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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Turismo em perspetiva / Os Bonecos de Estremoz

 

André Lopes


Artigo de André Lopes
transcrito com a devida vénia do
jornal E nº389,
de 30 de Outubro de 2026

O património cultural é uma parte essencial da identidade de qualquer território. Preservá-lo é importante, mas encontrar formas de o valorizar, divulgar e transmitir às gerações futuras é igualmente fundamental.

Nos últimos tempos, tenho dedicado particular atenção ao património cultural imaterial e às oportunidades que este pode representar para o desenvolvimento turístico dos territórios. É impossível pensar nesta temática sem olhar para Estremoz e para os seus Bonecos, uma arte secular reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2017.

Este reconhecimento é motivo de orgulho para Estremoz e evidencia a importância de continuar a preservar e divulgar uma tradição que faz parte da identidade do concelho. O trabalho desenvolvido em torno deste património é fundamental, mas a sua riqueza permite-nos também refletir sobre novas formas de o aproximar da comunidade e de quem nos visita.

Neste contexto, as Festas da Exaltação da Santa Cruz, em setembro, poderão constituir uma oportunidade para reforçar a presença dos Bonecos de Estremoz na programação cultural da cidade. A possibilidade de criar um espaço especialmente dedicado a esta arte, articulado com as iniciativas já existentes, permitiria dar maior visibilidade aos barristas, às suas peças e aos saberes que lhes dão vida.

Mais do que um espaço de exposição e venda, uma iniciativa desta natureza poderia incluir demonstrações de modelação, oficinas, conversas com os artesãos e atividades dirigidas aos mais novos. Seria uma forma de proporcionar aos visitantes um contacto mais próximo com esta tradição e de despertar o interesse das novas gerações.

A valorização do património cultural imaterial exige continuidade, criatividade e cooperação entre os diferentes agentes locais. Quando cultura e turismo se articulam, surgem oportunidades para enriquecer a experiência de quem visita o território, apoiar os artesãos e reforçar a identidade local.

Os Bonecos de Estremoz são muito mais do que peças de barro, representam conhecimentos, histórias e saberes transmitidos ao longo de gerações. Continuar a encontrar formas de os dar a conhecer é contribuir para que esta herança permaneça viva e continue a fazer parte do futuro da cidade.

Porque valorizar o património é também criar oportunidades para que aquilo que nos diferencia continue a ser conhecido, apreciado e transmitido às gerações futuras.

André Lopes


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

7 – Coleccionar bonecos de Estremoz


Fuga para o Egipto (1948).
Mariano Augusto da Conceição (1903-1959).
Museu Rural de Estremoz.

Desde os dez anos de idade que transporto na massa do sangue o espírito de coleccionador. Marca genética ou atávica, não sei, mas que veio ao de cima lá por essa idade, veio. E é um facto tão real como o odor da flor de esteva ou o castanho da terra de barro.
Coleccionar é reunir num todo, objectos que têm pelo menos uma característica ou funcionalidade comum. A motivação para o fazer pode ser diversa, como distintas podem ser as consequências de uma colecção. Pode ficar guardada numa caixa ou arrumada numa prateleira de estante ou mesmo numa vitrina, como também pode ser objecto de estudo numa procura de respostas, desde sempre procuradas pela alma humana.
Umas das coisas que colecciono são os bonecos de Estremoz, os quais descobri há cerca de trinta anos. E digo que descobri, porque efectivamente, nado e medrado em Estremoz, tinha os olhos abertos, mas não via, como acontece a muito boa gente. Até que um dia, os meus olhos foram para além da missão elementar de observar o óbvio. Então a minha retina transmitiu às redes neuronais um impulso nervoso que se traduziu numa emoção com um misto de estético e de sociológico. Foi tiro e queda a minha atracção pelos bonecos de Estremoz.
Bonecos que duplamente têm a ver com a nossa identidade cultural estremocense e alentejana, bonecos que antes de tudo são arte popular, naquilo que de mais nobre, profundo e ancestral, encerra este exigente conceito estético-etnológico.
Bonecos moldados pelas mãos do povo, a partir daquilo que a terra dá - o barro com que porventura Deus terá modelado o primeiro homem e as cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui garridas e alegres, como convém às claridades do Sul.

Publicado inicialmente a 5 de Agosto de 2014

sábado, 17 de outubro de 2026

Ovelha tresmalhada

 

Ovelha, figura de Presépio. Oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX.
Colecção Hernâni Matos


Adquiri recentemente uma ovelha, figura de Presépio, em barro vermelho policromado, cuja autoria atribuo a Oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX. O exemplar representa uma ovelha de raça malhada, assente numa base rectangular com as pontas cortadas em bisel. As dimensões são as seguintes: Altura: 5,2 cm, Largura: 3,2 cm, Profundidade: 4,5 cm.

O corpo do animal parece estar coberto de lã creme, malhada de negro e encaracolada, textura provavelmente obtida com recurso a um teque boleador. A base tem aspecto marmoreado bicolor das cores creme e castanho escuro.

Trata-se de uma ovelha que supostamente se viu afastada das suas congéneres e do respectivo pastor na cena presepial, com a qual alguém desconhecido, ciclicamente reconstituiu e comemorou a Natividade. Daí a epígrafe escolhida para o presente texto: Ovelha tresmalhada, tema central da Parábola Bíblica da Ovelha Perdida, referida em dois Evangelhos sinópticos do Novo Testamento (Mateus 18:10–14 e Lucas 15:1–79), bem como no Evangelho apócrifo de Tomé (Tomé 107).

