquê? Porque se acredita naquilo que diz o cancioneiro popular alentejano:

"Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão." [4]

"Quinta-feira de Ascensão
As flores têm virtudes,
Quis amar teu coração,
Fiz empenho mas não pude." (Évora) [3]

Estava de resto, arreigada a superstição de que era bom colher certas flores e plantas medicinais na Quinta-Feira de Ascensão, antes do nascer do Sol. [2] Existia igualmente a crença de que os ovos postos pelas galinhas, entre o meio-dia e a uma hora da Quinta-Feira de Ascensão, nunca apodrecem e têm a virtude de curar doenças e suprimir dores. [2] Acreditava-se também que o queijo feito na Quinta-Feira de Ascensão era medicamento eficaz contra as sezões. [1] Existia ainda o convencimento de que o vento que na Quinta-feira de Ascensão, soprasse à uma hora da tarde, era o que sopraria durante todo o ano. Existia finalmente a convicção de que era bom comer carne na Quinta-Feira de Ascensão, de acordo com adágio:

“Em Quinta-Feira de Ascensão,
Quem não come carne
Não tem coração;
Ou de ave de pena,
Ou de rês pequena.” [2]

A origem festiva do Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-Feira da Ascensão, é muito anterior à era cristã. Na verdade, este dia é um sucessor claro de rituais pagãos, praticados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais de cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza. Neles se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, bem como a esperança nas novas colheitas. O Dia da Espiga era assim como que uma bênção aos primeiros frutos e marcava o início da época das colheitas.
A Igreja, à semelhança do que fez com outras ancestrais festas pagãs, cristianizou o Dia da Espiga. A data atravessa assim os tempos com uma dupla significação:
- como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias;
- como Dia da Espiga, traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

Bilhete-postal ilustrado do 2º quartel do século XIX, edição A.V.L. (Lisboa),
reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes (1872-1971).

Actualmente poucas são as pessoas que ainda se deslocam ao campo na Quinta-Feira da Ascensão para apanhar o ramo da espiga. Mas aquelas que vão, têm dificuldade em constituir o ramo, sobretudo pela dificuldade em recolher pés de cereal, raros a partir do momento em que os nossos agricultores receberam dinheiro de Bruxelas para deixar de cultivar. Apesar de tudo, há quem consiga cumprir a tradição. E há também quem faça negócio com a tradição, colhendo e vendendo ramos de espiga na cidade. Apesar do mercantilismo deste biscate em tempo de crise, é um contributo para a preservação da tradição. Actualmente, também são poucas as pessoas que se deslocam à Igreja para participar nos deveres religiosos inerentes à data. Todavia, houve tempos em que a data, das mais festivas do ano, era repleta de cerimónias sagradas e profanas, que chegavam a implicar a paralisação laboral. Existia mesmo a crença que em Quinta-Feira de Ascensão, os passarinhos não vão aos ninhos. [1] Daí também o adágio: “No Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos”, o que está de acordo com o cancioneiro popular:

“Se os passarinhos soubessem
Quando é dia d'Ascensão,
Nem subiam ao seu ninho,
Nem punham o pé no chão.” [5]

Existia igualmente a crença de que na Quinta-Feira de Ascensão, os pássaros não iam ao ninho desde o meio-dia até à uma hora, que era o período de orações nas festas da Igreja. Consta, que antigamente, finalizadas essas orações, era costume soltarem-se passarinhos do coro e das tribunas, e espargirem-se flores desfolhadas sobre os fiéis. [6]
Por vezes chove na Quinta-feira de Ascensão, o que originou a convicção de que em chovendo na tarde de Quinta-Feira de Ascensão, as nozes apodrecem e os frutos sairão pecos. [6] O adagiário, regista, de resto a crença de que “Água d'Ascensão, tira o vinho e dá o pão”, assim como “Chuvinha da Ascensão, dá palhinha e dá pão” e também “Quinta-feira da Ascensão, coalha a amêndoa e o pinhão”.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CHAVES, Luís. Páginas Folclóricas - I : A Canção do Trabalho. Separata do vol. XXVI da "Revista Lusitana". Imprensa Portuguesa. Porto, 1927.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, "Superstições Populares”, “O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Leite. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983.
[4] – SANTOS, Vítor. Cancioneiro Alentejano - Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[5] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
[6] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Adagiário de São Roque


São Roque (c. 1516). Iluminura do Missal de Joanna de Ghistelles, c. 1516:
Egerton MS 2125, f. 209 v.

