domingo, 6 de setembro de 2026

ARTES DO VAGAR - Notas de uma exposição

 


António Júlio Rebelo

A exposição Artes do Vagar é um acontecimento que não pode ser ignorado ou tratado de um modo ligeiro.

A exposição em causa traz-nos a salvaguarda de um mundo que a tecnologia hoje ameaça. Compõe-se de trabalhos de artesãos, com rosto e nome, que reconheceram na madeira, no papel e naquilo de que são feitos os chifres, a mestria humana, a criatividade, a imaginação, a própria vida retratada, com esforço ou mistério.

Estamos do outro lado do mundo efémero, veloz, onde o tempo é um ápice, uma migalha, a mediocridade sedutora que nos aniquila. A natureza daqueles artesãos encontrou, na sua sensibilidade, uma forma de fazer com que o tempo não os pressionasse, mas também não deixaram que o tempo fosse ocasião para o esvair, sem sentido, daquilo que se faz, como uma indolência surda que nos consome.

Não. O tempo é, por eles, visto como uma terceira possibilidade: é aquilo que leva cada pessoa na direcção da perfeição. É isso que a exposição mostra: alcançar a perfeição sem o recurso às mais variadas tecnologias; mostrar a perfeição de que um ser humano é capaz, simplesmente porque é humano e porque o tempo é o seu melhor companheiro para obter esse atributo.

Olhando a sala daquela exposição, é como se o mundo fosse outro, uma nave, um bunker. Parece que ali adquirimos protecção. Deixámos para trás aquilo de que muitos tanto gostam: as tecnologias usurpadoras e manipuladoras que nos fazem engolir o tempo até à exaustão. Não há ali espectáculo; há tão-somente o belo conseguido pela perfeição humana.

Por isso, Hernâni, a cidade está-te grata, muito grata, mesmo que os pobres responsáveis e muitos de nós não percebamos isso.

Obrigado, caríssimo e bom amigo!

Júlio Rebelo,
Estremoz, 1 de Setembro de 2026

(Publicado inicialmente em 6 de Setembro de 2026)






















sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Figurado de Estremoz - Luís Brito da Luz



Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ  I

Secular arte genuína Estremocense
Em barro, com muita elegância plasmado
Pelas finas mãos destas gentes bem tratado,
Bonecos brotam do talento que convence.

Em setecentos, na alvorada desta prática
Iniciaram as antigas bonequeiras
Técnica ímpar, da qual foram pioneiras
Precursoras desta única, distinta fábrica.

Bem inculcada de geração em geração
Modelada com total zelo em comunhão
Expressão plena da identidade cultural.

No âmago d’esta cabal terra, singular
No íntimo deste povo tão peculiar
Nossa pura alma aqui se torna natural
.

Estremoz - 30.08.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ  II

Finos bonecos apurados, elegantes
Por mãos diferentes, criados com esmero
Paciente labor mimoso, assaz, sincero
Peças singulares de colecção, brilhantes!

Três geometrias bem distintas e claras
Bola, Rolo, Placa, dimensões diferentes
A partir destas boas bases bem presentes
O todo criado origina peças raras.

Os avoengos bonecos de tradição
C’os hodiernos bonecos de inovação
Fecham a galeria desta identidade.

C’a dual matriz tão sagrada e bem profana
Riqueza cultural desta gente humana
Herança imaterial da humanidade.

Estremoz - 01.09.2026
Luís Brito da Luz


Publicado em 4 de Setembro de 2026

#Poesia Portuguesa - 222


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

80 anos - A mudança de paradigma

 

Hernâni Matos (1946 - ).
Desenho a lápis de grafite (2026) de Pedro Alves.


Do meu pai, alfaiate e comerciante, homem da classe média, à qual ascendeu a pulso, herdei atavicamente traços de carácter que em mim perduram. Um deles, é a moderação, a qual visando assegurar o equilíbrio no dia a dia, não só a nível pessoal como nas relações interpessoais, me leva a demarcar de extremos tanto minimalistas como maximalistas.

O meu pai, utilizava amiúde a expressão idiomática “Nem oito, nem oitenta”, algebricamente correspondente a uma escala de 10 termos afastados entre si de 8 unidades. A frase expressa a convicção de que “No meio é que está a virtude”. Trata-se de pilares de pensamento nos quais me venho firmando, desde que me lembro de mim mesmo.

Hoje mesmo completo 80 anos medidos no Calendário Gregoriano, uma vez que como viajante do cosmos completo 80 translações completas em torno do Sol. E é aqui que começa a tragédia. “É aqui que a porca torce o rabo”, expressão idiomática que dá conta do ponto crítico atingido por mim enquanto terráqueo. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que abalou inexoravelmente um dos pilares de pensamento herdado dos meus ancestrais: “Nem oito nem oitenta”. Há que construir um novo paradigma que como pilar de pensamento me assegure o equilíbrio. Interrogo-me a mim mesmo sobre a eventual complexidade e dificuldade de construção desse novo paradigma. A resposta que dou a mim próprio é invariavelmente a mesma:

- ÓI! TENTA!.

