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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O guardador de memórias e o Mercado das Velharias em Estremoz

 

Caixa em madeira. Joaquim Carriço Rolo.


A identidade cultural alentejana
Participei em 1998 na batalha pela regionalização, apresentando publicamente uma comunicação [i], no fim da qual concluí:
“Julgo ter ficado sobejamente demonstrado que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.
Como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento.”

Guardador de memórias
A batalha pela regionalização foi perdida, mas tal desfecho não fez esmorecer em mim o que me motivara a intervir naquele Encontro - a minha actividade de guardador de memórias, epíteto que me viria a ser atribuído pelo António Júlio Rebelo [ii]:
“Hernâni Matos é um guardador de memórias.
Quem guarda memórias não vive no passado, faz do passado um tempo presente e futuro. Olhar para as raízes do tempo é compreender melhor o que está e o que virá, com sabedoria, com afectividade, e nunca o seu contrário.
Quem guarda memórias olha para os acontecimentos e vê neles um fio estendido, que vem de tão longe e pode projectar-se para tão longe.
Quem guarda memórias habita o mundo com um saber feito dos outros, da terra funda, da comunidade, e tudo isso passa para nós, é-nos proporcionado, dando-nos com dedicação esse mundo imenso feito de vida”.
Sou assumidamente um guardador de memórias. Memórias de camponeses, de ganhões, de pastores, de ceifeiros, de varejadores e de mulheres da azeitona. Memórias de artesãos e de poetas populares. Memórias de outras vidas, de outros saberes, de outros anseios, de outros modos de ver o mundo e a vida.
Como guardador de memórias, assumo-me como fiel guardião da nossa ancestral matriz identitária, incumbido duma nobre missão: a de transmitir às novas gerações a importância e a riqueza da pluralidade do passado e das tradições do nosso povo, para que elas tenham consciência de que urge resistir a uma globalização castrante que assimptoticamente procurará reduzir à chapa zero, as nossas identidades culturais, a nível local, regional e nacional.

O Mercado das Velharias em Estremoz
Em texto auto-biográfico datado de 2012[iii], escrevi:
“Desde os longínquos tempos do bibe e do pião que é recolector de objectos materiais que fazem vibrar as tensas cordas de violino da sua alma. Nessa conjuntura se tornou filatelista, cartofilista, bibliófilo, ex-librista e seareiro nos terrenos da arte popular, muito em especial a arte pastoril e a barrística popular de Estremoz.
Respigador nato, cão pisteiro, farejador de coisas velhas, o seu olhar cirúrgico procede sistemática e metodicamente ao varrimento de scanner no mercado das velharias em Estremoz, no qual é presença habitual e onde recolecta objectos que duma forma virtual, pré-existiam no seu pensamento.
O fascínio da ruralidade e o culto da tradição oral, levam-no a procurar o convívio de camponeses, artesãos e poetas populares, com os quais procura aprender e partilhar saberes.
A arte pastoril, um dos traços mais marcantes da identidade cultural alentejana, integra as suas memórias materiais de recolector. Para além do acto da colheita e mais que o fascínio da posse, importa-lhe a possibilidade de dissecação de cada peça recolhida e a cumplicidade com o autor no próprio acto de criação, constituindo um registo para memória futura e uma afirmação vigorosa da identidade cultural transtagana.”
O Mercado das Velharias em Estremoz é um os palcos da minha acção. Na antecâmera do novo ano que aí vem, dou-vos conta das mais recentes memórias no domínio da arte pastoril, que ali foram recolhidas por mim.
Termino, desejando-vos a todos um BOM ANO DE 2024.


[i] MATOS, Hernâni. A necessidade da criação da Região Administrativa do Alentejo in Encontro promovido pelo Movimento “Alentejo – Sim à Regionalização por Portugal”. Estremoz, Junta de Freguesia de Santa Maria, 24 de Outubro de 1998.
[ii] REBELO, António Júlio. Guardador de memórias. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2021/02/guardador-de-memorias.html [Consultado em 29 de Dezembro de 2023].
[iii] MATOS, Hernâni. Acerca de mim in catálogo da Exposição ARTE PASTORIL - MEMÓRIAS DE UM COLECCIONADOR. Museu Municipal de Estremoz. Estremoz, 6 de Maio de 2012. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/p/acercva-de-mim.html [Consultado em 29 de Dezembro de 2023].

Publicado inicialmente em 29 de Dezembro de 2023


Caixa em madeira. Joaquim Carriço Rolo.

Tarreta em cortiça. Autor desconhecido.

Tabaqueira em chifre e madeira. Joaquim Carriço Rolo.

Colher e garfo em madeira. Autor desconhecido.

Chavão ou pintadeira em madeira. Autor desconhecido.

Cágueda em madeira com decoração apotropaica. Autor desconhecido.

Castanholas em madeira. Joaquim Carriço Rolo.

Nossa Senhora do Rosário. escultura em madeira. Joaquim Carriço Rolo (?).


Rosário em madeira e arame. Joaquim Carriço Rolo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Bonecos de Estremoz - Figuras de negros


 Fig. 1 - Preto a cavalo (s/d) – 
- José Moreira (1926-1991).

