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sábado, 31 de outubro de 2026

ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos

 


ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos


- Exposição ARTES DO VAGAR - Colecção Hernâni Matos
- ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
- ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!
-  ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás
- Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
-  O recolector - Francisca de Matos
- EXPOSIÇÃO "ARTES DO VAGAR" - Francisco Ramos
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES
 - Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)
- Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 8 - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012)

 

01 – Natália Simões (1924-2012).


Natural de Pavia e irmã das artesãs de papel recortado, Joana Simões e Joaquina Simões. Professora do ensino primário em Estremoz durante toda a sua carreira.

Após a aposentação dedicou-se aquilo a que chamava “pintura judaica” e que lhe foi sugerida pelo seu marido, o professor Aníbal Falcato Alves, intelectual polifacetado, que dedicou parte da sua vida à recolha de tradições da região Alentejo, entre elas as artes populares. Foi ele que recolheu um exemplar daquilo que é designado por “pintura judaica”, uma tipologia de arte popular alentejana cuja origem se perde na lonjura dos tempos. Depois de estudar o modo como o mesmo tinha sido executado, sugeriu a Natália o procedimento a seguir, visando recuperar e preservar a antiga tradição. Natália correspondeu ao desafio e recuperou a arte tradicional. Trata-se de uma pintura em vidro, na qual primitivamente, o vidro era pintado com betume judaico, sobre o qual era desenhado minuciosamente a lápis de carvão, o contorno do motivo decorativo. O interior desse contorno era seguidamente raspado, sobrepondo-se então papel de prata às zonas raspadas, as quais conferiam ao conjunto um aspecto de requintada peça de ourivesaria. Mais tarde, substituiu o uso do papel de prata pela pintura das zonas raspadas com tintas de outras cores. De resto, numa natural evolução, também a pintura com betume judaico viria a ser substituída pela pintura com spray.

A recolha etnográfica do marido fora o ponto de partida para a descoberta e para tudo o que se lhe seguiu, pois a Natália, criadora nata, revolucionou este tipo de trabalho artístico, catapultando-o à dimensão daquilo que sem ela não seria sequer imaginável.

Num texto de 1965, intitulado “VIDRO RENDILHADO”, o escritor neo-realista e médico Fernando Namora, referindo-se ao trabalho de Natália, disse com precisão cirúrgica: “Nestas mãos pacientes, que rendilham a superfície fosca e árida do vidro como se de bordados de oiro ou prata se tratasse, reaviva-se uma tradição artesanal e espelha-se o Alentejo onde o tempo modera o seu frenesi, contido pela charneca lânguida, espreguiçada, que dissolve a alucinação das vidas e empresta aos gestos um labor alentejano saboreado. O tempo, pois, não conta para estas mãos minuciosas, mãos alentejanas, que corrigem a placidez dos dias com uma arte de imaginação opulenta, recreada em filigranas e arabescos, a destoar, como um protesto da severidade do ambiente.”

Natália Simões participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizou exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.


Estremoz, 30 de Outubro de 2026
(Jornal E nº 389, de 30-10-2026)

02 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, com decoração fitomórfica e
 zoomórfica, polícroma com prata em fundo negro. Moldura elíptica. 71 x 46,5 cm.

03 - Pintura judaica. Composição de simetria axial, que inclui Nossa Senhora da
Conceição, com cercadura de decoração fitomórfica e encimada pelo Sol. Decoração
polícroma com prata em fundo negro. Moldura quadrada. 44 x 44 cm.


04 - Pintura judaica. Composição constituída por monograma FH ao centro, inscrito
num campo de flores de forma circular, por sua vez inscrito num campo de flores de
forma quadrada. Em dourado sobre fundo azul escuro. Moldura quadrada. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Pintura judaica. Alegoria da Primavera. Composição constituída por
uma cercadura com decoração fitomórfica e geométrica, no centro da qual
um “putti” configura pôr uma coroa de flores na cabeça de outro. Em 
dourado sobre fundo azul. Moldura elíptica. 30 x 28 cm.

