Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura oral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura oral. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de novembro de 2026

Adagiário do Dia de Todos-os-Santos


OS PRECURSORES DE CRISTO COM SANTOS E MÁRTIRES (c.1423-24). Fra Angélico
(c. 1395 - 1455). Têmpera sobre madeira (31,9 x 63,5 cm). National Gallery, London.

A 1 de Novembro, a Igreja Católica celebra o Dia de Todos-os-Santos, como uma festa em honra de todos os Santos e Mártires, conhecidos e desconhecidos. Relativamente a esta efeméride, a literatura de tradição oral regista a presença dos seguintes adágios:
- De Santos a Santo André, um mês é; de Santo André ao Natal, três semanas.
- De Santos ao Natal, ou bom chover ou bem nevar.
- De Todos os Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- De Todos os Santos ao Natal, bom é chover e melhor nevar.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o capital.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o natural.
- De Todos os Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.
- Depois dos Santos, neve nos campos.
- Dos Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- Dos Santos ao Natal, bico de pardal.
- Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
- Dos Santos ao Natal é Inverno natural.
- Dos Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
- Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal.
- Dos Santos ao Natal, Inverno geral.
- Dos Santos ao Natal, perde o marinheiro o cabedal.
- O Verão de São Martinho, a vareja de São Simão e a cheia de Santos são três coisas que nunca faltaram nem faltarão.
- Pelos Santos, favas por todos os cantos.
- Pelos Santos, neve nos campos.
- Por Santos semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, neve nos campos; por dia de São Nicolau, neve no chão.
- Por Todos os Santos, semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, semeia trigo, colhe castanhas.

Publicado inicialmente a 1 de Novembro de 2022

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Deus na boca do Povo


Fig. 1 – Matança do porco. José Moreira (1926-1991).