Como coleccionador, bem gostaria de ser capaz de à ovelha tresmalhada que neste momento integra a minha colecção particular, juntar o resto do primitivo rebanho, assim como o pastor que em terreno presepial, simbolicamente assegurava o pastoreio. Tal não é possível.                    

À laia do cancioneiro popular, mas com versos próprios, resta-me contextualizar o passado desta figura de presépio:

Ovelha tresmalhada
do seu antigo rebanho.
Ovelha que foi achada
sem o pastor d'antanho.

domingo, 11 de outubro de 2026

Santo António dos Pobres, de Isabel Pires

 

Santo António dos Pobres. Isabel Pires (1955 -   ).

A minha colecção de Bonecos de Estremoz viu-se recentemente valorizada pela aquisição de uma imagem cuja descrição e estudo é objecto do presente texto.

Trata-se de uma imagem de Santo António (1195-1231), na qual é representado em jovem e em pé, envergando o característico hábito castanho dos franciscanos, com o capuz pendurado para trás, cingido à cintura por um cordão [1] acastanhado, pendente ao longo do hábito. Da cintura e paralelamente ao cordão pende um terço [2], do qual é visível a cruz, de cor negra.

O Taumaturgo [3], com os dedos do pé esquerdo a espreitar o hábito, está assente numa base minimalista de forma cilíndrica e cor verde escura, orlada superiormente a dourado e lateralmente com decoração fitomórfica simplificada, a azul escuro, amarelo e dourado.

O Doutor da Igreja [4] apresenta uma tonsura [5] no cabelo de cor castanha. Com a mão direita, segura um alforge de pão, de cor castanha, assente no ombro direito. Sobre a mão esquerda está sentado o Menino Jesus, de cabelo castanho encaracolado e descalço [6], o qual segura um pão com as mãos e traja um vestidinho de manga comprida, igualmente castanho e orlado a dourado na bainha e na gola,.

A imagem de Santo António acabada de descrever corresponde a uma alternativa iconográfica pouco comum, conhecida pelo nome de Santo António dos Pobres. Nela está implícita a sua caminhada pela França [7] no combate à heresia [8], bem como a sua preocupação com os mais desprotegidos, a qual partilha com o Menino Jesus [9], que se encarrega de retirar e distribuir o pão guardado no alforge, o chamado pão dos pobres.

Assim oferecido, o pão é simultaneamente alimento para o corpo e para o espírito – é o pão da Palavra que António repartiu com tanta generosidade.

A imagem que foi objecto da presente descrição e estudo foi criada pela hoje consagrada barrista de Estremoz, Maria Isabel Catarrilhas Pires (1955 - ) nos anos 80 do séc XX, no início da sua carreira. Daqui a saúdo e felicito pelo pendor fortemente naturalista desta sua criação, a qual muito me apraz e pela intensa espiritualidade que dela irradia.

Hernâni Matos

BIBLIOGRAFIA
MUSEU DE LAMAS. Santo António de Lisboa – A Peça do mês.  [Em linha]. Disponível em: https://museudelamas.blogspot.com/2011/06/santo-antonio-de-lisboa-peca-do-mes.html  [Consultado em 10 de Setembro  de 2026]. 




[1] Na arte e na iconografia religiosa, as imagens de Santo António a partir do séc. XV passaram a apresentar 3 nós no cordão cingido à cintura do hábito franciscano. Tal inclusão serve para recordar os votos perpétuos que o religioso professou: - POBREZA (Desprendimento total dos bens materiais); - CASTIDADE (Pureza de corpo, mente e coração); - OBEDIÊNCIA (Submissão humilde à vontade divina e às regras da Ordem). Contudo, mesmo no séc. XX, a maioria dos barristas de Estremoz não segue a “regra dos 3 nós”.
[2] O terço de que os franciscanos historicamente eram portadores junto ao hábito é o testemunho de uma vida de oração e intimidade com Deus e de profunda devoção à Virgem Maria. O terço surge na arte e na iconografia religiosa, ainda no séc. XVI.
[3] Aquele que opera milagres.
[4] Título oficial outorgado a Santo António em 16 de Janeiro de 1946, pelo Papa Pio XI, pelo profundo conhecimento das Escrituras e pelos seus Sermões.
[5] Este corte rente no topo da cabeça, sinaliza a sua vida monástica, a sua inteira consagração ao serviço de Deus, a renúncia às vaidades do mundo e a configuração a Cristo coroado de espinhos.
[6] Os pés descalços simbolizam aqui a humildade de Jesus.
[7] Esta missão ocorreu no período de 1224 a 1227, quando o Santo tinha entre 29 e 32 anos de idade e actuou como pregador itinerante e professor de teologia em cidades francesas como Montpellier, Toulouse, Le Puy e Limoges.
[8] Santo António combateu vigorosamente a heresia dos cátaros ou albigenses, concentrados no sul de França (regiões de Albi e de Toulouse), os quais professavam uma doutrina que afirmava que o mundo material era intrinsecamente mau, criado por um Deus maligno. Por isso, negavam a encarnação de Cristo e a presença real de Jesus na Eucaristia, dado que Deus não se misturaria com a matéria. Devido à sua admirável capacidade teológica e oratória para desmascarar estes erros doutrinários, recebeu dos cronistas medievais o epíteto de Martelo dos Hereges.
[9] - Na arte e na iconografia religiosa, as imagens de Santo António com o Menino Jesus ao colo só aparecem no séc. XVII.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 5

 

Pomba no choco com arco (9,5 cm). Ana das Peles.
Colecção Hernâni Matos.

