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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ave Maria

 

REDONDO - Prato Falante com a inscrição "Maria" e a mensagem "Ave Maria", 
que para os cristãos tem um profundo significado religioso. Prato covo de média
dimensão.  Esgrafitado e pintado.

Preâmbulo
Ao inventariar um dos pratos da minha colecção de cerâmica de Redondo, constatei que ele integrava o sub-grupo da Cerâmica Falante, visto incluir uma inscrição: o antropónimo “Maria”.
Esta inscrição suscitou-me primeiro alguma reflexão e levou-me posteriormente a trazer à luz do dia, alguma literatura de tradição oral, centrada no antropónimo “Maria”.

O porquê duma inscrição
A visualização do prato pode suscitar várias interpretações. Assim, tendo em conta apenas a inscrição "Maria", posso ser conduzido a uma das seguintes interpretações:
- Pode ter sido manufacturado e dedicado a uma certa “Maria”;
- Pode ter sido encomendado por uma mulher chamada “Maria”;
- Pode ter recebido a inscrição “Maria” por ser o nome feminino mais frequente, o que tornaria o prato mais fácil de vender.
Todavia, a minha interpretação prefere ter em conta a conjugação da palavra que representa a imagem (Ave) com a inscrição "Maria". Chego então à frase "Ave Maria", que tem para os cristãos um profundo significado religioso. Trata-se de uma expressão latina que significa "Salve, Maria" ou "Saudação a Maria". É também o nome dado a uma das orações mais populares e antigas do catolicismo, que tem as suas raízes nas Sagradas Escrituras.
Inclino-me, naturalmente, para esta última interpretação, visto ser a mais plausível. O prato para além de integrar a chamada Cerâmica Falante, é um prato que ostenta uma mensagem de saudação à Virgem Maria, transmitida através da expressão "Ave Maria".
Referindo-se ao prato, diz o Dr. João Azaruja “À primeira vista parece um artefacto datado de 1947, ano da primeira visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima a Redondo". Segundo ele, "Parece ser da primeira fase do oleiro António Francisco Beira, devido à cercadura e ao tipo de pomba".

Origem do nome Maria
Maria é um nome de origem controversa, muito difundido por todo o mundo, mesmo antes da época de Jesus Cristo. Há quem creia que seja derivado do hebraico Miriam (Senhora Soberana). Outros crêem tratar-se de um nome originalmente egípcio, derivado de Mry (Amada) ou Mr (Amor). Há ainda quem acredite que o nome tenha origem no sânscrito Maryáh (Virgem).

O nome Maria na Bíblia
Maria é um dos nomes mais comuns de todo o mundo há séculos, especialmente por causa da Virgem Maria, a mulher judia que morava em Nazaré e foi escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus Cristo. De acordo com o Evangelho segundo São Lucas:
No sexto mês Deus enviou o anjo Gabriel a Nazaré, cidade da Galileia, a uma virgem prometida em casamento a certo homem chamado José, descendente de David. O nome da virgem era Maria.
O anjo, aproximando-se dela, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!"
Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim". LUCAS 1:26-33.

Antroponímia
“Maria” é o nome próprio feminino mais comum há séculos em Portugal e em quase todo o número. O antropónimo simples “Maria” pode integrar elevado número de antropónimos compostos femininos, tais como: Maria Antónia, Maria Augusta, Maria Clara, Maria Madalena, Maria da Assunção, Maria da Conceição, Maria da Cruz, Maria da Fé, Maria da Graça, Maria da Luz, Maria da Paz, Maria da Piedade, Maria da Purificação, Maria das Dores, Maria de Fátima, Maria de Jesus, Maria de Lourdes, Maria do Amparo, Maria do Céu, Maria do Socorro, Maria dos Anjos, Maria dos Prazeres, Maria dos Remédios, Maria Francisca, Maria João, Maria Joaquina, Maria Luísa, Maria Madalena, Maria Manuela, Maria Rosa, Maria Santos, Ana Maria, Eduarda Maria, Fernanda Maria, Filomena Maria, Joana Maria, Rosa Maria, etc. Constata-se que grande número destes antropónimos compostos femininos, utiliza Maria como primeiro nome, sendo o segundo um nome com referências gratas aos católicos
O antropónimo simples “Maria” pode integrar igualmente antropónimos compostos masculinos, dos quais destaco: António Maria, João Maria, José Maria, Manuel Maria, etc.

Toponímia
O antropónimo “Maria” integra a designação de vários topónimos relativos a lugares de freguesias de determinados concelhos portugueses. Usando a notação “LUGAR – Freguesia (Concelho)” temos: MARIA DIAS [Penamacor (Penamacor)], MARIA DO CIZO [Coruche (Coruche)], MARIA DO VALE [Nossa Senhora das Neves (Beja)], MARIA GOMES [Machin (Pampilhosa da Serra)], MARIA MARTINS [Monsanto (Idanha-a-Nova)], MARIA MENDES [Serpins (Lousã)], MARIA PIRES [Alvor (Portimão)], MARIA RUIVA [Arcos (Estremoz)], MARIAS [Marmelete (Monchique)], MARIA VINAGRE [Aljezur (Aljezur)].

