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sábado, 25 de julho de 2020

Museu Berardo Estremoz


Museu Berardo Estremoz. Fotografia da Câmara Municipal de Estremoz. 


A inauguração do Museu Berardo Estremoz na presente data, culmina um longo processo que envolve Berardo e Companhia, do qual fui dando conta na imprensa local e neste blogue. Continuo a pensar que o sujeito deu um chouriço a quem lhe deu um porco. Para que conste aqui fica compilado tudo o que disse sobre aquela dupla:

- COLECÇÕES BERARDO: Cama, mesa e roupa lavada (15-05-2019)
Berardo e Companhia (13-07-2017)
O Palácio Tocha na Belle Époque (07-07-2014)

À margem da dupla e porque eu andei por ali:

 Eu e o Palácio Tocha (13-07-2014)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

75 anos da morte de Ana das Peles


Presépio de três figuras (1938). Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor.

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Presépio de três figuras
Os barristas de Estremoz vêm representando a Natividade, seguramente desde o século XVIII, pelo que existe uma grande diversidade de Presépios. Aquele que ilustra a presente crónica é o chamado Presépio de três figuras da autoria de Ana das Peles (1869-1945), que de acordo com correspondência que tenho em meu poder, foi encomendado em 1938 pelo poeta Azinhal Abelho (1911-1979) ao escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945.
De salientar que este modelo de Presépio foi manufacturado pela primeira vez por Ana das Peles sob a supervisão de Sá Lemos que o concebera. Além de ser integrado pelo chamado “Berço do Menino Jesus”, inclui as figuras de Nossa Senhora e São José, ajoelhados numa base de cor ocre amarelo, de forma rectangular com os cantos adoçados e denteado na orla vertical.
O renascer dos Bonecos
Após a sua chegada a Estremoz, Sá Lemos constatou que a manufactura de Bonecos de Estremoz se encontrava extinta desse 1921, após a morte da barrista Gertrudes Rosa Marques. Atribuiu então a si próprio a missão da sua recuperação, para o que precisaria da colaboração de alguém que em tempos os tivesse confeccionado. Teve conhecimento da existência de Ana Rita da Silva (Ana das Peles), então com 63 anos de idade, que em tempos manufacturara os Bonecos de assobio e assistira à feitura dos restantes, mas entendia que não era capaz de os confeccionar. Sá Lemos intuiu que seria, por se lhe ter tornado evidente que a técnica era a mesma. Dois anos levaram a convencê-la, o que aconteceu em Julho de 1935 no decurso da Feira de Santiago, no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz. A partir daí, Sá Lemos estimulou-a, orientou-a e trabalhou em conjunto com ela na Escola. Em 10 de Novembro de 1935, no artigo “Os bonecos de Estremoz / “Versos Irónicos em barro””, publicado no jornal “Brados do Alentejo”, confessou que a sua missão fora coroada de êxito.
A estética dos Bonecos
Sá Lemos que além de escultor era professor de Desenho na Escola, no decorrer da revitalização da extinta manufactura de Bonecos de Estremoz, gizou a estética dos mesmos, tanto a nível morfológico como a nível cromático. Para tal, utilizou como modelos, exemplares pertencentes à Biblioteca-Museu Municipal de Estremoz, ao Museu Municipal de Elvas e ao Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945).
A estética projectada por Sá Lemos foi apreendida por Ana das Peles, a partir do aconselhamento e acompanhamento do escultor. A idade avançada de Ana das Peles (66 anos em 1935) levou Sá Lemos a interessar na manufactura dos mesmos, o oleiro Mariano da Conceição (1903-1959), Mestre de Olaria da Escola desde 3 de Dezembro de 1930, que em 1935 tinha 32 anos e estava na força da vida. Mariano aceitou de bom grado o repto e a partir de então a sabedoria e a magia das suas mãos, voltaram-se também para a manufactura dos Bonecos que vira Ana das Peles modelar. Creio que Mariano só terá começado a modelar Bonecos depois de 1937, uma vez que ao contrário de Ana das Peles, os Bonecos de Mariano não estiveram presentes em 1936 na Exposição de Arte Popular Portuguesa realizada em Lisboa, nem em 1937 na Exposição Internacional de Paris. Mariano só participou em 1940 na Exposição do Mundo Português, na qual estiveram também presentes Bonecos de Ana das Peles.
Sá Lemos também aconselhou e acompanhou Mariano da Conceição nos primeiros tempos, mas posteriormente veio a fornecer-lhe desenhos de figuras concebidas por si e que à data de falecimento de Mariano (29 de Setembro de 1959) ainda existiam na sua casa. À semelhança de Ana das Peles, Mariano assimilou também a estética de Sá Lemos e conferiu-lhe igualmente as suas marcas próprias de identidade, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto”.
Ana das Peles
Ana Rita da Silva (1869-1945) nasceu a 22 de Novembro de 1869 numa casa da Rua da Porta da Lage, na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz. Filha legítima de Manuel Joaquim da Silva, proprietário, natural de Fornos de Algodres e de Maria Domingas, governadeira de sua casa, natural da freguesia de S. Bento do Cortiço, concelho de Estremoz. Ana Rita seria baptizada a 15 de Setembro de 1869, na igreja paroquial de Santo André, Estremoz.
Em data que não é conhecida, casou com Jacinto Manuel, natural de Bencatel, de quem enviuvou em 1935.
Ana Rita da Silva, mais conhecida por Ti Ana das Peles, era irmã de Ti Luzia, casada com Mestre Cassiano que viera de Elvas e aprendera o ofício de barro fino na Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana, situada na Rua do Lavadouro, em Estremoz. Dali saiu para montar uma olaria de barro grosso, conhecida por Olaria Regional, na Rua do Afã, 36-B, no Bairro de Santiago, em Estremoz.
Ana das Peles vendia louça de barro vermelho de Mestre Cassiano no mercado de sábado em Estremoz e durante a semana era almocreve, uma vez que se deslocava às aldeias e vilas do concelho, com um burro aprestado de alforges, contendo pratos, panelas e outros objectos utilitários que vendia. Nas suas deslocações comprava peles secas de animais que viriam a ser utilizadas na manufactura de golas, casacos, pantufas, tapetes, etc., o que está na origem da sua alcunha “Ana das Peles”.
Era uma mulher independente, que assegurava a vida da família num tempo em que as mulheres raramente saíam à rua, ficando em casa e ocupando o seu tempo nas tarefas domésticas, bem como nos bordados e na costura.
Ana das Peles tinha o dom de fazer mezinhas e de curar pessoas, como era corrente naquele tempo, quando as famílias não tinham posses para ir aos médicos. Exercia essas práticas não só junto da família, como de outras pessoas que a procuravam.
Ana das Peles está indissociavelmente ligada à recuperação dos “Bonecos de Estremoz”. Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa realizada em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português.
Os Bonecos de Estremoz, de Ana das Peles foram nestas exposições, um ex-líbris de excelência da cidade de Estremoz. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram, simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de grande qualidade. Os Bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente grande notoriedade pública.
Ana Rita da Silva faleceu a 19 de Fevereiro de 1945 no Hospital da Misericórdia de Estremoz, com 75 anos de idade. O elogio fúnebre de Ana da Peles foi feito por Sá Lemos em artigo intitulado “Morreu a Ti Ana das Peles”, publicado no jornal Brados do Alentejo em 25 de Fevereiro de 1945.
Dois vizinhos
Ana das Peles morava e tinha oficina na Rua Brito Capelo n.º 21, onde ainda há bem pouco tempo era a churrasqueira “Frango e Companhia” de José Maria Calquinhas. Era aí que comercializava as suas criações.
Mariano morava no n.º 13 da mesma rua, mas nunca trabalhou ali. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras n.º1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso n.º 6.
75 anos da morte de Ana das Peles
A 19 de Fevereiro de 2020 completam-se 75 anos sobre a morte de Ana das Peles. Como reconhecimento do papel desempenhado por ela na recuperação duma tradição extinta e que hoje é motivo de orgulho para todos os estremocenses, impõe-se que a efeméride seja assinalada condignamente. Dou sugestões:
- PERPETUAÇÃO DA MEMÓRIA DA BARRISTA, INCLUINDO O SEU NOME NA TOPONÍMIA LOCAL - Até agora a toponímia estremocense já perpetuou o nome dos seguintes barristas: Mariano da Conceição (1903-1959), Sabina da Conceição (1921-2005), Liberdade da Conceição (1913-1990), Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e Quirina Marmelo (1922-2009). A omissão do nome de Ana das Peles na toponímia local é profundamente injusta. Aqui como em tudo, não pode haver filhos e enteados;
- DESCERRAMENTO DUMA LÁPIDE NA PAREDE DO PRÉDIO ONDE A BARRISTA TEVE OFICINA – Esta iniciativa poderia constituir a primeira doutras congéneres em relação a outros barristas falecidos;
- MONTAGEM DUMA EXPOSIÇÃO DE BONECOS DE ESTREMOZ MODELADOS PELA BARRISTA.
As sugestões aqui ficam.
- TEM A PALAVRA O MUNICÍPIO!

