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domingo, 31 de maio de 2026

Exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ - Galeria Municipal D. Dinis

 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 


IIntegrada no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, foi inaugurada pelas 17 horas de sábado, dia 16 Maio, na Galeria Municipal D. Dinis, a exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS.

No evento participaram cerca de 4 dezenas de convidados, os quais foram conduzidos pelo expositor numa visita guiada à exposição.

No certame está patente ao público um total de 281 exemplares seleccionados do acervo pessoal de diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz pertencentes à colecção particular do expositor.

Os Bonecos de Estremoz expostos são da autoria de 20 barristas: Ana Bossa, Ana Catarina Grilo, Ana das Peles, Carlos Alberto Alves, Duarte Catela, Fátima Estróia, Inocência Lopes, Irmãs Flores, João Sousa, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Manuel Broa, Mariano da Conceição, Maria Luísa da Conceição, Mário Lagartinho, Quirina Marmelo, Ricardo Fonseca e Sabina da Conceição Santos.

A mostra estará patente ao público até ao próximo dia 15 de Setembro.

Hernâni Matos











terça-feira, 26 de maio de 2026

O recolector

 

Francisca de Matos. Professora. Foto de Luís Mariano Guimarães.


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Na abertura do catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR

PALAVRAS DA PROFESSORA

FRANCISCA DE MATOS


Conheço o Hernâni Matos há já muitos anos e nunca tive dúvidas de que nasceu para ser recolector, vocábulo de etimologia latina que, em sentido literal, significa aquele que tem por hábito recolher ou reunir. Na verdade, é este o labor que, desde sempre, dá sentido à sua existência, mas não se pense que o faz sem critério, como bem se prova na presente exposição, constituída por uma diversidade de objectos que são, antes de mais, o resultado de muitos anos de busca atenta junto de contactos pessoais que só um verdadeiro conhecedor possui, de acasos felizes que se dão no tempo e no lugar certos e do respeito que sente pelo trabalho destes artesãos que se perpetuaram através da sua arte. É ainda o resultado de um olhar treinado, e sobretudo informado, por muitos anos de leituras e de pesquisas incansáveis em livros e publicações sobre etnografia e etnologia, que foi igualmente reunindo e que são o chão da sua sólida (in)formação neste campo. É isso que lhe permite reconhecer, na sua habitual visita ao mercado de sábado e num simples relance, o valor ou o sentido verdadeiro de objectos incríveis que já poucos reconhecem e menos ainda valorizam.

Esta colecção que agora se apresenta ao público é também uma espécie de galeria de honra muito pessoal, constituída a partir da profunda admiração que o Hernâni Matos sente por cada dos artesãos aqui representados. Eles são para ele - sem desprimor de outros - uma verdadeira elite da chamada Arte Popular e Conventual Alentejana, na sua maioria autodidactas formados na grande escola da vida, mas senhores de grande sensibilidade e de um domínio técnico e artístico que não está ao alcance de qualquer um. Dela fazem parte objectos que contam histórias de outros tempos em que o vagar era coisa preciosa, que aproveitavam para dar largas à sua criatividade e para se abstraírem da aridez dos dias. Objectos que eram, para alguns, a única forma possível de beleza a que podiam aceder: a que eles criavam com as suas próprias mãos e com o auxílio de instrumentos e materiais também eles muito simples, de uso comum e a que tinham fácil acesso: o canivete, a madeira, as cabaças criadas na horta caseira, os chifres dos animais abatidos para alimentação... Objectos que, podendo ser funcionais, retratam tradições e costumes antigos de um povo e de uma região... Outros, de elaboração mais intrincada e exigente, exprimem crenças ou revelam, na graciosidade dos seus rendilhados e volutas, uma perícia técnica que deslumbra o olhar e que funciona, para quem os contempla (e talvez também para quem os fez com tanta mestria), quase como uma mandala de meditação.

Estes objetos fascinantes que o Hernâni Matos, com tanto afã, tem resgatado do esquecimento e da indiferença falam, pois, um dialecto próprio que ele conhece como poucos e que lhe enchem o peito de alegria. E como a maioria dos seus criadores já não está entre nós e não deixou discípulos, pode dizer-se que o fatum escolheu mesmo o nosso recolector para ser fiel depositário deste legado que agora partilha publicamente em forma não só de homenagem aos homens e mulheres que lhe deram origem, mas também à terra alentejana que o viu nascer e que ama de forma incondicional. Em boa hora o faz! 