Gíria Popular
A gíria popular assume importância, enquanto valor acrescentado à linguagem dita erudita. Daí que tenha procurado referenciar a presença do antropónimo “Maria” na gíria popular e dar conta do respectivo significado:
- DO TEMPO DA MARIA CACHUCHA (Muito antigo), - MARIA (A mulher em geral; a esposa), - MARIA DA FONTE (Desordem), - MARIA DAS PERNAS COMPRIDAS (A chuva), - MARIA DE BARBA (Mulher perigosa – Alentejo), - MARIA RAPAZ (Rapariga que pelo aspecto físico e/ou comportamento se parece com um rapaz), - MARIA VAI COM AS OUTRAS (Pessoa que não pensa por si, limitando-se a fazer os que os outros fazem), - MARIA-CACHUCHA (Rapariga folgazona), - MARIA-FUMAÇA(Locomotiva), - MARIA-FRANCISCA (Prostituta-Baixo Alentejo), - MARIA-GOMES (Designação dada à planta Beldroega-grande), - MARIA-GORDA (Designação dada à planta Beldroega-grande), - MARIA-MALUCA (Rapariga destrambelhada), - MARIA-MIJONA (Adolescente que ainda faz chichi na cama), . MARIA-VITÓRIA (Palmatória), - MAU MARIA! (Interjeição de descontentamento e ameaça), - MULHER DA GRADE (Bruxa-Sangalhos), - TEM-TE MARIA, NÃO CAIAS! (Tem-te, não caias).

Adivinhas
Conheço as seguintes adivinhas cuja solução envolve o antropónimo Maria:
- O pai de Maria tem 5 filhas. Naná, Nené, Niní, Nonó e…? (SOLUÇÃO: Maria);
- Se a filha da Maria é a mãe da minha filha, o que sou eu da Maria? (SOLUÇÃO: Filha da Maria).

Alcunhas alentejanas
Como era expectável, o nome Maria integra o vasto universo das alcunhas alentejanas. Passemos em revista alguma dessa presença: - MARIA DA FEIXOCA - Nome atribuído a uma mulher que apanha feixes de lenha (Campo Maior); - MARIA DA RAPINA - A visada morou num monte com esse nome (Santigo do Cacém); - MARIA DA SEMPRE NOIVA - A nomeada viveu numa herdade com este nome (Arraiolos); - MARIA DA SEXTA – Alcunha atribuída a mulher que é vendedora ambulante e costuma fazer os mercados semanais à sexta-feira (Marvão); - MARIA DAS PERNAS À BANDA - Denominação outorgada a uma mulher que tem as pernas tortas e curvadas para dentro (Alcácer do Sal); - MARIA DO ALCAROU - A receptora habitou num monte com este nome (Évora); - MARIA DO AVIÁRIO - A alcunhada tem este nome porque teve um aviário (Almodôvar); - MARIA DO CRÉ - A visada morou num monte com esse nome (Évora e Moura); - MARIA DO LEITE - A nomeada foi leiteira (Santiago do Cacém); - MARIA DO MOIRÃO - A receptora recebeu esta alcunha porque está sempre a espreitar ao pé de um muro (Moura); - MARIA DO VALE MEQUE – Alcunha outorgada a mulher que viveu num monte com este nome (Cuba); - MARIA DOS ARNEIROS ALTOS – A visada é uma mulher que habitou num monte com este nome (Santiago do Cacém); - MARIA QUERES MAIS CHÁ? - Velhota que gostava muito de chá (Reguengos de Monsaraz).

Cancioneiro Popular
É sabido que o Alentejo é uma das regiões do país, com menor religiosidade popular. Tal facto não impediu que o cancioneiro popular alentejano registasse quadras de exaltação à Virgem Maria:

Não há homem como Deus,
Nem mulher como Maria,
Nem’strela como a do Norte
E nem luz como a do dia.

Chamaste-me amor perfeito,
Coisa que a terra não cria.
O amor perfeito é Deus,
Filho da Virgem Maria.

As nuvens no céu se tingem
N’um arco de sete cores.
São sete as dores de Maria,
São setenta as minhas dores.

Esta noite à meia noite,
À meia noite seria,
Ouvi cantar os anjos
E mais a Virgem Maria.

Sendo Maria o nome mais comum entre mulheres, não é de admirar que o cancioneiro popular alentejano e, em particular, o cancioneiro amoroso, inclua quadras com aquele nome inscrito:

Eu, do nome que mais gosto
É do nome de Maria.
Quem te pôs tão lindo nome,
Meu segredo já sabia.

Maria estás encoimada,
Vou dizê-lo a teu pai,
Deitaste a água na rua
E sem dizer – água vai.

O coração de Maria
Dizem que o tenho eu.
O coração sem o corpo,
Para que o quero eu?

Por Maria é que eu me morro,
E por Ana é que eu padeço.
Se não lograr uma delas,
Estou certo que endoideço.

Epílogo
Apesar do título do presente texto ser simplesmente “Ave Maria”, a abordagem do tema “deu pano para mangas”, o que é revelador da riqueza da nossa literatura de tradição oral, a qual carece de maior divulgação numa época em que se procura enfatizar o património cultural imaterial.

BIBLIOGRAFIA

BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
BELO, Ana. Mil e tal nomes próprios. Arte Plural, Edições. Cascais, 2007.
LAPA, Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes (2º ed.). Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
NEVES, Orlando. Dicionário de Nomes Próprios. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. I e Vol.II. Typographia Progresso. Elvas, 1902 e 1905.
PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
SANTOS, António Nogueira. Novo dicionário de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

Publicado inicialmente a 10 de Setembro de 2021

domingo, 23 de novembro de 2025

Tenores de Redondo



Na vila de Redondo existem diversos grupos corais activos, tanto masculinos como femininos e mistos. São eles: Grupo de Cantadores do Redondo, Cantadeiras do Redondo, Grupo Coral e Instrumental Academia de Afectos, Grupo Coral Polifónico da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense e Trovadores de Redondo.

O número e a diversidade destes grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por destilação do vinho nos alambiques.

Redondo é simultaneamente terra de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.

Daí que as olarias locais manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente caídos em desuso.

A opção dos adegueiros pelo uso de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui aplicáveis: “No poupar é que está o ganho",A necessidade é mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."

A terminar e como está frio, brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente, faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente” "Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".

Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia. 

