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domingo, 19 de abril de 2026

Arte Conventual - O falar das mãos de Guilhermina Maldonado


Guilhermina Maldonado (1937-2019).

LER AINDA:

Entre nós vivem pessoas relativamente às quais a Comunidade nutre profunda estima e admiração, pelas mais diversas e respeitáveis razões: o seu desempenho ou êxito profissional, o seu exemplo de vida, a sua participação cívica ou aquilo que criam, que é o caso da Senhora que é objecto do presente post.
Guilhermina Maldonado é uma artesã multifacetada cuja actividade se distribui entre outras artes pela criação de registos – bentinhos e lâminas, assim como de maquinetas.
Registos contendo gravuras representando Santos ou Passos das Sagradas Escrituras e que dependurados nas paredes dos quartos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.
Maquinetas contendo imagens devotas que são objectos de Culto ou encerram Presépios, através dos quais se evoca ciclicamente o nascimento de Cristo Salvador.
E o que é um registo? E o que é uma maquineta?
A designação de “registo” engloba ícones religiosos gravados em madeira, cobre, ou pintados sobre pergaminho, tecido ou papel ou impressos litograficamente.
Os de pequenas dimensões, além de relembrarem o dia festivo do Santo Protector, serviam para marcar uma dada passagem no missal ou noutro livro qualquer.
Independentemente das suas dimensões, os registos começaram a ser usados no século XVIII para emolduramentos conhecidos por “bentinhos”, designação que também abrange saquinhos de pano, bentos, que se usavam ao pescoço por debaixo da camisa, contendo papeis com orações, relíquias ou outros objectos de devoção.


Filha de uma mãe exímia e assombrosa na arte do papel recortado e sobrinha do antiquário Venceslau Lobo, Guilhermina Maldonado, nasceu em Estremoz, na freguesia de Santo André, no ano de 1937. Desde muito cedo, conviveu com registos, bentinhos, lâminas e maquinetas. Depois do casamento com o lavrador Luis Maldonado, foi morar para um monte, onde a necessidade de combater o isolamento, a levou a ocupar o tempo de maneira criativa.
Os trabalhos da mãe e a loja do tio que sempre a fascinou, emergiram então na sua memória, levando-a a recriar registos, a partir dos que já conhecia, sem necessitar de qualquer aprendizagem.


Prendada com uma vontade férrea e uma paciência sem limites, a elas soube aliar o prazer de criar, o que faz com uma imaginação espantosa, ainda que temperada pelo rigor e pela procura incessante da delicadeza, perfeição e harmonia, com requintes de minúcia, que são o seu timbre. Dotada de rara sensibilidade artística, das suas mãos de ouro, saem entre outras, inúmeras peças ao gosto conventual do século XVVIII, com um destaque muito especial para os registos e maquinetas ricamente trabalhados.


Desde a sua primeira exposição, ocorrida em 1987 na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, que o seu trabalho foi publicamente reconhecido, passando a receber antiquíssimos registos e maquinetas para restaurar, bem como encomendas para criar novos trabalhos.
Como matérias-primas, Guilhermina Maldonado utiliza papéis coloridos (simples ou metalizados), tecidos (lisos ou lavrados), galões, fitas de algodão e seda, laços, bordados a linha de vários matizes ou de fio prateado ou dourado, bem como pérolas, coral, lantejoulas, vidrilhos, missangas e contas das mais variadas cores. Utiliza também o barro, o miolo de sabugueiro, flores naturais, escamas de peixe ou cascas de árvore. Igualmente utiliza o cartão e o vidro.

As ferramentas utilizadas são as mais diversas: tesoura, lâminas, agulhas, teques, bastidores, pincéis e utensílios improvisados.
Nos bentinhos, a estampa começa por ser colada num cartão que é forrado com tecidos ricos e decorado com lantejoulas, vidrilhos ou papéis coloridos, entre outros materiais.
Guilhermina Maldonado domina e utiliza as múltiplas técnicas de trabalhar o papel: dobragem, vincagem, corte, recorte, enrolamento e picotagem. Com a ajuda da tesoura e da pinça, corta finamente o papel e enrola-o, compondo folhas, pétalas e caules finíssimos, assim como transforma retalhos de papel em preciosos bordados e rendas.