Francisca de Matos
Estremoz, abril de 2026

Hernâni Matos
Publicado em 26 de Maio de 2026

domingo, 24 de maio de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 


A abrir o catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR

PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

No âmbito da celebração dos 100 anos de elevação de Estremoz a cidade, procuramos proporcionar aos estremocenses uma oferta cultural diversificada, mas que seja também educativa. O objetivo passa fundamentalmente por dar a conhecer o que foram estes 100 anos na cidade, nas mais diversas vertentes.

Assim, lançámos o desafio ao maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente, Hernâni Matos, para que nos fizesse a retrospetiva possível, tendo como pano de fundo a sua coleção, destes últimos 100 anos de artesanato na cidade.

O sucesso desta iniciativa é evidente. Para além de conhecermos as melhores peças da coleção de Hernâni Matos, as novas gerações terão acesso ao trabalho de um conjunto de artesãos já falecidos, que de outra forma não fruiriam.

Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.

Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.

São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz


Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026    

sexta-feira, 22 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás

 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 

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Como tudo começou

Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício.

O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz correspondeu na época à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos, a partir do “annus mirabilis” de 1983, consensualmente considerado o “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.     


100 anos de elevação de Estremoz a cidade

A convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio e, na condição de “maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente” (palavras suas), concebi uma exposição com base na minha colecção, visando dar uma retrospectiva possível dos últimos 100 anos de artesanato no concelho. Naturalmente que tive de fazer opções relativamente à tipologia de artesanato, o que me levou a excluir sem desprimor algum, o Figurado, a Olaria, a Cerâmica Vidrada e a Azulejaria de Estremoz. Cingi-me então à Arte Pastoril e à Arte Conventual (Papel Recortado, Pintura Judaica e Registos e Maquinetas), as quais decidi expor sob a epígrafe “ARTES DO VAGAR – Colecção Hernâni Matos”. 

Foi esta exposição que no passado sábado, dia 16 Maio, foi inaugurada na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho. À “vernissage” compareceram cerca de 6 dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, que usou da palavra a seguir à Directora do Museu, Isabel Água. Ainda que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto: reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem vêem, muito me congratulam e estimulam.

A exposição integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL SEROL GOMES (1957 -  )  Arte Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38 trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril (4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos); - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual - Pintura Judaica – (12 trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte Conventual – Registos e Maquinetas (28 trabalhos).     

Como nos diz no catálogo da exposição o Senhor Presidente da Câmara, “Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.” e acrescenta: “Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.” A terminar diz: “São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.”   

A exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026    
   




quinta-feira, 21 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 

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Palavras proferidas no acto inaugural da exposição
ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
que no dia 16 de Maio de 2026 teve lugar na
Sala de Exposições Temporárias do
Museu Municipal de Estremoz Professor Joaquim Vermelho


Exº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz e demais entidades presentes,
Minhas senhoras e meus Senhores:

Permitam-me que vos dê as boas vindas e agradeça a vossa presença nesta exposição, facto que muito me congratula.

Porque um homem sozinho não é ninguém e porque a ingratidão não é um timbre do meu traço de carácter, impõem-se aqui múltiplos agradecimentos:

- Em 1º lugar ao Senhor Presidente José Daniel Sadio, que me desafiou a realizar a presente exposição no âmbito da celebração dos 100 anos de elevação de Estremoz a cidade, desafio que aceitei sem hesitações e com um misto de prazer e espírito de missão. Em 1º lugar e ainda ao Senhor Presidente José Daniel Sadio que com as suas palavras de abertura no catálogo da exposição, muito me honra e dignifica o catálogo.

- Em 2º lugar à Professora Francisca de Matos, minha amiga de longa data, companheira de estradas culturais e grande senhora das palavras, pelo traçado do meu perfil biográfico como recolector, o qual igualmente muito me honra e dignifica o catálogo da presente exposição.