Propus-me estudar o adagiário português dos Santos e dei conta desse estudo em três textos publicados sucessivamente:
Adagiário dos Santos - 3                 
Apesar da expressividade do culto a São Roque em Portugal, não conheço nenhum adágio português que faça referência ao dia de São Roque (16 de Agosto). Todavia, na tradição oral francesa, existem adágios que têm a ver com o calendário agrícola do mês de Agosto:
- À la Saint-Roch, grande chaleur prépare vin de couleur (Por São Roque, muito calor origina vinho de cor);
- À la Saint-Roch, les noisettes on croquet (Por São Roque comemos avelãs);
- Après la Saint-Roch, aiguise ton soc et chausse tes sabots (Depois de São Roque, afia a tua relha e calça os teus tamancos) - Diz-se aos lavradores, porque é chegado o momento de fazer os preparativos para as sementeiras de Outono;
- C'est saint Roch et son chien (É São Roque e o seu cão) – Diz-se de duas pessoas inseparáveis;
- La Saint-Roch annonce le temps d'automne (São Roque anuncia o Outono);
- Oncques pluye ne fict tord à la grand saint Roch en Retord (Nunca a chuva prejudicou o grande São Roque em Retord);
- Peigné comme saint Roch  (Pentado como São Roque) – Diz-se de alguém mal penteado;
- Qui aime saint Roch, aime son chien (Quem gosta de São Roque, gosta do seu cão) – Idem;
- Qui voit saint Roch, voit bientôt son chien (Quem vê São Roque, vê logo o seu cão) – Diz-se de duas pessoas que se seguem uma à outra;
-S'il pleu t à la Saint-Roch les truffes pousseront sur le roc (Se chover em São Roque, as trufas crescerão na rocha);
Não há adágios portugueses sobre São Roque, mas há adágios franceses. É caso para dizer:
- Quem não tem cão, caça com gato.



São Roque (1508). Iluminura do “Livre de prières de Madeleine d'Azay”, folha 27 r,
Manuscrito 355, Biblioteca- Mediateca de Nancy.

Cura de São Roque (15..). Iluminura do “ Livre d'heures à l'usage de Chalon”,
folha 108 v, manuscrito 6881, Biblioteca Municipal de Lyon.

domingo, 17 de maio de 2020

COVID - 19




Textos publicados no decurso da pandemia de COVID-19


Coronavírus COVID-19 (Blogue: 15 de Março de 2020)
Aos devotos de São Roque (Blogue: 19 de Março de 2020)
Bonecos de Estremoz e pandemia: São Roque (Blogue: 13 de Maio de 2020)
São Roque em Portugal (Blogue: 16 de maio de 2020)
Adagiário de São Roque (Blogue: 19 de maio de 2020)


Hernâni Matos

sábado, 16 de maio de 2020

São Roque em Portugal


São Roque (séc. XVII). Escultura em madeira policromada. Igreja de São Roque, Lisboa.