Na decoração é por vezes utilizado canotilho de ouro ou prata e bordados a fio de ouro e prata. Só depois a estampa é emoldurada com uma moldura ricamente trabalhada.
A geometria das molduras é variada: rectangular, quadrada, circular, oval, ogival, cruciforme, cuneiforme ou de contorno misto. A estampa em vez de ser emoldurada, pode ser montada numa caixa pacientemente armada em vidro, também ela de geometria variável, com as lâminas de vidro guarnecidas a papel, tecido, fitas de seda ou de algodão. Estamos então em presença de “lâminas”. Nelas, a dado momento, a estampa começou a ser substituída, por vezes, por pequenas esculturas de barro policromado, cera, marfim ou alguma massa de segredo conventual.



Além de registos – bentinhos e lâminas, Guilhermina Maldonado também executa “maquinetas”, que são caixas envidraçadas onde se expõem imagens devotas como o Menino Jesus ou cenas do Presépio. Os materiais e as técnicas são semelhantes aos dos registos, só que as caixas agora têm maior volume. Guilhermina Maldonado começou por montar maquinetas com figuras modeladas por outros, mas actualmente é ela própria que modela e decora as figuras das suas maquinetas.


Guilhermina Maldonado participa desde sempre na Feira de Artesanato de Estremoz, a qual constitui na sua opinião, a melhor forma de divulgação do seu trabalho. É lá que recebe grande parte das encomendas de clientes que ficaram seduzidos pelo seu trabalho.
Dentre as Exposições realizadas, destacamos entre outras:
-  REGISTOS (Exposição Colectiva), Museu Municipal de Estremoz, Março - Abril de 1986;
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, Dezembro de 1987- Janeiro de 1988;
- Exposição colectiva, Portalegre, Maio de 1992;
- GUILHERMINA MALDONADO E O FALAR DAS MÃOS (Exposição Individual), Câmara Municipal do Alandroal, Dezembro de 1995.
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Escola Secundária de Estremoz, Dezembro de 1999.
A continuidade da sua Arte foi uma questão que sempre a preocupou. Estela Marques Barata foi a colaboradora a quem transmitiu os seus saberes.
Vivemos numa época pautada pela exaltação dos valores materiais e pela globalização, ambos conducentes à insensibilidade artística e ao cinzentismo da perda de identidade cultural. Por isso é preciso cavar trincheiras e cerrar fileiras em tomo do que mais puro e genuíno tem a Cultura Popular, nas suas mais diferentes vertentes. Dai que procuremos transmitir às novas gerações, valores e estéticas, que sendo populares e regionais, são simultaneamente universais e intemporais.
Esse o sentido da Exposição, que de 16 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2010, esteve patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. tratou-se de uma Exposição, onde a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, nos fizeram render à Arte de Guilhermina Maldonado.

Publicado inicialmente em 5 de Abril de 2010

sábado, 18 de abril de 2026

Repórter de concertos de violino


Moringue antropomórfico. Fabrico da Olaria Alfacinha. Estremoz, anos 40 do séc. XX.

De vez em quando vislumbro objectos que tangem as tensas cordas de violino da minha alma. Então, olho-os melhor, miro-os e remiro-os, trespasso-os com o meu olhar e eles revelam-se em toda a sua plenitude, para além daquilo que é óbvio. Digo-lhes: Olá! Então e só então, eles me recebem de braços abertos, como se um deles se tratasse. Contam-me então as suas estórias, às quais outras estórias se seguirão. É então que eu, repórter de concertos de violino, escrevo na pauta de papel, tudo aquilo que tocaram e eu consegui entender.

Publicado inicialmente em 15 de Abril de 2021

quarta-feira, 25 de março de 2026

Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Março de 2026.

O Centro Interpretativo para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz inaugura no dia 28 de março às 16:00 horas, na sua Sala de Exposições Temporárias, a Exposição “Moldar o Legado”, Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro.

Sara Sapateiro (1995) é uma jovem, natural de Estremoz, que iniciou o seu percurso na produção de Figurado em Barro de Estremoz em 2018 pelas mãos da Barrista Isabel Pires, sua Mestra, com quem aprendeu grande parte das técnicas e processos desta arte.

No final de 2019, frequentou o I Curso de Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz promovido pelo CEARTE em parceria com o Município de Estremoz.