Hernâni Matos

domingo, 26 de outubro de 2025

As flores na matriz identitária redondense

 



Louça de barro vidrado de Redondo,
pertencente à colecção Hernâni Matos


As Ruas Floridas de Redondo conquistaram o Prémio Alentejo 2025, na categoria Mais Prazeres & Sensações, promovido pela revista Mais Alentejo. A cerimónia de entrega dos prémios teve lugar ontem, no Teatro Pax Julia, em Beja.
As Ruas Floridas de Redondo são um evento bienal de base popular, onde os moradores da vila decoram as ruas com flores e artefactos manufacturados com papel colorido. Trata-se de uma tradição que remonta ao século XIX e que integra a matriz identitária redondense, à semelhança do que se passa com a louça de barro vidrado de Redondo, a qual muitas vezes é decorada com motivos florais.








domingo, 8 de junho de 2025

Louça de Redondo no Mercado das Velharias em Estremoz

 

1.

Sábado é dia de recarregar baterias. E eu sou guardador de memórias. Memórias identitárias de tempos idos de um Alentejo que trago na alma e na massa do sangue. Por mim circulam Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril, Louça Vidrada de Redondo e mais não digo, senão não saímos daqui. Passo de imediato a contar-vos o que deu a safra ontem.

1. Barranhão de grandes dimensões decorado com base na tradicional tricromia verde-amarelo-ocre castanho, característica da louça vidrada de Redondo. Bordo beliscado e esponjado de verde. Fundo com decoração mista, fitomórfica e zoomórfica, na qual um arbusto florido serve de poiso a um bando de passarinhos, que também esvoaçam em torno dele, já com o bico carregado,. numa clara alegoria à Primavera.

O traço do esgrafitado é fino, firme e seguro, configurando o desenho ter saído das mãos de grande artista. 

Autoria e datação por determinar,

 

2.

2. Prato de louça de barro vermelho de Redondo, pintado e não vidrado por Francisco Cardadeiro (Chico Galinho). A pintura cinge-se à parte frontal do prato, o fundo é negro e a decoração policromática e fitomórfica reproduz os habituais elementos decorativos da mobília tradicional alentejana. No bordo do prato existe simetria alternada dos elementos decorativos usados do prato. No fundo, existe simetria axial em relação ao eixo central.

Datação por determinar.

  Hernâni Matos


terça-feira, 15 de abril de 2025

Benfica - Arouca

 

Bacia de barro vermelho vidrado, de Redondo. Decoração esgrafitada e pintada
com base na tradicional tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo creme.

O emproamento verbal de quem se regozija com o empate Benfica-Arouca, leva-me a concluir que “A mau falar, boa resposta dar”, acrescido de “Quem muito fala, pouco acerta” e como nada está decidido, remato proclamando: “Bom é saber calar até ser tempo de falar”.

- VIVA O BENFICA!

A matriz do meu pensamento, expressa e veiculada através do texto supra, é invariante e inalterável. Não reage a diatribes verbais reactivas, independentemente da sua origem e motivação. Fazê-lo seria contemporizar com o clima tóxico alimentado pelo fanatismo que grassa nas hostes clubistas.
A meu ver, o exemplo a apresentar à juventude, que é o futuro, é a da elevação e da verdade desportiva, a qual deve ser transversal, abrangendo dirigentes, jogadores e adeptos. O contrário é suicídio dos intervenientes e a morte do desporto. Para tal não podem contar com o meu contributo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

O reencontro de dois caminhantes

 

Mestre Xico Tarefa e Hernâni Matos, dois caminhantes que se reencontram na sede
da ADOE.  De que estarão a falar? De olaria, pois claro!


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É sabido que não há caminho, como nos ensina o poeta sevilhano António Machado: “Caminhante, são teus rastos / o caminho, e nada mais; /caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar.” (…).

Cada um de nós segue o seu próprio caminho, o que não impede que alguns caminhos se cruzem. Foi assim que o meu caminho e o de Mestre Xico Tarefa se cruzaram em 1980 no Terreiro do Paço Ducal de Vila Viçosa. Tal ocorreu no decurso do I Encontro de Olaria Regional do Alto Alentejo, que ali teve lugar entre 4 e 15 de Junho desse ano.

Andámos ambos por ali e integrávamos a Comissão Organizadora do Encontro. Eu em representação da Casa da Cultura de Estremoz e ele em representação do Centro Cultural Popular Bento de Jesus Caraça. As nossas preocupações de então centravam-se na necessidade de salvaguarda da matriz identitária das olarias de cada Centro Oleiro do Alto Alentejo e na tomada de medidas que impedissem a descontinuidade de produção das olarias.

O Mestre Xico Tarefa era um operacional no terreno, que não parava quieto, andava sempre para aqui e para ali, a tratar de uma coisa ou outra. Entre as múltiplas tarefas de que foi encarregue esteve a produção de um prato comemorativo do Encontro, a ser oferecido aos participantes. Daí eu estar na posse de um exemplar que tive a honra de receber na época, o qual está na génese da minha condição de coleccionador de louça de barro vidrado de Redondo. O trabalho de roda é de Mestre Xico Tarefa e a pintura e o esgrafitado são da autoria de Mestre Álvaro Chalana (1916-1983).

Ao receber de bom grado o prato comemorativo do Encontro, herdei uma pesada responsabilidade e brotou em mim o fascínio pela cerâmica redondense, que nunca mais parou e cuja chama se mantem bem viva. Aquele prato tem para mim especial significado. Foi o primeiro exemplar da minha colecção de cerâmica redondense. Por mais raro e mais valioso que seja outro espécime adquirido ou que venha a adquirir, aquele ocupará sempre um lugar muito privilegiado no meu coração. É que foi o primeiro da minha colecção, saído das mãos de Mestre Xico Tarefa e de Mestre Álvaro Chalana e que ficou a selar o cruzamento do meu caminho com o primeiro destes mestres.

