segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Aclénia Pereira, bonequeira de Estremoz


Aclénia Pereira (1927-2012), artesã polifacetada e bonequeira de Estremoz.

NASCIMENTO E NOME
Em 21 de Abril do presente ano, faleceu com a idade de 85 anos na Casa de Saúde do Montepio Rainha D. Leonor, na Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo nas Caldas da Rainha, Aclénia Pereira (Fig. 1), artesã polifacetada e barrista estremocense, que tive o privilégio de conhecer nos anos 50 do século passado, em virtude de ser amiga de minha prima Adozinda Pacífico Carmelo da Cunha, que era íntima da casa de seus pais e que me levava a passear com ela.
Aclénia nasceu às 21 horas do dia 26 de Fevereiro de 1927 no nº 12 da Rua Magalhães de Lima, Freguesia de Santo André de Estremoz. Filha legítima de Carlota Rita Capeto Pereira, 23 anos, doméstica, casada com Ricardo de Jesus Pereira Ventas, 26 anos, conceituado relojoeiro e ourives da nossa praça (a) , natural como sua mulher da Freguesia de Santo André, concelho de Estremoz.
A criança então nascida era neta paterna de Joaquim Abílio Ventas e de Adelaide do Nascimento Pataco e, neta materna de Estevão da Silva Capeto e de Perpetua Rosa Polido Capeto
A recém-nascida foi registada a 21 de Março de 1927, no Registo Civil de Estremoz. Apadrinharam o acto, José Joaquim Pereira Ventas, sapateiro, maior e Maria Antónia Pulido Capeto, doméstica, maior, ambos residentes em Estremoz.
A menina recebeu o nome de Aclénia Risolete Capeto Ventas.
Em 1945 o pai de Aclénia foi autorizado superiormente a mudar o nome para Ricardo de Jesus Pereira, pelo que a filha com a idade de 18 anos foi também autorizada a alterar o nome para Aclénia Risolete Capeto Pereira.
Em 28 de Dezembro de 1960, com a idade de 33 anos, casou na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, com Pedro Paulo de Oliveira e Noronha, de 30 anos, natural de vale de Santarém, Santarém, onde o casal passaria a residir. O nome da noiva passaria então a ser Aclénia Risolete Capeto Pereira e Noronha.

INFÂNCIA E JUVENTUDE
Aclénia cresceu sem problemas e frequentou o Ensino Primário Elementar em Estremoz, tendo sido aprovada no exame de 2º grau em 1939, com a idade de 12 anos.
Com a idade de 13 anos, Aclénia inscreveu-se em 1940 na Escola Industrial António Augusto Gonçalves (b), situada na rua da Pena nº 11 em Estremoz, no local onde funcionaria mais tarde a Ala nº 2 da Mocidade Portuguesa Masculina e depois o Salão Paroquial de Santa Maria. Era então director José Maria de Sá Lemos (1892–1971). A organização do Ensino Técnico-Profissional era então regida pelo Decreto nº 20.420 de 20 de Outubro de 1931. Na Escola era ministrado o ensino dos seguintes ofícios: canteiro civil, canteiro artístico, oleiro e tapeceira, sendo o pessoal docente desta Escola composto por 1 professor e 3 mestres.
Aclénia inscreveu-se no Curso de Tapeceira cuja carga horária era a seguinte:


Aclénia frequentou a Escola com aproveitamento até ao 3º ano, tendo realizado todos os exames e frequências constantes do currículo. Não frequentou todavia o 4º ano.
Na oficina de tapeçaria aprendeu com Mestra Joana Maria de Albuquerque Simões e na oficina de Olaria com Mestre Mariano Augusto da Conceição (1902-1959). A oficina de tapeçaria era no 1º andar e a oficina de olaria, logo à entrada da Escola, do lado direito.
Com as mão sábias e experientes de Mestra Joana aprendeu o ponto de Arraiolos, a bordar, a recortar autênticas filigranas em papel e o deslumbramento da Arte Conventual. Por sua vez, Mestre Mariano, já consagrado pela sua luminosa participação na Exposição do Mundo Português, ocorrida nesse ano em Lisboa, soube-lhe transmitir no trabalho do barro informe, a destreza de mãos herdada da dinastia dos Alfacinhas a que ele próprio pertencia, bem como os gestos ancestrais das bonequeiras de oitocentos que na década de 30 do século passado, aprendera com ti Ana das Peles, com a supervisão do director, o escultor José Maria de Sá Lemos.
Com tais mestres e dotada de rara habilidade e fina sensibilidade, Aclénia aprendeu a dominar os materiais e a criar artefactos que nos deleitam o espírito.
Depois de ter saído da Escola Industrial António Augusto Gonçalves terá frequentado a Escola do Magistério Primário de Évora, após o que passou a desempenhar funções de Professora do Ensino Primário, o que fez até á altura da sua aposentação.
Após o casamento em 1960, deixou de morar na Avenida Dr. Marques Crespo, nº 23, em Estremoz, para onde entretanto mudara e transferiu-se para Santarém.
Em 1983 participou na I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, cujo stand 5,6,7 ocupou. Dela diz o catálogo (4): Natural de Estremoz e residente em Santarém, dedica-se de há longos anos à prática variadíssmas técnicas, às artes popular e conventual. Com barro, tecidos, papel, metal, organiza pequenas obras de arte preenchendo da melhor maneira os lazeres da sua vida doméstica e profissional.”. De acordo com o jornal “Brados do Alentejo”(6), Aclénia participou no certame nas secções de “Barro”, “Papel” e “Têxteis”. Ainda de acordo com o catálogo, partilhou o stand com sua tia Ernestina Capeto de Matos (c) que apresentou trabalhos de arte conventual.
Aclénia está representada com os seus bonecos de Estremoz em colecções particulares e no Museu Rural da Casa do Povo de Estremoz.

OS BONECOS DE ACLÉNIA
Aclénia reproduziu as figuras que aprendera com Mestre Mariano: figuras que têm a ver com a realidade local, figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico, figuras que são personagens da faina agro-pastoril das herdades alentejanas, figuras alegóricas e imagens religiosas.

Primavera de arco da autoria de Aclénia Pereira.
3,5 cm x 5,5 cm x 17 cm.
 Exemplar pertencente a colecção do Museu Rural
da Casa do Povo de Santa Maria, Estremoz. 
Procissão do Senhor dos Passos de Estremoz.
Conjunto escultórico em barro da autoria de Aclénia Pereira,
 pertencente a colecção do Museu Rural
da Casa do Povo de Santa Maria, Estremoz. 
O andor do senhor dos Passos. Figura da autoria de Aclénia Pereira,
 pertencente à Procissão do Senhor dos Passos de Estremoz
 e que integra a colecção do Museu Rural
 da Casa do Povo de Santa Maria, Estremoz.

Os bonecos de Aclénia são inconfundíveis, a meu ver pela ingenuidade e simplicidade dos traços do rosto, que com a sua rara sensibilidade feminina lhes soube transmitir.
Todos têm estampada na base a marca de identificação da barrista: “Tanagra”, manuscrita dentro de um rectângulo de 1 cm x 3 cm (Fig. 3). Quase todos têm igualmente estampada na base a marca de identificação do local de produção: “ESTREMOZ / PORTUGAL”, em maiúsculas e em duas linhas, dentro de um rectângulo de 1 cm x 2,7 cm (Fig. 4).


Marca de identificação da barrista: “Tanagra”, manuscrita dentro de um rectângulo de 1 cm x 3cm.
Marca de identificação do local de produção: “ESTREMOZ / PORTUGAL”,
em maiúsculas e em duas linhas, dentro de um rectângulo de 1 cm x 2,7 cm.


