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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Bonecos de Estremoz - Figuras de negros


 Fig. 1 - Preto a cavalo (s/d) – 
- José Moreira (1926-1991).

A produção bonequeira dos diversos barristas dos sécs. XX-XXI tem um elo comum: os chamados “Bonecos da Tradição”. Trata-se de um conjunto de cerca de 100 figuras que são comuns à produção individual de cada barrista. Naquele conjunto existem três figuras de negros que são reveladoras da colonização africana ocorrida no Alentejo: Preto a cavalo (Fig. 1), Preta grande (Preta florista) (Fig. 2) e Preta pequena (Fig. 3).
Na freguesia de Santa Vitória do Ameixial no concelho de Estremoz, existe o chamado Monte dos Pretos, situado junto à mina abandonada que foi explorada no período da ocupação romana da região, a qual começou no séc. I, mas foi mais significativa nos sécs. III-IV. A existência dum Monte com aquela designação, é indicativo de que existiram escravos negros na região. Em Estremoz, como noutras localidades do país, existe a Rua dos Malcozinhados. Estes eram tabernas populares onde se reuniam escravos, trabalhadores braçais e prostitutas e, se consumia vinho barato e comida feita à pressa como peixe frito e iscas. A nível nacional, os malcozinhados são conhecidos desde o tempo das descobertas. O facto de existir em Estremoz uma Rua dos Malcozinhados é um indicador de que por aqui houve escravos negros. Jorge Fonseca em “Religião e Liberdade / Os negros nas irmandades e confrarias portuguesas (séculos XV a XIX)” [(2) - pág.50-51] dá conta que: “Em Estremoz houve duas confrarias do Rosário, sendo aparentemente e ao contrário do que se passa noutros locais, a dos Negros de fundação mais tardia que a outra. Segundo Frei Jerónimo de Belém foi erigida a confraria na Igreja do Convento de São Francisco, em 1545. Em 1585 D. Filipe I autorizou os respectivos confrades a pedirem esmolas pela vila e pelo termo, durante dois anos. Porém, em 1633, os homens e mulheres pretos moradores na vila de Estremoz obtiveram do rei, como governador da ordem de Avis, licença para criarem a confraria e irmandade de Nª Sª do Rosário, na igreja matriz de Nª. Sª. da Assunção, situada na vila intramuros (ao contrário do convento referido), que era da mesma ordem militar. Mas esta deve ter tido duração efémera, ou ter sido unificada com a primeira, tendo em conta um livro seiscentista pertencente à confraria do convento franciscano, com a entrada de irmãos a partir de 1676. Entre pessoas das mais variadas profissões e níveis sociais, aparece Isabel Mendes, escrava de Manuel Garcia Mendes, em 1692”. Resta na cidade, como testemunho da piedade dos descendentes de africanos, uma escultura de São Benedito, setecentista, na igreja de Nª. Sª. do Socorro.” Arlindo Caldeira em “Escravos em Portugal / Das origens ao século XIX” [(1) - pág.308], diz que “Como instituição, as irmandades já funcionavam desde o século XII na Europa, nomeadamente em Portugal, com fins religiosos e de solidariedade. No entanto, não seria no seio das já existentes que os africanos encontrariam acolhimento. Tiveram de criar, com o apoio de algumas ordens religiosas, associações completamente novas. Foi assim que proliferaram estas confrarias, com marcada distinção étnica, e em que ao nome do patrono religioso, se acrescentava “dos homens pretos” ou, sobretudo depois do século XVIII “dos homens pretos e pardos”. Na mesma obra [(1) - pág. 308] refere que: “Embora varie a invocação religiosa que aparece na designação dessas associações, a mais comum é a da Nossa Senhora do Rosário, decorrente do culto do rosário, muito popular desde o séc. XIII, promovido pela ordem dos Dominicanos.” O mesmo autor [(1) - pág. 305] informa que “Além das festas informais de rua, os músicos e dançarinos negros, nomeadamente os escravos, eram os elementos imprescindíveis das festividades anuais das confrarias ditas “de pretos e mulatos” e participavam também nos principais acontecimentos festivos da cidade, sendo uma presença sempre aguardada nas touradas, nos cortejos e nas procissões…” O mesmo historiador revela que: “A música e a dança, uma e outra de raiz claramente africana, eram o prato forte das festividades domingueiras. Estas manifestações de exotismo despertavam, por um lado, a curiosidade, mas, para outros sectores da sociedade eram vistas como sinais de barbarismo pagão ou mesmo de demonismo.” A terminar é de referir de que nos dá conta que [(1)-305]: “Algumas das festas de africanos ligadas às irmandades, mas não só, incluíam a nomeação, em geral com a duração de um ano, de um “rei” e de uma “rainha”, que, além da função decorativa, eram uma espécie de mordomos dos festejos, cabendo-lhes, por exemplo, animar os peditórios para angariação de esmolas.” Julgo ter provado de uma vez por todas e duma forma insofismável que a presença de negros na barrística popular estremocense se dever à existência desde tempos remotos de escravos negros, os quais foram representados pelos barristas.

BIBLIOGRAFIA
(1) - CALDEIRA, Arlindo M. Escravos em Portugal / Das origens ao século XIX. A Esfera dos Livros. Lisboa, 2017 (págs. 304, 305, 308 e 310).
(2) - FONSECA, Jorge. Religião e Liberdade / Os negros nas irmandades e confrarias portuguesas (séculos XV a XIX). Editora Húmus. Vila Nova de Famalicão, 2016 (págs. 50, 51).

Publicado inicialmente em 8 de Maio de 2019

Fig. 2 - Preta grande (Preta florista) (s/d) –
- Liberdade da Conceição (1913-1990).

Fig. 3 - Preta pequena (2018) –
- Irmãs Flores (1957, 1958- ).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Isabel Pires e o velho camponês alentejano


Velho camponês alentejano (2020). Isabel Pires (1955- ).


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Quem é a barrista
Isabel Catarrilhas Pires (1955-  ) é uma consagrada barrista da velha guarda. Começou a modelar o barro em 1986 por auto-aprendizagem e com alguma orientação de Quirina Marmelo. Inspirou-se nos modelos expostos no Museu Municipal de Estremoz, mas desde sempre conferiu ao seu trabalho um cunho muito pessoal.
Está certificada como artesã de Bonecos de Estremoz pela ADERE-CERTIFICA, ”entidade promotora da certificação de produções artesanais tradicionais, sinónimo da garantia da qualidade e autenticidade da produção.”
É uma barrista com uma produção diversificada que se espraia pelas diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz. Nas suas criações enfatiza a identidade regional alentejana e é-lhe grata a temática da terceira idade.
A análise de uma figura reunindo os dois requisitos anteriores é objecto do presente texto.