Sempre com o apoio e incentivo da Mestra, tem vindo a dar continuidade ao seu trabalho e criando a sua própria identidade estética. Sara é hoje a mais jovem Barristas a produzir o Figurado em Barro de Estremoz, inscrito desde 2017, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO.

A mostra poderá ser visitada até dia 21 de junho.

Não falte, venha conhecer o "Legado" de Sara Sapateiro.

Hernâni Matos

sábado, 14 de março de 2026

A Banda de Música de Jorge Carrapiço


Banda de   Música de Jorge Carrapiço.

Composição da Banda e distribuição dos músicos pela mesma, da autoria do Maestro
Mário Tiago, da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense.

Preâmbulo
Desde o passado dia 31 de Janeiro, que na Galeria Municipal D. Dinis, está patente ao público e até ao próximo dia 3 de Maio, a exposição “100 Anos da Elevação de Estremoz a Cidade – Barristas do Centenário”, a qual integra as Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, promovidas pelo Município de Estremoz.
A exposição destaca o percurso dos barristas nos últimos cem anos, a evolução dos Bonecos de Estremoz e o papel do Município na salvaguarda da tradição da arte bonequeira, que desde 2017 integra a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Na exposição há exemplares que se destacam pelos mais diferentes motivos, como é o caso da Banda de Música de Jorge Carrapiço, encomendada por mim ao barrista em 2021 e que integra a minha colecção pessoal de Bonecos de Estremoz.
Para compreender a importância desta Banda de Música torna-se necessário ler o texto que se segue, redigido em 2021 e dedicado à Sociedade Filarmónica Artística Estremocense na passagem do seu 150.º Aniversário.
Estremoz e as Bandas de Música
No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, de Estremoz (Fundada a 25 de Agosto de 1840), Sociedade Filarmónica Veirense (Fundada em 19 de Março de 1870) e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense (Fundada a 11 de Agosto de 1871). Qualquer delas tem um historial respeitável, o qual merece ser conhecido, sendo que a fundação da Banda mais antiga remonta aos finais da primeira metade do séc. XIX.
Desde a sua fundação que estas Bandas actuam não só no concelho, como um pouco por todo o Alentejo, em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).
Bandas de Música na barrística de Estremoz
Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, que tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos. Aquela procissão foi perpetuada no barro por Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) nos anos 40 do séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.
Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição morfológica.não permite saber o que são.
Uma Banda de Música para mim
A minha colecção integra há já algum tempo, uma Banda de Música de José Moreira e outra de Quirina Marmelo, as quais apresentam algumas das características acima referidas. Daí que tenha pensado em incorporar na minha colecção uma Banda de Música que sem perder o cunho verdadeiramente popular, traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado. Visando este fim e após alguma reflexão, tomei as seguintes medidas:
1 – Escolhi como barrista, Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trobone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, o qual acedeu a modelar uma Banda de Música com as características por mim indicadas.
2 – Convidei o Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, a esboçar uma Banda de Música, definindo o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Aquele Maestro correspondeu à minha solicitação, fixando aqueles parâmetros. É, pois, de sua autoria o esquema que estabelece a composição da Banda e a distribuição dos músicos pela mesma. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO (caixa, bombo, pratos), METAIS (tuba, trombone, contrabaixo, bombardino, trompa, trompete), PALHETAS (clarinete, sax alto sax barítono, sax tenor) e FLAUTAS (Flauta). Ao todo são 22 figuras.
3 – Passei em revista as Bandas produzidas anteriormente por outros barristas, tendo-me agradado muito particularmente uma Banda da autoria de José Moreira, a qual viria a ser tomada como modelo.
4 - Sugeri ao barrista Jorge Carrapiço que executasse a Banda de Música com as seguintes características: - Altura das figuras: 16 cm; - Base quadrangular de 5 cm x 5 cm, com as pontas cortadas em bisel. Topo de cor verde bandeira e orla em zarcão; - Fardamento azul, compreendendo calça e casaco orlado de zarcão à frente e nos punhos. Abotoadura constituída por duas fileiras de 5 botões amarelos; - Chapéu tipo quépi da mesma cor do fardamento, com pala preta e fita dourada à frente, terminada por dois botões da mesma cor; - Botões definidos volumetricamente; - Calçado preto; - Instrumentos modelados com definição.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço
O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.
O cromatismo das figuras assenta em nítidas dicromias quente-frio, que pela sua simplicidade lhes confere uma beleza vigorosa.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma. O barrista está, pois, de parabéns e a barrística popular de Estremoz está mais rica. São factos indesmentíveis que aqui atesto e registo para memória futura.
A Banda de Música agora executada fica, de resto, a assinalar os 150 anos da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, da qual eu sou associado, Mário Tiago é Maestro e Jorge Carrapiço é trombonista.

