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segunda-feira, 16 de março de 2026

Juramento de fidelidade



Aqui me assumo como guardador de memórias que procura salvaguardar e preservar o registo material das marcas identitárias desta terra transtagana de antanho, patente nos utensílios de uso corrente de campaniços - servos da gleba, os quais comeram o pão que o diabo amassou, em épocas não muito remotas, que desejo não se voltem a repetir, dado o sofrimento que causaram.
Colecciono arte pastoril. Pois, claro!
Publicado em 12 de Setembro de 2024

sábado, 14 de março de 2026

A Banda de Música de Jorge Carrapiço


Banda de   Música de Jorge Carrapiço.

Composição da Banda e distribuição dos músicos pela mesma, da autoria do Maestro
Mário Tiago, da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense.

Preâmbulo
Desde o passado dia 31 de Janeiro, que na Galeria Municipal D. Dinis, está patente ao público e até ao próximo dia 3 de Maio, a exposição “100 Anos da Elevação de Estremoz a Cidade – Barristas do Centenário”, a qual integra as Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, promovidas pelo Município de Estremoz.
A exposição destaca o percurso dos barristas nos últimos cem anos, a evolução dos Bonecos de Estremoz e o papel do Município na salvaguarda da tradição da arte bonequeira, que desde 2017 integra a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Na exposição há exemplares que se destacam pelos mais diferentes motivos, como é o caso da Banda de Música de Jorge Carrapiço, encomendada por mim ao barrista em 2021 e que integra a minha colecção pessoal de Bonecos de Estremoz.
Para compreender a importância desta Banda de Música torna-se necessário ler o texto que se segue, redigido em 2021 e dedicado à Sociedade Filarmónica Artística Estremocense na passagem do seu 150.º Aniversário.
Estremoz e as Bandas de Música
No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, de Estremoz (Fundada a 25 de Agosto de 1840), Sociedade Filarmónica Veirense (Fundada em 19 de Março de 1870) e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense (Fundada a 11 de Agosto de 1871). Qualquer delas tem um historial respeitável, o qual merece ser conhecido, sendo que a fundação da Banda mais antiga remonta aos finais da primeira metade do séc. XIX.
Desde a sua fundação que estas Bandas actuam não só no concelho, como um pouco por todo o Alentejo, em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).
Bandas de Música na barrística de Estremoz
Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, que tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos. Aquela procissão foi perpetuada no barro por Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) nos anos 40 do séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.
Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição morfológica.não permite saber o que são.
Uma Banda de Música para mim
A minha colecção integra há já algum tempo, uma Banda de Música de José Moreira e outra de Quirina Marmelo, as quais apresentam algumas das características acima referidas. Daí que tenha pensado em incorporar na minha colecção uma Banda de Música que sem perder o cunho verdadeiramente popular, traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado. Visando este fim e após alguma reflexão, tomei as seguintes medidas:
1 – Escolhi como barrista, Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trobone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, o qual acedeu a modelar uma Banda de Música com as características por mim indicadas.
2 – Convidei o Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, a esboçar uma Banda de Música, definindo o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Aquele Maestro correspondeu à minha solicitação, fixando aqueles parâmetros. É, pois, de sua autoria o esquema que estabelece a composição da Banda e a distribuição dos músicos pela mesma. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO (caixa, bombo, pratos), METAIS (tuba, trombone, contrabaixo, bombardino, trompa, trompete), PALHETAS (clarinete, sax alto sax barítono, sax tenor) e FLAUTAS (Flauta). Ao todo são 22 figuras.
3 – Passei em revista as Bandas produzidas anteriormente por outros barristas, tendo-me agradado muito particularmente uma Banda da autoria de José Moreira, a qual viria a ser tomada como modelo.
4 - Sugeri ao barrista Jorge Carrapiço que executasse a Banda de Música com as seguintes características: - Altura das figuras: 16 cm; - Base quadrangular de 5 cm x 5 cm, com as pontas cortadas em bisel. Topo de cor verde bandeira e orla em zarcão; - Fardamento azul, compreendendo calça e casaco orlado de zarcão à frente e nos punhos. Abotoadura constituída por duas fileiras de 5 botões amarelos; - Chapéu tipo quépi da mesma cor do fardamento, com pala preta e fita dourada à frente, terminada por dois botões da mesma cor; - Botões definidos volumetricamente; - Calçado preto; - Instrumentos modelados com definição.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço
O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.
O cromatismo das figuras assenta em nítidas dicromias quente-frio, que pela sua simplicidade lhes confere uma beleza vigorosa.
A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma. O barrista está, pois, de parabéns e a barrística popular de Estremoz está mais rica. São factos indesmentíveis que aqui atesto e registo para memória futura.
A Banda de Música agora executada fica, de resto, a assinalar os 150 anos da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, da qual eu sou associado, Mário Tiago é Maestro e Jorge Carrapiço é trombonista.

