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sábado, 1 de agosto de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO

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01 - Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).

4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023)

Nasceu na Aldeia de Cima (Glória) e só conheceu o mundo das letras aos trinta e sete anos. Trabalhou no campo, onde foi guardador de porcos, pastor de ovelhas e tosquiador, entre muitos outros trabalhos agro-pastoris. Trabalhou também nas pedreiras, foi empregado numa grande unidade de distribuição de mercadorias, foi enfermeiro no posto médico da sua freguesia, foi sacristão e pertenceu à Orquestra Típica de Estremoz. De resto tinha jeito para trabalhos de carpinteiro, canalizador, electricista e pedreiro.

A sua actividade como artesão da madeira e do chifre processou-se numa pequena oficina junto à sua residência e começou a efectuar-se cerca dos anos 80 do século XX. Toda ela entroncava na técnica e na estética da arte pastoril com que bordava a madeira e o chifre no decurso da pastorícia.

Os materiais usados foram: cabaças, chifre e madeiras: cedro, laranjeira, oliveira, cerejeira, cipreste, nogueira, buxo, vimeiro, sabugo e nespereira. Para os trabalhar recorreu a utensílios como: navalha, goivas, limas, grosas, serras, serrotes, serra de disco, torno, maceta, escopro.

A decoração das peças é rica e diversificada, recorrendo a motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, os três últimos de inspiração regional.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, colheres, talheres, chavões, sopradores de lume, bengalas, agulheiros, rosários, argolas de guardanapo, cigarreiras, caixas, guarda-jóias, brinquedos, dançarinos articulados, gaiolas para grilos, chamadores de perdizes, quadros em baixo relevo, painéis com alfaias agrícolas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, tabaqueiras e pulseiras.

O trabalho deste artesão é caracterizado todo ele por uma elevada qualidade técnica, aliada a uma expressiva e fina individualidade artística de matriz popular, que sempre apostou na criatividade em detrimento da cópia. Apesar disso executou as réplicas dos Bonecos de Santo Aleixo com que trabalha o CENDREV – Centro Dramático de Évora. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e em várias exposições individuais. Os seus trabalhos integram colecções museológicas das quais a mais importante é a do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho, em Estremoz.

Hernâni Matos



02 - Ciclo do pão (Lavra e semeadura, monda, ceifa, carrego, debulha). Madeira.
Quadro com decoração incisa. 148 x 48 cm.

03 - Painel com utensílios usados no decurso da ceifa e da debulha do trigo na eira.
Madeira, folha de flandres e arame. De cima para baixo e da esquerda para a direita:
vasculho, trilho, barril de água, gadanha, foice com canudos, forquilhas (3), ancinho,
pá, malho, peneira, medida, rasa. 40 x 21 x 1,5 cm.

04 - Caixa. Madeira. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica. 13,5 x 8,5 x 5,5 cm.

05 - Colher e Garfo. Madeira. Cabos com vazamento e decoração incisa,
ambos geométricos. 14,5 x 2,8 cm.

06 - Colher. Madeira. Cabo com decoração incisa, geométrica
e zoomórfica. 20 x 3,5 cm.

07 - Colher provadeira. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e fitomórfica. 13,4 x 4,5 cm.

08 - Colher com tampa. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e zoomórfica (borrego). 13 x 4,5 cm.

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09 - Castanholas. Madeira. Decoração incisa, geométrica. 10 x 6 cm.

10 - Corna azeiteira. Em chifre, com tampa em madeira.
Decoração incisa, geométrica e zoomórfica. 60 cm.

11 - Corna azeitoneira. Em chifre e com tampa em
cortiça. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica.
17 cm.

12 - Polvorinho. Chifre. Decoração incisa, geométrica,
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 36 cm.

13 - Tabaqueira. Chifre, fundo e tampa de madeira, pregos de latão. Decoração geométrica,
fitomórfica e zoomórfica no chifre. Decoração geométrica no fundo e tampa de madeira.
10 x 11 x 4,5 cm.

