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quarta-feira, 25 de março de 2026

Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Março de 2026.

O Centro Interpretativo para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz inaugura no dia 28 de março às 16:00 horas, na sua Sala de Exposições Temporárias, a Exposição “Moldar o Legado”, Bonecos de Estremoz de Sara Sapateiro.

Sara Sapateiro (1995) é uma jovem, natural de Estremoz, que iniciou o seu percurso na produção de Figurado em Barro de Estremoz em 2018 pelas mãos da Barrista Isabel Pires, sua Mestra, com quem aprendeu grande parte das técnicas e processos desta arte.

No final de 2019, frequentou o I Curso de Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz promovido pelo CEARTE em parceria com o Município de Estremoz.

Sempre com o apoio e incentivo da Mestra, tem vindo a dar continuidade ao seu trabalho e criando a sua própria identidade estética. Sara é hoje a mais jovem Barristas a produzir o Figurado em Barro de Estremoz, inscrito desde 2017, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO.

A mostra poderá ser visitada até dia 21 de junho.

Não falte, venha conhecer o "Legado" de Sara Sapateiro.

Hernâni Matos

sábado, 14 de março de 2026

A Banda de Música de Jorge Carrapiço


Banda de   Música de Jorge Carrapiço.

Composição da Banda e distribuição dos músicos pela mesma, da autoria do Maestro
Mário Tiago, da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense.

Preâmbulo
Desde o passado dia 31 de Janeiro, que na Galeria Municipal D. Dinis, está patente ao público e até ao próximo dia 3 de Maio, a exposição “100 Anos da Elevação de Estremoz a Cidade – Barristas do Centenário”, a qual integra as Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, promovidas pelo Município de Estremoz.
A exposição destaca o percurso dos barristas nos últimos cem anos, a evolução dos Bonecos de Estremoz e o papel do Município na salvaguarda da tradição da arte bonequeira, que desde 2017 integra a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Na exposição há exemplares que se destacam pelos mais diferentes motivos, como é o caso da Banda de Música de Jorge Carrapiço, encomendada por mim ao barrista em 2021 e que integra a minha colecção pessoal de Bonecos de Estremoz.
Para compreender a importância desta Banda de Música torna-se necessário ler o texto que se segue, redigido em 2021 e dedicado à Sociedade Filarmónica Artística Estremocense na passagem do seu 150.º Aniversário.
Estremoz e as Bandas de Música
No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, de Estremoz (Fundada a 25 de Agosto de 1840), Sociedade Filarmónica Veirense (Fundada em 19 de Março de 1870) e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense (Fundada a 11 de Agosto de 1871). Qualquer delas tem um historial respeitável, o qual merece ser conhecido, sendo que a fundação da Banda mais antiga remonta aos finais da primeira metade do séc. XIX.
Desde a sua fundação que estas Bandas actuam não só no concelho, como um pouco por todo o Alentejo, em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).
Bandas de Música na barrística de Estremoz
Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, que tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos. Aquela procissão foi perpetuada no barro por Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) nos anos 40 do séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.
Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição morfológica.não permite saber o que são.
Uma Banda de Música para mim
A minha colecção integra há já algum tempo, uma Banda de Música de José Moreira e outra de Quirina Marmelo, as quais apresentam algumas das características acima referidas. Daí que tenha pensado em incorporar na minha colecção uma Banda de Música que sem perder o cunho verdadeiramente popular, traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado. Visando este fim e após alguma reflexão, tomei as seguintes medidas:
1 – Escolhi como barrista, Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trobone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, o qual acedeu a modelar uma Banda de Música com as características por mim indicadas.
2 – Convidei o Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, a esboçar uma Banda de Música, definindo o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Aquele Maestro correspondeu à minha solicitação, fixando aqueles parâmetros. É, pois, de sua autoria o esquema que estabelece a composição da Banda e a distribuição dos músicos pela mesma. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO (caixa, bombo, pratos), METAIS (tuba, trombone, contrabaixo, bombardino, trompa, trompete), PALHETAS (clarinete, sax alto sax barítono, sax tenor) e FLAUTAS (Flauta). Ao todo são 22 figuras.
3 – Passei em revista as Bandas produzidas anteriormente por outros barristas, tendo-me agradado muito particularmente uma Banda da autoria de José Moreira, a qual viria a ser tomada como modelo.
4 - Sugeri ao barrista Jorge Carrapiço que executasse a Banda de Música com as seguintes características: - Altura das figuras: 16 cm; - Base quadrangular de 5 cm x 5 cm, com as pontas cortadas em bisel. Topo de cor verde bandeira e orla em zarcão; - Fardamento azul, compreendendo calça e casaco orlado de zarcão à frente e nos punhos. Abotoadura constituída por duas fileiras de 5 botões amarelos; - Chapéu tipo quépi da mesma cor do fardamento, com pala preta e fita dourada à frente, terminada por dois botões da mesma cor; - Botões definidos volumetricamente; - Calçado preto; - Instrumentos modelados com definição.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço
O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.
O cromatismo das figuras assenta em nítidas dicromias quente-frio, que pela sua simplicidade lhes confere uma beleza vigorosa.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma. O barrista está, pois, de parabéns e a barrística popular de Estremoz está mais rica. São factos indesmentíveis que aqui atesto e registo para memória futura.
A Banda de Música agora executada fica, de resto, a assinalar os 150 anos da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, da qual eu sou associado, Mário Tiago é Maestro e Jorge Carrapiço é trombonista.