A produção bonequeira dos diversos barristas dos sécs. XX-XXI tem um elo comum: os chamados “Bonecos da Tradição”. Trata-se de um conjunto de cerca de 100 figuras que são comuns à produção individual de cada barrista. Naquele conjunto existem três figuras de negros que são reveladoras da colonização africana ocorrida no Alentejo: Preto a cavalo (Fig. 1), Preta grande (Preta florista) (Fig. 2) e Preta pequena (Fig. 3).
Na freguesia de Santa Vitória do Ameixial no concelho de Estremoz, existe o chamado Monte dos Pretos, situado junto à mina abandonada que foi explorada no período da ocupação romana da região, a qual começou no séc. I, mas foi mais significativa nos sécs. III-IV. A existência dum Monte com aquela designação, é indicativo de que existiram escravos negros na região. Em Estremoz, como noutras localidades do país, existe a Rua dos Malcozinhados. Estes eram tabernas populares onde se reuniam escravos, trabalhadores braçais e prostitutas e, se consumia vinho barato e comida feita à pressa como peixe frito e iscas. A nível nacional, os malcozinhados são conhecidos desde o tempo das descobertas. O facto de existir em Estremoz uma Rua dos Malcozinhados é um indicador de que por aqui houve escravos negros. Jorge Fonseca em “Religião e Liberdade / Os negros nas irmandades e confrarias portuguesas (séculos XV a XIX)” [(2) - pág.50-51] dá conta que: “Em Estremoz houve duas confrarias do Rosário, sendo aparentemente e ao contrário do que se passa noutros locais, a dos Negros de fundação mais tardia que a outra. Segundo Frei Jerónimo de Belém foi erigida a confraria na Igreja do Convento de São Francisco, em 1545. Em 1585 D. Filipe I autorizou os respectivos confrades a pedirem esmolas pela vila e pelo termo, durante dois anos. Porém, em 1633, os homens e mulheres pretos moradores na vila de Estremoz obtiveram do rei, como governador da ordem de Avis, licença para criarem a confraria e irmandade de Nª Sª do Rosário, na igreja matriz de Nª. Sª. da Assunção, situada na vila intramuros (ao contrário do convento referido), que era da mesma ordem militar. Mas esta deve ter tido duração efémera, ou ter sido unificada com a primeira, tendo em conta um livro seiscentista pertencente à confraria do convento franciscano, com a entrada de irmãos a partir de 1676. Entre pessoas das mais variadas profissões e níveis sociais, aparece Isabel Mendes, escrava de Manuel Garcia Mendes, em 1692”. Resta na cidade, como testemunho da piedade dos descendentes de africanos, uma escultura de São Benedito, setecentista, na igreja de Nª. Sª. do Socorro.” Arlindo Caldeira em “Escravos em Portugal / Das origens ao século XIX” [(1) - pág.308], diz que “Como instituição, as irmandades já funcionavam desde o século XII na Europa, nomeadamente em Portugal, com fins religiosos e de solidariedade. No entanto, não seria no seio das já existentes que os africanos encontrariam acolhimento. Tiveram de criar, com o apoio de algumas ordens religiosas, associações completamente novas. Foi assim que proliferaram estas confrarias, com marcada distinção étnica, e em que ao nome do patrono religioso, se acrescentava “dos homens pretos” ou, sobretudo depois do século XVIII “dos homens pretos e pardos”. Na mesma obra [(1) - pág. 308] refere que: “Embora varie a invocação religiosa que aparece na designação dessas associações, a mais comum é a da Nossa Senhora do Rosário, decorrente do culto do rosário, muito popular desde o séc. XIII, promovido pela ordem dos Dominicanos.” O mesmo autor [(1) - pág. 305] informa que “Além das festas informais de rua, os músicos e dançarinos negros, nomeadamente os escravos, eram os elementos imprescindíveis das festividades anuais das confrarias ditas “de pretos e mulatos” e participavam também nos principais acontecimentos festivos da cidade, sendo uma presença sempre aguardada nas touradas, nos cortejos e nas procissões…” O mesmo historiador revela que: “A música e a dança, uma e outra de raiz claramente africana, eram o prato forte das festividades domingueiras. Estas manifestações de exotismo despertavam, por um lado, a curiosidade, mas, para outros sectores da sociedade eram vistas como sinais de barbarismo pagão ou mesmo de demonismo.” A terminar é de referir de que nos dá conta que [(1)-305]: “Algumas das festas de africanos ligadas às irmandades, mas não só, incluíam a nomeação, em geral com a duração de um ano, de um “rei” e de uma “rainha”, que, além da função decorativa, eram uma espécie de mordomos dos festejos, cabendo-lhes, por exemplo, animar os peditórios para angariação de esmolas.” Julgo ter provado de uma vez por todas e duma forma insofismável que a presença de negros na barrística popular estremocense se dever à existência desde tempos remotos de escravos negros, os quais foram representados pelos barristas.

BIBLIOGRAFIA
(1) - CALDEIRA, Arlindo M. Escravos em Portugal / Das origens ao século XIX. A Esfera dos Livros. Lisboa, 2017 (págs. 304, 305, 308 e 310).
(2) - FONSECA, Jorge. Religião e Liberdade / Os negros nas irmandades e confrarias portuguesas (séculos XV a XIX). Editora Húmus. Vila Nova de Famalicão, 2016 (págs. 50, 51).

Publicado inicialmente em 8 de Maio de 2019

Fig. 2 - Preta grande (Preta florista) (s/d) –
- Liberdade da Conceição (1913-1990).

Fig. 3 - Preta pequena (2018) –
- Irmãs Flores (1957, 1958- ).

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Memórias do Espírito Santo

Nasci no número 14 do Largo do Espírito Santo, em Estremoz, no dia 19 de Agosto de 1946.
Nos anos 50, os meus pais mudaram-se para uma casa da rua da Misericórdia, hoje inexistente, mas pelo Largo continuei a viver e a brincar em permanência até 1956, ano até ao qual fiquei na casa dos meus tios, situada no número 17. A vida e os fluxos humanos que por ali se processavam nos anos 40-50 são-me pois familiares.

Fonte do Espírito Santo. Foto de J. Walowski -1891.

Convento dos Agostinhos. Foto de J. Walowski - 1891.

Torre das Couraças. Desenho de Cruz Louro – 1939.