- Em 3º lugar à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água, que me deu todo o apoio possível e foi incansável na coordenação dos múltiplos aspectos e na “colagem das pontas soltas” que o edificar duma exposição deste quilate impõe, visando o seu sucesso.

- Em 4º lugar à Equipa Técnica do Museu Municipal de Estremoz, que com profissionalismo e dedicação, deu um vigoroso contributo para estarmos a inaugurar hoje e aqui, esta exposição.

- Em 5º lugar aos membros do Gabinete de Comunicação do Município que deram um inestimável contributo para o catálogo editado, o qual perdurará para a posteridade como visual e memória futura da exposição. São eles: Luís Dias (fotografia), Rui Louro (Grafismo) e Jorge Mourinha (Impressão e acabamento).

Terminado que é este período de cumprimentos e de agradecimentos, estarão decerto, algumas de Vªs Exªs a perguntar:

- ARTES DO VAGAR, PORQUÊ? Eu passo a explicar.

O vagar é uma marca de água da identidade cultural alentejana, já que os alentejanos são ancestralmente avessos a pressas e nutrem um desprezo olímpico pelo frenesim contemporâneo. Desde sempre adoptaram um modo de vida caracterizado por um ritmo de vida pausado, calmo e consciente. Trata-se de uma forma de estar que valoriza o tempo, a reflexão, a partilha e a ligação ao meio circundante.

Daí que a ARTE PASTORIL e A ARTE CONVENTUAL, as quais são objecto da presente exposição, sejam merecedoras de receber conjuntamente o epíteto de ARTES DO VAGAR.

Deixem-me falar agora da exposição em si

Sou conhecido e reconhecido como recolector e investigador da Cultura Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.

A minha amiga Francisca de Matos que me conhece há muito, diz que não tem dúvidas de que eu nasci para ser RECOLECTOR e o meu amigo António Júlio Rebelo condecorou-me há 2 anos atrás com o epíteto de GUARDADOR DE MEMÓRIAS.

Pois bem, o que está presente nesta exposição é uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao acervo pessoal de artesanato de Estremoz, pertencente ao recolector e guardador de memórias que sou eu.

Os trabalhos expostos distribuem-se por duas grandes áreas: - ARTE PASTORIL (Trabalhos em madeira, cabaça e em chifre, de Manuel António Capelins, Teresa Serol Gomes, Miguel Serol Gomes, Joaquim Carriço Rolo, José Carrilho Troncho, Roberto Carreiras; - ARTE CONVENTUAL [Papel recortado (Joana Simões e Joaquina Simões), Pintura judaica (Natália Simões) e Registos e maquinetas (Guilhermina Maldonado)]

Trata-se de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício. O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz corresponde à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos. Para além disso, tive o privilégio de conhecer e interactuar com os artesãos cujos trabalhos integram a presente exposição e pelos quais nutri e nutro uma incomensurável estima e admiração pelo seu saber-fazer. Daí não ser de estranhar que me tenha sentido motivado a reunir um conjunto de trabalhos desses artesãos a partir do “annus mirabilis” de 1983, o qual indubitavelmente constituiu “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.

Os trabalhos expostos são registos de memória providos das marcas identitárias dos seus criadores. Para além disso são também memórias guardadas por mim como respigador que agora as partilho com a comunidade e o público em geral.

Esta exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que esta exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

E disse.

Estou agora à vossa disposição para vos conduzir numa visita guiada à exposição.

(E esta aconteceu).

Hernâni Matos



sexta-feira, 8 de maio de 2026

Exposição ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos

 


Integrada no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, terá lugar pelas 16 horas do próximo dia 16 de Maio, na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, a inauguração da exposição de artesanato estremocense ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS.

Na mostra estará patente ao público uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao acervo pessoal de artesanato estremocense do Professor Hernâni Matos.

As obras expostas são da autoria de 10 artesãos: José Carrilho Troncho (1910-2003), Joana Simões (1912-2011), Joaquina Simões (1914-2005), Natália Simões (1924-2012), Manuel António Capelins (1924-1974), Roberto Carreiras (1930-2017), Joaquim Carriço Rolo (1935-2023), Guilhermina Maldonado (1937-2019), Teresa Serol Gomes (1952-1988) e Miguel Serol Gomes (1957 -   ).