PORQUÊ TANAGRA?
Azinhal Abelho, referindo-se aos bonecos de Estremoz, diz na página 24 do seu livro (1): “Outros atestam o exuberante poder de concepção e fantasia do povo. A “Primavera”, tanagra plebeia de mocidade é sumamente típica com o arco de flores preso nos ombros, passando-lhe sobre a cabeça como auréola.” É claro que o livro de Azinhal Abelho foi dado à estampa em 1964 e a utilização da marca “Tanagra” por Aclénia é anterior a essa data, pelo que não esteve na origem da escolha deste nome como marca de identificação da barrista. A origem terá sido outra, pelo que se impôs uma consulta aos nossos lexicógrafos, por ordem cronológica:
- Raphael Bluteau (4), sobre “Tanagra” diz textualmente: “Cidade da Livadia, na Turquia Europeia, perto do rio Asopo. Escreve Ateneu, que uma baleia de prodigiosa grandeza, que por este rio foi dar de fronte da cidade, deu lugar ao provérbio, Cetus Tanagreus, quando se fala num corpo extraordinariamente grande. Hoje chamam-lhe Anatoria, outros lhe chamaram Orops e Gephyra.”
- Viterbo (13), Cândido de Figueiredo (7) e Silva Bastos (3) não registam o termo “Tanagra”.
- José Pedro Machado (10) regista o termo “Tánagra”, substantivo que diz provir do grego Tânagra, topónimo na Beócia. O mesmo autor (11) regista o termo “Tânagra”, substantivo feminino que designa “Estatueta feita na cidade de Tânagra”, bem como “Qualquer estatueta fina e elegante”.
- Houaiss (9) regista o termo “Tánagra”, substantivo feminino que designa “Pequena estatueta feita com barro cozido e, encontrada em Tânagra, cidade da Beócia, região da antiga Grécia ao Norte e noroeste da Ática”. Segundo o mesmo autor, o termo “Tánagra”, designa por extensão “Qualquer estatueta fina e elegante” e por analogia “Moça bonita e tão elegante como as estatuetas”.
- Segundo a WIKIPÉDIA (14), "Tanagra" (em grego antigo Τάναγρα / Tanagra) é uma antiga cidade grega da Beócia, situada não muito longe de Platéia, a 20 km de Tebas, perto da fronteira com a Ática. É identificada com Grée, citada por Homero no “Catálogo dos navios” da “Ilíada”. Foi palco de duas batalhas entre atenienses e a Liga do Peloponeso, em 457 a.C.and 426 a.C.. Foi arrasada pela vizinha Tebas nos anos 370-360 a.C. e depois reconstruída. Na mitologia grega, "Tanagra" era filha de Éolo ou do deus fluvial Asopo e de Metope. Incitados por Afrodite e Eros, os deuses principais raptaram as filhas de Asopo, sendo Ares o que seduziu Tanagra. Finalmente casou-se com Poimandros, de quem teve os filhos Leucipo e Efipo.
- De acordo com TANAGRA (12) as "tanagras" são estatuetas de barro fabricadas com moldes que foram descobertas em túmulos antigos na cidade de Tanagra e representam a maior parte das vezes, mulheres graciosas cobertas com vestidos elegantes, jovens e mais raramente crianças. Estiveram em voga desde o séc. IV a.C. até ao fim do século III d.C.
As tanagras tornaram-se a encarnação da graça feminina e por extensão, a palavra tanagra serve para adjectivar uma jovem fina e graciosa.
Vestígios de tinta sugerem que estas estatuetas foram pintadas em tons cinzento, azul-cinzento, azul, azul celeste, rosa, roxo e verde. No entanto, com o decurso do tempo, essas supostas cores deram origem a tonalidades de ocre e de branco.
O facto de se terem encontrado as tanagras em túmulos antigos é indicativo de que elas tinham uma função funerária.

UMA INTERPRETAÇÃO POSSÍVEL
O facto de Aclénia como barrista usar a palavra “ Tanagra” como marca de identificação é revelador de que sabia que a palavra era sinónimo de estatueta fina e elegante. Todavia vamos mais longe, como Aclénia era uma mulher bela e elegante, poderá ter escolhido aquela marca de identificação, porque se considerar ela própria uma “Tanagra”. É uma hipótese absolutamente plausível e que partilhamos com o leitor.