Hernâni Matos


Jorge Carrapiço, o barrista - trombonista.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fotografias inéditas de Mário Lagartinho, Mestre Oleiro de Estremoz

 






LER AINDA

A memória mais antiga que guardo de Mestre Mário Lagartinho (1935-2016) é a da sua participação no Cortejo Etnográfico de 1963 em Estremoz, integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz desse ano. Tratou-se de um evento histórico de grande impacto, o qual celebrou as profissões tradicionais do Alentejo, com especial destaque para a Olaria e os Bonecos de Estremoz. Num dos carros alegóricos à olaria e que desfilavam pela Avenida 9 de Abril, Mário Lagartinho, então com 28 anos (eu tinha 17) ia modelando peças oláricas.                     

Só após a minha saída da Universidade viria a ter uma relação mais próxima com Mário Lagartinho, o que aconteceu nos anos 70 do séc. XX. O Mestre viria então a conceder-me o privilégio da sua amizade, o que me permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da Olaria de Estremoz na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Fi-lo na condição de coordenador do Centro de Recursos da Escola. O evento designado por “Encontro com a Olaria Alentejana” e realizado no átrio consistiu basicamente numa exposição de peças oláricas de Estremoz pertencentes à minha colecção pessoal e ainda, o que foi o mais importante, um workshop orientado por Mário Lagartinho. O público alvo foi a comunidade escolar e muito em especial, os alunos da área das Artes.

São dessa época as fotografias inéditas de Mário Lagartinho aqui divulgadas e das quais naturalmente estou ausente, já que estava por detrás da objectiva.

De salientar que o magnífico painel de azulejos patente no átrio da Escola é da autoria da artista plástica Estrela Faria (1910-1976).

 Hernâni Matos

Alegoria ao Ensino (1962). Estrela Faria (1910-1976). Painel de azulejos (300 x 600 cm).
Escola Secundária Rainha Santa Isabel, Estremoz.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pedro Alves - O despontar de uma estrela


1 - Primavera de Plumas (2026) (frente). Pedro Alves (1991-  ).