Trata-se de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.

Os trabalhos expostos distribuem-se por duas grandes áreas: - ARTE PASTORIL (Trabalhos em madeira e em chifre); - ARTE CONVENTUAL (Papel recortado, Pintura judaica e Registos e maquinetas).

A exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Hernâni Matos nasceu em Estremoz há 80 anos atrás e é um conhecido recolector e investigador da Cultura Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.

Hernâni Matos teve o privilégio de conhecer e interactuar com os artesãos cujos trabalhos integram a presente exposição e pelos quais nutriu e nutre uma incomensurável estima e admiração pelo seu saber-fazer. Daí não ser de estranhar que se tenha sentido motivado a reunir um conjunto de trabalhos desses artesãos a partir do “ano maravilhoso de 1983”, o qual indubitavelmente constituiu “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.

Os trabalhos expostos são registos de memória providos das marcas identitárias dos seus criadores. Para além disso são também memórias guardadas pelo respigador que agora as partilha com o público.

Da parte do coleccionador é claramente assumida a intenção de homenagear os artesãos que corresponderam à sua sensibilidade, ao seu gosto pessoal e que lhe aqueceram a alma, levando-o a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos.

O certame ficará patente ao público até ao próximo dia 6 de Setembro.

Hernâni Matos

quarta-feira, 25 de março de 2026

Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Março de 2026.

O Centro Interpretativo para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz inaugura no dia 28 de março às 16:00 horas, na sua Sala de Exposições Temporárias, a Exposição “Moldar o Legado”, Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro.

Sara Sapateiro (1995) é uma jovem, natural de Estremoz, que iniciou o seu percurso na produção de Figurado em Barro de Estremoz em 2018 pelas mãos da Barrista Isabel Pires, sua Mestra, com quem aprendeu grande parte das técnicas e processos desta arte.

No final de 2019, frequentou o I Curso de Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz promovido pelo CEARTE em parceria com o Município de Estremoz.

Sempre com o apoio e incentivo da Mestra, tem vindo a dar continuidade ao seu trabalho e criando a sua própria identidade estética. Sara é hoje a mais jovem Barristas a produzir o Figurado em Barro de Estremoz, inscrito desde 2017, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO.

A mostra poderá ser visitada até dia 21 de junho.

Não falte, venha conhecer o "Legado" de Sara Sapateiro.

Hernâni Matos

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

NA JANELA DO TEMPO


 Novo livro de Georgina Ferro apresentado

na Sociedade de Artistas Estremocense

Reportagem de Hernâni Matos. Fotografias de Manuel Xarepe


João Ferro na abertura da sessão. Na mesa: Fernando Mão de Ferro, Georgina Ferro
e Hernâni Matos. 

Um aspecto da assistência.

A Sessão de apresentação
Com o Salão de Festas da Sociedade de Artistas Estremocense literalmente cheio, teve lugar a partir das 16 horas e 30 minutos do passado dia 28 de Setembro, a sessão de lançamento e apresentação do livro “NA JANELA DO TEMPO / TRADIÇÃO, CONTRABANDO E EMIGRAÇÂO”, da autoria de Georgina Ferro, editado em Julho passado pelas edições Colibri, com uma tiragem de 500 exemplares.
A sessão foi coordenada por Fátima Crujo e a intervenção de abertura coube a João Ferro, Presidente da Direcção. Na Mesa encontravam-se o editor do livro, Fernando Mão de Ferro, Hernâni Matos e a autora, que falaram por esta ordem.
Coube a Hernâni Matos fazer a apresentação formal da obra, finda a qual solicitou uma calorosa salva de palmas para a autora, que agradeceu emocionada. Seguiu-se a leitura de excertos de estórias do livro pela filha Sónia Ferro e pelos netos Clara Ferro e Tiago Ferro. No final, a autora autografou o livro para o muito público presente.


Hernâni Matos fazendo a apresentação formal da obra.

A filha Sónia Ferro, lendo um excerto do livro.

Os netos Clara e Tiago Ferro, lendo passagens do livro.

A autora Georgina Ferro, autografando o livro.

