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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Arte Conventual - O falar das mãos de Guilhermina Maldonado


Guilhermina Maldonado (1937-2019).

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Entre nós vivem pessoas relativamente às quais a Comunidade nutre profunda estima e admiração, pelas mais diversas e respeitáveis razões: o seu desempenho ou êxito profissional, o seu exemplo de vida, a sua participação cívica ou aquilo que criam, que é o caso da Senhora que é objecto do presente post.
Guilhermina Maldonado é uma artesã multifacetada cuja actividade se distribui entre outras artes pela criação de registos – bentinhos e lâminas, assim como de maquinetas.
Registos contendo gravuras representando Santos ou Passos das Sagradas Escrituras e que dependurados nas paredes dos quartos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.
Maquinetas contendo imagens devotas que são objectos de Culto ou encerram Presépios, através dos quais se evoca ciclicamente o nascimento de Cristo Salvador.
E o que é um registo? E o que é uma maquineta?
A designação de “registo” engloba ícones religiosos gravados em madeira, cobre, ou pintados sobre pergaminho, tecido ou papel ou impressos litograficamente.
Os de pequenas dimensões, além de relembrarem o dia festivo do Santo Protector, serviam para marcar uma dada passagem no missal ou noutro livro qualquer.
Independentemente das suas dimensões, os registos começaram a ser usados no século XVIII para emolduramentos conhecidos por “bentinhos”, designação que também abrange saquinhos de pano, bentos, que se usavam ao pescoço por debaixo da camisa, contendo papeis com orações, relíquias ou outros objectos de devoção.


Filha de uma mãe exímia e assombrosa na arte do papel recortado e sobrinha do antiquário Venceslau Lobo, Guilhermina Maldonado, nasceu em Estremoz, na freguesia de Santo André, no ano de 1937. Desde muito cedo, conviveu com registos, bentinhos, lâminas e maquinetas. Depois do casamento com o lavrador Luis Maldonado, foi morar para um monte, onde a necessidade de combater o isolamento, a levou a ocupar o tempo de maneira criativa.
Os trabalhos da mãe e a loja do tio que sempre a fascinou, emergiram então na sua memória, levando-a a recriar registos, a partir dos que já conhecia, sem necessitar de qualquer aprendizagem.


Prendada com uma vontade férrea e uma paciência sem limites, a elas soube aliar o prazer de criar, o que faz com uma imaginação espantosa, ainda que temperada pelo rigor e pela procura incessante da delicadeza, perfeição e harmonia, com requintes de minúcia, que são o seu timbre. Dotada de rara sensibilidade artística, das suas mãos de ouro, saem entre outras, inúmeras peças ao gosto conventual do século XVVIII, com um destaque muito especial para os registos e maquinetas ricamente trabalhados.


Desde a sua primeira exposição, ocorrida em 1987 na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, que o seu trabalho foi publicamente reconhecido, passando a receber antiquíssimos registos e maquinetas para restaurar, bem como encomendas para criar novos trabalhos.
Como matérias-primas, Guilhermina Maldonado utiliza papéis coloridos (simples ou metalizados), tecidos (lisos ou lavrados), galões, fitas de algodão e seda, laços, bordados a linha de vários matizes ou de fio prateado ou dourado, bem como pérolas, coral, lantejoulas, vidrilhos, missangas e contas das mais variadas cores. Utiliza também o barro, o miolo de sabugueiro, flores naturais, escamas de peixe ou cascas de árvore. Igualmente utiliza o cartão e o vidro.

As ferramentas utilizadas são as mais diversas: tesoura, lâminas, agulhas, teques, bastidores, pincéis e utensílios improvisados.
Nos bentinhos, a estampa começa por ser colada num cartão que é forrado com tecidos ricos e decorado com lantejoulas, vidrilhos ou papéis coloridos, entre outros materiais.
Guilhermina Maldonado domina e utiliza as múltiplas técnicas de trabalhar o papel: dobragem, vincagem, corte, recorte, enrolamento e picotagem. Com a ajuda da tesoura e da pinça, corta finamente o papel e enrola-o, compondo folhas, pétalas e caules finíssimos, assim como transforma retalhos de papel em preciosos bordados e rendas.