Estremoz, Natal de 2019
(Jornal E nº 236, de 26-12-2019)

Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
Arquivo fotográfico do autor.

Ana das Peles a pintar Bonecos na sua oficina na Rua Brito Capelo n.º 21, em Estremoz.
Atrás de si é visível um Presépio de três figuras. Fotografia de Rogério de Carvalho
(1915-1988). Arquivo fotográfico do autor.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Mariano da Conceição (1.ª parte)


Fig. 1 - Mariano da Conceição na sua oficina em pose para o fotógrafo Rogério de
Carvalho (1915-1988).  À sua direita, o Presépio de trono ou altar projectado por
Sá  Lemos e por ele executado. Este vistoso presépio não esteve presente na
Exposição do Mundo Português em 1940, pelo que terá sido criado posteriormente,
mas em data anterior a Dezembro de 1947, já que nesta data, a fotografia aqui
apresentada aparece a ilustrar a capa da revista “Mensário das Casas do Povo”,
nº 18. Arquivo fotográfico do autor.

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que foram publicadas sucessivamente.
Esta é a 1.ª parte.


LER AINDA
 Mariano da Conceição partiu há 60 anos 


Filho ilegítimo de Narciso Augusto da Conceição
No dia 24 de Setembro de 1912, na repartição do Registo Civil do concelho de Estremoz, sita no Rossio Marquês de Pombal da vila de Estremoz, perante António Luís da Cruz, ajudante de oficial do Registo Civil, no impedimento deste por motivo de saúde, compareceu Narciso Augusto da Conceição, solteiro, industrial, de 41 anos, natural da freguesia de Santo Antão de Évora e residente na freguesia de Santa Maria de Estremoz. Declarou que, no dia 26 de Janeiro de 1903, às 20 horas, nasceu na (nome da rua ilegível no Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz), freguesia de Santa Maria de Estremoz, um indivíduo de sexo masculino, que as testemunhas disseram ser filho ilegítimo do declarante, que agora o reconhece como seu filho para todos os efeitos legais. Pelas testemunhas foi dito que o rejeitando se iria chamar Mariano Augusto da Conceição. Foram testemunhas José Joaquim Correia, seleiro, solteiro, maior e Joaquim Hilário Cardoso Amante, casado, sapateiro, ambos residentes na vila de Estremoz (8).
Mariano era filho de oleiro pelo que viria a ser oleiro. Todavia, como iremos ver, não ficaria por aqui. Iria muito mais longe.
Casamento
A 8 de Novembro de 1931, Mariano Augusto da Conceição, de 28 anos, oleiro (Fig. 1, Fig. 5 e Fig. 6), natural da freguesia de Santa Maria de Estremoz e residente na Calçada da Frandina, nº 15 da mesma localidade, casou na Repartição do Registo Civil de Estremoz com Liberdade da Conceição Banha, de 18 anos, doméstica, filha legítima de José Ricardo Banha, corticeiro natural da mesma freguesia e de Agripina da Conceição Banha, doméstica, natural da freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa (11).
Mestre da Oficina de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
A 3 de Dezembro de 1930, na secretaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves de Estremoz, perante o Director Luís Fernandes de Carvalho e Reis, tomou posse como Mestre provisório da oficina de olaria, Mariano Augusto da Conceição, nomeado por alvará desse dia, que afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
De 25 a 27 de Março de 1931 faz concurso de provas (Fig. 2 a Fig. 7) para Mestre da oficina de olaria e é classificado com 15,6 valores, conforme consta do seu registo biográfico. A 29 de Abril de 1931 passa à condição de contratado (10). A 23 de Março de 1936, na secretaria da Escola, perante o Director José Maria de Sá Lemos, tomou posse como Mestre efectivo da oficina de olaria, nomeado por portaria de 22 de Fevereiro, publicada no Diário do Governo, n°65 - 2ª série, de 19 de Março de 1936. 0 empossado afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
A morte do pai de Mariano da Conceição
O pai de Mariano, Narciso Augusto da Conceição, suicidou-se por enforcamento na Olaria Alfacinha, a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos (14).
Com a morte do pai, Mariano da Conceição, o primogénito (eram 5 irmãos: Mariano, Jerónimo, Diocleciano, Caetano e Sabina) passou a dirigir a olaria que entretanto se tinha transformado em sociedade na qual participavam todos os irmãos. Mariano trabalhava como oleiro na oficina e simultaneamente dava aulas na Escola (13).
Depois da morte da matriarca Leonor das Neves Conceição em 1946 e de seu filho Jerónimo Augusto da Conceição, alguns anos depois, a mulher de Jerónimo e Mariano Augusto da Conceição, vendem a sua quota na Olaria Alfacinha aos irmãos. Mariano deixa então de trabalhar na Olaria, a qual passa a ser dirigida por seu irmão Caetano.
Mais tarde, em 11 de Abril de 1958, os irmãos Caetano Augusto da Conceição, Diocleciano Augusto da Conceição e Sabina Augusta da Conceição Santos, constituem a firma Leonor das Neves da Conceição Herdeiros. A família detém e trabalha na olaria até 1987, ano em que é vendida a Rui Barradas e sua mulher, Cristina. Em 1995 a Olaria Alfacinha encerra definitivamente.
De filho ilegítimo a filho legítimo
Por auto público de 14 de Junho de 1933, nos autos de inventário orfanológico, por óbito de Narciso Augusto da Conceição, que correu seus termos na Comarca de Estremoz, com sentença de 23 do mesmo ano, que transitou em julgado, Mariano Augusto da Conceição foi declarado filho legítimo de Narciso Augusto da Conceição e de sua mulher Leonor das Neves da Conceição, exposta. Ficaram arquivados uma certidão e um documento autêntico de consentimento do perfilhado.
Este averbamento, datado de 10 de Janeiro de 1957 e subscrito pelo Conservador, cuja assinatura é ilegível, integra o Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz, relativo a Mariano Augusto da Conceição (8).
Mariano da Conceição oleiro e bonequeiro
O escultor José Maria Sá Lemos, director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves conseguiu, entre 1933 e 1935, a recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, com a colaboração de ti’ Ana das Peles, uma barrista de idade já avançada. Impunha-se que houvesse continuadores. Daí que tenha lançado um repto a Mariano da Conceição, que o aceitou de bom grado e teve êxito, passando a ter uma tripla actividade: Oleiro na Olaria Alfacinha, Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves e bonequeiro.
A Exposição do Mundo Português
António Ferro (1895-1956), Secretário-Geral da Comissão Executiva da Exposição do Mundo Português era próximo de José Maria de Sá Lemos e esteve em Estremoz, onde convidou Mestre Mariano da Conceição a participar na Exposição. Este não o pôde fazer, devido às actividades lectivas na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Quem ali esteve presente durante todo o período da mesma, foi a sua mulher, Liberdade Banha da Conceição (1913-1990) (Fig. 8), que ali pintava os Bonecos por ele confeccionados em Estremoz e que depois eram transportados para Lisboa.
O êxito de vendas na Exposição do Mundo Português fez com que Mariano da Conceição a partir de 1942-43 se dedicasse à confecção [1] de Bonecos de Estremoz em oficina própria, actividade que acumulava com o seu magistério de Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras nº1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso nº 6 (13).
Mariano que não tinha forno próprio, cozia os seus Bonecos no forno de lenha da Olaria Alfacinha, a qual tinha dirigido. De resto, o barro utilizado por Mariano era preparado na Olaria e transportado numa carrinha pelo seu irmão Caetano, que levava os Bonecos para cozer arrumados em gaiolas de barro e os entregava a Mariano, depois de cozidos (13).
Em Estremoz, os Bonecos eram comercializados nos seguintes locais: Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30), Papelaria Ruivo (Largo da República, 24), Lojas de Artesanato de Rafael dos Santos Grades (Rua Victor Cordon, 27 e 30) e Papelaria A Tabaqueira de Alves & Simões, Lda. (Rossio Marquês Pombal 11 e 12 [2] (13).
Mariano da Conceição visto pelos outros
A 23 de Junho de 1951 reuniu o Conselho Escolar da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, sob a presidência do Director, Irondino de Aguillar, o qual, antes de se entrar na ordem do dia, quis dirigir algumas palavras a todos os presentes. “Lembrou-lhes que longe vai o tempo em que o professor entendia que a vida de professor se cumpre toda dentro das quatro paredes e dos cinquenta e cinco minutos de uma aula. 0 professor de hoje tem de não esquecer-se nunca de que é professor, de que é seu dever contribuir para o prestígio da sua classe e da sua escola e de que é seu dever maior que todos meditar na responsabilidade que tomou ao escolher tal profissão. Convidou os presentes a fazerem exame de consciência, que ele, Director, limitar-se-ia a fazer pública justiça ao Mestre de Olaria, Senhor Mariano Augusto da Conceição, que pelo seu zelo, pela sua honestidade no cumprimento do dever, confirmou largamente o que dele era de esperar pelo seu comportamento nos anos anteriores”(1).
