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domingo, 16 de agosto de 2020

A Senhora de pezinhos de Ana Catarina Grilo


Senhora de pezinhos (2020). Ana Catarina Grilo (1974-  ). Colecção do autor.

Antelóquio
A modelação e decoração da Senhora de pezinhos tem conhecido inúmeras modificações no decurso dos tempos. Nos finais do século XIX, a figura é representada sem brincos e os componentes do vestuário são pintados. Todavia, Ana das Peles (1869-1945) já adorna a imagem com brincos e modela pela primeira vez a gola do vestido. Segue-se Mariano da Conceição (1903-1959) que mantém aquelas inovações e para além disso modela o botão de fecho da gola. Sabina da Conceição (1921-2005) passa a modelar também o cinto do vestido. Liberdade da Conceição (1913-1990) mantém as inovações introduzidas anteriormente, às quais adiciona a modelação de folhos e punhos das mangas dos vestidos. Por sua vez, as Irmãs Flores (1957, 1958 - ) passam também a modelar os botões das suas figuras, introduzem o padrão no vestuário, aperfeiçoam a representação do penteado e aumentam pormenores na decoração, recorrendo a uma riqueza cromática nunca dantes utilizada. Do exposto se infere que a inovação na modelação e na decoração é um caminho que nunca terá fim.
A figura em si
Ana Catarina Grilo apostou fortemente na modelação do presente exemplar de Senhora de pezinhos. Deste modo, conferiu volumetria a todos os componentes do vestido: gola, punhos, orlas, folhos, botões e laço.
O vestido de cor Bordeaux tem punhos, orlas superiores das mangas, superiores e inferior do vestido, em azul-marinho, que é também a cor do chapéu. A gola, os botões, o folho, o laço do vestido e as luvas são de cor cinza.
Uma extensa, sinuosa e requintada gola cobre os ombros do artefacto. A abotoadura do vestido é nas costas e ao fundo dela, ao nível da cintura, o vestido está ornamentado com um vistoso laço com duas pontas suspensas.   
O gracioso chapéu que cobre a cabeça está ornamentado por uma pluma, folhas, flores silvestres e um pássaro que configura ser um rouxinol. O chapéu deixa a descoberto um vistoso penteado de cabelo castanho. Dois pendentes de ouro, um de cada lado do rosto, potenciam a beleza do mesmo.
O peito do vestido encontra-se embelezado por uma flor que configura ser uma gerbera violeta.
Ao fundo do vestido e à frente, é visível um par de sapatos pretos de bico.
Simbolismos implícitos
Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Bordeaux, cor quente dominante na figuração, que confere um ar clássico e de requinte, transmitindo ideias de nobreza e riqueza; - Cinza, que como cor neutra está associada à estabilidade, à compostura e à sobriedade, conferindo elegância e sofisticação; - azul-marinho, cor fria que induz relaxamento e calma, associada a valores como a serenidade, a estabilidade e a harmonia.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DAS LUVAS, que como vestuário das mãos, fornecem protecção e isolamento do exterior, evitando em termos higiénicos o contacto com algo impuro. Para além de toque de elegância, as luvas traduzem a ânsia de pureza por parte da sua portadora.
Em terceiro lugar, o SIMBOLISMO DO ROUXINOL, conhecido pela perfeição do seu canto e que tem um simbolismo vinculado à obra shakespeariana Romeu e Julieta. É um símbolo do amor e dos sentimentos.
Em quarto lugar, o SIMBOLISMO DA GERBERA, que na linguagem das flores traduz pureza, sensibilidade, amor e alegria.
Remate
Ana Catarina Grilo interpretou a clássica Senhora de pezinhos com uma estética muito pessoal. Modelou um exemplar muito elaborado e decorou-o com um cromatismo de forte significação simbólica. A imagem possui um rosto bem projectado, com olhos, nariz, boca e queixo bem definidos, o mesmo acontecendo com o cabelo e com as maçãs do rosto de ténue tonalidade rosa. A representação do olhar é única. Tudo isto configura serem marcas identitárias da barrista, que consolida passo a passo, a caminhada que encetou. 
Nesta sua recriação da Senhora de pezinhos, Ana Catarina Grilo, introduziu duas inovações: o uso de luvas pelo modelo e a decoração fito-zoomórfica do chapéu. O grau de elaboração da modelação foi elevado, o cromatismo do conjunto foi harmonioso e o simbolismo das cores não foi contraditório. Em suma, Ana Catarina Grilo prendou-nos com uma Senhora de pezinhos bela e elegante, vestindo com requinte e harmonia e cuja imagem transmite uma ideia de pureza e sensibilidade. Trata-se de algo diferente de tudo o que vi até agora, pelo que a barrista está de parabéns.