Hernâni Matos


Jorge Carrapiço, o barrista - trombonista.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pedro Alves - O despontar de uma estrela


1 - Primavera de Plumas (2026) (frente). Pedro Alves (1991-  ).

Ficar de boca aberta
Há oitentões como eu, rodados na vida e que já “meteram o nariz” em tudo e mais alguma coisa, mesmo naquilo para o qual não foram chamados. Alguns estão mesmo convencidos de que já não há nada de novo para ver e que tudo vai dar ao mesmo. Não é o meu caso, manifestamente um desajeitado para o desempenho do papel de “velho do Restelo”.
Na verdade, creio convictamente que "A vida é uma caixinha de surpresas." e que "As surpresas acontecem quando menos se espera”. De tal modo que acabamos por "Ficar de boca aberta". Foi assim que há dias e em “maré de “Entrudo” deparei nas redes sociais com uma figura em barro pintado (Fig. 1 e Fig. 2), disponível para venda, a qual de imediato me fascinou. Foi “amor à primeira vista”. Em termos de linguagem cinegética foi um caso de “tiro e queda”. Parece que aquela figura tinha sido feita para me seduzir, o que de facto aconteceu e me fez “puxar os cordões à bolsa”, a qual, nestas andanças, vem “emagrecendo a olhos vistos”.
Primavera de Plumas
Curiosamente, na “maré de Entrudo”, acabei por adquirir uma “Primavera de Plumas”, que conjuntamente com as “Primaveras de Arco” e as “Bailadeiras”, integram a galeria dos Bonecos de Estremoz, com a designação genérica de “Primaveras”. Trata-se de alegorias à estação do ano homónima, bem como à sua chegada e simultaneamente figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, assimilados pela Igreja Católica que há séculos começou a comemorar o Entrudo.
Quem é quem
O barrista de que venho falando é Pedro Alves, um jovem de 35 anos, filho do barrista Carlo Alberto Alves e da artista plástica Cristina Malaquias. É caso para dizer que “Quem sai aos seus não degenera”, além de que “Filho de peixes, sabe nadar”, a que forçosamente terei de acrescentar “E de que maneira!”.
Passar a pente fino
A análise cuidada e pormenorizada da imagem permitiu-me concluir que a representação transmite harmonia, beleza e elegância. De salientar que a figura exibe uma postura vertical com os pés mais afastados do que é habitual. As pregas do vestuário e a posição desencontrada dos braços indiciam movimento. A modelação e a decoração são cuidadas e consistentes no seu todo. O cromatismo dominante da figura assenta no vermelhão e no cor de rosa, cores quentes através das quais se procura transmitir a energia, o calor e a vibração dos festejos de Entrudo.
É ou não é?
Chegados a este ponto somos confrontados com a sacramental pergunta: ”Estamos ou não em presença daquilo a que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz?"
A resposta óbvia é que sim, já que em primeiro lugar a técnica de modelação utilizou a combinação das três técnicas: a da bola, a do rolo e a da placa. Em segundo lugar a estética dos Bonecos de Estremoz é uma estética naturalista, que recorre a uma modelação que procura ser fiel ao original, sem introduzir pormenores que lhe são estranhos. Essa fidelidade estende-se ao domínio cromático, já que utiliza cores reais, ou seja, as cores possíveis daquilo que pretende representar.
Uma mudança de paradigma
Pese embora o estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, o barrista como, de resto, vem sendo prática corrente desde os primórdios da arte, ousou fazer algo de diferente, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto” e com essa diferença dar conta da sua individualidade e do seu modo de ver o mundo e a vida. E que fez o barrista de novo? Encurtou o vestido e dotou-o de um decote generoso. “Duma cajadada matou dois coelhos”: permitiu-se modelar pernas esbeltas e valorizar a representação do busto feminino. Ao proceder assim, o barrista conferiu sensualidade à sua Primavera de Plumas. Em termos de representação ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que importa sublinhar e valorizar.
Que fazer?
O futuro ao barrista pertence, o qual inescapavelmente irá percorrer o seu próprio caminho. O que até agora nos mostrou é revelador de talento e forte personalidade artística, aos quais decerto saberá adicionar resiliência aos “ditos e mexericos” dos “velhos do Restelo”, que temerosos de sair da sua “praia”, adoptam uma atitude céptica e conservadora perante a inovação. E vai daí desencandeiam as suas “Guerras do alecrim e da Mangerona” como forma de nos “Atirar poeira para os olhos”.
Mensagem final
A chegada de alguém muito especial ao universo dos barristas de Estremoz, leva-me a congratular-me com esse facto e a proclamar a sua chegada, anunciando o despontar de uma estrela que promete brilhar.