Retrato de velho
Trata-se de uma figura antropomórfica masculina, envergando calças e capote, calçando botas e com a cabeça coberta por um chapéu.
Do capote emergem dois braços descaídos cobertos por mangas e com as mãos abertas, das quais a direita se apoia numa bengala.
A imagem assenta numa base cilíndrica de cor verde com pintas alternadamente amarelas e vermelhas a circundar a orla do topo superior.
O capote alentejano tem aba larga, gola forrada a pele de borrego e três romeiras. A abotoadura frontal do capote é assegurada por 3 botões. Duas patilhas fixas com botões na banda esquerda da romeira superior asseguram a abotoadura em dois botões pregados na banda direita.
O chapéu sem fita, tem copa cilíndrica com topo abaulado convexamente e aba circular virada para baixo.
As calças e as mangas do casaco são singelas, não merecendo nenhuma referência especial.
O capote, a bengala e a gola do capote são de cor castanha, de diversas tonalidades, sendo a última matizada. As calças são de cor azul. O chapéu, as botas, as mangas do casaco e os botões são de cor negra.

Simbólica da figura
Importa descobrir e relevar todas as mensagens encerradas na figura. Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Castanho, cor neutra ligada à terra, à natureza e aos agricultores; - Azul, cor fria associada ao céu e que veicula as ideias de tranquilidade, serenidade e harmonia. - Negro, cor neutra associada ao luto, ao respeito, ao isolamento e à solidão.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DO CAPOTE, peça de vestuário que tem a ver com a identidade regional alentejana, porque simboliza a protecção conferida aos camponeses na sua labuta à chuva, ao frio e ao vento das mais rigorosas invernias.
Em terceiro lugar, o SIMBOLISMO DA BENGALA, acessório que entre outras funções é um auxiliador da locomoção de pessoas idosas, doentes ou com traumatismos.
A tipologia do capote, a singeleza das calças, a fisionomia do rosto e o recurso à bengala, permitem concluir estarmos em presença de um velho camponês alentejano.

Análise
Ao contrário do que acontece noutros criadores, nenhum componente da figura foi unicamente pintado, já que todos eles foram modelados e apresentam volumetria.
A modelação foi apurada e revela um rosto bem delineado. Os olhos têm profundidade com as órbitas brancas delimitadas por duas pestanas negras e nas quais se inserem meninas do olho igualmente negras, encimadas por espessas sobrancelhas grisalhas. Igualmente o nariz, a boca, o queixo, as orelhas e o cabelo grisalho estão bem definidos. O nariz apresenta narinas e é observável a morfologia das orelhas. O rosto apresenta rugas. As mãos estão bem definidas e nelas os dedos ostentam unhas, como se de mãos reais se tratasse. As calças amachucadas revelam uso. No capote é perceptível a textura da lã na gola, os botões apresentam orifícios por onde passa a linha e a romeira superior arqueada sugere que o idoso caminha contra o vento. Tudo isto integra as marcas identitárias da barrista e é revelador do tratamento naturalista das suas figuras, fruto da importância que concede aos pormenores na execução das mesmas. Nesse sentido distancia-se do estilo mais popular doutros barristas do presente e do passado. As suas criações tais como as de Jorge da Conceição, cada um à sua maneira, têm um cunho mais erudito que as restantes, sem contudo deixarem de ser Bonecos de Estremoz. Com efeito, de acordo com o CADERNO DE ESPECIFICAÇÕES PARA A CERTIFICAÇÃO DOS BONECOS DE ESTREMOZ, “… a inovação estética não constitui um problema per si pois é garante da renovação de tipologias e temáticas dos Bonecos de Estremoz.”
De salientar que na decoração da figura, a barrista utilizou sabiamente uma harmoniosa tricromia com recurso a duas cores neutras (castanho e preto) e uma cor fria (azul). Às primeiras está associada pouca energia e à segunda está associado o frio. Creio que sob o ponto de vista cromático, foram as cores mais adequadas para associar à terceira idade, considerada o Inverno da vida.
Como é sabido, valorizo muito os barristas possuidores de marcas identitárias muito próprias e cujo estilo os distingue de outros barristas. Por isso, pela qualidade e riqueza da modelação, pela harmonia cromática da decoração e pela original conjugação da identidade regional alentejana com a temática da terceira idade, a barrista é merecedora das minhas felicitações:
- Parabéns, Isabel Pires!
Publicado inicialmente a 26 de Outubro de 2020

Isabel Pires (2015) a modelar o barro no seu atelier. 
Fotografia recolhida
com a devida vénia no Facebook do Município de Estremoz. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A matança do porco


 A matança do porco (frente). José Moreira (1926-1991).  

A matança do porco (trás). José Moreira (1926-1991).


BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE
A matança do porco, misto de ritual pagão e de festa iniciática, integra o imaginário popular, pelo que não poderia deixar de estar presente na barrística popular estremocense. O exemplar aqui apresentado sob diversos ângulos, foi adquirido no Mercado das Velharias, em Estremoz, no passado sábado, dia 9 de Abril e é da autoria do consagrado barrista José Moreira, falecido em 1991. Passo de imediato à sua descrição.
Trata-se de uma peça constituída por quatro figuras. A figura central é um porco branco assente numa bancada de pau e preso por dois homens. O da esquerda agarra com as duas mãos a parte traseira do animal. O da direita sustém o focinho do bicho com a sua mão esquerda, enquanto que com a direita agarra a faca que espetou nas goelas do cevado, até ao coração. A quarta figura é uma mulher agachada junto a um alguidar de barro vidrado, assente por debaixo das goelas do condenado, onde é recolhido o sangue que dele espicha e que a mulher revolve com um pau, para não coalhar.
Os homens usam na cabeça, o típico chapéu aguadeiro, característico do Alentejo. O calçado é preto e vestem um fato de macaco azul-escuro, por debaixo do qual usam uma camisa creme, rematada em cima por um par de botões amarelos. As mangas têm punhos e uma fieira lateral de três botões, todos cor de colorau. E, porque a matança é feita de Inverno, os homens protegem o traseiro, com uma pele de borrego, amarrada à cintura.
A mulher, ornamentada com arcadas nas orelhas, tem a cabeça coberta por um lenço azul-aço, com pintas cor de colorau. O vestido desta cor, tem gola, cinto e uma barra azul-aço. Em cada manga, um punho e uma fieira lateral de botões da mesma cor.
Aos pés do matador, o saco de cabedal onde transporta as facas.
O chão onde assentam todas as figuras é verde, pintalgado de branco, amarelo e cor de laranja, numa alegoria à matança ao ar livre, num chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.
É de salientar que a matança do porco é das composições mais ingénuas da barrística popular estremocense. Como facilmente compreenderão pela descrição que adiante fazemos da matança do porco, ninguém consegue matar o porco tal como é representado pelos nossos barristas. Na verdade, além de ser preciso amarrar as pernas e o focinho do porco, o matador precisa da ajuda de 3 ou quatro homens possantes, a segurar o porco.
A matança do porco tal como é figurada por José Moreira apresenta três diferenças fundamentais em relação ao modo de representação de Mariano da Conceição e de seus seguidores Sabina Santos, Liberdade da Conceição, Maria Luísa Palmela e Irmãs Flores, como se pode ver comparando com a matança do porco executada por estas últimas. No figurado de José Moreira, o porco não é porco preto, mas porco branco. Na mesa da matança, o porco está em posição inversa em relação aquela que é habitualmente representada, o que dificultaria a matança, já que o matador em vez de segurar o focinho do animal com a mão esquerda, o que faz é usá-la para afastar para trás a pata dianteira do animal, que está para cima. Isso quando são só três homens a segurar o porco e visando espetar a faca com mais segurança e precisão. Finalmente na figuração de José Moreira, os homens envolvidos na matança, em vez de usarem barrete, como no início do século XX ainda era corrente no Alentejo, usam o tradicional chapéu aguadeiro, típico do Alentejo. E não é só aqui. Em todos os bonecos em que Mariano da Conceição pôs um barrete na cabeça da figura, José Moreira enfiou-lhes um chapéu aguadeiro, de aba larga, que o sol no Alentejo não é para brincadeiras, como está registado no cancioneiro popular alentejano:

"Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu."