14 - Caixa provida de tampa com pega. Caixa e tampa de
chifre. Pega de madeira e fundo de cortiça. Decoração
fitomórfica (caixa) e geométrica (tampa). 7,5 x 5,5 x 5 cm.


Publicado no jornal E nº 385, de 31 de Julho de 2026 






quinta-feira, 30 de julho de 2026

Paredes de vidro


Cabeça de ceifeiro alentejano (1941).
Dórdio Gomes (1890-1976). 
Óleo sobre contraplacado (33 cm x 25 cm)

A Escrita ou seja o pensamento convertido em linguagem gráfica é fruto de um diapasão em ressonância sincronizada com a minha caixa do Pensamento.
Com o sentir da minha Alma, a minha caneta é a extensão pantográfica que me transporta sem me subjugar ao palco onde todos somos actores, ainda que uns sejam mais activos e outros mais passivos.
Pode-se falar de Vida ou de Morte, de Acção ou de Renúncia, de Amor ou de Desamor. Tanto faz! Todavia não é a mesma coisa, dar a cara como eu dou ou estar refugiado no anonimato, como acontece amiúde na web. Então, “Que fazer?” Esta é a questão dialéctica e sacramental levantada por Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924), no seu livro homónimo de 1902. E isso para mim é uma questão fulcral, já que a vida é feita de saberes, mas também de não saberes, os quais por vezes se transmutam em dissabores. Como eu não me sinto atraído por não saberes, exijo que em nome da verdade e da claridade, dêem o nome e a cara, tal como eu dou. Esse poderá ser um ponto de partida salutar para uma conversa que dê os seus frutos.
Publicado em 30 de Julho de 2013

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A todas as Mulheres do Mundo...


Camponesa. Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957).


                                     ...mas em especial à Gina Ferro,
                                                       pelo privilégio da sua amizade.

As mulheres são nossas mães, nossas irmãs, nossas filhas, nossas companheiras, nossas amantes, nossas cúmplices, o bálsamo para os maus momentos, a nossa inspiração para a ode triunfal e o estímulo para a vitória.
Com elas apanhamos bebedeiras de azul, quando não gostam de vinho.
E fartos de azul, por elas bebemos vinho, até dizer basta!
Com elas e por elas, lutamos por amanhãs que não sabemos quando vêm, mas que temos a certeza inabalável que hão de vir.
A elas nos agarramos quando sentimos que estamos a mergulhar no abismo.
Delas gostamos do carinho, do amor e do sexo-porto de abrigo.
Nelas nos fundimos e com elas fazemos filhos, erguemos projectos e por vezes engendramos mudanças de paradigma.
Com elas nos derretemos em sangue, sémen, suor e lágrimas, com gemidos e ais, punhos erguidos e bandeiras vermelhas, raiva incontida que nos vem de baixo e que desfraldamos ao vento, porque somos insurrectos. É um direito que nos assiste!
Para além de sustentarem metade do céu sobre os seus ombros, as mulheres são a metade que nos falta, que nos dá força e que nos faz vacilar, qual travão que adocica o motor.
E mais não digo…

Publicado inicialmente em 8 de Dezembro de 2013

domingo, 26 de julho de 2026

Juramento de fidelidade



Aqui me assumo como guardador de memórias que procura salvaguardar e preservar o registo material das marcas identitárias desta terra transtagana de antanho, patente nos utensílios de uso corrente de campaniços - servos da gleba, os quais comeram o pão que o diabo amassou, em épocas não muito remotas, que desejo não se voltem a repetir, dado o sofrimento que causaram.
Colecciono arte pastoril. Pois, claro!
Publicado em 12 de Setembro de 2024

sábado, 18 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES

 

Miguel Serol Gomes na actualidade, no Atelier Memórias e Tradições,
em Monte Gordo.


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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Célia Freitas (Miguel Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

3 - MIGUEL SEROL GOMES (1957- )

Filho de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes (1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não eram compatíveis com a modelação do barro.