BIBLIOGRAFIA
(1) - ABELHO, Azinhal – Barros de Estremoz. Lisboa: Edições Panorama, 1964.
(2) - AULETE, Caldas. Diccionario Contemporâneo da Língua Portuguesa (1ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1881.
(3) - BASTOS, J.T. da Silva. Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza (2ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1928.
(4) - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... 8 volumes. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1712 - 1728. 8 v.
(5) - Catálogo da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 15 a 17 de Julho de 1983.
(6) - FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa (1ª edição). Vol.II. Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
(7) - I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz in Brados do Alentejo, 3ª série, nº 93. Estremoz, 15 de Julho de 1983.
(8) - INSTITUTO ANTÓNIO HOUAISS DE LÍNGUA PORTUGUESA. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Tomo VI. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
(9) - MACHADO, José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). Vol.V. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
(10) - MACHADO, José Pedro Machado. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Vol.VI. Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
(11) - TANAGRA (http://www.tanagra-art.com/).
(12) - VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidário das Palavras, Termos e Frases. Edição Critica de Mário Fiúza. Vol. 2. Livraria Civilização. Porto, 1966. (d)
(13) - WIKIPÉDIA (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tanagra).

(a) - A relojoaria e ourivesaria do pai de Aclénia situava-se no Largo da República, 44-A, em Estremoz, no local onde funciona hoje o Plaza-Pronto-A-Vestir. Lembro-me de quando era rapaz ver expostas na montra do estabelecimento por altura do Natal, figurinhas de presépio confeccionadas por Aclénia. O seu pai era tio e padrinho de Inácio Augusto Basílio, com relojoaria e ourivesaria até à pouco tempo no Rossio Marquês de Pombal, 98, em Estremoz.
(b) - Esta Escola resultou da elevação a Escola Industrial, pelo Decreto nº 18.420 de 4 de Junho de 1930, da Escola de Artes e Ofícios de Estremoz, criada pela Lei nº 1.609 de 18 de Dezembro de 1924.
(c) - Ernestina além de artesão era proprietária de um bem afreguesado salão de cabeleireira, no Largo da República, 9-A, em Estremoz.
(d) - A 1ª edição é de 1798, 1799.

Publicado inicialmente em 6 de Novembro de 2012

domingo, 25 de outubro de 2026

As Primaveras de Ana Catarina Grilo


Primaveras. Ana Catarina Grilo (1974-   ).

Estas Primaveras há muito que nos aquecem a alma. Sim, porque a alma também precisa de ser aquecida. E então sentimo-nos rejuvenescidos, mais novos que nós próprios e com vontade de nos transformar em borboleta e pousar de flor em flor, até nos transformarmos em larva e regressar na Primavera seguinte, novamente borboleta. É isso a vida. Uma sucessão de ciclos com picos primaveris que mantêm a chama da alma acesa.
Obrigado Ana por partilhar connosco estas Primaveras ternurentas. Bem-haja.

Hernâni Matos
Publicado a 20 de Maio de 2021

sábado, 24 de outubro de 2026

Uma Primavera de Mestre Jorge da Conceição

 

Fig. 1 - Primavera (aspecto frontal). Mestre Jorge da Conceição (1963 - ).


É sabido que colecciono Bonecos de Estremoz produzidos por todos os barristas, independentemente da época e do tema. E faço-o, por entender que não há uma maneira única de os produzir, já que cada barrista tem o seu próprio estilo e as suas próprias marcas identitárias, fruto de circunstâncias diversas, as quais me dispenso de analisar aqui. No acto de criação, apenas é exigido ao barrista que respeite a técnica de produção e a estética do Boneco em barro vermelho de Estremoz.
A minha colecção, apesar de invejada por muitos, apresenta alguns “calcanhares de Aquiles”. Um deles é não integrar como eu gostaria, um número julgado apropriado e representativo da produção de Mestre Jorge da Conceição. Daí que eu tenha resolvido tratar este calcanhar, o que me levou tempos atrás a encomendar-lhe algumas figuras. A primeira a ser-me entregue foi uma Primavera (Fig. 1 e Fig. 2), que de imediato, despertou em mim uma emoção que iria desembocar na redondilha maior que então compus:

Aquece-me o coração
Esta linda Primavera
De Jorge da Conceição,
Cuja posse era quimera.