É arreigada a crença popular em Deus. Atesta-o a multiplicidade e a diversidade das manifestações de literatura de tradição oral: Adivinhas, Lengalengas, Mitologia Popular, Provérbios, Gíria Popular, Alcunhas Alentejanas e Cancioneiro Popular. Todavia, o Deus patente nas convicções populares não será provavelmente o mesmo Deus que é ensinado na Catequese ou pregado e venerado nas Igrejas. Será talvez um outro Deus que à escala humana tem dimensão divina, já que na concepção popular criou o Mundo e tudo o que nele nasce, cresce, se multiplica e morre. Para além disso, o convencimento de que é Ele que assegura o funcionamento ou não de tudo o que existiu, existe e poderá vir a existir. O Povo tem necessidade desse Deus para justificar tudo aquilo que não consegue explicar de outra forma. Trata-se de crenças que lhe brotam à flor do pensamento no decurso do trabalho (Fig. 1), às refeições (Fig. 2) ou no folguedo (Fig. 3). Vou passar algumas delas em revista.      
Adivinhas
Tenho conhecimento destas três: - "Alto está, / Alto mora; / Ninguém o vê, / Todos o adoram." (Deus). - Em que se parece Deus com o Sol? (Em ser só um e ninguém poder passar sem ele). - Qual é a coisa mais antiga? (Deus, porque existe antes do tempo).
Lengalengas
Apenas conheço a lengalenga dos dedos. Começa assim: “Dedo mindinho / Seu vizinho / Pai de todos / Fura bolos / E mata pulgas e piolhos.” E logo conclui: “Este diz: quero pão / Este diz: que não há / Este diz: que Deus o dará / Este diz: que furtará / Este diz: alto lá!”
Mitologia Popular
Existem algumas superstições populares ligadas ao conceito popular de Deus: - Quando o céu é atravessado por uma estrela cadente, deve dizer-se: - “Deus te guie!” – “Deus te guie!”, para que não aconteça mal. - Quando aparece o arco-íris, é sinal que Deus está bem connosco. Enquanto ele aparecer, o mundo não se acaba. - Quando uma pessoa está doente, e se desconfia que foi mal que lhe fizeram, deve dizer-se: “Fulano, (nome da pessoa) / Deus te cheirou, / Deus te criou, / Deus te tire o mal, / Que nesse corpo entrou.” - É bom manter relações com os defuntos, para eles intercederem por nós junto de Deus. Para tal, deve-se pregar um alfinete na roupa do defunto ou atirar-lhe uma mão cheia de terra para cima da cova. - Quando se fala de alguma pessoa morta deve dizer-se: - “Deus te chame lá, que ninguém te chama cá”. - Se se encontrar um corcunda pela manhã em jejum, deve dizer-se três vezes: - “Benza-te Deus, dinheiro fresco nos mande Deus”, porque se recebe dinheiro em breve.
Provérbios
É vasto o número de provérbios referentes a Deus. Uns são diferentes, outros são variantes do mesmo.
Desse amplo número, seleccionei alguns que agrupei por tópicos: - CRIAÇÕES DE DEUS: Com água e com sol, Deus é criador. De nada fez Deus o Mundo. Deus criou o Homem e o português o mestiço. Deus fez as almas aos pares. Deus fez o campo; o Homem a cidade. - PRESENÇA DE DEUS: Cada um em sua casa e Deus na de todos. Deus visita-nos sem bater à porta. - SABEDORIA DE DEUS: A Deus ninguém engana. Deus é quem sabe. Deus escreve por linhas tortas. Deus não dorme. Só Deus sabe o que está para vir. - PODER DE DEUS: A Deus nada é impossível. A Deus poderás mentir, mas não enganar. Deus cura os doentes e o médico recebe o dinheiro. Guerra começada, só Deus sabe quando acaba. O futuro a Deus pertence. Os homens fazem o almanaque e Deus manda o tempo. Quando Deus quer, água fria é remédio. Quando Deus quer, até o vento junta as folhas. Quando Deus quer, os santos ajudam. Sorte, só Deus pode dispor. - JUSTIÇA DE DEUS: A justiça de Deus é infalível. A justiça de Deus tarda mas não falta. Deus é o mesmo para todos. Não fez Deus a quem desamparasse. - AMOR DE DEUS: A quem Deus quer dar vida, a água da fonte é mezinha. A quem Deus quer, até o vento apanha a lenha. Não há melhor amigo que Deus e o dinheiro na algibeira. - BONDADE DE DEUS: Bom é Deus e está fechado no sacrário. De Deus vem o bem e das abelhas o mel. Deus dá a roupa conforme o frio. Deus dá o mal e a mezinha. - AJUDA DE DEUS: A casa é Deus quem a guarda. Cada um trata de si e Deus de todos. Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha. Deus nos livre de inimizades de amigos. Do falso amigo me guarde Deus. Faz tu e Deus te ajudará. Nem sempre Deus ajuda a quem muito madruga. - DÁDIVAS DE DEUS: Dá Deus asas a quem sabe voar. Dá Deus botas a quem já tem sapatos. Dá deus espeto a quem não tem toucinho. Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros. Deus dá a canga conforme o pescoço. Deus dá as nozes mas não as parte. Deus dá couves a quem não tem toucinho. Deus dá o pão mas não amassa a farinha. Deus o dá, Deus o tira. Quando Deus dá é para todos. Quando Deus manda chuva é para todos nós nos molharmos. - ESPERANÇA EM DEUS: Deus nunca falta aos seus. Deus tarda mas não falta. Para amanhã, Deus dará. Quando Deus tarda é porque vem no caminho. - DEUS E O DIABO: A quem Deus não dá filhos, o diabo dá sobrinhos. Com Deus no rosto e o diabo no coração. Deus criou a uva e o diabo fez o vinho. Deus dá farinha, o diabo furta o saco. Deus os fez e o diabo os juntou.
Gíria Popular
É extenso o número de expressões idiomáticas que substituem os termos usados tradicionalmente. Dentre elas, escolhi as seguintes: - DEUS LHE FALE NA ALMA: Deus o tenha em descanso; - DEUS LHE PONHA A VIRTUDE: Deus o abençoe; - DEUS OS FEZ, DEUS OS JUNTOU: diz-se de um casal que se dá muito bem; - DEUS QUEIRA QUE O BURRO VÁ À FEIRA: Deus queira que as coisas corram bem; - DEUS QUEIRA: oxalá assim seja; - DEUS SEJA LOUVADO: louvor que se ergue a Deus; - DEUS TE DÊ O QUE TE FALTA: diz-se a alguém pouco ajuizado; - DEUS TE LIVRE: exclamação para manifestar o desejo de que alguém não corra perigo; - DORMIR EM DEUS: estar morto; - ESTAR BEM COM DEUS E O DIABO: concordar com campos opostos; - ESTAR COM A VIDA QUE PEDIU A DEUS: viver segundo a sua vontade. - GRAÇAS A DEUS: felizmente; - HOMEM (MULHER) DE DEUS: pessoa piedosa; - IR COM DEUS: retirar-se em paz; - LOUVADO SEJA DEUS: exclamação de regozijo ou gratidão por um acontecimento feliz; - NEM À MÃO DE DEUS PADRE: de modo nenhum; - OH HOMEM (MULHER) DE DEUS: exclamação de espanto perante um acto que não se esperava de alguém; - PÃO POR DEUS: esmola tradicional do Dia de Todos os Santos; - QUANDO DEUS É SERVIDO: ocasionalmente; - QUE DEUS HAJA: diz-se de pessoa falecida; - QUE DEUS NOS ACUDA: exclamação para invocar a intervenção divina; - QUEIRA DEUS: oxalá; - QUERER DEUS PARA SI E O DIABO PARA OS OUTROS: ser egoísta; - ROUPA DE VER A DEUS: a melhor roupa que se tem; - SABE DEUS: exclamação proferida perante factos inexplicáveis; - SE DEUS O(A) DÁ: em abundância; - SE DEUS QUISER: dependendo do poder divino; - SER UM DEUS NOS ACUDA: ser uma grande confusão; - TAMBÉM SER FILHO DE DEUS: ter direito a ser tratado como os demais; - TEMENTE A DEUS: pessoa devota; - TENTAR A DEUS: desafiar a cólera divina; - VIVER COMO DEUS É SERVIDO: sofrer privações com resignação; - VIVER DA GRAÇA DE DEUS: viver da caridade.
Alcunhas Alentejanas
O conceito de Deus está igualmente representado no âmbito das alcunhas alentejanas, ainda que a sua presença seja diminuta, já que apenas são conhecidas as seguintes alcunhas: - DEUS ME LIVRE: Alcunha outorgada a indivíduo que usa frequentemente esta expressão (Estremoz). - DEUS NÃO DORME: Designação dada a idoso internado num lar, o qual quando estava aborrecido, usava aquela expressão, ao mesmo tempo que batia com a bengala no chão (Vendas Novas). - DEUS NOSSO SENHOR: O visado é muito religioso (Alandroal). Epíteto atribuído a um sujeito que está em todo o lado (Arraiolos). - LOUVA-A-DEUS: Epíteto conferido a indivíduo que tem por hábito, pôr as mãos de um modo semelhante às patas de um louva-a-deus (Ferreira do Alentejo). - VALHA-ME DEUS: Denominação atribuída a membros de um conjunto restrito de indivíduos, que no tratamento entre si, escolheram esta forma de tratamento (Estremoz).
Cancioneiro Popular
O Cancioneiro Popular de Deus é tematicamente diversificado e por vezes jocoso. Seleccionei algumas quadras que confirmam esta afirmação: - CRIAÇÃO DE ADÃO: “Quando Deus formou Adão / De um bocado de barro, / Nem as terras davam pão, / Nem o mar era sagrado.” - DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA: “Bem pudera Deus dar pão, / Na terra sem ser lavrada; / Bem poderá, ainda o digo, / Dar muito a quem não tem nada.” - DECLARAÇÃO DE AMOR: “Impossível, sem ser Deus, / Haver quem de ti me aparte; / Eu não quero nada do mundo, / Só vivo para adorar-te.” - AMOR NÃO CORRESPONDIDO: “Amor com amor se paga, / Porque não pagas amor, / Olha que Deus não perdoa / A quem é mau pagador.” - PEDIDO DE SAÚDE: “O mar pediu a Deus peixes / Para dar ao pescador/ E eu peço a Deus saúde / Para dar ao meu amor.” - PRAGUEJAR POR DESPEITO: “No meio da rua d’reita / Nasceram dois acyprestes: / Lá darás contas a Deus / Da paga que tu me deste.” - PROTECÇÃO DIVINA: “Dizia meu avô torto / Que ao menino e ao borracho, / Não acontecia p’rigo, / Põe-lhes Deus a mão por baixo.”
Conclusão
O presente epítome constitui um ensaio de abordagem ao tema “Deus na boca do Povo”. Visando adequar a dimensão do texto, tive que fazer opções, pelo que é natural que o mesmo seja omisso relativamente a alguns especimenes de literatura de tradição oral. Tal facto não me preocupa sobremaneira, visto que no essencial divulgo aqui a visão possível de “Deus na boca do Povo”, que pode ser compartilhada por todos. Sobre a verosimilhança de tal visão, sou tentado a citar a máxima latina: “Vox populi, vox Dei” (A voz do povo é a voz de Deus).
Estremoz, 7 de Novembro de 2019
(Jornal E nº 234, de 28-11-2019)