Hernâni Matos


Jorge Carrapiço, o barrista - trombonista.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fotografias inéditas de Mário Lagartinho, Mestre Oleiro de Estremoz

 






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A memória mais antiga que guardo de Mestre Mário Lagartinho (1935-2016) é a da sua participação no Cortejo Etnográfico de 1963 em Estremoz, integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz desse ano. Tratou-se de um evento histórico de grande impacto, o qual celebrou as profissões tradicionais do Alentejo, com especial destaque para a Olaria e os Bonecos de Estremoz. Num dos carros alegóricos à olaria e que desfilavam pela Avenida 9 de Abril, Mário Lagartinho, então com 28 anos (eu tinha 17) ia modelando peças oláricas.                     

Só após a minha saída da Universidade viria a ter uma relação mais próxima com Mário Lagartinho, o que aconteceu nos anos 70 do séc. XX. O Mestre viria então a conceder-me o privilégio da sua amizade, o que me permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da Olaria de Estremoz na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Fi-lo na condição de coordenador do Centro de Recursos da Escola. O evento designado por “Encontro com a Olaria Alentejana” e realizado no átrio consistiu basicamente numa exposição de peças oláricas de Estremoz pertencentes à minha colecção pessoal e ainda, o que foi o mais importante, um workshop orientado por Mário Lagartinho. O público alvo foi a comunidade escolar e muito em especial, os alunos da área das Artes.

São dessa época as fotografias inéditas de Mário Lagartinho aqui divulgadas e das quais naturalmente estou ausente, já que estava por detrás da objectiva.

De salientar que o magnífico painel de azulejos patente no átrio da Escola é da autoria da artista plástica Estrela Faria (1910-1976).

 Hernâni Matos

Alegoria ao Ensino (1962). Estrela Faria (1910-1976). Painel de azulejos (300 x 600 cm).
Escola Secundária Rainha Santa Isabel, Estremoz.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pedro Alves - O despontar de uma estrela


1 - Primavera de Plumas (2026) (frente). Pedro Alves (1991-  ).