A beleza da figura resulta de uma modelação perfeita, fortemente naturalista, conjugada com um cromatismo harmonioso. Para além disso, uma observação mais minuciosa do exemplar, torna possível deduzir que, no decurso da sua manufactura, ocorreu uma mudança de paradigma relativamente à produção de barristas que antecederam Mestre Jorge da Conceição.
Em primeiro lugar, as flores do arco deixaram de estar representadas por discos cilíndricos coloridos e pintalgados, para serem mostradas, ainda que de uma maneira generalista, por flores com tridimensionalidade, ostentando uma parte frontal e uma parte posterior, distintas.
Em segundo lugar, o vestido deixa de apresentar folhos apenas no fundo, para os apresentar também nos punhos e no amplo decote que vai de ombro a ombro.
Em terceiro lugar, a fita do chapéu deixa de ser uma mera pintura e adquire ela própria, tridimensionalidade.
Em quarto lugar, o topo da base deixa de ser sarapintado, pompeando aquilo que configura ser um chão atapetado de flores.
Tudo isto é de se lhe “tirar o chapéu” e dai que, apesar de ser paisano, me ponha duplamente em sentido. Em primeiro lugar, pelo trabalho de excelência de Mestre Jorge da Conceição. Em segundo lugar, pelo facto de a Primavera envergar um vestido com as cores da nossa bandeira nacional, que de imediato despertam em mim um sentimento patriótico.
Obrigado Mestre Jorge da Conceição por me ter enchido as medidas com esta criação germinada a partir da sua grande alma de artista e à qual a magia das suas mãos conferiu forma e cor, transmitindo-lhe harmonia, perfeição, beleza e elegância. Bem-haja!

Publicado inicialmente em 24 de Outubro de 2023

Fig. 2 - Primavera (aspecto posterior). Mestre Jorge da Conceição (1963 - ).

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Adagiário das castanhas

 

MULHER DAS CASTANHAS (1938) - Ana das Peles (1869-1945).
Ex-colecção Azinhal Abelho. Colecção Hernâni Matos.



Anualmente entre Junho e Julho, os castanheiros ficam floridos e a estas flores sucedem-se os ouriços, que encerram as castanhas, as quais começam a cair no início do Outono, em Setembro e Outubro.
É vasto o adagiário das castanhas:

- A castanha amarela em Agosto tem a tinta no rosto.
- A castanha é de quem a come e não de quem a apanha.
- A castanha e o besugo em Fevereiro não têm sumo.
- A castanha em Agosto a arder e em Setembro a beber.
- A castanha tem três capas de Inverno: a primeira mete medo, a segunda é lustrosa e a terceira é amarga.
- A castanha tem uma manha: vai com quem a apanha.
- A castanha veste três camisas: uma de tormentos, outra de estopa e outra de linho.
- A noz e a castanha é de quem a apanha.
- Ao assar as castanhas, as que estouram são as mentiras dos presentes.
- Arreganha-te, castanha, que amanhã é o teu dia.
- As castanhas apanham-se quando caem.
- As castanhas para o caniço e o boneco para o porco.
- As folhas de castanheiro andam sete anos na terra e depois ainda voam.
- Carregadinho de castanha, vai o burrinho para Idanha.
- Castanha assada, pouco vale ou nada, a não ser untada.
- Castanha bichosa, castanha amargosa.
- Castanha peluda, castanha reboluda.
- Castanha perdida, castanha nascida.
- Castanha que está no caminho é do vizinho.
- Castanha quente só com aguardente, comida com água fria causa “azedia”.
- Castanha semeada, p´ra nascer, arrebenta.
- Castanhas boas e vinho fazem as delícias do S. Martinho.
- Castanhas caídas, velhas ao souto.
- Castanhas do Marão, a escolher se vão.
- Castanhas do Natal sabem bem e partem-se mal.
- Castanheiro para a tua casa, corta-o em Janeiro.
- Com castanhas assadas e sardinhas salgadas não há ruim vinho.
- Crescem os reboleiros, morrem os castanheiros.
- Cruas, assadas, cozidas ou engroladas, com todas as manhãs, bem boas são as castanhas.
- Dá-me castanhas, dar-te-ei banhas.
- De bom castanheiro, boa acha.
- De bom castanheiro, bom madeiro.
- De castanha em castanha (roubando) se faz a má manha.
- De castanheiro caído todos fazem lenha.
- Desde que a castanha estoira, leve o diabo o que ela tem dentro.
- Do castanho ao cerejo, mal me vejo.
- Em ano de muito ouriço não faças caniço.
- Em minguante de Janeiro, corta o teu castanheiro.
- Em Setembro, antes de chover, o souto o arado quer ver.
- Folha amarela do castanheiro cai ao chão.
- Mais vale castanheiro, que saco de dinheiro.
- No dia de S. Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho.
- No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.
- No dia de S. Martinho, mata o teu porco, chega-te ao lume, assa castanhas e prova o teu vinho.
- No dia de São Julião, quem não assar um magusto não é cristão.
- O castanheiro, para plantar, precisa ir na mão, o carvalho às costas e o sobreiro no carro.
- O céu é de quem o ganha e a castanha de quem a apanha.
- O ouriço abriu, a castanha caiu.
- Oliveira do meu avô, castanheiro do meu pai e vinha minha.
- Os ouriços no São João são do tamanho de um botão.
- Pelo S. Martinho castanhas assadas, pão e vinho.
- Pelo São Francisco, castanhas como cisco.
- Quando gear, o ouriço vai buscar.
- Quando o sol aperta, o ouriço arreganha.
- Quem castanhas come, madeira consome.
- Quem não sabe manhas, não come castanhas.
- Raiz de castanheiro, dá bom braseiro.
- Sete castanhas são um palmo de pão.
- Temporã é a castanha, que em Agosto arreganha.

