quarta-feira, 25 de maio de 2022

Males que podiam ter sido evitados

 

Passeio frente à Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, no Largo da República, em Estremoz.
É visível uma chapa de ferro que atravessa transversalmente o passeio e dá serventia a
um algeroz privado, embutido na parede do edifício. A chapa encontra-se solta de um
dos lados, sobressaindo em relação ao nível do passeio. Nela, tropeçou um cidadão que
sofreu um aparatoso acidente, no passado dia 27 de Maio.

Um cidadão que tombou na calçada
Estremoz, 27 de Abril de 2022. Dia de inauguração da FIAPE 2022. Pouco passava do meio dia e eu com a barriga a dar horas. Transito no Largo da República em Estremoz, a caminho de casa, na rua de Santo André. Sou surpreendido por um alarido que me faz dirigir o olhar em direcção à sede da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, próximo do local onde aquele largo e aquela rua se cruzam. Chegado aí, o que vejo? Um grupo de transeuntes a procurar socorrer um cidadão estatelado no chão, com uma poça de sangue a seu lado. Agarram-no e sentam-no no passeio, encostado à parede. Tem um ar aturdido e do seu nariz, jorra sangue com abundância. É chamada a emergência médica e cerca de 10 minutos depois chega uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, que o transporta ao Centro de Saúde local. Daqui é enviado para o Hospital de Évora, donde é reenviado para o Hospital de São José, em Lisboa. Após observação, foi possível concluir que não sofrera traumatismo craniano, mas fracturara o nariz. Decorrido um dia, teve alta com a cara feita num oito, o nariz fracturado e a necessidade de uso provisório de uma placa no interior da boca, bem como a condenação a uma dieta de líquidos, a qual se mantém um mês depois.

O que é que se passou?
É caso para perguntar:
- O que terá levado um cidadão a estatelar-se no passeio, em pleno dia?
Eu respondo:
- Falta de iluminação no local? Não. Estava um sol radioso.
- Estava embriagado? Não. Estava sóbrio, conforme pude constatar.
- Sonolência súbita? Não. Estava bem acordado.
- Fartou-se da posição vertical? Não. Quando o está, senta-se num banco do Rossio.
- Foi empurrado por alguém? Não. Ninguém o empurrou.
Perguntarão:
- Então o que se passou?
Eu respondo:
- O acidentado transitava no passeio frente à referida instituição bancária e tropeçou numa chapa de ferro que atravessa transversalmente o passeio e dá serventia a um algeroz privado, embutido na parede do edifício.
Dirão provavelmente que:
- Estava à hora errada no local errado.
Sou levado a contrapor:
- Nada disso. O que está errado é que a referida chapa de ferro, contrariando todas as normas de segurança, se encontrava solta de um dos lados, sobressaindo em relação ao nível do passeio. Decorrido um mês sobre o acidente, a chapa continua no local, a resistir olimpicamente à sua remoção ou substituição.
Perguntarão:
- Então ninguém fez nada?
Eu respondo:
- Como cidadão e por dever de cidadania, através de dois canais distintos, informei responsáveis municipais, do que ali tinha ocorrido e da necessidade de tomar medidas atinentes, as quais repusessem a segurança no local e impedissem a repetição daquilo que foi um lamentável acidente.
Perguntarão:
- E qual foi o resultado dessas diligências?
Eu respondo:
- Um mês depois, a chapa em causa não foi reparada ou substituída, nem o local do acidente foi sinalizado, visando impedir a repetição do infausto acidente. Lá diz o rifão. “Tudo como dantes. Quartel general em Abrantes”.

Uma reflexão que se impõe
A chapa dá serventia a um algeroz privado e atravessa transversalmente um passeio público. Desconheço se a chapa é propriedade privada ou propriedade municipal. Todavia, creio que é da responsabilidade do respectivo proprietário, assegurar que a mesma se encontra em condições, de modo a não dificultar a circulação pedestre de transeuntes. Por outro lado, é à autarquia, enquanto gestora do espaço público, que compete assegurar a mobilidade de cidadãos em condições de segurança. Tal não aconteceu, o que viola o direito à mobilidade cidadã.