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Figuras de assobio

Os assobios (figuras de assobio) são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornaram simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Tradicionalmente eram agrupados em três grandes categorias: zoomórficos, antropomórficos e compostos.

Os assobios confeccionados por cada barrista, independentemente das marcas identitárias própria de cada um, resumiam-se a cerca de 15 exemplares, naturalmente que com variantes e incluíam apenas aves, cestos de ovos, sargentos, peraltas e senhoras de pezinhos, montados a cavalo ou apeados. Houve quem achasse isto monótono e talvez tenha pensado no soneto de Camões que proclama que: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Vá daí que, sem fugirem à técnica de produção e à estética do Boneco de Estremoz, tenham criado novos exemplares nos quais a decoração das figuras de assobios é de tipo novo: Imagens devocionais (Ana Catarina Grilo), Peças de Olaria Enfeitada (Inocência Lopes) e Instrumentos Musicais Populares (Carlos Alberto Alves). Tratou-se de uma inovação temática, a qual pessoalmente destaco e valorizo.

À semelhança do que se passa com o núcleo central do Figurado de Estremoz, também as figuras de assobio podem de igual modo e muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz liliputianos. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.

Hernâni Matos

Pombos na árvore (7,3 cm). Irmãs Flores.
Colecção Hernâni Matos.

Menino Jesus Bom Pastor (5 cm) Ana Catarina Grilo.
Colecção Hernâni Matos.

Cantarinha enfeitada (10 cm). Inocência Lopes.
Colecção Hernâni Matos.

Harmónio (4,3 cm). Carlos Alberto Alves. 
Colecção Hernâni Matos.

domingo, 20 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 4

 

Figuras de presépio de maquineta da autoria de Ricardo Fonseca. Pastor ofertante
(5,8 cm),  pastora ofertante (5,4 cm), vaca (3,8 cm), burro (3,5 cm) e ovelha (2,7 cm).
Colecção Hernâni Matos.


Figuras de Presépio de maquineta

Uma maquineta de Presépio é um armário ou caixa de tamanho variável, a qual guarda e protege figuras de Presépio, tanto da poeira como do manuseio.

As maquinetas de Presépio têm origem conventual, uma vez que o conceito, a técnica de fabrico e a estética destas peças, nasceu e desenvolveu-se nos conventos femininos portugueses no decurso dos séculos XVII e XVIII.

São conhecidas maquinetas de diferentes épocas, tipologias e materiais.

Podem assumir a forma de armário em madeira entalhada, pintada ou dourada, com uma frente e até mesmo as partes laterais envidraçadas, permitindo a visualização do interior. O armário aloja uma cenografia relativa à Natividade, com figuras de Presépio, que no caso que nos interessa, são minúsculos Bonecos de Estremoz.

Podem ainda adoptar a forma de caixa de vidro com geometria variável assente numa base de madeira com pés, em cujo interior uma cenografia alusiva à Natividade enquadra figuras de Presépio, os quais podem ser minúsculos Bonecos de Estremoz.

As maquinetas de Presépio são simultaneamente objectos de devoção doméstica e peças decorativas de prestígio e mesmo objectos de luxo, comuns em antigas casas senhoriais ou em lares burgueses.

O facto de as figuras de Presépio de Estremoz que integram maquinetas terem dimensões minúsculas, levam-me a classifica-las como Bonecos de Estremoz liliputianos.


Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado (1937-2019) com Presépio
 de Bonecos de Estremoz liliputianos, incluindo cenas de Natividade,   Adoração dos
Magos e  Adoração dos Pastores, da autoria das  Irmãs Flores. 25 x 14 x 20 cm. 
Colecção Hernâni Matos.

Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado
(1937-2019) com Menino Jesus liliputiano da autoria das Irmãs
Flores. 13,3 x 6,8 x 14,2 cm.
Colecção Hernâni Matos.

Pucarinhos de Estremoz - Luís Brito da Luz



Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ I

Bocas ásperas, pegajosas, sequiosas
A saliva ainda no estado de dormência
Gretados lábios rogam forte clemência
A seca língua c’as papilas ansiosas.

Feroz desejo pelas puras águas límpidas
Ocultadas no silêncio de seu ninho
Em sobressalto p’ra sair do pucarinho
E saciar a sede, àquelas almas ríspidas.

Fonte d’vida fresca a brotar do barro fino
Saboroso e oloroso, místico, divino
Como só a cândida cidade branca o tem.

Não há no mundo um pucarinho assim igual
Que torna esta linfa sublime, colossal
Ignorado das boas bocas de ninguém.

Estremoz - 11.09.2026
Luís Brito da Luz


PUCARINHOS DE ESTREMOZ II

Sobre a rica mesa dos Reis de Portugal
Lado a lado com os faustosos ouro e prata
Um pucarinho de linhagem bem barata
C’humildade, mais parece o Santo Graal.

Com a chancela da cidade de Estremoz
Nascido do vermelho barro ali presente
O vate Camões, nas cartas, consciente
Exalta as belas virtudes, de viva voz!

