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sábado, 1 de agosto de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO

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01 - Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).

4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023)

Nasceu na Aldeia de Cima (Glória) e só conheceu o mundo das letras aos trinta e sete anos. Trabalhou no campo, onde foi guardador de porcos, pastor de ovelhas e tosquiador, entre muitos outros trabalhos agro-pastoris. Trabalhou também nas pedreiras, foi empregado numa grande unidade de distribuição de mercadorias, foi enfermeiro no posto médico da sua freguesia, foi sacristão e pertenceu à Orquestra Típica de Estremoz. De resto tinha jeito para trabalhos de carpinteiro, canalizador, electricista e pedreiro.

A sua actividade como artesão da madeira e do chifre processou-se numa pequena oficina junto à sua residência e começou a efectuar-se cerca dos anos 80 do século XX. Toda ela entroncava na técnica e na estética da arte pastoril com que bordava a madeira e o chifre no decurso da pastorícia.

Os materiais usados foram: cabaças, chifre e madeiras: cedro, laranjeira, oliveira, cerejeira, cipreste, nogueira, buxo, vimeiro, sabugo e nespereira. Para os trabalhar recorreu a utensílios como: navalha, goivas, limas, grosas, serras, serrotes, serra de disco, torno, maceta, escopro.

A decoração das peças é rica e diversificada, recorrendo a motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, os três últimos de inspiração regional.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, colheres, talheres, chavões, sopradores de lume, bengalas, agulheiros, rosários, argolas de guardanapo, cigarreiras, caixas, guarda-jóias, brinquedos, dançarinos articulados, gaiolas para grilos, chamadores de perdizes, quadros em baixo relevo, painéis com alfaias agrícolas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, tabaqueiras e pulseiras.

O trabalho deste artesão é caracterizado todo ele por uma elevada qualidade técnica, aliada a uma expressiva e fina individualidade artística de matriz popular, que sempre apostou na criatividade em detrimento da cópia. Apesar disso executou as réplicas dos Bonecos de Santo Aleixo com que trabalha o CENDREV – Centro Dramático de Évora. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e em várias exposições individuais. Os seus trabalhos integram colecções museológicas das quais a mais importante é a do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho, em Estremoz.

Hernâni Matos



02 - Ciclo do pão (Lavra e semeadura, monda, ceifa, carrego, debulha). Madeira.
Quadro com decoração incisa. 148 x 48 cm.

03 - Painel com utensílios usados no decurso da ceifa e da debulha do trigo na eira.
Madeira, folha de flandres e arame. De cima para baixo e da esquerda para a direita:
vasculho, trilho, barril de água, gadanha, foice com canudos, forquilhas (3), ancinho,
pá, malho, peneira, medida, rasa. 40 x 21 x 1,5 cm.

04 - Caixa. Madeira. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica. 13,5 x 8,5 x 5,5 cm.

05 - Colher e Garfo. Madeira. Cabos com vazamento e decoração incisa,
ambos geométricos. 14,5 x 2,8 cm.

06 - Colher. Madeira. Cabo com decoração incisa, geométrica
e zoomórfica. 20 x 3,5 cm.

07 - Colher provadeira. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e fitomórfica. 13,4 x 4,5 cm.

08 - Colher com tampa. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e zoomórfica (borrego). 13 x 4,5 cm.

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09 - Castanholas. Madeira. Decoração incisa, geométrica. 10 x 6 cm.

10 - Corna azeiteira. Em chifre, com tampa em madeira.
Decoração incisa, geométrica e zoomórfica. 60 cm.

11 - Corna azeitoneira. Em chifre e com tampa em
cortiça. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica.
17 cm.

12 - Polvorinho. Chifre. Decoração incisa, geométrica,
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 36 cm.

13 - Tabaqueira. Chifre, fundo e tampa de madeira, pregos de latão. Decoração geométrica,
fitomórfica e zoomórfica no chifre. Decoração geométrica no fundo e tampa de madeira.
10 x 11 x 4,5 cm.

14 - Caixa provida de tampa com pega. Caixa e tampa de
chifre. Pega de madeira e fundo de cortiça. Decoração
fitomórfica (caixa) e geométrica (tampa). 7,5 x 5,5 x 5 cm.


Publicado no jornal E nº 385, de 31 de Julho de 2026 






terça-feira, 7 de julho de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

 



A abrir o catálogo da minha exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ


PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

Os Bonecos de Estremoz são absolutamente transversais em termos da política cultural do Município de Estremoz. Com eles dinamizamos a cidade, os museus e inclusivamente, a hotelaria e o comércio.