Fig. 2 – Cozinha dos ganhões. José Moreira (1926-1991).

Fig. 3 – Bailadeira grande. José Moreira (1926-1991).

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Manto de Outono

 

Manto de Outono. Vale de Rodão. Fotografia de Catarina Matos.


À minha filha Catarina

O testemunho da joaninha
O manto de Outono é a preparação da Primavera que há de vir e na qual a Natureza ciclicamente renasce.
A joaninha é a testemunha viva, ainda que silenciosa mas alegremente pintalgada, dum retemperar de forças que a Terra Mãe urde para gáudio de todos nós.

Simbolismo da joaninha
Uma joaninha pode comer mais de 200 pulgões por dia. Como estes últimos insectos são considerados pragas para as plantações, as joaninhas são encaradas como um insecticida natural, o que constitui uma sorte para os agricultores. Daí as joaninhas serem consideradas um símbolo de sorte, além de representarem a protecção, a renovação, a harmonia e o equilíbrio.

A joaninha na literatura oral
Em primeiro lugar, destaco uma lengalenga que integra o imaginário da nossa infância. Trata-se da: ”JOANINHA VOA”, cujo conteúdo proclama:

“Joaninha, voa, voa
Que o teu pai está em Lisboa
Com um caldinho de galinha
Para dar à Joaninha.

Joaninha, voa, voa
Que o teu pai está em Lisboa
Com um rabinho de sardinha
Para comer que mais não tinha…

Joaninha, voa, voa
Que o teu pai foi a Lisboa
Com um saco de dinheiro
Pra pagar ao sapateiro.

Joaninha, voa, voa
Que o teu pai foi pr’a Lisboa
Com um saco de farinha
Para dar à avozinha.

Joaninha, voa, voa
Que o teu pai está em Lisboa
Tua mãe está no moinho
A comer pão com toucinho.”

Em segundo lugar, refiro o único provérbio que conheço sobre joaninhas e que as incita a voar, porventura para combaterem os pulgões nocivos às plantas: "Joaninha voa voa, leva as cartas a Lisboa."
A finalizar, relato uma saborosa adivinha:
PERGUNTA: - Qual é o cúmulo da vaidade?
RESPOSTA: - É a joaninha comprar creme para tirar os pontos negros!

Vem aí o Inverno
Em breve a joaninha hibernará para renascer na Primavera e prosseguir o inescapável Ciclo da Vida. Mas isso é outra estória...

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Adagiário dos Santos Populares Portugueses

 



As actividades agro-pastoris e pescatórias estão associadas ou são balizadas por determinadas datas, tanto do calendário juliano como do calendário hagiológico. Daí não ser de estranhar que os nomes dos Santos Populares integrem o adagiário português.

Santo António (13 de Junho)
- Dia de Santo António vêm dormir as castanhas ao castanheiro.
- Não peças água a Luzia e a Simão, nem sol a António e a João, que eles tudo isso te darão.

São João (24 de Junho)
- A chuva de S. João, bebe o vinho e come o pão.
- A chuva de S. João, tolhe o vinho e não dá pão.
- Água de S. João, tira o vinho e não dá pão.
- Ande o Verão por onde andar, pelo S. João cá vem parar.
- Até S. Pedro, o vinho tem medo.
- Cavas em Março e arrenda pelo São João, todos o sabem, mas poucos o dão.
- Chuva de S. João, acaba com o vinho e não ajuda o pão.
- Chuva de S. João, talha vinho e não dá pão.
- Chuva pelo S. João, bebe o vinho e come o pão.
- Chuvinha de S. João, cada pinga vale um tostão.
- Do Natal a São João, seis meses são.
- Em Abril queima a velha o carro e o carril, uma camba que ficou, ainda em Maio a queimou e guardou o seu melhor tição para o mês de São João.
- Em dia de São Pedro, vê o teu olivedo e se vires um bago espera por um cento.
- Galinhas de S. João, pelo Natal poedeiras são.
- Galinhas de São João, pelo Natal ovos dão.
- Guarda pão para Maio, lenha para Abril e o melhor tição para o S. João.
- Lavra pelo S. João e terás palha e pão.
- Lavra pelo S. João se queres ter pão.
- Lavra pelo São João se queres ter palha e pão.
- Maio louro, mas nem muito louro e São João claro como olho-de-gato.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março chuvoso, S. João farinhoso.
- Março duvidoso, S. João farinhoso.
- Março molinhoso, S. João farinhoso.
- Não peças água a Luzia e a Simão, nem sol a António e a João, que eles tudo isso te darão.
- Ouriços do S. João, são do tamanho de um botão.
- Pelo S. João, a sardinha pinga no pão.
- Pelo S. João, ceifa o teu pão.
- Pelo S. João, deve o milho cobrir o cão.
- Pelo S. João, figo na mão, pelo S. Pedro, figo preto.
- Pelo S. João, lavra e terás palha e pão.
- Pelo S. João, perdigoto na mão.
- Pelo S. João, semeia o teu feijão.
- Pelo São João, foice na mão.
- Pintos de S. João, pela Páscoa ovos dão.
- Porco, no São João, meão; se meão se achar, podes continuar; se mais de meão, acanha a ração.
- Quando Jesus se encontra com João, até as pedras dão pão.
- Quando o vento ronda o mar na noite de S. João, não há Verão.
- Quem quiser bom melão, semeia-o na manhã de São João.
- S. João e S. Miguel passados, tanto manda o amo como o criado.
- Sardinha de S. João, já pinga no pão.
- Se bem me quer João, suas obras o dirão.
- Se queres ter pão, lavra pelo São João.
-Tem o porco meão pelo S. João.