A passagem do aguadeiro e do leiteiro, a passagem das lavadeiras para o Lavadouro Municipal, as carradas de lenha para a padaria do Beliz na rua da Levada, as entradas e saídas para a fábrica do Alves e Martins na Horta do Quiton, ao ritmo da sirene, as manobras mirabolantes dos camiões gigantescos da URMAL para conseguirem transpor os portões da Horta, as idas das meninas do asilo para a Escola Feminina do Caldeiro, assim como o trânsito dos carros de tracção animal, cuja passagem por ali era uma constante. A vida era muito, mas muito mais difícil do que é hoje. Ainda não havia água canalizada e muita gente não tinha iluminação eléctrica. Nas cozinhas, as mulheres trabalhavam com fornalhas a carvão ou fogareiros a petróleo e, de vez em quando, os bicos lá se entupiam devido às impurezas. A esmagadora maioria das casas não tinha casa de banho, tomava-se banho completo uma vez por semana, aos domingos, que era o dia de ver a Deus e os despejos, incluindo os dos penicos, faziam-se em pias, das quais muitas casas só tinham uma.
Não havia frigoríficos nem arcas congeladoras, nem supermercados, nem grandes superfícies, nem tão pouco sacos de plástico, pelo que os frangos nasciam no quintal de quem os tinha.
As idas ao talho e à praça do peixe eram por isso mais frequentes, desde que em casa houvesse dinheiro.
Nas idas ao mercado, levavam-se talegos, cestos de vime e canastras para transportar as compras. Quando se ia ao pão levava-se uma bolsa de pano. Nas mercearias, o grão, o feijão, o arroz, o açúcar, a farinha e o café eram vendidos a granel e embalados em cartuxos de papel. O sabão era vendido à barra, mas podia-se comprar qualquer quantidade que era embrulhada em papel de jornal. Para se comprar vinho, azeite ou petróleo, levava-se de casa uma garrafa provida da respectiva rolha.
Não havia Televisão e a Rádio era senhora e rainha com os seus folhetins, o futebol aos domingos e a Volta a Portugal em Bicicleta, que nos faziam vibrar com as proezas dos eternos rivais, Zé Maria Nicolau (do Benfica) e Alfredo Trindade (do Sporting).
A vida era dura, a Igreja Católica tinha uma influência muito maior na vida das pessoas que tem hoje e não se podia falar de política. Política só podia haver uma, a do único partido legal que era a União Nacional. Quem fosse contra isso, ia parar a Caxias como aconteceu ao carpinteiro José Lopes ou ao estofador Binadade Velez, meus amigos do tempo da outra senhora, seguramente aí desde os quinze anos. Nessa altura havia também quem se encarregasse de nos ensinar que a vida tinha que ser assim e ficarmos contentes com aquilo que segundo diziam, Deus nos deu.
Antes de em 1953, ir para a Escola do Caldeiro frequentar a 2º classe, andei na escola da Menina Teresinha, situada no nº 1 do Largo, nos baixos da casa onde morou o Poeta Sebastião da Gama. Do Largo ia obrigatoriamente para a catequese na Igreja de Santo André e para a formação nacionalista e paramilitar na Mocidade Portuguesa, na Rua da Cruz Vermelha. Na Igreja de S. Francisco fiz a Pimeira Comunhão, a Comunhão Pascal e a Solene, assim como o Crisma, tendo chegado a ensinar Doutrina aos mais novos, o que só foi perturbado com uma ruptura epistemológica aí pelos 12 anos, fruto da influência que a aprendizagem da História e das Ciências Naturais exerceram em mim e a que não terá também sido estranho, o convívio com dois velhos republicanos de 1910, o ferroviário Francisco Baptista, mais conhecido por Chico das Metralhadoras e o Cândido ferrador, combatente da guerra de 14-18, homem de grande corpanzil, que apesar de pacífico, dava apertos de mão como quem aperta uma tenaz. E se na Igreja tive algum êxito, ainda que efémero, até me tornar ateu, na Mocidade Portuguesa fui um completo atraso de vida, nunca passei da cepa torta, nunca passei de Lusito e nunca cheguei a Chefe de Quinas. Aquela coisa das formaturas e do marcar passo e do marchar e de fazer a saudação de braço levantado era uma grandessíssima chatice e eu não atinava com aquilo. Apenas me dava gozo a ginástica, o voleibol e o basquetebol. Mas o que é um facto, é que os tempos eram outros e as procissões e as paradas atraíam muito mais pessoas que hoje.
Grandes momentos na cidade eram as feiras como a de Maio ou Festas como as de Setembro.
No final dos ciclos de produção como as mondas, as ceifas ou a azeitona, circulava mais dinheiro pelas freguesias e pela cidade, mas em geral era tudo muito apertado, pois a maior parte do trabalho era sazonal, havia desemprego, salários de miséria e pior que tudo, tinha de se ter o bico calado.
Em alturas de crise era vulgar ver grupos de homens desempregados que iam de loja em loja, frente à qual um se destacava dentre os outros e descobrindo a cabeça, em sinal de humildade, pedia esmola em nome dos demais, agradecendo no final com um “Deus lhe pague”. Eu assisti a isso e sentia um nó no estômago.
Frente à Câmara e junto ao Café do Santos paravam os homens sem trabalho, sempre à espera de que alguém os contratasse, nem que fosse para uma única tarefa. Era então, bem amargo, o pão que Deus amassava.
No Adro do Largo do Espírito Santo funcionava a Sopa dos Pobres, que era para muitos a única tábua de salvação possível.
E esta era em traços gerais, a realidade nua e crua, não só no Largo do Espírito Santo como noutras zonas da cidade.
Permitam-me agora que vos conte algumas particularidades sobre a vida no Largo do Espírito Santo.

Torre das Couraças. Foto de Rogério Carvalho - cerca de 1940.

Ali havia um chafariz junto à fonte que ainda lá existe. Ali, eu e a miudagem do meu bando, chapinhávamos na água entre duas brincadeiras. O chafariz e a fonte eram o nosso regalo no pino do Verão. Nos anos sessenta, o chafariz foi sacrificado ao pseudo progresso, pois foi arrancado a fim de facilitar a circulação automóvel. Este foi um dos crimes de que primeiro me lembro terem sido cometidos nesta cidade. Hoje, o largo é um imenso parque de estacionamento e no local onde existia acolhedor um chafariz de água límpida, chegaram a jazer há anos, dois imundos contentores de lixo, ocupando praticamente o espaço que dantes era ocupado pelo chafariz. Tudo isto, repito, em nome do pseudo progresso.

Largo do Espírito Santo, à entrada para a Rua da Levada.
Foto de João Sabino de Matos – 1947.

Imitação da Fonte. Foto de João Sabino de Matos - cerca de 1950.

Normalmente passávamos a noite da missadura em casa da minha tia Estrela, no nº 17. Fazíamos o lume de chão para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão assim.
Por cima das nossas cabeças, o fumeiro – espécie de enfermaria para os enchidos – onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder repimpar com elas.
Ti Manel Alturas, o meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:

"Olha o Deus Menino
Nas palhas deitado,
A comer toicinho
Todo besuntado!"

A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas preparavam durante todo o dia. Ele era a boleima, o bolo podre, o bolo de laranja e as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos e regado com vinho da adega do Zé da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido falar em colesterol.
Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali cerca da meia noite quando me mandavam para a rua, ver o Pai Natal entrar pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos. Para vos falar disto é por que sei qual a diferença exacta que há entre os dois natais.

Largo do Espírito Santo. Foto Tony – cerca de 1950.

A Fonte do Espírito Santo. Desenho de Cruz Louro – 1939.

Largo do Espírito Santo- Foto Tony – cerca de 1950.
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Os miúdos do Espírito Santo – foto de Manuel Gato – 1955. No 1º plano e da esquerda
para a direita: Armando Pereira, Manuel Maria Gato, Jorge (maluco) e António Maria
Craveiro. No 2º plano e da esquerda para a direita: Zé (prima do Manuel Maria), Manuel
(da avó), Rodrigo André (de mãos cruzadas), Hernâni Matos (com o braço à cintura), 
Maria Evelina Roma e Guilhermina Massano.