Na decoração é por vezes utilizado canotilho de ouro ou prata e bordados a fio de ouro e prata. Só depois a estampa é emoldurada com uma moldura ricamente trabalhada.
A geometria das molduras é variada: rectangular, quadrada, circular, oval, ogival, cruciforme, cuneiforme ou de contorno misto. A estampa em vez de ser emoldurada, pode ser montada numa caixa pacientemente armada em vidro, também ela de geometria variável, com as lâminas de vidro guarnecidas a papel, tecido, fitas de seda ou de algodão. Estamos então em presença de “lâminas”. Nelas, a dado momento, a estampa começou a ser substituída, por vezes, por pequenas esculturas de barro policromado, cera, marfim ou alguma massa de segredo conventual.



Além de registos – bentinhos e lâminas, Guilhermina Maldonado também executa “maquinetas”, que são caixas envidraçadas onde se expõem imagens devotas como o Menino Jesus ou cenas do Presépio. Os materiais e as técnicas são semelhantes aos dos registos, só que as caixas agora têm maior volume. Guilhermina Maldonado começou por montar maquinetas com figuras modeladas por outros, mas actualmente é ela própria que modela e decora as figuras das suas maquinetas.


Guilhermina Maldonado participa desde sempre na Feira de Artesanato de Estremoz, a qual constitui na sua opinião, a melhor forma de divulgação do seu trabalho. É lá que recebe grande parte das encomendas de clientes que ficaram seduzidos pelo seu trabalho.
Dentre as Exposições realizadas, destacamos entre outras:
-  REGISTOS (Exposição Colectiva), Museu Municipal de Estremoz, Março - Abril de 1986;
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, Dezembro de 1987- Janeiro de 1988;
- Exposição colectiva, Portalegre, Maio de 1992;
- GUILHERMINA MALDONADO E O FALAR DAS MÃOS (Exposição Individual), Câmara Municipal do Alandroal, Dezembro de 1995.
- ARTE CONVENTUAL (Exposição Individual), Escola Secundária de Estremoz, Dezembro de 1999.
A continuidade da sua Arte foi uma questão que sempre a preocupou. Estela Marques Barata foi a colaboradora a quem transmitiu os seus saberes.
Vivemos numa época pautada pela exaltação dos valores materiais e pela globalização, ambos conducentes à insensibilidade artística e ao cinzentismo da perda de identidade cultural. Por isso é preciso cavar trincheiras e cerrar fileiras em tomo do que mais puro e genuíno tem a Cultura Popular, nas suas mais diferentes vertentes. Dai que procuremos transmitir às novas gerações, valores e estéticas, que sendo populares e regionais, são simultaneamente universais e intemporais.
Esse o sentido da Exposição, que de 16 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2010, esteve patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. tratou-se de uma Exposição, onde a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, nos fizeram render à Arte de Guilhermina Maldonado.

Publicado inicialmente em 5 de Abril de 2010

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Isabel Pires e o velho camponês alentejano


Velho camponês alentejano (2020). Isabel Pires (1955- ).


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Quem é a barrista
Isabel Catarrilhas Pires (1955-  ) é uma consagrada barrista da velha guarda. Começou a modelar o barro em 1986 por auto-aprendizagem e com alguma orientação de Quirina Marmelo. Inspirou-se nos modelos expostos no Museu Municipal de Estremoz, mas desde sempre conferiu ao seu trabalho um cunho muito pessoal.
Está certificada como artesã de Bonecos de Estremoz pela ADERE-CERTIFICA, ”entidade promotora da certificação de produções artesanais tradicionais, sinónimo da garantia da qualidade e autenticidade da produção.”
É uma barrista com uma produção diversificada que se espraia pelas diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz. Nas suas criações enfatiza a identidade regional alentejana e é-lhe grata a temática da terceira idade.
A análise de uma figura reunindo os dois requisitos anteriores é objecto do presente texto.

Retrato de velho
Trata-se de uma figura antropomórfica masculina, envergando calças e capote, calçando botas e com a cabeça coberta por um chapéu.
Do capote emergem dois braços descaídos cobertos por mangas e com as mãos abertas, das quais a direita se apoia numa bengala.
A imagem assenta numa base cilíndrica de cor verde com pintas alternadamente amarelas e vermelhas a circundar a orla do topo superior.
O capote alentejano tem aba larga, gola forrada a pele de borrego e três romeiras. A abotoadura frontal do capote é assegurada por 3 botões. Duas patilhas fixas com botões na banda esquerda da romeira superior asseguram a abotoadura em dois botões pregados na banda direita.
O chapéu sem fita, tem copa cilíndrica com topo abaulado convexamente e aba circular virada para baixo.
As calças e as mangas do casaco são singelas, não merecendo nenhuma referência especial.
O capote, a bengala e a gola do capote são de cor castanha, de diversas tonalidades, sendo a última matizada. As calças são de cor azul. O chapéu, as botas, as mangas do casaco e os botões são de cor negra.

