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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

75 anos da morte de Ana das Peles


Presépio de três figuras (1938). Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor.

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Presépio de três figuras
Os barristas de Estremoz vêm representando a Natividade, seguramente desde o século XVIII, pelo que existe uma grande diversidade de Presépios. Aquele que ilustra a presente crónica é o chamado Presépio de três figuras da autoria de Ana das Peles (1869-1945), que de acordo com correspondência que tenho em meu poder, foi encomendado em 1938 pelo poeta Azinhal Abelho (1911-1979) ao escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945.
De salientar que este modelo de Presépio foi manufacturado pela primeira vez por Ana das Peles sob a supervisão de Sá Lemos que o concebera. Além de ser integrado pelo chamado “Berço do Menino Jesus”, inclui as figuras de Nossa Senhora e São José, ajoelhados numa base de cor ocre amarelo, de forma rectangular com os cantos adoçados e denteado na orla vertical.
O renascer dos Bonecos
Após a sua chegada a Estremoz, Sá Lemos constatou que a manufactura de Bonecos de Estremoz se encontrava extinta desse 1921, após a morte da barrista Gertrudes Rosa Marques. Atribuiu então a si próprio a missão da sua recuperação, para o que precisaria da colaboração de alguém que em tempos os tivesse confeccionado. Teve conhecimento da existência de Ana Rita da Silva (Ana das Peles), então com 63 anos de idade, que em tempos manufacturara os Bonecos de assobio e assistira à feitura dos restantes, mas entendia que não era capaz de os confeccionar. Sá Lemos intuiu que seria, por se lhe ter tornado evidente que a técnica era a mesma. Dois anos levaram a convencê-la, o que aconteceu em Julho de 1935 no decurso da Feira de Santiago, no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz. A partir daí, Sá Lemos estimulou-a, orientou-a e trabalhou em conjunto com ela na Escola. Em 10 de Novembro de 1935, no artigo “Os bonecos de Estremoz / “Versos Irónicos em barro””, publicado no jornal “Brados do Alentejo”, confessou que a sua missão fora coroada de êxito.
A estética dos Bonecos
Sá Lemos que além de escultor era professor de Desenho na Escola, no decorrer da revitalização da extinta manufactura de Bonecos de Estremoz, gizou a estética dos mesmos, tanto a nível morfológico como a nível cromático. Para tal, utilizou como modelos, exemplares pertencentes à Biblioteca-Museu Municipal de Estremoz, ao Museu Municipal de Elvas e ao Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945).
A estética projectada por Sá Lemos foi apreendida por Ana das Peles, a partir do aconselhamento e acompanhamento do escultor. A idade avançada de Ana das Peles (66 anos em 1935) levou Sá Lemos a interessar na manufactura dos mesmos, o oleiro Mariano da Conceição (1903-1959), Mestre de Olaria da Escola desde 3 de Dezembro de 1930, que em 1935 tinha 32 anos e estava na força da vida. Mariano aceitou de bom grado o repto e a partir de então a sabedoria e a magia das suas mãos, voltaram-se também para a manufactura dos Bonecos que vira Ana das Peles modelar. Creio que Mariano só terá começado a modelar Bonecos depois de 1937, uma vez que ao contrário de Ana das Peles, os Bonecos de Mariano não estiveram presentes em 1936 na Exposição de Arte Popular Portuguesa realizada em Lisboa, nem em 1937 na Exposição Internacional de Paris. Mariano só participou em 1940 na Exposição do Mundo Português, na qual estiveram também presentes Bonecos de Ana das Peles.
Sá Lemos também aconselhou e acompanhou Mariano da Conceição nos primeiros tempos, mas posteriormente veio a fornecer-lhe desenhos de figuras concebidas por si e que à data de falecimento de Mariano (29 de Setembro de 1959) ainda existiam na sua casa. À semelhança de Ana das Peles, Mariano assimilou também a estética de Sá Lemos e conferiu-lhe igualmente as suas marcas próprias de identidade, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto”.
Ana das Peles