A CRIAÇÃO DO PORCO
Desde tempos remotos que o porco integra a dieta alimentar das gentes de Além Tejo. Uma dieta alimentar com base naquilo que a Terra-Mãe dá, fortemente centrada no uso do pão e no recurso a ervas aromáticas que conferem requintados odores e sabores à frugalidade daquilo que muitas vezes se come.
Da Terra-Mãe provêm as landes e as bolotas que nos montados de sobro e azinho, alimentam o porco preto, de inconfundível sabor.
Mesmo nos tempos de miséria, das jornas de sol a sol, com uma alimentação, a maioria das vezes miserável e que era fornecida pelo próprio Senhor da Terra, o camponês alentejano não deixava de comer carne de porco, nem que fosse um simples naco de toucinho cozido ou umas rodelas de chouriço, usados como conduto do sempre omnipresente pão.
Tradicionalmente, a alimentação do porco alentejano é feita através do recurso à pastorícia. Nela, as porcas parideiras andam em varas de 40 a 60 cabeças, seguidas por varrascos (porcos de cobrição), na proporção de um macho para cada seis fêmeas.
As porcas criam duas vezes por ano. Normalmente uma em Setembro e Outubro (criação montanheira) e a outra em Março e Abril (criação erviça).
Cada fêmea pare cinco a seis bácoros, que após a parição são abrigados em malhadas, alojamentos constituídos por duas séries de casinhotas quadradas (quartelhos), com portas para uma espécie de pátio.
Os bácoros montanheiros mamam durante dois meses e são desmamados em Dezembro, alimentando-se a cevada ou milho, em Janeiro. Se a produção dos montados foi boa, comem lande ou bolota, em Fevereiro. Depois voltam a comer cereais até Abril ou Maio, quando a erva tenra abunda. Quando esta começa a escassear, tornam ao regime de cereais até Julho, altura em que vão para os agostadouros, onde comem do pasto que ficou, depois de ceifados os campos. Aí se conservam até irem para os montados, em Outubro.
Os bácoros erviços mamam igualmente dois meses e são desmamados em Junho, alimentando-se de erva e em Julho, vão também pastar para os agostadouros, até ingressarem igualmente nos montados, em Outubro.
A engorda porcina no montado é conhecida por montanheira e principia em Outubro, quando por estar madura, já há muita lande ou bolota, que tombou das árvores. A ceva dura cerca de três meses, período durante o qual cada animal aumentou em média cerca de cinco arrobas. Depois da ceva estão capazes de vender.
Para além da criação em regime de pastorícia, o camponês alentejano adquiriu o hábito de criar o seu próprio porco numa pocilga junto ao monte. Para tal, após cada matança, compra um bácoro acabado de desmamar, a alguém que seja dono de uma porca parideira. É esse bácoro que vai ser engordado na pocilga familiar, com tudo aquilo a que é possível recorrer em cada momento: lande ou bolota, erva, batata, beterraba, tomate, pimentão, fruta, cascas de batata, de fruta, de favas, de ervilhas, farinha de milho, farinha de cevada, farelos, etc.
O bácoro, cedo é capado pelo capador, que lhe corta os testículos se for macho ou os ovários se for fêmea. Esta amputação genital visa tornar a carne de porco mais saborosa e permitir que o animal engorde mais.
A criação do porco faz parte da economia doméstica das gentes do campo, que o acaba por sacrificar para que a família sobreviva. Bolota, porco e alentejano, são os elos de uma cadeia alimentar de séculos. A matança do porco feita pelos alentejanos é, pois, consequência dessa trindade campestre. Mas é igualmente um ritual colectivo que se repete ciclicamente e que envolve todos os membros de uma família, os amigos e os vizinhos, mesmo os mais pequenos que aí recebem a sua formação iniciática, participando em pequenas tarefas, orientados pelos mais velhos. E é um ritual que apesar de modificações técnicas de pormenor, tem resistido ao relógio do tempo, já que é intenso o convívio que proporciona e apelativa a gastronomia que lhe está associada.
A MATANÇA DO PORCO
Com a chegada do frio vem o tempo da matança do porco, já que antes da existência de arcas frigoríficas, o frio, assim como a salga e o fumeiro, eram os únicos processos de conservação da carne que era consumida ao longo do ano, cumprindo assim um papel fundamental na mantença das famílias rurais.
Por alegadas razões sanitárias e em nome de uma normalização imposta pela União Europeia, a matança tradicional do porco foi ilegalizada e passou a punir-se quem a praticar. Tratou-se de uma forte machadada na nossa identidade cultural, pelo que os alentejanos, orgulhosos das suas tradições ancestrais, fizeram orelhas moucas às proibições de Bruxelas e lá continuaram a matar o porco, como sempre o fizeram. Lá diz o rifão: “Para palavras loucas, orelhas moucas”. Por outras palavras: “A ASAE que vá bugiar!”
A matança do bicho, em jejum desde o dia anterior, para ficar limpo, será executada por um homem experiente, o matador, que se faz acompanhar de diversas facas e de um machado, os quais irá utilizar na matança e desmancho do animal.
Quando começa a função, meticulosamente preparada, quatro homens possantes que desempenham o papel de ajudantes do carrasco, põem o bicho, bem apernado, em cima duma, muitas vezes improvisada, mesa de abate. Antes de ser posto em cima da mesa, o animal viu o seu focinho amarrado com uma corda para não morder. Por outro lado, as duas pernas de trás foram amarradas à perna da frente que fica para baixo, para que o bicho não possa espernear. Só uma perna fica livre e essa é segurada com força e empurrada para trás pelo matador, quando este com um golpe rápido e certeiro, enterra a comprida faca matadeira nas goelas do bicho, em direcção ao coração. Apesar de tudo e mesmo antes de ser esfaqueado, o animal esperneia e causa um enorme chinfrim, como se adivinhasse o fim que o espera. Com a estocada do matador, o animal ainda guincha mais, ao mesmo tempo que tem espasmos violentos na sua luta derradeira. Mas, logo começa uma rápida agonia, ao mesmo tempo que se esvai em sangue e acaba por morrer.
Do porco tudo se aproveita, a começar pelo sangue que se apara num alguidar de barro, preparado para o efeito com sal e vinagre, que é agitado com uma colher de pau, para não coalhar.
Morto o animal e espichado todo o sangue, o bicho é chamuscado com fachos de rosela ou de esteva a arder, para queimar o pêlo todo e a porcaria da superfície da pele. Segue-se uma raspagem com a raspadeira para extrair toda a sujidade, sucedendo-se uma lavagem com vários baldes de água, até o animal ficar com o couro, todo muito bem limpo, antes de ser aberto. Trata-se assim, de uma operação minuciosa e necessariamente demorada.
A ABERTURA
Seguidamente, o matador faz um rasgo na pele que precede os tendões das patas traseiras do animal. Por aí, o bicho é suspenso no chambaril, pau arqueado, dependurado por uma corda numa trave mestra da casa. Só depois abre o porco com um golpe longitudinal, consumado do rabo para a cabeça. Trata-se de uma operação que exige extrema atenção e precisão, não vá a faca usada, perfurar alguma tripa e deitar muito do trabalho a perder. O golpe corta apenas o couro do animal. Depois. com todo o cuidado, o matador vai cortando o que está por baixo até chegar às vísceras. Tira então o osso do peito, com o qual sai a língua e, tira o bofe, o coração e o fígado que são postos num alguidar de barro e vão ser migados, para conjuntamente com o sangue, serem utilizados na confecção de cachola, consumida nesse dia à hora do jantar.
Seguidamente tira as tripas, o buxo e a bexiga, que são postos num tabuleiro de madeira e vão ser lavadas pelas mulheres, com água corrente, para serem depois utilizadas no fabrico de enchidos. Para tal, têm que ser preparadas primeiro.
Aliviado das vísceras, o interior da carcaça é lavado com água nos locais em que tem sangue, ficando depois a arrefecer dum dia para o outro, protegido por um pano.
O DESMANCHO
No segundo dia da matança, procede-se ao desmancho do animal, o qual é cortado nas suas múltiplas partes: presuntos, mãos, orelheiras, queixos, segredos, plumas, tiras, etc. É do interior que saem os lombos para fazer as paias e a carne entremeada para os chouriços. Quanto à pele do lombo do animal e a camada de gordura subjacente, dão o toucinho, que vai ser curado na salgadeira.
Do resto da gordura do porco faz-se a banha, gordura alimentar usada tradicionalmente no Alentejo. Esta é feita numa tigela de fogo de grandes dimensões, aquecida ao lume de chão em cima duma trempe de ferro. A gordura vai derretendo e é necessário estar sempre a mexer para não esturrar. Quando a gordura está toda derretida é vazada para dentro de uma grande panela, para onde é coada com um pano branco. Ali acabará por coalhar, originando a banha. O resíduo que fica na tigela de fogo constitui os chamados torresmos, os quais são muito apreciados.
As costelas e a espinha, são consumidos nos primeiros dias após a matança. Depois há os pés, as orelhas, a focinheira, as costeletas, os lombinhos, etc., etc. É um nunca mais acabar de peças, cada uma das quais recebe desde logo o tratamento adequado.
OS PRESUNTOS
