quinta-feira, 22 de julho de 2021

António Carmelo Aires e a Cerâmica de Redondo


António Carmelo Aires. 


CERÂMICA DO REDONDO - UM OUTRO OLHAR, é o título da obra de António Carmelo Aires, lançada pelas dezoito horas do passado sábado, dia 16 de Julho, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
A sessão de lançamento do livro foi dirigida pelo Presidente da Câmara Municipal, que tinha à sua esquerda e sucessivamente, o autor e o Presidente da Junta de Freguesia de Redondo. Por sua vez, à direita do Presidente, encontravam-se sucessivamente a Directora Regional de Cultura do Alentejo e o prefaciador do livro.
O evento abriu com uma intervenção do Presidente da Câmara, à qual se seguiram as intervenções do prefaciador, da Directora Regional de Cultura e do autor.
A cerimónia terminou com uma sessão de autógrafos.

A obra
A obra abre com Agradecimentos do autor, a que se segue um excelente Prefácio da autoria de Hugo Guerreiro, Historiador e Museólogo, que nos diz que: “Dificilmente um investigador deixará de analisar um trabalho em que o autor apresenta dados de relevância histórica, sociológica, antropológica e etnológica, vividos na primeira pessoa e depois maturados ao longo de várias décadas de amor à arte”. E acrescenta: “…mais que uma memória, este livro é igualmente um trabalho de análise e investigação, que servirá para aumentar e aprofundar o conhecimento actual da temática tratada.”
No Preâmbulo, o autor confessa ter espírito de coleccionador e gosto pela arte do barro, o que o levou ao longo de décadas a recolher mais de trezentas peças do centro oleiro de Redondo, umas já existentes na sua velha casa, outras adquiridas e outras doadas. Revela-nos ainda que por impedimento da sua actividade profissional e por deveres cívicos, só há poucos anos começou a estudar o conjunto reunido e o fruto desse estudo foi agora por ele dado à estampa.
A obra distribui-se por 11 capítulos:1-Preâmbulo, 2-Redondo e a decoração das suas peças, 3-O problema da autoria e da identificação das peças oláricas, 4-Peças já desaparecidas ou em vias de desaparecer, 5-Redondo, centro produtor de talhas?, 6-Mestre Álvaro Chalana, 7- Ti Rita, 8-Mestre Estevão Zorrinho, 9-Hermínio José Zorrinho, 10-A minha colecção, 11-Peças da mina colecção cedidas para exposição e figurando em obras escritas.
O autor justifica a estrutura do livro com base nas suas motivações pessoais. No final da obra, o leitor tem à sua disposição um Glossário de termos relativos à nomenclatura de peças oláricas de diferentes tipologias e funcionalidades, bem como técnicas de decoração.
O livro, profusamente ilustrado a cores, com design gráfico de Alexandra Mariano, fotografias de Manuel Ribeiro e capa de Luís Aires, tem capa dura, 21,5 cm x 30 cm, 170 páginas e 1027 g de peso. A edição é uma edição conjunta da Câmara Municipal do Redondo e da Junta de Freguesia do Redondo. A tiragem é de 500 exemplares, impressos na Gráfica Eborense.

O autor
António Carmelo Aires é natural de Redondo, onde nasceu em 1937. Médico veterinário, iniciou a sua carreira profissional em Gaia, transferindo-se mais tarde para Évora, onde exerceu clínica rural e ocupou cargos de chefia em múltiplos organismos oficiais. Esta actividade culminou com a sua nomeação para Presidente da Comissão de Coordenação Regional do Alentejo em 1970, à qual se seguiu o cargo de Presidente da Comissão de Coordenação do Alentejo, o qual desempenhou até à sua aposentação em 1996.
No quadro europeu desempenhou igualmente inúmeros cargos no âmbito do Desenvolvimento Regional, da Viticultura e da Cultura Regional, tendo integrado missões de estudo da OCDE a Itália e à Jugoslávia.
Sócio de numerosas associações científicas, tem trabalhos seus publicados em revistas da especialidade. Colaborador activo da imprensa regional e local, sobretudo na área do Desenvolvimento Regional. Ao longo dos anos tem organizado, participado e comissariado inúmeras exposições e mostras de cultura alentejana.
Como coleccionador é polifacetado e os seus interesses incluem o barro vermelho, a porcelana, a faiança, o vidro, os têxteis e os artefactos de cozinha.