Ana Rita da Silva (1869-1945) nasceu a 22 de Novembro de 1869 numa casa da Rua da Porta da Lage, na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz. Filha legítima de Manuel Joaquim da Silva, proprietário, natural de Fornos de Algodres e de Maria Domingas, governadeira de sua casa, natural da freguesia de S. Bento do Cortiço, concelho de Estremoz. Ana Rita seria baptizada a 15 de Setembro de 1869, na igreja paroquial de Santo André, Estremoz.
Em data que não é conhecida, casou com Jacinto Manuel, natural de Bencatel, de quem enviuvou em 1935.
Ana Rita da Silva, mais conhecida por Ti Ana das Peles, era irmã de Ti Luzia, casada com Mestre Cassiano que viera de Elvas e aprendera o ofício de barro fino na Cerâmica Estremocense de Mestre Emídio Viana, situada na Rua do Lavadouro, em Estremoz. Dali saiu para montar uma olaria de barro grosso, conhecida por Olaria Regional, na Rua do Afã, 36-B, no Bairro de Santiago, em Estremoz.
Ana das Peles vendia louça de barro vermelho de Mestre Cassiano no mercado de sábado em Estremoz e durante a semana era almocreve, uma vez que se deslocava às aldeias e vilas do concelho, com um burro aprestado de alforges, contendo pratos, panelas e outros objectos utilitários que vendia. Nas suas deslocações comprava peles secas de animais que viriam a ser utilizadas na manufactura de golas, casacos, pantufas, tapetes, etc., o que está na origem da sua alcunha “Ana das Peles”.
Era uma mulher independente, que assegurava a vida da família num tempo em que as mulheres raramente saíam à rua, ficando em casa e ocupando o seu tempo nas tarefas domésticas, bem como nos bordados e na costura.
Ana das Peles tinha o dom de fazer mezinhas e de curar pessoas, como era corrente naquele tempo, quando as famílias não tinham posses para ir aos médicos. Exercia essas práticas não só junto da família, como de outras pessoas que a procuravam.
Ana das Peles está indissociavelmente ligada à recuperação dos “Bonecos de Estremoz”. Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa realizada em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português.
Os Bonecos de Estremoz, de Ana das Peles foram nestas exposições, um ex-líbris de excelência da cidade de Estremoz. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram, simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de grande qualidade. Os Bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente grande notoriedade pública.
Ana Rita da Silva faleceu a 19 de Fevereiro de 1945 no Hospital da Misericórdia de Estremoz, com 75 anos de idade. O elogio fúnebre de Ana da Peles foi feito por Sá Lemos em artigo intitulado “Morreu a Ti Ana das Peles”, publicado no jornal Brados do Alentejo em 25 de Fevereiro de 1945.
Dois vizinhos
Ana das Peles morava e tinha oficina na Rua Brito Capelo n.º 21, onde ainda há bem pouco tempo era a churrasqueira “Frango e Companhia” de José Maria Calquinhas. Era aí que comercializava as suas criações.
Mariano morava no n.º 13 da mesma rua, mas nunca trabalhou ali. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras n.º1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso n.º 6.
75 anos da morte de Ana das Peles
A 19 de Fevereiro de 2020 completam-se 75 anos sobre a morte de Ana das Peles. Como reconhecimento do papel desempenhado por ela na recuperação duma tradição extinta e que hoje é motivo de orgulho para todos os estremocenses, impõe-se que a efeméride seja assinalada condignamente. Dou sugestões:
- PERPETUAÇÃO DA MEMÓRIA DA BARRISTA, INCLUINDO O SEU NOME NA TOPONÍMIA LOCAL - Até agora a toponímia estremocense já perpetuou o nome dos seguintes barristas: Mariano da Conceição (1903-1959), Sabina da Conceição (1921-2005), Liberdade da Conceição (1913-1990), Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e Quirina Marmelo (1922-2009). A omissão do nome de Ana das Peles na toponímia local é profundamente injusta. Aqui como em tudo, não pode haver filhos e enteados;
- DESCERRAMENTO DUMA LÁPIDE NA PAREDE DO PRÉDIO ONDE A BARRISTA TEVE OFICINA – Esta iniciativa poderia constituir a primeira doutras congéneres em relação a outros barristas falecidos;
- MONTAGEM DUMA EXPOSIÇÃO DE BONECOS DE ESTREMOZ MODELADOS PELA BARRISTA.
As sugestões aqui ficam.
- TEM A PALAVRA O MUNICÍPIO!