Hernâni Matos

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O Peralta de Luísa Batalha


Peralta (2020). Luísa Batalha (1959-  ). Colecção do autor.

Trata-se de uma figura antropomórfica masculina de aspecto citadino trajando um fato e um chapéu vistosos e calçando um par de sapatos com sola. A imagem assenta numa base quadrangular com os vértices cortados em bisel, tem topo verde-escuro e orla cor de zarcão.
Ao modelar o Boneco em epígrafe, Luísa Batalha decidiu conceder volumetria a alguns componentes da sua composição. Deste modo, a gola do casaco, os botões do mesmo, o lenço em torno do pescoço, a camisa, a fita do chapéu e o cabelo ondulado foram modelados em barro. Despertam a atenção os vincos das mangas na região dos cotovelos, os quais reforçam a noção de curvatura.
O chapéu tem aba circular voltada para cima e copa de formato cilíndrico, cortada a meio.
A camisa tem colarinho algo revirado para cima e punhos que se destacam das mangas do casaco. Junto ao pescoço um lenço cujas pontas se cruzam junto ao peito.
O fato, os botões do casaco e a fita do chapéu são cor violeta. A gola, a orla do casaco, assim como o chapéu, são cor azul de petróleo (azul-verde). A camisa é branca. O lenço é vermelho e os sapatos são negros. O cabelo é castanho.
Análise
A representação apresenta um rosto bem gizado, com olhos, nariz, boca, queixo e orelhas bem definidas, o mesmo se passando com o cabelo, a que há que acrescentar maçãs do rosto de ténue tonalidade rosa e uma representação do olhar inconfundível. Tudo isto parece ser marcas identitárias da barrista. Para além disso, o modelo tem um perfil e um aspecto elegante, com mãos bem definidas, que fazem lembrar mãos reais, mãos de pessoas de carne e osso. E essas parecem-me ser outras das marcas distintivas da barrista.
A cor dominante no artefacto é a cor violeta, que historicamente está muito associada ao poder e à nobreza. Nunca é encarada como estando ligada à humildade. Usada no vestuário chama a atenção e é vista como um sinal de extravagância. É considerada a cor da vaidade ou seja do sentimento de grande valorização que alguém tem em relação a si próprio.  A vaidade está associada à soberba, crença de alguém ser superior a todos, o que de acordo com o Cristianismo constitui um dos sete pecados capitais. Tendo em conta o conceito de “Peralta” creio que a cor violeta foi a melhor cor escolhida para o vestuário, visando transmitir a ideia de extravagância associada à figuração.
A excelência do trabalho da barrista é merecedor de toda a minha admiração e por isso lhe dou os meus sinceros parabéns. Formulo ainda votos de que continue a trilhar com êxito a senda recentemente iniciada.


Luísa Batalha pintando o Peralta.

sábado, 8 de agosto de 2020

Isto aqui é o da Joana!


Joana Oliveira (1978- ) a modelar uma Primavera de arco.