Balanço final
A obra contou muito para a sua elaboração com a vivência e vasta colecção do autor, que a estudou em profundidade, recorrendo a fontes escritas referidas na Bibliografia citada no final.
A obra de Carmelo Aires vem preencher uma lacuna que há muito se fazia sentir não só entre os coleccionadores como entre os estudiosos e vem enriquecer também a bibliografia cerâmica portuguesa. Para além de outros méritos, o livro caracteriza com rigor e profundidade a decoração da cerâmica redondense que é única, que é património imaterial local e integra a matriz identitária da cultura popular local.
O autor está, pois, de parabéns por mais este valioso contributo para a perpetuidade do registo da cultura redondense.

Publicado no jornal E nº 272
Estremoz, 22 de Julho de 2021


 
A obra de António Carmelo Aires.

Os oradores da sessão.

Um aspecto da assistência.


terça-feira, 20 de julho de 2021

Carlos Alves e o pastor de tarro e manta


Pastor de tarro e manta (2021). Carlos Alves (1958-  ).

 AO BARRISTA CARLOS ALVES:

O modelar um pastor
bem requer ocasião.
É criado com rigor
mais amor no coração.

LER AINDA:


Ex-libris do Alentejo
O Alentejo de hoje não é o mesmo que nos foi legado pelos nossos avós. Desde então que ocorreram transformações profundas no meio ambiente, na paisagem, nos meios de produção, nas relações de trabalho, no tecido social e em muitos outros aspectos.
As fainas agro-pastoris processam-se hoje de modo diferente e os actores já não são os mesmos. Uns desapareceram, outros descaracterizaram-se e deixam atrás de si, pegadas etnográficas diferentes daquelas que deixavam até cerca de meados do séc. XX. Todavia, os registos etnográficos desses actores de antanho permanecem vivos na memória de muitos de nós. E é assim, que o pastor de ovelhas com todos os seus atributos, continua a ser utilizado como ex-libris do Alentejo. Trata-se de um personagem com forte presença nas letras e nas artes, perpetuado em fotografias, pinturas e esculturas em pedra, madeira ou barro. Escusado será dizer que continua a ser também objecto de representação pelos barristas de Estremoz. É o que se passa em particular com o chamado “pastor de tarro e manta”, cujos atributos usados na representação são: pelico (ou samarra) e safões, botas, chapéu aguadeiro, cajado, tarro e manta. Desses atributos nos fala o cancioneiro popular alentejano:

"Tod’a vida gardê gado,
E sempre fui ganadêro,
Uso cêfoes e cajado,
E pelico e caldêra.” [2]

“Toda a vida guardei gado,
Toda a vida fui pastor,
Deixei botins e cajado
Por via do meu amor.” [2]

“Debaixo das azinheiras
Encostado ao teu cajado,
Com o chapéu de abas largas
Vejo-te guardando o gado.” [1]

“Neste tarro de cortiça
oferta do meu amor,
até o pão com chouriça
às vezes sabe melhor.” [3]

Memórias guardadas
Coleccionador de memórias, já perdi o conto aos exemplares de pastores que povoam a minha colecção, começando no séc. XVIII e acabando, por enquanto, nos dias de hoje. O exemplar mais recente é da autoria de Carlos Alves, barrista que aposta numa modelação fortemente naturalista que procura representar as coisas tal como elas são, para o que recorre á representação de texturas. No presente caso, texturizou a pele dos safões, a cortiça do tarro e o cabelo do pastor. O cromatismo da figura segue igualmente a filosofia usada na modelação: procura colorir as coisas com as cores naturais que elas têm.
A modelação e o cromatismo da figura aqui patentes são notáveis. O cromatismo é assaz suave e harmonioso, uma vez que é dominante uma tricromia em que o verde (cor fria) é acompanhado de duas cores neutras: o preto e o castanho em diversas modalidades.
O pendor fortemente naturalista da modelação e do cromatismo de Carlos Alves, parecem-me ser as marcas identitárias mais fortes do barrista, as quais aqui registo e aplaudo:

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980
[2] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[3] – SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular, Livraria Portugal, Lisboa, 1959.

sábado, 17 de julho de 2021

A República é uma bebedeira


Bêbado sentado numa pipa, com um odre de vinho nas mãos.
Oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX.