Nesse tempo, eu e os putos como eu, íamos no Verão tomar banho ao tanque da galega, ali na rua do Lavadouro, junto à Fonte do Espírito Santo. Ora, como o tanque era um tanque de lavagem da roupa, muitas vezes tomávamos banho em água de sabão. Outros, mais afoitos, corriam riscos maiores e iam tomar banho aos charcos das pedreiras. Mas os mais audazes eram, os que de noite ou em pleno dia, iam tomar banho ao lago do Gadanha, mesmo nas barbas da polícia, que de chanfalho na mão se aproximava pronta a infligir castigo. E como era giro, ver os putos bater a sola, dar às de Vila Diogo e deixar os polícias para trás, rubros de raiva e impotência.
Vêm-me também à memória as fogueiras dos Santos Populares que se faziam no Largo do Espírito Santo e também na rua do Almeida, entre a Adega do Zé da Glória e a fábrica de refrigerantes do Massano. Se calhar todos sabem que a Adega do Zé da Glória era onde está hoje a Adega do Isaías. Provavelmente já lá foram comer burras assadas. Talvez não saibam é o que é um pirolito de berlinde. Pois eu e os putos como eu, homens que andam por aí hoje na berlinda, sabíamos bem o que era um pirolito de berlinde. Além de dar para arrotar depois de bebido, dava para jogar ao berlinde, pois claro! Nessa época não havia brinquedos com comando a distância, nem computadores, nem joysticks, pelo que jogávamos ao berlinde, aos amalhões, à mosca, à pateira, ao botão e ao peão, pois o software da época não dava para mais. E éramos felizes no território onde o nosso bando era rei e senhor e assim aprendíamos a ser homens.
Foi ali no Largo do Espírito Santo que ao brincar, vi o destemido bombeiro Mário, mobilizado pelo toque de fogo, vir lançado de bicicleta, rua do Mau Foro abaixo, na gáspea. Falta de travões ou curva mal feita, não sei. O que é verdade é que o bombeiro Mário já não foi apagar o fogo nesse dia. Impávido e sereno, o umbral do portão da Horta do Quiton, metera-lhe a testa para dentro, marcando-lhe o rosto para o resto da vida. Alguém terá dito a propósito: “ - Devagar se vai ao longe!”.
No nº 2 – 2º morava o poeta Sebastião da Gama, natural de Azeitão e que viera para Estremoz em 1950, como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Estremoz e que estabeleceu uma forte ligação afectiva com a nossa cidade, patente nos seus Poemas e no seu Diário.



Sebastião da Gama sofria de tuberculose renal, diagnosticada muito cedo e tinha consciência que ia ter uma morte prematura, por isso amou a vida e a natureza intensamente, o que se reflectiu nos seus escritos.
A 5 de Fevereiro de 1952 deixaria para sempre o Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º, rumo ao Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Lembro-me desse fatídico dia 5 de Fevereiro de 1952, como se fosse hoje. Lembro-me de ele, meu vizinho, partir para uma viagem sem regresso.
Eu, hoje com 63 anos, um metro e noventa de altura e mais de cem quilos de peso, era um puto que usava bibe e andava numa Mestra, a Menina Teresinha, percursora das actuais Educadoras de Infância e que dava Escola no nº 1, nos baixos da Casa de Sebastião da Gama. Eu, que na época tinha veleidades ciclistas, andava de triciclo no passeio em frente da Casa de Sebastião da Gama, que me conhecia muitíssimo bem e que por vezes me fazia uma festa na cabeça, como se faz aos miúdos, sem maldade alguma.
Ainda guardo um desdobrável impresso a sépia com a sua foto e uma cabeça de Cristo crucificado, com poemas seus, que após a sua morte, foi oferecido aos amigos e aos vizinhos, em Sua Memória.
Hoje, estou aqui a falar dele e do Largo que ele tanto amava. Cinquenta e sete anos depois, é uma modesta, mas sentida evocação do puto ciclista que impunemente andava de triciclo frente à sua casa. E que ao contrário do que Veloso ouviu de Camões no Canto V dos Lusíadas, jura que nunca ouviu do Poeta o comentário. "Ouve lá, Hernâni amigo, este passeio é melhor de descer que de subir!".
É altura de terminar que a prosa já vai longa e a paciência dos leitores é inversamente proporcional ao tamanho do texto, pelo que para terminar pergunto:

- “Quem é o espírito que acode ao Largo?”

Largo do Espírito Santo – Vista Geral da Fonte e do prédio derrocado.
Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Largo do Espírito Santo – Vista à saída da Rua das Freiras
Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Largo do Espírito Santo – pormenor do prédio derrocado. 
Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Texto publicado inicialmente em 19 de Abril de 2010.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Isabel Pires e o velho camponês alentejano


Velho camponês alentejano (2020). Isabel Pires (1955- ).


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Quem é a barrista
Isabel Catarrilhas Pires (1955-  ) é uma consagrada barrista da velha guarda. Começou a modelar o barro em 1986 por auto-aprendizagem e com alguma orientação de Quirina Marmelo. Inspirou-se nos modelos expostos no Museu Municipal de Estremoz, mas desde sempre conferiu ao seu trabalho um cunho muito pessoal.
Está certificada como artesã de Bonecos de Estremoz pela ADERE-CERTIFICA, ”entidade promotora da certificação de produções artesanais tradicionais, sinónimo da garantia da qualidade e autenticidade da produção.”
É uma barrista com uma produção diversificada que se espraia pelas diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz. Nas suas criações enfatiza a identidade regional alentejana e é-lhe grata a temática da terceira idade.
A análise de uma figura reunindo os dois requisitos anteriores é objecto do presente texto.

Retrato de velho
Trata-se de uma figura antropomórfica masculina, envergando calças e capote, calçando botas e com a cabeça coberta por um chapéu.
Do capote emergem dois braços descaídos cobertos por mangas e com as mãos abertas, das quais a direita se apoia numa bengala.
A imagem assenta numa base cilíndrica de cor verde com pintas alternadamente amarelas e vermelhas a circundar a orla do topo superior.
O capote alentejano tem aba larga, gola forrada a pele de borrego e três romeiras. A abotoadura frontal do capote é assegurada por 3 botões. Duas patilhas fixas com botões na banda esquerda da romeira superior asseguram a abotoadura em dois botões pregados na banda direita.
O chapéu sem fita, tem copa cilíndrica com topo abaulado convexamente e aba circular virada para baixo.
As calças e as mangas do casaco são singelas, não merecendo nenhuma referência especial.
O capote, a bengala e a gola do capote são de cor castanha, de diversas tonalidades, sendo a última matizada. As calças são de cor azul. O chapéu, as botas, as mangas do casaco e os botões são de cor negra.

