domingo, 20 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 4

 

Figuras de presépio de maquineta da autoria de Ricardo Fonseca. Pastor ofertante
(5,8 cm),  pastora ofertante (5,4 cm), vaca (3,8 cm), burro (3,5 cm) e ovelha (2,7 cm).
Colecção Hernâni Matos.


Figuras de Presépio de maquineta

Uma maquineta de Presépio é um armário ou caixa de tamanho variável, a qual guarda e protege figuras de Presépio, tanto da poeira como do manuseio.

As maquinetas de Presépio têm origem conventual, uma vez que o conceito, a técnica de fabrico e a estética destas peças, nasceu e desenvolveu-se nos conventos femininos portugueses no decurso dos séculos XVII e XVIII.

São conhecidas maquinetas de diferentes épocas, tipologias e materiais.

Podem assumir a forma de armário em madeira entalhada, pintada ou dourada, com uma frente e até mesmo as partes laterais envidraçadas, permitindo a visualização do interior. O armário aloja uma cenografia relativa à Natividade, com figuras de Presépio, que no caso que nos interessa, são minúsculos Bonecos de Estremoz.

Podem ainda adoptar a forma de caixa de vidro com geometria variável assente numa base de madeira com pés, em cujo interior uma cenografia alusiva à Natividade enquadra figuras de Presépio, os quais podem ser minúsculos Bonecos de Estremoz.

As maquinetas de Presépio são simultaneamente objectos de devoção doméstica e peças decorativas de prestígio e mesmo objectos de luxo, comuns em antigas casas senhoriais ou em lares burgueses.

O facto de as figuras de Presépio de Estremoz que integram maquinetas terem dimensões minúsculas, levam-me a classifica-las como Bonecos de Estremoz liliputianos.


Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado (1937-2019) com Presépio
 de Bonecos de Estremoz liliputianos, incluindo cenas de Natividade,   Adoração dos
Magos  Adoração dos Pastores, da autoria das  Irmãs Flores. 25 x 14 x 20 cm. 
Colecção Hernâni Matos.

Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado
(1937-2019) com Menino Jesus liliputiano da autoria das Irmãs
Flores. 13,3 x 6,8 x 14,2 cm.
Colecção Hernâni Matos.

Pucarinhos de Estremoz - Luís Brito da Luz



Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ I

Bocas ásperas, pegajosas, sequiosas
A saliva ainda no estado de dormência
Gretados lábios rogam forte clemência
A seca língua c’as papilas ansiosas.

Feroz desejo pelas puras águas límpidas
Ocultadas no silêncio de seu ninho
Em sobressalto p’ra sair do pucarinho
E saciar a sede, àquelas almas ríspidas.

Fonte d’vida fresca a brotar do barro fino
Saboroso e oloroso, místico, divino
Como só a cândida cidade branca o tem.

Não há no mundo um pucarinho assim igual
Que torna esta linfa sublime, colossal
Ignorado das boas bocas de ninguém.

Estremoz - 11.09.2026
Luís Brito da Luz


PUCARINHOS DE ESTREMOZ II

Sobre a rica mesa dos Reis de Portugal
Lado a lado com os faustosos ouro e prata
Um pucarinho de linhagem bem barata
C’humildade, mais parece o Santo Graal.

Com a chancela da cidade de Estremoz
Nascido do vermelho barro ali presente
O vate Camões, nas cartas, consciente
Exalta as belas virtudes, de viva voz!

Mas a glória não se esgota no poeta
Gil Vicente com a sua escrita completa
Dos púcaros fala, c’inquieta emoção.

O nome da cidade entrou nas caravelas
Carregado por estas peças mais singelas
E aqui preservado no nosso coração.

Estremoz - 12.09.2026
Luís Brito da Luz

PUCARINHOS DE ESTREMOZ III

Famosos búcaros, na Espanha bem lendários
Benquistos a valer, de modo singular
Seus dons curativos, ninguém pôde negar
Bons predicados, destes barros centenários.