2 - Primavera de Plumas (2026) (trás). Pedro Alves (1991-  ).

domingo, 28 de dezembro de 2025

PEDRO VAZ PEREIRA / Vou-me Embora Vou Partir

 


Pedro Marçal Vaz Pereira


“Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
Luís de Camões (c.1524 – 1580)

 

Preâmbulo
Ao Vitorino Salomé agradeço a força do título da sua canção “Vou-me Embora Vou Partir”, a qual integra o álbum “Semear Salsa Ao Reguinho”, lançado em 1975 e que curiosamente termina com o verso “Eu hei-de ir, hei-de voltar com o tempo”.

Mudar de vida
Há uns tempos atrás e com alguma surpresa da minha parte, o Pedro deu-me conhecimento de que se ia retirar das lides filatélicas. Como tal, não voltaria a candidatar-se ao cargo de Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia.
Disse cá para comigo “O Pedro está farto da rapaziada e das “guerras do alecrim e da manjerona e resolveu mudar de ares”. Lembrei-me de imediato do poema “Viver sempre também cansa”, do José Gomes Ferreira “O sol é sempre o mesmo e o céu azul / ora é azul, nitidamente azul, / ora é cinzento, negro, quase-verde.../ Mas nunca tem a cor inesperada.”. O cineasta Paulo Rocha se fosse vivo, dar-lhe-ia razão e diria que ”É preciso “Mudar de vida”.
O Pedro disse-me então que gostaria de dispor de um texto meu, o qual sinalizasse o nosso relacionamento e o modo como eu encaro o seu trabalho de 4 décadas, ao leme da Federação Portuguesa de Filatelia. A finalidade era publicá-lo conjuntamente com outros depoimentos no último número da Filatelia Lusitana, tendo-o como Director. De imediato acedi ao seu honroso convite.
Como não tenho vocação para Tedéus nem tão pouco jeito para epitáfios, fi-lo da única maneira que o sei fazer e como é meu timbre, sem formalismos e meio a sério, meio a brincar. Assim o exige a nossa amizade e o nosso gosto pela vida.

Eu e o Pedro
Oitentão, conheci o Pedro há cerca de quatro décadas atrás, era eu ainda um rapaz, com a particularidade de ser dirigente dum clube filatélico de província. O Pedro, então com menos uns centímetros de barriga, era já um Deus Nosso Senhor, lá nos píncaros da Avenida Almirante Reis. De vez em quando eu tinha a ousadia de metralhar a Direcção da Federação com alguns ofícios batidos numa velha “Olímpia”, cuja fita padecia de excesso de tinta. Se não os pus vesgos, andou lá perto disso.
Entre mim e o Pedro, tudo apontava para que o nosso relacionamento interpessoal não funcionasse, já que o nosso horóscopo nos sinaliza a ambos como pertencentes ao signo do Leão com ascendente de Touro. Tudo indicava que o nosso relacionamento viesse a “fazer faísca”. Tal não aconteceu, quem sabe se por termos consciência desse risco. Cada um no seu galho, lá nos fomos respeitando e aturando um ao outro, às vezes sabe-se lá como. O que é certo é que resultou e que cimentámos uma amizade que tem resistido ao tempo e se tem fortalecido apesar das nossas diferenças. É que o direito à diferença é um direito constitucional que legitima que os amigos não tenham que ser o clone um do outro. Para além disso, a amizade não goza da propriedade transitiva. A pode ser amigo de B e B pode ser amigo de C e estas condições não implicam que A tenha que ser necessariamente amigo de C. No nosso caso, somos ambos laicos e republicanos. Todavia ele ufana-se com o verde, é leão e chuta à direita. Pelo contrário, eu sou águia, assumidamente vermelho e chuto à esquerda.
A convite do Pedro, algures no século passado, integrei uma Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia, sufragada pelos votos dos clubes federados. Creio que ele terá identificado em mim, qualidades que poderiam fazer a diferença na sua equipa. Julgo que não o desiludi, apesar de na primeira reunião de Direcção ter apanhado um “cagaço” quando avistei junto a ele, uma monumental pilha de papéis e papeletas, dos quais havia que tomar conhecimento e relativamente a alguns tomar decisões. Para tal, era tudo visto, tintim por tintim e branco no preto. Formatado aos processos regimentais federativos, lá fui andando e crescendo como dirigente filatélico, numa caminhada comum, no decurso da qual aprendi muito.