Assim me encorajo a fazer um esforço na procura de um resultado que à partida é incerto.

Hernâni Matos 


domingo, 16 de agosto de 2026

Arte pastoril - Os cochos

 

Fig.1 - Cocho com decoração em alto relevo na face posterior.


Um cocho é um recipiente em cortiça usado tradicionalmente no Alentejo para beber água que jorra duma fonte ou é vazada a partir de um cântaro de barro.

Morfologicamente, o cocho consta de duas partes: uma concava (concha) e outra plana (cabo ou pega), de geometria e tamanhos variáveis, mais ou menos inclinada em relação à primeira e provida ou não de uma abertura, igualmente de geometria e tamanho variáveis, que permite a sua suspensão numa parede ou a partir da cintura do utilizador.

A maioria dos cochos são lisos, mas podem apresentar-se também decorados. A decoração é efectuada habitualmente na face anterior da pega (Fig.2, Fig. 3 e Fig. 4) e manifesta-se geralmente sob a forma de arte linear, obtida por incisões na cortiça. De resto, o bordo da pega pode ou não ser talhado em forma de recortes de índole diversa. Todavia, também existem exemplares com decoração em alto relevo na face anterior da pega (Fig.5).

É menos vulgar a decoração na parte posterior do cocho. A apresentada aqui (Fig. 1) é mesmo invulgar, já que se trata de uma decoração em alto relevo na parte posterior do cocho, distribuida pela face posterior da pega e pela parte convexa da concha. Trata-se de uma figura feminina trajando vestido com decote  e mangas, a qual de braços abertos configura vontade de abraçar quem a olha. Quem sabe se esta representação com sabor a saudades do ente querido, não traduz a convicção de um pastor de que, algures num monte distante da choupana improvisada onde ele se encontra, a mulher amada aguarda o seu regresso. Quem sabe?

Hernâni Matos 


Fig. 2 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega,
a qual tem bordo denteado.

Fig. 3 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega,
a qual tem bordo recortado.

Fig. 4 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega.

Fig. 5 - Cocho com decoração em alto relevo na face anterior da pega.

sábado, 1 de agosto de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO

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01 - Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).

4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023)

Nasceu na Aldeia de Cima (Glória) e só conheceu o mundo das letras aos trinta e sete anos. Trabalhou no campo, onde foi guardador de porcos, pastor de ovelhas e tosquiador, entre muitos outros trabalhos agro-pastoris. Trabalhou também nas pedreiras, foi empregado numa grande unidade de distribuição de mercadorias, foi enfermeiro no posto médico da sua freguesia, foi sacristão e pertenceu à Orquestra Típica de Estremoz. De resto tinha jeito para trabalhos de carpinteiro, canalizador, electricista e pedreiro.

A sua actividade como artesão da madeira e do chifre processou-se numa pequena oficina junto à sua residência e começou a efectuar-se cerca dos anos 80 do século XX. Toda ela entroncava na técnica e na estética da arte pastoril com que bordava a madeira e o chifre no decurso da pastorícia.

Os materiais usados foram: cabaças, chifre e madeiras: cedro, laranjeira, oliveira, cerejeira, cipreste, nogueira, buxo, vimeiro, sabugo e nespereira. Para os trabalhar recorreu a utensílios como: navalha, goivas, limas, grosas, serras, serrotes, serra de disco, torno, maceta, escopro.

A decoração das peças é rica e diversificada, recorrendo a motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, os três últimos de inspiração regional.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, colheres, talheres, chavões, sopradores de lume, bengalas, agulheiros, rosários, argolas de guardanapo, cigarreiras, caixas, guarda-jóias, brinquedos, dançarinos articulados, gaiolas para grilos, chamadores de perdizes, quadros em baixo relevo, painéis com alfaias agrícolas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, tabaqueiras e pulseiras.

O trabalho deste artesão é caracterizado todo ele por uma elevada qualidade técnica, aliada a uma expressiva e fina individualidade artística de matriz popular, que sempre apostou na criatividade em detrimento da cópia. Apesar disso executou as réplicas dos Bonecos de Santo Aleixo com que trabalha o CENDREV – Centro Dramático de Évora. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e em várias exposições individuais. Os seus trabalhos integram colecções museológicas das quais a mais importante é a do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho, em Estremoz.

Hernâni Matos



02 - Ciclo do pão (Lavra e semeadura, monda, ceifa, carrego, debulha). Madeira.
Quadro com decoração incisa. 148 x 48 cm.

03 - Painel com utensílios usados no decurso da ceifa e da debulha do trigo na eira.
Madeira, folha de flandres e arame. De cima para baixo e da esquerda para a direita:
vasculho, trilho, barril de água, gadanha, foice com canudos, forquilhas (3), ancinho,
pá, malho, peneira, medida, rasa. 40 x 21 x 1,5 cm.