Adquiri recentemente um belo e curioso exemplar de barrística popular produzido numa das Oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX, tematicamente situado no domínio satírico, o que me é particularmente grato.
Representa um homem trajando à moda da época, sentado numa pipa, com um odre de vinho nas mãos. As notórias rosetas que ostenta nas faces, indiciam tratar-se de um bêbado. Este, apresenta a cabeça coberta por um barrete frígio vermelho, símbolo da Revolução Francesa (1789) e desde então adoptado como inequívoco símbolo do regime republicano, que em 1910 seria implantado em Portugal.
O Partido Republicano Português foi fundado em 1876, iria crescer e a propaganda republicana iria suscitar adesão popular às suas propostas, que abalavam fortemente a monarquia no poder desde o início do reinado de D. Afonso Henriques (1143).
Naturalmente que a batalha ideológica entre monárquicos e republicanos seria intensa e cada um dos lados tinha os seus apoiantes e os seus detractores. Essa batalha ideológica teria repercussões em vários domínios: na literatura, na imprensa, na ilustração e é claro na arte popular, acabando os autores por serem partidários duma facção ou da outra.
A meu ver, o presente exemplar de barrística popular estremocense é uma sátira monárquica à República, já que o bêbado usa barrete frígio vermelho. A mensagem anti-republicana implícita parece ser evidente: “A República é uma bebedeira”.
De salientar a decoração da base octogonal (quadrangular com as pontas cortadas em bisel), sarapintada com manchas brancas, verdes e pretas, que configuram um tecido camuflado.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Barristas de Estremoz do passado

 



ANA DAS PELES (1869-1945)
75 anos da morte de Ana das Peles
MARIANO DA CONCEIÇÃO (1903-1959)
FRANCISCA VIEIRA DE BARROS (1874-1957)
ACLÉNIA PEREIRA  (1927-2012)
ARMANDO ALVES (1935 -  )
SABINA SANTOS (1921-2005)
LIBERDADE DA CONCEIÇÃO (1913-1990)
JOSÉ MARCELINO MOREIRA (1926-1991)
ISABEL CARONA BENTO
ANTÓNIO LINO DE SOUSA (1918-1982)
QUIRINA ALICE MARMELO (1922-2009) 
MÁRIO LAGARTINHO (1935-2016)
IRMÃOS GINJA (1938,1949 - )
MARIA LUÍSA DA CONCEIÇÃO (1934-2015)
PAULO CARDOSO (1968 -   )
RUI BARRADAS (1953 - )
JOÃO FORTIO (1951 -  )
GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019)
FÁTIMA LOPES (1974)

Hernâni Matos

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Barristas de Estremoz do presente





ANA CATARINA GRILO (1974- )- 
Auto dos ganchos de meia
Todos diferentes, todos iguais!
A Senhora de pezinhos de Ana Catarina Grilo
Ana Catarina Grilo, uma barrista que veio para ficar
AFONSO GINJA E MATILDE GINJA (1949, 1953 - )
IRMÃS FLORES (1957, 1958- ).
Figurado de Estremoz em selo
JOANA OLIVEIRA (1978-   ).
JORGE CARRAPIÇO (1968 -  )  
Bonecos de Estremoz: Jorge Carrapiço
JOSÉ CARLOS RODRIGUES (1970-  ).
MADALENA BILRO (1959-  )
SARA SAPATEIRO  (1995-  )
Sara Sapateiro e o aristocrata rural
VERA MAGALHÃES (1966-   ) 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

As Jóias da Coroa


 Fig. 1 - Rei Mago em pé (Belchior). Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.