Joana:
A força do seus bonecos resulta de procurar ser sempre igual a si própria, na inquietude louvavelmente permanente do seu espírito, que a leva e muito bem a procurar novos caminhos, sem ceder a práticas de modelação e decoração codificadas, que são património de outra época e que uma certa nomenklatura defende e exige para que uma figura possa ser considerada um Boneco de Estremoz.
Dentre os barristas que a precederam, alguns foram capazes de se libertar de uma certa "praxis corporativa", outros não.
Os primeiros libertaram-se e libertaram a Arte Popular de uma condenação à morte por fossilização, ao recusarem-se a produzir figuras que replicassem com maior ou menor fidelidade, o que fizeram os barristas de há 200 ou 300 anos atrás, noutro contexto sociológico.
Os segundos continuaram a produzir à maneira antiga, como se integrassem uma linha de produção que não pode parar e na qual são peças duma engrenagem que há quem defenda que se deve limitar a reproduzir a estética e os modelos que povoam as vitrinas de alguns museus. A meu ver, nada de mais errado.
A Arte e em particular a Arte Popular não são estáticas, reflectem sempre uma época com os seus problemas e os seus anseios. As identidades culturais não pararam no tempo, foram-se modificando e recriaram-se, criando novos paradigmas que persistirão até que as dinâmicas sociais e artísticas gerem novos paradigmas. Haverá sempre Homens e Mulheres cuja inquietude pesa na gestação de novos paradigmas.
Parabéns Joana, por ser uma dessas Mulheres!
Parabéns Joana, por nos deixar felizes com as suas criações! 
Parabéns Joana pelos desafios que lança a si própria e a nós próprios.
Obrigado por nos mostrar que a barrística popular está viva e tem pernas para andar. São novas e importantes passadas a caminho do Futuro.
O Futuro já começou!



Joana Oliveira afina pormenores de uma Primavera de arco.

Com a Guarda de Honra de duas Primaveras de Arco, Joana Oliveira modela
uma Nossa Senhora da Conceição.

Primavera de arco (2020). Joana Oliveira (1978-  ). Colecção do autor.

Passeio de Santo António com o Menino Jesus (2020). Joana Oliveira (1978- ).
Colecção de Alexandre Correia.

Sermão de Santo António aos peixes (2020). Joana Oliveira (1978- ).
Colecção de Alexandre Correia.

domingo, 2 de agosto de 2020

Ana das Peles e Sá Lemos


Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves, em Estremoz. Carlos Alves (1958- ).
Colecção do autor.





A mais recente criação do barrista Carlos Alves intitula-se “Ana das Peles e Sá Lemos”. A obra agora divulgada visa perpetuar no barro a Memória do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971) que nos anos 30 do séc. XX, atribuiu a si próprio a missão de recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz. Visa igualmente perpetuar a Memória de Ana das Peles (1869-1945), velha bonequeira que foi o instrumento primordial dessa recuperação.
Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa ocorrida em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português, promovida em Lisboa.
Os Bonecos de Ana das Peles, foram nestas exposições, um ex-líbris de excelência da cidade de Estremoz. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram, simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de grande qualidade. Os Bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente grande notoriedade pública.
A 19 de Fevereiro de 2020 completaram-se 75 anos sobre a morte de Ana das Peles. A velha barrista partiu, mas os seus bonecos ficaram como imagem de marca da nossa identidade cultural local e transtagana, testemunho e herança de uma época. Os seus gestos de modeladora de sonhos, continuam a ser repetidos, ainda que recriados pelos barristas de hoje. Por isso Ana das Peles é imortal e os Bonecos de Estremoz serão eternos.
Ana das Peles é uma figura que pela sua acção desempenhou um papel de relevo na construção da Memória de Estremoz, pelo que não pode ser olvidada nas páginas da História local.  Daí que o barrista Carlos Alves tenha modelado o conjunto em epígrafe, inspirando-se numa bem conhecida fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988), datada de 1935 e que representa ”Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola Industrial António Augusto Gonçalves”.
Parabéns Carlos por mais este trabalho, que além de homenagear Sá Lemos e Ana das Peles, vem enriquecer e de que maneira, a já vasta Galeria dos Bonecos da Inovação.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Acerca de Senhoras de pezinhos


Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves.