Na arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai, utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas em madeira e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.

Hernâni Matos

Cabaça colorida com anilina e lavrada com motivos geométricos,
com asa e tampa em madeira. 29 x 16 cm.

Cabaça escurecida com viochene e lavrada com motivos fitomórficos,
 com tampa em madeira e correia em couro para transporte. 45 x 12 cm.


Publicado no jornal E nº 384, de 17 de Julho de 2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

 



A abrir o catálogo da minha exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ


PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

Os Bonecos de Estremoz são absolutamente transversais em termos da política cultural do Município de Estremoz. Com eles dinamizamos a cidade, os museus e inclusivamente, a hotelaria e o comércio.

Para valorizar os barristas e a sua produção, convidamos anualmente vários deles a trabalharem connosco nas ações educativas. Estamos ainda unidos à Confraria do Boneco de Estremoz para levar o figurado às principais feiras nacionais. Concretizámos recentemente uma rota cultural sob esta temática e com muito gosto, procuramos unir esforços com colecionadores de referência, para com estes darmos a conhecer peças únicas deste património cultural imaterial.

Ora foi exactamente com este propósito, que surgiu o trabalho com Hernâni Matos, o maior e mais representativo colecionador de Figurado de Estremoz. Este tem um labor incomparável no domínio do colecionismo, ao qual une a investigação e um conhecimento privilegiado dos artesãos do séc. XX e XXI. A exposição que nos apresenta, demonstra isto mesmo. Temos assim a honra de conhecer e dar a conhecer, uma pequena parte da maravilhosa coleção deste estremocense, se bem que apenas sob a temática da música. Juntamos a esta, a memória das dezenas de mostras que Hernâni Matos já realizou nos espaços da autarquia e assim apercebemo-nos da maravilha deste trabalho, paciente e apaixonado.

Caro Hernâni Matos, teremos sempre espaço para mostrar os seus e nossos, Bonecos de Estremoz. Bem-haja pela partilha e deixo aqui um reconhecimento público pela sua ação na valorização deste património, que deixou de ser apenas de Estremoz e hoje é da Humanidade.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

domingo, 5 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES

 

Teresa Serol Gomes a trabalhar no pátio da sua residência em Estremoz.

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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Marta Pereira e de
 Arquivo Fotográfico da CME (Teresa Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

2 - TERESA SEROL GOMES (1952-1988)

Filha de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmã de Miguel Serol Gomes (1957- ), nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos) e fez a instrução primária na escola da freguesia. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferira com a família. É nessa altura que começa a trabalhar com o pai. Por falecimento deste em 1974, dá continuidade ao seu legado artístico, utilizando as mesmas técnicas e tipo de decoração, porém com um cunho muito pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças e madeira: plátano, nogueira e choupo. Não trabalhou em chifre.

Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, candeeiros de cabaça, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, bases de copos e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera, Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém) e Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz 


Stand de Teresa Serol Gomes na II Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz (1984).

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos e geométricos, com tampa.
28 x15 cm.

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos, com tampa em madeira
e correia em couro para transporte. 15 x 12 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, zoomórfica e antropomórfica. Escudo monogramado com as letras
T, A, L, encimado por uma chave. 70 x 9 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, fitomórfica, zoomórfica, antropomórfica e religiosa (Natividade de Jesus). 
82 x 9 cm.       

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa, 
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 69 x 2 cm.

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa,
fitomórfica. 66,5 x 2 cm.


Publicado no jornal E nº 383, de 3 de Julho de 2026




sábado, 4 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 5 - ASSOBIOS

 

30 - Cesta de ovos com asa (Ana das Peles)
31 - Pomba no choco com arco (Ana das Peles)
32 - Peralta (Ana das Peles)
33 - Amazona (Ana das Peles)

5 - ASSOBIOS

Os assobios são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornou simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Sob um ponto de vista morfológico são habitualmente classificados em zoomórficos, antropomórficos e compostos.