As pernas do porco podem ser consumidas como carne fresca ou utilizadas na confecção de presuntos. Para tal, a perna de porco é toda esfregada com sal, alhos moídos e vinho branco, ficando um dia a macerar. No dia seguinte, é metida em sal, sendo-lhe posta por cima uma tábua, na qual se assentam pedras pesadas, ficando assim 30 dias. Depois é levemente fumada, para se conservar e barrada com uma mistura de massa de pimentão, colorau e azeite. Cerca de um ano depois, o presunto está capaz de ser consumido.
OS ENCHIDOS
No segundo dia da matança, as tripas retiradas do porco são cortadas pelas mulheres em bocados de cerca de meio metro e lavadas em água corrente. Seguidamente, são viradas do avesso com o chamado pau de virar tripas (pau com cerca de 50 cm de comprimento e 1 cm de diâmetro, perfeitamente liso e de pontas arredondadas, para não furar as tripas). Depois de viradas, as tripas são novamente lavadas, de modo a ficarem completamente limpas. Seguidamente, são temperadas com massa de pimentão, dentes de alho pisados, sal e rodelas de laranja. Ficam assim durante quatro ou cinco dias até à sua utilização, sendo nessa altura lavadas com água corrente para ficarem perfeitamente limpas. Igual tratamento é dado ao buxo e à bexiga do porco.
Se a quantidade de tripa não for suficiente, utilizam-se tripas de porco salgadas, provenientes dum matadouro, lavadas com muito cuidado em água quente e viradas e tornadas a lavar, as quais recebem depois o mesmo tratamento das tripas do porco que foi abatido na ocasião. Também se utilizam tripas de vaca, secas ou salgadas, que recebem igual tratamento.
No segundo dia da matança, as mulheres também migam as carnes que vão ser usadas nos enchidos, cada um dos quais vai ter a sua própria composição. As carnes migadas são distribuídas por alguidares de barro, correspondentes aos diferentes enchidos, levando cada um deles, o seu próprio tempero. Assim:
- Chouriços: carne entremeada, alho, sal e pimentão.
- Paios: carne entremeada, alho, sal e pimentão.
- Paias: carne do lombo, alho, sal e pimentão.
- Farinheira branca: gordura, farinha, pimentão, alho e sal.
- Farinheira preta: gordura, farinha, sangue, pimentão, alho e sal.
- Morcela: carne entremeada, sangue, alho, sal, cominhos e cravinho.
Estas carnes temperadas ficam em repouso durante quatro a cinco dias, para adquirirem o gosto do tempero. Só depois são utilizadas na confecção dos vários tipos de enchidos:
- Paias: utilizam as duas peles de igual nome, onde está a banha do porco.
- Paios: utilizam a porção de tripa conhecida por paio, assim como a bexiga.
- Chouriços: utilizam as tripas do porco.
- Morcelas: utilizam as tripas do porco e o bucho.
- Farinheiras: utilizam as tripas de vaca.
O enchimento é feito pelas mulheres durante um dia, com o auxílio de uma enchedeira. Esta é um pequeno funil, de tubo largo e curto que é enfiado numa das extremidades da tripa, que entretanto foi atada numa das extremidades com um bocado de fio de carreto em excesso. Enquanto a mão esquerda segura a tripa e a enchedeira, a mão direita vai tirando pedaços de carne do alguidar, que são postos na boca da enchedeira, de onde são empurrados para dentro da tripa, até esta estar cheia. Quando isso acontece, retira-se a enchedeira e ata-se a extremidade do enchido com a ponta do mesmo fio de carreto que serviu para fechar a outra extremidade. Este procedimento é válido para chouriços, morcelas e farinheiras. No caso dos paios, como a porção de tripa conhecida por paio, assim como a bexiga só têm uma abertura, é esta que é atada com fio de carreto no final do enchimento. Finalmente no caso das paias, antes do enchimento elas são cosidas com linha branca naquilo que será a parte debaixo. Depois do enchimento, a abertura é atada com fio de carreto.
Os enchidos serão curados, pendurados em fueiros, no fumeiro da descomunal chaminé tradicional, cuja lareira arde continuamente. Farinheiras e morcelas levam cerca de uma semana a curar, dependendo da intensidade do lume de chão, ao passo que chouriços, paias e paios, levam cerca de um mês.
AS COMEZAINAS DA MATANÇA
A matança do porco é uma festa comunitária que envolve familiares, vizinhos e amigos que nos dois dias da matança, comem em casa de quem mata o porco. Logo à chegada, de manhã cedo, os homens matam o bicho com copinhos de aguardente, acompanhados por figos ou bolos secos. E durante a manhã vão bebendo os seus copinhos de vinho com pão e paio da matança do ano anterior. No primeiro dia ao almoço é habitual comer febras do cachaço do porco, grelhadas, acompanhadas com verdura cozida e pão. Ao jantar come-se cachola com rodelas de laranja. Já no segundo dia, ao almoço, come-se canja de arroz com carne dos ossos do peito, feijoada de cabeça de porco e frigenada. Ao jantar repete-se a dose e ninguém se queixa. Tudo muito bem regado com vinho tinto. Lá haverá algum homem que se engana no número de copos que bebeu e começará a dizer umas graçolas, recebidas com uma risada geral. Alguém dirá então: “Todo o preto tem o seu dia!”
A FUNÇÃO SOCIAL DA MATANÇA
A matança do porco tem como função contribuir para o estreitamento dos laços de solidariedade na comunidade. Por um lado, os familiares, vizinhos ou amigos participam e ajudam na matança e no local da matança comem nos dias que ela dura. Por outro lado, persiste o hábito comunitário cuja origem se perde no tempo e que consiste em quem mata, dar um prato de carne aos lares mais chegados, para que todos possam provar da matança. Com esta simples dádiva de sete ou oito pratos de carne, num momento em que esta é excessiva, ganha-se carne durante sete ou oito semanas, pois quem recebe, retribui com um prato de carne, quando faz a sua própria matança.
SINOPSE DUM ADAGIÁRIO PORTUGUÊS DO PORCO
É rica a literatura oral sobre o porco, em particular o adagiário. Dele fizemos um sinopse que sistematizámos por temas:
Gestação do porco
- Três meses, três semanas, três dias e três horas, bácoros fora.
Criação do porco
- Bácoro de Janeiro vai com seu pai ao fumeiro.
- Em Janeiro, um porco ao sol e outro ao fumeiro.
- Leitão de mês, cabrito de três.
- O repolho e o cevão têm de ficar feitos de Verão.
- Porca capada já se não descapa.
- Porco de um ano, cabrito de um mês e mulher dos dezoito aos vinte e três.
- Porco que nasce em Abril vai ao chambaril.
- Tem o porco meão pelo São João (24/06).
Alimentação do porco
- A cada porco agrada a sua pousada.
- A mau bácoro, boa lande.
- A melhor espiga é para o pior porco.
- A pia é a mesma, os porcos é que mudam.
- Ao porco nunca lhe enjoa o chiqueiro.
- Com que sonhas porco? Com a bolota.
- Nunca sonha o porco senão com a pia.
- O menino e o bacorinho vão para onde lhe fazem o ninho.
- O pior porco come a melhor bolota.
- O pior porco come a melhor lande.
- O porco depois de comer vira a pia.
- O porco, no comer, é invejoso.
- Porco velho, já lhe não vai a bolota à tripa.
- Porcos com fome, homens com vinho, fazem grande ruído.
Economia doméstica
- Bácoro de meias não é meu.
- Bom gado é porco.
- Branco ou preto, um porco é um porco.
- Negociante e porco, só depois de morto.
- O comerciante e o porco só se conhece depois de morto.
- O rico e o porco, depois de morto.
- Ou magro ou gordo, aqui está o porco todo.
- Porco rabão nunca enganou o patrão.
- Quanto mais porco, mais gordo.
- Quanto mais porco, mais toucinho.
- Quem tem porco tem chouriço.
Matança do porco
- A cada bacorinho vem seu São Martinho (11/11).
- A cada porco chega o São Tomé (21/12).
- A cada porco vem o seu São Martinho (11/11).
- A vida do porco é curta e gorda.
- Cada porco tem seu Natal (25/12).
- Cada porco tem seu São Martinho (11/11).
- É melhor ser porqueiro do que porco.
- No dia de São Martinho (11/11), mata o teu porco e prova o teu vinho.
- Pelo Santo André (30/11) mata o porco pelo pé.
- Por São Lucas (18/10), mata os porcos e tapa as cubas.
- Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco.
Enchidos
- Atar e pôr ao fumeiro, como o chouriço de preta.
- Chouriço, chouriço, quem não mata não tem disso.
- Que é isso?" - "Chouriço".
- Sem sangue não se fazem morcelas.
Consumo
- Frigir a carne de porco com a banha do mesmo porco.
- Não há sermão sem Santo António, nem panela sem toucinho.
- Peixe e cochino, vida em água, morte em vinho.
- Porco fresco e vinho novo, cristão morto.
- Um sabor tem cada caça, mas o porco cento alcança.
Insultos a outrem
- Matar porco e dar a bexiga.
- Nem sabe amarrar o focinho a um porco.
PRECONCEITOS
A gíria popular chama “porco” a alguém que não é limpo e “pau de virar tripas” a uma mulher magra. Quanto ao adagiário é cruel quando compara a mulher a um porco:
- No dia de Santo de Santo André (30/1), quem não tem porco mata a mulher.
A sociedade está eivada de preconceitos ancestrais, como uma mulher não dever assobiar. Daí o adágio:
- Mulher que assobia, ou capa porcos ou atraiçoa o marido.
Igualmente por superstição e preconceito primitivo se considera que durante a matança do porco, desde o desmancho até aos enchidos, as mulheres com menstruação não devem mexer na carne, para esta não se estragar. Tudo isto constitui barreiras mentais de que a mulher se vem corajosamente libertando.