Decorridos 45 anos sobre o primeiro cruzamento dos nossos caminhos, voltámos a cruzar-nos. Desta feita, o terreiro é outro. Trata-se da ADOE - Associação Dinamizadora da Olaria de Estremoz. Ele como formador, na qualidade de Mestre Oleiro. Eu, como consultor had hoc, na qualidade de coleccionador e investigador da barrística popular de Estremoz.

De então para cá, o Mestre Xico Tarefa tem desenvolvido uma carreira notável como Mestre Oleiro e como formador das novas gerações, o que muito me regozija e enche de orgulho como seu amigo e admirador em que entretanto me tornei.

A sua obra fala por si e é um exemplo paradigmático para os mais novos. Encerra em si própria, o respeito pela ancestralidade da olaria popular alentejana, temperado pela criatividade inovadora que lhe brota da alma e que com fidelidade se transmite às mãos mágicas que são as suas.

Obrigado Mestre pela beleza criada para usufruto e deleite de espírito de todos aqueles que apreciam o seu trabalho.

Bem-haja, Mestre Xico!


Publicado no jornal E nº 350, de 14 de Fevereiro de 2025

terça-feira, 23 de julho de 2024

Os Bonecos de Estremoz foram à Feira de Vila do Conde

 

Stand de Carlos Alberto Alves

Stand de Inocência Lopes

Stand de Maria Isabel Pires e de Sara Sapateiro

A Feira
Foi inaugurada no passado dia 20 de Julho a 46ª Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, a qual decorrerá nos Jardins da Avenida Júlio Graça e ali estará aberta ao público até ao próximo dia 4 de Agosto.
O evento é uma organização conjunta da Câmara Municipal de Vila do Conde e da Associação para Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde.
O prestigiado certame reúne duas centenas de artesãos nacionais que asseguram a cobertura geográfica do País e a presença dos mais diversos materiais e formas de expressão que afirmam a excelência do artesanato português.
Na 46ª edição da Feira participa como país convidado, São Tomé e Príncipe, cujas artes tradicionais estarão em destaque.

Embaixada estremocense
Na Feira deste ano participam como bonequeiros de Estremoz, os barristas Carlos Alberto Alves, Inocência Lopes, Maria Isabel Pires e Sara Sapateiro, que se inscreveram a título individual e se apresentam em stands próprios. De registar ainda a participação da ADOE-Associação Dinamizadora da Olaria de Estremoz, liderada por Inês Crujo. De salientar igualmente a participação de Mestre Xico Tarefa, o qual foi formador dos jovens que integram a ADOE e se encontra ali a defender a sua dama: a olaria redondense.
À excepção do barrista Carlos Alberto Alves que cumprirá o período integral da Feira, todos os demais terminarão a sua participação no próximo sábado, dia 27 de Julho.

Concursos da Feira
No decurso da Feira terá lugar a 2ª edição do “Concurso Jovem Artesão”, destinado a galardoar um trabalho numa das áreas do artesanato tradicional e que visa incentivar e dar destaque à criatividade dos jovens até aos 30 anos. A ele concorrem 29 jovens artesãos, entre os quais três jovens barristas de Estremoz: Sara Sapateiro (Presépio de altar), André Filipe Carriço Carvalho (O Mestre Oleiro) e Maria do Carmo Ramos Padeiro Baptista Crujo (O meu avô).
Será reeditado ainda o “Prémio Feira Nacional de Artesanato”, o qual procura dignificar o artesanato e incentivar a qualidade e a defesa de valores de raiz histórico-cultural. Subordinado ao tema “Liberdade”, este prémio visa assinalar os 50 anos da Revolução de Abril e a ele concorrem 63 artesãos, entre os quais o barrista Carlos Alberto Alves com a composição “Liberdade”, que representa um carro de combate em cima do qual figuram militares e povo, festejando o 25 de Abril.
Qualquer dos prémios tem o patrocínio do Crédito Agrícola e os trabalhos submetidos a concurso estarão expostos durante o certame.

Animação e gastronomia
Nem só de artesanato vive a Feira. A música, a dança e os cantares tradicionais são uma presença constante, que anima o recinto e o palco da Feira. Também as Jornadas Gastronómicas permitem aos visitantes percorrer o País de Norte a Sul, fazendo uma viagem pelo melhor da Cozinha Portuguesa e, nos dois primeiros dias do evento, pelos sabores da inconfundível cozinha de São Tomé e Príncipe.

Stand da Associação Dinamizadora da Olaria de Estremoz

Stand da Olaria de Mestre Xico Tarefa

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

CERÂMICA DE REDONDO – Garrafão falante de Mestre Álvaro Chalana

 

Garrafão falante de Mestre Álvaro Chalana (1916-1983). 

Garrafão em barro de tonalidade vermelha, vidrado, de base circular plana, corpo ovóide, colo cilindriforme e carenado a meia altura da parede, bordo ligeiramente extrovertido e arredondado. Imediatamente abaixo da carena deriva uma asa de secção rectangular, que finda na zona de diâmetro máximo do bojo.

A superfície exterior está decorada com três manchas de engobe, de cor amarelo de palha, de forma irregular, dispostas praticamente a partir do início do colo e até à base. Estas manchas receberam decoração esponjada, a verde e a amarelo.

Sobre cada uma das três manchas de engobe estão esgrafitadas as inscrições: “Ai que belo”, “Viva a boa pinga” e a quadra:

“Sou pequeno mas alegre
Isto que digo e a verdade
O meu amigo come e bebe
Mas pode beber a vontade”

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

CERÂMICA DE REDONDO – Brasão de Lisboa em prato falante de Mestre Álvaro Chalana


Brasão de Lisboa. Prato falante de Mestre Álvaro Chalana (1916-1983)

Prato de barro vermelho vidrado, modelado, cozido e decorado na olaria redondense de Mestre Álvaro Chalana (1916-1983).