São Pedro (29 de Junho)
- Até São Pedro, há o vinho medo.
- Dia de São Pedro, tapa o rego.
- Dia de São Pedro, vê o teu olivedo; e, se vires um grão, espera por cento.
- Nevoeiro de São Pedro põe em Julho o vinho a medo.
- Pelo São Pedro vai ao arvoredo; se vires uma, conta um cento.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O frio na gíria popular

 

Costumes alentejanos (1923). Jaime Martins Barata (1899-1970).
Aguarela sobre papel. Museu Grão Vasco, Viseu.

 

Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar
Rui Veloso in "Não há estrelas no céu"


Em Janeiro, o frio “é fruta da época”, pelo que não é de estranhar ouvirem-se frases que em gíria popular traduzem o rigor da frialdade:- “Está cá um barbeiro”; - “Está cá um briol”; - “Está cá um griso”, - “Está frio como o diabo”, - “Está um frio de rachar”, - “Estou frio como um cão”. De resto, o frio que impera, faz-nos:  - “Bater o dente”; - “Tiritar de frio”; - “Tremer de frio”.

A abundância de expressões idiomáticas atinentes ao vocábulo “frio“, é reveladora da riqueza da nossa língua, sem a qual não há cultura portuguesa e identidade cultural nacional, uma vez que a construção desta se alicerça naquelas.

Há, pois, que lutar contra a agressiva operação de colonização linguística, veiculada maioritariamente pelos meios de comunicação social, os quais nos bombardeiam com estrangeirismos e muito em especial com anglicismos em nome da globalização, apregoada por alguns como uma fatalidade irreversível.

Publicado inicialmente em 10 de Janeiro de 2024

domingo, 22 de outubro de 2023

Adagiário das castanhas

 

MULHER DAS CASTANHAS (1938) - Ana das Peles (1869-1945).
Ex-colecção Azinhal Abelho. Colecção Hernâni Matos.



Anualmente entre Junho e Julho, os castanheiros ficam floridos e a estas flores sucedem-se os ouriços, que encerram as castanhas, as quais começam a cair no início do Outono, em Setembro e Outubro.
É vasto o adagiário das castanhas:

- A castanha amarela em Agosto tem a tinta no rosto.
- A castanha é de quem a come e não de quem a apanha.
- A castanha e o besugo em Fevereiro não têm sumo.
- A castanha em Agosto a arder e em Setembro a beber.
- A castanha tem três capas de Inverno: a primeira mete medo, a segunda é lustrosa e a terceira é amarga.
- A castanha tem uma manha: vai com quem a apanha.
- A castanha veste três camisas: uma de tormentos, outra de estopa e outra de linho.
- A noz e a castanha é de quem a apanha.
- Ao assar as castanhas, as que estouram são as mentiras dos presentes.
- Arreganha-te, castanha, que amanhã é o teu dia.
- As castanhas apanham-se quando caem.
- As castanhas para o caniço e o boneco para o porco.
- As folhas de castanheiro andam sete anos na terra e depois ainda voam.
- Carregadinho de castanha, vai o burrinho para Idanha.
- Castanha assada, pouco vale ou nada, a não ser untada.
- Castanha bichosa, castanha amargosa.
- Castanha peluda, castanha reboluda.
- Castanha perdida, castanha nascida.
- Castanha que está no caminho é do vizinho.
- Castanha quente só com aguardente, comida com água fria causa “azedia”.
- Castanha semeada, p´ra nascer, arrebenta.
- Castanhas boas e vinho fazem as delícias do S. Martinho.
- Castanhas caídas, velhas ao souto.
- Castanhas do Marão, a escolher se vão.
- Castanhas do Natal sabem bem e partem-se mal.
- Castanheiro para a tua casa, corta-o em Janeiro.
- Com castanhas assadas e sardinhas salgadas não há ruim vinho.
- Crescem os reboleiros, morrem os castanheiros.
- Cruas, assadas, cozidas ou engroladas, com todas as manhãs, bem boas são as castanhas.
- Dá-me castanhas, dar-te-ei banhas.
- De bom castanheiro, boa acha.
- De bom castanheiro, bom madeiro.
- De castanha em castanha (roubando) se faz a má manha.
- De castanheiro caído todos fazem lenha.
- Desde que a castanha estoira, leve o diabo o que ela tem dentro.
- Do castanho ao cerejo, mal me vejo.
- Em ano de muito ouriço não faças caniço.
- Em minguante de Janeiro, corta o teu castanheiro.
- Em Setembro, antes de chover, o souto o arado quer ver.
- Folha amarela do castanheiro cai ao chão.
- Mais vale castanheiro, que saco de dinheiro.
- No dia de S. Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho.
- No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.
- No dia de S. Martinho, mata o teu porco, chega-te ao lume, assa castanhas e prova o teu vinho.
- No dia de São Julião, quem não assar um magusto não é cristão.
- O castanheiro, para plantar, precisa ir na mão, o carvalho às costas e o sobreiro no carro.
- O céu é de quem o ganha e a castanha de quem a apanha.
- O ouriço abriu, a castanha caiu.
- Oliveira do meu avô, castanheiro do meu pai e vinha minha.
- Os ouriços no São João são do tamanho de um botão.
- Pelo S. Martinho castanhas assadas, pão e vinho.
- Pelo São Francisco, castanhas como cisco.
- Quando gear, o ouriço vai buscar.
- Quando o sol aperta, o ouriço arreganha.
- Quem castanhas come, madeira consome.
- Quem não sabe manhas, não come castanhas.
- Raiz de castanheiro, dá bom braseiro.
- Sete castanhas são um palmo de pão.
- Temporã é a castanha, que em Agosto arreganha.