Dedicatória
O presente texto é dedicado a todos os barristas que frequentaram o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que em 2019 teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Tem por finalidade dar-lhes uma visão polifacetada duma figura que modelaram durante o Curso.
A sua publicação foi antecedida duma consulta ao barrista Jorge Conceição, Professor do Curso, visando a emissão de um parecer sobre o mesmo, não se desse o caso de inadvertidamente estar a defender pontos de vista contrários ao que foram ensinados no Curso.
O Professor Jorge Conceição emitiu um parecer, no qual após várias considerações, termina dizendo: Em resumo, acho o seu texto muito completo e uma mais-valia para todos os barristas terem como referência, quer os novos quer os antigos e não vai em nada contra o que ensinámos no curso. Acho igualmente que mesmo que alguma das características que refere não tenha sido aplicada em peças antigas, tudo o que descreve é parte dessa época e poderá perfeitamente ser usado na recriação de peças que se façam agora. 
Uma figura da tradição
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
É possível recuperar a figura da Senhora de pezinhos, reinterpretando-a através dos seus componentes, o que é possível concretizar de inúmeras maneiras.
Forma do vestido
A forma tronco-cónica da parte inferior do vestido, poderá ter maior ou menor inclinação em relação à horizontal. Em alternativa, poderá ser armada em forma de balão.
Fecho do vestido
O vestido poderá ser fechado à frente e abrir atrás, apresentando aqui uma abotoadura vertical.
Poderá igualmente abrir à frente e apresentar aqui a abotoadura vertical.
O vestido pode ser fechado até acima e poderá ter ou não gola ou coloarinho, os quais apresentarão abotoadura.
Poderá alternativamente apresentar decote de tamanho variável e de forma variável (circular ou quadrada).
Os ombros poderão ou não estar a descoberto.
Manga
O vestido poderá ter manga comprida com punhos, com ou sem abotoadura. Poderá ter manga curta, a qual poderá ser em balão. Poderá não ter manga por ter alças ou ser um cai cai.
Superfície do vestido
A superfície do vestido poderá ser lisa, plissada, apresentar folhos ou pode ser decorada com aquilo que configure renda ou aplicações em feltro.
Cor do vestido
Depois há a questão da cor do vestido, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
As cores são sempre muito importantes. O simbolismo das cores e dos elementos usados no padrão da roupa, são de ter em conta. As cores devem ligar umas com as outras e ser contrastantes para diferenciar os diferentes componentes da figura. A partir delas pode-se caracterizar a figura e dar-lhe alma. Só vida é que não.
Cintura
A cintura do vestido pode ser na posição normal ou situar-se logo abaixo do busto (Período Império: 1804-1813). Com a cintura na posição normal é possível cingir a cintura com uma fita atada atrás em forma de laço. A cintura pode igualmente ser cingida por um cinto com uma vistosa abotoadura ou fivela à frente ou atrás.
Cabeça da figura
A cabeça da Senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa ou por uma ou mais flores. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, folhas secas, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Mãos
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: luvas, leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e sombrinha.
As luvas compridas ficam bem se o vestido tiver manga curta ou for um vestido cai cai. Penso que no caso da modelação incluir uma sombrinha, esta deverá ter o cabo apoiado num dos pulsos e a sombrinha parcialmente embutida no vestido e apoiada no sapato ou no ar, mas nunca tocando no chão. Só assim não se violará o "dogma" do assentamento da Senhora se verificar apenas nos pezinhos e na parte de trás da saia.
Jóias
Se o vestido for decotado, fica bem uma jóia ao pescoço. Se o vestido não tiver mangas, fica bem uma pulseira no pulso.
A terminar
O presente texto corresponde a uma reflexão profunda da minha parte e simultaneamente procura rasgar horizontes aos novos barristas, dando-lhes conta que todos os que os antecederam procuraram sempre inovar e o fizeram. Lá diz o rifão “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Por isso é legítimo que os novos barristas também o façam. Se assim não fosse, se cada barrista não introduzisse marcas identitárias muito próprias, a barrística de Estremoz estaria morta. Tal não acontecerá se os barristas no seu todo continuarem a recusar-se integrar como que uma linha de montagem que se limita a reproduzir figuras que lhes são pré-existentes. É necessário que as reinterpretem a seu modo e simultaneamente modelem novas figuras. Alguns dirão que “Não é ao modo de Estremoz”. Não se preocupem, a barrística de Estremoz sempre teve os seus “velhos do Restelo” e decerto continuará a ter. Se Vasco da Gama se tivesse deixado atemorizar pelas profecias do velho do Restelo, nunca teria descoberto o Caminho Marítimo para a Índia. Em caso de dúvidas, consultem quem vos ensinou. Esse é o melhor caminho.  
Termino, formulando sinceros votos de que o presente texto seja da máxima utilidade aos novos barristas. Se assim for, isso será para mim bastante gratificante.

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor. 

 Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Jorge da Conceição. 

 Sabina da Conceição (1921-2005). Colecção do autor. 