Mas a glória não se esgota no poeta
Gil Vicente com a sua escrita completa
Dos púcaros fala, c’inquieta emoção.

O nome da cidade entrou nas caravelas
Carregado por estas peças mais singelas
E aqui preservado no nosso coração.

Estremoz - 12.09.2026
Luís Brito da Luz

PUCARINHOS DE ESTREMOZ III

Famosos búcaros, na Espanha bem lendários
Benquistos a valer, de modo singular
Seus dons curativos, ninguém pôde negar
Bons predicados, destes barros centenários.

Exaltados por D. Filipe, El-Rei O Prudente
Por Velázquez coloridos com talento
Perduram naquele magnífico momento
Com as Meninas, companhia tão luzente!

Francisco Quevedo, satírico e mordaz
Ilustrava sua beleza que é fugaz
Que a vida é frágil e o humano ser vaidoso.

Lope de Vega, também Góngora afamaram
Nos seus dramas e poemas elogiaram
Este presente de Deus Padre, sumptuoso!

Estremoz - 15.09.2026
Luís Brito da Luz


PUCARINHOS DE ESTREMOZ IV

Pequenos pucarinhos finos e mimosos
Que exalam uma fragrância perfumada
Essência daquela argila bem molhada
Pela pura água a tocar os grãos porosos.

Odor e sabor deveras considerados
Medicinais virtudes, ricas, fabulosas
Propriedades cosméticas, luxuosas
Subsolo único, de pedaços requintados.

E ao mordiscar estas pequenas criações
Após saciar a alta sede de emoções
Emergia a nobre e suprema palidez.

Alto padrão de linhagem e de nobreza,
De um tempo recuado, de fina beleza
Que aos púcaros motivava uma escassez.

Estremoz - 19.09.2026
Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ  V

No firme amparo da olaria cá da terra
Ouvidas vozes se elevaram docemente
Melodiosos sons, encheram de repente
Nossa alma, linda poesia que se encerra!

Lopes Vieira c’o sedento pucarinho,
O púcaro de uma tal forma bem cuidado
Por Sardinha, excelentemente elogiado
Para Simões, era o bastante, com carinho!

Foram os barros do Alentejo badalados
Por Molarinho d’Andrade, considerados
Em sinceros versos, q’respiram a verdade.

Mateus Maçaneiro, em tributo bem gizado
A Mário Lagartinho, Mestre aclamado
No generoso soneto,” Quanta saudade”!

Estremoz - 20.09.2026
Luís Brito da Luz



PUCARINHOS DE ESTREMOZ VI

Na salvaguarda da olaria da cidade
Da mesma forma que os poetas o fizeram
Também excelsas poetisas bem quiseram
Deixar em verso, carimbada raridade.

Barros de Estremoz, afamada poesia
Soneto belo pela pena d’Georgina
As bilhas c’a virgem água cristalina
Q’Lúcia Cóias matou sede em harmonia.

E os bonitos versos d’Maria Guiomar?
Que colocou Estremoz e seus Barros no altar
De uma luminosa forma adicional.

Sublime soneto, distinto e singular
De Maria de Santa Isabel, exemplar!
Tão sentido de uma maneira especial.

Estremoz - 21.09.2026
Luís Brito da Luz


Publicado inicialmente em 20 de Setembro e 9 de Outubro de 2026


#Poesia Portuguesa - 223

sábado, 19 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 3

 

Enfeite de rolha - Bailadeira (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.



Enfeites de rolha

Uma garrafa vale por si, não só pela elegância da sua morfologia, como pela beleza da sua decoração ou pela harmonia do seu cromatismo. Todavia e para além disso, uma garrafa vale igualmente pelo líquido que encerra em si. Tanto pode ser um vinho solarengo e telúrico, como uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho ou um licor aveludado e envolvente.

A conservação do tempo e da alma do conteúdo de uma garrafa exige que esta seja selada com a nobreza da cortiça alentejana, o que é concretizado através de uma rolha.

Alguns barristas de Estremoz têm criado enfeites de rolha com cabeças de figuras que integram o Figurado de Estremoz e reflectem a identidade cultural alentejana.

Os enfeites de rolha que ilustram o presente texto, foram criados pela barrista Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e têm cerca de 5 cm de altura, pelo que podem ser considerados Bonecos de Estremoz liliputeanos. São eles: Bailadeira, Camponês e Preta. Remontam todos a 2015 e pertencem à colecção particular de seu filho, Mestre Jorge da Conceição. 



Enfeite de rolha - Camponês (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.

Enfeite de rolha - Preta (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Figurado de Estremoz - Luís Brito da Luz



Luís Brito da Luz



FIGURADO DE ESTREMOZ - PREÂMBULO

Outrora, na singela travessa do Outeiro
Numa despojada casinha bem caiada
Com a última das bonequeiras já finada
Morreu o vetusto figurado por inteiro.

Em boa hora aqui chegou, grande escultor
José Maria de Sá Lemos de seu nome
Que recuperou este fabrico de renome
Na escola de Artes e Ofícios, director.

E c’ajuda de uma velhinha bem lembrada
Com teimosia, que ficou bem preparada
Os velhos bonecos voltaram a nascer.

O penoso caminho ficou assegurado
Pelo Mestre Alfacinha bem foi modelado
Antes da secular Glória, um bem sofrer!