BIBLIOGRAFIA
- BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez e Latino. Vol. I a X. Officina de Pascoal da Sylva. Coimbra, 1712-1728.
- CHAVES, Pedro. Rifoneiro Português. Imprensa Moderna, Lda. Porto, 1928.
- DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Evora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
- MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
- ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1780.

Publicado inicialmente em 22 de Outubro de 2023

MULHER DAS CASTANHAS (1906) – Ilustração de Raquel Roque
Gameiro para capa da revista “Serões”, de Novembro de 1906.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A lavadeira


MULHER A LAVAR A ROUPA (1986). Liberdade da Conceição (1913-1990).
Marcas: ESTREMOZ/PORTUGAL aposta por carimbo (0,8 cm x 2 cm) e
 Liberdade (Manuscrita). Dimensões (cm): Alt. 14,0; Larg. 7,1;  Prof.. 12,6 cm.
Peso (g): 322. Colecção particular (Cortesia de Jorge da Conceição).
  
A roupa suja-se com o uso, tornando-se necessário proceder à sua lavagem, a fim de remover a sujidade, para que fique limpa.
Em Estremoz, até à vulgarização das máquinas de lavar roupa nos anos 60 do século passado, a roupa suja era lavada em contexto doméstico pela dona da casa ou então por mulheres chamadas “lavadeiras” (1) que a iam buscar a casa das freguesas (2), já acondicionada por estas em taleigos, que eram transportados por burros com cangalhas.
Para não haver risco de confusão, a roupa de cada família era marcada com iniciais, números, estrelas, cruzes, bolas a cheio, etc. Para além disso, a freguesa fazia sempre um rol da roupa que mandava lavar. Dele nos fala a lavadeira Gracinda, magistralmente interpretada por Beatriz Costa (1907-1996) no filme “Aldeia da Roupa Branca”, realizado em 1938 por Chianca de Garcia (1898-1983):
……………………………
Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.
………………………………