Texto publicado inicialmente em 15 de Abril de 2013

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Bonecos de Estremoz: Sabina da Conceição Santos


Sabina da Conceição Santos (1921-2005) nos anos 70 do séc. XX, tendo à sua
direita as discípulas Maria Inácia Fonseca (1957- ) e Perpétua Sousa (1958- ).
Fotografia de Xenia V. Bahder. Arquivo fotográfico do autor.

Sabina Augusta da Conceição nasceu às 22 horas de 1 de Julho de 1921 num prédio da calçada da Frandina, em Estremoz. Filha legítima de Narciso Augusto da Conceição, oleiro, de 50 anos de idade, natural da freguesia de Santo Antão, Évora e de Leonor das Neves, doméstica, de 45 anos, exposta, natural da freguesia de Santo André, Estremoz. Neta paterna de Caetano Augusto da Conceição, oleiro e de Sabina Augusta, doméstica. Neta materna de avós incógnitos (8). Com 12 anos de idade e com o pai já falecido (suicídio por enforcamento a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos), candidata-se em 23 de Agosto de 1933 ao exame de admissão à Escola Industrial António Augusto Gonçalves e, tendo sido aprovada, matricula-se no Curso de Tapeceira (3 anos), após o Dr. Lourenço Marques Crespo ter atestado que Sabina tem robustez física, não sofre de doença suspeita ou contagiosa e foi vacinada há menos de 5 anos (7).
Em 5 de Julho de 1942, com 21 anos de idade, casa-se na Igreja de Santa Maria em Estremoz, com Joaquim Luiz de Matos Santos, empregado de escritório, de 24 anos de idade. Adopta então o apelido Santos do marido (5). Em 1960, depois da morte do seu irmão Mariano da Conceição, dá continuidade à manufactura dos Bonecos de Estremoz na Olaria Alfacinha, conjuntamente com as suas cunhadas, Maria José Cartaxo da Conceição (1923-2013) e Teresa Cabaço Cid da Conceição (1922-1962)[1]. A oficina era então na Rua da Campainha, nº 18. Depois do falecimento de Teresa Cid em 1962 (9), Sabina continua a trabalhar com Maria José, até que motivos de natureza pessoal a levam a romper a sociedade e a trabalhar sozinha. Passa a fazê-lo no armazém da Olaria Alfacinha, situado na Rua Pedro Afonso, nº 1, donde transitou posteriormente na segunda metade dos anos 60 para a oficina da Rua Brito Capelo, nº 35. Esta era propriedade dum tio de Octávio Palmela, marido de Maria Luísa da Conceição e foi usado inicialmente como armazém da Sapataria Palmela, que ficava situada ao fundo da Rua Brito Capelo. Desactivado o armazém, o espaço foi arrendado a Sabina Santos. Ali trabalhou até se aposentar, em 1988, fixando-se então em Ribamar, Lourinhã.
A importância de Sabina na barrística popular estremocense é incomensurável. Por um lado, tomou a atitude corajosa de prosseguir com estilo muito próprio, a manufactura dos Bonecos de Estremoz, depois da morte de Mariano, fazendo assim com que a arte não se perdesse. Sabina nunca tinha confeccionado Bonecos, apenas vira o irmão fazê-los. Formou-se a ela própria, usando como modelos os Bonecos do seu irmão. Porém, os Bonecos de Sabina não se confundem com os de Mariano. As figuras não são tão corpulentas como as de Mariano, são mais magras e a representação dos olhos é completamente diferente. Em substituição duma pestana tangente à menina do olho, encimada por uma sobrancelha, Sabina, na representação do olhar, afasta da menina do olho, não só a sobrancelha como a pestana. Por outro lado, Sabina foi a barrista que mais discípulas formou: Isabel Carona, Fátima Estróia, Maria Inácia Fonseca e Perpétua Fonseca (Estas últimas com ela na fotografia). Algumas aparecem com ela no filme “Bonecos de Estremoz” (1), (2) que Lauro António realizou em 1976 e que se encontra disponível no YouTube.
Os Bonecos de Sabina eram comercializados, entre outros lugares, na Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30) e no Stand da Olaria Alfacinha no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz.
A 13 de Setembro de 2004, morre o marido de Sabina Santos. Sabina vem a morrer a 19 de Abril de 2005, com a idade de 83 anos, tendo sido sepultada no cemitério de Ribamar (6),(3).
Sabina Santos está fortemente representada no acervo do Museu Municipal de Estremoz Professor Joaquim Vermelho, uma vez que o Município de Estremoz adquiriu à filha de Sabina, Professora Maria Leonor da Conceição Santos (1943-2014), uma colecção de mais de uma centena de figuras que a barrista executara ao longo da sua extensa carreira. Era a chamada colecção da mãe. Todavia, a Maria Leonor, que foi minha colega de Liceu, tinha outra colecção, que era a sua. Propôs-me a sua aquisição em 2012 e, embora não tenha adquirido tudo, adquiri um número bastante significativo de figuras, facto que me encheu e enche de orgulho, pois além, de gostar do trabalho de Sabina, conhecia-a pessoalmente, desde os meus tempos de juventude.