Estremoz - 3.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ  I

Secular arte genuína Estremocense
Em barro, com muita elegância plasmado
Pelas finas mãos destas gentes bem tratado,
Bonecos brotam do talento que convence.

Em setecentos, na alvorada desta prática
Iniciaram as antigas bonequeiras
Técnica ímpar, da qual foram pioneiras
Precursoras desta única, distinta fábrica.

Bem inculcada de geração em geração
Modelada com total zelo em comunhão
Expressão plena da identidade cultural.

No âmago d’esta cabal terra, singular
No íntimo deste povo tão peculiar
Nossa pura alma aqui se torna natural
.

Estremoz - 30.08.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ  II

Finos bonecos apurados, elegantes
Por mãos diferentes, criados com esmero
Paciente labor mimoso, assaz, sincero
Peças singulares de colecção, brilhantes!

Três geometrias bem distintas e claras
Bola, Rolo, Placa, dimensões diferentes
A partir destas boas bases bem presentes
O todo criado origina peças raras.

Os avoengos bonecos de tradição
C’os hodiernos bonecos de inovação
Fecham a galeria desta identidade.

C’a dual matriz tão sagrada e bem profana
Riqueza cultural desta gente humana
Herança imaterial da humanidade.

Estremoz - 01.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ III

Na galeria dos bonecos da cidade
Graciosas peças figuram sem igual
As de pendor religioso, inicial
De devoção particular, uma beldade!

Os presépios, à cabeça, em patamares,
Com a tríade d’Magos, o nível mais alto
Sagrada Família, impune ao sobressalto
Na base, adoram pastores destes lugares.

Também o Santo António muito querido
E João Baptista, Santo bem escolhido
Santificadas devoções nestas paragens.

A Senhora da Conceição de Portugal
C’Isabel d’Aragão, Santa Alteza Real
Piedoso fervor de fé nestas Imagens.

Estremoz - 05.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ IV

Na colecção do figurado de Estremoz
Sobre a alegre temática do Carnaval
Negros e alegorias, d’pendor original
Aprimoram esta tradição d’viva voz.

Amor supremo sempre d’olhos bem vendados
Paixão intensa c’o trespassado coração
Toucado ornado com plumas de feição
Numa mão flores, elementos adorados.

E o que dizer da deliciosa Primavera?
De arco ou de plumas, natural desta terra
C’a Bailadeira, num duo bem magistral.

Os escravos que por aqui também andaram
No bom barro, carimbo seu também deixaram
Pretas Floristas de baptismo cultural.

Estremoz - 07.09.2026
Luís Brito da Luz


FIGURADO DE ESTREMOZ V

Com pergaminhos como praça militar
Na defesa do nobre berço lusitano
Voz crucial d’amparo ao forte chão raiano
Suas gentes, autorizadas a lutar!

Regimento de Cavalaria, o terceiro
Dragões da saudade querida d’Olivença
Que de há muito reiteramos a presença
Alguns membros perpetuados por inteiro.

No bem-trajado figurado da cidade
Bem-apessoados sargentos de verdade
Floreando no verde jardim ou bem d’pé.

Os lanceiros nos seus cavalos, que soldados!
Especiais cavaleiros, nunca apeados
Quase sempre com a bandeira, a sua Fé.

Estremoz - 24.09.2026
Luís Brito da Luz


Figurado de Estremoz VI

Terra religiosa d’grande devoção
Bem evidente no tecido citadino
Profusas igrejas que honram o divino
Seis conventos em absoluta comunhão.

São Francisco e Santo António dos Capuchos
Da Senhora da Conceição dos Congregados
Da Ordem de Malta, cavaleiros soldados
São João de Deus e os Agostinhos, sem luxos!

E este latejante coração a palpitar
No figurado de Estremoz tomou lugar
Eternizado que ficou nestas paragens.

Singelo frade com seu hábito a cavalo
Em suas mãos um odre d’vinho, bom regalo!
Cápsula do tempo do q’foram as passagens.

Estremoz - 27.09.2026
Luís Brito da Luz


Publicado inicialmente em 4, 9,19 de Setembro e 9 de Outubro de 2026

#Poesia Portuguesa - 222

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 2

 

Ganchos de meia. Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Hernâni Matos.

Ganchos de meia
Uma tipologia muito especial de Bonecos de Estremoz são os chamados ganchos de meia. Trata-se de Bonecos de Estremoz minúsculos, que as mulheres das nossas famílias usavam quando faziam croché ou tricotavam peças de vestuário, de lã ou algodão, como era o caso das chamadas “meias de cinco agulhas”. Trata-se de figuras antropomórficas, nas quais a cabeça apresenta cabelo, olhos, boca e rosetas pintadas e o nariz é uma pequena saliência. Em todas elas figuram dois ganchos de arame no tronco. Um à frente, virado para cima, para nele passar o fio, que do novelo pode ser redireccionado para as agulhas. O outro nas costas, virado para baixo, para pregar na blusa ou no vestido da mulher, na parte superior do peito, geralmente do lado esquerdo. 
Devido às suas pequenas dimensões nunca apresentam marcas de autor.
Os que apresento na figura, foram modelados pela barrista Liberdade da Conceição (1913-1990) e são todos figuras antropomórficas. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, são sucessivamente: Nossa Senhora, Freira de Malta, Senhora de pezinhos, Peralta e Sargento.
Trata-se de figurinhas de cerca de 5 cm de altura, que pelas suas diminutas dimensões podem ser considerados Bonecos de Estremoz liliputianos.