04 - Caixa. Madeira. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica. 13,5 x 8,5 x 5,5 cm.

05 - Colher e Garfo. Madeira. Cabos com vazamento e decoração incisa,
ambos geométricos. 14,5 x 2,8 cm.

06 - Colher. Madeira. Cabo com decoração incisa, geométrica
e zoomórfica. 20 x 3,5 cm.

07 - Colher provadeira. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e fitomórfica. 13,4 x 4,5 cm.

08 - Colher com tampa. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e zoomórfica (borrego). 13 x 4,5 cm.

.
09 - Castanholas. Madeira. Decoração incisa, geométrica. 10 x 6 cm.

10 - Corna azeiteira. Em chifre, com tampa em madeira.
Decoração incisa, geométrica e zoomórfica. 60 cm.

11 - Corna azeitoneira. Em chifre e com tampa em
cortiça. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica.
17 cm.

12 - Polvorinho. Chifre. Decoração incisa, geométrica,
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 36 cm.

13 - Tabaqueira. Chifre, fundo e tampa de madeira, pregos de latão. Decoração geométrica,
fitomórfica e zoomórfica no chifre. Decoração geométrica no fundo e tampa de madeira.
10 x 11 x 4,5 cm.

14 - Caixa provida de tampa com pega. Caixa e tampa de
chifre. Pega de madeira e fundo de cortiça. Decoração
fitomórfica (caixa) e geométrica (tampa). 7,5 x 5,5 x 5 cm.


Publicado no jornal E nº 385, de 31 de Julho de 2026 






sábado, 18 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES

 

Miguel Serol Gomes na actualidade, no Atelier Memórias e Tradições,
em Monte Gordo.


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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Célia Freitas (Miguel Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

3 - MIGUEL SEROL GOMES (1957- )

Filho de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes (1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não eram compatíveis com a modelação do barro.

Na arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai, utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas em madeira e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.

Hernâni Matos

Cabaça colorida com anilina e lavrada com motivos geométricos,
com asa e tampa em madeira. 29 x 16 cm.

Cabaça escurecida com viochene e lavrada com motivos fitomórficos,
 com tampa em madeira e correia em couro para transporte. 45 x 12 cm.


Publicado no jornal E nº 384, de 17 de Julho de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A “Alegoria da Música” no figurado de Estremoz

 

Alegoria da Música. Jorge da Conceição.


UM TEXTO DO BARRISTA JORGE DA CONCEIÇÃO


A ideia de produzir uma figura alegórica relativa à música partiu do colecionador Prof. Hernâni Matos, amigo e cliente de há longa data, a propósito de uma exposição que estava a planear fazer, alusiva à representação do tema Música no figurado de Estremoz.

São sobejamente conhecidas as figuras do mundo rural e urbano a tocar harmónio, a banda de música que acompanha a procissão do Sr. dos Passos (muitas vezes vendida em separado das restantes figuras da procissão), bem como as variadíssimas figuras de assobio. Em todas estas tipologias a coleção de figurado de Estremoz do Prof. Hernâni Matos é rica e variada. Faltava, no entanto, uma figura alegórica alusiva à Música. Com efeito, no conjunto das figuras alegóricas, em que as mais conhecidas são as Primaveras, as Bailadeiras e o Amor é Cego, não existia uma representação alegórica da música, pois  a mesma nunca terá sido feita pelos barristas em todos estes séculos de produção de Bonecos de Estremoz.

 Assim, colmatar essa lacuna foi o desafio que me foi colocado e que aceitei com muito agrado e motivação.

 Usei como inspiração várias representações clássicas de Euterpe, a musa da música na mitologia grega, e repassei à exaustão imagens das figuras alegóricas de figurado de Estremoz, dos séculos XVIII e XIX, que temos o privilégio de ter no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho.

 Depois, deixando trabalhar a imaginação e imprimindo o meu próprio estilo, acabou por nascer a minha interpretação da Alegoria da Música. É uma figura na linha das Bailadeiras, com uma roupagem clássica enriquecida com atributos muito característicos das nossas figuras alegóricas, que ostenta uma lira e uma flauta. Trata-se de uma peça com uma função decorativa mas também utilitária, tal como muitas das nossas figuras alegóricas, que podem ser usadas como castiçais ou paliteiros. Neste caso a figura pode servir como paliteiro utilizando os furos da flauta.

 Toda a estética da figura que desenvolvi, desde a forma e decoração da base, à postura do corpo da figura, ao acabamento final e ao grau de serenidade e candura que transmite, foi trabalhada para ser completamente fiel à estética tão característica dos nossos Bonecos de Estremoz e, como não podia deixar de ser, ao meu estilo pessoal.

 Foi com alegria que registei a aceitação da peça que concebi e é motivo de muito orgulho constatar que foi a minha criação a selecionada para ilustrar o cartaz da exposição.

Jorge da Conceição
Estremoz, Maio de 2026

Hernâni Matos