BIBLIOGRAFIA
- BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez e Latino. Vol. I a X. Officina de Pascoal da Sylva. Coimbra, 1712-1728.
- CHAVES, Pedro. Rifoneiro Português. Imprensa Moderna, Lda. Porto, 1928.
- DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Evora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
- MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
- ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1780.

Publicado inicialmente em 22 de Outubro de 2023

MULHER DAS CASTANHAS (1906) – Ilustração de Raquel Roque
Gameiro para capa da revista “Serões”, de Novembro de 1906.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Cerâmica de Redondo – Os alguidares

 


“Alguidar, alguidar
Que feito foste ao luar
Debaixo das sete estrelas
Com cuspinhos de donzelas
Te mandei eu amassar”
Gil Vicente - Auto das Fadas
 (Fala da feiticeira)


Singularidade e multifuncionalidade
Etimologicamente, a palavra “alguidar” deriva do árabe “al-gidar” (escudela grande), facto que é revelador da origem árabe do recipiente de barro, a semelhança de outros como albarrada[1], alcadefe[2], alcatruz[3], aljofaina[4], almofia[5], almarraxa[6], atanor[7].
Um alguidar de barro é um recipiente com a morfologia de um cone truncado e invertido. Daí que seja mais largo que alto e que a abertura (boca) tenha diâmetro muito superior ao do fundo. A singularidade morfológica deste tipo de vasilhame nunca foi impeditiva da sua multifuncionalidade nos lares. Aí era usado para: amassar o pão, preparar vegetais, lavar a loiça, levar um assado ao forno, recolher o sangue na matança do porco, temperar carne de porco (a chamada carne de alguidar), migar a carne de porco usada nos diversos tipos de enchidos, preparar a sabonária, transportar a roupa a lavar no rio, dar banho às crianças, lavar as mãos, lavar os pés, lavar da cintura para cima, aparar a água que caía do telhado, etc.
Lá diz o rifão: “A necessidade é mestra de engenho”. Daí que a multifuncionalidade do alguidar, como de resto, doutras peças oláricas, seja um corolário natural, resultante da necessidade de as valorizar, sobretudo entre as classes populares, devido aos magros rendimentos.
A utilização dos alguidares fazia parte das tarefas femininas e era a mulher que no lar se encarregava da sua aquisição e usabilidade, mandando-os gatear sempre que estes se quebravam, forçando a sua utilização até ao limite. Era uma filosofia de vida inspirada no conceito prático de desperdício zero, determinado pela magreza dos rendimentos.
A fragilidade do barro viria a conduzir sucessivamente à utilização de alguidares de zinco, de alumínio e por fim de plástico, com toda a tragédia ambiental que lhe está associada e é bem conhecida.

Alguidares de Redondo
Os alguidares de Redondo são de diferentes tamanhos e capacidades, conforme a funcionalidade que lhes está destinada. O bordo é geralmente liso, mas também pode ser repenicado. Os alguidares podem encontrar-se ou não decorados. A decoração dos alguidares pode ser feita apenas na superfície lateral interna ou cumulativamente no fundo do alguidar. Vejamos alguns dos tipos de decoração por mim identificados: a) DECORAÇÃO COM PALMAS. b) DECORAÇÃO COM ARCADAS. c) DECORAÇÃO COM PALMAS E ARCADAS - As palmas, em número variável (geralmente entre 4 e 7) são obtidas por escorrimento de engobe amarelo sobre o barro e dirigem-se do fundo para o bordo do alguidar. As palmas podem-se encontrar ou não com outras palmas no bordo do alguidar. Quando as palmas não se encontram com outras no bordo do alguidar, estão ligadas entre si por arcadas em número variável, obtidas por escorrimento de engobe amarelo sobre o barro vermelho, apresentando as cavidades viradas para o bordo do alguidar. As palmas podem estar esponjadas a verde ao longo da respectiva superfície ou apenas no bordo dos alguidares. d) DECORAÇÃO POR PINTURA - Neste tipo de decoração são utilizados elementos geométricos, fitomórficos e zoomórficos. e) DECORAÇÃO ABSTRACTA - Este género de decoração recorre à utilização de laivos, esponjados, salpicos e escorridos.

Cultura popular
No domínio da gíria popular são conhecidas as expressões: - ALGUIDARES DE CIMA, ALGUIDARES DE BAIXO = Em parte incerta; - BEIÇOS DE ALGUIDAR = Designação dada a alguém que lábios grossos e muito vermelhos; - CHAPÉU De ALGUIDAR = Chapéu abeiro; - DE FACA E ALGUIDAR = Expressão idiomática que descreve uma situação de violência que pode culminar no uso de armas brancas e num desfecho sangrento. A expressão é aplicável a discussões, notícias, estórias, romances, filmes, canções; - TRAZ A FACA E O ALGUIDAR = Frase com que se assustam as crianças, ameaçando-as de as matarem.
No âmbito do adagiário popular localizámos os adágios: “A arma e o alguidar não se hão de emprestar”, “Mulher e alguidar não se deve emprestar”, “A arma e o alguidar não se hão-de emprestar”, “Perda de marido, perda de alguidar, um quebrado, outro no poial”, “Por um dedal de vento não se perca um alguidar de tripas”, “Quem toma o alguidar pelo fundo e a mulher pela palavra, pode dizer que não tem nada”.
A nível de lengalengas é bem conhecida aquela que se intitula “As refeições: “Que é o almoço? / Cascas de tremoço. / Que é o jantar? / Beiços de alguidar. / Que é a ceia? / Morrões de candeia.”
Do cancioneiro popular, começo por destacar uma quadra conterrânea dos alguidares que foram objecto do presente estudo “Lá na vila de Redondo / Fazem-se pratos e tigelas; / Fazem-se telhas e adobinhos, / Alguidares e Panelas.” (10), bem como esta outra “Se eu fôra rapaz solteiro / Nunca me havia casar, / P ’ra mulher me não pedir / Certã, panella, alguidar.” (3). Os alguidares onde comiam os ganhões eram conhecidos por “barranhões” e sobre eles a quadra: “Cala-te, meu papa-açorda, / Meu alimpa barranhões, / Já te foram convidar / P’rò refugo dos ganhões.” (5)
Na área da gastronomia temos a "Carne de Alguidar", prato confeccionado com carne de porco temperada com pimentão e o chamado "Licor de Alguidar", produzido de forma artesanal seguindo uma tradição secular da gente da Beira Mar, em Aveiro.