Simbólica da figura
Importa descobrir e relevar todas as mensagens encerradas na figura. Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Castanho, cor neutra ligada à terra, à natureza e aos agricultores; - Azul, cor fria associada ao céu e que veicula as ideias de tranquilidade, serenidade e harmonia. - Negro, cor neutra associada ao luto, ao respeito, ao isolamento e à solidão.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DO CAPOTE, peça de vestuário que tem a ver com a identidade regional alentejana, porque simboliza a protecção conferida aos camponeses na sua labuta à chuva, ao frio e ao vento das mais rigorosas invernias.
Em terceiro lugar, o SIMBOLISMO DA BENGALA, acessório que entre outras funções é um auxiliador da locomoção de pessoas idosas, doentes ou com traumatismos.
A tipologia do capote, a singeleza das calças, a fisionomia do rosto e o recurso à bengala, permitem concluir estarmos em presença de um velho camponês alentejano.

Análise
Ao contrário do que acontece noutros criadores, nenhum componente da figura foi unicamente pintado, já que todos eles foram modelados e apresentam volumetria.
A modelação foi apurada e revela um rosto bem delineado. Os olhos têm profundidade com as órbitas brancas delimitadas por duas pestanas negras e nas quais se inserem meninas do olho igualmente negras, encimadas por espessas sobrancelhas grisalhas. Igualmente o nariz, a boca, o queixo, as orelhas e o cabelo grisalho estão bem definidos. O nariz apresenta narinas e é observável a morfologia das orelhas. O rosto apresenta rugas. As mãos estão bem definidas e nelas os dedos ostentam unhas, como se de mãos reais se tratasse. As calças amachucadas revelam uso. No capote é perceptível a textura da lã na gola, os botões apresentam orifícios por onde passa a linha e a romeira superior arqueada sugere que o idoso caminha contra o vento. Tudo isto integra as marcas identitárias da barrista e é revelador do tratamento naturalista das suas figuras, fruto da importância que concede aos pormenores na execução das mesmas. Nesse sentido distancia-se do estilo mais popular doutros barristas do presente e do passado. As suas criações tais como as de Jorge da Conceição, cada um à sua maneira, têm um cunho mais erudito que as restantes, sem contudo deixarem de ser Bonecos de Estremoz. Com efeito, de acordo com o CADERNO DE ESPECIFICAÇÕES PARA A CERTIFICAÇÃO DOS BONECOS DE ESTREMOZ, “… a inovação estética não constitui um problema per si pois é garante da renovação de tipologias e temáticas dos Bonecos de Estremoz.”
De salientar que na decoração da figura, a barrista utilizou sabiamente uma harmoniosa tricromia com recurso a duas cores neutras (castanho e preto) e uma cor fria (azul). Às primeiras está associada pouca energia e à segunda está associado o frio. Creio que sob o ponto de vista cromático, foram as cores mais adequadas para associar à terceira idade, considerada o Inverno da vida.
Como é sabido, valorizo muito os barristas possuidores de marcas identitárias muito próprias e cujo estilo os distingue de outros barristas. Por isso, pela qualidade e riqueza da modelação, pela harmonia cromática da decoração e pela original conjugação da identidade regional alentejana com a temática da terceira idade, a barrista é merecedora das minhas felicitações:
- Parabéns, Isabel Pires!
Publicado inicialmente a 26 de Outubro de 2020

Isabel Pires (2015) a modelar o barro no seu atelier. 
Fotografia recolhida
com a devida vénia no Facebook do Município de Estremoz. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A matança do porco


 A matança do porco (frente). José Moreira (1926-1991).  

A matança do porco (trás). José Moreira (1926-1991).


BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE
A matança do porco, misto de ritual pagão e de festa iniciática, integra o imaginário popular, pelo que não poderia deixar de estar presente na barrística popular estremocense. O exemplar aqui apresentado sob diversos ângulos, foi adquirido no Mercado das Velharias, em Estremoz, no passado sábado, dia 9 de Abril e é da autoria do consagrado barrista José Moreira, falecido em 1991. Passo de imediato à sua descrição.
Trata-se de uma peça constituída por quatro figuras. A figura central é um porco branco assente numa bancada de pau e preso por dois homens. O da esquerda agarra com as duas mãos a parte traseira do animal. O da direita sustém o focinho do bicho com a sua mão esquerda, enquanto que com a direita agarra a faca que espetou nas goelas do cevado, até ao coração. A quarta figura é uma mulher agachada junto a um alguidar de barro vidrado, assente por debaixo das goelas do condenado, onde é recolhido o sangue que dele espicha e que a mulher revolve com um pau, para não coalhar.
Os homens usam na cabeça, o típico chapéu aguadeiro, característico do Alentejo. O calçado é preto e vestem um fato de macaco azul-escuro, por debaixo do qual usam uma camisa creme, rematada em cima por um par de botões amarelos. As mangas têm punhos e uma fieira lateral de três botões, todos cor de colorau. E, porque a matança é feita de Inverno, os homens protegem o traseiro, com uma pele de borrego, amarrada à cintura.
A mulher, ornamentada com arcadas nas orelhas, tem a cabeça coberta por um lenço azul-aço, com pintas cor de colorau. O vestido desta cor, tem gola, cinto e uma barra azul-aço. Em cada manga, um punho e uma fieira lateral de botões da mesma cor.
Aos pés do matador, o saco de cabedal onde transporta as facas.
O chão onde assentam todas as figuras é verde, pintalgado de branco, amarelo e cor de laranja, numa alegoria à matança ao ar livre, num chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.
É de salientar que a matança do porco é das composições mais ingénuas da barrística popular estremocense. Como facilmente compreenderão pela descrição que adiante fazemos da matança do porco, ninguém consegue matar o porco tal como é representado pelos nossos barristas. Na verdade, além de ser preciso amarrar as pernas e o focinho do porco, o matador precisa da ajuda de 3 ou quatro homens possantes, a segurar o porco.
A matança do porco tal como é figurada por José Moreira apresenta três diferenças fundamentais em relação ao modo de representação de Mariano da Conceição e de seus seguidores Sabina Santos, Liberdade da Conceição, Maria Luísa Palmela e Irmãs Flores, como se pode ver comparando com a matança do porco executada por estas últimas. No figurado de José Moreira, o porco não é porco preto, mas porco branco. Na mesa da matança, o porco está em posição inversa em relação aquela que é habitualmente representada, o que dificultaria a matança, já que o matador em vez de segurar o focinho do animal com a mão esquerda, o que faz é usá-la para afastar para trás a pata dianteira do animal, que está para cima. Isso quando são só três homens a segurar o porco e visando espetar a faca com mais segurança e precisão. Finalmente na figuração de José Moreira, os homens envolvidos na matança, em vez de usarem barrete, como no início do século XX ainda era corrente no Alentejo, usam o tradicional chapéu aguadeiro, típico do Alentejo. E não é só aqui. Em todos os bonecos em que Mariano da Conceição pôs um barrete na cabeça da figura, José Moreira enfiou-lhes um chapéu aguadeiro, de aba larga, que o sol no Alentejo não é para brincadeiras, como está registado no cancioneiro popular alentejano:

"Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu."