Simbólica da figura
Importa descobrir e relevar todas as mensagens encerradas na figura. Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Castanho, cor neutra ligada à terra, à natureza e aos agricultores; - Azul, cor fria associada ao céu e que veicula as ideias de tranquilidade, serenidade e harmonia. - Negro, cor neutra associada ao luto, ao respeito, ao isolamento e à solidão.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DO CAPOTE, peça de vestuário que tem a ver com a identidade regional alentejana, porque simboliza a protecção conferida aos camponeses na sua labuta à chuva, ao frio e ao vento das mais rigorosas invernias.
Em terceiro lugar, o SIMBOLISMO DA BENGALA, acessório que entre outras funções é um auxiliador da locomoção de pessoas idosas, doentes ou com traumatismos.
A tipologia do capote, a singeleza das calças, a fisionomia do rosto e o recurso à bengala, permitem concluir estarmos em presença de um velho camponês alentejano.

Análise
Ao contrário do que acontece noutros criadores, nenhum componente da figura foi unicamente pintado, já que todos eles foram modelados e apresentam volumetria.
A modelação foi apurada e revela um rosto bem delineado. Os olhos têm profundidade com as órbitas brancas delimitadas por duas pestanas negras e nas quais se inserem meninas do olho igualmente negras, encimadas por espessas sobrancelhas grisalhas. Igualmente o nariz, a boca, o queixo, as orelhas e o cabelo grisalho estão bem definidos. O nariz apresenta narinas e é observável a morfologia das orelhas. O rosto apresenta rugas. As mãos estão bem definidas e nelas os dedos ostentam unhas, como se de mãos reais se tratasse. As calças amachucadas revelam uso. No capote é perceptível a textura da lã na gola, os botões apresentam orifícios por onde passa a linha e a romeira superior arqueada sugere que o idoso caminha contra o vento. Tudo isto integra as marcas identitárias da barrista e é revelador do tratamento naturalista das suas figuras, fruto da importância que concede aos pormenores na execução das mesmas. Nesse sentido distancia-se do estilo mais popular doutros barristas do presente e do passado. As suas criações tais como as de Jorge da Conceição, cada um à sua maneira, têm um cunho mais erudito que as restantes, sem contudo deixarem de ser Bonecos de Estremoz. Com efeito, de acordo com o CADERNO DE ESPECIFICAÇÕES PARA A CERTIFICAÇÃO DOS BONECOS DE ESTREMOZ, “… a inovação estética não constitui um problema per si pois é garante da renovação de tipologias e temáticas dos Bonecos de Estremoz.”
De salientar que na decoração da figura, a barrista utilizou sabiamente uma harmoniosa tricromia com recurso a duas cores neutras (castanho e preto) e uma cor fria (azul). Às primeiras está associada pouca energia e à segunda está associado o frio. Creio que sob o ponto de vista cromático, foram as cores mais adequadas para associar à terceira idade, considerada o Inverno da vida.
Como é sabido, valorizo muito os barristas possuidores de marcas identitárias muito próprias e cujo estilo os distingue de outros barristas. Por isso, pela qualidade e riqueza da modelação, pela harmonia cromática da decoração e pela original conjugação da identidade regional alentejana com a temática da terceira idade, a barrista é merecedora das minhas felicitações:
- Parabéns, Isabel Pires!
Publicado inicialmente a 26 de Outubro de 2020

Isabel Pires (2015) a modelar o barro no seu atelier. 
Fotografia recolhida
com a devida vénia no Facebook do Município de Estremoz. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Bonecos de Estremoz: Sabina da Conceição Santos


Sabina da Conceição Santos (1921-2005) nos anos 70 do séc. XX, tendo à sua
direita as discípulas Maria Inácia Fonseca (1957- ) e Perpétua Sousa (1958- ).
Fotografia de Xenia V. Bahder. Arquivo fotográfico do autor.