A presente colecção é constituída por um total de 189 assobios dos seguintes barristas: Ana das Peles (5), Sabina Santos (14), José Moreira (7), Maria Luísa da Conceição (13), Maria Inácia (3), Irmãs Flores (57), Jorge da Conceição (14), Ricardo Fonseca (1), João Sousa (1), Carlos Alberto Alves (9), Ana Catarina Grilo (21), Inocência Lopes (4), Manuel J. Broa (3), Inês da Conceição (5), Jorge Carrapiço (32).

34 - Senhora de pezinhos (Sabina Santos)
35 - Peralta (Sabina Santos)
36 - Sargento (Sabina Santos)
37 - Amazona (Sabina Santos)
38 - Peralta a cavalo (Sabina Santos)
39 - Sargento a cavalo (Sabina Santos)

40 - Galo no tronco (José Moreira) 
41 - Cesta de ovos com asa (José Moreira)
42 - Galo no pinheiro (José Moreira)
43 - Galo na árvore (José Moreira)
44 - Peralta (José Moreira)
45 - Pomba (José Moreira) 
46 - Sargento (José Moreira

47 - Galo (Maria Luísa da Conceição)
48 - Galo no pinheiro (Maria Luísa da Conceição)
49 - Galo no laço (Maria Luísa da Conceição)
50 - Galinha no choco (Maria Luísa da Conceição)

51 - Berço com bebé (Maria Luísa da Conceição)

61 - Senhora de pezinhos (Manuel José Broa)
62 - Peralta (Manuel José Broa)
63 - Sargento (Manuel José Broa)

69 - Harmónio (Carlos Alberto Alves)
70 - Ronca (Carlos Alberto Alves)
71 - Adufe (Carlos Alberto Alves)
72 - Tambor (Carlos Alberto Alves)
73 - Guitarra (Carlos Alberto Alves)

 Alguns dos assobios expostos são merecedores de uma referência especial.

52 - Galo no tronco (Irmãs Flores)
53 - Galo no laço (Irmãs Flores)
54 - Galinha no choco (Irmãs Flores)
55 - Pombos na árvore (Irmãs Flores)

56 - Galo no arco (Irmãs Flores)

Anteriormente às Irmãs Flores, os assobios zoomórficos e antropomórficos tinham uma base cilíndrica de altura diminuta ou em forma de menisco convexo, nos quais estava inserido o bocal de sopro. Desde sempre que este bocal era manufacturado, montando e furando um rolo de barro, tal como era feito para os assobios compostos. Todavia, Maria Inácia Fonseca, uma das Irmãs Flores, introduziu uma técnica diferente: o menisco convexo passa a ser mais alto e dele, por estiramento numa determinada direcção, resulta o indispensável tubo, que é furado da maneira anterior. O bocal de sopro passa então a ser mais curto e a proeminência correspondente, mais suave e mais discreta. Há aqui uma mudança de paradigma que importa sublinhar e registar. Para além disso, as Irmãs Flores reavivaram o coleccionismo de assobios, já que ao contrário dos barristas que as precederam, foram criando inúmeras variantes dum mesmo tipo de assobio, por introdução de diferentes pormenores na modelação e na decoração, a que imprimiram um cromatismo muito vivo, visualmente apelativo.

64 - Galo no poleiro (Jorge da Conceição)
65 - Galo na azinheira (Jorge da Conceição)
66 - Galinha no choco com arco (Jorge da Conceição)
67 - Galinha e pintos (Jorge da Conceição)

68 - Cesto de flores (Jorge da Conceição) 

Os assobios de Jorge da Conceição são caracterizados por uma modelação e uma decoração muito minuciosas, fortemente naturalistas, que os transformam em peças extremamente apelativas. Deste modo, transcendem o âmbito restrito daquilo que podiam ser apenas brinquedos e instrumentos musicais, passando a ser também objectos decorativos, o que está em consonância com a alma do barrista. Jorge da Conceição demanda a beleza, a elegância, o equilíbrio e a harmonia em tudo o que faz. Para além dos modelos tradicionais de assobio, os quais recriou, Jorge da Conceição criou novas figuras de assobio: Cesta de Flores, Galinha e Pintos, Galo no Roseiral, Galo na Azinheira, Galo na Vinha e Galo no Jardim.