Prato covo, falante, brasonado, de grandes dimensões, com superfície interna de cor creme, de aba larga ligeiramente côncava e bordo plano. Decoração esgrafitada e pintada com base em quadricromia verde-amarelo-castanho-negro.

Decorado no bordo com motivos fitomórficos constituídos por pés de flores, bi-folheados, de dois tipos que se sucedem alternadamente. Decorado no fundo com motivo configurando o escudo do Brasão de Armas de Lisboa, com um barco castanho, um corvo na popa e outro corvo na proa. O barco assenta num mar de cinco faixas onduladas, quatro de castanho e três verdes. Do mastro, central, pende cordame em direcção à proa e à popa. No topo do mastro está içada a Bandeira de Lisboa ou Bandeira de São Vicente, gironada de quatro peças, creme e negro, símbolo do município de Lisboa. As velas, verdes, estão recolhidas. Em torno do topo do barco, riscos a castanho parecem configurar bases de nuvens e/ou aves a planar.

Hernâni Matos

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Entrevista sobre o 25 de Abril, concedida ao jornal E, de Estremoz

 


Hernâni Matos: “Foi assim até ao fim do dia, sempre com a sensação de até respirar melhor”

No ano em que se cumprem 50 anos sobre o 25 de Abril de 1974, o E’ associa-se às comemorações desta que é uma data tão importante da história do país. As memórias da Revolução dos Cravos também são feitas das memórias individuais daqueles que viveram essa experiência única. Registamos hoje a voz de Hernâni Matos, numa primeira entrevista com que assinalamos os 50 anos do 25 de Abril.

Quais as memórias mais fortes que tem do Estado Novo?

A NÍVEL DE INFÂNCIA: - O aglomerado de pobres a pedir esmola à porta da Igreja de São Francisco, à saída da missa de domingo; - Os pobres que nas segundas-feiras percorriam os estabelecimentos comerciais a pedir esmola; -  A constatação de que havia crianças que iam descalças para a escola, porque os pais não tinham dinheiro para lhes comprar sapatos; - A existência de um ensino repressivo que a nível da instrução primária permitia que um professor desse reguadas nas mãos, canadas na cabeça ou puxões de orelhas numa criança, só porque estava desatenta, era irrequieta ou porque não sabia a lição; A NÍVEL DE JUVENTUDE: - Um indigente que nos anos 50 foi a enterrar para o cemitério de Estremoz, transportado na carroça do lixo; - O ambiente carregado das cerimónias do 10 de Junho em Lisboa, onde as mulheres e as mães dos mortos em combate na Guerra Colonial iam receber condecorações a título póstumo. DE ÂMBITO PESSOAL: - O aviso telefónico que foi feito ao meu pai em 1958, no dia das eleições para a Presidência da República, para não se dirigir para a assembleia de voto de S. Lourenço, na qualidade de delegado da candidatura do General Humberto Delgado, uma vez que estava lá a PIDE para o prender; - Uma carga da PIDE em 1968, na qual me vi envolvido, após a proibição da exibição do filme Marcha sobre Washington e um debate subordinado ao tema Quem matou Martin Luther King?, na Paróquia de Santa Isabel, em Lisboa; - A proximidade diária de gorilas, que eram ex-militares das tropas especiais (comandos ou pára-quedistas), contratados como polícias internos das faculdades e cuja função era identificar, vigiar, perseguir, impedir ajuntamentos e espancar estudantes; - O cuidado e as precauções que tinha com aquilo que dizia, ao falar publicamente com alguém, não se fosse dar o caso de haver bufos (informadores) na vizinhança, que me fossem denunciar à polícia política, a PIDE/DGS; - O meu ingresso na carreira docente em 1972, o qual envolveu a chamada ao gabinete do Chefe da Secretaria da Escola, onde tive que jurar e de subscrever com a minha assinatura, a declaração formal exigida pelo famigerado Decreto-lei 27003, de 14 de Setembro de 1936 e cujo teor era o seguinte: “Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas.” Lá tive que mentir, pois embora não fosse comunista era democrata, o que correspondia a perfilhar ideias subversivas no Estado Novo, regime de partido único: a UN - União Nacional.

Esteve na Universidade ainda nos tempos da ditadura? Sentiu ou viveu a luta estudantil? Tinha, ao tempo, alguma intervenção ou acção política?

Ingressei na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em 1965, pelo que não me vi já envolvido na Crise Académica de 1962, mas não escaparia à Crise Académica de 1969. Era um jovem de espírito aberto, generoso e humanista, ávido de liberdades civis que me eram negadas pelo regime, o que me levava a questionar o sistema e a resistir. Foi assim que ingressei naturalmente no Movimento Associativo da Faculdade de Ciências de Lisboa, o qual contestava o autoritarismo do Estado Novo e reivindicava direitos civis. Lutávamos pela liberdade de expressão e de associação, pela autonomia universitária e a democratização do ensino, pelo fim da repressão e da guerra colonial. Como activista de base do Movimento Associativo da FCUL, integrei a IMPROP – Secção de Imprensa e Propaganda, participei nalgumas RIA – Reunião Inter-Associações, greves às aulas e ocupações da Cantina da Faculdade. Fui uma entre muitas outras formiguinhas que anonimamente e em contexto universitário, deram o seu modesto, mas indispensável contributo a nível civil para que no dia 25 de Abril de 1974 pudesse ocorrer uma mudança de paradigma.

Nas eleições legislativas de 1969, na qualidade de activista da CDE – Comissão Democrática Eleitoral, fui delegado da candidatura desta Comissão junto de uma das mesas da assembleia de voto que funcionou na Faculdade de Ciências de Lisboa. As eleições viriam a ser ganhas pela UN - União Nacional, liderada por Marcelo Caetano. Era um desfecho previsível, já que a campanha e o acto eleitoral ficaram assinalados, pela fraude, pela perseguição e intimidação da Oposição.