Sabina Augusta da Conceição nasceu às 22 horas de 1 de Julho de 1921 num prédio da calçada da Frandina, em Estremoz. Filha legítima de Narciso Augusto da Conceição, oleiro, de 50 anos de idade, natural da freguesia de Santo Antão, Évora e de Leonor das Neves, doméstica, de 45 anos, exposta, natural da freguesia de Santo André, Estremoz. Neta paterna de Caetano Augusto da Conceição, oleiro e de Sabina Augusta, doméstica. Neta materna de avós incógnitos (8). Com 12 anos de idade e com o pai já falecido (suicídio por enforcamento a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos), candidata-se em 23 de Agosto de 1933 ao exame de admissão à Escola Industrial António Augusto Gonçalves e, tendo sido aprovada, matricula-se no Curso de Tapeceira (3 anos), após o Dr. Lourenço Marques Crespo ter atestado que Sabina tem robustez física, não sofre de doença suspeita ou contagiosa e foi vacinada há menos de 5 anos (7).
Em 5 de Julho de 1942, com 21 anos de idade, casa-se na Igreja de Santa Maria em Estremoz, com Joaquim Luiz de Matos Santos, empregado de escritório, de 24 anos de idade. Adopta então o apelido Santos do marido (5). Em 1960, depois da morte do seu irmão Mariano da Conceição, dá continuidade à manufactura dos Bonecos de Estremoz na Olaria Alfacinha, conjuntamente com as suas cunhadas, Maria José Cartaxo da Conceição (1923-2013) e Teresa Cabaço Cid da Conceição (1922-1962)[1]. A oficina era então na Rua da Campainha, nº 18. Depois do falecimento de Teresa Cid em 1962 (9), Sabina continua a trabalhar com Maria José, até que motivos de natureza pessoal a levam a romper a sociedade e a trabalhar sozinha. Passa a fazê-lo no armazém da Olaria Alfacinha, situado na Rua Pedro Afonso, nº 1, donde transitou posteriormente na segunda metade dos anos 60 para a oficina da Rua Brito Capelo, nº 35. Esta era propriedade dum tio de Octávio Palmela, marido de Maria Luísa da Conceição e foi usado inicialmente como armazém da Sapataria Palmela, que ficava situada ao fundo da Rua Brito Capelo. Desactivado o armazém, o espaço foi arrendado a Sabina Santos. Ali trabalhou até se aposentar, em 1988, fixando-se então em Ribamar, Lourinhã.
A importância de Sabina na barrística popular estremocense é incomensurável. Por um lado, tomou a atitude corajosa de prosseguir com estilo muito próprio, a manufactura dos Bonecos de Estremoz, depois da morte de Mariano, fazendo assim com que a arte não se perdesse. Sabina nunca tinha confeccionado Bonecos, apenas vira o irmão fazê-los. Formou-se a ela própria, usando como modelos os Bonecos do seu irmão. Porém, os Bonecos de Sabina não se confundem com os de Mariano. As figuras não são tão corpulentas como as de Mariano, são mais magras e a representação dos olhos é completamente diferente. Em substituição duma pestana tangente à menina do olho, encimada por uma sobrancelha, Sabina, na representação do olhar, afasta da menina do olho, não só a sobrancelha como a pestana. Por outro lado, Sabina foi a barrista que mais discípulas formou: Isabel Carona, Fátima Estróia, Maria Inácia Fonseca e Perpétua Fonseca (Estas últimas com ela na fotografia). Algumas aparecem com ela no filme “Bonecos de Estremoz” (1), (2) que Lauro António realizou em 1976 e que se encontra disponível no YouTube.
Os Bonecos de Sabina eram comercializados, entre outros lugares, na Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30) e no Stand da Olaria Alfacinha no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz.
A 13 de Setembro de 2004, morre o marido de Sabina Santos. Sabina vem a morrer a 19 de Abril de 2005, com a idade de 83 anos, tendo sido sepultada no cemitério de Ribamar (6),(3).
Sabina Santos está fortemente representada no acervo do Museu Municipal de Estremoz Professor Joaquim Vermelho, uma vez que o Município de Estremoz adquiriu à filha de Sabina, Professora Maria Leonor da Conceição Santos (1943-2014), uma colecção de mais de uma centena de figuras que a barrista executara ao longo da sua extensa carreira. Era a chamada colecção da mãe. Todavia, a Maria Leonor, que foi minha colega de Liceu, tinha outra colecção, que era a sua. Propôs-me a sua aquisição em 2012 e, embora não tenha adquirido tudo, adquiri um número bastante significativo de figuras, facto que me encheu e enche de orgulho, pois além, de gostar do trabalho de Sabina, conhecia-a pessoalmente, desde os meus tempos de juventude.