Publicado no jornal E nº 389, de 30 de Outubro de 2026

domingo, 18 de outubro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005)

 

01 - Joana Simões (1912 - 2011) e Joaquina Simões (1914 - 2005).


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Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz
O recolector - Francisca de Matos
EXPOSIÇÃO "ARTES DO VAGAR" - Francisco Ramos
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
rtes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
rtes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 7 - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Autor desconhecido (Joana Simões e Joaquina Simões)
e Luís Dias (peças)

Irmãs, naturais de Pavia. Joana Simões foi durante largos anos professora do ensino técnico em Estremoz, no qual leccionou lavores femininos. Por sua vez, Joaquina Simões fez carreira como professora do ensino primário em Pavia, onde cultivou sempre o gosto pelas artes tradicionais da região.

Após a aposentação dedicaram-se à arte do papel recortado, procurando recuperar a fase erudita do mesmo. Só então o fizeram por entenderem que é uma arte que exige disponibilidade de tempo e tranquilidade de espírito.

Vejamos qual o procedimento seguido no recorte do papel. Cada irmã desenhava o seu próprio trabalho numa folha de papel à parte, donde depois era copiado tantas vezes quantos as necessárias para uma folha de papel branco de tipografia. Seguia-se o recorte do papel, tarefa que era repartida entre as duas irmãs, pelo que cada trabalho constitui uma criação a duas mãos. Joana começava por recortar o papel, mas quem apurava os recortes era Joaquina que tinha uma vista mais apurada e uma mão mais firme. Havia seguidamente a necessidade de passar cada trabalho a ferro quente para alisar o papel. Para finalizar cada trabalho de papel recortado era assente num fundo escuro e emoldurado com vidro.

Para recortar o papel, as irmãs Simões utilizavam 12 tesouras muito bem afiadas, umas de bico recurvado, outras para cortar a direito, sobressaindo no conjunto três muito especiais, vindas da China. Em 1987, o poeta António Simões, num texto admirável a que deu o título de “JOANA E JOAQUINA SIMÕES E AS TESOURAS DE VENTO” interroga-se: “Como é possível recortar-se papel desta maneira?” perguntam-se todos os que contemplam os seus trabalhos, perplexos perante uma maestria na fronteira do inacreditável.”

As irmãs Simões começaram por fazer trabalhos que configuravam naperons de renda, só que esta era de papel. Ao recortarem papel com uma simples tesoura, a superfície deste animava-se como se agulhas e linhas a estivessem bordando. Estes trabalhos apresentavam simetria radial. Depois aparecem outros com simetria axial e mais tarde outros completamente assimétricos.

A geometria dos trabalhos é em geral circular, quadrangular ou rectangular, tanto horizontal como vertical.

A decoração inclui motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, combinados de diferentes modos.

Nos seus trabalhos figuram pássaros a voar e outros pousados, em especial pavões. Surgem também flores, entre elas cravos e amores perfeitos, vasos de flores e campos de flores, letras capitulares de iluminura, desenhos de perfil filigranado e labirintos em papel rendilhado.

A dado momento passam a subscrever a autoria do trabalho de papel recortado, apondo por baixo a assinatura “Simões”, também ela em papel recortado.

Participaram nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e realizaram exposições em Estremoz, Monforte, Pavia e Festa do Avante.

Hernâni Matos 

02 - Papel recortado. Branco. Letra capitular H. Inscrita num campo quadrangular com
decoração fitomórfica e zoomórfica. Este, por sua vez, está encostado ao canto superior
direito doutro campo quadrangular mais vasto, com decoração igualmente fitomórfica
e zoomórfica, da qual se destaca um pavão. Assinatura de autoria em papel recortado.
32,5 x 32,5 cm.

03 - Papel recortado. Branco. Letra capitular F. Inscrita num campo quadrangular com
decoração fitomórfica e zoomórfica. Este, por sua vez, está encostado ao canto superior
direito doutro campo quadrangular mais vasto, com decoração fitomórfica e zoomórfica,
da qual sobressai um vaso do qual emerge decoração floral com um par de pavões e
simetria axial. Assinatura de autoria em papel recortado. 36 x 36 cm.