Antes de ser lavada, a lavadeira tinha o cuidado de apartar a roupa por qualidades: branca, de cor, fronhas, lençóis, camisas, camisolas, etc.
A lavagem era efectuada em tanques, lavadouros, celhas, alguidares e mesmo na água corrente de ribeiros, podendo ser feita sem recurso a barrela ou recorrendo a ela.
No primeiro caso, a roupa começava por ser ensaboada em cima de uma lage do ribeiro ou do lavadouro ou de uma tábua de lavar roupa, com a superfície ondulada, apoiada no bordo do tanque, da celha ou do alguidar. A roupa era esfregada com força com os punhos fechados ou recorrendo a uma escova.
Em continuação, a roupa era posta a corar (3), isto é, exposta ao sol sobre a erva ou numa bancada com rede, acabando por branquear por acção do sol. Durante esse período era regada para se manter húmida e não encarquilhar.
Seguidamente, a lavadeira enxaguava a roupa lavada no ribeiro ou num recipiente contendo água limpa, afim de remover todos os resíduos de sabão e de sujidade. Depois, a roupa era torcida e mesmo sacudida, a fim de eliminar a maior quantidade possível de água que a impregnava. Finalmente, a roupa era pendurada num estendal ou esticada sobre a erva, para secar por evaporação, quer pela acção do sol, quer pela do vento. Depois de seca, a roupa era dobrada e espalmada com as mãos, ficando em condições de ser passada a ferro.
Para lavar a roupa com barrela, procedia-se como foi descrito anteriormente até à cora. Depois de ensaboada e esfregada, a roupa era acamada numa vasilha, mantendo todo o sabão que trazia. Seguidamente, punha-se por cima da roupa, um pano forte, contendo cinza peneirada (para não levar carvão), deitando-se por cima água a ferver, a qual originava uma solução alcalina que branqueava a roupa. Esta ficava algumas horas na barrela, após o que era retirada e novamente ensaboada e esfregada, sendo novamente posta a corar. No fim da cora, a roupa era enxaguada, torcida, sacudida e posta a secar.

Publicado inicialmente em 14 de Maio de 2014
  
(1) - A profissão de lavadeira, transmitida geralmente de geração em geração, desapareceu com o aparecimento da água canalizada e com o evoluir da tecnologia, não passando hoje de um registo na nossa memória. Era uma profissão dura e desgastante, dado o elevado número de horas de trabalho, em que eram sobrecarregadas as costas, os rins, os braços e os joelhos. Estes últimos eram, todavia, protegidos por joelheiras para não se ferirem.
(2) - Estas eram senhoras da burguesia ou da classe alta. A roupa era recolhida e trazida lavada, em dia certo da semana e o pagamento era feito à peça.
(3) - O tempo de cora dependia da intensidade da luz solar e da necessidade de branqueamento, tendo em conta a natureza das nódoas.

  

domingo, 18 de outubro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)

 

01 - Joana Simões (1912 - 2011) e Joaquina Simões (1914 - 2005).


LER AINDA
Exposição ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos
ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!
ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás
Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
O recolector - Francisca de Matos
EXPOSIÇÃO "ARTES DO VAGAR" - Francisco Ramos
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
rtes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
rtes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Autor desconhecido ((Joana Simões e Joaquina Simões)
e Luís Dias (peças)

Irmãs, naturais de Pavia. Joana Simões foi durante largos anos professora do ensino técnico em Estremoz, no qual leccionou lavores femininos. Por sua vez, Joaquina Simões fez carreira como professora do ensino primário em Pavia, onde cultivou sempre o gosto pelas artes tradicionais da região.

Após a aposentação dedicaram-se à arte do papel recortado, procurando recuperar a fase erudita do mesmo. Só então o fizeram por entenderem que é uma arte que exige disponibilidade de tempo e tranquilidade de espírito.

Vejamos qual o procedimento seguido no recorte do papel. Cada irmã desenhava o seu próprio trabalho numa folha de papel à parte, donde depois era copiado tantas vezes quantos as necessárias para uma folha de papel branco de tipografia. Seguia-se o recorte do papel, tarefa que era repartida entre as duas irmãs, pelo que cada trabalho constitui uma criação a duas mãos. Joana começava por recortar o papel, mas quem apurava os recortes era Joaquina que tinha uma vista mais apurada e uma mão mais firme. Havia seguidamente a necessidade de passar cada trabalho a ferro quente para alisar o papel. Para finalizar cada trabalho de papel recortado era assente num fundo escuro e emoldurado com vidro.

Para recortar o papel, as irmãs Simões utilizavam 12 tesouras muito bem afiadas, umas de bico recurvado, outras para cortar a direito, sobressaindo no conjunto três muito especiais, vindas da China. Em 1987, o poeta António Simões, num texto admirável a que deu o título de “JOANA E JOAQUINA SIMÕES E AS TESOURAS DE VENTO” interroga-se: “Como é possível recortar-se papel desta maneira?” perguntam-se todos os que contemplam os seus trabalhos, perplexos perante uma maestria na fronteira do inacreditável.”