A autora
A autora, professora aposentada do 1º ciclo, é natural de Manteigas, onde nasceu a 8 de Dezembro de 1948, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição. Daí que, segundo diz, se tenha sentido “sempre abençoada e protegida por todas as mães: a Mãe Natureza, a Mãe Celestial e a Mãe da Terra”. A autora revela-nos que repartiu o tempo de infância ente Manteigas, Aldeia do Bispo (Sabugal) e Covilhã. Frequentou a Instrução Primária até à 3ª classe em Aldeia do Bispo (Sabugal) e a 4ª classe em Manteigas. Ingressou depois no Ensino Liceal no Colégio de Nossa Senhora Auxiliadora, no Monte Estoril. Em 1967 ingressou na Escola do Magistério Primário de Évora e terminado o Curso, começou a leccionar o Ensino Primário no ano de 1969 em Rosário (Alandroal), a que se seguiram Veiros, Selmes (Vidigueira), Aldeia da Serra e Glória, onde leccionou 32 anos, até se aposentar em 2003.
Fixou-se em Estremoz em 1972 e aqui casou e teve 3 filhos: Sónia, Pedro e Inês. Sem nunca ter perdido os laços afectivos à terra natal e aos territórios da sua infância, Georgina é cumulativamente uma estremocense adoptiva, que tem participado activamente na vida social da Comunidade em múltiplos aspectos: educativos, cívicos e culturais.
Conheço seguramente a Georgina desde o início do exercício do Magistério Primário na Freguesia da Glória, da sua ligação à Comunidade, do seu reconhecimento por parte da mesma e do seu amor às coisas campaniças.
Lembro-me de partilhar há muito com a Georgina uma grande admiração pelo “Ti Rolo” da Aldeia de Cima (Glória), que exercia sobre nós um fascínio incomensurável, pela sua oralidade transbordante e pelos artefactos de arte pastoril nascidos das suas mãos mágicas, nos quais projectava toda a imaginária popular, lavrada em chifres e paus sabiamente escolhidos.
Lembro-me do nascimento da sua filha Sónia e tive o privilégio de ser professor de Física de 12º ano do seu filho Pedro. Foi uma experiência encantadora, pois além do Pedro ser um aluno fortemente motivado, eu tive oportunidade de pôr em prática o método de ensino-aprendizagem personalizado, preconizado por muitos pedagogos. É que o Pedro era o único aluno da turma. Nenhum de nós deixou os seus créditos por mãos alheias e a experiência pedagógica foi um êxito.
Lembro-me do envolvimento da Georgina no Projecto Serra de Ossa, desde o início, no tempo da liderança de Gil Malta e de ela ter participado em 1998, conjuntamente com outros professores, entre os quais eu me incluo, nas “Segundas Jornadas da Serra d’Ossa”, levadas a efeito na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. A sua bem-sucedida intervenção oral nessas jornadas, foi o embrião dos seus primeiros livros, publicados ambos em 2005: “Plantas Medicinais da Serra d'Ossa” e “Por um Amanhã Mais Verde, Mezinhas Caseiras com Plantas da Serra d'Ossa”.
Em Setembro de 2012, a Georgina concedeu-me o privilégio de participar na apresentação pública do meu livro “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, o que muito me congratulou.
Em Dezembro de 2013 a Georgina brindou-nos com o lançamento do seu livro de poesia “O MEU ARRAIAR POR TERRAS DO SABUGAL”, editado pela Colibri, o qual foi apresentado na Casa de Estremoz pela Maria do Céu Pires e pela Francisca de Matos.
Desta feita, coube-me a mim fazer a apresentação formal do seu mais recente livro “NA JANELA DO TEMPO / TRADIÇÃO, CONTRABANDO E EMIGRAÇÂO”, na sequência do convite que me foi endereçado pela autora e que eu gostosamente aceitei.