E os danos?
Sou levado a formular as eternas questões:
- Quanto vale a vida humana?
- Quanto vale o sofrimento humano?
O acidentado sofreu danos físicos, materiais e morais. Perguntarão:
- Quem é que o vai ressarcir desses danos?
A minha resposta é simples:
- Não sei. Que responda quem souber. Apenas constato a existência de um velho provérbio português, o qual proclama que “A culpa morre solteira”.

Publicado no jornal E n.º 290, de 26 de Maio de 2022

quarta-feira, 18 de maio de 2022

O Dia da Espiga (2ª edição)

Esta é a 2ª edição do post, cuja 1ª edição, datada de 6 de Março de 2010, foi agora ampliada com diversas referências de literatura oral: adagiário português (4), superstições populares (6) e cancioneiro popular (1). Foram igualmente adicionadas, novas fontes bibliográficas (3).

Bilhete-postal ilustrado dos anos 20 do século XX,
reproduzindo ilustração de A. Rey Colaço.

De acordo com o calendário litúrgico cristão, na Quinta-Feira de Ascensão comemora-se a ascensão de Cristo Salvador ao Céu, após ter sido crucificado e ter ressuscitado. Esta data móvel encerra um ciclo de quarenta dias após a Páscoa. Lá diz o adágio: "Da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão."
Na Quinta-Feira de Ascensão celebra-se igualmente o Dia da Espiga. Era tradição e igualmente superstição [2], as pessoas irem para o campo neste dia, para apanhar a espiga de trigo e outras plantas e flores silvestres. Faziam um ramo que incluía pés de trigo e/ou centeio, cevada, aveia, um ramo florido de oliveira, papoilas e margaridas.
O ramo tinha um valor simbólico. Simbolizava a fecundidade da terra e a alegria de viver. As espigas simbolizavam o pão e a abundância, as papoilas o amor e a vida, o ramo de oliveira a paz e as margaridas o ouro, a prata e o dinheiro.
Nalguns locais, o ritual da colheita da espiga era muito preciso. Na 5ª Feira de Ascensão, devia ir-se ao campo, do meio-dia para a uma hora, colher flores de oliveira, espigas de trigo e flores amarelas e brancas, tudo em número de cinco. Deviam rezar-se igualmente cinco Padres-Nossos, cinco Ave Marias e cinco Gloria Patres, para que durante o ano, houvesse sempre em casa, azeite, ouro e prata. [6]
De acordo com a tradição, o ramo devia ser pendurado dentro de casa, na parede da cozinha ou da sala, aí se conservando durante um ano, até ser substituído pelo ramo do ano seguinte. Havia a crença que o ramo funcionava como um poderoso amuleto que trazia a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Lá diz o adágio: "Quem tem trigo da Ascensão, todo o ano terá pão." E porquê? Porque se acredita naquilo que diz o cancioneiro popular alentejano:

"Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão." [4]

"Quinta-feira de Ascensão
As flores têm virtudes,
Quis amar teu coração,
Fiz empenho mas não pude." (Évora) [3]

Estava de resto, arreigada a superstição de que era bom colher certas flores e plantas medicinais na Quinta-Feira de Ascensão, antes do nascer do Sol. [2] Existia igualmente a crença de que os ovos postos pelas galinhas, entre o meio-dia e a uma hora da Quinta-Feira de Ascensão, nunca apodrecem e têm a virtude de curar doenças e suprimir dores. [2] Acreditava-se também que o queijo feito na Quinta-Feira de Ascensão era medicamento eficaz contra as sezões. [1] Existia ainda o convencimento de que o vento que na Quinta-feira de Ascensão, soprasse à uma hora da tarde, era o que sopraria durante todo o ano. Existia finalmente a convicção de que era bom comer carne na Quinta-Feira de Ascensão, de acordo com adágio:

“Em Quinta-Feira de Ascensão,
Quem não come carne
Não tem coração;
Ou de ave de pena,
Ou de rês pequena.” [2]

A origem festiva do Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-Feira da Ascensão, é muito anterior à era cristã. Na verdade, este dia é um sucessor claro de rituais pagãos, praticados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais de cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza. Neles se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, bem como a esperança nas novas colheitas. O Dia da Espiga era assim como que uma bênção aos primeiros frutos e marcava o início da época das colheitas.
A Igreja, à semelhança do que fez com outras ancestrais festas pagãs, cristianizou o Dia da Espiga. A data atravessa assim os tempos com uma dupla significação:
- como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias;
- como Dia da Espiga, traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

Bilhete-postal ilustrado do 2º quartel do século XIX, edição A.V.L. (Lisboa),
reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes (1872-1971).

Actualmente poucas são as pessoas que ainda se deslocam ao campo na Quinta-Feira da Ascensão para apanhar o ramo da espiga. Mas aquelas que vão, têm dificuldade em constituir o ramo, sobretudo pela dificuldade em recolher pés de cereal, raros a partir do momento em que os nossos agricultores receberam dinheiro de Bruxelas para deixar de cultivar. Apesar de tudo, há quem consiga cumprir a tradição. E há também quem faça negócio com a tradição, colhendo e vendendo ramos de espiga na cidade. Apesar do mercantilismo deste biscate em tempo de crise, é um contributo para a preservação da tradição. Actualmente, também são poucas as pessoas que se deslocam à Igreja para participar nos deveres religiosos inerentes à data. Todavia, houve tempos em que a data, das mais festivas do ano, era repleta de cerimónias sagradas e profanas, que chegavam a implicar a paralisação laboral. Existia mesmo a crença que em Quinta-Feira de Ascensão, os passarinhos não vão aos ninhos. [1] Daí também o adágio: “No Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos”, o que está de acordo com o cancioneiro popular:

“Se os passarinhos soubessem
Quando é dia d'Ascensão,
Nem subiam ao seu ninho,
Nem punham o pé no chão.” [5]

Existia igualmente a crença de que na Quinta-Feira de Ascensão, os pássaros não iam ao ninho desde o meio-dia até à uma hora, que era o período de orações nas festas da Igreja. Consta, que antigamente, finalizadas essas orações, era costume soltarem-se passarinhos do coro e das tribunas, e espargirem-se flores desfolhadas sobre os fiéis. [6]
Por vezes chove na Quinta-feira de Ascensão, o que originou a convicção de que em chovendo na tarde de Quinta-Feira de Ascensão, as nozes apodrecem e os frutos sairão pecos. [6] O adagiário, regista, de resto a crença de que “Água d'Ascensão, tira o vinho e dá o pão”, assim como “Chuvinha da Ascensão, dá palhinha e dá pão” e também “Quinta-feira da Ascensão, coalha a amêndoa e o pinhão”.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CHAVES, Luís. Páginas Folclóricas - I : A Canção do Trabalho. Separata do vol. XXVI da "Revista Lusitana". Imprensa Portuguesa. Porto, 1927.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, "Superstições Populares”, “O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Leite. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983.
[4] – SANTOS, Vítor. Cancioneiro Alentejano - Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[5] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
[6] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

Publicado inicialmente a 1 de Junho de 2015

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Lembrança de oleiros finórios

 


O que não é lembrado,
não é dado nem agradecido.
PROVÉRBIO POPULAR

Onde se fala de lembranças

Uma lembrança é um objecto que se compra e se oferece a outrem com a finalidade de despertar em quem o recebeu, a recordação do ofertante e de um determinado local, que tanto pode ser o local onde foi confeccionado, como aquele onde foi adquirido.

Uma vaga lembrança
O prato que é objecto do presente escrito é indubitavelmente uma peça olárica de Redondo, pelo barro, pela tipologia, pela morfologia, pela decoração e pelo cromatismo.
No fundo, esgrafitada e pintada a ocre-castanho, a singela inscrição “LEMBRANÇA”. Não foi necessário complementar aquela inscrição com outra “DE REDONDO”. É que estão lá bem escarrapachadas as marcas identitárias da louça vidrada de barro vermelho, que constituem um dos ex-líbris da vila. A omissão do nome de qualquer localidade no prato, permitia ao louceiro vender o prato de Redondo como lembrança de qualquer outra localidade.