O pintor Armando Alves (1935- ) foi aluno de Mariano da Conceição nos anos lectivos de 1949-1950 e 1950-1951. Na sua condição de ex-aluno, prestou-me, em 2012, o seguinte depoimento escrito (3): “Foi na década de quarenta do século passado que conheci o Mestre Mariano Alfacinha. Era eu por essa altura aluno na Escola Industrial e Comercial de Estremoz e o Mestre Mariano, professor de Olaria nessa escola.
Frequentar as suas aulas não era para a maioria de nós, alunos, apenas uma obrigação, antes pelo contrário, era um prazer. Para mim era mesmo uma espécie de necessidade, pois não só frequentava as aulas, como muitíssimas vezes aparecia para ajudar o Mestre Mariano nas tarefas mais fáceis – fazer bases, fazer pernas, fazer (nas pequenas formas de barro cozido), as cabeças dos bonecos. Com ele aprendi muitos dos segredos do barro e aprendi também a fazer os Bonecos de Estremoz.
O Mestre Mariano fazia invariavelmente os seus bonecos em grupos de seis, isto é: seis pastores, seis amazonas, seis cavaleiros, etc., E isto não era por acaso pois os bonecos são feitos por partes – as bases, as pernas, os troncos, os braços e as cabeças. À medida que se iam fazendo cada uma destas partes, (começando sempre pelas bases), o barro ia ganhando a dureza necessária para receber a colagem das pernas e dos troncos até à conclusão do boneco. A colagem das partes era feita com a lambugem, (lama do barro) e uns pequenos risquinhos que se faziam nas partes a colar, tendo sempre o cuidado de não deixar bolhas de ar, o que poderia causar dissabores na cozedura... O calor das mãos e um certo vento que de vez enquanto soprava e rachava o barro, eram também elementos a ter em conta.
Para tudo isto me chamava a atenção o Mestre Mariano com aquela presença muito forte e ao mesmo tempo muito doce que o caracterizavam.
Tive a sorte de ter privado com este Homem a quem agradeço o muito que me ensinou e a quem Estremoz continua a dever tudo o que ele fez pela nossa terra.”
Por sua vez, Leonor da Conceição Santos (1943-2014), filha de Sabina Santos, sobrinha de Mariano e Professora de Educação Especial aposentada, prestou-me, igualmente em 2012, o seguinte depoimento escrito (6): “Tenho uma ideia vaga do meu tio Mariano que era o mais velho e lembro-me de um homem muito alto, claro que eu também era muito pequena… Sabia que ele era professor na Escola Industrial e que a minha mãe tinha sido lá aluna. Lembro-me também, talvez com os meus 10 anos, e vivendo já na rua do Reguengo, de ter ido frequentar a Escola Comercial e Industrial, onde hoje é a Pousada. Via por lá o tio Mariano, que era professor de Olaria, e quando o via ia dar-lhe um beijo, e ele perguntava com aquele vozeirão:” Então como vai a Escola?” Eu fugia à resposta porque, na realidade, a escola ia muito mal. Gostava da disciplina de desenho e…pouco mais. Fui aluna da D. Joana, que era uma artista naquilo para que eu nunca tive jeito: bordados, tapetes e afins. Só frequentei o ano preparatório e depois, com grande sacrifício os meus pais mandaram-me para o Colégio do Mota, (a que chamavam o colégio dos ricos – não era uma verdade absoluta, mas isso são outras histórias…) onde realmente me senti ambientada. Era uma miúda pequena e um tanto frágil e aquela Escola Industrial fazia-me medo. Passei a ver o tio Mariano quando ia à Olaria e ele estava a fazer peças enormes, à roda, pois só uma pessoa alta, pujante e habilidosa como ele, conseguia “puxar” o barro na roda de oleiro para fazer essas peças (ânforas e outras). Também o visitava, em casa dele e tenho ideia, mas a minha prima Maria Luísa poderá confirmar, que ele tinha uma sala cheia de pássaros das mais diversas raças. Sempre achei interessante. Ele era caçador, e dos bons, matava perdizes, faisões e outra passarada e ao mesmo tempo gostava de aves canoras e sustentava-as. Será que a memória me está a atraiçoar? Penso que não.
Também estive muitas vezes, ao lado dele a vê-lo fazer os Bonecos de Estremoz. A tia Liberdade, sua mulher, que gostava muito de mim, arranjava-me um lanche e eu ficava sentada, numa daquelas cadeiras baixinhas, a ver o meu tio a trabalhar. Naquela altura fazia-me impressão como é que ele que tinha umas mãos enormes e uns dedos cheios também conseguia trabalhar minuciosamente cada figurinha e fazer as cabecinhas dos bonecos. Era isso que eu admirava nele: ora fazia coisas minúsculas, ora puxava, na roda ânforas gigantescas. Extraordinário!...”
A morte prematura de Mariano da Conceição
O Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz de 29 de Setembro de 1959 (17), sob a epígrafe “Um estúpido acidente atirou para a morte o Sr. Mestre Mariano”, relata o que se passou: “O caso deu-se no passado domingo 44, em pleno Rossio, quando da chegada dos cavaleiros que disputavam o raid hípico de Estremoz.
A anteceder os dois primeiros cavaleiros, que surgiram a par, a galope desenfreado, vinham um jeep e uma moto, mas tão devagar que, num instante, os cavalos estavam sobre eles. 0s cavaleiros gritavam, os veículos não tomavam velocidade e não houve outra solução senão guinar cada cavaleiro para seu lado.
Foi nesta altura que à frente de um dos cavalos surgiu o Sr. Mestre Mariano da Conceição, muito para lá da meta. O choque foi inevitável e o Sr. Mariano rolou pelo chão.
Imediatamente levado ao hospital, cheio de sangue, ali foi observado, recolhendo depois a um dos quartos particulares em estado de coma, com suposta fractura craniana e uma clavícula e várias costelas partidas. Quem diria que naquele luminoso domingo um estúpido acidente atiraria para o hospital o nosso Mestre Mariano?
Na madrugada de terça-feira 45, o Sr. Mestre Mariano expirou (9), por não ter podido resistir à gravidade dos ferimentos, tendo a Escola perdido assim, estupidamente, um dos seus agentes de ensino mais dedicados e a quem ela muito ficou a dever.
No funeral incorporaram-se muitos antigos e actuais alunos e todo o pessoal da Escola em exercício.” (7), (12), (17).
Reacções à morte de Mariano da Conceição
No dia 30 de Setembro de 1959, pelas 15 horas reuniu no gabinete do Director da EICE, o Conselho Escolar presidido pelo Director Rogério Peres Claro com a presença de todos os membros efectivos, Mestres Joana Simões e Eduardo Silva. No último ponto da ordem de trabalhos, por falecimento de Mestre Mariano da Conceição, deliberou o Conselho convidar o Mestre provisório José Alexandre Rosa para sua substituição. Antes de encerrar a sessão, o Director propôs com o fim de ser exarado em acta, um voto de pesar pelo falecimento do Mestre efectivo da Escola, Mariano Augusto da Conceição (2).
Sobre Mestre Mariano da Conceição recolhi um depoimento (15) daquele que era director à data da sua morte, Rogério Peres Claro (1921-2015), redigido a 11 de Novembro de 2012, aos 91 anos de idade: “Conheci o Sr. Mariano da Conceição como Mestre de Trabalhos Manuais na Escola Comercial de Estremoz, entre 1951 e 1961, período da minha presença lá como Director. Era conhecido como especialmente hábil na confecção de bonecos de barro com características locais, como aliás os outros membros da sua família. Trabalhava em oficina montada no pátio de entrada do castelo, onde trabalhava também o Sr. Joaquim Prudêncio Oliveira, hábil Mestre no trabalhar do mármore da região, para o qual formou muitos artistas. A maioria dos brasões que sustém a fonte luminosa que embeleza Setúbal frente ao mercado da Avenida Luísa Todi, foram trabalho seu e dos seus alunos.
Mestre Mariano ficou lembrado não apenas pelos seus bonecos, mas infelizmente também por ter falecido ao coice de um dos cavalos que em corrida festiva atravessavam o Rossio e que presenciei. Ficou o dito de que “só ao coice o Mestre Mariano poderia ser abatido”, tão forte que ele era “
No já referido depoimento escrito (6) de Leonor da Conceição Santos sobre o tio Mariano, datado de 2012, referindo-se à sua morte diz: “O Tio Mariano foi um artista e um grande Mestre de olaria. A sua arte poderia ter-se prolongado para enriquecimento da cultura e do artesanato estremocense … mas infelizmente um acontecimento inesperado ceifou-lhe a vida aos cinquenta e poucos anos. Podemos dizer que ele estava no sítio errado, à hora errada… Um cavalo que fazia parte do raid hípico que terminava no Rossio Marquês de Pombal, espantou-se e, ou por pouca sorte, ou por ineficácia do cavaleiro, atingiu o meu tio que assistia ao evento entre muitas pessoas, ferindo-o de morte. Ainda foi para o antigo hospital, mas viria a falecer pouco tempo depois.
Foi pena Tio Mariano. Ainda guardo essa memória, como se fosse hoje. Eu tinha 16 anos. Estremoz perdeu tragicamente um Alfacinha.
Recordo-o e recordá-lo-ei sempre. Foi com ele que a arte bonequeira renasceu. Todos lhe devemos isso.”
Mariano da Conceição morreu, mas os Bonecos não
O Mestre partiu mas legou-nos os seus Bonecos. A recuperação da manufactura dos Bonecos de Estremoz não podia ficar por aqui. Surgiram continuadores e a primeira foi a sua irmã, Sabina da Conceição Santos.