Ficar de boca aberta
Há oitentões como eu, rodados na vida e que já “meteram o nariz” em tudo e mais alguma coisa, mesmo naquilo para o qual não foram chamados. Alguns estão mesmo convencidos de que já não há nada de novo para ver e que tudo vai dar ao mesmo. Não é o meu caso, manifestamente um desajeitado para o desempenho do papel de “velho do Restelo”.
Na verdade, creio convictamente que "A vida é uma caixinha de surpresas." e que "As surpresas acontecem quando menos se espera”. De tal modo que acabamos por "Ficar de boca aberta". Foi assim que há dias e em “maré de “Entrudo” deparei nas redes sociais com uma figura em barro pintado (Fig. 1 e Fig. 2), disponível para venda, a qual de imediato me fascinou. Foi “amor à primeira vista”. Em termos de linguagem cinegética foi um caso de “tiro e queda”. Parece que aquela figura tinha sido feita para me seduzir, o que de facto aconteceu e me fez “puxar os cordões à bolsa”, a qual, nestas andanças, vem “emagrecendo a olhos vistos”.
Primavera de Plumas
Curiosamente, na “maré de Entrudo”, acabei por adquirir uma “Primavera de Plumas”, que conjuntamente com as “Primaveras de Arco” e as “Bailadeiras”, integram a galeria dos Bonecos de Estremoz, com a designação genérica de “Primaveras”. Trata-se de alegorias à estação do ano homónima, bem como à sua chegada e simultaneamente figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, assimilados pela Igreja Católica que há séculos começou a comemorar o Entrudo.
Quem é quem
O barrista de que venho falando é Pedro Alves, um jovem de 35 anos, filho do barrista Carlo Alberto Alves e da artista plástica Cristina Malaquias. É caso para dizer que “Quem sai aos seus não degenera”, além de que “Filho de peixes, sabe nadar”, a que forçosamente terei de acrescentar “E de que maneira!”.
Passar a pente fino
A análise cuidada e pormenorizada da imagem permitiu-me concluir que a representação transmite harmonia, beleza e elegância. De salientar que a figura exibe uma postura vertical com os pés mais afastados do que é habitual. As pregas do vestuário e a posição desencontrada dos braços indiciam movimento. A modelação e a decoração são cuidadas e consistentes no seu todo. O cromatismo dominante da figura assenta no vermelhão e no cor de rosa, cores quentes através das quais se procura transmitir a energia, o calor e a vibração dos festejos de Entrudo.
É ou não é?
Chegados a este ponto somos confrontados com a sacramental pergunta: ”Estamos ou não em presença daquilo a que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz?"
A resposta óbvia é que sim, já que em primeiro lugar a técnica de modelação utilizou a combinação das três técnicas: a da bola, a do rolo e a da placa. Em segundo lugar a estética dos Bonecos de Estremoz é uma estética naturalista, que recorre a uma modelação que procura ser fiel ao original, sem introduzir pormenores que lhe são estranhos. Essa fidelidade estende-se ao domínio cromático, já que utiliza cores reais, ou seja, as cores possíveis daquilo que pretende representar.
Uma mudança de paradigma
Pese embora o estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, o barrista como, de resto, vem sendo prática corrente desde os primórdios da arte, ousou fazer algo de diferente, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto” e com essa diferença dar conta da sua individualidade e do seu modo de ver o mundo e a vida. E que fez o barrista de novo? Encurtou o vestido e dotou-o de um decote generoso. “Duma cajadada matou dois coelhos”: permitiu-se modelar pernas esbeltas e valorizar a representação do busto feminino. Ao proceder assim, o barrista conferiu sensualidade à sua Primavera de Plumas. Em termos de representação ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que importa sublinhar e valorizar.
Que fazer?
O futuro ao barrista pertence, o qual inescapavelmente irá percorrer o seu próprio caminho. O que até agora nos mostrou é revelador de talento e forte personalidade artística, aos quais decerto saberá adicionar resiliência aos “ditos e mexericos” dos “velhos do Restelo”, que temerosos de sair da sua “praia”, adoptam uma atitude céptica e conservadora perante a inovação. E vai daí desencandeiam as suas “Guerras do alecrim e da Mangerona” como forma de nos “Atirar poeira para os olhos”.
Mensagem final
A chegada de alguém muito especial ao universo dos barristas de Estremoz, leva-me a congratular-me com esse facto e a proclamar a sua chegada, anunciando o despontar de uma estrela que promete brilhar.


2 - Primavera de Plumas (2026) (trás). Pedro Alves (1991-  ).

sábado, 17 de janeiro de 2026

Crispim Serrano, Presente!

 

1 - Crispim Serrano, funcionário do Município de Estremoz, figura-chave na
recolha de peças utilizadas nas fainas agro-pastoris concelhias para o Museu
da  Alfaia Agrícola,  nos anos 80 do séc. XX.


“Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”
José Régio in Cântico Negro


Sem querer chover no molhado

Muito se tem falado e escrito a propósito disto e daquilo, das instalações definitivas do chamado Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz.
O debate perde-se na lonjura do tempo, é do domínio público e no decurso dele têm-se revelado opiniões críticas, de carácter piedoso em relação ao Museu e ao público alvo: a Comunidade e aqueles que nos visitam. Algumas delas tresandam a “gato escondido com o rabo de fora”, já que não conseguem disfarçar o fito de nos seus juízos, visarem zurzir o Executivo Municipal em exercício, o que já aconteceu sucessivamente com edilidades de diferentes colorações ideológicas.
Muitas das vezes as divergências não são mais que meros reflexos de caganifâncias resultantes de diferentes orientações metodológicas em termos de musealização ou necessidade de protagonismo dos seus fautores. Para além disso, são a assunção da ignorância flagrante duma verdade culinária clássica e de um provérbio tradicional português “Não se fazem omeletes sem ovos”. E no caso do Museu da Alfaia Agrícola, os ovos têm a ver com prioridades, oportunidades, projectos e financiamento.