As reuniões da Direcção
As reuniões da Direcção eram matinais e por vezes maiores que a légua da Póvoa, apenas interrompidas quando algumas barrigas como a minha, começavam a dar horas. Chegados a este ponto, as intervenções eram mais curtas, a ver se o Pedro dava ordem de “soltura”. Quando esta acontecia, lá íamos nós a caminho do restaurante Chilgamba, ali mesmo na Avenida Almirante Reis. O almoço era um dos pontos altos desse dia. Púnhamos as conversas em dia, falava-se de colecções, das últimas peças adquiridas e das exposições que aí vinham. Findo o repasto, lá retornávamos à casa mãe, a sede da Federação, a ver se a pilha de papéis e de papeletas, organizadas pelo Pedro, chegava ao fim. Alcançado este, lá nos despedíamos uns dos outros, regressando cada um ao seu porto de abrigo, até à próxima reunião de Direcção, para desempenharmos a missão que assumíramos cumprir, tendo o Pedro como timoneiro.

Contactável até na casa de banho
Certa vez, o Pedro pregou-me uma “rabecada”. Tinha um assunto urgente a tratar comigo e eu não lhe atendia o telefone. Quando conseguiu que eu o atendesse, perguntou-me de rompante “Só agora é que me atende o telefone?”, ao que eu respondi “Só agora é que pude. Estava na casa de banho e não tinha o telefone comigo.”. A resposta não se fez esperar e foi fulminante “Hernâni, desculpe, mas um dirigente filatélico tem que estar sempre contactável, mesmo na casa de banho”. Apeteceu-me dizer-lhe “Deixe estar chefe, que vou deixar de ter dores de barriga”. Todavia não fui por aí. Disse-lhe simplesmente “Tem razão, Pedro”. E o que é um facto, é que a partir daí, o meu telemóvel passou a ser meu companheiro de estrada, quer a caminhada fosse timbrológica ou não.

A minha entrada para Jurado
Como expositor filatélico tive sempre o saudável hábito de questionar os Jurados sobre as classificações que me eram atribuídas, ousadia que me saiu cara. Candidatei-me a Jurado nacional e fui chumbado com perguntas de algibeira. Duas vezes a Inteiros Postais e uma vez a Maximafilia. É claro que fiquei “piurso”, mas as coisas ficaram por ali ou melhor não ficaram mesmo por ali. Presumo que o Pedro não tenha gostado da coisa e lá terá dito com os seus botões ”Porra! Vou acabar com esta tourada. Este gajo tem currículo filatélico e “percebe da poda”. Há que convidá-lo para o corpo de Jurados.”. E assim foi. Passei a integrar o corpo de Jurados nacionais da Federação Portuguesa de Filatelia nas classes de Inteiros Postais, Maximafilia e Literatura Filatélica. Mais tarde, o Pedro subscreveu a minha candidatura a Jurado FIP de Inteiros Postais, tendo sido certificado como tal na Exposição FIP de Valência, em Espanha. Cumulativamente, Steve Washburn, team leader da Comissão FIP de Inteiros Postais, cooptou-me como membro não eleito para integrar o Bureau da Comissão. Fui até hoje o único Jurado português que integrou um Bureau da FIP. Vejam lá em que deram os meus chumbos. Julgo ser oportuno e legítimo citar aqui dois provérbios populares portugueses "Não há fome que não dê em fartura" e "Quem ri por último, ri melhor".