BIBLIOGRAFIA
(1) - Acta da sessão de 23 de Junho de 1951 in Livro de Actas do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1948-1951) (acta nº 12).
(2) - Acta da sessão de 30 de Setembro de 1959 in Livro de Actas nº 2 do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1959-1981) (acta nº 1).
(3) - ALVES, Armando José Ruivo. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Porto, 2012. sp.
(4) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre provisório da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 3 de Dezembro de 1930 in Livro de Posses 1930-59 (folha 1v).
(5) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre efectivo da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 23 de Março de 1936 in Livro de Posses 1930-59 (folha 7v).
(6) - CONCEIÇÃO SANTOS, Maria Leonor da. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Ribamar, 2012. sp.
(7) - Falecimento (Mariano da Conceição) in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 2).
(8) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(9) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Óbito nº 193 de 1959 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(10) - Mariano Augusto da Conceição – Processo Individual de professor nº 707, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.
(11) - Mariano Augusto da Conceição - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(12) - Mariano Augusto da Conceição in O Eco de Estremoz nº 2951, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 3).
(13) – MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
(14) – Narciso Augusto da Conceição – Registo de Óbito nº 71 e 1933 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(15) - PERES CLARO, Rogério. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Setúbal, 2012. sp.
(16) - Terminou o I RAID HIPICO ALENTEJANO in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959. (pág. 3).
(17) - Um estúpido acidente atirou para a morte o sr. mestre Mariano in Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 29/09/1959. Estremoz, 1959 (pág. 1).