Hernâni Matos


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 1

 

Fig. 1 -  Sargento. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.
8,7 cm de altura. Colecção Hernâni Matos.


LER AINDA

No reino de Lilliput

O reino de Lillput é uma ilha fictícia e o primeiro destino visitado pelo personagem principal Lemuel Gulliver no famoso romance satírico As Viagens de Gulliver, publicado em 1726 pelo escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745).

Nessa ilha, Gulliver é confrontado com uma população de pessoas minúsculas, com menos de seis polegadas de altura (cerca de 15 cm), chamadas liliputianos, que o tomaram por gigante.

Tudo o que é pequeno tem graça

Seja por convicção veiculada pelo adágio de que “Tudo o que é pequeno tem graça”, seja pela maior facilidade de arrumação por parte de coleccionadores, visto ocuparem menos espaço, o que é verdade é que existem no Figurado de Estremoz, exemplares que podem muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz liliputianos [1]. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.

O exemplar mais antigo que tenho na minha colecção é um Sargento. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX, com 8,7 cm de altura (Fig.1).

Entre os mais recentes e todos da autoria das Irmãs Flores, destaca-se um Lanceiro com 9 cm de altura da autoria de Perpétua Sousa (1958- ), o qual ostenta na base a marca manuscrita TeTA / 23-1-1985 [2], distribuída por duas linhas, gravada no barro há 41 anos. Como o tempo passa depressa.

De salientar que a modelação de figuras minúsculas em barro exige bastante do sistema neuromuscular, nomeadamente uma enorme destreza manual e uma enorme coordenação motora fina, a que há que juntar uma coordenação excepcional entre a visão e o tacto.

Um Boneco de Estremoz liliputiano exige menos barro para ser modelado, mas em contrapartida exige mais tempo e cuidado na sua execução, pelo que o seu custo de produção tem que ser necessária e compreensivelmente valorizado.

Hernâni Matos



[1] Os Bonecos de Estremoz liliputianos aqui apresentados pertencem ao núcleo central do Figurado de Estremoz. Todavia, há outras tipologias de Bonecos de Estremoz com dimensões que os levam a considerar igualmente liliputeanos. Caso dos ganchos de meia, enfeites de rolha, figuras de Presépio de maquineta e figuras de assobio de alguns barristas de Estremoz.

[2] Esta marca não integra o inventário das marcas de autor dos bonequeiros de Estremoz patente no meu livro Bonecos de Estremoz. Edições Colibri. Póvoa de Varzim e Estremoz, Outono de 2018. Foi descoberta recentemente pelo meu amigo Joaquín Morales Leyva, um coleccionador, barrista e pescador à linha na internet de Figurado de Estremoz, discípulo de Mestre Jorge da Conceição e tudo. O Joaquín comprou um lote de Bonecos de Estremoz lilliputeanos com aquela marca e teve a gentiliza de me oferecer um deles, o que muito me congratulou e esteve na origem do presente texto. Sobre o Joaquín já publiquei neste blogue o texto Bonecos de Estremoz, de Joaquín Morales Leyva , cuja leitura sugiro. 

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Fig. 2 - Lanceiro. Perpétua Sousa (1958-    ). 9 cm de altura.
Colecção Hernãni Mato
s.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A “Alegoria da Música” no figurado de Estremoz

 

Alegoria da Música. Jorge da Conceição.


UM TEXTO DO BARRISTA JORGE DA CONCEIÇÃO


A ideia de produzir uma figura alegórica relativa à música partiu do colecionador Prof. Hernâni Matos, amigo e cliente de há longa data, a propósito de uma exposição que estava a planear fazer, alusiva à representação do tema Música no figurado de Estremoz.

São sobejamente conhecidas as figuras do mundo rural e urbano a tocar harmónio, a banda de música que acompanha a procissão do Sr. dos Passos (muitas vezes vendida em separado das restantes figuras da procissão), bem como as variadíssimas figuras de assobio. Em todas estas tipologias a coleção de figurado de Estremoz do Prof. Hernâni Matos é rica e variada. Faltava, no entanto, uma figura alegórica alusiva à Música. Com efeito, no conjunto das figuras alegóricas, em que as mais conhecidas são as Primaveras, as Bailadeiras e o Amor é Cego, não existia uma representação alegórica da música, pois  a mesma nunca terá sido feita pelos barristas em todos estes séculos de produção de Bonecos de Estremoz.

 Assim, colmatar essa lacuna foi o desafio que me foi colocado e que aceitei com muito agrado e motivação.

 Usei como inspiração várias representações clássicas de Euterpe, a musa da música na mitologia grega, e repassei à exaustão imagens das figuras alegóricas de figurado de Estremoz, dos séculos XVIII e XIX, que temos o privilégio de ter no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho.

 Depois, deixando trabalhar a imaginação e imprimindo o meu próprio estilo, acabou por nascer a minha interpretação da Alegoria da Música. É uma figura na linha das Bailadeiras, com uma roupagem clássica enriquecida com atributos muito característicos das nossas figuras alegóricas, que ostenta uma lira e uma flauta. Trata-se de uma peça com uma função decorativa mas também utilitária, tal como muitas das nossas figuras alegóricas, que podem ser usadas como castiçais ou paliteiros. Neste caso a figura pode servir como paliteiro utilizando os furos da flauta.