Sentiu, na altura que a ditadura tinha os dias contados?

Apesar da repressão que há muito se vinha abatendo e intensificando sobre as lutas operárias, camponesas, estudantis e dos trabalhadores de serviços, estas também se vinham intensificando. Por outro lado, o Levantamento Militar das Caldas da Rainha de 16 de Março de 1974, apesar de gorado, deu a sensação de que era o prenúncio de uma futura insurreição militar vitoriosa. Parece que havia um “cheirinho no ar” a indiciar que tal viria a acontecer. De facto, lá diz o rifão Agua mole em pedra dura, tanto dá até que fura” e foi assim que os militares aperfeiçoaram o plano e a organização de um novo levantamento, com a devida articulação entre as unidades envolvidas. À segunda foi de vez. Em 25 de Abril de 1974, os militares não falharam.  Bem hajam por isso!

Onde estava no dia 25 de Abril de 1974? Como soube da Revolução? Lembra-se do que fez nesse dia?

Estava adoentado e encontrava-me em casa. Só ao final da manhã tive conhecimento do que se passara em Lisboa e da participação do RC3. Saí imediatamente para a rua, ávido de notícias.  A maioria das pessoas estava eufórica. Todavia também encontrei pessoas apreensivas, com temor daquilo que poderia vir a acontecer. Eu também fiquei eufórico e sempre que me cruzava com alguém com quem tinha mais confiança, lá proferia um “Porra! Até que enfim!”, invariavelmente acompanhado dum aperto de mão ou um abraço ou ainda uma pancada nas costas. O “V” da vitória e o punho erguido só surgiriam mais tarde. E foi assim até ao fim do dia, sempre com a sensação de até respirar melhor. Eram os ares da liberdade que nos tinha sido restituída pelo Movimento dos Capitães. Como reconhecimento e sinal de gratidão, nasceu-nos espontaneamente nos lábios, a palavra de ordem O povo está com o MFA!” e assim seria durante muito tempo.

Olhando para trás, que avaliação faz do processo de transição da ditadura para a democracia que tivemos em Portugal?

A avaliação dessa transição, obriga-me a falar dos responsáveis por essa transição: as Forças Armadas Portuguesas.

O derrube da ditadura mais velha da Europa – o regime de Salazar e de Caetano - foi conseguido em 25 de Abril de 1974, graças à acção militar coordenada do MFA - Movimento das Forças Armadas, cuja origem remonta ao clima de instabilidade no interior das próprias Forças Armadas, particularmente do Exército, instabilidade essa que se manifestou em meados de 1973, com o surgimento do denominado Movimento dos Capitães, o qual aglutinava oficiais de média patente, insatisfeitos com as suas remunerações e com a perda de prestígio da oficialidade do quadro permanente, bem como com a Guerra Colonial que, desde 1961, ou seja, há 13 anos, se arrastava em 3 frentes, sem se antever uma solução política para a mesma, bem como pela previsibilidade de uma derrota militar iminente.

No seu poema “As portas que Abril abriu!”, o saudoso poeta José Carlos Ary dos Santos, diz-nos quem fez o 25 de Abril de 1974: “Quem o fez era soldado /homem novo Capitão /mas também tinha a seu lado /muitos homens na prisão.” E mais adiante: “Foi então que Abril abriu / as portas da claridade /e a nossa gente invadiu / a sua própria cidade.

A chamada Revolução dos cravos desencadeada pelo MFA, teve o apoio massivo da população e o regime foi derrubado praticamente sem derramamento de sangue. A transição pacífica de Portugal de uma ditadura para uma democracia teve repercussões a nível internacional, pois foi vista como um exemplo positivo, influenciando assim sucessivos processos de democratização que se desenvolveram por esse mundo fora.

Que impacto teve a Revolução dos Cravos na sua vida?

Em 1º lugar senti uma grande alegria por sentir que tinham sido quebrados os grilhões que me aprisionavam e que impediam de me sentir um cidadão de corpo inteiro. Em 2º lugar tive a percepção de que era imperativo que o movimento revolucionário do 25 de Abril nos permitisse usufruir de direitos e liberdades que até então nos tinham sido negadas, para o que haveria decerto que lutar, tal como veio a acontecer. Em 3º lugar, intuí que o usufruto desses direitos e liberdades, teria que ser temperado através da assunção de deveres que regulassem o exercício da cidadania.

Um pouco por toda a parte, assumimos o direito à liberdade, à informação e à greve. Arrogámos o direito de reunião, de manifestação, de participação na vida pública e de voto. Reclamámos e conquistámos entre outras, múltiplas formas de liberdade: de expressão e informação, de imprensa, de criação cultural, de aprender e ensinar, de associação, sindical, que mais tarde viriam a ser consignadas na Constituição da República Portuguesa.

O 25 de Abril não me trouxe só alegria pelos motivos apontados, mas também por melhorias nas condições de vida dos portugueses que então ocorreram: aumento dos rendimentos, das oportunidades de aprendizagem, da liberdade e dos direitos das mulheres, bem como melhoria do acesso aos cuidados de saúde e uma mudança de valores que tornaram a sociedade mais aberta, o que teve reflexos a nível da cultura (literatura, artes plásticas, música, teatro, cinema, televisão).

Como foi para si o período que se seguiu à Revolução?