Exaltados por D. Filipe, El-Rei O Prudente
Por Velázquez coloridos com talento
Perduram naquele magnífico momento
Com as Meninas, companhia tão luzente!

Francisco Quevedo, satírico e mordaz
Ilustrava sua beleza que é fugaz
Que a vida é frágil e o humano ser vaidoso.

Lope de Vega, também Góngora afamaram
Nos seus dramas e poemas elogiaram
Este presente de Deus Padre, sumptuoso!

Estremoz - 15.09.2026
Luís Brito da Luz



Publicado inicialmente em 20 de Setembro de 2026


#Poesia Portuguesa - 223

sábado, 19 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 3

 

Enfeite de rolha - Bailadeira (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.



Enfeites de rolha

Uma garrafa vale por si, não só pela elegância da sua morfologia, como pela beleza da sua decoração ou pela harmonia do seu cromatismo. Todavia e para além disso, uma garrafa vale igualmente pelo líquido que encerra em si. Tanto pode ser um vinho solarengo e telúrico, como uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho ou um licor aveludado e envolvente.

A conservação do tempo e da alma do conteúdo de uma garrafa exige que esta seja selada com a nobreza da cortiça alentejana, o que é concretizado através de uma rolha.

Alguns barristas de Estremoz têm criado enfeites de rolha com cabeças de figuras que integram o Figurado de Estremoz e reflectem a identidade cultural alentejana.

Os enfeites de rolha que ilustram o presente texto, foram criados pela barrista Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e têm cerca de 5 cm de altura, pelo que podem ser considerados Bonecos de Estremoz liliputeanos. São eles: Bailadeira, Camponês e Preta. Remontam todos a 2015 e pertencem à colecção particular de seu filho, Mestre Jorge da Conceição. 



Enfeite de rolha - Camponês (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.

Enfeite de rolha - Preta (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)


01 - José Carrilho Troncho (1910-2003).

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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Cortesia do Arquivo Fotográfico da CME (Joaquim Carriço Rolo)
e Luís Dias (peças).


5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)

Natural da freguesia de Santa Eulália (Elvas) onde como camponês fez de tudo um pouco. Começou como ganhão e acabou como guarda de herdade.

Após a aposentação, começou a esculpir na madeira a ruralidade que lhe ia na alma, para o que se servia de uma navalha e de uma grosa.

Os seus trabalhos têm a ver com o seu dia a dia de camponês. Em primeiro lugar os animais (boi, cavalo, porco, bode) e depois as alfaias agrícolas e os vários tipos de carros de tracção animal. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 até 1991.

Em Estremoz tinha fixado residência na casa de seu filho na Rua de Macau no Bairro da Mata, onde gostava de trabalhar ao ar livre, o que era muito apreciado pelas crianças da Escola Primária vizinha, onde se deslocava por vezes a convite das professoras, para transmitir aos mais novos as suas vivências e o seu saber-fazer de artesão.

Hernâni Matos

02 - Carroça com condutor, puxada por parelha de muares. Madeira, pregos de ferro,
arame de ferro e tira de couro. 13 x 22 x 8 cm.

03 - Arado puxado por junta de bois. Madeira, pregos de ferro, arame de ferro, 
folha de Flandres e tira de couro. 9 x 24 x 10 cm.

04 - Cavalo. Madeira e pregos de ferro (olhos). 8,5 x 12 x 3,5 cm.

05 - Bode. Madeira (corpo do bode e chocalho, pregos e ferro (olhos) e tira de couro
(suspensão do chocalho). 8 x 9 x 3 cm.

06 - Touro. Madeira, pregos de ferro (olhos) e ráfia (cauda). 6 x 12 x 3 cm.

07 - Porca. Madeira e pregos de ferro (olhos). 6 x 12 x 3,5 cm.

08 - Porco. Madeira e pregos de ferro (olhos). 3,5 x 7,5 x 2,5 cm.

Publicado no jornal E nº 386, de 21 de Setembro de 2026

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 2

 

Ganchos de meia. Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Hernâni Matos.