A CRIAÇÃO DO PORCO
Desde tempos remotos que o porco integra a dieta alimentar das gentes de Além Tejo. Uma dieta alimentar com base naquilo que a Terra-Mãe dá, fortemente centrada no uso do pão e no recurso a ervas aromáticas que conferem requintados odores e sabores à frugalidade daquilo que muitas vezes se come.
Da Terra-Mãe provêm as landes e as bolotas que nos montados de sobro e azinho, alimentam o porco preto, de inconfundível sabor.
Mesmo nos tempos de miséria, das jornas de sol a sol, com uma alimentação, a maioria das vezes miserável e que era fornecida pelo próprio Senhor da Terra, o camponês alentejano não deixava de comer carne de porco, nem que fosse um simples naco de toucinho cozido ou umas rodelas de chouriço, usados como conduto do sempre omnipresente pão.
Tradicionalmente, a alimentação do porco alentejano é feita através do recurso à pastorícia. Nela, as porcas parideiras andam em varas de 40 a 60 cabeças, seguidas por varrascos (porcos de cobrição), na proporção de um macho para cada seis fêmeas.
As porcas criam duas vezes por ano. Normalmente uma em Setembro e Outubro (criação montanheira) e a outra em Março e Abril (criação erviça).
Cada fêmea pare cinco a seis bácoros, que após a parição são abrigados em malhadas, alojamentos constituídos por duas séries de casinhotas quadradas (quartelhos), com portas para uma espécie de pátio.
Os bácoros montanheiros mamam durante dois meses e são desmamados em Dezembro, alimentando-se a cevada ou milho, em Janeiro. Se a produção dos montados foi boa, comem lande ou bolota, em Fevereiro. Depois voltam a comer cereais até Abril ou Maio, quando a erva tenra abunda. Quando esta começa a escassear, tornam ao regime de cereais até Julho, altura em que vão para os agostadouros, onde comem do pasto que ficou, depois de ceifados os campos. Aí se conservam até irem para os montados, em Outubro.
Os bácoros erviços mamam igualmente dois meses e são desmamados em Junho, alimentando-se de erva e em Julho, vão também pastar para os agostadouros, até ingressarem igualmente nos montados, em Outubro.
A engorda porcina no montado é conhecida por montanheira e principia em Outubro, quando por estar madura, já há muita lande ou bolota, que tombou das árvores. A ceva dura cerca de três meses, período durante o qual cada animal aumentou em média cerca de cinco arrobas. Depois da ceva estão capazes de vender.
Para além da criação em regime de pastorícia, o camponês alentejano adquiriu o hábito de criar o seu próprio porco numa pocilga junto ao monte. Para tal, após cada matança, compra um bácoro acabado de desmamar, a alguém que seja dono de uma porca parideira. É esse bácoro que vai ser engordado na pocilga familiar, com tudo aquilo a que é possível recorrer em cada momento: lande ou bolota, erva, batata, beterraba, tomate, pimentão, fruta, cascas de batata, de fruta, de favas, de ervilhas, farinha de milho, farinha de cevada, farelos, etc.
O bácoro, cedo é capado pelo capador, que lhe corta os testículos se for macho ou os ovários se for fêmea. Esta amputação genital visa tornar a carne de porco mais saborosa e permitir que o animal engorde mais.
A criação do porco faz parte da economia doméstica das gentes do campo, que o acaba por sacrificar para que a família sobreviva. Bolota, porco e alentejano, são os elos de uma cadeia alimentar de séculos. A matança do porco feita pelos alentejanos é, pois, consequência dessa trindade campestre. Mas é igualmente um ritual colectivo que se repete ciclicamente e que envolve todos os membros de uma família, os amigos e os vizinhos, mesmo os mais pequenos que aí recebem a sua formação iniciática, participando em pequenas tarefas, orientados pelos mais velhos. E é um ritual que apesar de modificações técnicas de pormenor, tem resistido ao relógio do tempo, já que é intenso o convívio que proporciona e apelativa a gastronomia que lhe está associada.
A MATANÇA DO PORCO
Com a chegada do frio vem o tempo da matança do porco, já que antes da existência de arcas frigoríficas, o frio, assim como a salga e o fumeiro, eram os únicos processos de conservação da carne que era consumida ao longo do ano, cumprindo assim um papel fundamental na mantença das famílias rurais.
Por alegadas razões sanitárias e em nome de uma normalização imposta pela União Europeia, a matança tradicional do porco foi ilegalizada e passou a punir-se quem a praticar. Tratou-se de uma forte machadada na nossa identidade cultural, pelo que os alentejanos, orgulhosos das suas tradições ancestrais, fizeram orelhas moucas às proibições de Bruxelas e lá continuaram a matar o porco, como sempre o fizeram. Lá diz o rifão: “Para palavras loucas, orelhas moucas”. Por outras palavras: “A ASAE que vá bugiar!”
A matança do bicho, em jejum desde o dia anterior, para ficar limpo, será executada por um homem experiente, o matador, que se faz acompanhar de diversas facas e de um machado, os quais irá utilizar na matança e desmancho do animal.
Quando começa a função, meticulosamente preparada, quatro homens possantes que desempenham o papel de ajudantes do carrasco, põem o bicho, bem apernado, em cima duma, muitas vezes improvisada, mesa de abate. Antes de ser posto em cima da mesa, o animal viu o seu focinho amarrado com uma corda para não morder. Por outro lado, as duas pernas de trás foram amarradas à perna da frente que fica para baixo, para que o bicho não possa espernear. Só uma perna fica livre e essa é segurada com força e empurrada para trás pelo matador, quando este com um golpe rápido e certeiro, enterra a comprida faca matadeira nas goelas do bicho, em direcção ao coração. Apesar de tudo e mesmo antes de ser esfaqueado, o animal esperneia e causa um enorme chinfrim, como se adivinhasse o fim que o espera. Com a estocada do matador, o animal ainda guincha mais, ao mesmo tempo que tem espasmos violentos na sua luta derradeira. Mas, logo começa uma rápida agonia, ao mesmo tempo que se esvai em sangue e acaba por morrer.
Do porco tudo se aproveita, a começar pelo sangue que se apara num alguidar de barro, preparado para o efeito com sal e vinagre, que é agitado com uma colher de pau, para não coalhar.