A obra
Fisicamente é um livro brochado, de 22,8 x 16 cm e 236 páginas, dado à estampa pelas prestigiadas Edições Colibri de Fernando Mão de Ferro. Tem capa a cores de Raquel Ferreira, gizada a partir de fotografia de Abel Cunha. Na primeira badana figura uma pequena biografia e a fotografia da autora e na segunda badana, um excerto de uma das estórias do livro. Este tem prefácio de José Carlos Lage, o qual confessa que é “Fácil e ao mesmo tempo difícil” falar das poesias e das crónicas de Georgina. Por sua vez, em posfácio impresso na contracapa, Francisca de Matos afirma e muito bem, que “Esta obra é, sobretudo, uma grande lição de vida, um legado que não deve, não pode ser esquecido”.
O livro é um livro de estórias ou não fosse Georgina, para além de notável poetisa, uma extraordinária contadora de estórias. Não estórias quaisquer, nem tão pouco inventadas ou arquitectadas, mas estórias reais ocorridas no tempo da sua infância, repartida entre Manteigas, Aldeia do Bispo (Sabugal) e Covilhã.
São estórias com personagens reais, de carne e osso, como o Ti Júlio, a Ti Mariana, a Senhora Isabel Augusta, o Ti Zé Ramos, a Menina Zéfinha, o tio António Pantalona, o tio Zé Manso e não sei quantos mais, numa infinidade numerável que não consegui quantificar. São eles que constituem aquilo que com orgulho, Georgina chama “A Minha Gente”.
São estórias contadas e redigidas numa escrita fluida e ágil, eficaz na pintura descritiva das paisagens rurais e do interior das casas aldeãs. Escrita que é também uma partilha intimista das emoções e sentimentos dos personagens, incluindo Georgina, também ela própria, personagem por direito próprio e inalienável. Tudo sempre minuciosamente filigranado ao pormenor, numa linguagem rica, valorizada pelo uso de vocábulos regionais, cujo sentido, se necessário pode ser decifrado num glossário que antecede o índice final.
São estórias do tempo em que nas aldeias se tocavam as Trindades.
As hortas eram regadas com água tirada das noras e das picotas. Comia-se daquilo que a terra dava e em situações de carência havia partilha e entreajuda ente vizinhos e familiares. Todavia, a falta de dinheiro para bens de mercearia e para comprar entre outras coisas, petróleo para alumiar, levavam alguns, mais aflitos e mais afoitos, a entrar no contrabando através da raia de Espanha ou a dar o salto para França.
Apesar de tudo ou talvez por isso, rezava-se a Deus, à Mãe de Jesus, ao Anjo da Guarda e a Santo Antão para proteger o gado.
A menina Zefinha andava de taleigo à cabeça, a ti Mariana remendava as ceroulas do Ti Júlio e a ti Neves do Ti Júlio punha-lhe ventosas e papas de linhaça, a ver se ele arribava.
A roupa era cosida, remendada e transformada, passando dos mais crescidos para os mais pequenos. O pão era amassado de tarde para ficar a dormir à noite e os mais velhos davam a bênção aos mais novos antes destes adormecerem.
Isto e muito mais, são registos de memórias de tempos idos dos personagens do livro. Tempos e vivências difíceis e duras, mas também de afectos, partilhas e tradições numa Comunidade onde Georgina nasceu e cresceu, com a qual se identifica e que pela mesma é reconhecida e idolatrada.
Georgina é, pois, uma guardadora de memórias, muitas delas guardadas no presente livro e que por serem reconhecidas pela Comunidade que a viu nascer e crescer, integram a memória colectiva local e contribuem com a sua quota parte para a memória colectiva regional e para a memória colectiva nacional.
É a memória colectiva que nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns.
É a memória colectiva que nos permite aprender com os erros e sucessos do passado, o que é essencial para o desenvolvimento e a evolução da sociedade.
A memória colectiva desempenha um papel crucial no exercício da cidadania e da democracia, pois é através da memória colectiva que as lutas e conquistas dos nossos antepassados são lembradas e honradas, incentivando a luta por um futuro melhor e mais justo.
Daí a importância de que se reveste o livro, cuja leitura vivamente recomendo.

Hernâni Matos

domingo, 29 de setembro de 2024

Pim! Onde é que já se viu uma Georgina assim?

 

Na mesa, da esquerda para a direita: Fernando Mão de Ferro (Edições Colibri).
Georgina Ferro (autora) e Hernâni Matos (apresentador).
Fotografia de Maria Helena Figueiredo.