Pese embora a minha condição de republicano e plebeu, assiste-me o direito de ser rei de mim mesmo e usar a Coroa que livremente escolhi e defendo com pundonor no Livro de Horas do meu dia-a-dia. Essa Coroa não é mais que a minha colecção particular de Bonecos de Estremoz. Trata-se de uma colecção generalista, abarcando figuras de temas diversos, criadas por vários barristas­ desde os primórdios até à actualidade.
A colecção distribui-se por duas grandes áreas que usualmente se convencionou designar por “Bonecos da Tradição” e “Bonecos da Inovação”, que no meu livroBONECOS DE ESTREMOZ foram objecto de estudo em capítulos próprios. A primeira integra modelos que têm sido manufacturados desde sempre e a segunda os que foram sendo criados por cada barrista no decurso do tempo, já que “Outros tempos, outros costumes“.
É possível ainda, numa óptica temporal, destacar bonecos que na maioria dos casos têm de um a três séculos de existência, com uma pátine própria, já que “Os anos não perdoam” e “Sem tempo nada se faz“. Trata-se de exemplares que revelam em todo o seu esplendor a marca do tempo e do envelhecimento, quer por descoloração devida a decomposição fotoquímica, quer pela deposição de resíduos provenientes de poeiras ou fumos. São figuras que valorizam a colecção por serem mais antigas e menos vulgares. Constituem aquilo que, na qualidade de rei de mim mesmo, resolvi designar por “Jóias da Coroa”. Passo a referi-las:
- Imagens que integraram presépios do séc. XVIII e que, à excepção de uma, foram adquiridas em 2013 no Mercado das Velharias em Estremoz: Rei Mago em pé (Belchior) – Fig. 1, Rei Mago em pé (Baltasar) – Fig. 2, Rei Mago ajoelhado (Belchior), Rei Mago ajoelhado (Baltasar), Pastor ofertante ajoelhado – Fig. 3.
- Uma imagem devocional de oitocentos: Nossa Senhora dos Mártires - Fig. 4.
- Exemplares que integraram um presépio de finais do séc. XIX que adquiri em 2015, no Mercado das Velharias em Estremoz: Nossa Senhora ajoelhada – Fig. 5, São José ajoelhado - Fig. 6, Rei Mago em pé (Belchior), Rei Mago em pé (Baltasar), Rei Mago em pé (Gaspar) – Fig. 7, Burro e vaca, Pastor de tarro e manta -  Fig. 8, Borregos e cão, Mulher ofertante com um borrego ao colo, Mulher ofertante com um borrego ao colo – Fig. 9.
- Figuras que não integraram o conjunto de figuras da colecção de Emídio Viana que veio a incorporar em 1929 a colecção da Biblioteca e Museu Municipal de Estremoz. Adquiri estes exemplares em 2018, na sequência do falecimento do filho de Emídio Viana: Porqueiro – Fig. 10, Mulher dos enchidos – Fig. 11, Mulher das castanhas – Fig. 12.
- Bonecos que integraram a colecção de Azinhal Abelho e que, por intermédio de José Maria de Sá Lemos, foram encomendados a Ana das Peles em 1938, conforme correspondência deste último para aquele e que acompanhava o lote de figuras que adquiri em 2018: Berço do Menino Jesus (das pombinhas) – Fig. 13, Nossa Senhora ajoelhada, São José ajoelhado, Pastor ajoelhado com um chapéu à frente, Pastor – Fig. 14, Pastor das migas, Fiandeira – Fig. 15, Mulher das castanhas – Fig. 16, Lanceiro com bandeira – Fig. 17, Sargento no jardim, Senhora de pezinhos - Fig. 18, Preta grande (preta florista), Galinha no choco (assobio), Cesto com ovos (assobio), Peralta, (assobio), Amazona (assobio) - Fig. 19).
São compras que por vezes me acabam por “Custar os olhos da cara” e a ficar “Com uma mão na frente e outra atrás”, daí que alguém conhecedor da minha condição de professor aposentado, tenha agourado:
- “Por esse caminho, ainda vais acabar a pedir esmola à porta da Igreja". 

 Fig. 2 - Rei Mago em pé (Baltasar). Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

 Fig. 3 - Pastor ofertante ajoelhado. Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

  Fig. 4 – Nossa Senhora dos Mártires. Oficinas de Estremoz do séc. XIX.

 Fig. 5 – Nossa Senhora ajoelhada. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

Fig. 6 - São José ajoelhado. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 7 - Rei Mago em pé (Gaspar). Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 8 - Pastor de tarro e manta. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 9 - Mulher ofertante com um borrego ao colo. Oficinas de Estremoz de finais do
 séc. XIX.

 Fig. 10 - Porqueiro. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção Emídio
Viana.

 Fig. 11 - Mulher dos enchidos. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção
Emídio Viana.

 Fig. 12 - Mulher das castanhas. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção
Emídio Viana.

 Fig. 13 - Berço do Menino Jesus (das pombinhas). Ana das Peles (1938). Ex-colecção
Azinhal Abelho.

Fig. 14 - Pastor. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

 Fig. 15 - Fiandeira. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

 Fig. 16 - Mulher das castanhas. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

Fig. 17 - Lanceiro com bandeira. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.
  
 Fig. 18 - Senhora de pezinhos. Ana das Peles (1938) Ex-colecção Azinhal Abelho.