Breve perfil biográfico do Pedro
Como filatelista, o Pedro viu as suas colecções obterem no decurso dos anos, as mas elevadas recompensas nas classes de Filatelia Tradicional, História Postal, Inteiros Postais, Classe Aberta e Literatura Filatélica. Por decisão do Congresso Federativo, foi-lhe outorgado em 2010, o Galardão de Filatelista Eminente, a mais elevada distinção da Filatelia de Portugal.
Escritor e jornalista filatélico, subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. É autor de várias obras nos domínios da História Postal, da História da 1ª República e da História de Cernache de Bonjardim, localidade que o viu nascer.
É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) desde 1987 e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA) no período (2001-2009), assim como Director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”.
Entre as inúmeros prémios e distinções que lhe foram atribuídas, é de salientar a outorga em 2019 da Medalha da FEPA “FOR EXCEPTIONAL SERVICE TO ORGANISING PHILATELY”, a mais alta distinção concedida a filatelistas europeus e atribuída uma vez por ano a um único filatelista. É igualmente de destacar a atribuição em 2022 da Medalha da FEPA “FOR EXCEPTIONAL PHILATELIC STUDY AND RESEARCH 2022”, pela publicação da obra OS CORREIOS PORTUGUESES 1853-1900 NOS 500 ANOS DO CORREIO EM PORTUGAL, considerado o melhor livro de 2022. Finalmente é ainda de realçar que a revista FILATELIA LUSITANA de qual é director, foi distinguida pela Academia Europeia de Filatelia com a Medalha de Imprensa para a melhor revista europeia de 2022.
É um gestor nato, trabalha por objectivos, tem uma visão estratégica das coisas, capacidade de liderança e de trabalho em equipa, espírito de missão e grande capacidade de resiliência.
Liderou a filatelia portuguesa durante quatro décadas, estruturando-a, disciplinando-a e estabelecendo parcerias eficazes com os Correios de Portugal, os quais asseguraram desde sempre o patrocínio dos eventos filatélicos nacionais, independentemente de serem simples mostras ou exposições do mais alto nível, como foi o caso da Exposição Filatélica PORTUGAL 98, comemorativa do 500º Aniversário da Chegada de Vasco da Gama à Índia, que foi igualmente o tema central da EXPO 98. Foi ainda o caso da Exposição Filatélica PORTUGAL 2010 - Exposição Mundial de Filatelia, integrada nas comemorações do 1º Centenário da República Portuguesa. Da PORTUGAL 98 e da PORTUGAL 2010, foi o Pedro o grande e principal obreiro.
Nos areópagos filatélicos internacionais e na condição de Presidente da FPF e da FEPA, o Pedro tem sido uma figura considerada e atentamente escutada, como tive oportunidade de constatar no Congresso FIP de Valência e no Congresso FEPA de Antuérpia.
Quer queiram ou não os seus detractores - que os tem - o Pedro é um grande Senhor da Filatelia a nível mundial e o seu prestígio como dirigente, transvasa o mero âmbito da Filatelia Nacional.
São profundas as marcas que deixa no terreno filatélico e enorme o seu legado. A sua memória como dirigente filatélico de excelência, perdurará no tempo e pairará nos ares, muito para além dos céus da Avenida Almirante Reis e da Rua Cidade de Cardiff. Nesta última se situa a actual sede da Federação Portuguesa de Filatelia, a qual integra o legado patrimonial que nos deixa.

Cronologia filatélica portuguesa
A civilização ocidental e cristã utiliza a era cristã, de acordo com a qual a contagem do tempo se faz tomando como referência a data do nascimento de Cristo. Daí que em termos cronológicos se utilizem as designações A.C. (antes de Cristo) e D.C. (depois de Cristo). Com a saída do Pedro do cargo que vem desempenhando há largos anos, a filatelia portuguesa na sua narrativa, usará inescusavelmente as designações A.P. (antes de Pedro) e D.P. (depois de Pedro).
O sucessor de D. Pedro
Apesar de “nuestros hermanos” o tratarem por D. Pedro, a ética laica e republicana que professa e integra a sua matriz identitária, indicia que não deixará sucessor ao cargo. Todavia, tal não impede que haja quem se perfile no horizonte filatélico como seu sucessor. Da outra margem da filatelia não sei nada e não tenho notícias há muito tempo. Todavia, eles saberão de si. O Pedro também. Sai, mas andará por aí.
Até sempre, Pedro!
Na antecâmara da sua retirada da cena filatélica, quero-lhe agradecer o privilégio da sua amizade e desejar-lhe as maiores felicidades na sua vida futura, votos que são igualmente extensivos à Ana, a sua adorável esposa, que igualmente me concedeu e à Fátima minha companheira, o privilégio da sua amizade. Bem hajam por isso.
Até sempre, Pedro!

Publicado a 28 de Dezembro de 2025
in Filatelia Lusitana, Série III, nº 50, Lisboa, Dezembro de 2025.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A tradição oleira de Estremoz

 

Púcaro com decoração polida. Produção da Escola Industrial António Augusto Gonçalves.
Finais dos anos 30 do sé. XX.

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

A olaria tradicional de Estremoz é extremamente rica em múltiplos aspectos. Na verdade, observando-a como um todo, revelam-se de imediato uma grande variedade de funcionalidades, tipologias, morfologias, tipos de decoração e tamanhos. Como tal, é uma das expressões mais elevadas da nossa identidade cultural local.