Estremoz, Natal de 2019
(Jornal E nº 236, de 26-12-2019)

Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
Arquivo fotográfico do autor.

Ana das Peles a pintar Bonecos na sua oficina na Rua Brito Capelo n.º 21, em Estremoz.
Atrás de si é visível um Presépio de três figuras. Fotografia de Rogério de Carvalho
(1915-1988). Arquivo fotográfico do autor.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Natal, pois claro!


Presépio de trono ou altar (1983) - Liberdade da Conceição (1913-1990)
Colecção particular.

Natal à porta
Entrámos no período de Natal. Este é a festividade cristã que enaltece o nascimento de Jesus Cristo. A data da sua celebração ocorre a 25 de Dezembro (Igreja Católica Apostólica Romana) ou a 7 de Janeiro (Igreja Ortodoxa). O Natal é, de resto, mundialmente encarado por pessoas de diferentes credos, como o dia consagrado à família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.
Tradições de Natal
No período de Natal cumprem-se ciclicamente tradições. Assim, no início do mês de Dezembro, semeiam-se as searinhas do menino Jesus, monta-se o presépio e a árvore de Natal. Na noite de Natal queima-se o madeiro no adro da igreja ou no largo principal. Vai-se à missa do galo e só depois decorre a ceia de Natal. À lareira ou junto do madeiro de natal são entoadas loas ao Menino Jesus, as quais integram o Cancioneiro Popular de Natal. Estas loas são muitas vezes acompanhadas com toque de ronca. Os presentes só são distribuídos no dia de Natal.
O Natal é também objecto de superstições, as quais integram a Mitologia Popular de Natal. Igualmente, existem numerosos provérbios de Natal.
Passemos em revista algumas das tradições referidas.
Searinhas do Menino Jesus
Uma tradição que ainda hoje se cumpre no Alentejo é a sementeira das “searinhas do Menino Jesus”, que se efectua no dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição.
Consiste esta tradição em semear em pequenos recipientes (pires ou chávenas) com terra, alguns grãos de trigo que são humedecidos com água para germinar, após o que são diariamente borrifados com a mesma, a fim de os rebentos se manterem viçosos.
As searinhas, dedicadas ao Menino Jesus, são utilizadas no presépio e no oratório, assim como são levadas à mesa da Consoada, na crença de que o Menino Jesus abençoe o trigo, de modo que nunca falte pão em casa e na mesa. No dia de Reis (6 de Janeiro), as searinhas devem ser transplantadas para a terra.
A tradição teve início no século XVI quando o cardeal e teólogo ascético francês Pierre de Bérulle (1575-1629) decidiu adornar o presépio com searinhas e laranjas para que as sementeiras e árvores de fruto fossem abençoadas e dessem muito durante o ano inteiro.
Parece não restarem dúvidas que se trata de mais um aproveitamento cristão duma tradição pagã. Na verdade, a festa pagã do solstício de Inverno que comemorava o renascimento do Sol, foi substituída pela festa cristã do Natal, que celebra o nascimento de Cristo. Daí que usos e costumes que lhe estavam associados tenham sido adaptados ao Cristianismo, pelo que são reminiscência das antigas crenças.
O Presépio
Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau (1638-1734) e Cândido de Figueiredo (1846-1925), a palavra “presépio” provem do latim “praesepium”, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos.
Conhecem-se presépios de barro de Estremoz desde o séc. XVIII e crê-se que eles terão sido aqui introduzidos pelos monges do Convento de S. Francisco, edificado em meados do séc. XIII e cuja tradição presepista é bem conhecida, desde que o fundador da Ordem, S. Francisco de Assis, montou o primeiro presépio do mundo em Greccio (Itália), no Natal de 1223, com a função didáctica de explicar o nascimento de Jesus, ao mesmo tempo que desgostado com as liberdades da Natividade dentro dos Templos, sustinha a adoração do Natal, como nos diz Luís Chaves (1888-1975).
Da multiplicidade de presépios de Estremoz, o mais vistoso é o chamado “presépio de trono ou de altar”, com figuras montadas em cantareira de barro, pintada à maneira tradicional das casas alentejanas.
As figuras do presépio são em número de nove e encontram-se dispostas hierarquicamente em três degraus da cantareira, hierarquizados de baixo para cima e da esquerda para a direita: 1º DEGRAU - OS PASTORES (Pastores alentejanos trajando à moda da primeira metade do século XX): - pastor ofertante em pé com um cesto com uma pomba branca; - pastor ajoelhado e de cabeça descoberta, orando com o chapéu à frente; - pastor ofertante em pé, segurando um borrego e com tarro enfiado no braço esquerdo. 2º DEGRAU – A SAGRADA FAMÍLIA: - São José ajoelhado; - Menino Jesus deitado numa manjedoura; - Nossa Senhora ajoelhada. 3º DEGRAU – OS REIS MAGOS: Gaspar, Baltazar e Belchior. Todos de pé e segurando as respectivas ofertas.