Fig. 2 - Desenho duma forma cerâmica. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto
Gonçalves, realizada a 25 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 3 - Cópia dum motivo floral. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António
Augusto Gonçalves, realizada a 26 de Março de 1931. Fotografia de autor
desconhecido. Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 4 - Decoração. Prova de Concurso de Mariano Augusto da Conceição para
Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves,
realizada a 27 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 5 - Mariano Augusto da Conceição a modelar a peça projectada na oficina de
olaria da Escola Industrial de António Augusto  Gonçalves. Arquivo fotográfico do autor.

 Fig. 6 - Mariano Augusto da Conceição a desenfornar uma das peças projectadas
 na oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 7 - As peças projectadas e executadas por Mariano Augusto da Conceição
já cozidas. Arquivo fotográfico do autor.

  Fig. 8 - Liberdade da Conceição, mulher de Mariano da Conceição a pintar
Bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português. Fotografia do
documentário “A Grande Exposição do Mundo Português” (1940),
de António Lopes Ribeiro.


Fig. 9 - Carimbos usados sucessivamente por Mariano da Conceição para marcar os
seus bonecos: MADE IN PORTUGAL (3,4 cm x 0,3 cm), ESTREMOZ / PORTUGAL
(2 cm x 0,8 cm), ESTREMOZ (2 cm x 0,8 cm). Arquivo fotográfico do autor.



[1] Mariano modelava os bonecos que eram pintados por sua mulher, Liberdade da Conceição. Mariano só pintava em último caso, sempre que havia uma encomenda grande de Bonecos. Todavia, era ele que aplicava sempre o verniz, visto a sua mulher ser uma pessoa bastante doente (13).
[2] De salientar que só a partir do momento em que se estabeleceu como bonequeiro por conta própria é que Mariano passou a auferir proventos dessa actividade. Anteriormente só fazia Bonecos na Escola, os quais conjuntamente com os Bonecos manufacturados pelos alunos, eram comercializados e as receitas resultantes da sua venda destinavam-se a custear as despesas de funcionamento da própria Escola (13).

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Bonecos de Estremoz: Ana das Peles (1.ª parte)


Fig. 1 - Sá Lemos trocando impressões com ti Ana das Peles numa sala de aulas da
Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério de Carvalho
(1915-1988), publicada no semanário estremocense “Brados do Alentejo” nº 250,
de 10 de Novembro de 1935. Arquivo fotográfico do autor.
Nasceu às 8 horas da manhã de 22 de Novembro de 1869 numa casa da Rua da Porta da Lage, na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz. Filha legítima de Manuel Joaquim da Silva, proprietário, natural de Fornos de Algodres e de Maria Domingas, governadeira de sua casa, natural da freguesia de São Bento do Cortiço, concelho de Estremoz.
Ana Rita seria baptizada a 15 de Dezembro de 1869, na igreja paroquial de Santo André, Estremoz (1). Em data que não consegui determinar, casou com Jacinto Manuel, natural de Bencatel.

Trabalho com Sá Lemos
José Maria de Sá Lemos, director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves desde 21 de Abril de 1932, constatando que está extinta a tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, atribui a si próprio a missão da sua recuperação, para o que precisaria da colaboração de alguém que em tempos os tivesse confeccionado. Teve conhecimento da existência de Ana Rita da Silva, então com 63 anos de idade, que em tempos manufacturara os Bonecos de assobio e assistira à feitura dos Bonecos, mas entendia que não era capaz de os fazer. Sá Lemos intuiu que seria, por se lhe ter tornado evidente que a técnica era a mesma. Dois anos levou a convencê-la, mas como “Quem porfia, sempre alcança”, Sá Lemos alcançou o seu objectivo, estimulando-a, orientando-a e trabalhando em conjunto com ela na Escola (Fig. 1). Em Novembro de 1935, em artigo publicado no jornal Brados do Alentejo (12), confessa que a sua missão fora coroada de êxito. Daí para a frente existirá uma frutuosa cooperação entre ambos e é com ela que sob a sua orientação, que o oleiro Mariano da Conceição, mestre de olaria na Escola, aprende a arte bonequeira.
Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa (Fig. 6) ocorrida em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris (Fig. 7) e em 1940 na Exposição do Mundo Português (fig. 3), promovida em Lisboa. Aí os Bonecos de Mariano da Conceição estiveram a ser pintados por sua mulher Liberdade da Conceição (Fig. 4), face à impossibilidade de Mariano estar presente por ser funcionário público.