Início do culto a São Roque em Portugal
As primeiras notícias sobre os milagres de Santo Roque chegadas a Portugal remontam ao final do reinado de D. João II e ao início do de D. Manuel I. A devoção a São Roque expandiu-se através da fundação duma confraria que contava com a família real e a nobreza entre os seus membros. Desde então que a Irmandade de São Roque de Lisboa tem mantido vivo o culto a São Roque.
Em 1506 teve início a construção da Ermida de São Roque no exterior da Cerca Fernandina, perto do adro onde se sepultavam as vítimas da peste. A ermida foi consagrada pelo bispo em 1515 e nela se depositaram as Relíquias de São Roque cedidas ao rei D. Manuel I pelas autoridades venezianas. O adro foi consagrado em 1527. A ermida transformou-se num importante local de peregrinação, aonde acorriam peregrinos para cumprir as suas promessas.
Em 1553 a Companhia de Jesus tomou posse da Ermida e em 1556 decidiu avançar com a construção da Igreja de São Roque no local da Ermida.
A Irmandade de São Roque conseguiu subsistir à expulsão da Companhia de Jesus em 1759. Em 1990 transformou-se em Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa e em 2011 fundiu-se com a Real Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado.
Padroeiro de localidades
- VILAS: São Roque do Pico (Pico – Açores); - ALDEIAS: Gens – Foz do Sousa (Gondomar), Vilarinho de São Roque (Albergaria a Velha); - FREGUESIAS: Abrigada (Alenquer), Altares (Angra do Heroísmo), Cortes do Meio (Covilhã), Romarigães (Paredes de Coura), São Roque (Funchal), São Roque (Oliveira de Azeméis), São Roque (Ponta Delgada – Açores), São Roque do Faial (Santana – Madeira).
Padroeiro de profissões
São Roque é padroeiro de cirurgiões e deficientes, dermatólogos, padeiros, tratadores e treinadores de cães, curtidores de peles, cardadores, agricultores, viticultores e trabalhadores da pedra (canteiros, calceteiros e carreiros).
Protector
São Roque é invocado como protector: - Contra epidemias de peste, cólera, tifo, gripe espanhola, sida, etc. - Contra a silicose de canteiros, calceteiros e carreiros. - Contra doenças de animais (febre aftosa) e da videira (filoxera). – De cães.
Arquitectura
São Roque é um nome muito usado na designação de construções pertencentes aos vários tipos de arquitectura: - ARQUITECTURA CIVIL – Existem três Pontes ditas de São Roque: a que atravessa a Ribeira de Ovar, a que une as margens do rio Coa entre as freguesias de Castelo Bom e Mido e a que liga as duas margens do rio Tâmega em Chaves; - ARQUITECTURA MILITAR – Existe Forte de São Roque em Castelo de Vide e em Lagos (Meia Praia); - ARQUITECTURA RELIGIOSA – Tendo por orago São Roque existem: Ermidas (1), Capelas (59) e Igrejas (4). Destas últimas a mais importante é, sem dúvida, a Igreja de São Roque, em Lisboa.
Arte
São Roque tem conhecido entre nós e através dos séculos, múltiplas representações iconográficas: escultura em pedra ou madeira policromada, pintura, azulejaria e gravura.
Festas em Honra de São Roque
Têm lugar em 71 locais diferentes do país, com datas de realização e componentes profanas e religiosas igualmente variáveis de local para local. Pela importância de que se revestem são de referir aqui os festejos realizados em Lisboa.
Actualmente, a Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa celebra o seu Orago no primeiro Domingo de Outubro. As Festas em Honra de São Roque compreendem dois períodos: um de natureza cultural que ocorre no sábado e outro, de natureza espiritual, que sucede no Domingo.
Os festejos de Domingo iniciam-se com a Eucaristia na Igreja de São Roque, no decurso da qual está exposta a Relíquia do Santo Patrono. Durante a Missa são entoados os cânticos e o Hino de São Roque, e lido o texto do nono e último dia da Novena de São Roque.
A Eucaristia termina com a Bênção com a Relíquia, a distribuição do Pão de São Roque “que simboliza o alimento e o amparo da comunidade humana” e a entrega da Pagela, que todos os anos é editada para esta celebração e que, de forma iconográfica, recorda a figura do Santo e os seus atributos.
Ainda no primeiro domingo de Outubro, tem lugar a Procissão solene com a Relíquia de São Roque e a imagem do Santo Patrono, a qual sai da Igreja de São Roque, caminha pelas ruas do Chiado e dirige-se à Capela da Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado, no Arsenal da Marinha. De acordo com a Irmandade promotora, trata-se de “um acto de manifestação pública de fé, de peregrinação e de testemunho, mantendo vivo o culto a São Roque e divulgando as singulares obras de caridade e de misericórdia…”
Divisão Administrativa
O nome de São Roque figura na designação de concelhos, vilas, aldeias e freguesias: - CONCELHOS (1): São Roque do Pico (Pico); - VILAS (1): São Roque do Pico (Pico). – ALDEIAS (1): Vilarinho de São Roque (Albergaria a Velha); - Freguesias (4): São Roque (Funchal), São Roque do Faial (Santana), São Roque (Oliveira de Azeméis), São Roque (Ponta Delgada).
Toponímia
O nome de São Roque marca presença na toponímia portuguesa tanto a nível urbano como a nível rural: - A NÍVEL URBANO: altos (1), arraiais (1), avenidas (3), bairros (4), calçadas (2), caminhos (5), casais (1), corredouras (1), estradas (1), ilhéus (1), largos (14), loteamentos (1), miradouros (1) pracetas (1), quelhos (1), quintas (1), rampas (2), rotundas (1), ruas (70), terreiros (1), travessas (35), urbanizações (1) e vielas (1). - A NÍVEL RURAL: lugares (18).
Hidrografia
O nome de São Roque surge no âmbito da hidrografia para designar ribeiras e canais: - RIBEIRAS (3): Ribeira de São Roque (Angra do Heroísmo, Loures e São Roque do Pico). - CANAIS (1): Canal de São Roque (Aveiro).
Heráldica
A imagem de São Roque acompanhado pelo cão integra o brasão de armas das freguesias de São Roque do Faial (Santana) e Vila Chã de São Roque (Oliveira de Azeméis). O bordão de peregrino de São Roque com uma cabaça atada faz parte do brasão da freguesia de São Roque (Funchal).