Na parede, por detrás dos reis magos, rasgam-se duas janelas de arco românico. A da esquerda, através da paisagem que por ela se vislumbra, contextualiza o local, onde na realidade nasceu Jesus. Por isso, esta janela mostra-nos, ao longe, uma casa de perfil palestiniano, ladeada por uma palmeira, árvore característica da região. Quanto à janela da direita, revela-nos o firmamento e nele a estrela, símbolo do poder divino que iluminou e conduziu os reis magos a Jesus
A ronca
A ronca é um instrumento musical tradicional do Alentejo, bastante rudimentar, pertencente à classe dos membranofones de fricção. É composto essencialmente por um reservatório, que pode ser um cântaro de barro ou outro recipiente qualquer. É ele que serve de caixa de ressonância e cuja boca é cerrada com uma pele esticada, a qual vibra quando se fricciona uma pequena e fina cana presa por uma das extremidades no seu centro. O som resultante, grave e fundo, é transformado pela caixa de ressonância no ronco característico do instrumento. A espessura e a qualidade da pele, é importante por causa do som. Por isso, usa-se pele de ovelha, borrego, carneiro, cabra, cabrito ou chibo, bem como bexiga de porco ou de carneiro.
É um instrumento usado no acompanhamento de canções de Natal ou das Janeiras, podendo ainda pode ser encontrado na zona raiana (região de Portalegre, Elvas, Terrugem e Campo Maior), onde grupos de homens agasalhados nos seus capotes para arrostar o frio, percorrem as ruas em compasso lento e solene, entoando cantares, parando aqui e ali, para dedicar os seus cantos aos moradores de determinadas casas.
Durante a sua utilização, a ronca é levada debaixo de um dos braços, enquanto o outro fricciona a cana longitudinalmente, com força. A eficácia do funcionamento da ronca exige que, de vez em quando, os tocadores cuspam para a mão que empunha a cana, a fim de lubrificar a pele da ronca. Os cânticos entoados podem ser dos mais diversos. Por exemplo: “Qualquer filho de homem pobre / Nasce num céu de cortinas. / Só tu, Menino Jesus, / Nasceste numas palhinhas.” Ou então: 
“Ó mê Menino Jasus / Da Lapa do coração, / Dai-me da vossa merenda, / Que a minha mãe não tem pão.”
Sobre a ronca, diz-nos António Thomaz Pires (1850-1913): "Das nove horas até à meia-noite de Natal percorrem as ruas da cidade diferentes grupos de homens do povo, cantando em altas vozes, em coro, e núm rhytmo e entoação especial, trovas ao Menino Jesus, acompanhadas pelo som àspero da ronca: alcatruz de nora, ou panella de barro, a cujo bocal se adapta uma membrana, ou pelle de bexiga, atravessada por um pau encerado, pelo qual se corre a mão com força para produzir um som rouco. Somente pelo Natal é este instrumento ouvido."
Mitologia Popular de Natal
A presente colectânea de superstições e tradições populares sobre o Natal, mostra a riqueza da nossa Mitologia Popular: - A construção ou reparação do lar deve ser efectuada na noite de Natal; - À meia-noite do dia de Natal deve sair-se para o campo e colher arruda, alecrim, salva e erva-terrestre. A arruda frita-se em azeite para usar nas fricções e das outras plantas faz-se chá para beber quando se está doente; - À rosa de Jericó é atribuída a virtude de facilitar o nascimento das crianças. Para tal, a rosa é lançada numa tigela com água e à medida que vai abrindo, o parto é facilitado. Também é boa para a enxaqueca quando se aspira o aroma que exala ao abrir-se. Colocada num oratório na noite de Natal, encontra-se aberta pela manhã. (Elvas); - Quando canta na noite de Natal, o galo diz: “Jesus é Cristo.” (Elvas); - Havendo luar na noite de Natal, é sinal de no próximo ano haver muito leite; - Uvas comidas seguidamente à meia-noite de Natal, livram de sezões (Évora); - É bom ficar a mesa posta no fim da ceia de Natal, que é para os Apóstolos virem comer. (Barcelos); - Ao meio-dia do dia de Santa Bárbara devem deitar-se algumas galinhas para tirarem na noite de Natal. Todo o galo nascido nessa noite, cantará sempre à meia-noite; - As pessoas nascidas no dia de Natal ou de Ano Bom são muito felizes; - As pessoas nascidas no dia de Natal vivem muito tempo; - O cepo da fogueira do Natal e os cotos de velas usadas nessa época, têm grandes virtudes contra as coisas más; - No presépio, a mula espalhava o feno e a vaca juntava-o. Daí a maldição de Nossa Senhora à mula: —"Não parirás! — prometendo à vaca que a carne dela seria a que sustentaria mais (Elvas). 
Provérbios de Natal
É vasto o número de provérbios sobre o Natal, Muitos deles atinentes aos ciclos agrícolas. Eis alguns: Ande o frio por onde andar, pelo Natal cá vem parar. Depois de o Menino nascer, é tudo a crescer. Galinhas de São João, pelo Natal ovos dão. Laranja antes do Natal livra o catarral. No Natal, só o peru é que passa mal. No Natal, todo o lobo vira cordeiro. O Natal em casa e junto da brasa. Pelo Natal, cada ovelha em seu curral. Pelo Natal, poda natural. Pelo Natal, sachar o faval. Pelo Natal, semeia o teu alhal e se o quiseres cabeçudo, semeia-o no Entrudo. Quem quer bom ervilhal semeia antes do Natal. Quem quiser bom pombal, ceva-o pelo Natal. Quem varejar antes do Natal, deixa azeite no olival.