Fala um neto de Ana Rita
O cineasta José Manuel Silva Madeira, neto de Ana Rita, prestou-me o seguinte depoimento escrito (4) sobre a avó: “A minha avó era conhecida por Ti Ana das Peles, mas o seu nome próprio era Ana Rita da Silva. Era a mãe de minha mãe e de duas tias.
Uma das minhas tias, a Ti Luzia, era casada com Mestre Cassiano que viera de Elvas e aprendera o ofício de barro fino na Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana, situada na Rua do Lavadouro, em Estremoz. Dali saiu para montar olaria de barro grosso na Rua do Afã, 36-B, no Bairro de Santiago, em Estremoz.
A minha avó vendia louça de barro vermelho de Mestre Cassiano no mercado de sábado em Estremoz e durante a semana era almocreve, uma vez que se deslocava às aldeias e vilas do concelho, com um burro aprestado de alforges, contendo pratos, panelas e outros objectos utilitários que vendia. Nas suas deslocações comprava peles secas de animais que viriam a ser utilizadas na manufactura de golas, casacos, pantufas, tapetes, etc., o que está na origem da sua alcunha “Ana das Peles”.
Era uma mulher independente, que assegurava a vida da família num tempo em que as mulheres raramente saíam à rua, ficando em casa e ocupando o seu tempo nas tarefas domésticas, bem como nos bordados e na costura.
O seu marido (o meu avô) morreu vítima da gripe espanhola. Assim ela era a única pessoa que sustentava economicamente a família.
A minha avó tinha o dom de fazer mezinhas e de curar pessoas, como era corrente naquele tempo, quando as famílias não tinham posses para ir aos médicos. Tinha essas práticas não só junto da família, como de outras pessoas que a procuravam. Para mim, era uma pessoa muito estranha, que eu considerava uma espécie de bruxa que me assustava, pelo que eu tremia na sua presença.
A sua reputação está indissociavelmente ligada à recuperação dos “Bonecos de Estremoz”, uma vez que o escultor José Maria Sá Lemos, director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves de Estremoz, contou com ela para a recuperação duma tradição que se tinha perdido no tempo. E dava-lhe conselhos para aperfeiçoar a sua técnica e sobre as cores a usar. A reputação dos Bonecos de Estremoz veio a espalhar-se, pelo que se tornaram muito apreciados e foram adquiridos pelos principais museus do país.
O fim da vida da minha avó foi dramático, já que viveu na miséria antes de morrer nos Quartéis, no Bairro de Santiago, onde muitas pessoas idosas e sem meios económicos eram abandonadas e esquecidas até chegar a morte. No entanto, a sua reputação ultrapassou fronteiras, sobretudo depois da Exposição do Mundo Português”.

A oficina de Ana das Peles
A senhora Felicidade da Luz Rodrigues Carrapiço (1930- ), de 88 anos de idade e actualmente moradora na Rua Brito Capelo, nº 3 (já morou noutros números desta rua), informou-me que a ti Ana das Peles morava e tinha oficina (Fig. 2) na Rua Brito Capelo nº 21, onde ainda há bem pouco tempo era a churrasqueira “Frango e Companhia” de José Maria Calquinhas. Era aí que comercializava as suas criações.

Sá Lemos como agente de vendas de Ana das Peles
Duas cartas de Sá Lemos endereçadas a Azinhal Abelho e que acompanhavam a colecção de Bonecos de Ana das Peles pertencente ao poeta, a qual eu adquiri em Julho de 2018, revelam que Sá Lemos funcionava como agente de vendas de Ana das Peles.
A primeira carta, dactilografada em papel timbrado pessoal, expedida de Estremoz por Sá Lemos e datada de 4 de Março de 1938, diz a certo trecho (8): “Relativamente à encomenda dos bonecos, temos de esperar algum tempo, porquanto a “ti Ana” está a dar os últimos toques numa encomenda, isto é, em várias pequenas encomendas. Só depois dará começo à sua, mas eu esforçar-me-ei para que não demore demasiado. Porém sabe que ela já não tem forças para grandes corridas. A colecção tem já alguns exemplares novos, alguns dos quais adquiridos no museu de Elvas, donde trouxe também uma cantarinha enfeitada, género pucarinho.”
A segunda carta, igualmente dactilografada em papel timbrado pessoal, expedida de Estremoz por Sá Lemos e datada de 7 de Maio de 1938, diz a certa altura (10): “A “Ti Ana” cá está amanhando os bonecos que encomendou, mas ela produz tão morosamente que não é fácil atender os pedidos com a rapidez que eu desejava. Agora veio ainda uma pessoa pedir-me o compromisso de mandar loiças e Bonecos de Estremoz à exposição regional de Coimbra, e como estou sempre pronto a contribuir para um melhor conhecimento das coisas bonitas do Alentejo, escusado será dizer-lhe que lhe assegurei o meu concurso, embora ainda não saiba como.”
Para além destas duas cartas há mais três cartas manuscritas em papel não timbrado, pertencentes ao espólio documental do poeta Azinhal Abelho, adquirido pela Câmara Municipal de Borba em 2007, e cuja consulta me foi facultada em Julho de 2018 pelo presidente António José Lopes Anselmo.
A terceira carta foi expedida de Estremoz por Sá Lemos e datada de 17 de Abril de 1942, três dias antes da inauguração da Pousada de Santa Luzia em Elvas [1] . Na parte que se refere a Bonecos de Estremoz diz (6): “Hoje mesmo lhe remeto alguns dos bonecos que pediu na sua carta. Vão numa cesta, que fará o favor de me devolver pela mesma via. Assim evitaremos uma caixa de madeira que ficaria mais cara.
Desculpe não lhe mandar tudo o que me pede, mas foi o que se conseguiu arranjar por agora. Vão lhe ser remetidos pela camioneta como é seu desejo.
Amanhã lhe enviarei a factura dos bonecos e transporte.”
No final da carta há um “post scriptum”:
“P.S. - Nota dos bonecos remetidos: - 7 lanceiros com bandeira; - 2 mulheres a dobar; - 1 mulher das galinhas; - 1 mulher dos enchidos; - 1 pastor a comer; - 1 pastor das migas; - 2 pastores ajoelhados com um borrego; 2 pastores com dois borregos; - 2 ofertantes das pombas; - 2 pucarinhos enfeitados; - 2 cantarinhas.”
A quarta carta foi também expedida de Estremoz por Sá Lemos e datada de 22 de Abril de 1942, três dias depois da inauguração da Pousada de Santa Luzia em Elvas. A parte que nos chamou a atenção refere (7) “Antes de mais nada quero felicitá-lo pela linda festa de inauguração que teve na poética Pousada de Santa luzia, e que eu acompanhei através da E. N. 39. [2] Oxalá que lhe traga proveito material, porquanto espiritual não faltará.
Agora aguardo a oportunidade de lhe fazer uma visita, o que não poderá ser tão cedo, mas eu saberei esperar com paciência.
Hoje envio-lhe a factura dos bonequitos de Estremoz que lhe remeti, pedindo desculpa de não lhe poder enviar todos os que me pediu na sua carta.
Logo que possa mande-me o cabaz pois é um traste que me está sempre a fazer falta.”
A quinta carta, igualmente expedida de Estremoz por Sá Lemos e datada de 4 de Dezembro de 1942, comunica que (8): “O S.P.N. [3] pediu-me dez presépios para o Natal. Também outros me têm pedido, mas o que é certo é que eu já não tenho probabilidades para atender essas encomendas. Este ano vou fechar as contas deste negócio com um aumento grande de trabalhos. No Porto já há uma casa que vende
estes bonecos e que eu mando daqui. Se ao meu amigo for possível liquidar a factura dos que foram para a Pousada, era favor que muito agradecia, pois deseja fechar as contas deste ano com tudo liquidado.”
A decoração da Pousada foi feita com recurso a Bonecos, como nos revela Augusto Cunha (3): “Na Pousada de Santa Luzia tudo o que era regional se aproveitou para o seu recheio e decoração: as mantas de Reguengos, os bonecos de barro de Estremoz, as graciosas mobílias alentejanas, as louças, as pinturas ingénuas…”.