BIBLIOGRAFIA
1 - ANTÓNIO, Lauro. Entrevista a Sabina Santos. Estremoz, 1976. Arquivo de Lauro António.
2 - ANTÓNIO, Lauro. Filme Bonecos de Estremoz. Estremoz, 1976.
3 - GUERREIRO, Hugo. Morreu Sabina Santos in Brados do Alentejo nº 616, 29/04/2005. Estremoz, 2005 (pág. 16).
4 - MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
5 - Sabina Augusta da Conceição - Assento de Casamento nº 81 de 1942, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
6 - Sabina Augusta da Conceição - Assento de Óbito nº 51 de 2005, da Conservatória do Registo Civil da Lourinhã.
7 - Sabina Augusta da Conceição - Processo Individual de aluna nº 174.
8 - Sabina Augusta da Conceição - Registo de Nascimento nº 351 de 1921, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
9 - Teresa Cabaço Cid – Assento de Óbito nº 73 de 1962, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.




[1] Amélia, mulher de Jerónimo da Conceição e cunhada de Sabina, já havia falecido. Liberdade da Conceição também foi convidada para integrar a sociedade, mas não aceitou porque era uma pessoa muito doente. Esteve 6 anos internada no Sanatório do Outão, devido a uma tuberculose óssea na espinha dorsal e que a deixou paralítica. No fim do tratamento teve que aprender a andar (4).
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Julho de 2019

Berço do menino Jesus (dos putto). Sabina Santos.


Nossa Senhora da Conceição. Sabina Santos.


Nossa Senhora ajoelhada. Sabina Santos.


Pastor de tarro e manta. Sabina Santos.


Pastor das migas. Sabina Santos.


Pastor a comer. Sabina Santos.


Maioral e ajuda a comer. Sabina Santos.


Ceifeira. Sabina Santos.

Mulher da azeitona. Sabina Santos.

Mulher dos carneiros. Sabina Santos.


Mulher dos perus. Sabina Santos.


Mulher das galinhas. Sabina Santos.


Aguadeiro. Sabina Santos.


Leiteiro. Sabina Santos.


Mulher das castanhas. Sabina Santos.

Mulher a vender chouriços. Sabina Santos.


Homem do harmónio. Sabina Santos.


Lanceiro. Sabina Santos.


Lanceiro com bandeira. Sabina Santos.


Mulher a lavar a roupa. Sabina Santos.


Bailadeira pequena. Sabina Santos.


Amazona (assobio). Sabina Santos.


Peralta a cavalo (assobio). Sabina Santos.


Ceifeira. Sabina Santos.


Semeador. Sabina Santos.


Polícia do Exército. Sabina Santos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Alberto de Souza e Estremoz

 
Fig. 1 - Carro alentejano. 

"Grande Artista!
Alberto de Souza realizou toda a sua obra
de olhos voltados para Portugal
– sem os desviar um momento da terra que lhe foi berço."


JÚLIO DANTAS
(in Prefácio do livro de Alberto de Souza
“50 Anos de Vida Artística”)

Sou cartófilo desde que me reconheço como coleccionador, aí pelos dez anos de idade. E a Cartofilia servir-me-ia de trampolim para outros voos como a Etnografia, uma vez que a Cartofilia é um poderoso auxiliar daquela, visto os postais ilustrados registarem para a perpetuidade, elementos recolhidos num dado contexto geográfico, social e temporal, relativos às características de uma determinada comunidade, rural ou urbana: o seu traje, a sua faina, os seus usos e costumes, as suas festas e romarias.
O registo cartófilo, tanto pode ter por base o cliché dum fotógrafo com sensibilidade ou pendor para as questões da identidade cultural regional, como as pinceladas magistrais de pintores que sentiram estética, plástica e cromaticamente, o pulsar do Povo Português, o Povo que lava no rio, que apascenta o gado na charneca ou na montanha, que cavalga na lezíria, que charrua a terra-mãe ou que da rede lançada ao mar, recolhe o seu e o nosso pão nosso de cada dia.
Creio que o pintor mais representado na cartofilia portuguesa seja Alberto de Souza (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador, que calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX, funcionando como consciência plástica da Nação, pela oportunidade e rigor do registo etnográfico, efectuado através das suas exemplares aguarelas.
Alberto de Souza esteve em Estremoz no início do século XX, tinha então vinte e poucos anos e aqui registou aspectos do traje e usos e costumes locais, perpetuados em desenhos que “A EDITORA”, divulgou em postais ilustrados da sua 3ª série, a qual incluía motivos de Estremoz, Évora e Beja. Os motivos de Estremoz são: CARRO ALENTEJANO (Fig. 1), UM POÇO (Fig. 2), QUINTAL (Fig. 3) e LAREIRA (Fig. 4). Estes postais deram a volta ao mundo. O mais antigo que integra a minha colecção, tem aposto sobre selo de 25 reis de D. Carlos I (tipo Mouchon), o carimbo de LISBOA CENTRAL / 3ª SECÇÃO de 21-10-1904, local de onde foi expedido para Londres, onde chegou a 24-10-1904, conforme revela a marca de chegada à estação de PADDINGTON, na capital inglesa. Como curiosidade refiro que tenho outro circulado em 1906, expedido pelo escritor Ramalho Ortigão (1836-1915) - uma das figuras principais da Geração de 70 - de Lisboa para Estocolmo, na Suécia, dirigido ao então Ministro Plenipotenciário do Reino, António Feijó (1859-1917), diplomata e poeta consagrado. O desenho de um homem culto e consciência plástica da Nação (Alberto de Souza), a servir de abraço fraternal e a ligar dois amigos afastados (Ramalho Ortigão e António Feijó.
Mas, a relação de Alberto de Souza com Estremoz, não ficou por aqui. Alberto de Souza seria posteriormente o autor de uma aguarela (Fig. 5), propriedade da Câmara Municipal de Estremoz e que esteve na base da confecção de um cartaz para a afamada Feira-Exposição de Maio de 1926, em Estremoz. Nesta aguarela, na parte superior, a parte antiga do burgo, confinada às muralhas do Castelo e, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a planície, a Torre de Menagem, ex-líbris de Estremoz. Em primeiro plano, o pastor de ovelhas, arrimado ao seu cajado, com o tarro com as comedorias do dia, envergando o seu traje regional constituído pelo pelico, pelos safões, pelo lenço em redor do pescoço e pelo chapéu de aba farta, que é tema de quadra brejeira no cancioneiro regional:

“Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu.
Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu.”