Estremoz, 10 de Dezembro de 2019
(Jornal E nº 235, de 12-12-2019)

Searinha do Menino Jesus. Fotografia recolhida em”vimeo.com” ( https://vimeo.com ).

Tocadores de ronca. Fotografia recolhida em “Folclore de Portugal” ( https://folclore.pt ).

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Presépio de três figuras


Fig. 1 - Presépio de 3 figuras (2019). Ricardo Fonseca (1986- ).

O meu amigo Elói Pardal, que muito prezo, encomendou ao barrista Ricardo Fonseca,
vários exemplares de um minúsculo presépio de 3 figuras,
a oferecer a amigos seus durante um jantar de Natal.
A mim pediu-me a elaboração de um texto que acompanhasse o presépio.
 Daí nasceu o presente texto.
A partir dele editei um folheto de 4 páginas, cuja imagem de capa aqui reproduzo (Fig. 2).

O PRESÉPIO
Entrámos no período de Natal. Este é a festividade cristã que enaltece o nascimento de Jesus Cristo. A data da sua celebração ocorre a 25 de Dezembro (Igreja Católica Apostólica Romana) ou a 7 de Janeiro (Igreja Ortodoxa). O Natal é, de resto, mundialmente encarado por pessoas de diferentes credos, como o dia consagrado à família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.
Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau (1) e Cândido de Figueiredo (3), a palavra “presépio” provem do latim “praesepium”, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos.
PRESÉPIOS DE ESTREMOZ
Conhecem-se presépios de barro de Estremoz desde o séc. XVIII e crê-se que eles terão sido aqui introduzidos pelos monges do Convento de S. Francisco, edificado em meados do séc. XIII e cuja tradição presepista é bem conhecida, desde que o fundador da Ordem, S. Francisco de Assis, montou o primeiro presépio do mundo em Greccio (Itália), no Natal de 1223, com a função didáctica de explicar o nascimento de Jesus, ao mesmo tempo que desgostado com as liberdades da Natividade dentro dos Templos, sustinha a adoração do Natal, como nos diz Luís Chaves (2).
BONECOS DE ESTREMOZ
A manufactura de Bonecos de Estremoz é uma manufactura “sui-generis”, baseada numa técnica ancestral de produção que desde as bonequeiras de setecentos se transmitiu ao longo dos séculos e chegou até nós. Distingue-se de tudo aquilo que se faz em Portugal e no resto do mundo. Nela, o todo é criado a partir das partes, recorrendo à combinação de três geometrias distintas: a placa, o rolo e a bola. São elas que, com dimensões variáveis, são utilizadas na gestação de cada Boneco. Depois de modelados, os Bonecos sofrem sucessivamente as operações de secagem, cozedura, arrefecimento, envernizamento e pintura. Em resumo, um Boneco de Estremoz é uma figura modelada à mão, em barro vermelho, cozida e policromada, usando técnicas das quais há indícios de remontarem ao séc. XVII.
PRESÉPIO DE 3 FIGURAS
A Sagrada Família assenta numa base rectangular de cor castanha, simbolizando a terra. A cabeça de cada uma das figuras é aproximadamente esférica e revela cabelo castanho. O rosto e as mãos têm uma cor que configura a cor da pele. Os olhos são dois pontos negros, encimados por dois arcos paralelos, igualmente negros, configurando sobrancelhas e pestanas. As bocas são pontos vermelhos, representando a boca.
O menino Jesus tem à sua direita a Mãe e à esquerda o Pai. Está deitado numa cesta cuja textura da superfície e cor, evocam a verga. Encontra-se coberto por uma manta branca, orlada de dourado. Os braços estão abertos, parecendo querer dizer: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28-30) (4). 
Tanto Nossa Senhora como São José têm sobre a cabeça um resplendor dourado, símbolo de santidade e envergam trajes que configuram vestes bíblicas.
Nossa Senhora está de pé e tem as mãos unidas e postas ao alto, numa atitude de oração, gesto de humildade, de confiança e de submissão à autoridade de Deus. Veste um vestido azul claro comprido, com bainha e punhos azuis. Sobre a cabeça um manto castanho com orla dourada. Repare-se no pormenor de Nossa Senhora ter a cabeça e com ela o cabelo coberto pelo manto. Para além da natural contextualização em termos de usos e costumes da época em que nasceu Jesus, a esta representação não será também estranho o reconhecimento da realidade vigente entre nós na primeira metade do século XX e que impedia qualquer mulher de entrar num local de culto, de cabeça descoberta.
São José veste uma túnica branca com bainha e punhos castanhos. Sobre os ombros enverga uma capa castanha com orla dourada. Nas mãos segura um bordão de caminheiro. Esta representação configura ainda caber-lhe a responsabilidade de ter a seu cargo a defesa da sua Família.
RICARDO FONSECA, BONEQUEIRO DE ESTREMOZ
Ricardo Fonseca nasceu em 1986 na freguesia de Santa Maria do concelho de Estremoz, onde fez a instrução primária e cursou Artes na Escola Secundária, adquirindo saberes no âmbito da Pintura, da Escultura e da História de Arte. Sobrinho de peixe sabe nadar. O seu tio Ilídio foi oleiro na Olaria Alfacinha. As irmãs Flores, suas tias, são bonequeiras. Não admira pois que se tenha sentido fascinado pela plasticidade do barro e pelas transmutações que ele permite já que, como diz o poeta António Simões: “Barro incerto do presente, / Vai moldar-te a mão do povo / Vai dar-te forma diferente, / Para que sejas barro novo.” Daí que Ricardo tenha começado a manusear o barro aí pelos catorze anos, fazendo a aprendizagem com as suas tias. Aos quinze anos já fazia pequenos presépios e algumas imagens que vendia aos turistas, assegurando assim a mesada para os seus gastos juvenis.
Ao sair da Escola, em 2005, começou a trabalhar com as tias na oficina-loja do Largo da República. Foi então que a manufactura de Bonecos deixou de ser uma brincadeira e passou a ser o seu mester. A execução das figuras continuou, todavia, a ser feita com imenso prazer e igual paixão, pois como diz o adagiário “O trabalho é o mestre do ofício” e “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”. Trabalha muitas vezes por encomenda, o que é caso para dizer “A boa obra, se vai pedida, já vai comprada e bem vendida”. Confecciona espécimes dentro e fora do conjunto dos “Bonecos da Tradição”. Entre os modelos que registam maior procura figuram: “O Amor é Cego”, “Primavera”, “Rainha Santa Isabel” e “Presépios”.
A procura de coleccionadores leva-o a criar variantes de muitos exemplares, o que acontece sobretudo com “Presépios”, mas também com imagens como “Santo António”, “Nossa Senhora da Conceição” e “Rainha Santa Isabel”, o que se torna estimulante, sob um ponto de vista criativo. De resto e por auto-desafio vai criando peças cada vez mais complexas, sem abandonar porém os preceitos inerentes à manufactura dos Bonecos de Estremoz. É caso para dizer que: “Aprende por arte e irás por diante”.
É sabido que cada barrista tem o seu próprio modo de observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor. Lá diz o adagiário: “As obras mostram quem cada um é” e “Pela obra se conhece o artesão”. No caso de Ricardo, o perfeccionismo está-lhe na massa do sangue, o que o leva a dedicar-se aos pormenores, não só na pintura, como na própria manufactura do rosto, das mãos, dos pés e dos enfeites que adornam as figuras.

BIBLIOGRAFIA
(1) – BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino. Real Colégio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1713.
(2) - CHAVES, Luís. O primeiro “Presépio” de Lisboa conhecido (Século XVII). In, O Archeologo Português. Lisboa, Museu Ethnographico Português. S. 1, vol. 21, n.º 1-12 (Jan-Dez 1916), p. 229-230.
(3) – FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Editora T. Cardos & Irmão, 1899.
(4) – SÃO MATEUS. Evangelho segundo São Mateus.