BIBLIOGRAFIA
1 - ANTÓNIO, Lauro. Entrevista a Sabina Santos. Estremoz, 1976. Arquivo de Lauro António.
2 - ANTÓNIO, Lauro. Filme Bonecos de Estremoz. Estremoz, 1976.
3 - GUERREIRO, Hugo. Morreu Sabina Santos in Brados do Alentejo nº 616, 29/04/2005. Estremoz, 2005 (pág. 16).
4 - MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
5 - Sabina Augusta da Conceição - Assento de Casamento nº 81 de 1942, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
6 - Sabina Augusta da Conceição - Assento de Óbito nº 51 de 2005, da Conservatória do Registo Civil da Lourinhã.
7 - Sabina Augusta da Conceição - Processo Individual de aluna nº 174.
8 - Sabina Augusta da Conceição - Registo de Nascimento nº 351 de 1921, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
9 - Teresa Cabaço Cid – Assento de Óbito nº 73 de 1962, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.




[1] Amélia, mulher de Jerónimo da Conceição e cunhada de Sabina, já havia falecido. Liberdade da Conceição também foi convidada para integrar a sociedade, mas não aceitou porque era uma pessoa muito doente. Esteve 6 anos internada no Sanatório do Outão, devido a uma tuberculose óssea na espinha dorsal e que a deixou paralítica. No fim do tratamento teve que aprender a andar (4).
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Julho de 2019

Berço do menino Jesus (dos putto). Sabina Santos.


Nossa Senhora da Conceição. Sabina Santos.


Nossa Senhora ajoelhada. Sabina Santos.


Pastor de tarro e manta. Sabina Santos.


Pastor das migas. Sabina Santos.


Pastor a comer. Sabina Santos.


Maioral e ajuda a comer. Sabina Santos.


Ceifeira. Sabina Santos.

Mulher da azeitona. Sabina Santos.

Mulher dos carneiros. Sabina Santos.


Mulher dos perus. Sabina Santos.


Mulher das galinhas. Sabina Santos.


Aguadeiro. Sabina Santos.


Leiteiro. Sabina Santos.


Mulher das castanhas. Sabina Santos.

Mulher a vender chouriços. Sabina Santos.


Homem do harmónio. Sabina Santos.


Lanceiro. Sabina Santos.


Lanceiro com bandeira. Sabina Santos.


Mulher a lavar a roupa. Sabina Santos.


Bailadeira pequena. Sabina Santos.


Amazona (assobio). Sabina Santos.


Peralta a cavalo (assobio). Sabina Santos.


Ceifeira. Sabina Santos.


Semeador. Sabina Santos.


Polícia do Exército. Sabina Santos.

domingo, 4 de janeiro de 2026

O Peralta sou eu


Peralta. Joana Oliveira (1978-   ).

Uma pedrada no charco
Colecciono Bonecos de Estremoz há mais de quatro décadas e como é sabido sou um coleccionador da velha escola. Significa isso que tenho vindo a reunir exemplares desde o séc. XVIII até aos dias de hoje, de todos os barristas conhecidos e desconhecidos, o que me permite conhecer as marcas identitárias e os estilos de cada um, bem como aqueles que no modo de produção ao modo de Estremoz, foram mais conservadores e os que foram mais inovadores. Estou pois à vontade para falar do assunto e nele “navego como peixe na água”.
Foi em 2020 que tive o prazer de conhecer o trabalho da barrista Joana Oliveira e confesso-vos que foi “amor à primeira vista”. Concluí de imediato estar em presença de uma barrista de primeira linha, disposta a “dar pedradas no charco”, pelo que me tornei de imediato seu admirador e necessariamente cliente, já que sou coleccionador. A amizade e a defesa acérrima do seu trabalho, surgiram depois e continuam para o que der e vier.

Uma encomenda
Em devido tempo e pela segunda vez, contactei a barrista de quem queria possuir figuras que já tinha doutros criadores. “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, pelo que só em finais de Setembro, a encomenda me seria entregue por fiel portador.   
A encomenda vinha acompanhada de uma carta, da qual cito um excerto:
“Caro Hernâni:
Espero que estas peças o encantem bem, e cheguem até si inteiras e ao seu gosto.
Como tenho mau feitio e, tem que ser admitido, dificuldade em fazer o que me pedem, quando me pediu o Peralta e eu o comecei a modelar, digamos que o barro falou comigo e as minhas mãos comandaram. Quando fui a ver, o dito Peralta já tinha bigode e era um rapaz todo janota que enfim poderia ser o Hernâni, caso se fizesse uma versão “Peralta” do amigo Hernâni”. (…).