A velha de Estremoz
A fama de Ana das Peles chegou a países como a França. Neste país, no “L’Itinéraire Portugais”, editado pela Grasset em Paris, em 1940, o escritor francês de origem belga, Albert t’Serstevens (1886-1974), fala sobre “A velha de Estremoz”, na sequência da visita que fez a Estremoz (13): “…fomos ver uma mulher muito idosa que modela e pinta figuras de barro a que chamam aqui “bonecos” e como não há uma única que não seja enternecedora, trouxemos uma caixa cheia.
Não sei como é que se chama esta velha e não faço questão de saber. A arte popular é essencialmente anónima e a chamada arte ganharia em sê-lo. Uma obra de arte basta-se a si própria, o estado civil de quem a criou não acrescenta nada a não ser o palavreado dos críticos.”
Mais adiante acrescenta: “Esta velha de Estremoz imprime às suas obras uma originalidade e uma poesia tão grandes, que eu reconheceria uma entre mil outras mãos. No seu corpo ressequido brilha uma alma de criança e essa felicidade sempre jovem ilumina tudo o que ela cria.
Encontrámo-la atrás da sua banca – uma tábua em cima duma caixa – ao lado de uma janela tapada por um jornal.
Cabeça comprida, quase simiesca, não fosse a testa alta e os olhos magníficos, ampliados por óculos enormes.
O lenço negro que lhe cobre a cabeça (Fig. 5), torna extraordinário o rosto marcado por rugas e lavrado pelo claro-escuro. Com mãos rudes afeiçoa no barro o corpo de um personagem para o qual modelará de seguida o vestuário e os adornos. Não dispõe de outros utensílios, a não ser as mãos e uma velha faca de cozinha; junto dela, em cima de um banco, um alguidar de esmalte onde molha os dedos.”
Continuando, refere: “… e encontramos entre as obras desta velha os tipos tradicionais: José, Maria, os reis magos, os pastores, os camponeses, os mercadores, os artesãos, todo esse pequeno mundo que rodeia familiarmente o Presépio, na Provença, em Praga ou no campo italiano. Como se faz noutros países, ela representa os homens da sua província, mas acrescenta-lhes a sua própria poesia na forma e na cor, o que faz destes bonecos de barro criaturas espirituais.
Além disso, ela vai muito além da observação do seu Alentejo, das suas profissões e dos seus costumes. A sua imaginação está repleta de negros coroados de plumas ou de capacetes complicados, alegorias estranhas onde se pode ver a cornucópia e a venda do amor é cego. Ela sabe, à partida, que nada é trivial, que cada coisa é um pedaço de céu. Ela faz um poema de um cestinho cheio de ovos e de duas galinhas numa cerca. Ela põe aves por todo o lado, e o presépio do menino Jesus, branco e azul, decorado com florzinhas, serve de poleiro a pombas, galinhas, galos, aves vermelhas e brancas como não há em parte nenhuma.
Ela conhece, enfim, a alegria das estações e a alegria de estar no mundo: como aquela Primavera (é assim que ela lhe chama), um negro sorridente que segura uma grande bandeja cheia de flores multicolores; e essa figura a que ela chama “O soldado no jardim”, um copo assente num pé, tendo no meio, sentado numa cadeira, com a cabeça inclinada com serenidade, imagem do pobre diabo livre da guerra que reencontra o seu campo, a sua razão de ser, a sua alegria de camponês.”

Falecimento de Ana das Peles
Ana Rita da Silva faleceu às 5 horas do dia 19 de Fevereiro de 1945 no Hospital da Misericórdia de Estremoz, com 75 anos de idade, vítima de senilidade. Era viúva há dez anos de Jacinto Manuel, natural de Bencatel (2).

Elogio fúnebre de Ana das Peles
O elogio fúnebre de Ana da Peles foi feito por Sá Lemos em artigo intitulado “Morreu a Ti Ana das Peles (11), o qual reproduzo na íntegra:
“Como eu me lembro daquela tarde quente em que a convenci a tentar o ressurgimento dos bonequitos de Estremoz! Foi no pavilhão, ali no Rossio, em que se expunham os trabalhos da Escola Industrial [4], e onde, a par de algumas peças de olaria, um púcaro de Estremoz de avantajadas proporções, decorado no bojo com bonecos (Fig. 8).
Havia dois anos que me esforçava por trazê-la para junto de mim a tentar esse ressurgimento. E nessa tarde, então, nessa tarde quente, asfixiante, quando ela admirava o tal púcaro, aceita por fim a iniciar-se no teimoso empreendimento.
Com que saudade eu recordo a companheira de alguns anos que ela foi nesta campanha tão agradável!
Como eu recordo as suas mãos finas amoldando o barro em tratos preconcebidos e amorosos, como mãe estremosa endomingando os meninos! Com que jeito e arte vestia o pelico aos seus pastores e ajoelhava os borregos a seus pés!
Morreste, velhinha, mas os teus bonecos não morrerão. Ficarão vivendo como se fossem a tua própria alma. Ficarão aqui e ficarão pelo mundo culto espalhados a atestar a tua delicada
sensibilidade, nesta admirável arte popular.
Morreu a Ti Ana das Peles, a última abencerragem, como lhe chamou Celestino Davide. Lá a fomos levar, numa terça-feira, à sua última jazida, feita do mesmo barro com que modelou os seus bonecos. Bem hajas pelo que do teu espírito deixaste nesses bonequitos que tanta gente culta têem apaixonado. Dorme em sossego, que eles não morrerão.
Estremoz, 20 de Fevereiro de 1945 / Sá Lemos.”