04 - Papel recortado. Branco. Composição com motivos fitomórficos. Nela um campo
central e circular está preenchido por amores perfeitos e campainhas. Por sua vez,
este campo central está inscrito num campo quadrangular, densamente preenchido
com flores de diferentes tipos, numa distribuição com simetria axial. Assinatura de
autoria em papel recortado. 32,5 x 32,5 cm.

05 - Papel recortado. Azul. Composição com motivos geométricos, fitomórficos e
zoomórficos, desvendando uma assimetria completa. Nela, em primeiro plano três
ceifeiras em plena faina com o sol a pino. Em segundo plano, árvores, porventura
sobreiros, esvoaçados por aves. Em terceiro plano um monte alentejano.
27,5 cm de diâmetro.

Publicado no jornal E nº 388, de 16 de Outubro de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A “Alegoria da Música” no figurado de Estremoz

 

Alegoria da Música. Jorge da Conceição.


UM TEXTO DO BARRISTA JORGE DA CONCEIÇÃO


A ideia de produzir uma figura alegórica relativa à música partiu do colecionador Prof. Hernâni Matos, amigo e cliente de há longa data, a propósito de uma exposição que estava a planear fazer, alusiva à representação do tema Música no figurado de Estremoz.

São sobejamente conhecidas as figuras do mundo rural e urbano a tocar harmónio, a banda de música que acompanha a procissão do Sr. dos Passos (muitas vezes vendida em separado das restantes figuras da procissão), bem como as variadíssimas figuras de assobio. Em todas estas tipologias a coleção de figurado de Estremoz do Prof. Hernâni Matos é rica e variada. Faltava, no entanto, uma figura alegórica alusiva à Música. Com efeito, no conjunto das figuras alegóricas, em que as mais conhecidas são as Primaveras, as Bailadeiras e o Amor é Cego, não existia uma representação alegórica da música, pois  a mesma nunca terá sido feita pelos barristas em todos estes séculos de produção de Bonecos de Estremoz.

 Assim, colmatar essa lacuna foi o desafio que me foi colocado e que aceitei com muito agrado e motivação.

 Usei como inspiração várias representações clássicas de Euterpe, a musa da música na mitologia grega, e repassei à exaustão imagens das figuras alegóricas de figurado de Estremoz, dos séculos XVIII e XIX, que temos o privilégio de ter no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho.

 Depois, deixando trabalhar a imaginação e imprimindo o meu próprio estilo, acabou por nascer a minha interpretação da Alegoria da Música. É uma figura na linha das Bailadeiras, com uma roupagem clássica enriquecida com atributos muito característicos das nossas figuras alegóricas, que ostenta uma lira e uma flauta. Trata-se de uma peça com uma função decorativa mas também utilitária, tal como muitas das nossas figuras alegóricas, que podem ser usadas como castiçais ou paliteiros. Neste caso a figura pode servir como paliteiro utilizando os furos da flauta.

 Toda a estética da figura que desenvolvi, desde a forma e decoração da base, à postura do corpo da figura, ao acabamento final e ao grau de serenidade e candura que transmite, foi trabalhada para ser completamente fiel à estética tão característica dos nossos Bonecos de Estremoz e, como não podia deixar de ser, ao meu estilo pessoal.

 Foi com alegria que registei a aceitação da peça que concebi e é motivo de muito orgulho constatar que foi a minha criação a selecionada para ilustrar o cartaz da exposição.

Jorge da Conceição
Estremoz, Maio de 2026

Hernâni Matos

domingo, 5 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES

 

Teresa Serol Gomes a trabalhar no pátio da sua residência em Estremoz.

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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Marta Pereira e de
 Arquivo Fotográfico da CME (Teresa Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

2 - TERESA SEROL GOMES (1952-1988)

Filha de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmã de Miguel Serol Gomes (1957- ), nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos) e fez a instrução primária na escola da freguesia. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferira com a família. É nessa altura que começa a trabalhar com o pai. Por falecimento deste em 1974, dá continuidade ao seu legado artístico, utilizando as mesmas técnicas e tipo de decoração, porém com um cunho muito pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças e madeira: plátano, nogueira e choupo. Não trabalhou em chifre.

Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, candeeiros de cabaça, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, bases de copos e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera, Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém) e Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz 


Stand de Teresa Serol Gomes na II Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz (1984).

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos e geométricos, com tampa.
28 x15 cm.

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos, com tampa em madeira
e correia em couro para transporte. 15 x 12 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, zoomórfica e antropomórfica. Escudo monogramado com as letras
T, A, L, encimado por uma chave. 70 x 9 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, fitomórfica, zoomórfica, antropomórfica e religiosa (Natividade de Jesus). 
82 x 9 cm.       

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa, 
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 69 x 2 cm.

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa,
fitomórfica. 66,5 x 2 cm.


Publicado no jornal E nº 383, de 3 de Julho de 2026




domingo, 31 de maio de 2026

Exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ - Galeria Municipal D. Dinis

 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 


Integrada no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, foi inaugurada pelas 17 horas de sábado, dia 16 Maio, na Galeria Municipal D. Dinis, a exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS.

No evento participaram cerca de 4 dezenas de convidados, os quais foram conduzidos pelo expositor numa visita guiada à exposição.

No certame está patente ao público um total de 281 exemplares seleccionados do acervo pessoal de diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz pertencentes à colecção particular do expositor.

Os Bonecos de Estremoz expostos são da autoria de 21 barristas: Ana Bossa, Ana Catarina Grilo, Ana das Peles, Carlos Alberto Alves, Duarte Catela, Fátima Estróia, Inês da Conceição, Inocência Lopes, Irmãs Flores, João Sousa, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Manuel Broa, Mariano da Conceição, Maria Luísa da Conceição, Mário Lagartinho, Quirina Marmelo, Ricardo Fonseca e Sabina da Conceição Santos.

A mostra estará patente ao público até ao próximo dia 6 de Setembro.

Hernâni Matos

Estremoz, 31 de Maio de 2026












terça-feira, 26 de maio de 2026

O recolector

 

Francisca de Matos. Professora. Foto de Luís Mariano Guimarães.


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Na abertura do catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR

PALAVRAS DA PROFESSORA

FRANCISCA DE MATOS


Conheço o Hernâni Matos há já muitos anos e nunca tive dúvidas de que nasceu para ser recolector, vocábulo de etimologia latina que, em sentido literal, significa aquele que tem por hábito recolher ou reunir. Na verdade, é este o labor que, desde sempre, dá sentido à sua existência, mas não se pense que o faz sem critério, como bem se prova na presente exposição, constituída por uma diversidade de objectos que são, antes de mais, o resultado de muitos anos de busca atenta junto de contactos pessoais que só um verdadeiro conhecedor possui, de acasos felizes que se dão no tempo e no lugar certos e do respeito que sente pelo trabalho destes artesãos que se perpetuaram através da sua arte. É ainda o resultado de um olhar treinado, e sobretudo informado, por muitos anos de leituras e de pesquisas incansáveis em livros e publicações sobre etnografia e etnologia, que foi igualmente reunindo e que são o chão da sua sólida (in)formação neste campo. É isso que lhe permite reconhecer, na sua habitual visita ao mercado de sábado e num simples relance, o valor ou o sentido verdadeiro de objectos incríveis que já poucos reconhecem e menos ainda valorizam.