Palavras do Presidente do Município
Em depoimento prestado ao jornal E e publicado no número anterior, o Presidente do Município, José Sadio deu conhecimento de dois factos relevantes: 1) Avançará em breve a aquisição do imóvel destinado às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola, uma vez que se encontram reunidas as condições necessárias para o fazer; 2) Está a ser desenvolvido internamente um novo Projecto de Musealização para o futuro espaço, o qual vai ser submetido a candidatura, visando o respectivo financiamento (*1).
Os meus parabéns ao Município na pessoa do seu Presidente, uma vez que a missão a que se propôs está em vias de ser concluída.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Desconheço inteiramente a designação que vai ser atribuída ao chamado “Museu da Alfaia Agrícola” nas suas futuras instalações. Há muitas hipóteses, das quais respigo algumas: Museu da Alfaia Agrícola, Museu Rural, Museu da Lavoura, Museu da Agricultura, Centro Interpretativo do Mundo Rural, Centro Interpretativo da Ruralidade, etc.
Outras designações haverá certamente. Caberá ao Executivo Municipal escolher aquela que melhor se ajuste à filosofia do Projecto subjacente às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola.
Para além disso, atrevo-me a sugerir ao Executivo Municipal que vá mais além. Vejamos porquê. É sabido que o Museu Municipal de Estremoz criado em 1880, foi transferido para as actuais instalações em 1972. Desde os anos 70 do século passado que o Professor Joaquim Vermelho desenvolveu uma actividade cultural intensa na Biblioteca e no Museu Municipal, sobejamente reconhecida pela Comunidade e fora dela. Daí que em 1 de Março de 2003, o Município de Estremoz o tenha homenageado postumamente, atribuindo ao Museu Municipal de Estremoz a designação “Professor Joaquim Vermelho”. Tratou-se de uma iniciativa inteiramente justa, reconhecida e aplaudida pela Comunidade, que via nele o “Pai” do Museu Municipal de Estremoz. É que “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”, como no diz José Régio no “Cântico Negro” e no caso do Museu Municipal de Estremoz, o “Pai” foi o Professor Joaquim Vermelho.

2 - Exposição de Maquinaria e Alfaias Agrícolas no decurso da III Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz, entre 25 e 28 de Julho de 1985.