Morto o animal e espichado todo o sangue, o bicho é chamuscado com fachos de rosela ou de esteva a arder, para queimar o pêlo todo e a porcaria da superfície da pele. Segue-se uma raspagem com a raspadeira para extrair toda a sujidade, sucedendo-se uma lavagem com vários baldes de água, até o animal ficar com o couro, todo muito bem limpo, antes de ser aberto. Trata-se assim, de uma operação minuciosa e necessariamente demorada.
A ABERTURA
Seguidamente, o matador faz um rasgo na pele que precede os tendões das patas traseiras do animal. Por aí, o bicho é suspenso no chambaril, pau arqueado, dependurado por uma corda numa trave mestra da casa. Só depois abre o porco com um golpe longitudinal, consumado do rabo para a cabeça. Trata-se de uma operação que exige extrema atenção e precisão, não vá a faca usada, perfurar alguma tripa e deitar muito do trabalho a perder. O golpe corta apenas o couro do animal. Depois. com todo o cuidado, o matador vai cortando o que está por baixo até chegar às vísceras. Tira então o osso do peito, com o qual sai a língua e, tira o bofe, o coração e o fígado que são postos num alguidar de barro e vão ser migados, para conjuntamente com o sangue, serem utilizados na confecção de cachola, consumida nesse dia à hora do jantar.
Seguidamente tira as tripas, o buxo e a bexiga, que são postos num tabuleiro de madeira e vão ser lavadas pelas mulheres, com água corrente, para serem depois utilizadas no fabrico de enchidos. Para tal, têm que ser preparadas primeiro.
Aliviado das vísceras, o interior da carcaça é lavado com água nos locais em que tem sangue, ficando depois a arrefecer dum dia para o outro, protegido por um pano.
O DESMANCHO
No segundo dia da matança, procede-se ao desmancho do animal, o qual é cortado nas suas múltiplas partes: presuntos, mãos, orelheiras, queixos, segredos, plumas, tiras, etc. É do interior que saem os lombos para fazer as paias e a carne entremeada para os chouriços. Quanto à pele do lombo do animal e a camada de gordura subjacente, dão o toucinho, que vai ser curado na salgadeira.
Do resto da gordura do porco faz-se a banha, gordura alimentar usada tradicionalmente no Alentejo. Esta é feita numa tigela de fogo de grandes dimensões, aquecida ao lume de chão em cima duma trempe de ferro. A gordura vai derretendo e é necessário estar sempre a mexer para não esturrar. Quando a gordura está toda derretida é vazada para dentro de uma grande panela, para onde é coada com um pano branco. Ali acabará por coalhar, originando a banha. O resíduo que fica na tigela de fogo constitui os chamados torresmos, os quais são muito apreciados.
As costelas e a espinha, são consumidos nos primeiros dias após a matança. Depois há os pés, as orelhas, a focinheira, as costeletas, os lombinhos, etc., etc. É um nunca mais acabar de peças, cada uma das quais recebe desde logo o tratamento adequado.
OS PRESUNTOS
As pernas do porco podem ser consumidas como carne fresca ou utilizadas na confecção de presuntos. Para tal, a perna de porco é toda esfregada com sal, alhos moídos e vinho branco, ficando um dia a macerar. No dia seguinte, é metida em sal, sendo-lhe posta por cima uma tábua, na qual se assentam pedras pesadas, ficando assim 30 dias. Depois é levemente fumada, para se conservar e barrada com uma mistura de massa de pimentão, colorau e azeite. Cerca de um ano depois, o presunto está capaz de ser consumido.
OS ENCHIDOS
No segundo dia da matança, as tripas retiradas do porco são cortadas pelas mulheres em bocados de cerca de meio metro e lavadas em água corrente. Seguidamente, são viradas do avesso com o chamado pau de virar tripas (pau com cerca de 50 cm de comprimento e 1 cm de diâmetro, perfeitamente liso e de pontas arredondadas, para não furar as tripas). Depois de viradas, as tripas são novamente lavadas, de modo a ficarem completamente limpas. Seguidamente, são temperadas com massa de pimentão, dentes de alho pisados, sal e rodelas de laranja. Ficam assim durante quatro ou cinco dias até à sua utilização, sendo nessa altura lavadas com água corrente para ficarem perfeitamente limpas. Igual tratamento é dado ao buxo e à bexiga do porco.
Se a quantidade de tripa não for suficiente, utilizam-se tripas de porco salgadas, provenientes dum matadouro, lavadas com muito cuidado em água quente e viradas e tornadas a lavar, as quais recebem depois o mesmo tratamento das tripas do porco que foi abatido na ocasião. Também se utilizam tripas de vaca, secas ou salgadas, que recebem igual tratamento.
No segundo dia da matança, as mulheres também migam as carnes que vão ser usadas nos enchidos, cada um dos quais vai ter a sua própria composição. As carnes migadas são distribuídas por alguidares de barro, correspondentes aos diferentes enchidos, levando cada um deles, o seu próprio tempero. Assim:
- Chouriços: carne entremeada, alho, sal e pimentão.
- Paios: carne entremeada, alho, sal e pimentão.
- Paias: carne do lombo, alho, sal e pimentão.
- Farinheira branca: gordura, farinha, pimentão, alho e sal.
- Farinheira preta: gordura, farinha, sangue, pimentão, alho e sal.
- Morcela: carne entremeada, sangue, alho, sal, cominhos e cravinho.
Estas carnes temperadas ficam em repouso durante quatro a cinco dias, para adquirirem o gosto do tempero. Só depois são utilizadas na confecção dos vários tipos de enchidos:
- Paias: utilizam as duas peles de igual nome, onde está a banha do porco.
- Paios: utilizam a porção de tripa conhecida por paio, assim como a bexiga.
- Chouriços: utilizam as tripas do porco.
- Morcelas: utilizam as tripas do porco e o bucho.
- Farinheiras: utilizam as tripas de vaca.