Remate
Apesar da sua simplicidade e singularidade morfológicas e não obstante a possibilidade de não se encontrarem decorados e serem monocromáticos, os alguidares são exemplares oláricos que encerram em si uma enorme riqueza, fruto da conjugação da sua multifuncionalidade e da sua forte presença na cultura popular.

BIBLIOGRAFIA
(1) - ALMEIDA; José João. Dicionário aberto de calão e expressões idiomáticas. [Em linha]. Disponível em: https://natura.di.uminho.pt/~jj/pln/calao/dicionario.pdf . [Consultado em 21 de Outubro de 2022].
(2) - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
(3) - BRAGA, Theophilo. Cancioneiro Popular Portuguez. J. A. RODRIGUES & C.ª - EDITORES. Lisboa, 1911.
(4) - DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
(5) - GIACOMETTI, Michel. Cancioneiro Popular Português. Círculo Leitores. Lisboa, 1981.
LAPA, Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
(6) - MACHADO, José Pedro. O Grande Livro dos Provérbios. Editorial Notícias. Lisboa, 1996.
MÃE ME QUER. Lengalengas pequenas para crianças pequenas. [Em linha]. Disponível em: https://maemequer.sapo.pt/desenvolvimento-infantil/crescer/brincar/lengalengas-pequenas/ . [Consultado em 21 de Outubro de 2022].
(7) - MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
(8) - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes (2º ed.). Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
(9) - PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
(10) - REDONDO IN OLD TIMES. Cancioneiro Popular da vila de Redondo, 1929. [Em linha]. Disponível em: http://redondoinoldtimes.blogspot.com/2015/06/cancioneiro-popular-da-vila-de-redondo.html . [Consultado em 21 de Outubro de 2022].
(11) – RIBEIRO, Aquilino. Terras do demo. Livrarias Aillaud & Bertrand. Lisboa, 1919.
(12) - ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1780.
(13) - SANTOS, António Nogueira. Novo dicionário de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
(14) - SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
(15) - VASCONCELLOS, Carolina Michaelis. Algumas Palavras a respeito de Púcaros de Portugal. Imprensa da Universidade. Coimbra, 1921.
(16) - VIEIRA, Frei Domingos. Grande diccionario portuguez ou thesouro da lingua portugueza. 4 Vols. Porto: Ed. Chardron e Bartholomeu H. de Moraes. Rio de Janeiro, 1871-1874.

-----

[1] Copo de barro para água e onde muitas vezes se punham flores.
[2] Vasilha de barro, sobre a qual o taberneiro mede o vinho e que recebe as verteduras.
[3] Vaso de barro, que levanta a água nas noras.
[4] Pequena bacia de barro, usada num lavatório.
[5] Espécie de tijela de barro, de fundo largo e bordos quási perpendiculares.
[6] Recipiente de barro com orifícios no bojo para borrifar.
[7] Forno em barro usado pelos alquimistas.


Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 28 de Outubro de 2022





















sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Hoje há perdiz


Prato covo, de grandes dimensões (40 x 28 x 10 cm), de aba larga, ligeiramente
côncava.  Decoração esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia
verde-amarelo-- ocre castanho, sobre fundo amarelo palha. Olaria e decorador
desconhecidos. 1ª metade do séc. XX.
 
Ao meu amigo António Carmelo Aires,
afamado caçador, reputado gastrónomo
e ilustre investigador da cerâmica de Redondo.

Entradas
A afirmação que escolhi como título do presente escrito tem um triplo alcance.
Por um lado, o prato que foi objecto da minha atenção e estudo, ostenta no fundo uma perdiz como elemento decorativo principal.
Em segundo lugar, porque da visualização do mesmo ressalta a existência de marcas de uso que a lavagem não conseguiu remover. São elas as falhas de vidrado e a patine conferida pela gordura nela entranhada. Já no tardoz, a patine assume a forma de uma camada negra entranhada no fundo do prato, configurando partículas de carvão, fixadas por gordura e que indiciam que o prato, de considerável covo, tenha sido usado na confecção de assados em forno de lenha. E, dada a decoração do prato, não me repugna nada admitir que possa ter sido usado para fazer assados de perdiz e tenha sido sempre esse o seu uso. Quem sabe até, se em casa de algum caçador.
Em terceiro lugar, porque entendi fazer uma abordagem etnográfica do tema “perdiz”, centrada na sua gastronomia e em múltiplos aspectos da sua tradição oral.

O prato
Prato covo, de grandes dimensões (40 x 28 x 10 cm), de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo amarelo palha. Olaria e decorador desconhecidos. 1ª metade do séc. XX.
A aba encontra-se enfeitada com sucessivos pedúnculos num total de onze, com geometria sinusoidal achatada, ladeados de folhas verdes e que culminam em botões a ocre castanho (decoração olho-de-boi), orientados no sentido anti-horário.
O fundo está decorado com uma perdiz a olhar para a esquerda, pousada num ramo do qual saem dois pedúnculos com folhas e flores, que a ladeiam.