Fig. 2 - Capa do folheto editado, referido no texto.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mensagem de Natal



Há cerca de 2.000 anos que de acordo com relatos bíblicos, nasceu na Galileia, Jesus Cristo, o Messias, cuja vinda foi anunciada pelo Arcanjo Gabriel. A sua capacidade de liderar multidões levou a que fosse julgado e condenado à morte por Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Pereia. Daí que tenha sido flagelado e crucificado.
Também Spartacus, gladiador trácio que liderou a mais célebre revolta de escravos contra o jugo romano, viria a conhecer semelhante sorte.
Desde então para cá têm ocorrido muitas lutas, muitas batalhas, muitas guerras, nas quais explorados e oprimidos, ávidos de pão, paz, terra, justiça e liberdade, têm lutado contra os opressores que lhe negam esses elementares direitos.
Um marco importante dessas lutas foi a Revolução Francesa, promotora dos ideais republicanos da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Todavia, como nos disse o Padre António Vieira: “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do san­gue, das vidas, e quanto mais co­me e consome, tanto menos se farta”. Daí que tenha continuado a alastrar pelo mundo, fruto dos interesses de dominação mais diversos.
A nível interno, tivemos a fundação da nacionalidade por Dom Afonso Henriques, a 5 de Outubro de 1143. Nos séculos seguintes, guerreámos castelhanos, mouros, povos indígenas, espanhóis, franceses e povos africanos, tanto por necessidades expansionistas como para defesa da independência nacional. Nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, verificou-se o descrédito do regime monárquico. Daí que graças à acção doutrinária e política do Partido Republicano Português, tenha ocorrido o derrube da Monarquia a 5 de Outubro de 1910. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma que vigorou até ao pronunciamento militar de cariz nacionalista e anti-parlamentar de 28 de Maio de 1926, o qual estaria na origem do Estado Novo, regime ditatorial que vigorou até à Revolução de 25 de Abril de 1974.
A restituição da liberdade aos portugueses teve como reflexos positivos imediatos, o renascer do parlamentarismo e dos partidos, pilares da democracia. Com ambos, a democracia tem conhecido altos e baixos, por vezes com reflexos negativos na vida das pessoas.
Com as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, ocorreu uma nova mudança de paradigma, que foi o entendimento político entre as esquerdas. Este incomodou todos aqueles que crêem ter o rei na barriga e se julgam donos disto tudo.
Fruto daquele entendimento e em cumprimento dos preceitos constitucionais, o Presidente da República indigitou a 24 de Novembro, António Costa como Primeiro-Ministro do XXI Governo Constitucional. Este tomou posse a 26 de Novembro e viu o seu Programa aprovado no Parlamento a 3 de Dezembro.
O poder mudou de mãos e é tempo de Natal, daí que para a maioria do povo português, este Natal seja um natal de esperança.
Vem aí “Ano Novo, vida nova”. A 24 de Janeiro têm lugar as eleições para a Presidência da República, data em que a maioria do povo português pretende que ocorra outra mudança de paradigma. A meu ver, para que tal seja possível, torna-se necessário um entendimento político entre as esquerdas, que se traduza na apresentação de um único candidato às urnas. Julgo que as esquerdas aprenderam com as eleições legislativas e vão alcançar esse entendimento. Trata-se de um imperativo ético da maior relevância.

segunda-feira, 30 de março de 2015

22 – A hierarquia do presépio de trono

Presépio de trono (1961-62)
Marca: OLARIA ALFACINHA/ESTREMOZ/PORTUGAL.
Colecção particular.
Fotografia de Luís Mariano.

O chamado presépio de trono ou de altar, não aparece em qualquer imagem da Exposição do Mundo Português (1940), onde os bonecos de Estremoz se revelaram e se impuseram ao Mundo. Todavia, aparece na capa da revista Mensário das Casas do Povo, nº 18, de Dezembro de 1947. Terá sido então criado entre 1941 e 1947. Provavelmente entre 1941 e 1945, já que terá sido projectado pelo escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), natural de Mamafude (Vila Nova de Gaia), onde existia a tradição de cascatas e de tronos, por ocasião dos Santos Populares. Sá Lemos foi Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945 e a ele se deve o renascimento dos bonecos de Estremoz.
No presépio de trono, as figuras são em número de nove e encontram-se distribuídas por três degraus, hierarquizadas de baixo para cima e da esquerda para a direita do observador:
1º DEGRAU - OS PASTORES: - pastor ofertante em pé, com um cesto contendo uma pomba branca; - pastor ajoelhado e de cabeça descoberta, orando com o chapéu à frente; - pastor ofertante em pé, segurando um borrego e com tarro enfiado no braço esquerdo. O 1º degrau corresponde à base da escala social.
2º DEGRAU – A SAGRADA FAMÍLIA: - Nossa Senhora ajoelhada; - Menino Jesus deitado numa manjedoura; - São José ajoelhado.
3º DEGRAU – OS REIS MAGOS: Todos de pé e segurando as respectivas ofertas: Gaspar, representante da raça asiática (de túnica cor de rosa: incenso); Baltasar, representante da raça africana (de túnica vermelhão: mirra) e Belchior, representante da raça europeia (de túnica azul: ouro). O 3º degrau corresponde ao topo da escala social.
No presépio de trono há um eixo de simetria que passa pelas figuras centrais, que têm qualquer coisa que as distingue daquelas que as ladeiam. Assim: - o rei central é negro e os outros dois têm pele clara; - o Menino Jesus tem natureza celeste e Nossa Senhora e São José têm natureza terrena; - o pastor ajoelhado está ladeado de dois pastores em pé.
Analisemos agora a hierarquia, da esquerda para a direita. Numa sociedade patriarcal e conservadora como a da época de Jesus, há supremacia do homem nas relações sociais e a direita é valorizada em relação à esquerda. Por isso: - o rei que oferece ouro está posicionado à direita, enquanto o que oferta incenso está situado à esquerda, visto que o metal é mais valioso que a resina aromática; - São José está ajoelhado à direita do berço e Nossa Senhora está genuflectida à esquerda; - O pastor ofertante que segura o borrego está localizado à direita, ao passo que o pastor ofertante da pomba, está posicionado à esquerda, pois o ovino vale mais que a ave. 