Para valorizar os barristas e a sua produção, convidamos anualmente vários deles a trabalharem connosco nas ações educativas. Estamos ainda unidos à Confraria do Boneco de Estremoz para levar o figurado às principais feiras nacionais. Concretizámos recentemente uma rota cultural sob esta temática e com muito gosto, procuramos unir esforços com colecionadores de referência, para com estes darmos a conhecer peças únicas deste património cultural imaterial.

Ora foi exactamente com este propósito, que surgiu o trabalho com Hernâni Matos, o maior e mais representativo colecionador de Figurado de Estremoz. Este tem um labor incomparável no domínio do colecionismo, ao qual une a investigação e um conhecimento privilegiado dos artesãos do séc. XX e XXI. A exposição que nos apresenta, demonstra isto mesmo. Temos assim a honra de conhecer e dar a conhecer, uma pequena parte da maravilhosa coleção deste estremocense, se bem que apenas sob a temática da música. Juntamos a esta, a memória das dezenas de mostras que Hernâni Matos já realizou nos espaços da autarquia e assim apercebemo-nos da maravilha deste trabalho, paciente e apaixonado.

Caro Hernâni Matos, teremos sempre espaço para mostrar os seus e nossos, Bonecos de Estremoz. Bem-haja pela partilha e deixo aqui um reconhecimento público pela sua ação na valorização deste património, que deixou de ser apenas de Estremoz e hoje é da Humanidade.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 4 - SOLISTAS

 

8 - Pastor do harmónio (Mariano da Conceição)
9 - Tocador de harmónio (Liberdade da Conceição)
10 - Tocador de harmónio (Maria Luísa da Conceição)
11 - Pastor do harmónio (Maria Luísa da Conceição)

4 - SOLISTAS

Os solistas são músicos que executam uma peça musical ou parte dela, sozinhos ou em destaque num grupo musical. No figurado de Estremoz podem-se considerar solistas os Tocadores de Harmónio, dos quais figuram na colecção, 19 exemplares manufacturados por Mariano da Conceição (1), Sabina Santos (4), Liberdade da Conceição (2), José Moreira (4), Fátima Estróia (1), Irmãs Flores (1), Mário Lagartinho (1), Maria Luísa da Conceição (2), Quirina Marmelo (1), Duarte Catela (1) e Ricardo Fonseca (1). O exemplar deste último barrista é acompanhado dum desenho onde o barrista nos mostra as sucessivas fases de execução do seu Boneco.

Para além dos Tocadores de Harmónio, a colecção apresenta 6 outros solistas como Trovador (Irmãs Flores), duas figuras diferentes de Preto Guitarrista (Irmãs Flores), Figura de Entrudo com Pandeireta (Irmãs Flores), Tocador de Gaita de Foles (José Moreira) e Tocador de Guitarra (José Moreira).  

Hernâni Matos

12 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
13 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
14 - Tocador de harmónio (Sabina Santos)


15 - Pastor do harmónio (Fátima Estróia)
16 - Pastor do harmónio (Irmãs Flores)
17 - Pastor do harmónio (Mário Lagartinho)
18 - Pastor do harmónio (Quirina Marmelo)
19 - Pastor do harmónio (Duarte Catela)

20 - Pastor do harmónio (Ricardo Fonseca)

21 - Pastor do harmónio (José Moreira)
22 - Tocador de harmónio (José Moreira)
23 - Tocador de harmónio (José Moreira)
24 - Tocador de gaita de foles (José Moreira)
25 - Tocador de guitarra (José Moreira)

26 - Trovador (Irmãs Flores)
27 - Figura de Entrudo com pandeireta (Irmãs Flores)
28 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)
29 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.4 – Dia de Sortes

 

Dia de Sortes (Carlos Alberto Alves)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3-4. - Dia de Sortes (Carlos Alberto Alves)

No decurso da guerra colonial (1961-1974), os jovens eram convocados para as “Inspecções” aos 18/19 anos. Tratava-se da inspecção militar, que consistia em provas físicas e médicas, visando determinar se os mancebos estavam ou não aptos para serem incorporados no Serviço Militar Obrigatório.

Os apurados nas inspecções eram incorporados no ano em que cumpriam o 20.º aniversário e o tempo de "tropa" podia chegar a quatro anos ou mais.

O “Dia das Inspecções” era na gíria popular conhecido por “Dia de Sortes”, designação devida ao facto de ser nesse dia que cada mancebo inspeccionado ficava a saber qual a “sorte” que lhe tinha cabido na inspecção militar: apurado, livre ou adiado. A cada sorte estava associada simbolicamente uma fita colorida, de acordo com a seguinte convenção: APURADO=VERDE, LIVRE=VERMELHO, ADIADO=BRANCO.