Fig. 19 - Amazona (assobio). Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 16 de Janeiro de 2020

terça-feira, 13 de julho de 2021

Efemérides de Julho (Nova versão)


31 de Julho
A 31 de Julho de 1750 morre D. João V (1689-1750), em cujo reinado uma
corrente de renovação assolou todo o país e manifestou-se nas mais diversas
produções artísticas: arquitectura, escultura, pintura, mobiliário, ourivesaria,
talha e azulejo. Estas foram incrementadas e personalizadas por uma extensa
plêiade de artistas portugueses e estrangeiros.
30 de Julho
A 30 de Julho de 1848 foi inaugurada a iluminação a gás, na Baixa de Lisboa,
a primeira em Portugal. Cópia da Planta da Praça do Comércio, demonstrando
a forma dos passeios e distribuição dos candelabros e liras para a iluminação
a gás na mesma praça, apresentado por sua majestade a Rainha. Documento
pertencente ao fundo “Júlio de Castilho”(1840-1919) do Arquivo Nacional
da Torre do Tombo.
29 de Julho
A 29 de Julho de 1803, no reinado de D. Maria I (1734-1816) foi criada a
Academia Real de Marinha e Comércio, na dependência da Companhia Geral da
Agricultura das Vinhas do Alto Douro com a finalidade principal de formar os seus
futuros quadros técnicos. Sediada no Porto, funcionou entre 1803 e 1837, sendo
então transformada na Academia Politécnica do Porto, que esteve na origem das
actuais Faculdades de Ciências e de Engenharia da Universidade do Porto. Sede da
Academia Real da Marinha no antigo Noviciado da Cotovia, onde também funcionava
o Real Colégio dos Nobres.