E no caso do “Museu da Alfaia Agrícola”?
No caso do Museu da Alfaia Agrícola ou outra designação que venha a ser adoptada pelo Município, atrevo-me a propor ao Executivo Municipal, que lhe seja adicionada a designação “Crispim Serrano” (Fig. 1), pois foi ele o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Vejamos porquê.
Crispim Serrano, foi um camponês de rija tempera, daqueles que “comeram o pão que o diabo amassou” e trabalharam de sol a sol, a troco de pouco mais de coisa nenhuma, nas múltiplas tarefas sazonais que constituíam o dia a dia das herdades alentejanas. Conhecia como poucos as alfaias agrícolas e o seu modo de utilização, por ter trabalhado com elas mais os seus companheiros. Conhecia as estórias de vida de abegões que as confeccionaram e estórias de vida de homens como ele, que a soldo dos donos das terras e em condições a maioria das vezes adversas, tinham a seu cargo a nobre missão de assegurar a produção de bens pela Terra-Mãe, os quais iriam garantir a prosperidade do patrão e simultaneamente assegurar o seu ganha-pão.
Crispim Serrano tinha consciência da importância das alfaias agrícolas como registo dum passado que se estava a esvair e da importância das mesmas na elaboração de uma memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns, a transmitir às novas gerações.
Na qualidade de encarregado de pessoal, liderou uma equipa de funcionários do Município que a partir de 1983 e sob sua orientação começou a recolher alfaias agrícolas por cedências, empréstimos ou depósitos postos à disposição do Município e recolhidas nas Casas Agrícolas do Concelho. Nalguns casos, as peças recolhidas encontravam-se já em condições limite, abandonadas em telheiros, ao ar livre e mesmo em lixeiras, ao sabor das intempéries, correndo o risco de as ferragens serem corroídas pela ferrugem e as madeiras apodrecerem com a chuva e a humidade ou serem recolhidas para serem utilizadas como material de combustão.
A importância da recolha liderada por Crispim Serrano é incomensurável. A sua origem e passado camponês permitiram-lhe acumular ao longo do tempo, um valioso acervo de saberes, talentos e competências que se revelaram inestimáveis na recolha que liderou. Ele conhecia como ninguém, a área geográfica de cada freguesia, bem como a localização das peças que era importante recolher, tendo em conta a sua singularidade e a valorização que davam ao conjunto recolhido.
Os frutos da recolha então efectuada viriam a ser objecto de recuperação, limpeza e conservação em armazéns do Município situados na Horta do Quiton, em Estremoz, o que foi feito por funcionários do Município liderados igualmente por Crispim Serrano (*2). Da Horta do Quiton saíram cerca de 4000 peças utilizadas nas fainas agro-pastoris do concelho, as quais vieram a incorporar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola, primitivamente instalado em 1987 no edifício da Antiga Fábrica de Moagem e Electricidade na Rua Serpa Pinto, em Estremoz. Nos seus primórdios o Museu seria gerido pela chamada “Comissão da Alfaia Agrícola”, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho e dependente da CME.
Antes da sua integração no Museu da Alfaia Agrícola, algumas dessas peças já tinham participado em exposições associadas aos seguintes eventos: Festas da Exaltação da Santa Cruz em 1983 e 1984, bem como na III, IV e V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, realizadas respectivamente em 1985 (Fig. 2), 1986 e 1987. Neste último ano, a V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz integrou pela primeira vez a I FIAPE - Feira Internacional Agro-Pecuária e de Artesanato de Estremoz. Foi no decurso desta última que ocorreu a maior exposição de material agrícola que reuniu cerca de 4000 peças que posteriormente viriam a constituir o acervo do Museu da Alfaia Agrícola.

O “Pai” Crispim Serrano
Julgo ter ficado demonstrado duma forma insofismável a extraordinária importância que Crispim Serrano teve como recolector de peças das fainas agro-pastoris concelhias que viriam a integrar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola. Ele está indubitavelmente na génese deste Museu, o qual não existiria sem ele. Creio sinceramente que Crispim Serrano pode muito legitimamente ser considerado o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Daí que eu proponha ao Executivo Municipal que em sua homenagem, ao nome do Museu seja adicionada a designação “Crispim Serrano”. Será um tributo póstumo da Comunidade, prestado como reconhecimento que lhe é devido pelo mérito demonstrado com o seu contributo para a elaboração de uma memória colectiva de âmbito concelhio. É, de resto, um jeito belo e elegante de a Comunidade proclamar que ele permanece vivo na memória colectiva que ajudou a construir:
- CRISPIM SERRANO, PRESENTE!

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(*1) – De acordo com o que consegui apurar o financiamento será concretizado através do programa ARI (Autorização de Residência para Investimento), o qual financia projectos museológicos através da vertente de apoio ao património cultural, permitindo que investidores estrangeiros façam um donativo mínimo para a recuperação, restauro ou manutenção de museus e monumentos, com aprovação prévia do GEPAC (Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais), serviço integrado da administração directa do Estado português, que actua na área governativa da Cultura e que concede autorização de residência em troca do investimento cultural.
(*2) – Na época assisti de perto à recuperação de muitas dessas peças na Horta do Quiton, a qual frequentava desde a minha infância, já que nasci ali bem perto, no nº 14 do Largo do Espírito Santo. Envolvido em actividades culturais patrocinadas pelo Município de Estremoz, interactuei inúmeras vezes com Crispim Serrano, o qual me concedeu o privilégio da sua amizade.