Aviso de recepção
Conferida a encomenda e lida a carta, expedi de imediato, via correio electrónico, o seguinte aviso de recepção:
“Joana:
A encomenda chegou nas melhores condições. E aconteceu um facto inesperado que nunca me passaria pela cabeça. A lotação era superior ao previsto e vinha um passageiro a mais. Brevemente, vou ter que falar dele, assim como das senhoras que o acompanhavam. Mas, para já, aqui fica a primeira impressão, em jeito de quadra popular:

“É um peralta.
Está a matar.
Nada lhe falta
para destoar.”

E assim terminei o aviso de recepção.
A estrofe de quatro versos pentasilábicos de rima alternada, com que encerrei a missiva, foi a primeira de um conjunto mais vasto que integra um poema dedicado a todos os Peraltas que tenho. Oportunamente será feita a apresentação pública dos mesmos, envergando vaidosos as estrofes que lhes compus.

Peralta à vista
Trata-se de um Peralta elegantemente vestido com traje de cerimónia.
Do conjunto sobressai um casaco preto, tipo paletó com lapelas em cetim da mesma cor (smoking), bem como um par de calças às listras pretas e cor de cinza, com bainhas.
Sob o casaco uma camisa branca, decerto com a frente trabalhada e cujo colarinho ostenta um vistoso laço (papilon) de seda preta. A camisa está supostamente cingida à cintura por uma faixa de seda preta que não é visualizável.
Nos pés, os clássicos sapatos pretos, de verniz, encimados por polainas brancas de veludo, que protegem a parte inferior das pernas.
O cabelo e bigode são de cor cinza, reveladora da patina do tempo. Os olhos grandes e profundos dão conta do muito que já viu e do muito que ainda anseia ver. Por isso tem os olhos bem abertos.
O chapéu às três pancadas dá-lhe um ar de “bon vivant”, que ainda está pronto para as curvas.
A postura das mãos indicia que se está a preparar para iniciar uma pirueta. A figura lembra-me de imediato o actor, cantor e bailarino Fred Astaire na canção “Andando Com Estilo” (Puttin´on The Ritz -1930).
 
E se fosse verdade?
Bom, se fosse verdade, o meu bigode teria de ter um penteado diferente, como disse em 2011 em texto dirigido a uma amiga:
O meu bigode é um bigode com as pontas reviradas para baixo. Você já me imaginou com o bigode revirado para cima, com ar de monárquico órfão à espera que El-Rei D. Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro? (Que me perdoem os meus amigos monárquicos, que os tenho, por tecer considerações sobre os seus reais bigodes). Mas eu, que sou realmente republicano, só posso usar um bigode com as pontas reviradas para baixo.”
Para além disso nada de apontamentos a sugerir que estou pronto para as curvas, já que as únicas que me são permitidas são as curvas da caligrafia.
Finalmente nada de insinuações que danço sapateado à maneira do Fred Astair. Creio ser mais credível sugerir que pertenço à tribo dos pés de chumbo.

Agradecimentos
Quero agradecer à barrista o ar simpático que conferiu ao meu rosto, que na prática é uma carantonha capaz de assustar um feroz touro Miura.
Quero agradecer-lhe também a linda roupa com que presenteou o meu representante e que me daria muito jeito, para me vestir à Peralta de vez em quando.
Quero agradecer-lhe finalmente toda a frescura e simpatia irradiantes que soube imprimir à representação de uma pessoa idosa, fruto da sua visão transformadora do mundo e da vida, em sintonia com a sua alma de criadora, transmitida ao barro pela dupla magia das sua mãos e da paleta de cores usadas.
Obrigado Joana por mais esta “pedrada no charco” e por partilhar connosco tesouros como este, que ficam a honrar a barrística de Estremoz.

Publicado inicialmente em 9 de Outubro de 2020

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

NA JANELA DO TEMPO


 Novo livro de Georgina Ferro apresentado

na Sociedade de Artistas Estremocense

Reportagem de Hernâni Matos. Fotografias de Manuel Xarepe


João Ferro na abertura da sessão. Na mesa: Fernando Mão de Ferro, Georgina Ferro
e Hernâni Matos. 

Um aspecto da assistência.