28 de Julho
 A 28 de Julho de 1446 são publicadas as Ordenações Afonsinas, colectâneas de
leis promulgadas durante o reinado de Dom Afonso V (1432-1481), distribuídas
por cinco livros e que visavam esclarecer a aplicação do direito canónico e
romano no Reino de Portugal. Nunca chegaram a ser impressas durante o período
em que vigoraram, apesar da imprensa de Johannes Gutenberg (1398-1468) já
star em uso na Alemanha desde 1439. A demora na produção de cópias
manuscritas parece ter sido um dos problemas para a sua aplicação em todo o
Reino, já que a imprensa em Portugal só apareceu por volta de 1487, no Reinado
de D. Manuel I (1469-1521). A sua aplicação não foi uniforme no Reino e vigoraram
apenas até à promulgação das suas sucessoras, as Ordenações Manuelinas.
27 de Julho
A 27 de Julho de 1866 nasce, em Vale da Vinha, concelho de Penacova,
António José de Almeida (1866-1929), médico, político republicano, sexto
Presidente da República (1919-23), fundador e director do jornal República.
ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA – Retrato de Henrique Medina (1901-1989).
Museu da Presidência da República.
26 de Julho
A 26 de Julho de 1994 é inaugurado o Museu da Música na Estação do Alto dos
Moinhos, do Metro de Lisboa. O Museu da Música detém um acervo com cerca
de 1400 instrumentos, entre os quais o cravo de Joaquim José Antunes
(1731-1811), o cravo de Pascal Taskin (1723-1793), o piano Boisselot, que o
compositor e pianista Franz Liszt (1811-1886) trouxe a Lisboa, em 1845,
e o violoncelo de Antonio Stradivari (1644-1737), que pertenceu ao rei
D. Luís I (1838-1889).
25 de Julho
A 25 de Julho de 1139 travou-se a Batalha de Ourique. Nela se defrontaram as
tropas cristãs, comandadas por D. Afonso Henriques (c.1109-1185) e as
muçulmanas, saldando-se o embate por uma vitória para as hostes portuguesas.
MILAGRE DE OURIQUE (1793). Domingos Sequeira (1768–1837).
Óleo sobre tela (270 × 450 cm). Musée Louis-Philippe du Château d'Eu, France.
24 de Julho
A 24 de Julho de 1780 realiza-se a primeira sessão da Real da Academia das Ciências,
no Palácio das Necessidades, em Lisboa. A Academia foi fundada no reinado de Dona
Maria I (1734-1816) em 24 de Dezembro de 1779, em pleno Iluminismo, sendo o seu
primeiro Presidente, o Duque de Lafões (1719-1806). A Academia encontra-se, desde
1833, instalada no antigo Convento de Nossa Senhora de Jesus da Ordem Terceira de
São Francisco, edifício setecentista localizado na parte baixa do Bairro Alto, em
Lisboa. Depois da implantação da República, a instituição passou designar-se Academia
das Ciências de Lisboa.
23 de Julho
A 23 de Julho de 1951 é fundada, em Lisboa, a Liga dos Cegos de João de Deus.
JOÃO DE DEUS (1830-1896), eminente poeta lírico e pedagogo.
22 de Julho
A 22 de Julho de 1946, a revista americana “Time” publica uma reportagem
sobre Salazar e a ditadura do Estado Novo com o título "Até que ponto o melhor
de Portugal é mau". A distribuição nacional da revista é proibida.
21 de Julho
A 21 de Julho de 1542, o Papa Paulo II (1417-1471) institucionaliza a Inquisição.
Auto-de-fé promovido pela Inquisição Portuguesa na Praça do Comércio em
Lisboa, antes do terramoto de 1755. Gravura anónima do séc. XVIII.
20 de Julho
A 20 de Julho de 1955, morre em Lisboa, Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1965),
magnata do petróleo, coleccionador de arte, mecenas e filantropo.
19 de Julho
A 19 de Julho de 1886, morre o poeta Cesário Verde (1855-1886), com 31 anos
de idade. No ano seguinte Silva Pinto organiza “O Livro de Cesário Verde”,
compilação da sua poesia publicada em 1901. Ao retratar a Cidade e o Campo,
que são os seus cenários predilectos, no seu estilo delicado, Cesário empregou
técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade.
18 de Julho
A 18 de Julho de 1697 morreu o Padre António Vieira (1608-1697), sacerdote
jesuíta, missionário, filósofo, escritor, orador, político e diplomata. Defensor
dos direitos dos povos indígenas do Brasil, foi também defensor dos judeus,
defendeu a abolição da escravatura e foi crítico da Inquisição. A sua obra
literária inclui mais de 200 sermões, 700 cartas, além de tratados proféticos,
relações, etc. Um dos seus mais famosos sermões é o Sermão de Santo António
aos Peixes. PADRE ANTÓNIO VIEIRA – Óleo  sobre tela (680 x 1280 mm)  de autor
desconhecido do início do séc. XVIII. Casa Cadaval, Muge.
17 de Julho
A 17 de Julho de 1877 é inaugurado o Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. A
sua construção iniciada em 1860, foi iniciativa da Rainha Dona Estefânia de
Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859), mulher de D. Pedro V (1837-1861),
que numa visita ao Hospital de São José, impressionada com a promiscuidade
com que na mesma enfermaria eram tratadas crianças e adultos, ofereceu o
seu dote de casamento para que fosse construído um hospital para crianças
pobres e enfermas. A sua construção foi primorosamente planeada, tendo
D. Pedro V solicitado pareceres sobre projectos e plantas hospitalares,
elaboradas por técnicos de reconhecida competência, de locais como Londres,
Berlim e Paris. Dona Estefânia – retrato a óleo por Karl Ferdinand Sohn
(1805-1867). Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa.
16 de Julho
A 16 de Julho de 1212 trava-se a batalha de Navas de Tolosa, perto de Navas
de Tolosa, na actual Espanha. O rei Afonso VIII de Castela (1155-1214),
liderando uma coligação com Sancho VII de Navarra (1154-1234), Pedro II de
Aragão (1178-1213), um exército de Afonso II de Portugal (1185-1223),
juntamente com cavaleiros do reino de Leão e das ordens militares de Santiago,
Calatrava, Templários e Hospitalários, derrota o Califado Almóada. BATALHA DE
NAVAS DE TOLOSA -  Pintura a óleo do século XIX, de F. P. Van Halen, exposta
no Palácio do Senado, em Madrid.
15 de Julho
A 15 de Julho de 1759, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), Marquês
de Pombal, recebe o título de Conde de Oeiras. SEBASTIÃO JOSÉ DE CARVALHO E
MELO -  Escola Portuguesa do séc. XVIII. Óleo sobre tela (119 x 97,5 cm). Colecção
particular. 
14 de Julho
A 14 de Julho de 1901, o cirurgião Egas Moniz (1847-1955), Nobel da Medicina
em 1949, conclui o doutoramento, em Lisboa. RETRATO DE EGAS MONIZ (1932).
José Malhoa (1855-1933). Pastel sobre papel (60 x 51 cm). Faculdade de Medicina
da Universidade de Lisboa.
13 de Julho
A 13 de Julho de 1647 é criada a Aula de Fortificação e Arquitectura Militar,
na Ribeira das Naus, em Lisboa. Ribeira das Naus foi a designação dada a partir
da construção do Paço da Ribeira às novas tercenas que o rei Dom Manuel I
mandou edificar a ocidente do novo palácio real, construído sobre o local das
tercenas medievais. A Ribeira das Naus foi o maior estaleiro do Império Português.
VISTA, A PARTIR DO TEJO, DO PALÁCIO DA RIBEIRA EM LISBOA (1598). Georg Braun
and Franz Hogenberg.
12 de Julho 
A 12 de Julho de 1976, morre Simão César Dórdio Gomes (1890-1976), pintor
modernista português. ALENTEJO (1930). Simão César Dórdio Gomes (1890-1976).
Óleo sobre cartão (26,9 x  35,5 cm). Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha.
11 de Julho 
A 11 de Julho comemora-se o Dia Mundial da População. A CEIFA NO ALENTEJO-
- Alberto de Souza (1880-1961). Aguarela sobre papel (14 x 20 cm).
10 de Julho 
No dia 10 de Julho comemora-se o Dia Mundial da Lei com a finalidade de lembrar
a importância do cumprimento do Direito, o quale remonta às primeiras civilizações
que conheceram a escrita. São marcos importantes da História do Direito, o código
do rei da Babilónia, Ur-Nammu, o código de Hamurabi, as leis das Doze Tábuas, as
leis da Roma Antiga, as leis Draconianas da Grécia Antiga, as Ordenações Afonsinas,
Manuelinas e Filipinas, a Constituição Francesa de 1791, as leis do Império (a Lei
Áurea), da República, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, etc.
A  JUSTIÇA ENTRE OS ARCANJOS MIGUEL E GABRIEL (pormenor) – 1421. Jacobello del
Fiore (1370-1439). Têmpera sobre panel (210 x 190 cm). Gallerie dell'Accademia, Venice.
9 de Julho 
Desde 9 de Julho de 1926 que António Óscar de Fragoso Carmona (1869-1951),
como Presidente do Ministério passa a desempenhar as funções de Presidente
da República, após a demissão do General Manuel de Oliveira Gomes da Costa
(1863-1929). Viria a ser nomeado interinamente para o cargo, por decreto de
16 de Novembro de 1926. Foi o décimo primeiro presidente da República
Portuguesa (primeiro da Ditadura e primeiro do Estado Novo). CARMONA - 
etrato de Henrique Medina (1901-1989). Museu da Presidência da República.
8 de Julho 
A 8 de Julho de 1497, a Armada de Vasco da Gama parte de Belém, em Lisboa,
rumo à Índia. É composta pelas naus São Gabriel, São Rafael e Bério. Vasco da
Gamara atingirá Calecut e regressará a Lisboa em 1499. PARTIDA DE VASCO DA
GAMA PARA A ÍNDIA - Ilustração de Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), para o
livro “Quadros da História de Portugal” editado em 1917, da autoria de Chagas
Franco e João Soares, incluindo ainda ilustrações de Alberto de Souza.
7 de Julho 