Gastronomia
A carne de perdiz tem muito baixo teor de gordura.
 É uma carne muito muito saborosa, macia e dietética que pode ser cozinhada fervida, estufada, frita, assada e recheada. A composição da carne de perdiz e as suas propriedades tornam-na uma carne de uso aconselhado em culinária. O conteúdo calórico é mínimo, pelo que a tornam indicada para pessoas que sofrem de obesidade. A composição inclui enzimas que aceleram o metabolismo e removem o colesterol. Regula o nível de hemoglobina no sangue, relaxa e fortalece o sistema nervoso, melhora a memória e aumenta a concentração e ajuda a tratar doenças respiratórias. É afrodisíaca. Normaliza o trato digestivo em caso de envenenamento, obstipação e diarreia. Regula os níveis de biotina, a qual regula o metabolismo do açúcar e trava a progressão da diabetes.
Existe um número considerável de pratos em cuja confecção entra a perdiz. Destaco alguns dos mais conhecidos e afamados: açorda de perdiz, arroz de perdiz à Fialho de Almeida, canja de perdiz, cataplana de perdiz e cogumelos silvestres, confit de perdiz, perdiz à algarvia, perdiz à castelhana (receita de Bulhão Pato), perdiz à Convento da Cartuxa, perdiz à Convento de Alcântara, perdiz à Montemor, perdiz assada, perdiz com couve, perdiz com repolho, perdiz de escabeche, perdiz estufada, perdiz fria à moda de Coimbra, perdiz frita à caçador, perdiz na cerveja, raviolli de perdiz, sopa de castanhas e perdiz, tigelada de perdiz.

Adagiário
O adagiário da perdiz incide sobre a gastronomia da ave e sobre o desenvolvimento e caça da mesma, incidindo então sobre quase todos os meses do ano:
- A perdiz e o frade, de manhã ou à tarde.
- A perdiz é perdida, se quente não é comida.
- A perdiz, com a mão no nariz.
- Antes pardal na mão que perdiz a voar.
- Caça à perdiz com o vento pelo nariz e às narcejas pelas costas o vejas.
- Das aves, boa é a perdiz, mas melhor a codorniz.
- Do peixe a pescada, da ave a perdiz, da carne a vitela.
- Do peixe a pescada, da carne a perdiz.

- Em Abril, cheio está o covil.[1]
- Em Agosto espingardas ao rosto [2]
- Em Fevereiro, recocaneiro. [3]
- Em Janeiro acasala com o seu parceiro. [4]
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro.
- Em Maio chocai-o. [5]
- Em Março, três ou quatro. [6]
- Enquanto não é tempo de muda, caçai comigo aos perdigotos.
- Fevereiro couveiro faz a perdiz ao poleiro.
- Maio, Maio, pio pio pelo mato.
- Não há carne perdida, senão lebre assada e perdiz cozida.
- O coelho e a perdiz, uma mão na boca e outra no nariz.
- Perdigão Gordo, pássara magra.
- Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha.
- Perdiz açorada, meia assada.
- Perdiz derreada, perdigotos guarda.
- Quando a perdiz canta, bom prado tem.
- Quem a truta come assada e cozida a perdiz, não sabe o que faz nem sabe o que diz.
- Quem aos trinta anos come lebre assada e cozida a perdiz, não sabe o que faz nem sabe o que diz.
- São João, leva-os ao pão.
[7]
- São Tiago(ua) leva-os à água. [8]
Actualmente a caça à perdiz só está autorizada no início de Outubro, mas antigamente começava a 15 de Agosto. Os caçadores tinham então memorizada uma sequência de adágios sobre perdizes, relativos a cada mês do ano e através dela sabiam reconhecer a fase da evolução das perdizes desde o acasalamento até à abertura da caça. Uma tal sequência, à laia de lengalenga podia ser esta: “Em Janeiro acasala com o seu parceiro; Em Fevereiro, recocaneiro; Em Março, três ou quatro; Em Abril, cheio está o covil; Em Maio chocai-o; São João, leva-os ao pão; São Tiago(ua) leva-os à água; “Em Agosto espingardas ao rosto”. Todavia a sequência podia ter composição diferente.

Cancioneiro
É diminuto o cancioneiro popular da perdiz. Todavia entendi dele seleccionar a quadra “Debaixo da trovisqueira / Saiu a perdiz cantando; / Deixemos falar quem fala, / É mundo, vamos andando.” (5), seguida desta outra “A perdiz anda no monte, / Come da erva que quer; / É como o moço solteiro / Enquanto não tem mulher.” (9) e ainda de outra “A perdiz canta no bosque, / Na charneca o lavrador. / Eu só canto quando vejo / Os olhos do meu amor.” (10)

Lengalengas
Localizei apenas 3 lengalengas onde intervém a perdiz e delas destaquei a seguinte: “Serapico, pico, pico / Quem te fez tamanho bico? / Foi a velha do capuz / Que anda lá com uma luz / À procura da perdiz / Para a filha do juíz / Que está presa pelo nariz!”

Adivinhas
A consulta de diversos livros de adivinhas, apenas me permitiu identificar uma em cuja formulação entra a perdiz como personagem: “Um atirador disparou sobre três perdizes e matou uma. Quantas ficaram?” A resposta, para alguns algo imprevista e da qual está ausente o cálculo mental é “Não ficou nenhuma, que as outras fugiram”.

Alcunhas alentejanas
É reduzido o número de alcunhas alentejanas em que intervém a perdiz: PERDIZ (alcunha outorgada a indivíduo que caça muitas perdizes (Avis e Estremoz), PERDIZ CHUMBADA (denominação atribuída a indivíduo que em criança apanhou uma perdiz à mão, mas ela já estava chumbada (Alter do Chão)), PERDIZEIRO (o visado consegue caçar muitas perdizes).