A Sessão de apresentação
Com o Salão de Festas da Sociedade de Artistas Estremocense literalmente cheio, teve lugar a partir das 16 horas e 30 minutos do passado dia 28 de Setembro, a sessão de lançamento e apresentação do livro “NA JANELA DO TEMPO / TRADIÇÃO, CONTRABANDO E EMIGRAÇÂO”, da autoria de Georgina Ferro, editado em Julho passado pelas edições Colibri, com uma tiragem de 500 exemplares.
A sessão foi coordenada por Fátima Crujo e a intervenção de abertura coube a João Ferro, Presidente da Direcção. Na Mesa encontravam-se o editor do livro, Fernando Mão de Ferro, Hernâni Matos e a autora, que falaram por esta ordem.
Coube a Hernâni Matos fazer a apresentação formal da obra, finda a qual solicitou uma calorosa salva de palmas para a autora, que agradeceu emocionada. Seguiu-se a leitura de excertos de estórias do livro pela filha Sónia Ferro e pelos netos Clara Ferro e Tiago Ferro. No final, a autora autografou o livro para o muito público presente.


Hernâni Matos fazendo a apresentação formal da obra.

A filha Sónia Ferro, lendo um excerto do livro.

Os netos Clara e Tiago Ferro, lendo passagens do livro.

A autora Georgina Ferro, autografando o livro.

A autora
A autora, professora aposentada do 1º ciclo, é natural de Manteigas, onde nasceu a 8 de Dezembro de 1948, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição. Daí que, segundo diz, se tenha sentido “sempre abençoada e protegida por todas as mães: a Mãe Natureza, a Mãe Celestial e a Mãe da Terra”. A autora revela-nos que repartiu o tempo de infância ente Manteigas, Aldeia do Bispo (Sabugal) e Covilhã. Frequentou a Instrução Primária até à 3ª classe em Aldeia do Bispo (Sabugal) e a 4ª classe em Manteigas. Ingressou depois no Ensino Liceal no Colégio de Nossa Senhora Auxiliadora, no Monte Estoril. Em 1967 ingressou na Escola do Magistério Primário de Évora e terminado o Curso, começou a leccionar o Ensino Primário no ano de 1969 em Rosário (Alandroal), a que se seguiram Veiros, Selmes (Vidigueira), Aldeia da Serra e Glória, onde leccionou 32 anos, até se aposentar em 2003.
Fixou-se em Estremoz em 1972 e aqui casou e teve 3 filhos: Sónia, Pedro e Inês. Sem nunca ter perdido os laços afectivos à terra natal e aos territórios da sua infância, Georgina é cumulativamente uma estremocense adoptiva, que tem participado activamente na vida social da Comunidade em múltiplos aspectos: educativos, cívicos e culturais.
Conheço seguramente a Georgina desde o início do exercício do Magistério Primário na Freguesia da Glória, da sua ligação à Comunidade, do seu reconhecimento por parte da mesma e do seu amor às coisas campaniças.
Lembro-me de partilhar há muito com a Georgina uma grande admiração pelo “Ti Rolo” da Aldeia de Cima (Glória), que exercia sobre nós um fascínio incomensurável, pela sua oralidade transbordante e pelos artefactos de arte pastoril nascidos das suas mãos mágicas, nos quais projectava toda a imaginária popular, lavrada em chifres e paus sabiamente escolhidos.
Lembro-me do nascimento da sua filha Sónia e tive o privilégio de ser professor de Física de 12º ano do seu filho Pedro. Foi uma experiência encantadora, pois além do Pedro ser um aluno fortemente motivado, eu tive oportunidade de pôr em prática o método de ensino-aprendizagem personalizado, preconizado por muitos pedagogos. É que o Pedro era o único aluno da turma. Nenhum de nós deixou os seus créditos por mãos alheias e a experiência pedagógica foi um êxito.
Lembro-me do envolvimento da Georgina no Projecto Serra de Ossa, desde o início, no tempo da liderança de Gil Malta e de ela ter participado em 1998, conjuntamente com outros professores, entre os quais eu me incluo, nas “Segundas Jornadas da Serra d’Ossa”, levadas a efeito na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. A sua bem-sucedida intervenção oral nessas jornadas, foi o embrião dos seus primeiros livros, publicados ambos em 2005: “Plantas Medicinais da Serra d'Ossa” e “Por um Amanhã Mais Verde, Mezinhas Caseiras com Plantas da Serra d'Ossa”.
Em Setembro de 2012, a Georgina concedeu-me o privilégio de participar na apresentação pública do meu livro “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, o que muito me congratulou.
Em Dezembro de 2013 a Georgina brindou-nos com o lançamento do seu livro de poesia “O MEU ARRAIAR POR TERRAS DO SABUGAL”, editado pela Colibri, o qual foi apresentado na Casa de Estremoz pela Maria do Céu Pires e pela Francisca de Matos.
Desta feita, coube-me a mim fazer a apresentação formal do seu mais recente livro “NA JANELA DO TEMPO / TRADIÇÃO, CONTRABANDO E EMIGRAÇÂO”, na sequência do convite que me foi endereçado pela autora e que eu gostosamente aceitei.