À espera da próxima feira
Em Estremoz, as olarias locais procediam de modo diferente. O vasilhame de barro vermelho não vidrado, era vendido com inscrições relevadas, brasonadas ou não, com os dizeres “LEMBRANÇA DE ESTREMOZ” ou “RECORDAÇÃO DE ESTREMOZ”. Todavia, para venda noutros locais, a palavra ESTREMOZ, era substituída, tanto quanto sei, por ELVAS, ÉVORA, CASTELO DE BODE, TOMAR e possivelmente outras mais. Tal prática tinha os seus inconvenientes, pois as peças que não fossem vendidas numa determinada feira, tinham que ficar à espera da próxima feira no mesmo local.

Moral da estória
A omissão é como que um segredo. Lá diz o rifão: “O segredo é a alma do negócio”. Digam-me lá, se os oleiros de Redondo, eram ou não eram finórios?

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Fiape 2022 - Fénix renascida das cinzas



Memórias do passado
Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, bem como ao nascimento da Feira da Agricultura, assim como à fusão de ambas naquilo que se viria a designar por FIAPE e que a dada altura se passou a localizar onde actualmente decorre. No presente ano de 2022, após a interrupção de 2 anos pandémicos, teve lugar a 34.ª edição da FIAPE, o que me levou a retroceder no tempo e a reflectir no que aconteceu de há 39 anos a esta parte. Começarei pela Arte Popular e pelo Artesanato. Falarei depois dos restantes componentes da Feira.

Uma viagem ao passado do Artesanato
A nível local e de 1983 para cá, muitos artesãos do concelho deixaram de estar entre nós. Lembro-me de alguns: - BARRISTAS: Sabina da Conceição, Liberdade da Conceição, Maria Luísa da Conceição, José Moreira, António Lino de Sousa, Quirina Marmelo, Aclénia Pereira, Isabel Carona, Arlindo Ginga, Mário Lagartinho; - OLARIA: A Olaria Alfacinha encerrou definitivamente a sua actividade em 1995. A Olaria Regional de Mário Lagartinho deixou de existir com a morte deste, em 2016; - ARTESÃOS DA MADEIRA, DO CHIFRE E DA CORTIÇA: António Joaquim Amaral, Jacinto Lagarto Oliveira, Joaquim Manuel Velhinho, José Carrilho (Troncho), José Francisco Chagas, Manuel do Carmo Casaca, Roberto Carreiras, Teresa Serol Gomes; – ARTE CONVENTUAL: Guilhermina Maldonado; - PAPEL RECORTADO: Joana e Joaquina Simões; PINTURA SOBRE VIDRO: Natália Alves; TRAPOLOGIA: Adelaide Gomes. A nível local houve ainda quem tivesse cessado a sua actividade, devido ao avanço da idade (Joaquim Carriço (Rolo)) , bem como outros que reconverteram a sua actividade (Miguel Gomes).
De 1983 para cá, que o Município de Estremoz procurou a participação de outras regiões do país, não só para dar conta do que aí se faz em termos de artesanato, como para preencher as lacunas deixadas por artesãos locais que, entretanto, faleceram. Durante estes anos todos, nem sempre o Município tratou da melhor maneira os artesãos que nos visitavam, dos quais muitos deixaram de o fazer, por falta de incentivos locais, acrescidos por vezes, de baixo volume de vendas. Para “aguentar o barco”, o Município foi aceitando participações de índole diversa, algumas de artesanato ou suposto artesanato doutras nacionalidades e outras muito dificilmente enquadráveis naquilo que se convencionou designar por artesanato urbano. Com tudo isto, a Feira de Artesanato perdeu qualidade e a FIAPE desprestigiou-se.