Ganchos de meia
Uma tipologia muito especial de Bonecos de Estremoz são os chamados ganchos de meia. Trata-se de Bonecos de Estremoz minúsculos, que as mulheres das nossas famílias usavam quando faziam croché ou tricotavam peças de vestuário, de lã ou algodão, como era o caso das chamadas “meias de cinco agulhas”. Trata-se de figuras antropomórficas, nas quais a cabeça apresenta cabelo, olhos, boca e rosetas pintadas e o nariz é uma pequena saliência. Em todas elas figuram dois ganchos de arame no tronco. Um à frente, virado para cima, para nele passar o fio, que do novelo pode ser redireccionado para as agulhas. O outro nas costas, virado para baixo, para pregar na blusa ou no vestido da mulher, na parte superior do peito, geralmente do lado esquerdo. 
Devido às suas pequenas dimensões nunca apresentam marcas de autor.
Os que apresento na figura, foram modelados pela barrista Liberdade da Conceição (1913-1990) e são todos figuras antropomórficas. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, são sucessivamente: Nossa Senhora, Freira de Malta, Senhora de pezinhos, Peralta e Sargento.
Trata-se de figurinhas de cerca de 5 cm de altura, que pelas suas diminutas dimensões podem ser considerados Bonecos de Estremoz liliputianos.

Hernâni Matos


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 1

 

Fig. 1 -  Sargento. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.
8,7 cm de altura. Colecção Hernâni Matos.


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No reino de Lilliput

O reino de Lillput é uma ilha fictícia e o primeiro destino visitado pelo personagem principal Lemuel Gulliver no famoso romance satírico As Viagens de Gulliver, publicado em 1726 pelo escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745).

Nessa ilha, Gulliver é confrontado com uma população de pessoas minúsculas, com menos de seis polegadas de altura (cerca de 15 cm), chamadas liliputianos, que o tomaram por gigante.

Tudo o que é pequeno tem graça

Seja por convicção veiculada pelo adágio de que “Tudo o que é pequeno tem graça”, seja pela maior facilidade de arrumação por parte de coleccionadores, visto ocuparem menos espaço, o que é verdade é que existem no Figurado de Estremoz, exemplares que podem muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz liliputianos [1]. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.

O exemplar mais antigo que tenho na minha colecção é um Sargento. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX, com 8,7 cm de altura (Fig.1).

Entre os mais recentes e todos da autoria das Irmãs Flores, destaca-se um Lanceiro com 9 cm de altura da autoria de Perpétua Sousa (1958- ), o qual ostenta na base a marca manuscrita TeTA / 23-1-1985 [2], distribuída por duas linhas, gravada no barro há 41 anos. Como o tempo passa depressa.

De salientar que a modelação de figuras minúsculas em barro exige bastante do sistema neuromuscular, nomeadamente uma enorme destreza manual e uma enorme coordenação motora fina, a que há que juntar uma coordenação excepcional entre a visão e o tacto.

Um Boneco de Estremoz liliputiano exige menos barro para ser modelado, mas em contrapartida exige mais tempo e cuidado na sua execução, pelo que o seu custo de produção tem que ser necessária e compreensivelmente valorizado.

Hernâni Matos



[1] Os Bonecos de Estremoz liliputianos aqui apresentados pertencem ao núcleo central do Figurado de Estremoz. Todavia, há outras tipologias de Bonecos de Estremoz com dimensões que os levam a considerar igualmente liliputeanos. Caso dos ganchos de meia, enfeites de rolha, figuras de Presépio de maquineta e figuras de assobio de alguns barristas de Estremoz.

[2] Esta marca não integra o inventário das marcas de autor dos bonequeiros de Estremoz patente no meu livro Bonecos de Estremoz. Edições Colibri. Póvoa de Varzim e Estremoz, Outono de 2018. Foi descoberta recentemente pelo meu amigo Joaquín Morales Leyva, um coleccionador, barrista e pescador à linha na internet de Figurado de Estremoz, discípulo de Mestre Jorge da Conceição e tudo. O Joaquín comprou um lote de Bonecos de Estremoz lilliputeanos com aquela marca e teve a gentiliza de me oferecer um deles, o que muito me congratulou e esteve na origem do presente texto. Sobre o Joaquín já publiquei neste blogue o texto Bonecos de Estremoz, de Joaquín Morales Leyva , cuja leitura sugiro. 