O período pós-25 de Abril, conhecido por PREC - Processo Revolucionário em Curso foi marcado por lutas por melhores de condições de vida de operários, assalariados agrícolas e trabalhadores de serviços, assim como de moradores pelo direito à habitação. Foi um período em que ocorreram nacionalizações, inúmeras manifestações, assim como ocupações de fábricas, herdades e casas. Tratou-se de uma época de grande agitação social, política e militar, caracterizada por intensos debates de âmbito político, económico, social e cultural, bem como confrontos militares entre sectores das Forças Armadas com visões distintas de modelos de sociedade a seguir. Os maiores desses confrontos ocorreram a 11 de Março e a 25 de Novembro de 1975. Nesse período há a assinalar a existência de 6 Governos Provisórios até à constituição do 1º Governo Constitucional liderado por Mário Soares (PS), com base nos resultados das eleições de 25 de Abril de 1976, realizadas após a aprovação da Constituição da República Portuguesa, a 2 do mesmo mês. É com a constituição do 1º Governo Constitucional que se completa a devolução do poder pelos militares aos representantes da sociedade civil, legitimados pelo sufrágio, conforme estava previsto no Programa do MFA

Teve, nessa altura, alguma militância ou intervenção política?

Logo a seguir ao 25 de Abril e em termos cívicos integrei comissões had hoc que iam surgindo, fruto da dinâmica social que se ia gerando: Comissão de vigilância de preços, Comissão de moradores da zona centro, Comissão coordenadora das comissões de moradores, Comissão pró-construção do parque infantil, Comissão Cultural de Estremoz, Comissão de Base de Saúde. A nível sindical fui delegado sindical dos professores na Escola Secundária de Estremoz.

A nível político, desde 1969 e ainda estudante universitário em Lisboa, que me identificava com a CDE - Comissão Democrática Eleitoral, liderada por Francisco Pereira de Moura, pelo que após o 25 de Abril passei a frequentar a sede desde Movimento em Estremoz, participando aí nos debates internos e nas dinâmicas então em curso. Fui um entre muitos outros. Por ali passaram activistas que mais tarde se iriam integrar em partidos: PCP, UDP, MES, PS e PSD. Quando em 1975 a CDE se transformou em MDP/CDE – Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral e se registou como partido, eu não me filiei, uma vez que me já me filiara no PCP – Partido Comunista Português, ainda em 1974, se bem me lembro por influência do meu grande amigo, Aníbal Falcato Alves. Acontece que a certa altura tive consciência de que não reunia condições pessoais para ser militante daquele partido, cujo passado de luta e de resistência me merecia o maior respeito, pelo que saí nos primeiros meses de 1975. Passei então à condição de independente, condição que mantive até integrar a UDP – União Democrática Popular em meados de 1975, desta feita por influência do meu colega e amigo, Albano Martins. Deste partido fui militante enquanto a estrutura organizativa local esteve activa. Em 1993 e a convite do futuro Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, o independente e meu amigo José Dias Sena, integrei como independente as listas da CDU – Coligação Democrática Unitária, sendo eleito como deputado municipal, cargo que desempenhei empenhada e activamente durante 3 mandatos, até que senti que era chegada a altura de passar o testemunho, para ter uma maior disponibilidade de intervenção na frente cultural, a qual desde sempre foi e continua a ser a minha grande motivação.

E que avaliação faz da democracia que temos na actualidade?

A democracia portuguesa é uma democracia estável cuja arquitectura tem por base a Constituição da República Portuguesa, lei suprema do país, aprovada em 1976 e revista 7 vezes desde então. Os órgãos de soberania são eleitos, existindo separação e interdependência dos seus poderes. Formalmente está tudo bem. Na prática não é bem assim.

Qual o estado da democracia em Portugal?

A democracia portuguesa sofre de problemas graves que urge resolver em múltiplos domínios: social, económico, financeiro, etc. Deles destaco: elevada abstenção nos actos eleitorais, corrupção, demora na aplicação da Justiça, desemprego, trabalho precário, fraca qualificação da mão de obra, baixa produtividade, salários e pensões muito baixos, falta de oferta pública de habitação, especulação imobiliária, elevada emigração jovem, baixa taxa de natalidade, envelhecimento da população, insuficiência de cuidados dignos na velhice, Serviço Nacional de Saúde com enormes carências, problemas graves a nível da Educação e do Ensino, falta de coesão social e territorial. Estes são os principais problemas que de uma forma ou de outra, atormentam diariamente a esmagadora maioria das pessoas.

50 anos depois do 25 de Abril, apesar da melhoria das condições de vida dos portugueses, ainda se nos deparam desafios a enfrentar para que possa ser assegurada a igualdade de género e a justiça social. Em democracia, isto só se consegues através do aperfeiçoamento da própria democracia. É uma tarefa e um repto que estão em aberto e que exigem o maior empenhamento de todos os cidadãos. 

Hernâni Matos

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Cerâmica de Redondo - Prato de aranhões decorado por Jacinto Ramalhosa



Prato de barro vermelho vidrado, confeccionado e cozido na olaria redondense de Mestre Pintassilgo [João Mértola (1929-2022)], decorado a azul cobalto por Jacinto Ramalhosa.

No covo está desenhada uma corça rodeada de motivos vegetalistas. A aba, larga, encontra-se decorada com pares de pêssegos estilizados (os pêssegos, originários da China, são símbolos relacionados com o casamento e a imortalidade) que alternam com folhas de artemísia (planta medicinal utilizada na medicina tradicional chinesa). Inspirado na faiança portuguesa do séc. XVII.

Neste período, o fascínio pela porcelana chinesa no nosso país, leva a que a faiança portuguesa seja caracterizada por uma original adaptação de motivos ornamentais do Oriente, que são reinterpretados em novas composições, de estilo híbrido, nas quais se combinam influências orientalizantes e a permanência de valores tradicionais. Pertencem a esse estilo, os chamados pratos de “aranhões”. Estes resultam da simplificação interpretativa dos motivos empregues na porcelana chinesa, nomeadamente as folhas de artemísia, frequentemente usadas na decoração da porcelana “kraak”. Esta era um tipo de porcelana chinesa de exportação, produzida sobretudo no reinado do Imperador Wanli (1563-1620) da dinastia Ming (1368-1644), até cerca de 1640 e que chegava em abundância à Europa.