O enchimento é feito pelas mulheres durante um dia, com o auxílio de uma enchedeira. Esta é um pequeno funil, de tubo largo e curto que é enfiado numa das extremidades da tripa, que entretanto foi atada numa das extremidades com um bocado de fio de carreto em excesso. Enquanto a mão esquerda segura a tripa e a enchedeira, a mão direita vai tirando pedaços de carne do alguidar, que são postos na boca da enchedeira, de onde são empurrados para dentro da tripa, até esta estar cheia. Quando isso acontece, retira-se a enchedeira e ata-se a extremidade do enchido com a ponta do mesmo fio de carreto que serviu para fechar a outra extremidade. Este procedimento é válido para chouriços, morcelas e farinheiras. No caso dos paios, como a porção de tripa conhecida por paio, assim como a bexiga só têm uma abertura, é esta que é atada com fio de carreto no final do enchimento. Finalmente no caso das paias, antes do enchimento elas são cosidas com linha branca naquilo que será a parte debaixo. Depois do enchimento, a abertura é atada com fio de carreto.
Os enchidos serão curados, pendurados em fueiros, no fumeiro da descomunal chaminé tradicional, cuja lareira arde continuamente. Farinheiras e morcelas levam cerca de uma semana a curar, dependendo da intensidade do lume de chão, ao passo que chouriços, paias e paios, levam cerca de um mês.
AS COMEZAINAS DA MATANÇA
A matança do porco é uma festa comunitária que envolve familiares, vizinhos e amigos que nos dois dias da matança, comem em casa de quem mata o porco. Logo à chegada, de manhã cedo, os homens matam o bicho com copinhos de aguardente, acompanhados por figos ou bolos secos. E durante a manhã vão bebendo os seus copinhos de vinho com pão e paio da matança do ano anterior. No primeiro dia ao almoço é habitual comer febras do cachaço do porco, grelhadas, acompanhadas com verdura cozida e pão. Ao jantar come-se cachola com rodelas de laranja. Já no segundo dia, ao almoço, come-se canja de arroz com carne dos ossos do peito, feijoada de cabeça de porco e frigenada. Ao jantar repete-se a dose e ninguém se queixa. Tudo muito bem regado com vinho tinto. Lá haverá algum homem que se engana no número de copos que bebeu e começará a dizer umas graçolas, recebidas com uma risada geral. Alguém dirá então: “Todo o preto tem o seu dia!”
A FUNÇÃO SOCIAL DA MATANÇA
A matança do porco tem como função contribuir para o estreitamento dos laços de solidariedade na comunidade. Por um lado, os familiares, vizinhos ou amigos participam e ajudam na matança e no local da matança comem nos dias que ela dura. Por outro lado, persiste o hábito comunitário cuja origem se perde no tempo e que consiste em quem mata, dar um prato de carne aos lares mais chegados, para que todos possam provar da matança. Com esta simples dádiva de sete ou oito pratos de carne, num momento em que esta é excessiva, ganha-se carne durante sete ou oito semanas, pois quem recebe, retribui com um prato de carne, quando faz a sua própria matança.
SINOPSE DUM ADAGIÁRIO PORTUGUÊS DO PORCO
É rica a literatura oral sobre o porco, em particular o adagiário. Dele fizemos um sinopse que sistematizámos por temas:
Gestação do porco
- Três meses, três semanas, três dias e três horas, bácoros fora.
Criação do porco
- Bácoro de Janeiro vai com seu pai ao fumeiro.
- Em Janeiro, um porco ao sol e outro ao fumeiro.
- Leitão de mês, cabrito de três.
- O repolho e o cevão têm de ficar feitos de Verão.
- Porca capada já se não descapa.
- Porco de um ano, cabrito de um mês e mulher dos dezoito aos vinte e três.
- Porco que nasce em Abril vai ao chambaril.
- Tem o porco meão pelo São João (24/06).
Alimentação do porco
- A cada porco agrada a sua pousada.
- A mau bácoro, boa lande.
- A melhor espiga é para o pior porco.
- A pia é a mesma, os porcos é que mudam.
- Ao porco nunca lhe enjoa o chiqueiro.
- Com que sonhas porco? Com a bolota.
- Nunca sonha o porco senão com a pia.
- O menino e o bacorinho vão para onde lhe fazem o ninho.
- O pior porco come a melhor bolota.
- O pior porco come a melhor lande.
- O porco depois de comer vira a pia.
- O porco, no comer, é invejoso.
- Porco velho, já lhe não vai a bolota à tripa.
- Porcos com fome, homens com vinho, fazem grande ruído.
Economia doméstica
- Bácoro de meias não é meu.
- Bom gado é porco.
- Branco ou preto, um porco é um porco.
- Negociante e porco, só depois de morto.
- O comerciante e o porco só se conhece depois de morto.
- O rico e o porco, depois de morto.
- Ou magro ou gordo, aqui está o porco todo.
- Porco rabão nunca enganou o patrão.
- Quanto mais porco, mais gordo.
- Quanto mais porco, mais toucinho.
- Quem tem porco tem chouriço.
Matança do porco
- A cada bacorinho vem seu São Martinho (11/11).
- A cada porco chega o São Tomé (21/12).
- A cada porco vem o seu São Martinho (11/11).
- A vida do porco é curta e gorda.
- Cada porco tem seu Natal (25/12).
- Cada porco tem seu São Martinho (11/11).
- É melhor ser porqueiro do que porco.
- No dia de São Martinho (11/11), mata o teu porco e prova o teu vinho.
- Pelo Santo André (30/11) mata o porco pelo pé.
- Por São Lucas (18/10), mata os porcos e tapa as cubas.
- Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco.
Enchidos
- Atar e pôr ao fumeiro, como o chouriço de preta.
- Chouriço, chouriço, quem não mata não tem disso.
- Que é isso?" - "Chouriço".
- Sem sangue não se fazem morcelas.
Consumo
- Frigir a carne de porco com a banha do mesmo porco.
- Não há sermão sem Santo António, nem panela sem toucinho.
- Peixe e cochino, vida em água, morte em vinho.
- Porco fresco e vinho novo, cristão morto.
- Um sabor tem cada caça, mas o porco cento alcança.
Insultos a outrem
- Matar porco e dar a bexiga.
- Nem sabe amarrar o focinho a um porco.
PRECONCEITOS
A gíria popular chama “porco” a alguém que não é limpo e “pau de virar tripas” a uma mulher magra. Quanto ao adagiário é cruel quando compara a mulher a um porco:
- No dia de Santo de Santo André (30/1), quem não tem porco mata a mulher.
A sociedade está eivada de preconceitos ancestrais, como uma mulher não dever assobiar. Daí o adágio:
- Mulher que assobia, ou capa porcos ou atraiçoa o marido.
Igualmente por superstição e preconceito primitivo se considera que durante a matança do porco, desde o desmancho até aos enchidos, as mulheres com menstruação não devem mexer na carne, para esta não se estragar. Tudo isto constitui barreiras mentais de que a mulher se vem corajosamente libertando.

Texto publicado inicialmente em 15 de Abril de 2013