81 - Sagrada Família (Inês da Conceição)
82 - Santo António (Inês da Conceição)
83 - Galo no mocho (Inês da Conceição)
84 - Gato no mocho (Inês da Conceição)
85 - Cão no mocho (Inês da Conceição)

Inês da Conceição produziu assobios de base ovóide semelhante à dos assobios de seu pai, com uma expressão mais simplificada, as pintas da base mais miudinhas e um tubo de sopro de cor verde bandeira, igualmente adoçado na embocadura. Dois desses assobios são assobios devocionais (Sagrada Família e Santo António) e três são assobios zoomórficos (galo, gato e cão) com a particularidade de não estarem assentes numa base ovóide, mas sim num “mocho” tradicional alentejano, cujos pés é que assentam nessa base.

74 - Santo António (Ana Catarina Grilo)
75 - São João Baptista (Ana Catarina Grilo)
76 - Nossa Senhora (Ana Catarina Grilo)
77 - Nossa Senhora a orar (Ana Catarina Grilo)
78 - Sagrada Família (Ana Catarina Grilo)

79 - Berço do Menino Jesus (Ana Catarina Grilo)
80 - Menino Jesus Bom Pastor (Ana Catarina Grilo)

Os assobios de Ana Catarina Grilo chamam a atenção pela simplicidade, pelo cromatismo suave e harmonioso, pelo tamanho adequado do tubo de sopro e o não adoçamento da extremidade. Quanto às dimensões são aquelas que era suposto serem as de um brinquedo de criança. Para além dos tradicionais assobios que integram o núcleo central do figurado de Estremoz, a barrista apresenta novas criações como “Palhaço” e 7 exemplares de  assobios devocionais (Nossa Senhora, Nossa Senhora a orar, Berço do Menino Jesus, Menino Jesus Bom Pastor, Milagre das Rosas, Santo António e São João Baptista).

57 - Pucarinho enfeitado (Inocência Lopes)
58 - Terrina enfeitada (Inocência Lopes)
59 - Candelabro enfeitado (Inocência Lopes)
60 - Arco enfeitado (Inocência Lopes)

Tradicionalmente, os assobios de barro vermelho de Estremoz integravam na sua decoração uma figura zoomórfica, antropomórfica ou mista. Porém, Inocência Lopes criou muito recentemente quatros assobios: Pucarinho enfeitado, Candelabro enfeitado, Terrina enfeitada e Arco enfeitado, passando os assobios a incorporar também espécimes de olaria enfeitada como elementos decorativos. Trata-se de uma inovação visualmente harmoniosa, que eu aplaudi e subscrevi, assim que se tornou conhecida.

86 - Pomba no choco com arco (Jorge Carrapiço)
87 - Pombo no tronco (Jorge Carrapiço)
88 - Galinha no choco (Jorge Carrapiço)
89 - Galo no pinheiro (Jorge Carrapiço)
90 - Galo no arco (Jorge Carrapiço)
91 - Galo no tronco com rebentos (Jorge Carrapiço)

Os assobios de Jorge Carrapiço inspiraram-se maioritariamente nos assobios de sua bisavó Ana das Peles e de outros mais antigos, pertencentes à colecção do Museu Nacional de Etnologia. Têm um cunho muito popular com modelação e decoração muito simplificadas. Bases com fundo branco, pintalgadas com pintas verdes bandeira e vermelhas, de forma irregular e espaçadas. Extremidade do tubo de sopro não pintada, permanecendo na cor do barro. As figuras estão sempre viradas para o lado oposto do tubo de sopro, de modo que a sua parte frontal esteja virada para os ouvintes e a parte traseira para o apitador.

Hernâni Matos