Ficar de boca aberta
Há oitentões como eu, rodados na vida e que já “meteram o nariz” em tudo e mais alguma coisa, mesmo naquilo para o qual não foram chamados. Alguns estão mesmo convencidos de que já não há nada de novo para ver e que tudo vai dar ao mesmo. Não é o meu caso, manifestamente um desajeitado para o desempenho do papel de “velho do Restelo”.
Na verdade, creio convictamente que "A vida é uma caixinha de surpresas." e que "As surpresas acontecem quando menos se espera”. De tal modo que acabamos por "Ficar de boca aberta". Foi assim que há dias e em “maré de “Entrudo” deparei nas redes sociais com uma figura em barro pintado (Fig. 1 e Fig. 2), disponível para venda, a qual de imediato me fascinou. Foi “amor à primeira vista”. Em termos de linguagem cinegética foi um caso de “tiro e queda”. Parece que aquela figura tinha sido feita para me seduzir, o que de facto aconteceu e me fez “puxar os cordões à bolsa”, a qual, nestas andanças, vem “emagrecendo a olhos vistos”.
Primavera de Plumas
Curiosamente, na “maré de Entrudo”, acabei por adquirir uma “Primavera de Plumas”, que conjuntamente com as “Primaveras de Arco” e as “Bailadeiras”, integram a galeria dos Bonecos de Estremoz, com a designação genérica de “Primaveras”. Trata-se de alegorias à estação do ano homónima, bem como à sua chegada e simultaneamente figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, assimilados pela Igreja Católica que há séculos começou a comemorar o Entrudo.
Quem é quem
O barrista de que venho falando é Pedro Alves, um jovem de 35 anos, filho do barrista Carlo Alberto Alves e da artista plástica Cristina Malaquias. É caso para dizer que “Quem sai aos seus não degenera”, além de que “Filho de peixes, sabe nadar”, a que forçosamente terei de acrescentar “E de que maneira!”.
Passar a pente fino
A análise cuidada e pormenorizada da imagem permitiu-me concluir que a representação transmite harmonia, beleza e elegância. De salientar que a figura exibe uma postura vertical com os pés mais afastados do que é habitual. As pregas do vestuário e a posição desencontrada dos braços indiciam movimento. A modelação e a decoração são cuidadas e consistentes no seu todo. O cromatismo dominante da figura assenta no vermelhão e no cor de rosa, cores quentes através das quais se procura transmitir a energia, o calor e a vibração dos festejos de Entrudo.
É ou não é?
Chegados a este ponto somos confrontados com a sacramental pergunta: ”Estamos ou não em presença daquilo a que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz?"
A resposta óbvia é que sim, já que em primeiro lugar a técnica de modelação utilizou a combinação das três técnicas: a da bola, a do rolo e a da placa. Em segundo lugar a estética dos Bonecos de Estremoz é uma estética naturalista, que recorre a uma modelação que procura ser fiel ao original, sem introduzir pormenores que lhe são estranhos. Essa fidelidade estende-se ao domínio cromático, já que utiliza cores reais, ou seja, as cores possíveis daquilo que pretende representar.
Uma mudança de paradigma
Pese embora o estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, o barrista como, de resto, vem sendo prática corrente desde os primórdios da arte, ousou fazer algo de diferente, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto” e com essa diferença dar conta da sua individualidade e do seu modo de ver o mundo e a vida. E que fez o barrista de novo? Encurtou o vestido e dotou-o de um decote generoso. “Duma cajadada matou dois coelhos”: permitiu-se modelar pernas esbeltas e valorizar a representação do busto feminino. Ao proceder assim, o barrista conferiu sensualidade à sua Primavera de Plumas. Em termos de representação ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que importa sublinhar e valorizar.
Que fazer?
O futuro ao barrista pertence, o qual inescapavelmente irá percorrer o seu próprio caminho. O que até agora nos mostrou é revelador de talento e forte personalidade artística, aos quais decerto saberá adicionar resiliência aos “ditos e mexericos” dos “velhos do Restelo”, que temerosos de sair da sua “praia”, adoptam uma atitude céptica e conservadora perante a inovação. E vai daí desencandeiam as suas “Guerras do alecrim e da Mangerona” como forma de nos “Atirar poeira para os olhos”.
Mensagem final
A chegada de alguém muito especial ao universo dos barristas de Estremoz, leva-me a congratular-me com esse facto e a proclamar a sua chegada, anunciando o despontar de uma estrela que promete brilhar.


2 - Primavera de Plumas (2026) (trás). Pedro Alves (1991-  ).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

8.º Aniversário dos Bonecos de Estremoz enquanto Património da UNESCO



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 28 de Novembro de 2025

No domingo, dia 7 de dezembro de 2025, comemora-se o 8.º aniversário da Inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Para celebrar a data, o Município de Estremoz organizou as seguintes atividades:

Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz

- 16:00 horas - Discursos institucionais

- 16:15 horas - Entrega da Certificação à barrista Ana Godinho

- 16:20 horas - Apresentação da Rota do Boneco de Estremoz, Hugo Guerreiro Chefe da Divisão de Cultura, Desporto e Juventude

- 16:40 horas - A Confraria do Boneco de Estremoz: 2025 e 2026, Alexandre Correia, Grão-Mestre da Confraria

Estremoz Hotel

- 17:30 horas - Inauguração da exposição "Figurado em Barro de Estremoz", fotografia de Francisco Matias

 Venha celebrar conosco!

Entrada gratuita.

Hernâni Matos

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Novembro de 2025

A Galeria Municipal D. Dinis irá receber, a partir do dia 29 de novembro, a XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz.

Esta mostra contará com cerca de 30 Presépios, produzidos com diversos materiais, dos artesãos: Afonso Ginja, Ana Catarina Grilo, Ana Godinho, António Moreira, Carlos Alberto Alves, Conceição Perdigão, Fátima Lopes, Francisca Carreiras, Henrique Painho, Inocência Lopes, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Manuel Broa, Maria José Camões, Perfeito Neves, Ricardo Fonseca, Sara Sapateiro, Sandra Cavaco e Vera Magalhães.