À saída das inspecções cada jovem identificava-se com a “sorte” que lhe tinha cabido. Para tal exibia a correspondente fita colorida, pregada no peito, no boné ou no chapéu. À sua espera um tocador de harmónio contratado que os acompanhava pelas ruas da cidade, enquanto cada um deles tocava a sua própria pandeireta. Era um modo simples e tradicional de partilhar com a comunidade, o conhecimento da “sorte” que lhe tinha cabido. Era de certo modo, um ritual de puberdade que se extinguiu tal como o Serviço Militar Obrigatório.

O Dia de Sortes” foi perpetuado no figurado de Estremoz pelo barrista Carlos Alberto Alves, que para o efeito criou um grupo alegórico constituído por um tocador de harmónio e 3 tocadores de pandeireta com “sortes” diferentes uns dos outros: um “apurado”, um “livre” e outro “adiado”.

domingo, 28 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.1 - Bandas Filarmónicas


Banda Filarmónica (Jorge Carrapiço)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3.1 - Banda Filarmónica (Jorge Carrapiço e outros)

No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, Sociedade Filarmónica Veirense e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, que actuam em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).

Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, perpetuada no barro por Mariano da Conceição nos anos 40 de séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.

Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição não permite saber o que são.

A presente colecção integra uma Banda de Música de José Moreira (12 figuras) e outra de Quirina Marmelo (10 figuras), as quais apresentam algumas das características acima referidas, o que me levou a desejar possuir uma Banda de Música que traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado.

A banda viria a ser executada pelo barrista Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trombone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense. Na execução da Banda foi fundamental a consultadoria do Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, que definiu o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO [caixa (2), bombo (1), pratos (1)], METAIS [tuba (1), trombone (1), contrabaixo (1), bombardino (1), trompa (1), trompete (2)], PALHETAS [clarinete (4), sax alto (1), sax barítono (1), sax tenor (1)] e FLAUTAS [flauta (2)]. Ao todo são 22 figuras, número que inclui o Maestro e o Porta-estandarte. O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.

A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma, facto que aqui atesto e registo para memória futura.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 2 - ALEGORIAS

 

3 - Alegoria da Música (Jorge da Conceição)

2 - ALEGORIAS

Alegoria da Música (Jorge da Conceição)

A Alegoria da Música é uma representação simbólica da música como uma mulher bela e elegante que enverga um vestido com folhos e sandálias que configuram as que são usadas pelas Primaveras do figurado de Estremoz. Estão lhe associados dois instrumentos musicais: uma lira apoiada no corpo do lado esquerdo e uma flauta sustentada pela mão direita, cujos orifícios lhe conferem a funcionalidade de servir como paliteiro, uma das tipologias mais emblemáticas e práticas da Barrística de Estremoz, historicamente utilizadas como adornos de mesa.

Hernâni Matos

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS

 

Manuel António Capelins (1924-1974)

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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Armando Alves (Manuel António Capelins)
Flórido de Vasconcelos (peças).

Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do concelho de Estremoz. Com ela ocorreu uma mudança de paradigma. Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, de tal maneira que aquela Feira constituiu, “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.    

Naquela Feira descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos.

Foi com base na minha colecção de Arte Pastoril e de Arte Conventual, que a convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, concebi a exposição ARTES DO VAGAR, integrada nas Comemorações do Centenário da Elevação à Categoria de Cidade. A mesma foi inaugurada no passado dia 16 de Maio, na sala de exposições temporárias do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho e ali estará patente ao público até ao próximo dia 6 de Setembro.

O certame é integrado por 123 trabalhos de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa Feira iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal. 

Uma visita à exposição permite de imediato concluir estar-se em presença da “nata” de artesãos do vagar, pelo que importa enquadrar a obra de cada um deles no contexto do respectivo perfil biográfico. É o que passo a fazer a partir de hoje e durante 9 números nas páginas deste jornal.  

1 - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974)

Natural de Santo António de Capelins (Alandroal). Cedo começou a trabalhar como pastor e na calma da paisagem as suas mãos habilidosas aprenderam a esculpir e a rendilhar a madeira e o chifre. Porém, nas pedreiras pagavam melhor e ele tinha mulher e dois filhos. Tornou-se então trabalhador das pedreiras, abandonou a pastorícia e com ela a arte pastoril. Todavia, as coisas não ficaram por aqui. Alguém que conhecera o virtuosismo das suas mãos e a grandeza da sua alma de artista popular, consegue-o subtrair à dureza do trabalho das pedreiras, levando-o a dedicar-se exclusivamente à arte pastoril, o que passou a fazer na sua casa, situada então na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos).