~
Fig. 2 - Lanceiro. Perpétua Sousa (1958-    ). 9 cm de altura.
Colecção Hernãni Mato
s.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Figurado de Estremoz - Luís Brito da Luz



Luís Brito da Luz



FIGURADO DE ESTREMOZ - PREÂMBULO

Outrora, na singela travessa do Outeiro
Numa despojada casinha bem caiada
Com a última das bonequeiras já finada
Morreu o vetusto figurado por inteiro.

Em boa hora aqui chegou, grande escultor
José Maria de Sá Lemos de seu nome
Que recuperou este fabrico de renome
Na escola de Artes e Ofícios, director.

E c’ajuda de uma velhinha bem lembrada
Com teimosia, que ficou bem preparada
Os velhos bonecos voltaram a nascer.

O penoso caminho ficou assegurado
Pelo Mestre Alfacinha bem foi modelado
Antes da secular Glória, um bem sofrer!

Estremoz - 3.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ  I

Secular arte genuína Estremocense
Em barro, com muita elegância plasmado
Pelas finas mãos destas gentes bem tratado,
Bonecos brotam do talento que convence.

Em setecentos, na alvorada desta prática
Iniciaram as antigas bonequeiras
Técnica ímpar, da qual foram pioneiras
Precursoras desta única, distinta fábrica.

Bem inculcada de geração em geração
Modelada com total zelo em comunhão
Expressão plena da identidade cultural.

No âmago d’esta cabal terra, singular
No íntimo deste povo tão peculiar
Nossa pura alma aqui se torna natural
.

Estremoz - 30.08.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ  II

Finos bonecos apurados, elegantes
Por mãos diferentes, criados com esmero
Paciente labor mimoso, assaz, sincero
Peças singulares de colecção, brilhantes!

Três geometrias bem distintas e claras
Bola, Rolo, Placa, dimensões diferentes
A partir destas boas bases bem presentes
O todo criado origina peças raras.

Os avoengos bonecos de tradição
C’os hodiernos bonecos de inovação
Fecham a galeria desta identidade.

C’a dual matriz tão sagrada e bem profana
Riqueza cultural desta gente humana
Herança imaterial da humanidade.

Estremoz - 01.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ III

Na galeria dos bonecos da cidade
Graciosas peças figuram sem igual
As de pendor religioso, inicial
De devoção particular, uma beldade!

Os presépios, à cabeça, em patamares,
Com a tríade d’Magos, o nível mais alto
Sagrada Família, impune ao sobressalto
Na base, adoram pastores destes lugares.

Também o Santo António muito querido
E João Baptista, Santo bem escolhido
Santificadas devoções nestas paragens.

A Senhora da Conceição de Portugal
C’Isabel d’Aragão, Santa Alteza Real
Piedoso fervor de fé nestas Imagens.

Estremoz - 05.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ IV

Na colecção do figurado de Estremoz
Sobre a alegre temática do Carnaval
Negros e alegorias, d’pendor original
Aprimoram esta tradição d’viva voz.

Amor supremo sempre d’olhos bem vendados
Paixão intensa c’o trespassado coração
Toucado ornado com plumas de feição
Numa mão flores, elementos adorados.

E o que dizer da deliciosa Primavera?
De arco ou de plumas, natural desta terra
C’a Bailadeira, num duo bem magistral.

Os escravos que por aqui também andaram
No bom barro, carimbo seu também deixaram
Pretas Floristas de baptismo cultural.

Estremoz - 07.09.2026
Luís Brito da Luz


Publicado inicialmente em 4, 9 e 19 de Setembro de 2026

#Poesia Portuguesa - 222