A exposição poderá ser visitada até dia 6 de janeiro de 2026, com entrada gratuita, numa organização da Câmara Municipal de Estremoz.

Não perca!

Hernâni Matos

domingo, 23 de novembro de 2025

Tenores de Redondo



Na vila de Redondo existem diversos grupos corais activos, tanto masculinos como femininos e mistos. São eles: Grupo de Cantadores do Redondo, Cantadeiras do Redondo, Grupo Coral e Instrumental Academia de Afectos, Grupo Coral Polifónico da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense e Trovadores de Redondo.

O número e a diversidade destes grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por destilação do vinho nos alambiques.

Redondo é simultaneamente terra de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.

Daí que as olarias locais manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente caídos em desuso.

A opção dos adegueiros pelo uso de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui aplicáveis: “No poupar é que está o ganho",A necessidade é mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."

A terminar e como está frio, brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente, faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente” "Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".

Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia. 

Hernâni Matos

sábado, 1 de novembro de 2025

A génese da arte pastoril


COLHER EM MADEIRA - Artefacto de arte pastoril alentejana
da autoria de Joaquim Teodoro da Cruz. Orada, 1940.
Colecção Hernâni Matos.


Ao meu Amigo António Carmelo Aires,
distinto coleccionador de arte pastoril,
no dia do seu aniversário.

 

O Alentejo é terra de vagares. Na charneca, o tempo cresce e recresce para o pastor de ovelhas. Nesse contexto, os palpites de alma fazem das suas. Logo um impulso criador detona e pelas redes neuronais é transmitido às mãos calejadas. Estas manobram com destreza uma navalha afiada com a qual entalha, grava ou filigrana, o material nativo que recolheu na Terra Mãe, mesmo ali à mão de semear.

Com a magia dum alquimista, transmuta a madeira, a cortiça e o chifre, em autênticas Obras de Arte, graças a um nato saber-fazer, aliado a um refinado bom gosto, pautado por ideias ancestrais que lhe povoam a mente.

Cruzes, estrelas, flores, signo-saimões, hexafólios e corações, integram a simbologia, a maioria das vezes apotropaica ou mesmo sagrada, com que lavra a superfície dos materiais e que nos transmitem mensagens e estórias codificadas que o artífice compôs, visando homenagear o destinatário ou a destinatária da sua Obra: a conversada, a mulher amada, o patrão ou a patroa que lhe asseguram o ganha-pão.

Não se trata, pois, de artefactos confeccionados para matar o tempo, como alvitra a proclamação rifoneira: “Quem não tem que fazer, faz colheres”. Pelo contrário, são manufactos criados graças à generosidade do tempo que cresce e recresce nesta terra de vagares.


BORSAL - Estojo em cortiça para protecção do machado corticeiro. Autor desconhecido.
Colecção Hernâni Matos.

TABAQUEIRA EM CHIFRE E MADEIRA. Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).
Colecção Hernâni Matos.

ARTEFACTO BIFUNCIONAL - Constituído por uma carretilha e 3 chavões móveis
ao longo de uma argola circular. Colecção Hernâni Matos.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Marcas de autor nos Bonecos de Estremoz de Mário Lagartinho

 

Mulher a vender chouriços. Mário Lagartinho (1935-2016).


LER AINDA

1. Preâmbulo
No meu livro BONECOS DE ESTREMOZ [1] foi feita a inventariação das marcas de autor dos barristas de Estremoz: Aclénia Pereira, Afonso Ginja, Ana das Peles, Ana Lagartinho, António Lino de Sousa, Armando Alves, Carlos Alves, Fátima Alves Lopes, Fátima Estróia, Guilhermina Maldonado, Irmãos Ginja, Irmãs Flores, Isabel Carona, Isabel Pires, João Fortio, João Sousa, Jorge Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Maria Inácia, Maria José Cartaxo, Maria Luísa da Conceição, Mariano da Conceição, Mário Lagartinho, Matias António da Silva, Matilde Ginja, Miguel Gomes – Célia Freitas, Paulo Cardoso, Quirina Marmelo, Ricardo Fonseca, Sabina da Conceição Santos, Sónia Mateus, Vasco Fonseca.
Foram então catalogadas 121 marcas de 33 barristas, cuja imagem foi reproduzida, acompanhada da respectiva descrição. Tratou-se do maior número de marcas até então inventariado. Todavia e por precaução afirmei: “Estou convicto que a listagem de autores e respectivas marcas aqui apresentadas não está completa e, como tal, não é definitiva. O futuro o confirmará ou não.“ E dá-se o caso que veio a confirmar a confirmar. De facto, o estudo paciente, como é meu timbre, de exemplares da barrística de Estremoz que fui adquirindo, revelaram a existência de novas marcas de autor. 