São Roque (1517-1551)]. António de Holanda. Iluminura. Pintura a têmpera e ouro
sobre pergaminho (14,2x10,8 cm). Fólio 274. Livro de Horas de D. Manuel I.
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Aparição do anjo São Roque (1584). Gaspar Dias. Pintura a óleo sobre madeira
(350x300 cm). Igreja de São Roque, Lisboa.

Milagre de São Roque (1584). Francisco de Matos. Painel de azulejos (Fragmento).
Igreja de São Roque, Lisboa.

Gravura de São Roque datada de 1800, executada por Frei Mattheus da Assumpção
Brandão (1778-1837), com Impressão Régia de 1832 em Lisboa e que ilustra a
Novena do Glorioso S. Roque por occasião da Epidemia Cholera-Morbus no anno
de 1832. Offerecida, e celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa,
sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor: O senhor D. Miguel I”.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Bonecos de Estremoz e pandemia: São Roque


Fig. 1 - São Roque (Março de 2020). Ricardo Fonseca (1986- ).

Introdução
No início de Março de 2020 alastrou em Portugal uma pandemia de COVID 19. A sua passagem ficou assinalada por marcas profundas, tanto na malha urbana como no mundo rural.
A necessidade de contenção sanitária da pandemia obrigou ao confinamento social, alterou as relações interpessoais e a vida comunitária, o que teve reflexo no estado psicológico, no comportamento social, no trabalho, no culto religioso, nas actividades lúdicas, culturais e desportivas, nos transportes, no turismo, no rendimento de cada um e na economia em geral. De futuro, nada será como dantes e nós próprios não seremos os mesmos. A tragédia colectiva que temos vivido, constituirá assim um marco de referência na História da Humanidade.
Os barristas de Estremoz têm as suas oficinas fechadas e sem escoamento de produção. Porém, continuam a modelar o barro, com esperança no amanhã que tarda, mas que crêem que há de vir.
Como coleccionador e investigador da barrística popular estremocense, surgiu-me na mente a ideia de que poderia e deveria ser modelado um Boneco que perpetuasse no barro, a pandemia que atravessamos. Pensei imediatamente na figura de São Roque, invocado pela comunidade católica, como Santo Protector contra as epidemias e que não figurava ainda na galeria das imagens devocionais produzidas pelos barristas de Estremoz.
Telefonicamente, lancei ao barrista Ricardo Fonseca o repto de modelar a figura daquele Santo, o que ele aceitou sem hesitações, como é seu timbre. Dado que eu já investigara os atributos iconográficos a que deve obedecer uma representação de São Roque, enumerei-lhe esses atributos, indiquei-lhe as dimensões pretendidas e discutimos pormenores e cores. Foi uma discussão importante, já que eu era conhecedor da humildade e da simplicidade que são apresentados como apanágio de vida do Santo, o que excluía à partida uma representação barroca do mesmo, a qual seria ostensiva, desajustada e como tal desaconselhada. 
Como fonte de inspiração documental, enviei por email ao barrista a imagem de uma gravura de São Roque datada de 1800 (Fig. 1), executada por Frei Mattheus da Assumpção Brandão (1778-1837), com Impressão Régia de 1832 em Lisboa e que ilustra a Novena do Glorioso S. Roque por occasião da Epidemia Cholera-Morbus no anno de 1832. Offerecida, e celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor: O senhor D. Miguel I.”
Como é habitual no Ricardo, levou o seu tempo para satisfazer a encomenda. Lá diz o rifão: “Sem tempo nada se faz”. O resultado está à vista (Fig. 2). É caso para dizer: Missão cumprida!
Biografia