José Moreira (1926-1991). Colecção do autor. 

Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção Jorge da Conceição.


Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Colecção do autor.

Ana Grilo (1974, -  ). Colecção do autor.

Luísa Batalha (1959, -  ). Colecção do autor.

Madalena Bilro (1959, -  ). Colecção do autor.

sábado, 18 de julho de 2020

Inocência Lopes e o dois em um


Santo António: dois em um (2020). Inocência Lopes (1973-   ). Colecção Miguel Infante.

Eu e os Bonecos
Os Bonecos de Estremoz estão-me na massa do sangue, fazem parte de mim próprio e ocupam uma parte importante da minha vida. Nela procuro aprofundar o conhecimento da sua História e simultaneamente conhecer as novas criações dos barristas.
Peanha para quê?
A recente visita à página do Facebook da barrista Inocência Lopes, revelou-me a criação recente de uma imagem de Santo António que viria a ser objecto do presente escrito.
Trata-se de uma peça muito bem modelada e decorada. Nela o Santo é figurado com o habitual hábito franciscano, com o Menino Jesus ao colo e revelando os restantes atributos. Porém e ao contrário do que é habitual, a figura não assenta numa peanha de duvidoso gosto barroco, que alguns barristas teimam em usar. Trata-se a meu ver de um “apêndice” que carece de sentido, a menos que se esteja a fazer a réplica de um exemplar mais ou menos barroco. É que a Arte não parou no Barroco, mas evoluiu.
Santo António na qualidade de Santo mais popular de todo o mundo, não merece que o amarrem a uma peanha como se fosse um castigo. Merece, isso sim, ser objecto de representações que nos digam mais da sua Vida e da sua Obra. Foi o que fez Inocência Lopes ao prescindir da faustosa e estéril peanha. Em seu lugar usou uma alegoria ao Sermão de Santo António aos peixes.
Mudança de paradigma
A nova figuração de Santo António efectuada por Inocência Lopes, introduziu uma mudança de paradigma na barrística popular de Estremoz. Atrevo-me a dar-lhe um nome: “Santo António, dois em um”. Aproveito simultaneamente para felicitar a barrista pela originalidade da sua criação. Depois de nos prendar com “Infortúnio de Santo António” e “Amor é cego, negro” lega-nos agora mais esta bela criação. Se por um lado reforça o seu prestígio como barrista, por outro lado confirma a sua capacidade de inovar, que aqui se regista e aplaude.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Madalena Bilro e a Senhora de pezinhos


Senhora de pezinhos (2020) - Parte da frente. Madalena Bilro (1959-  ).