 Toda a estética da figura que desenvolvi, desde a forma e decoração da base, à postura do corpo da figura, ao acabamento final e ao grau de serenidade e candura que transmite, foi trabalhada para ser completamente fiel à estética tão característica dos nossos Bonecos de Estremoz e, como não podia deixar de ser, ao meu estilo pessoal.

 Foi com alegria que registei a aceitação da peça que concebi e é motivo de muito orgulho constatar que foi a minha criação a selecionada para ilustrar o cartaz da exposição.

Jorge da Conceição
Estremoz, Maio de 2026

Hernâni Matos

terça-feira, 7 de julho de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

 



A abrir o catálogo da minha exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ


PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

Os Bonecos de Estremoz são absolutamente transversais em termos da política cultural do Município de Estremoz. Com eles dinamizamos a cidade, os museus e inclusivamente, a hotelaria e o comércio.

Para valorizar os barristas e a sua produção, convidamos anualmente vários deles a trabalharem connosco nas ações educativas. Estamos ainda unidos à Confraria do Boneco de Estremoz para levar o figurado às principais feiras nacionais. Concretizámos recentemente uma rota cultural sob esta temática e com muito gosto, procuramos unir esforços com colecionadores de referência, para com estes darmos a conhecer peças únicas deste património cultural imaterial.

Ora foi exactamente com este propósito, que surgiu o trabalho com Hernâni Matos, o maior e mais representativo colecionador de Figurado de Estremoz. Este tem um labor incomparável no domínio do colecionismo, ao qual une a investigação e um conhecimento privilegiado dos artesãos do séc. XX e XXI. A exposição que nos apresenta, demonstra isto mesmo. Temos assim a honra de conhecer e dar a conhecer, uma pequena parte da maravilhosa coleção deste estremocense, se bem que apenas sob a temática da música. Juntamos a esta, a memória das dezenas de mostras que Hernâni Matos já realizou nos espaços da autarquia e assim apercebemo-nos da maravilha deste trabalho, paciente e apaixonado.

Caro Hernâni Matos, teremos sempre espaço para mostrar os seus e nossos, Bonecos de Estremoz. Bem-haja pela partilha e deixo aqui um reconhecimento público pela sua ação na valorização deste património, que deixou de ser apenas de Estremoz e hoje é da Humanidade.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

sábado, 4 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 5 - ASSOBIOS

 

30 - Cesta de ovos com asa (Ana das Peles)
31 - Pomba no choco com arco (Ana das Peles)
32 - Peralta (Ana das Peles)
33 - Amazona (Ana das Peles)

5 - ASSOBIOS

Os assobios são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornou simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Sob um ponto de vista morfológico são habitualmente classificados em zoomórficos, antropomórficos e compostos.

A presente colecção é constituída por um total de 189 assobios dos seguintes barristas: Ana das Peles (5), Sabina Santos (14), José Moreira (7), Maria Luísa da Conceição (13), Maria Inácia (3), Irmãs Flores (57), Jorge da Conceição (14), Ricardo Fonseca (1), João Sousa (1), Carlos Alberto Alves (9), Ana Catarina Grilo (21), Inocência Lopes (4), Manuel J. Broa (3), Inês da Conceição (5), Jorge Carrapiço (32).

34 - Senhora de pezinhos (Sabina Santos)
35 - Peralta (Sabina Santos)
36 - Sargento (Sabina Santos)
37 - Amazona (Sabina Santos)
38 - Peralta a cavalo (Sabina Santos)
39 - Sargento a cavalo (Sabina Santos)

40 - Galo no tronco (José Moreira) 
41 - Cesta de ovos com asa (José Moreira)
42 - Galo no pinheiro (José Moreira)
43 - Galo na árvore (José Moreira)
44 - Peralta (José Moreira)
45 - Pomba (José Moreira) 
46 - Sargento (José Moreira

47 - Galo (Maria Luísa da Conceição)
48 - Galo no pinheiro (Maria Luísa da Conceição)
49 - Galo no laço (Maria Luísa da Conceição)
50 - Galinha no choco (Maria Luísa da Conceição)

51 - Berço com bebé (Maria Luísa da Conceição)

61 - Senhora de pezinhos (Manuel José Broa)
62 - Peralta (Manuel José Broa)
63 - Sargento (Manuel José Broa)

69 - Harmónio (Carlos Alberto Alves)
70 - Ronca (Carlos Alberto Alves)
71 - Adufe (Carlos Alberto Alves)
72 - Tambor (Carlos Alberto Alves)
73 - Guitarra (Carlos Alberto Alves)

 Alguns dos assobios expostos são merecedores de uma referência especial.