Roque terá nascido cerca de 1350 na cidade francesa de Montpellier. De acordo com a lenda, a pele do peito ostentava um sinal cruciforme avermelhado que era presságio de que viria a ser Santo.
Originário de uma família nobre, o seu pai, Jean Roch de la Croix era senhor de vastos domínios e desempenhava funções governativas na cidade. Sua mãe, Libéria, era natural da Lombardia.
Baptizado no santuário de Notre Dame des Tables, a sua infância decorreu num ambiente profundamente cristão.
Órfão de pai e mãe muito jovem, a sua educação foi confiada a um tio. Provavelmente terá estudado com padres dominicanos antes de cursar medicina na universidade local, ainda que não concluísse os estudos.
Desde muito cedo levou uma vida ascética e praticou a caridade. Ao atingir a maioridade por volta dos 20 anos, repartiu os seus bens entre os pobres e confiou uma pequena parte ao tio. Ter-se-á juntado à Ordem Terceira de São Francisco, envergado o traje de peregrino e partido em direcção a Roma.
Provavelmente terá tomado a rota francesa em direcção a Roma e ao chegar à comuna de Acquapendente, próxima de Viterbo, encontrou-a minada pela peste. Ofereceu-se de imediato como voluntário na assistência aos doentes, pondo em prática a formação médica que recebera. Usando o bisturi associado ao sinal da cruz, terá operado curas milagrosas. Por lá terá permanecido três meses, visitando depois Cesena, Mântua, Modena, Parma e muitas outras cidades e aldeias, nas quais ajudou e curou os doentes.
Terá permanecido vários anos em Roma, onde terá rezado diariamente sobre o túmulo de São Pedro e curado vítimas da peste no Hospital do Espírito Santo, o que levou o Papa Urbano V a conceder-lhe a indulgência plenária.
No regresso a Montpellier e quando prosseguia a sua obra de assistência em Piacenza, foi ele próprio atingido pela praga. Para não contagiar ninguém, isolou-se numa floresta próxima, onde de acordo com a lenda, teria morrido de fome se um cão não lhe trouxesse diariamente um pão retirado da mesa do dono e se da terra não tivesse brotado uma fonte de água para saciar a sede.
Miraculosamente curado, regressou a Montpellier que na época se encontrava em guerra. Tomado por espião, foi detido e levado para a prisão, onde passou 5 anos até morrer a 16 de Agosto de 1379, ainda jovem, abandonado e esquecido por todos. De acordo com a lenda, só revelou a sua identidade a um padre, um dia antes da sua morte.
O primeiro milagre póstumo que lhe é outorgado foi a cura do seu carcereiro, o qual coxeava e cuja perna foi milagrosamente curada ao tocar com ela no corpo de Roque, para averiguar se estaria realmente morto.
Só após a morte foi reconhecido pela cruz marcada no peito e piedosamente sepultado por um tio, embora os seus restos mortais tenham sido transladados para Veneza em 1483. Devido à fama dos inúmeros milagres que operara durante a sua permanência em Itália, as suas relíquias foram distribuídas pelas cidades de Antuérpia, Arles e Lisboa.
Canonização de São Roque
Entre 1414 e 1418 decorreu em Constança, o 16.º Concílio Ecuménico da Igreja Católica, que tinha como principal objectivo acabar com o cisma papel, já que havia três papas rivais, clamando legitimidade (Bento XIII, João XXIII e Gregório XII). A peste ameaçava então a Europa, pelo que os bispos conciliares autorizaram preces e orações populares em honra de São Roque. Consta-se que terão sido atendidos e o contágio pelo flagelo cessou. São Roque passou a ser objecto de intensa devoção popular que conduziu à sua canonização, sem ocorrer decisão eclesiástica nesse sentido.
Festa litúrgica