Funcionalidade
A funcionalidade das peças oláricas de Estremoz é servirem predominantemente de vasilhame para conter e transportar água, conter flores, dinheiro, velas, ou então servirem de elementos decorativos. Algumas funcionalidades deixaram de ser utilizadas, devido ao desenvolvimento tecnológico. É o caso dos tijolos, telhas, canos, sifões e manilhas.

Tipologia
É diversificada a tipologia das peças oláricas de Estremoz. As principais são: Assadores, Barris, Bilhas, Cafeteiras, Cântaros, Cantis, Cinzeiros, Copos, Fogareiros, Garrafas, Jarras, Mealheiros, Medalhas, Moringues, Palmatórias, Pratos, Púcaros, Reservatórios, Troncos, Vasos de flores, etc.

Morfologia
A uma dada tipologia de objecto olárico podem corresponder várias morfologias. Assim um moringue pode ter um corpo ovóide, esferóide, cilindróide segundo a vertical ou a horizontal, bem como qualquer outra forma distinta das anteriores.

Dimensões
Em geral, uma peça olárica de determinada tipologia e com uma dada morfologia, existe em vários tamanhos, os quais eram numerados de tal modo que ao tamanho maior correspondia o número maior. Este número pode aparecer gravado na base da peça ou aí marcado a giz, depois da cozedura ou então nem sequer ter sido marcado.

Proporções
É óbvio que as proporções entre as 3 dimensões de qualquer peça olárica no seu todo ou entre os seus componentes, não é arbitrária. São proporções que os oleiros de várias gerações foram perpetuando no barro, após a magia das suas mãos as ter tornado harmoniosas.

Tipos de decoração
Os tipos de decoração utilizados nas peças oláricas de Estremoz são de cinco tipos principais:
- 1 - O polido, que utiliza o contraste entre a superfície baça e os motivos que foram polidos com recurso a um seixo ou a um teque;
- 2 - O empedrado, no qual meniscos convexos de argila, decorados com minúsculos fragmentos de quartzo, são colados à peça com barbutina;
- 3 - O riscado, que recorre a sulcos gravados na superfície, com recurso a um teque, um arame, um prego ou uma sovela;
- 4 - O picado, que utiliza formas geométricas que são gravadas na superfície por percussão de objectos ou perfis cuja secção tem uma determinada geometria, como é o caso dos invólucros de bala e dos cartuxos de caça;
- 5 - A relevada, na qual brasões de Estremoz ou outros, assim como inscrições como “RECORDAÇÃO DE” ou “LEMBRANÇA DE”, bem como elementos fitomórficos (folhas, bolotas, ramos de sobreiro) ou zoomórficos (coelhos, lagartos) são moldados em barro e colados com barbutina à superfície;
Para além disso são conhecidos exemplares que ostentam uma decoração obtida pela utilização conjunta de alguns dos tipos referidos anteriormente.

Marcas
O levantamento das marcas de olaria de Estremoz é um trabalho que ainda está em curso, que precisa de ser continuado e que nunca se pode dar por concluído. Para além das marcas de fabrico, apostas por carimbo ou gravadas manualmente, podem existir também marcas de tamanho, gravadas manualmente ou manuscritas a giz. Podem, finalmente, aparecer ainda marcas simbólicas com significado apotropaico, apostas por carimbo ou gravadas manualmente. Caso das estrelas de 5 e de 6 pontas (Signo de Salomão), do trevo de 4 folhas ou da cruz trevolada).

Estética
A estética das peças oláricas de Estremoz é determinada por quatro factores distintos, mas de igual importância: o cromatismo vermelho do barro, aliado à morfologia, às proporções e à decoração. É da conjugação desses factores, sabiamente combinados, que resulta a excelência das peças oláricas tradicionais de Estremoz, por transmitirem sempre harmonia, perfeição, beleza e elegância.

Hernâni Matos

Moringue antropomórfico com decoração polida.
Fabrico da Olaria Alfacinha.

Depósito com tampa, onde estão patentes 3 tipos de decoração: 
empedrado, o riscado e o polido. Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).

Pote com tampa e duas asas, no qual foram usados 2 tipos de decoração:
 o riscado e o picado. Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).

Jarro de forma cilíndrica com decoração relevada fitomórfica,
picada e polida.

Bilha em forma de tronco, com decoração relevada, brasonada, fitomórfica, 
zoomórfica, picada e polida.

Moringue com decoração relevada fitomórfica, picada e polida.

Jarro de forma ovóide com decoração relevada fitomórfica, picada e polida.

Garrafão com decoração polida, picada, relevada fitomórfica e brasonada.
Fabrico desconhecido. 1ª metade do séc. X

Prato com decoração relevada. Início do séc. XX. Fabrico da Olaria Alfacinha.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O curso natural das coisas

 

Fig. 1 - Com cerca de 1 ano de idade, no Largo do Espírito Santo, em Estremoz.

