quarta-feira, 28 de outubro de 2026
7 – Coleccionar bonecos de Estremoz
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
5 - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003)
Natural da freguesia de Santa Eulália (Elvas) onde como camponês fez de tudo um pouco. Começou como ganhão e acabou como guarda de herdade.
Após a aposentação, começou a esculpir na madeira a ruralidade que lhe ia na alma, para o que se servia de uma navalha e de uma grosa.
Os seus trabalhos têm a ver com o seu dia a dia de camponês. Em primeiro lugar os animais (boi, cavalo, porco, bode) e depois as alfaias agrícolas e os vários tipos de carros de tracção animal. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 até 1991.
Em Estremoz tinha fixado residência na casa de seu filho na Rua de Macau no Bairro da Mata, onde gostava de trabalhar ao ar livre, o que era muito apreciado pelas crianças da Escola Primária vizinha, onde se deslocava por vezes a convite das professoras, para transmitir aos mais novos as suas vivências e o seu saber-fazer de artesão.

domingo, 6 de setembro de 2026
ARTES DO VAGAR - Notas de uma exposição
A exposição Artes do Vagar é um acontecimento que não pode ser ignorado ou tratado de um modo ligeiro.
A exposição em causa traz-nos a
salvaguarda de um mundo que a tecnologia hoje ameaça. Compõe-se de trabalhos de
artesãos, com rosto e nome, que reconheceram na madeira, no papel e naquilo de
que são feitos os chifres, a mestria humana, a criatividade, a imaginação, a
própria vida retratada, com esforço ou mistério.
Estamos do outro lado do mundo
efémero, veloz, onde o tempo é um ápice, uma migalha, a mediocridade sedutora
que nos aniquila. A natureza daqueles artesãos encontrou, na sua sensibilidade,
uma forma de fazer com que o tempo não os pressionasse, mas também não deixaram
que o tempo fosse ocasião para o esvair, sem sentido, daquilo que se faz, como
uma indolência surda que nos consome.
Não. O tempo é, por eles, visto
como uma terceira possibilidade: é aquilo que leva cada pessoa na direcção da
perfeição. É isso que a exposição mostra: alcançar a perfeição sem o recurso às
mais variadas tecnologias; mostrar a perfeição de que um ser humano é capaz,
simplesmente porque é humano e porque o tempo é o seu melhor companheiro para
obter esse atributo.
Olhando a sala daquela exposição,
é como se o mundo fosse outro, uma nave, um bunker. Parece que ali
adquirimos protecção. Deixámos para trás aquilo de que muitos tanto gostam: as
tecnologias usurpadoras e manipuladoras que nos fazem engolir o tempo até à
exaustão. Não há ali espectáculo; há tão-somente o belo conseguido pela
perfeição humana.
Por isso, Hernâni, a cidade
está-te grata, muito grata, mesmo que os pobres responsáveis e muitos de nós
não percebamos isso.
Obrigado, caríssimo e bom amigo!
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
80 anos - A mudança de paradigma
Do meu pai, alfaiate e comerciante, homem da classe média, à qual ascendeu a pulso, herdei atavicamente traços de carácter que em mim perduram. Um deles, é a moderação, a qual visando assegurar o equilíbrio no dia a dia, não só a nível pessoal como nas relações interpessoais, me leva a demarcar de extremos tanto minimalistas como maximalistas. O meu pai, utilizava amiúde a expressão idiomática “Nem oito, nem oitenta”, algebricamente correspondente a uma escala de 10 termos afastados entre si de 8 unidades. A frase expressa a convicção de que “No meio é que está a virtude”. Trata-se de pilares de pensamento nos quais me venho firmando, desde que me lembro de mim mesmo. Hoje mesmo completo 80 anos medidos no Calendário Gregoriano, uma vez que como viajante do cosmos completo 80 translações completas em torno do Sol. E é aqui que começa a tragédia. “É aqui que a porca torce o rabo”, expressão idiomática que dá conta do ponto crítico atingido por mim enquanto terráqueo. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que abalou inexoravelmente um dos pilares de pensamento herdado dos meus ancestrais: “Nem oito nem oitenta”. Há que construir um novo paradigma que como pilar de pensamento me assegure o equilíbrio. Interrogo-me a mim mesmo sobre a eventual complexidade e dificuldade de construção desse novo paradigma. A resposta que dou a mim próprio é invariavelmente a mesma: - ÓI! TENTA!. Assim me encorajo a fazer um esforço na procura de um resultado que à partida é incerto. |
sábado, 1 de agosto de 2026
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO
(1935-2023)
Nasceu na Aldeia de Cima (Glória) e só conheceu o mundo das letras aos
trinta e sete anos. Trabalhou no campo, onde foi guardador de porcos, pastor de
ovelhas e tosquiador, entre muitos outros trabalhos agro-pastoris. Trabalhou
também nas pedreiras, foi empregado numa grande unidade de distribuição de
mercadorias, foi enfermeiro no posto médico da sua freguesia, foi sacristão e
pertenceu à Orquestra Típica de Estremoz. De resto tinha jeito para trabalhos
de carpinteiro, canalizador, electricista e pedreiro.
A sua actividade como artesão da madeira e do chifre processou-se numa
pequena oficina junto à sua residência e começou a efectuar-se cerca dos anos
80 do século XX. Toda ela entroncava na técnica e na estética da arte pastoril
com que bordava a madeira e o chifre no decurso da pastorícia.
Os materiais usados foram: cabaças, chifre e madeiras: cedro,
laranjeira, oliveira, cerejeira, cipreste, nogueira, buxo, vimeiro, sabugo e
nespereira. Para os trabalhar recorreu a utensílios como: navalha, goivas,
limas, grosas, serras, serrotes, serra de disco, torno, maceta, escopro.
A decoração das peças é rica e diversificada, recorrendo a motivos
geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, os três últimos de
inspiração regional.
Executou trabalhos como cabaças lavradas, colheres, talheres, chavões,
sopradores de lume, bengalas, agulheiros, rosários, argolas de guardanapo,
cigarreiras, caixas, guarda-jóias, brinquedos, dançarinos articulados, gaiolas
para grilos, chamadores de perdizes, quadros em baixo relevo, painéis com
alfaias agrícolas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, tabaqueiras e
pulseiras.
O trabalho deste artesão é caracterizado todo ele por uma elevada
qualidade técnica, aliada a uma expressiva e fina individualidade artística de
matriz popular, que sempre apostou na criatividade em detrimento da cópia.
Apesar disso executou as réplicas dos Bonecos de Santo Aleixo com que trabalha
o CENDREV – Centro Dramático de Évora. Participou nas feiras de artesanato de
Estremoz desde 1983 e em várias exposições individuais. Os seus trabalhos
integram colecções museológicas das quais a mais importante é a do Museu
Municipal Professor Joaquim Vermelho, em Estremoz.
sábado, 18 de julho de 2026
Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES
3 - MIGUEL
SEROL GOMES (1957- )
Filho
de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes
(1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até
aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do
Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde
fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos
na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta
actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua
esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes
frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não
eram compatíveis com a modelação do barro.
Na
arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai,
utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.
Os
materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e
choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões,
sovela, mini-serrote e lixa.
Executou
trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras,
polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas
em madeira e quadros.
Participou
em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril,
Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de
Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.



















