Sobre o traje, diz-nos Luís Chaves, etnólogo que na época também por aqui andava: “O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, e tudo o que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção de tecidos, até à cor e forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está.”.
Hoje, o pastor da região já não se veste assim e as encostas do monte onde se ergue o Castelo de Estremoz, são vinhas e não campos de semeadura de trigo. Daí a importância desta e de todas as outras aguarelas de Alberto de Souza no registo etnográfico. Sublinhe-se que a Etnografia (do grego έθνος, ethnos - nação, povo e γράφειν, graphein - escrever) é o método utilizado pela Antropologia na recolha de dados, através do contacto efectuado entre o antropólogo e o grupo humano, objecto do seu estudo. Sublinhe-se ainda que a Antropologia (do grego άνθρωπος, anthropos - homem e λόγος, logos - pensamento) é a ciência que estuda o Homem e a Humanidade, em geral. Por isso, Alberto de Souza foi um antropólogo e um antropólogo social porque se dedicou à observação das técnicas, usos, costumes, crenças, regras de conduta e de comportamento de grupos sociais. E que trabalho extraordinário ele produziu ao longo da sua vida! Uma ínfima parte desse trabalho é constituído por 39 aguarelas, propriedade da Fundação Portuguesa das Comunicações, retratando trajes populares portugueses e que serviram de base à edição pelos CTT, em 1941, de bilhetes-postais ditos oficiais.
Como filatelista e cartofilista, possuo estes postais na minha colecção. Esta circunstância, aliada ao facto de coleccionar bonecos de Estremoz, viria a dar os seus frutos. Vejamos como.
Fascinado pela magia emergente das suas mãos de barristas populares, frequento amiúde a oficina e a loja das Irmãs Flores, no Largo da República, em Estremoz. Gosto muito do trabalho destas senhoras, Maria Inácia e Perpétua, de seus nomes, discípulas de mestra Sabina Santos, que com ela aprenderam a nobre arte do barro e com ela aprenderam a respeitar o que de mais genuíno têm os bonecos de Estremoz, no que respeita a modelos e tipos característicos, formas, cores e tintas. Mas, também e simultaneamente, criaram novos modelos e apostaram em novos tamanhos, que têm vindo a enriquecer a vastíssima galeria de modelos de bonecos de Estremoz.
Pois bem, às Irmãs Flores, afamadas barristas da nossa terra, lancei oportunamente o desafio de criarem novos modelos de bonecos (Fig. 7), inspirados em aguarelas de Mestre Alberto de Souza (Fig. 6). Elas aceitaram o repto e o resultado traduziu-se na bela e magnífica Exposição “Bonecos das Irmãs Flores inspirados em Aguarelas de Alberto de Souza sobre Traje Popular Português”, que em Fevereiro-Março-Abril de 2007, esteve patente ao público na Sala de Exposições do Centro Cultural Dr. Marques Crespo, onde até agora, foi das exposições mais visitadas. Depois disso, a barrística popular estremocense ficou ainda mais rica.
Depois deste sucesso, pensei que a Memória de Alberto de Souza merecia ainda muito mais. Como agente cultural, a consciência da importância da sua Obra, levou-me a tomar a iniciativa de promover uma Exposição de Pintura em Sua Homenagem, o que acabaria por ser feito numa iniciativa conjunta da Associação Filatélica Alentejana, da Câmara e do Museu Municipal de Estremoz e, da Família de Alberto de Souza. Paralelamente a esta Exposição decorre o Salão Filatélico FILAMOZ 2008, comemorativo do 25º Aniversário da Associação Filatélica Alentejana, onde quatro expositores põem em evidência o trabalho desenvolvido pelo Artista na concepção de selos e postais dos Correios. São eles: António Cristóvão (Emissões Camilo Castelo Branco), João Soeiro (Emissões Independência de Portugal), Miranda da Mota (IV Centenário do Nascimento de Camões) e Hernâni Matos (Inteiros Postais reproduzindo Trajes Populares Portugueses baseados em Aguarelas de Alberto de Souza).
Para perpetuar no espaço e no tempo, esta homenagem a Alberto de Souza, a Associação Filatélica Alentejana encomendou aos Correios de Portugal, o fabrico de dois selos personalizados, novo tipo de selos, criados pela Portaria nº 1335/2007 de 10 de Outubro. Um dos selos reproduz o auto-retrato de Alberto de Souza em 1950 (Fig. 8) e o outro, a aguarela que serviu de base ao cartaz da Feira-Exposição de Maio de 1926, em Estremoz (Fig. 9).
No acto inaugural da Exposição funcionou no local um posto de correio, provido de carimbo comemorativo (Fig. 10), reproduzindo o auto-retrato de Alberto de Souza, carimbo este concedido para o evento pelo Serviço de Filatelia dos CTT, com o apoio da Federação Portuguesa de Filatelia, os quais também se associaram na Homenagem àquele que, através dos seus rigorosos e vigorosos traços e das suas pinceladas de Mestre, criou obras primas que, para nosso deleite ficaram perpetuadas nas fórmulas de franquia dos nossos Correios.

Publicado inicialmente a 23 de Setembro de 2010

Fig. 2 - Um poço.

Fig. 3 - Quintal. 

Fig. 4 - Lareira.

Fig. 5 – Aguarela que serviu de base para o cartaz da Feira-Exposição
de Maio de 1926.

Fig. 6 – Lavradeira de Viana do Castelo.I nteiro Postal nº 8,
da emissão de 1941.

Fig. 7 – Lavradeira de Viana do Castelo. Boneco de Estremoz,
das Irmãs Flores.

Fig. 8 - Selo de correio normal, reproduzindo o
auto-retrato de Alberto de Souza (1950).

Fig. 9 - Selo de correio normal, reproduzindo aguarela

 de 1926, de Alberto de Souza.

 

Fig. 10 - Carimbo Comemorativo de Homenagem a Alberto de Souza.