2. Marcas de autor de Mário Lagartinho
A este propósito, merecem especial destaque as marcas de autor de Mestre Mário Lagartinho, que em 2018 eram em número de 3 e que actualmente passaram a ser 14 (12 das quais pertencentes a exemplares da minha colecção particular).

MARCA MANUSCRITA

FIGURAS

FIGURAS EM QUE FOI IDENTIFICADA

M. L.

1

Rei mago em pé (Belchior) e Rei mago em pé (Gaspar) – Figuras de presépio de trono

M. L / ESTR

2

Nossa Senhora ajoelhada – Figura de presépio de trono

M.L. / E. P.

3

Mulher a vender chouriços

ML / ES

4

Pastor ofertante das pombas – Figura de presépio de trono

M. L. / Estrems

5

Pastor ofertante com um borrego ao colo, Pastor ofertante ajoelhado e Rei mago em pé (Baltasar) – Figuras de presépio de trono

Mário / Lagartinho / Estremoz

6

Pastor das migas e São José ajoelhado – Figura de presépio de trono

Mario / Lagartinho / Estremoz 86

7

???

Mário / Lagartinho / Estremoz 93

8

Mulher dos perus

Mário / Lagartinho / Estremoz / Portugal

9

Nossa Senhora ajoelhada - Figura de presépio com base poligonal

Mario / Lagartinho / 88 Estremoz

10

Senhora de pezinhos com base

Mario / Lagartinho 80 / mL

11

Mulher a vender chouriços

Mario LAG / M.L.

12

Trono

CARIMBO

FIGURAS

FIGURA EM QUE FOI IDENTIFICADA

Carimbo “ESTREMOZ”, inserido no contorno de marca denteada de “carica”.

13

Matança do porco

MARCA MISTA (manuscrita e carimbo)

FIGURAS

FIGURA EM QUE FOI IDENTIFICADA

Carimbo “ESTREMOZ” / Marca manuscrita “M. L.”.

14

Pastor do harmónio

O estudo efectuado sobre as marcas de autor de Mestre Mário Lagartinho está sintetizado no quadro acima. Dele foi possível extrair várias conclusões:
- As marcas de autor são de 3 tipos: marcas manuscritas, carimbos e marcas mistas;
- A marca datada mais antiga é de 1980 e a mais recente é de 1993, datas que se inserem no período de tempo que medeia entre os anos 70 e 90 do século XX, no decurso do qual Mestre Mário Lagartinho foi simultaneamente oleiro e bonequeiro;
- As marcas 1, 2, 4, 5, 6, 12 são coevas e pertencem às figuras de um presépio de trono e ao próprio presépio de trono. Significa isto que as 10 peças de um presépio de trono apresentam pelo menos 6 marcas diferentes. Digo pelo menos, uma vez que não foi possível identificar a marca aposta no berço do Menino Jesus, já que que a mesma não é perfeitamente legível, visto se encontrar coberta de tinta;
- Não foi possível sequenciar temporalmente as marcas não datadas. Porém, a decoração dos Bonecos e a patine dos mesmos, levam a admitir que as mascas 3 e 13 estarão entre as marcas mais antigas conhecidas.

3. O seguro morreu de velho

É considerável o incremento ocorrido no número de marcas de autor de Mestre Mário Lagartinho catalogadas no decurso do período 2018-2025. Todavia, tal como proclama o velho rifão "O seguro morreu de velho", por precaução é de admitir que o número de marcas já catalogadas possa não ser definitivo. 

Hernâni Matos

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14




[1] MATOS, Hernâni. BONECOS DE ESTREMOZ. Edições Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, 
Outono de 2018.
[2] Cortesia de Diogo Galhofo.