E o resto?
O resto foi indo pouco mais ou menos, mais para menos que para mais, mas lá se foi aguentando.

Os sonhos
"Eu tenho um sonho" (“I have a dream”) confessou o pastor norte americano Martin Luther King, ao defender em 1963, a coexistência pacífica entre negros e brancos. À semelhança do que se passou com aquele líder do Movimento Americano pelos Direitos Civis, também eu tive há muito um sonho. O de que um dia seria possível reverter o caminho para o aniquilamento previsível da Feira de Artesanato. Para isso e a meu ver, bastaria que houvesse vontade política para o fazer, o que exigia a existência de um Executivo Municipal com ganas, estratégia, capacidade e meios para o fazer. Ora isso aconteceu com o actual Executivo Municipal, o qual transporta na lapela, o lema: “VIVE – Viver, Investir, Visitar Estremoz”. Também ele ousou sonhar com determinação de vencer e venceu, uma vez “… / Que o sonho comanda a vida / E que sempre que o homem sonha / O mundo pula e avança… ”, como proclama o poema “Pedra Filosofal” de António Gedeão, imortalizado pela voz e pela guitarra inconfundíveis de Manuel Freire.

Sonhos que se tornam realidade
A Feira de Artesanato retomou este ano a sua primitiva dignidade, facto a que não são estranhas as condições concedidas pelo Município aos artesãos visitantes e à maior participação de barristas de Estremoz.
Por ouro lado, no pavilhão B, destacava-se a presença do stand do Município dedicado às artes do barro. Aí era dada ênfase à vitória da candidatura dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade, que muito honrou o Município e dignificou e valorizou o trabalho dos barristas.
No mesmo local, era igualmente divulgada a realização dum Curso de Olaria, orientado por Xico Tarefa, Mestre Oleiro de Redondo, com um estrito respeito pela tipologia, morfologia e tipos de decoração característicos das peças oláricas de Estremoz. Trata-se de um primeiro, mas importante passo do Município no sentido de recuperar a olaria de Estremoz, considerada extinta com a morte de Mestre Mário Lagartinho em 2016.

A FIAPE 2022 no seu todo
A FIAPE deste ano apresentou um atractivo especial que consistiu em as entradas serem livres, só se pagando as entradas nos concertos, o que fomentou o fluxo de visitantes. A Feira conheceu um novo e mais interessante traçado, expandindo-se em área. A componente agro-pecuária da Feira revelou-se forte como nunca, não só em termos de concursos de gado como exposição-venda de maquinaria agrícola. Houve excelentes representações institucionais e de actividades económicas, assim como de restaurantes e tasquinhas. Ao longo dos 5 dias de Feira, houve animação musical no recinto e espectáculos diversificados e de qualidade, no palco de espectáculos, no palco da Feira e no palco do pavilhão B.
A meu ver. a FIAPE 2022 foi uma aposta ganha pelo Município. Com ela ocorreu uma mudança de paradigma. Para além de ser revertida a regressão que vinha grassando, a Feira viu-se catapultada a um patamar situado num nível mais elevado, que aqui apraz registar. Tudo leva a crer que a Feira venha ainda a crescer, reforçando a sua qualidade e importância, de modo a posicionar-se como uma das maiores do país entre as congéneres. MÃOS À OBRA, JÁ!

Publicado no jornal E n.º 289, de 12 de Maio de 2022

terça-feira, 3 de maio de 2022

Seis esculturas em alto-relevo

 

Fig. 1 - Ceifeira. Irmãs Flores. (1957 -  , 1958 -  ).