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Presépio Alentejano


Presépio Alentejano. Peça da autoria do jovem barrista estremocense, Ricardo Fonseca.

É sabido que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria. Esta deve ser transmitida duma forma clara pela genuína arte popular. Começa logo pelos materiais empregues, como é o caso do barro utilizado pelos barristas desta terra de Além Tejo, do termo de Estremoz. Exactamente o mesmo barro, que de acordo com o Génesis, Deus terá usado para modelar o primeiro homem. Barro sobre o qual, António Simões poetizou em 1983:

Barro incerto do presente
Vai moldar-te a mão do povo
Vai dar-te forma diferente
P´ra que sejas barro novo!

É com a magia das mãos, auxiliada por utensílios rudimentares, que os barristas, homens e mulheres do povo, corporizam a imaginária que lhes vai na alma e que decoram com as cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui garridas e alegres, como convém às claridades do Sul.
É o caso do “Presépio Alentejano” do jovem barrista Ricardo Fonseca. Trata-se dum Presépio de três figuras, com a Sagrada Família representada em contexto alentejano.
São José é um barbado pastor que se protege do frio com um chapéu aguadeiro, calças de burel, camisa xadrez de flanela e um capote também de burel, com gola de pele de ovelha. Tem os pés protegidos por botas de atanado, a mão esquerda enfiada no bolso das calças, por causa do frio, enquanto que a direita empunha um cajado, pois o Menino Jesus tem que ser protegido e mais vale prevenir que remediar. Lá diz o rifão: Apanha com o cajado quem se mete onde não é chamado.
O Menino Jesus está deitado em cima das palhinhas contidas num cesto de vime, daqueles que são vulgares no Alentejo e encontra-se coberto por uma mantinha xadrez. Lás diz o rifão: A fome e o frio nunca criaram infante. O Menino parece ser irrequieto, já que tem os pés destapados, o que parece preocupar a Mãe, conforme revela a postura das Suas mãos. Nossa Senhora é representada como uma mulher do povo com avental de trabalho e saia azul até aos pés. Usa lenço florido na cabeça e um xaile sobre as costas e por cima da blusa de flanela florida, uma vez que o frio de Dezembro não é para brincadeiras. Lá diz o rifão: Em Dezembro treme de frio cada membro.
O chão é de laje, rocha xistosa, vulgar na região, usada para atapetar a entrada dos montes e pavimentar o seu interior. A horizontalidade do chão evoca a planura da charneca alentejana.
A contextualização do Presépio é reforçada pela fachada do monte, que está por detrás da Sagrada Família. O telhado é de telha romana e a parede está caiada de branco. Lá diz o cancioneiro popular alentejano:

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado...
As casas e o coração,
Sempre tudo anda lavado...

Rodapé e ombreira da janela decorada com azul do Ultramar, azul que tem a ver com a identidade cultural alentejana e possui um valor simbólico: o azul exprime o desejo de paz e de calma, próprio dos alentejanos e o azul límpido do céu, característico das claridades do Sul, o que é ainda reforçado pelas várias tonalidades de azul do vestuário de Nossa Senhora.
Curiosa a representação de uma parreira sob o beiral do monte. Na minha opinião, trata-se de uma alegoria à actual importância económica da vinicultura no Alentejo, a qual transformou em vinhas aquilo que em tempos foram campos de semeadura de trigo. Os cachos, esses são de uvas pretas, daquelas com que se produz o vinho tinto e espesso que o alentejano, legítimo herdeiro da cultura báquica mediterrânica, gosta de mastigar nos seus rituais báquicos.
Do exposto se conclui que o “Presépio Alentejano”, de Ricardo Fonseca, é uma bem conseguida peça de genuína arte popular alentejana. Com ela originou uma mudança de paradigma nos presépios, tal como nos anos quarenta do século XX, o conseguiu Mariano da Conceição (1903-1959), através da criação do “Presépio de Trono ou de Altar”, hoje uma peça clássica da barrística popular estremocense. Pela sua enorme beleza e pela matriz identitária que dele irradia, o “Presépio Alentejano” está igualmente condenado a ser uma peça clássica da barrística popular estremocense.
Parabéns Ricardo!  


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Searinhas do Menino Jesus (2ª edição)

Searinha do Menino Jesus.
Fotografia de Carlos Dalves (http://olhares.aeiou.pt)

Uma tradição que ainda hoje se cumpre no Alentejo é a sementeira das “Searinhas do Menino Jesus”, já referida por A. Thomaz Pires (2) e que se efectua no dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição.
Consiste esta tradição em semear em pequenos recipientes (pires ou chávenas) com terra, alguns grãos de trigo que são humedecidos com água para germinar, após o que são diariamente borrifados com a mesma, a fim de os rebentos se manterem viçosos.
As searinhas, dedicadas ao Menino Jesus, são utilizadas no presépio e no oratório, assim como são levadas à mesa da Consoada, na crença de que o Menino Jesus abençoe o trigo, de modo que nunca falte pão em casa e na mesa. No dia de Reis (6 de Janeiro), as searinhas devem ser transplantadas para a terra.
Thomaz Pires cita D. José Coroleu (Las supersticiones de la humanidad) quando afirma que as searinhas “(…) recordam as sementes semeadas nos testos pelas mulheres Phrygias, e que levavam ao terrado para germinarem aos raios do Sol.”.
A tradição teve início no século XVI quando o cardeal e teólogo ascético francês Pierre de Bérulle (1575-1629) decidiu adornar o presépio com searinhas e laranjas para que as sementeiras e árvores de fruto fossem abençoadas e dessem muito durante o ano inteiro.
Parece não restarem dúvidas que se trata de mais um aproveitamento cristão duma tradição pagã. Na verdade, a festa pagã do solstício de Inverno que comemorava o renascimento do Sol, foi substituída pela festa cristã do Natal, que celebra o nascimento de Cristo. Daí que usos e costumes que lhe estavam associados tenham sido adaptados ao Cristianismo, pelo que são reminiscência das antigas crenças.