Hernâni Matos
Publicado em 17 de Janeiro de 2026
Publicado no jornal E, nº 371 de 16-01-2026

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS - Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

8.º Aniversário dos Bonecos de Estremoz enquanto Património da UNESCO



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 28 de Novembro de 2025

No domingo, dia 7 de dezembro de 2025, comemora-se o 8.º aniversário da Inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Para celebrar a data, o Município de Estremoz organizou as seguintes atividades:

Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz

- 16:00 horas - Discursos institucionais

- 16:15 horas - Entrega da Certificação à barrista Ana Godinho

- 16:20 horas - Apresentação da Rota do Boneco de Estremoz, Hugo Guerreiro Chefe da Divisão de Cultura, Desporto e Juventude

- 16:40 horas - A Confraria do Boneco de Estremoz: 2025 e 2026, Alexandre Correia, Grão-Mestre da Confraria

Estremoz Hotel

- 17:30 horas - Inauguração da exposição "Figurado em Barro de Estremoz", fotografia de Francisco Matias

 Venha celebrar conosco!

Entrada gratuita.

Hernâni Matos

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Novembro de 2025

A Galeria Municipal D. Dinis irá receber, a partir do dia 29 de novembro, a XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz.

Esta mostra contará com cerca de 30 Presépios, produzidos com diversos materiais, dos artesãos: Afonso Ginja, Ana Catarina Grilo, Ana Godinho, António Moreira, Carlos Alberto Alves, Conceição Perdigão, Fátima Lopes, Francisca Carreiras, Henrique Painho, Inocência Lopes, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Manuel Broa, Maria José Camões, Perfeito Neves, Ricardo Fonseca, Sara Sapateiro, Sandra Cavaco e Vera Magalhães.

A exposição poderá ser visitada até dia 6 de janeiro de 2026, com entrada gratuita, numa organização da Câmara Municipal de Estremoz.

Não perca!

Hernâni Matos

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os canudos de lume, artefactos de arte pastoril

 

 Fig.1 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no  sentido do
comprimento. Tricromia verde – vermelho – preto.  60,5 cm x 3 cm.

Canudos de lume
da Colecção Hernâni Matos

À lareira, no Alentejo de outros tempos
No Alentejo de antanho, quando chegava o Inverno seroava-se à lareira, o que era prática corrente, tanto na casa dos camponeses como dos senhores da terra. As noites eram longas e o frio era de rachar, sobretudo nas casas dos pobres, menos confortáveis, muitas vezes com telhados de telha-vã [i] e pavimentos que eram de tijoleira e muitas vezes de laje de xisto.
O lume que crepitava frente às “bonecas”[ii] aquecia os membros da família sentados num “mocho”[iii] ou num “burro”[iv]. Simultaneamente, o fumo ascendente da lareira ia curar os enchidos do fumeiro suspensos de traves no interior da chaminé. Isto, é claro, se a família era daquelas que tinham posses para fazer a “matança do porco”, o que não constituía regra geral, nem lá perto.
Era à volta da lareira que a família fazia o balanço desse dia, se falavam dos planos para o dia seguinte, se evocavam aqueles que já tinham partido e os mais velhos davam conselhos aos mais novos. Era também à lareira que para “passar o tempo”, era transmitida de pais para filhos, a rica tradição oral que integra a matriz da nossa identidade cultural: estórias, cancioneiro popular, adivinhas, provérbios, lengalengas, rezas, etc.

Os canudos de lume
À medida que o tempo passava, a lenha ia sendo consumida e o lume ficava mais fraco. Tornava-se necessário reavivá-lo, acrescentando mais lenha ou/e atiçando o fogo, o que se conseguia utilizando o “canudo de lume”.
Este é um utensílio tradicional de forma tubular, utilizado como soprador de lume, o qual permite direccionar o ar para as brasas ou para a lenha, visando avivar o fogo. Para tal, o utilizador sopra na extremidade do orifício mais largo, saindo o ar pela extremidade oposta com o orifício mais estreito, em direcção ao lume.
O canudo de lume pode ser de metal, de madeira ou de cana, perfuradas. Nestes dois últimos casos, a superfície dos canudos de lume pode se encontrar finamente trabalhada e decorada, o que torna os canudos de lume, artefactos de arte pastoril.


Hernâni Matos


[i] O telhado de telha-vã era um tipo de cobertura em que as telhas de canudo (telhas mouriscas) de barro eram aplicadas directamente sobre a estrutura de suporte (barrotes e ripas de madeira), sem a instalação de qualquer forro por baixo.
Este tipo de cobertura favorecia a ventilação natural do espaço situado abaixo, o que era benéfico no Verão mas péssimo no Inverno, além de que oferecia fraco isolamento acústico, o que constituía um enorme inconveniente em períodos de ventania.
[ii] Ornamento interior das chaminés.
[iii] Banco baixo, confeccionado em madeira e com travessas para fortalecer os pés, empalhado em buinho.
[iv] Também designado por “tripeça”, já que é um assento de três pés e sem encosto, confeccionado toscamente, a partir de tronco de sobreiro ou de azinho.