À laia de apresentação
Madalena Bilro (1959-  ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Anteriormente já tivera formação na Academia Sénior de Estremoz, orientada por Isabel Água, do Museu Municipal de Estremoz.
Prólogo           
A beleza feminina é polifacetada como um diamante. Daí que um vestido deva reflectir essa beleza, observada de todos os ângulos. Na rua ou num desfile de moda, a visualização do binómio modelo-vestido tem dois momentos: o aproximar e o afastar. Daí a igual importância que os estilistas dão à parte da frente a à parte de trás de um vestido. Cada uma delas deve completar e reforçar a sensação induzida pela visualização da outra. Madalena Bilro teve isso em conta na modelação e decoração da sua Senhora de pezinhos, figura tradicional da barrística popular estremocense.
A Senhora de pezinhos de Madalena Bilro
A Senhora de pezinhos enverga um elegante vestido comprido, a delimitar os contornos de um corpo a que corresponde uma silhueta esbelta. O vestido configura ter sido confeccionado com tecido estampado em padrão de margaridas em campo ocre amarelo.
O vestido é rematado em cima por uma gola branca e larga, fechada por um botão de cor Bordeaux, cor que também é a dos punhos do vestido e da faixa cingida à cintura e atada atrás, em forma de laço com duas pontas pendentes.
A cabeça está coberta por um elegante chapéu de cor Bordeaux, ornamentado por uma fita branca e que ostenta à frente três plumas em tons igualmente Bordeaux, que acentuam a graciosidade do chapéu. Este deixa a descoberto cabelo castanho puxado para trás e enrolado em forma de carrapito. De cada lado do rosto, aquilo que configura serem pendentes de ouro, reforçam a perfeição e a nobreza associadas à figura.
Os sapatos negros, de bico, culminam na base, toda a elegância do modelo.
Carga simbólica
A figura está repleta de mensagens que importa decifrar e realçar.
Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Ocre amarelo, que é uma cor quente, que ilumina e transmite alegria e jovialidade. A sua presença no fundo do vestido, procura associar à figura, optimismo, sociabilidade, tolerância e abertura; - Cor Bordeaux, a qual transmite a ideia de clássico e de requinte; - Branco, que é uma cor que ilumina, transmite pureza, frescura e simplicidade. A sua utilização na gola do vestido confere espiritualidade à figura; - Preto, que no contexto da figura, significa elegância.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DA MARGARIDA, flor também conhecida por malmequer, flor delicada que integra as minhas memórias de infância, associada ao ritual popular que consiste em arrancar-lhe as pétalas, uma a uma, ao mesmo tempo que se pergunta sucessivamente: - Bem-me-quer? – Mal-me-quer?, para no fim se poder concluir se o amor que se nutre por alguém, é ou não correspondido.
Antigamente, a margarida era considerada a flor das donzelas e ainda hoje simboliza a pureza, a inocência, a sensibilidade, a infância e a juventude, o amor, a virgindade, a paz, a bondade e afecto. Oferecer margaridas a alguém é promessa de um amor fiel e verdadeiro,
Em terceiro lugar o SIMBOLISMO DO LAÇO. Este cria mistério em torno do corpo que o vestido oculta, à semelhança do laço que ornamenta uma caixa de prendas e cria o mistério de não se saber o que a caixa encerra.
Epílogo
Madalena Bilro interpretou a tradicional Senhora de pezinhos com uma estética muito própria. A uma modelação de grande perfeição formal, fez seguir uma decoração cromaticamente muito rica e de forte significação simbólica. A figura tem um rosto e um olhar que me parecem ser marcas identitárias da barrista. Esta, usando a técnica tradicional dos Bonecos de Estremoz, legou-nos através da sua criação, uma Senhora de Sociedade, de aspecto elegante e requintado dentro de padrões clássicos, mas revelando também sensibilidade e espiritualidade. Por isso, está de parabéns.

Senhora de pezinhos (2020) - Parte de trás. Madalena Bilro (1959-  ).

Madalena Bilro no seu atelier. Fotografia de Luís Mendeiros.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A Senhora de pezinhos de Luísa Batalha


Senhora de pezinhos (2020). Luísa Batalha (1959-   ). 

Quem é quem
Luísa Batalha (1959-  ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Não foi o seu primeiro contacto com o barro, já que anteriormente foi azulejista e fez pintura em cerâmica, tendo nessa condição participado em diversas edições da Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, quando esta tinha ainda lugar no Rossio Marquês de Pombal. Luísa Batalha modelou recentemente a meu pedido, uma Senhora de pezinhos, da qual irei falar mais adiante
Falando da Senhora de pezinhos
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
Depois há a questão da cor do vestuário, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
A cabeça da senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e guarda-chuva.
A Senhora de pezinhos de Luísa Batalha
Ao modelar a figura de que vimos falando, Luísa Batalha optou por conferir volumetria aos componentes do vestido. Deste modo, a gola, os punhos, a orla inferior do vestido e os botões foram modelados em barro. Chamam a atenção as dobras do vestido na zona dos cotovelos.
O vestido é cor azul de petróleo (azul-verde), cor que está associada à confiança, pelo que o seu uso no vestuário é inspirador de respeito e credibilidade.
Por outro lado, a gola, os punhos, a orla inferior do vestido e os botões são de cor violeta, o mesmo se verificando com o chapéu. A cor violeta composta por iguais proporções de vermelho e azul, simboliza o equilíbrio entre a matéria e o espírito, a terra e o céu, os sentidos e a razão. Simboliza ainda a temperança, a lucidez e as acções reflectidas.
O chapéu encontra-se ornamentado por uma vistosa fita azul de petróleo.
A figura apresenta um rosto e um olhar que me parecem ser imagens de marca da barrista. O chapéu deixa ver cabelo castanho ondulado que cobre as orelhas, donde desce aquilo que configura serem pendentes de ouro, a reforçar a perfeição e a nobreza associadas à figura.
Os sapatos negros rematam inferiormente toda a elegância do modelo.
Na sua globalidade, a figura é bela e hamoniosa, revelando-nos uma Senhora de pezinhos elegante e de ar respeitável, sereno e nobre. Só me resta dizer:
- Parabéns, Luísa. 