Esta colecção que agora se apresenta ao público é também uma espécie de galeria de honra muito pessoal, constituída a partir da profunda admiração que o Hernâni Matos sente por cada dos artesãos aqui representados. Eles são para ele - sem desprimor de outros - uma verdadeira elite da chamada Arte Popular e Conventual Alentejana, na sua maioria autodidactas formados na grande escola da vida, mas senhores de grande sensibilidade e de um domínio técnico e artístico que não está ao alcance de qualquer um. Dela fazem parte objectos que contam histórias de outros tempos em que o vagar era coisa preciosa, que aproveitavam para dar largas à sua criatividade e para se abstraírem da aridez dos dias. Objectos que eram, para alguns, a única forma possível de beleza a que podiam aceder: a que eles criavam com as suas próprias mãos e com o auxílio de instrumentos e materiais também eles muito simples, de uso comum e a que tinham fácil acesso: o canivete, a madeira, as cabaças criadas na horta caseira, os chifres dos animais abatidos para alimentação... Objectos que, podendo ser funcionais, retratam tradições e costumes antigos de um povo e de uma região... Outros, de elaboração mais intrincada e exigente, exprimem crenças ou revelam, na graciosidade dos seus rendilhados e volutas, uma perícia técnica que deslumbra o olhar e que funciona, para quem os contempla (e talvez também para quem os fez com tanta mestria), quase como uma mandala de meditação.

Estes objetos fascinantes que o Hernâni Matos, com tanto afã, tem resgatado do esquecimento e da indiferença falam, pois, um dialecto próprio que ele conhece como poucos e que lhe enchem o peito de alegria. E como a maioria dos seus criadores já não está entre nós e não deixou discípulos, pode dizer-se que o fatum escolheu mesmo o nosso recolector para ser fiel depositário deste legado que agora partilha publicamente em forma não só de homenagem aos homens e mulheres que lhe deram origem, mas também à terra alentejana que o viu nascer e que ama de forma incondicional. Em boa hora o faz! 


Francisca de Matos
Estremoz, abril de 2026

Hernâni Matos
Publicado em 26 de Maio de 2026

domingo, 24 de maio de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 



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A abrir o catálogo da minha exposição ARTES DO VAGAR

PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

No âmbito da celebração dos 100 anos de elevação de Estremoz a cidade, procuramos proporcionar aos estremocenses uma oferta cultural diversificada, mas que seja também educativa. O objetivo passa fundamentalmente por dar a conhecer o que foram estes 100 anos na cidade, nas mais diversas vertentes.

Assim, lançámos o desafio ao maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente, Hernâni Matos, para que nos fizesse a retrospetiva possível, tendo como pano de fundo a sua coleção, destes últimos 100 anos de artesanato na cidade.

O sucesso desta iniciativa é evidente. Para além de conhecermos as melhores peças da coleção de Hernâni Matos, as novas gerações terão acesso ao trabalho de um conjunto de artesãos já falecidos, que de outra forma não fruiriam.

Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.

Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.

São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz


Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026    

sexta-feira, 22 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: O saber-fazer de há 44 anos atrás

 


 
Como tudo começou

Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício.

O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz correspondeu na época à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos, a partir do “annus mirabilis” de 1983, consensualmente considerado o “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.     


100 anos de elevação de Estremoz a cidade

A convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio e, na condição de “maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente” (palavras suas), concebi uma exposição com base na minha colecção, visando dar uma retrospectiva possível dos últimos 100 anos de artesanato no concelho. Naturalmente que tive de fazer opções relativamente à tipologia de artesanato, o que me levou a excluir sem desprimor algum, o Figurado, a Olaria, a Cerâmica Vidrada e a Azulejaria de Estremoz. Cingi-me então à Arte Pastoril e à Arte Conventual (Papel Recortado, Pintura Judaica e Registos e Maquinetas), as quais decidi expor sob a epígrafe “ARTES DO VAGAR – Colecção Hernâni Matos”. 

Foi esta exposição que no passado sábado, dia 16 Maio, foi inaugurada na Sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho. À “vernissage” compareceram cerca de 6 dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, que usou da palavra a seguir à Directora do Museu, Isabel Água. Ainda que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto: reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem vêem, muito me congratulam e estimulam.

A exposição integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) – Arte Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL SEROL GOMES (1957 -  )  – Arte Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38 trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril (4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos); - NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual - Pintura Judaica – (12 trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte Conventual – Registos e Maquinetas (28 trabalhos).     

Como nos diz no catálogo da exposição o Senhor Presidente da Câmara, “Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.” e acrescenta: “Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.” A terminar diz: “São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.”   

A exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026