Fig. 2 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
Pentacromia verde – vermelho – azul – amarelo – laranja. 60,5 cm x 3 cm.

Fig. 3 – João Catarino (Orada). Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
81 cm x 2,5 cm.

Fig. 4 – João Catarino (Orada - Borba). Incisões em baixo relevo sobre cana.
Decorado com motivos geométricos distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 87 cm x 2,5 cm.

Fig. 5 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Heptacromia verde – vermelho – azul – amarelo – rosa - lilás – preto. 
69 cm x 2 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 6 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 53,5 cm x 2.5 cm.

Fig. 7 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos florais que se distribuem no sentido do comprimento.
66,5 cm x 2 cm.

Fig. 8 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos que se distribuem
no sentido do comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene.
69 cm x 1,9 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 9 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos e florais distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene. 65,5 cm x 2,2 cm.
A extremidade da saída do ar termina em bisel.

Fig. 10 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira
Decorado com motivos geométricos, florais, zoomórficos e antropomórficos distribuídos
por faixas no sentido do comprimento. A decoração com motivos zoomórficos e
antropomórficas recorre a excrescências da madeira. 74 cm x 3 cm.
Mais estreito numa das extremidades que na outra.

domingo, 23 de novembro de 2025

Tenores de Redondo



Na vila de Redondo existem diversos grupos corais activos, tanto masculinos como femininos e mistos. São eles: Grupo de Cantadores do Redondo, Cantadeiras do Redondo, Grupo Coral e Instrumental Academia de Afectos, Grupo Coral Polifónico da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense e Trovadores de Redondo.

O número e a diversidade destes grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por destilação do vinho nos alambiques.

Redondo é simultaneamente terra de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.

Daí que as olarias locais manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente caídos em desuso.

A opção dos adegueiros pelo uso de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui aplicáveis: “No poupar é que está o ganho",A necessidade é mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."

A terminar e como está frio, brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente, faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente” "Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".

Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia. 

Hernâni Matos

domingo, 9 de novembro de 2025

Os pisadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Pisador. Colecção Hernâni Matos.


Um pisador é um utensílio em madeira usado em culinária com recurso a gral ou não e que permite triturar, moer e misturar substâncias sólidas. É recorrendo a um pisador que se prepara o piso utilizado na confecção da açorda alentejana, usando sal grosso, alho, coentros ou poejos.

Os pisadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 6), constituem graciosos exemplares de arte pastoril.

 Hernâni Matos


2. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

3. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

4. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

5. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

6. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

sábado, 8 de novembro de 2025

Os esfolhadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

O esfolhador é uma alfaia agrícola usada outrora na cultura do milho. Trata-se de um artefacto com uma extremidade pontiaguda, manufacturado em madeira, usado tradicionalmente para descamisar o milho. Os esfolhadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 4), constituem belos exemplares de arte pastoril.

A operação de descamisar o milho, realizada após a colheita, consistia em separar a maçaroca de milho do folhelho, camisa ou carapela, conjunto de folhas finas e esbranquiçadas que revestem as maçarocas.

Para descamisar o milho, pegava-se manualmente numa maçaroca, com o esfolhador rasgava-se o folhelho, que depois era afastado da maçaroca. Seguidamente com uma mão a segurar a maçaroca, dava-se com a outra um puxão no folhelho, o qual era assim separado daquela.

A operação de descamisar o milho ocorria em ajuntamentos comunitários conhecidos como descamisadas, desfolhadas ou esfolhadas e tinha lugar nas eiras em finais de Setembro ou início de Outubro, após a colheita do milho.

As desfolhadas eram tradições comunitárias, actualmente descontinuadas, que assumiam a forma de festas comunitárias realizadas nas eiras, à noite e ao luar, em que se socializava, cantando e contando estórias alegres e brejeiras

Depois da desfolhada seguia-se a debulha e, finalmente, o milho era estendido na eira para seca, até ser armazenado para posterior consumo.

Hernâni Matos

2. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

3. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

4. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.