BIBLIOGRAFIA                         
1 - Ana Rita da Silva (Ana das Peles) – Assento de Baptismo nº 152 de 1869, da Freguesia de Santo André, concelho de Estremoz.
2 - Ana Rita da Silva (Ana das Peles) – Transcrição do Assento de Óbito nº 9 de 1945 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
3 - CUNHA, Augusto. Pousada de Santa Luzia - Elvas in PANORAMA, nº9, Junho de 1942, vol. 2. Lisboa, 1942.
4 - MADEIRA, José Manuel Silva. Depoimento sobre Ti Ana das Peles. Paris, 2017. sp.
(5) - MARQUES CRESPO, José Lourenço. Estremoz e o seu Termo Regional. Edição do autor, Estremoz, 1950 (pág. 194).
6 - SÁ LEMOS, José de. Carta a Azinhal Abelho. Estremoz, 17/4/1942. ASSUNTO: Encomenda de bonecos de Ana das Peles feita por Azinhal Abelho, concessionário da Pousada de Santa Luzia, em Elvas. Espólio documental do poeta Azinhal Abelho, pertencente ao Arquivo da Câmara Municipal de Borba.
7 - SÁ LEMOS, José de. Carta a Azinhal Abelho. Estremoz, 22/4/1942. ASSUNTO: Encomenda de bonecos de Ana das Peles feita por Azinhal Abelho, concessionário da Pousada de Santa Luzia, em Elvas. Espólio documental do poeta Azinhal Abelho, pertencente ao Arquivo da Câmara Municipal de Borba.
7 - SÁ LEMOS, José de. Carta a Azinhal Abelho. Estremoz, 4/12/1942. ASSUNTO: Encomenda de bonecos de Ana das Peles feita por Azinhal Abelho, concessionário da Pousada de Santa Luzia, em Elvas. Espólio documental do poeta Azinhal Abelho, pertencente ao Arquivo da Câmara Municipal de Borba.
8 - SÁ LEMOS, José de. Carta a Azinhal Abelho. Estremoz, 4/3/1938. ASSUNTO: Encomenda de bonecos de Ana das Peles feita por Azinhal Abelho. Arquivo de Hernâni Matos.
10 - SÁ LEMOS, José de. Carta a Azinhal Abelho. Estremoz, 7/5/1938. ASSUNTO: Encomenda de bonecos de Ana das Peles feita por Azinhal Abelho. Arquivo de Hernâni Matos.
11 - SÁ LEMOS, José de. Morreu a Ti Ana das Peles in Brados do Alentejo nº 736, 25/02/1945. Estremoz, 1945 (pág. 1).
12 - SÁ LEMOS, José de. Os bonecos de Estremoz / “Versos Irónicos em barro” in Brados do Alentejo nº 250, 10/11/1935. Estremoz, 1935 (pág. 5).
13 - T’SERSTEVENS, Albert. La vieille d’ Estremoz in L’Itinéraire Portugais”, 3ª ed. Grasset. Paris, 1955 (pág. 132 a 134).



[1] A Pousada de Santa Luzia em Elvas, foi inaugurada a 19 de Abril de 1942. Construída pelo Ministério das Obras Públicas e entregue ao Secretariado de Propaganda Nacional dirigido por António Ferro, teve como 1º concessionário o poeta Azinhal Abelho.
[2] Emissora Nacional.
[3] Sindicato de Propaganda Nacional. 
[4] A exposição decorreu durante a Feira de S. Tiago. Em geral, esta realizava-se em Estremoz de 25 (Dia de S. Tiago) a 27 de Julho e era a mais importante do ano. Abundante de queijo, calçado, quinquilharias, produtos agrícolas e hortícolas e pecuária. As restantes eram a Feira de Santo André (de 30 de Novembro a 3 de Dezembro) e a Feira de Maio no 2º sábado e 2º domingo do mês de Maio (5)-pág.194.

Hernâni Matos 

Fig. 2 - Ti Ana das Peles a pintar Bonecos na sua oficina na Rua Brito Capelo nº 21
em Estremoz, local onde também residia na época. Fotografia de Rogério de
Carvalho (1915-1988). Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 3 - Durante a Exposição do Mundo Português, os Bonecos de Estremoz de ti Ana
das Peles marcaram também presença numa vitrina expositora no “Pavilhão da Vida
Popular”, na “Sala de Artes e Ofícios”. Fotografia publicada no livro “MUNDO
PORTUGUÊS/ IMAGENS DE UMA EXPOSIÇÃO HISTÓRICA/1940”. SNI. Lisboa, 1956.

Fig. 4 - Liberdade da Conceição, mulher de Mariano da Conceição a pintar Bonecos
de Estremoz na Exposição do Mundo Português. Fotografia do documentário
“A Grande Exposição do Mundo Português” (1940), de António Lopes Ribeiro. 

Fig. 5 - Ana das Peles [Ana Rita da Silva (1869-1945)]. Fotografia de Albert t’Serstevens
(1886-1974). Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 6 - Inauguração da Exposição de Arte Popular Portuguesa, realizada em Lisboa,
em 1936, nas instalações do Secretariado de Propaganda Nacional. Oliveira Salazar
conversando com o etnólogo Francisco Lage, frente a uma vitrina onde estão patentes
Bonecos de Estremoz, da autoria de Ana das Peles. Fotografia de Mário Novais (1899-1967).
Fotografia da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

Fig. 7 - Exposição Internacional de Paris, 1937. Pavilhão de Portugal. Sala de Arte
Popular. Na vitrina estão expostos Bonecos de Estremoz, da autoria de Ana das Peles.
Fotografia de Mário Novais (1899-1967). Fotografia da Biblioteca de Arte da Fundação
Calouste Gulbenkian.


Fig. 8 - Um trecho da exposição de trabalhos da Escola Industrial António
Gonçalves no pavilhão da Feira de Santiago, que no ano de 1935, teve lugar
entre 25 de Julho e 5 de Agosto. O pavilhão de exposições fora mandado
construir pela Câmara Municipal e situava-se num dos cantos do Rossio Marquês
de Pombal. Em segundo plano, um púcaro de Estremoz de avantajadas proporções,
decorado no bojo com Bonecos de Estremoz, como refere Sá Lemos no elogio
fúnebre a Ana das Peles (11). Fotografia do Arquivo Fotográfico Municipal de
Estremoz / BMETZ.