As irmãs Simões começaram por fazer trabalhos que configuravam naperons de renda, só que esta era de papel. Ao recortarem papel com uma simples tesoura, a superfície deste animava-se como se agulhas e linhas a estivessem bordando. Estes trabalhos apresentavam simetria radial. Depois aparecem outros com simetria axial e mais tarde outros completamente assimétricos.

A geometria dos trabalhos é em geral circular, quadrangular ou rectangular, tanto horizontal como vertical.

A decoração inclui motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, combinados de diferentes modos.

Nos seus trabalhos figuram pássaros a voar e outros pousados, em especial pavões. Surgem também flores, entre elas cravos e amores perfeitos, vasos de flores e campos de flores, letras capitulares de iluminura, desenhos de perfil filigranado e labirintos em papel rendilhado.

A dado momento passam a subscrever a autoria do trabalho de papel recortado, apondo por baixo a assinatura “Simões”, também ela em papel recortado.

Participaram nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizaram exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.

Hernâni Matos 

02 - Papel recortado. Branco. Letra capitular H. Inscrita num campo quadrangular com
decoração fitomórfica e zoomórfica. Este, por sua vez, está encostado ao canto superior
direito doutro campo quadrangular mais vasto, com decoração igualmente fitomórfica
e zoomórfica, da qual se destaca um pavão. Assinatura de autoria em papel recortado.
32,5 x 32,5 cm.

03 - Papel recortado. Branco. Letra capitular F. Inscrita num campo quadrangular com
decoração fitomórfica e zoomórfica. Este, por sua vez, está encostado ao canto superior
direito doutro campo quadrangular mais vasto, com decoração fitomórfica e zoomórfica,
da qual sobressai um vaso do qual emerge decoração floral com um par de pavões e
simetria axial. Assinatura de autoria em papel recortado. 36 x 36 cm.

04 - Papel recortado. Branco. Composição com motivos fitomórficos. Nela um campo
central e circular está preenchido por amores perfeitos e campainhas. Por sua vez,
este campo central está inscrito num campo quadrangular, densamente preenchido
com flores de diferentes tipos, numa distribuição com simetria axial. Assinatura de
autoria em papel recortado. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Papel recortado. Azul. Composição com motivos geométricos, fitomórficos e
zoomórficos, desvendando uma assimetria completa. Nela, em primeiro plano três
ceifeiras em plena faina com o sol a pino. Em segundo plano, árvores, porventura
sobreiros, esvoaçados por aves. Em terceiro plano um monte alentejano.
27,5 cm de diâmetro.

sábado, 17 de outubro de 2026

Ovelha tresmalhada

 

Ovelha, figura de Presépio. Oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX.
Colecção Hernâni Matos


Adquiri recentemente uma ovelha, figura de Presépio, em barro vermelho policromado, cuja autoria atribuo a Oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX. O exemplar representa uma ovelha de raça malhada, assente numa base rectangular com as pontas cortadas em bisel. As dimensões são as seguintes: Altura: 5,2 cm, Largura: 3,2 cm, Profundidade: 4,5 cm.

O corpo do animal parece estar coberto de lã creme, malhada de negro e encaracolada, textura provavelmente obtida com recurso a um teque boleador. A base tem aspecto marmoreado bicolor das cores creme e castanho escuro.

Trata-se de uma ovelha que supostamente se viu afastada das suas congéneres e do respectivo pastor na cena presepial, com a qual alguém desconhecido, ciclicamente reconstituiu e comemorou a Natividade. Daí a epígrafe escolhida para o presente texto: Ovelha tresmalhada, tema central da Parábola Bíblica da Ovelha Perdida, referida em dois Evangelhos sinópticos do Novo Testamento (Mateus 18:10–14 e Lucas 15:1–79), bem como no Evangelho apócrifo de Tomé (Tomé 107).

Como coleccionador, bem gostaria de ser capaz de à ovelha tresmalhada que neste momento integra a minha colecção particular, juntar o resto do primitivo rebanho, assim como o pastor que em terreno presepial, simbolicamente assegurava o pastoreio. Tal não é possível.                    

À laia do cancioneiro popular, mas com versos próprios, resta-me contextualizar o passado desta figura de presépio:

Ovelha tresmalhada
do seu antigo rebanho.
Ovelha que foi achada
sem o pastor d'antanho.