A obra
Fisicamente é um livro brochado, de 22,8 x 16 cm e 236 páginas, dado à estampa pelas prestigiadas Edições Colibri de Fernando Mão de Ferro. Tem capa a cores de Raquel Ferreira, gizada a partir de fotografia de Abel Cunha. Na primeira badana figura uma pequena biografia e a fotografia da autora e na segunda badana, um excerto de uma das estórias do livro. Este tem prefácio de José Carlos Lage, o qual confessa que é “Fácil e ao mesmo tempo difícil” falar das poesias e das crónicas de Georgina. Por sua vez, em posfácio impresso na contracapa, Francisca de Matos afirma e muito bem, que “Esta obra é, sobretudo, uma grande lição de vida, um legado que não deve, não pode ser esquecido”.
O livro é um livro de estórias ou não fosse Georgina, para além de notável poetisa, uma extraordinária contadora de estórias. Não estórias quaisquer, nem tão pouco inventadas ou arquitectadas, mas estórias reais ocorridas no tempo da sua infância, repartida entre Manteigas, Aldeia do Bispo (Sabugal) e Covilhã.
São estórias com personagens reais, de carne e osso, como o Ti Júlio, a Ti Mariana, a Senhora Isabel Augusta, o Ti Zé Ramos, a Menina Zéfinha, o tio António Pantalona, o tio Zé Manso e não sei quantos mais, numa infinidade numerável que não consegui quantificar. São eles que constituem aquilo que com orgulho, Georgina chama “A Minha Gente”.
São estórias contadas e redigidas numa escrita fluida e ágil, eficaz na pintura descritiva das paisagens rurais e do interior das casas aldeãs. Escrita que é também uma partilha intimista das emoções e sentimentos dos personagens, incluindo Georgina, também ela própria, personagem por direito próprio e inalienável. Tudo sempre minuciosamente filigranado ao pormenor, numa linguagem rica, valorizada pelo uso de vocábulos regionais, cujo sentido, se necessário pode ser decifrado num glossário que antecede o índice final.
São estórias do tempo em que nas aldeias se tocavam as Trindades.
As hortas eram regadas com água tirada das noras e das picotas. Comia-se daquilo que a terra dava e em situações de carência havia partilha e entreajuda ente vizinhos e familiares. Todavia, a falta de dinheiro para bens de mercearia e para comprar entre outras coisas, petróleo para alumiar, levavam alguns, mais aflitos e mais afoitos, a entrar no contrabando através da raia de Espanha ou a dar o salto para França.
Apesar de tudo ou talvez por isso, rezava-se a Deus, à Mãe de Jesus, ao Anjo da Guarda e a Santo Antão para proteger o gado.
A menina Zefinha andava de taleigo à cabeça, a ti Mariana remendava as ceroulas do Ti Júlio e a ti Neves do Ti Júlio punha-lhe ventosas e papas de linhaça, a ver se ele arribava.
A roupa era cosida, remendada e transformada, passando dos mais crescidos para os mais pequenos. O pão era amassado de tarde para ficar a dormir à noite e os mais velhos davam a bênção aos mais novos antes destes adormecerem.
Isto e muito mais, são registos de memórias de tempos idos dos personagens do livro. Tempos e vivências difíceis e duras, mas também de afectos, partilhas e tradições numa Comunidade onde Georgina nasceu e cresceu, com a qual se identifica e que pela mesma é reconhecida e idolatrada.
Georgina é, pois, uma guardadora de memórias, muitas delas guardadas no presente livro e que por serem reconhecidas pela Comunidade que a viu nascer e crescer, integram a memória colectiva local e contribuem com a sua quota parte para a memória colectiva regional e para a memória colectiva nacional.
É a memória colectiva que nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns.
É a memória colectiva que nos permite aprender com os erros e sucessos do passado, o que é essencial para o desenvolvimento e a evolução da sociedade.
A memória colectiva desempenha um papel crucial no exercício da cidadania e da democracia, pois é através da memória colectiva que as lutas e conquistas dos nossos antepassados são lembradas e honradas, incentivando a luta por um futuro melhor e mais justo.
Daí a importância de que se reveste o livro, cuja leitura vivamente recomendo.

Hernâni Matos