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

Nasci em 1946 no número 14 do Largo do Espírito Santo em Estremoz, mesmo ali ao cantinho (Fig. 1 e Fig. 2). Ao meio da Rua dos Banhos, do lado direito, morava o mestre oleiro e barrista Mariano da Conceição. Bem perto da casa dos meus pais era também a rua do Lavadouro, onde ao meio funcionara a Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana. Não seria isto um augúrio de que iria estar ligado à olaria? É caso para dizer que “Eu não acredito em coincidências, mas que as há, há”.

Fig. 2 - Largo do Espírito Santo - Estremoz. Foto Tony, cerca de 1950.

Na minha juventude, os passeios pelo Rossio levavam-me invariavelmente a deter nos stands da Olaria Alfacinha (Fig. 3) e da Olaria Regional, onde mirava e remirava as peças oláricas, mas onde não comprava nada, não só porque não chegara ainda a altura de o fazer, mas porque como jovem de então, só tinha cotão nos bolsos das calças.

Fig. 3 - Stand da Olaria Alfacinha no Rossio Marquês de Pombal em Estremoz, no ano de 1974.

Em 1963, a participação da olaria e da barrística no Cortejo Etnográfico integrado nas Festas da Exaltação da Santa Cruz (Fig. 4 a Fig. 11) foram determinantes na tomada de consciência de um jovem de 17 anos como eu, de que tanto a olaria como a barrística eram manifestações vigorosas não só da identidade cultural estremocense, como da identidade cultural alentejana.


Fig. 4 - Acarreto de barro previamente extraído do barreiro.

Fig. 5 - Oleiro  modelando uma peça na roda.

Fig. 6 - Brunideiras decorando o vasilhame de barro antes de ser cozido.

Fig. 7 - Bonequeiras modelando e pintando Bonecos de Estremoz. 

Fig. 8 - Fabrico de tijolo burro por moldagem.

Fig. 9 - Retirados dos moldes os tijolos burros são postos a secar ao sol durante vários
dias, antes de ser cozidos no forno

Fig. 10 - Uma carrada de lenha para alimentar o forno onde são cozidas as peças de barro.

Fig. 11 - Alimentação com lenha do forno onde será  efectuada a cozedura
 das peças de barro.  

Entretanto, ingressei na Universidade e só em 1972 comecei a comprar objectos oláricos e Bonecos de Estremoz, após ter ingressado como professor na então Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Eram compras às pinguinhas, já que em início de carreira ganhava pouco mais do que coisa nenhuma,

Naturalmente, que as aquisições causadas pelo fascínio do barro precisavam de ser consolidadas com conhecimentos. Foram determinantes na minha formação como coleccionador, livros como “Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho (Fig. 12), “Algumas palavras acerca de Púcaros de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos,(Fig. 12), “La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux (Fig. 13),e mais tarde “Barros de Estremoz”, de Joaquim Vermelho (Fig. 13),, a que se seguiram outros livros e brochuras, adquiridos muitas vezes no mercado alfarrabista.

Fig. 12 - Barros de Estremoz” de Azinhal Abelho e  “Algumas palavras acerca de Púcaros
de Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos.

Fig. 13 - La céramique populaire du Haut-Alentejo” de Solange Parvaux e “Barros de
Estremoz”, de Joaquim Vermelho.

As leituras levaram-me a formular questões relativamente àquilo que leio e aos objectos oláricos que vou adquirindo, pelo que a minha formação científica me induz a investigar, visando "Pôr o preto no branco".

Em 2009, criei o blogue “Do tempo da Outra Senhora” (Fig. 14), onde vou publicando escritos de olaria e de barrística de Estremoz, com a pedalada que me é possível, pois as minhas motivações culturais dispersam-se simultaneamente por outros centros de interesse. Foi assim que em 2018 publiquei o livro “BONECOS DE ESTREMOZ” (Fig. 15), dado à estampa pelas Edições Afrontamento.

Fig. 14 - Aspecto parcial da página de entrada do blogue "Do Tempo da Outra Senhora".

Fig. 15 - "BONECOS DE ESTREMOZ”, de Hernâni Matos. Edições Afrontamento, 2018.

Com a morte em 2016 de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, constituiu uma tragédia cultural. Tornou-se real a necessidade de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, acção que em devido tempo veio a ser despoletada pelo Município de Estremoz, em parceria com entidades oficiais para isso vocacionadas. 