Hernâni Matos


sábado, 14 de outubro de 2023

1º Encontro Regional de Olaria do Alto Alentejo


Fig. 1 - REDONDO - Prato falante com a inscrição “1º ENCONTRO REGIONAL DE
OLARIA DO ALTO ALENTEJO”. Prato covo de média dimensão. Esgrafitado e pintado.


Introdução
Ao continuar a inventariação dos exemplares da minha colecção de cerâmica de Redondo, constatei a existência de um prato falante (Fig. 1) com a inscrição: 1º ENCONTRO REGIONAL DE OLARIA DO ALTO ALENTEJO”, que me faz recuar no tempo.

Identificação e dimensões
Trata-se de um prato covo em barro vermelho de Redondo, esgrafitado, pintado e vidrado. Ostenta no fundo um molho de 3 cravos pintados em tons de verde e ocre, numa clara alegoria à Revolução dos Cravos.
Orla do bordo do prato pintado de verde e bordo com a inscrição “1º ENCONTRO REGIONAL DE OLARIA DO ALTO ALENTEJO”.
As dimensões são as seguintes: diâmetro da base: 21,5 cm; diâmetro da abertura: 29 cm; largura do bordo: 3 cm; Altura: 4 cm.

Significado da inscrição
Entre 4 e 15 de Junho de 1980 (já lá vão 41 anos), teve lugar no terreiro do Paço Ducal em Vila Viçosa, o I Encontro Regional de Olaria do Alto Alentejo (Fig. 2). A Comissão Organizadora do Encontro era integrada pelas seguintes associações culturais: Centro Cultural Popular Bento de Jesus Caraça, Centro Cultural de Borba, Sociedade Filarmónica Municipal de Redondo, Casa da Cultura de Estremoz e Grupo de Cantadores de Redondo.
Eu integrei a Comissão Organizadora do Encontro, em representação da Casa da Cultura de Estremoz, a cuja direcção pertencia na época.
A organização encomendou a um oleiro a produção de alguns exemplares dum prato comemorativo que ficasse a assinalar o evento, o qual foi oferecido a todos os intervenientes no Encontro. Daí eu estar na posse de um desses pratos, que foi objecto do presente estudo.

Autoria do prato
O prato não está assinado, pelo que visando determinar a sua autoria, houve que recorrer a quem percebe da “poda”, neste caso Mestre Xico Tarefa (1951- ), da Olaria XT de Redondo (Fig. 3), que fez parte da Comissão Organizadora do Encontro e foi um operacional no terreno. Mestre Xico Tarefa revelou-me que o trabalho de roda é seu e que a pintura e o esgrafitado são da autoria de Mestre Álvaro Chalana (1916-1983). Bem haja, Mestre Xico, pela inestimável informação prestada.

Fecho
Na altura do Encontro eu tinha 34 anos e já coleccionava Bonecos e louça de barro vermelho de Estremoz. Ao integrar a Comissão Organizadora do Encontro, rasgaram-se os horizontes e abri os olhos a outras olarias. Ao receber de bom grado o prato comemorativo do Encontro, herdei uma pesada responsabilidade e brotou em mim o fascínio pela cerâmica redondense, que nunca mais parou e cuja chama se mantem bem viva. Aquele prato tem para mim especial significado. Foi o primeiro exemplar da minha colecção de cerâmica redondense. Por mais raro e mais valioso que seja outro espécime adquirido ou que venha a adquirir, aquele ocupará sempre um lugar muito privilegiado no meu coração. É que foi o primeiro da minha colecção.

 Hernâni Matos

Publicado inicialmente em 14 de Outubro de 2021


 
Fig. 2 - I Encontro Regional de Olaria do Alto Alentejo. Cartaz com ilustração
reproduzindo desenho a tinta-da-China de Carlos Alves.

Fig. 3 - Mestre Xico Tarefa a trabalhar na roda, na sua oficina.
 

segunda-feira, 20 de março de 2023

Contributo pessoal para uma evocação de Mestre Álvaro Chalana (1916-1983), oleiro redondense

 


Foi inaugurada ontem, dia 18 de Março, no Museu do Barro, na Vila de Redondo, a exposição “A evocação de um Mestre: Álvaro Chalana – Já não há quem queira dar/uma filha a um oleiro”.
Mestre Álvaro Chalana (1916-1983), oleiro, poeta e músico, tem perfil biográfico traçado pelo Dr. António Carmelo Aires no seu livro “Cerâmica de Redondo”. Este investigador da cerâmica redondense, possuidor de uma inigualável colecção de peças oláricas de Redondo, ontem mesmo publicou no Facebook um extracto do vasto conjunto de peças de diferentes tipologias, produzidas por aquele Mestre. Disse a propósito “Associo-me à Evocação a Mestre Alvaro Chalana um dos mais notáveis oleiros redondenses do Sec. XX”.
Foi através da publicação do Dr. Carmelo Aires, que tive conhecimento da exposição que decerto irei visitar e que me senti igualmente estimulado a associar-me à evocação promovida pelo Museu do Barro de Redondo, divulgando peças oláricas do Mestre, apenas de duas tipologias: pratos e bacias, falantes ou não. pintadas e esgrafitadas. Maioritariamente decoradas com uma tricromia verde, amarelo, ocre-castanho, de temática predominantemente floral, zoomórfica, antropomórfica e mista, mas também brasonada e monumental.
Os pratos e bacias de Mestre Álvaro Chalana apresentam determinadas tipologias de decoração nas abas ou nos bordos:
- Arcos verdes, contíguos, com a concavidade virada para o interior, total ou parcialmente preenchidos a amarelo;
- Esponjados a verde;
- Decoração geométrica;
- Decoração floral.