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: laranjeira, buxo, figueira, aloendro e raiz de oliveira. Serviu-se de utensílios como navalha, goiva de vareta e compasso. A decoração muito rica era variada e de natureza geométrica, fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica de inspiração regional. Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, pulseiras, cáguedas, chavões, colheres, colheres de pastor, talheres, canudos de ceifa, canudos de soprar o lume, tabaqueiras, caixas de segredo, esculturas em madeira, jogos de xadrez e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera em Belém, Feira de Artesanato do Estoril e Feira Nacional da Agricultura em Santarém. Está representado nas colecções do Museu Nacional de Etnologia em Lisboa e no Museu do Artesanato em Évora.

Em Maio de 1963, o pintor Armando Alves organizou uma exposição de trabalhos seus na Escola Superior de Belas Artes do Porto, para a qual foi editado um catálogo com prefácio do Professor J. M. Pereira de Oliveira. O poeta Eugénio de Andrade dedicou-lhe em 1964 o texto “E o pastor, de Alentejo era…”, que veio a ser inserido no livro OS AFLUENTES DO SILÊNCIO (1968).

Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma, na Fonte do Imperador, em Estremoz. Os seus trabalhos passam mais tarde a ser comercializados na Livraria e Papelaria Aníbal, nesta cidade.

A exposição de Manuel António Capelins na Sociedade Nacional de Belas Artes seria ainda objecto do apreço do historiador de arte Flórido de Vasconcelos, que publicou o texto “Notas de Arte Popular Alentejana“ no nº 21, de Março de 1967 da revista PANORAMA.

Após o falecimento de Manuel António Capelins em 1974, o seu legado artístico foi continuado pela filha Teresa Serol Gomes (1952-1988) e pelo filho Miguel Serol Gomes (1957-  ), cujos perfis biográficos integram igualmente o presente trabalho.

Hernâni Matos  












Publicado no jornal E nº 382, de 19 de Junho de 2026






domingo, 24 de maio de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 



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A abrir o catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR

PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

No âmbito da celebração dos 100 anos de elevação de Estremoz a cidade, procuramos proporcionar aos estremocenses uma oferta cultural diversificada, mas que seja também educativa. O objetivo passa fundamentalmente por dar a conhecer o que foram estes 100 anos na cidade, nas mais diversas vertentes.

Assim, lançámos o desafio ao maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente, Hernâni Matos, para que nos fizesse a retrospetiva possível, tendo como pano de fundo a sua coleção, destes últimos 100 anos de artesanato na cidade.

O sucesso desta iniciativa é evidente. Para além de conhecermos as melhores peças da coleção de Hernâni Matos, as novas gerações terão acesso ao trabalho de um conjunto de artesãos já falecidos, que de outra forma não fruiriam.

Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.

Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.

São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz


Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026    

sexta-feira, 22 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás

 


 
Como tudo começou

Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício.

O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz correspondeu na época à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos, a partir do “annus mirabilis” de 1983, consensualmente considerado o “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.     


100 anos de elevação de Estremoz a cidade

A convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio e, na condição de “maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente” (palavras suas), concebi uma exposição com base na minha colecção, visando dar uma retrospectiva possível dos últimos 100 anos de artesanato no concelho. Naturalmente que tive de fazer opções relativamente à tipologia de artesanato, o que me levou a excluir sem desprimor algum, o Figurado, a Olaria, a Cerâmica Vidrada e a Azulejaria de Estremoz. Cingi-me então à Arte Pastoril e à Arte Conventual (Papel Recortado, Pintura Judaica e Registos e Maquinetas), as quais decidi expor sob a epígrafe “ARTES DO VAGAR – Colecção Hernâni Matos”. 

Foi esta exposição que no passado sábado, dia 16 Maio, foi inaugurada na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho. À “vernissage” compareceram cerca de 6 dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, que usou da palavra a seguir à Directora do Museu, Isabel Água. Ainda que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto: reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem vêem, muito me congratulam e estimulam.

A exposição integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL SEROL GOMES (1957 -  )  Arte Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38 trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril (4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos); - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual - Pintura Judaica – (12 trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte Conventual – Registos e Maquinetas (28 trabalhos).     

Como nos diz no catálogo da exposição o Senhor Presidente da Câmara, “Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.” e acrescenta: “Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.” A terminar diz: “São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.”   

A exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026