52 - Galo no tronco (Irmãs Flores)
53 - Galo no laço (Irmãs Flores)
54 - Galinha no choco (Irmãs Flores)
55 - Pombos na árvore (Irmãs Flores)

56 - Galo no arco (Irmãs Flores)

Anteriormente às Irmãs Flores, os assobios zoomórficos e antropomórficos tinham uma base cilíndrica de altura diminuta ou em forma de menisco convexo, nos quais estava inserido o bocal de sopro. Desde sempre que este bocal era manufacturado, montando e furando um rolo de barro, tal como era feito para os assobios compostos. Todavia, Maria Inácia Fonseca, uma das Irmãs Flores, introduziu uma técnica diferente: o menisco convexo passa a ser mais alto e dele, por estiramento numa determinada direcção, resulta o indispensável tubo, que é furado da maneira anterior. O bocal de sopro passa então a ser mais curto e a proeminência correspondente, mais suave e mais discreta. Há aqui uma mudança de paradigma que importa sublinhar e registar. Para além disso, as Irmãs Flores reavivaram o coleccionismo de assobios, já que ao contrário dos barristas que as precederam, foram criando inúmeras variantes dum mesmo tipo de assobio, por introdução de diferentes pormenores na modelação e na decoração, a que imprimiram um cromatismo muito vivo, visualmente apelativo.

64 - Galo no poleiro (Jorge da Conceição)
65 - Galo na azinheira (Jorge da Conceição)
66 - Galinha no choco com arco (Jorge da Conceição)
67 - Galinha e pintos (Jorge da Conceição)

68 - Cesto de flores (Jorge da Conceição) 

Os assobios de Jorge da Conceição são caracterizados por uma modelação e uma decoração muito minuciosas, fortemente naturalistas, que os transformam em peças extremamente apelativas. Deste modo, transcendem o âmbito restrito daquilo que podiam ser apenas brinquedos e instrumentos musicais, passando a ser também objectos decorativos, o que está em consonância com a alma do barrista. Jorge da Conceição demanda a beleza, a elegância, o equilíbrio e a harmonia em tudo o que faz. Para além dos modelos tradicionais de assobio, os quais recriou, Jorge da Conceição criou novas figuras de assobio: Cesta de Flores, Galinha e Pintos, Galo no Roseiral, Galo na Azinheira, Galo na Vinha e Galo no Jardim.

81 - Sagrada Família (Inês da Conceição)
82 - Santo António (Inês da Conceição)
83 - Galo no mocho (Inês da Conceição)
84 - Gato no mocho (Inês da Conceição)
85 - Cão no mocho (Inês da Conceição)

Inês da Conceição produziu assobios de base ovóide semelhante à dos assobios de seu pai, com uma expressão mais simplificada, as pintas da base mais miudinhas e um tubo de sopro de cor verde bandeira, igualmente adoçado na embocadura. Dois desses assobios são assobios devocionais (Sagrada Família e Santo António) e três são assobios zoomórficos (galo, gato e cão) com a particularidade de não estarem assentes numa base ovóide, mas sim num “mocho” tradicional alentejano, cujos pés é que assentam nessa base.

74 - Santo António (Ana Catarina Grilo)
75 - São João Baptista (Ana Catarina Grilo)
76 - Nossa Senhora (Ana Catarina Grilo)
77 - Nossa Senhora a orar (Ana Catarina Grilo)
78 - Sagrada Família (Ana Catarina Grilo)

79 - Berço do Menino Jesus (Ana Catarina Grilo)
80 - Menino Jesus Bom Pastor (Ana Catarina Grilo)

Os assobios de Ana Catarina Grilo chamam a atenção pela simplicidade, pelo cromatismo suave e harmonioso, pelo tamanho adequado do tubo de sopro e o não adoçamento da extremidade. Quanto às dimensões são aquelas que era suposto serem as de um brinquedo de criança. Para além dos tradicionais assobios que integram o núcleo central do figurado de Estremoz, a barrista apresenta novas criações como “Palhaço” e 7 exemplares de  assobios devocionais (Nossa Senhora, Nossa Senhora a orar, Berço do Menino Jesus, Menino Jesus Bom Pastor, Milagre das Rosas, Santo António e São João Baptista).

57 - Pucarinho enfeitado (Inocência Lopes)
58 - Terrina enfeitada (Inocência Lopes)
59 - Candelabro enfeitado (Inocência Lopes)
60 - Arco enfeitado (Inocência Lopes)

Tradicionalmente, os assobios de barro vermelho de Estremoz integravam na sua decoração uma figura zoomórfica, antropomórfica ou mista. Porém, Inocência Lopes criou muito recentemente quatros assobios: Pucarinho enfeitado, Candelabro enfeitado, Terrina enfeitada e Arco enfeitado, passando os assobios a incorporar também espécimes de olaria enfeitada como elementos decorativos. Trata-se de uma inovação visualmente harmoniosa, que eu aplaudi e subscrevi, assim que se tornou conhecida.

86 - Pomba no choco com arco (Jorge Carrapiço)
87 - Pombo no tronco (Jorge Carrapiço)
88 - Galinha no choco (Jorge Carrapiço)
89 - Galo no pinheiro (Jorge Carrapiço)
90 - Galo no arco (Jorge Carrapiço)
91 - Galo no tronco com rebentos (Jorge Carrapiço)

Os assobios de Jorge Carrapiço inspiraram-se maioritariamente nos assobios de sua bisavó Ana das Peles e de outros mais antigos, pertencentes à colecção do Museu Nacional de Etnologia. Têm um cunho muito popular com modelação e decoração muito simplificadas. Bases com fundo branco, pintalgadas com pintas verdes bandeira e vermelhas, de forma irregular e espaçadas. Extremidade do tubo de sopro não pintada, permanecendo na cor do barro. As figuras estão sempre viradas para o lado oposto do tubo de sopro, de modo que a sua parte frontal esteja virada para os ouvintes e a parte traseira para o apitador.

Hernâni Matos