A 7 de Julho de 2007, a Torre de Belém, os mosteiros dos Jerónimos, de Alcobaça
e da Batalha, o Palácio da Pena e os castelos de Guimarães e Óbidos foram
proclamados como as Sete Maravilhas de Portugal. Tratou-se de uma iniciativa
apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal, organizada pelo consórcio Y&R
Brands S.A. - Realizar S.A., que visou eleger os sete monumentos mais relevante
do património arquitectónico português. A escolha recaiu em 794 monumentos
nacionais classificados pelo IPPAR, da qual foi feita uma primeira selecção
efectuada por peritos, a qual originou uma lista de setenta e sete monumentos.
Depois foi feita uma nova escolha, efectuada por um Conselho de Notáveis
constituído por personalidades de diversos quadrantes de onde saíram os vinte
e um monumentos finalistas. A partir de 7 de Dezembro de 2006, decorreu a
votação que viria a eleger os sete monumentos eleitos dos portugueses.
TORRE DE BELÉM - Construída entre 1515 e 1519, tem 30 metros de altura,
é de estilo manuelino e teve como arquitectos: Francisco de Arruda,
Francisco de Holanda, António Viana Barreto e António de Azevedo e Cunha.
6 de Julho 
A 6 de Julho de 2010, morre Matilde Rosa Araújo (1921-2010), pedagoga e
escritora especializada em literatura infantil e que enquanto cidadã se
dedicou no decorrer da sua vida aos problemas da criança e à defesa dos
seus direitos. Foi distinguida com diversos prémios literários e em 2004 foi
agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
5 de Julho 
A 5 de Julho de 1852 é abolida a pena de morte para crimes políticos (artigo 16º
do Acto Adicional à Carta Constitucional de 5 de Julho, sancionado por D. Maria II
(1819-1853). D. MARIA II (1829) - Óleo sobre tela (92,4 × 71,8 cm) de Thomas
Lawrence (1769-1830). Colecção Real. Reino Unido. 
4 de Julho 
A Rainha Santa Isabel de Aragão (1270-1336), esposa de el-Rei D. Diniz (1261-1325),
faleceu no Castelo de Estremoz, com 66 anos de idade, no dia 4 de Julho de 1336,
de uma doença súbita surgida quando se dirigia para a raia em missão de
apaziguamento entre o filho, D. Afonso IV (1291-1357), e o neto, Afonso XI de
Castela (1311-1350). As virtudes da Rainha, mais tarde considerada Santa
estiveram na origem da sua beatificação por Leão X (1475-1521), em 1516,
com autorização de culto circunscrito à Diocese de Coimbra. Em 1556, o
papa Paulo IV (1476-1559) torna extensiva a devoção isabelina a todo o Reino
de Portugal. Seria o papa Urbano VIII (1568-1664), dada a incorrupção do corpo
e o relato dos milagres, quem proclamaria em 1625, a canonização de Isabel de
Aragão como Rainha Santa. SANTA ISABEL DE PORTUGAL - Aguarela de Alberto
de Souza (1880-1961).
3 de Julho 
A 3 de Julho de 1780 é fundada a Casa Pia de Lisboa pelo intendente da polícia de
D. Maria I (1734-1816), Diogo de Pina Manique (1733-1805), ficando instalada no
Castelo de S. Jorge. ALEGORIA À CASA PIA DO CASTELO - Gil Teixeira Lopes (1936- ).
2 de Julho 
A 2 de Julho de 1932, morre no exílio em TwickenhamInglaterra, o último rei
de Portugal, D. Manuel II (1889-1932), o “Bibliógrafo”, sufocado por um edema
da glote. Depois de decorridos os funerais celebrados na Catedral de Westminster,
em Londres, onde se celebram as exéquias dos monarcas e dos grandes vultos
britânicos, por determinação expressa do Governo de Salazar, D. Manuel é
transladado para Lisboa, onde tem funerais nacionais, jazendo desde 2 de Agosto
de 1932, no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.
1 de Julho 
A 1 de Julho de 1920 nasce em Lisboa, Amália Rodrigues (1920-1999), fadista,
cantora e actriz portuguesa, considerada a Rainha do Fado. Cantou os grandes
poetas da língua portuguesa (Camões, Bocage), além dos poetas que escreveram
para ela (Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Ary dos Santos, Manuel
Alegre, Alexandre O’Neill. Conhece também Alain Oulman, que lhe compõe diversas
canções. Amália dá brilhantismo ao fado, ao cantar o repertório tradicional de uma
forma diferente, sintetizando o que é rural e urbano. Considerada a nossa melhor
embaixatriz, difundiu a cultura portuguesa, a língua portuguesa e o fado. Ao longo
da sua carreira recebeu inúmeras distinções: Dama da Ordem Militar de Sant'Iago da
Espada (1958),  Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1971), Grande-Oficial
da Ordem do Infante D. Henrique (1981),  Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da
Espada (1990),  Ordem das Artes e das Letras (França-1990),  Légion d'Honneur
(França-1990), Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1998). A 6 de Outubro
de 1999, Amália Rodrigues morre em Lisboa, tendo o 1º ministro decretado Luto
Nacional por três dias. No seu funeral incorporaram-se centenas de milhares de
lisboetas que assim lhe prestam uma última homenagem. Foi sepultada no
Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Em 2001, o seu corpo foi trasladado para o
Panteão Nacional, onde está sepultada ao lado de outros portugueses ilustres.


Publicado inicialmente a 18 de Junho de 2015