Os católicos crêem que todos aqueles que recorrem com fervor à intercessão de São Roque, são atendidos nas suas súplicas, daí que seja considerado um Santo Protector contra as epidemias. A sua memória litúrgica é celebrada a 16 de Agosto, dia da sua morte. Os ofícios eclesiásticos a serem recitados nesse dia, foram aprovados pelo papa Urbano VIII.
Expansão do culto de São Roque
O culto de São Roque inicia-se em Itália e dali estende-se à França e conquista a Europa através da Bélgica e dos Países Baixos. Atravessa o Oceano Atlântico e alcança as colónias portuguesas e espanholas na América do Sul, prolonga-se a África e propala-se aos EUA e ao Canadá.
O seu nome passa a integrar a divisão administrativa, a toponímia, a orografia, a hidrografia e a heráldica. É dado o seu nome a igrejas, capelas, ermidas e nichos. A sua memória é perpetuada em esculturas de pedra, madeira e outros materiais, pinturas, painéis de azulejos e vitrais. Através dos séculos é referido ou é objecto de inúmeras obras literárias. No romance “A peste” (1947), Albert Camus conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade no meio da peste que assolava a cidade de Oran na Argélia. Aí, as autoridades eclesiásticas decidiram lutar contra a epidemia, organizando uma semana de preces colectivas a terminar num domingo com uma missa solene, sob a invocação de São Roque.
O culto de São Roque está ligado às suas virtudes miraculosas e exalta o Santo como figura carismática que transmite na actualidade uma mensagem universal de generosidade e de paz. O seu culto tem assim uma dimensão internacional e intercontinental.
Atributos iconográficos
Habitualmente é representado como jovem, envergando o traje característico dos peregrinos de Santiago, constituído por uma túnica e capa, ambas de cor castanhas. Na aba da capa ostenta uma ou mais vieiras. Usa um chapéu de abas largas. É portador de um bordão, do qual pende uma cabaça. Uma das pernas está desnudada para serem visíveis os ferimentos da peste. É acompanhado por um cão, muitas vezes com um pão na boca.
Simbolismo dos atributos
Para a comunidade católica, os atributos iconográficos de São Roque encerram em si um profundo simbolismo: - O TRAJE CASTANHO – É a cor da terra e simboliza a humildade, a simplicidade e a pobreza de São Roque, ao optar por distribuir os seus bens aos pobres e tornar-se peregrino e missionário. - O BORDÃO – Serve de apoio e dá segurança nas caminhadas. São Roque foi peregrino e missionário, pelo que é portador de um bordão que simboliza ainda a palavra e a presença de Deus, nas quais se apoiava. - A CABAÇA – Serve para transportar água numa caminhada e evoca a fonte e a água que São Roque bebeu até ficar curado. Simboliza também o dom de cura concedido pelo Espírito Santo que agia através de São Roque. - A FERIDA NA PERNA – Simboliza o sofrimento de São Roque no decurso da sua doença. Simboliza igualmente a doença, a dor e o sofrimento humano. - O CÃO AO LADO DE SÃO ROQUE - Lembra o cão usado por Deus para socorrer São Roque no decurso da doença. Expressa ainda a providência divina que pelos mais diferentes meios, concede o que é preciso. É igualmente um incentivo para que se confie na providência divina, que não abandona ninguém e está atenta às suas necessidades.

Estremoz, Março de 2020
(Jornal E nº 246, de 14-05-2020)

Fig. 2 - Gravura de São Roque datada de 1800, executada por Frei Mattheus da
Assumpção Brandão (1778-1837), com Impressão Régia de 1832 em Lisboa e que
ilustra a Novena do Glorioso S. Roque por occasião da Epidemia Cholera-Morbus
no anno de 1832. Offerecida, e celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa
sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor: O senhor D. Miguel I.” Imagem
recolhida com a devida vénia na Irmandade da Misericórdia e de São Roque, de Lisboa.