Fig. 16 - Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), decano da olaria e o último oleiro de Estremoz.
 Fotografia do Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
Colecção Joaquim Vermelho.

Fig. 17 - Uma aula do 1º módulo do Curso de Olaria em 2021. Fotografia da ADOE.

Creio que a realização do presente colóquio, integrado neste 1º Encontro Nacional de Olaria, indicia que os trabalhos de preservação e salvaguarda da olaria tradicional de Estremoz, marcham no bom caminho. Creio igualmente que nessas tarefas de missão é relevante o papel dos coleccionadores, no duplo papel de colectores e de investigadores, produtores de conhecimento, que dão um inestimável contributo para a arte avançar. Daí que me atreva a efectuar aqui, ainda que duma forma sucinta, aquela que é na minha óptica a caracterização da tradição oleira de Estremoz.

Hernâni Matos

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

As primeiras memórias da olaria


Aguadeiro (2016). Ricardo Fonseca (1986 - ).

Aguadeiro. José Moreira (1926-1991).

Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

As minhas primeiras memórias acerca da olaria de Estremoz são registos etnográficos e remontam aos tempos da minha infância. Têm a ver com o consumo de água em casa de meus pais. A água era guardada em cântaros de barro, o que constituía prática corrente em todas as casas da urbe até à inauguração da rede pública de abastecimento de água, em 26 de Maio de 1952.

Até então, a água era distribuída por aguadeiros que a acarretavam em cântaros de folha de Flandres ou de barro, transportados em cangalhas assentes no dorso de burros ou em divisórias de carroças para o transporte de água.  Recolhida nas fontes, assim ia parar à casa dos fregueses. À chegada, à porta da rua, a água era transvasada do cântaro que a transportara para um cântaro de barro do freguês.

Os aguadeiros eram figuras do quotidiano diário da época que ficaram perpetuadas na barrística de Estremoz.

Mulher das castanhas. Oficinas de Estremoz dos finais do
séc. XIX. Ex-colecção Emídio Viana.

Mulher das castanhas (1938). Ana das Peles (1869-1945).
 Ex-colecção Azinhal Abelho. 

Outras memórias igualmente da minha infância têm a ver com a venda de castanhas à porta das tabernas. Aí, mulheres sentadas em cadeiras, assavam castanhas em assadores de barro, aquecidos por fogareiros a carvão, igualmente de barro.

Tal como os aguadeiros também as mulheres das castanhas, como figuras do quotidiano diário da época, ficaram perpetuadas na barrística de Estremoz.

Qualquer das memórias desperta em mim outras memórias. Assim, a memória dos aguadeiros carrega consigo a memória da frescura e do sabor inigualável da água contida em recipiente de barro. Por outro lado, a memória das mulheres das castanhas transporta consigo o odor e o sabor das castanhas assadas. É caso para dizer que as memórias são como as cerejas, vêm umas atrás das outras.

Hernâni Matos

domingo, 28 de setembro de 2025

O guardador de memórias

 

Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), decano da olaria e o último oleiro de
Estremoz. Fotografia do Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
Colecção Joaquim Vermelho.


Excerto da comunicação por mim proferida
no decurso do colóquio "RECENTRAR / Memória, Barro e Saber-fazer", 
que entre 20 e 21 de Setembro teve lugar no Castelo de Évora Monte,
 integrado no Encontro Nacional de Olaria.

Tenho o coleccionismo na massa do sangue. Sou geneticamente um coleccionador e cumulativamente um contador de estórias, não só de estórias reais, mas também das estórias que as coisas me contam sobre os segredos que a sua existência encerra.

Ao longo da minha vida de coleccionador reuni mais de 200 objectos oláricos de diferentes tipologias, morfologias, funcionalidades e tamanhos, os quais têm entre si um elo comum: foram produzidos pelas extintas olarias de Estremoz. São, pois, memórias do passado. Ao reunir um acervo pessoal dessas peças, tornei-me, eu próprio, um guardador de memórias.

Estas memórias guardadas, conjuntamente com muitas outras memórias, integram a chamada memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns.

É a memória colectiva que nos permite aprender com os erros e sucessos do passado, o que é essencial para o desenvolvimento e a evolução da sociedade.

Como guardador de memórias, assumo-me como fiel guardião da nossa ancestral matriz identitária, incumbido duma nobre missão: a de transmitir às novas gerações, a importância e a riqueza da pluralidade do passado e das tradições do nosso povo, para que elas tenham consciência de que urge resistir a uma globalização castrante, que assimptoticamente procurará reduzir à chapa zero, as nossas identidades culturais, a nível local, regional e nacional.

Hernâni Matos