Apresentação do livro
de Georgina Ferro.
Sociedade de Artistas Estremocense.
Estremoz, 28 de Setembro de 2024.
Hernâni Matos

 


Minhas Senhoras e Meus Senhores:
Senão houver objecções, a minha conversa convosco constará de três partes:
1 - Onde te vieste meter, Hernâni?
2 - Deixem-me lá agora falar do livro!
3 - E quanto a mim, que penso eu?
Vou então começar, pois embora a jornada não seja longa nem fastidiosa, daqui a bocado são horas de ir lanchar e ninguém esta autorizado a lanchar por mim.

Onde te vieste meter, Hernâni?
Se bem me lembro, conheço seguramente a Georgina desde o Tempo da Outra Senhora. Do exercício do Magistério Primário na Freguesia da Glória, da sua ligação à Comunidade, do seu reconhecimento por parte da mesma e do seu amor às coisas campaniças.
Lembro-me de partilhar há muito com a Georgina uma grande admiração pelo “Ti Rolo” da Aldeia de Cima, que exercia sobre nós um fascínio incomensurável, pela sua oralidade transbordante e pelos artefactos de arte pastoril nascidos das suas mãos mágicas, nos quais projectava toda a imaginária popular, lavrada em chifres e paus sabiamente escolhidos.
Lembro-me do nascimento da sua filha Sónia e tive o privilégio de ser professor de Física de 12º ano do seu filho Pedro. Foi uma experiência encantadora, pois além do Pedro ser um aluno fortemente motivado, eu tive oportunidade de pôr em prática o método de ensino-aprendizagem personalizado, preconizado por muitos pedagogos. É que o Pedro era o único aluno da turma. Nenhum de nós deixou os seus créditos por mãos alheias e a experiência pedagógica foi um êxito.
Lembro-me do envolvimento da Georgina no Projecto Serra de Ossa, desde o início, no tempo da liderança de Gil Malta e de ela ter participado em 1998, conjuntamente com outros professores, entre as quais este vosso amigo, nas “Segundas Jornadas da Serra d’Ossa”, levadas a efeito na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. A sua bem-sucedida intervenção oral nessas jornadas, foi o embrião dos seus primeiros livros, publicados ambos em 2005:
- Plantas medicinais da Serra d'Ossa
- Por um Amanhã Mais Verde, Mezinhas caseiras com Plantas da Serra d'Ossa
Em Setembro de 2012, a Georgina concedeu-me o privilégio de participar na apresentação pública do meu livro “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, o que muito me congratulou.
Em Dezembro de 2013 a Georgina brindou-nos com o lançamento do seu livro de poesia “O MEU ARRAIAR POR TERRAS DO SABUGAL”, editado pela Colibri, o qual foi apresentado na Casa de Estremoz pela Maria do Céu Pires e pela Francisca de Matos.
Passados estes anos todos, estas nossas amigas resolveram não reincidir e passaram-me o testemunho, pelo que à falta de melhor, aqui estou eu, de peito descoberto, a apresentar o livro que está na ordem do dia, o livro da autoria da nossa amiga Georgina, que em boa hora aqui nos trouxe.
Tudo estaria bem se a Francisca de Matos, ignorando que sou um pés de chumbo, não me tivesse proposto entrar nesta dança, aqui mesmo neste belo salão da Sociedade Artistas Estremocense, onde actualmente até se dão aulas de dança. Vamos lá a ver se não me espalho ou não brindo alguém com uma pisadela mestra.

Deixem-me lá agora falar do livro!
Está aqui à vossa vista. Fisicamente é um livro brochado, de 22,8 x 16 cm e 236 páginas. O seu título é NA JANELA DO TEMPO – TRADIÇÃO, CONTRABANDO E EMIGRAÇÂO – BEIRA INTERIOR e a autora, claro está, é a nossa amiga Georgina. O livro foi dado à estampa 78 prestigiadas Edições Colibri de Fernando Mão de Ferro e tem capa a cores de Raquel Ferreira,78 gizada a partir de fotografia de Abel Cunha. Na primeira badana figura a biografia e a fotografia da autora e na segunda badana, um excerto de uma das estórias do livro. Este tem prefácio de José Carlos Lage, o qual confessa que é “Fácil e ao mesmo tempo difícil” falar das poesias e das crónicas de Georgina. Por sua vez, em posfácio impresso na contra-capa, Francisca de Matos afirma e muito bem, que “Esta obra é, sobretudo, uma grande lição de vida, um legado que não deve, não pode ser esquecido”.