Em Junho de 2021 debrucei-me sobre o tema das esculturas em alto-relevo, uma tipologia menos vulgar da barrística de Estremoz. Para tal, ilustrei o meu texto com as imagens de três dessas esculturas, duas das quais da autoria das Irmãs Flores (Fig. 1 e Fig. 2) e a outra da autoria de José Moreira (Fig. 3). Consegui, entretanto, adquirir estas esculturas, as quais passaram a integrar a minha colecção.
Na mesma altura, levantei um desafio aos barristas: “Porquê não retomar a produção deste tipo de figuras?”
Até ao momento, houve três barristas que corresponderam ao meu desafio: Luísa Batalha (Fig. 4), Vera Magalhães (Fig. 5) e Jorge Carrapiço (Fig. 6), cujos trabalhos oportunamente divulguei e passaram desde então a integrar a minha colecção.
É um desafio que continua em aberto, pelo que creio que a minha singular colecção de esculturas em alto-relevo, possa vir ainda a aumentar a sua amplitude.

BIBLIOGRAFIA
MATOS, Hernâni. Esculturas em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2021/06/esculturas-em-alto-relevo.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].
MATOS, Hernâni. Jorge Carrapiço e a escultura em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2022/02/jorge-carrapico-e-escultura-em-alto.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].
MATOS, Hernâni. Luísa Batalha e a escultura em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2021/09/luisa-batalha-e-escultura-em-alto-relevo.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].
MATOS, Hernâni. Vera Magalhães e a escultura em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2022/02/vera-magalhaes-e-escultura-em-alto.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].


Fig. 2 - Pastor. Irmãs Flores (1957 -   , 1958 -  ).

Fig. 3 - Ceifeira. José Moreira (1926 - 1991).

Fig. 4 - Senhora de pezinhos. Luísa Batalha (1974 -   ).

Fig. 5 - Peralta. Vera Magalhães (1966 -   ).

Fig. 7 - Sargento Jorge Carrapiço (1968 -   ).

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Qual morte, qual carapuça!



O presente texto de reflexão foi elaborado
 na sequência da recepção de um email do senhor João Ferro,
 enviado no passado dia 16 de Abril, a todos os colaboradores do Jornal E


O senhor João Ferro queixa-se de que quiseram matar os "Brados", jornal que defende tal como eu, que nele tenho sido cronista em diferentes momentos do seu e do meu percurso de vida. Equaciona ainda se "Valerá a pena, haver na nossa terra dois jornais?". Ora, isto "cheira-me a gato escondido com o rabo de fora". Será que o senhor João Ferro entende que o "Jornal E" deveria acabar? Usando as suas palavras: achará ele que o jornal E, deveria ser morto? Só ele é que poderá responder. E é bom que responda.
Pela minha parte, na qualidade de cronista do "Jornal E" em diferentes momentos do seu e do meu percurso de vida, acho que não. Acho que isso seria um disparate de todo o tamanho.
Na minha perspectiva cívica, ética, cultural e também ideológica, uma sociedade democrática é necessariamente plural. Palavra de honra que me chateia a tentação de alguns de que se cante a uma só voz, o que é terrivelmente monótono. Então não é mais interessante e valiosa a polifonia?
O "Jornal E" e os "Brados" são igualmente respeitáveis, apesar do segundo já ter cabelos brancos e o primeiro ainda não.
Cada um deles tem o seu público e há quem seja público dos dois, como é o meu caso.
Cada um deles é uma voz importante em termos locais e regionais e dá-se o caso de conviverem bem um com o outro.
Parafraseando Ives Montand, diria até que são companheiros de estrada. Ora, é sabido que os companheiros de estrada são livres na sua caminhada. Grande parte do percurso é comum, mas há uma altura em que um deles diz: “- Eu não vou por aí!” E não vai, o que constitui seu legítimo direito. É assim que deve ser em termos da vivência democrática proporcionada pelas "Portas que Abril, abriu”, como oportunamente pregoou o saudoso José Carlos Ary dos Santos.
Daí que eu rejeite liminarmente a “ideia peregrina” do senhor João Ferro e parafraseando o senhor Pinto da Costa, proclame alto e bom som:
- “Cada macaco no seu galho!”
É que não é legítimo nem ético, advogar a morte de alguém, para assegurar a vida a quem já desejaram que morresse, mas não morreu e felizmente está vivo.

Hernâni Matos
Publicado no "Jornal E" n.º 299. de 29 de Abril de 2022.