Luisa Batalha a modelar. Fotografia recolhida com a devida vénia no Facebook
da barrista.  

A Senhora de pezinhos já enfornada e pronta para a cozedura. Fotografia recolhida
com a devida vénia no Facebook da barrista.  

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Primavera de Joana Oliveira


Primavera de arco (2020) - Parte da frente. Joana Oliveira (1978-  ).
A Primavera constitui há muito um tema transversal a toda a poesia portuguesa. Camões, numa “Elegia” confessa: “Vi já que a Primavera, de contente, / De mil cores alegres, revestia / O monte, o rio, o campo, alegremente.”. Por sua vez, Florbela Espanca, no soneto “Amar” proclama: “Há uma Primavera em cada vida: / É preciso cantá-la assim florida, / Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!”. Já o cancioneiro popular considera que: “Primavera, linda flor / Como ela não há iguais: / Primavera volta sempre, / Mocidade não vem mais!”.
A Primavera dos pintores
A Primavera é o tema central de obras de grandes mestres da pintura universal, com destaque pessoal para Sandro Botticelli, Jacob Grimmer, Tintoretto, Christian Bernhard Rode, János Rombauer, Caude Monet, Alfons Mucha, Veloso Salgado e José Malhoa.
Os seus quadros representam a natureza, verdejante e florida, com a presença alegórica de graciosas figuras femininas, enquadradas por flores, em ramos, grinaldas ou arcos.
A Primavera dos barristas
Na barrística popular de Estremoz existem figuras designadas genericamente por “Primaveras”, que para além de constituírem uma alegoria à estação do mesmo nome, são também figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza.
Como figuras emblemáticas que são, as Primaveras constituem um tema inescapável à modelação por qualquer barrista. Nela são variados os caminhos que se lhe deparam. Em primeiro lugar, a modelação, a qual pode ser executada na linha de continuidade dos barristas precedentes ou alternativamente num rumo que de certo modo constitui uma ruptura com aquela prática. Trata-se de uma ruptura que sem fugir aos cânones da modelação tradicional, proclama as suas próprias marcas identidárias, notórias na estética da figura criada. Em segundo lugar, a decoração desta. Aqui pode haver uma inovação na cromática tradicional que reforce a mensagem que é intrínseca ao tema, bem como a introdução de elementos de composição que reforcem a contextualização temática.         
A Primavera de Joana Oliveira
A barrista Joana Oliveira recriou recentemente a chamada “Primavera de arco”. Na sua construção seguiu o segundo dos caminhos anteriormente apontados: o da inovação. E fê-lo para dar conta do modo como vê as coisas e com a força anímica que é seu timbre.              
A Primavera nasceu-lhe das mãos e tomou forma. Cresceu como figura, emancipou-se e autonomizou-se para fazer companhia a um apaixonado incorrigível da barrística popular de Estremoz. Permitam-me que vos apresente a “Primavera” que é e será sempre de Joana Oliveira. 
É uma figura de corpo elegante, aspecto juvenil e delicado, com ar jovial, da qual irradia luminosidade e frescura.
A postura das mãos parece antecipar o levantamento dos braços para o corpo rodopiar sobre si mesmo. E aqui reside aquilo que me parece ser uma das características mais importantes da modelação de Joana Oliveira: a capacidade mágica de através de uma representação estática, sugerir uma representação cinemática. E só este pormenor, revela-nos de imediato, Joana Oliveira como uma barrista de primeira água. 
Na decoração da figura, predominam o verde e o amarelo. O primeiro é a cor da natureza viva, associada ao crescimento e à renovação. O segundo traduz a alegria e o calor humano que lhe está associado. O azul do chapéu transmite serenidade, tranquilidade e harmonia a todo o conjunto.
Gratidão
Eu queria agradecer-lhe Joana, a beleza da figura que criou.
Bem haja! 

Primavera de arco (2020) - Parte de trás. Joana Oliveira (1978-  ).