E quanto a mim, que penso eu?
O livro é um livro de estórias ou não fosse Georgina, para além de notável poetisa, uma extraordinária contadora de estórias. Não estórias quaisquer, nem tão pouco inventadas ou arquitectadas, mas estórias reais ocorridas no tempo da sua infância, repartida entre Manteigas, Aldeia do Bispo - Sabugal e Covilhã.
São estórias com personagens reais, de carne e osso, como o Ti Júlio, a Ti Mariana, a Senhora Isabel Augusta, o Ti Zé Ramos, a Menina Zéfinha, o tio António Pantalona, o tio Zé Manso e não sei quantos mais, numa infinidade numerável que não consegui quantificar. São eles que constituem aquilo que com orgulho, Georgina chama “A Minha Gente”.
São estórias contadas e redigidas numa escrita fluida e ágil, eficaz na pintura descritiva das paisagens rurais e do interior das casas aldeãs. Escrita que é também uma partilha intimista das emoções e sentimentos dos personagens, incluindo Georgina, também ela própria, personagem por direito próprio e inalienável. Tudo sempre minuciosamente filigranado ao pormenor, numa linguagem rica, valorizada pelo uso de vocábulos regionais, cujo sentido, se necessário pode ser decifrado num glossário que antecede o índice final.
São estórias do tempo em que nas aldeias se tocavam as trindades.
As hortas eram regadas com água tirada das noras e das picotas. Comia-se daquilo que a terra dava e em situações de carência, havia partilha e entreajuda ente vizinhos e familiares. Todavia, a falta de dinheiro para bens de mercearia e para comprar entre outras coisas, petróleo para alumiar, levavam alguns, mais aflitos e mais afoitos, a entrar no contrabando através da raia de Espanha ou a dar o salto para França.
Apesar de tudo ou talvez por isso, rezava-se a Deus, à Mãe de Jesus, ao Anjo da Guarda e a Santo Antão para proteger o gado.
A menina Zefinha andava de taleigo à cabeça, a ti Mariana remendava as ceroulas do Ti Júlio e a ti Neves do Ti Júlio punha-lhe ventosas e papas de linhaça, a ver se ele arribava.
A roupa era cosida, remendada e transformada, passando dos mais crescidos para os mais pequenos. O pão ara amassado de tarde para ficar a dormir à noite e os mais velhos davam a bênção aos mais novos antes destes adormecerem.
Isto e muito mais são registos de memórias de tempos idos dos personagens do livro. Tempos e vivências difíceis e duras, mas também de afectos, partilhas e tradições numa comunidade onde Georgina nasceu e cresceu, com a qual se identifica e que pela mesma é reconhecida e idolatrada.
Georgina é, pois, uma guardadora de memórias, muitas delas guardadas no presente livro e que por serem reconhecidas pela comunidade que a viu nascer e crescer, integram a memória colectiva local e contribuem com a sua quota parte para a memória colectiva regional e para a memória colectiva nacional.
É a memória colectiva que nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns.
É a memória colectiva que nos permite aprender com os erros e sucessos do passado, o que é essencial para o desenvolvimento e a evolução da sociedade.
A memória colectiva desempenha um papel crucial no exercício da cidadania e da democracia, pois é através da memória colectiva que as lutas e conquistas dos nossos antepassados são lembradas e honradas, incentivando a luta por um futuro melhor e mais justo.
Daí a importância de que se reveste o livro NA JANELA DO TEMPO – TRADIÇÃO, CONTRABANDO E EMIGRAÇÂO – BEIRA INTERIOR, da autoria de Georgina, o que me leva a proclamar:
- PIM! ONDE É QUE SE VIU UMA GEORGINA ASSIM?
Para a Georgina peço uma calorosa salva de palmas.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 29 de Setembro de 2024