Toponímia
Também é escasso o número de presenças da perdiz na toponímia portuguesa. Apenas localizei os seguintes topónimos: BECO DAS PERDIZES (arruamento de Albufeira), CAMINHO DAS PERDIZES (arruamento em Arruda dos Vinhos), FONTE DAS PERDIZES (fonte de água potável no concelho de Ourém), FONTE DAS PERDIZES (lugar do concelho de Grândola), MONTE DAS PERDIZES (lugar da zona norte do Parque Florestal de Monsanto), MONTE DAS PERDIZES (quinta agrícola do sítio do Quatrim - Quelfes, Olhão, com alojamento turístico), PARQUE DAS PERDIZES (parque de Paço de Arcos), QUINTA DO VALE DA PERDIZ (lugar nas proximidades de Torre de Moncorvo), RUA DA PERDIZ (arruamento de Ponte de Lima), VILAR DE PERDIZES (freguesia do concelho de Montalegre, celebre pela realização dos Congressos de Medicina Popular, impulsionados pelo padre Fontes desde 1983 e que ali atraem bruxos, cartomantes, curandeiros e videntes).

Gíria popular
É parca a gíria popular sobre a perdiz. Todavia foi-me possível identificar alguns termos: OLHO DE PERDIZ (calosidade redonda e pequena entre os dedos dos pés), OLHO DE PERDIZ (padrão de tecido de lã), OLHO DE PERDIZ (qualidade de madeira utilizada em mobiliário), OLHO DE PERDIZ (variedade de batata de polpa e pele amarelas, com manchas vermelhas), OLHO DE PERDIZ (variedade de figo arredondado e adocicado, de tamanho médio e coloração arroxeada), PÉ DE PERDIZ (arbusto medicinal cuja raiz tem acção anti-inflamatória, cicatrizante, anticancerígena, antimicótica, antibacteriana e antiviral, sendo utilizada no combate de inúmeras doenças), PÉ DE PERDIZ (casta de videira de uva branca), PÉ DE PERDIZ (variedade de pera), PERDIZ (peça teatral que deu prejuízo), PERDIZ (receita que não cobre a despesa), PERDIZ DE ALQUEIVE (sapo), PERDIZADA (bando de perdizes), SALTO DE PERDIZ (salto de sapato alto, vermelho, muito usado pelas elegantes no séc. XVIII).

Desenlace
Coleccionar não é só juntar exemplares daquilo que se decidiu coleccionar. Pelo contrário, exige uma observação minuciosa e atenta, bem como um estudo profundo desses exemplares, independentemente da sua origem, natureza, composição, tipologia e função. Foi o que se passou com o prato de Redondo que foi objecto do presente escrito. Encontrei-o disponível no mercado de antiguidades e entre nós estabeleceram-se, de imediato, fortes laços de empatia, já que o prato começou a falar comigo. Na sequência da sua aquisição e porque sou um contador de estórias, tinha que falar do prato, relatando as estórias que ele tinha para me contar. Foi o que procurei fazer com espírito de missão, missão que não terminou aqui e que será prosseguida inescapavelmente com o surgimento do próximo objecto olárico, igualmente capaz de estabelecer comigo um relacionamento empático.

BIBLIOGRAFIA
(1) - AMIGOS DE CAPELINS. A perdiz [Em linha]. Disponível em: https://amigosdecapelins.blogspot.com/2020/11/662-fauna-das-terras-de-capelins-perdiz.html [Consultado em 22 de Setembro de 2022].
(2) - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
(3) - COMIDA SAUDÁVEL PERTO DE MIM. Perdiz [Em linha]. Disponível em: https://pt.healthy-food-near-me.com/partridge-description-of-meat-benefits-and-harm-to-human-health/ [Consultado em 18 de Setembro de 2022].
(4) - MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
(5) - COUTINHO, Artur. Cancioneiro da Serra de Arga. Edição do autor. Viana do castelo, 1980.
(6) – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
(7) - MOUTINHO, José Viale. Adivinhas Populares Portuguesas. 6ª edição. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1988.
(8) - RAMOS, Francisco Martins; SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
(9) - BRAGA, Theophilo. Cancioneiro Popular Português. 2ª ed. A. Rodrigues & CV. Editores. Lisboa, 191.
(10) - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. II. Typographia Progesso. Elvas, 1905.
(11) - VÁRIOS. Grande Enciclopédia Luso-Brasileira, vol. 21. Lisboa, Rio de Janeiro, s/d.

 


[1] Significa que durante o mês de Abril a perdiz continuava a pôr ovos, que podiam atingir a dezena e meia e enchiam o ninho.
[2] Expressa que em Agosto, os perdigotos já estavam bem-criados, pelo que podiam ser caçados.
[3] Revela que em Fevereiro, o casal perdiz-perdigão recocava, isto é, manifestava um cantar manso e terno.
[4] Indica que é em Janeiro que uma perdiz acasalava com um perdigão, ficando juntos até à criação dos perdigotos.
[5] Diz-nos que no mês de Maio, as perdizes chocavam os ovos e nasciam os perdigotos.
[6] Significa que em Março, a perdiz começara a pôr ovos e o ninho já devia ter 3 ou 4.
[7] São João comemora-se a 24 de Junho, mês das colheitas por os cereais estarem maduros, alimentando as perdizes e os perdigotos. Este o sentido do adágio.
[8] São Tiago comemora-se a 25 de Julho, mês em que os perdigotos já estavam crescidos e voavam por cima de cursos de água, onde iam beber. Tal o sentido do adágio.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

Seja bem vindo quem vier por bem


Prato falante, raso, de média dimensão, com superfície interna de cor creme,
de aba larga ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base
 em tricromia verde-amarelo-castanho. Decorado na aba com motivos fitomórficos,
configurando uma cereja rodeada de 2 folhas, que se repete por quatro vezes
ao longo da aba. No fundo, ao centro, a inscrição “SEJA BEM VINDO QUEM
VIER POR BEM”, máxima que integra o adagiário português.


“SEJA BEM VINDO QUEM VIER POR BEM”, a frase inscrita no prato falante da figura, é uma máxima que integra o adagiário português, bem como a letra da canção “Seja bem vindo quem vier por bem”, que tal como a música são da autoria do saudoso Zeca Afonso (1929-1987):

Seja bem vindo quem vier por bem

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

Hernâni Matos