BIBLIOGRAFIA
(1) - PESTANA, M. Inácio. Etnologia do Natal Alentejano. Assembleia Distrital de Portalegre. Portalegre, 1978.
(2)  – PIRES, A. Thomaz. A noite de Natal, o Anno Bom e os Santos Reis. 2ª edição. António José Torres de Carvalho. Elvas, 1928

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Provérbios de Natal


Virgem com o Menino Jesus ao colo (2º quartel do séc. XVII).
Painel com 6 x 8 azulejos (70 x 112 cm).
Arquidiocese de Évora.

- Ande o frio por onde andar, pelo Natal cá vem parar.
- Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao Natal, assim estará o ano, mês a mês até ao final.
- Caindo o Natal à segunda-feira, o lavrador tem de alargar a eira.
- De Santa Catarina ao Natal, bom chover e melhor nevar.
- De Santa Catarina ao Natal, mês igual.
- De Santa Luzia ao Natal, ou bom chover ou bom nevar.
- De Santos a Santo André, um mês é; de Santo André ao Natal, três semanas.
- De Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
- De Santos ao Natal, ou bom chover ou bem nevar.
- Depois de o Menino nascer, é tudo a crescer.
- Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Do Natal a Santa Luzia cresce um palmo em cada dia.
- Do Natal a São João, seis meses são.
- Dos Santos ao Natal bico de pardal.
- Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
- Dos Santos ao Natal é Inverno natural.
- Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal.
- Em caindo o Natal à segunda-feira, o lavrador tem de alargar a eira.
- Em Dezembro ande o frio por onde andar, pelo Natal há-de chegar.
- Em dia de festa e Natal, atesta a barriga, não faz mal.
- Em dia de Santa Luzia cresce a noite e minga o dia.
- Em Natal chuvoso até o diligente é preguiçoso.
- Entrudo borralheiro. Natal em casa, Páscoa na praça.
- Festa do Natal no lar, da Páscoa na Praça e do Espírito Santo no campo.
- Galinhas de São João, pelo Natal ovos dão.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar. Agosto engavelar, Setembro vindimar. Outubro revolver, Novembro semear, Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Janeiro gear. Fevereiro chover, Março encanar, Abril espigar. Maio engrandecer. Junho ceifar, Julho debulhar. Agosto engavelar, Setembro vindimar. Outubro revolver. Novembro semear. Dezembro nascer.
- Laranja antes do Natal livra o catarral.
- Na mesa de Natal, o pão é o principal.
- Não há ano, afinal, que não tenha o seu Natal.
- Natal a assoalhar e Páscoa ao luar.
- Natal à segunda-feira, lavrador alarga a eira.
- Natal à sexta-feira, guarda o arado e vende os bois.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Natal de rico é bem sortido.
- Natal em casa, junto à brasa.
- No Natal em casa, junto à brasa.
- No Natal tem o alho bico de pardal.
- No Natal, só o peru é que passa mal.
- No Natal, todo o lobo vira cordeiro.
- Noite de Natal estrelada dá alegria ao rico e promete fartura ao pobre.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- Novembro, semear; Dezembro, nascer.
- O ano vai mal, se não há três cheias antes do Natal.
- O Natal ao soalhar e a Páscoa ao luar.
- O Natal em casa e junto da brasa.
- O Natal quer-se na praça, a Páscoa em casa.
- Outubro, revolver; Novembro, semear; Dezembro, nasceu um Deus para nos salvar; Janeiro, gear; Fevereiro, chover; Março, encanar; Abril, espigar; Maio, engrandecer; Junho, ceifar; Julho, debulhar; Agosto, engravelar; Setembro, vindimar.
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
- Pela Senhora da Conceição, favas ao chão; por São Tomé, carregam da ponta ao pé; eu semeio quando me faz conta e carregam do pé à ponta.
- Pelo Natal cada ovelha em seu curral.
- Pelo Natal se houver luar, senta-te ao lar; se houver escuro, semeia outeiros e tudo.
- Pelo Natal, bico de pardal vai ao laranjal.
- Pelo Natal, cada ovelha em seu curral.
- Pelo Natal, lua cheia, casa cheia.
- Pelo Natal, neve no monte, água na ponte.
- Pelo Natal, poda natural.
- Pelo Natal, sachar o faval.
- Pelo Natal, saltinho de pardal.
- Pelo Natal, semeia o teu alhal e se o quiseres cabeçudo, semeia-o no Entrudo.
- Pelo Natal, sol; pela Páscoa, carvão.
- Pelo Natal, tenha o alho bico de pardal.
- Por Natal ao jogo e por Páscoa ao fogo.
- Por Natal sol e por Páscoa carvão.
- Quando o Natal tem o seu pinhão, a Páscoa tem o seu tição.
- Quem quer bom ervilhal semeia antes do Natal.
- Quem quiser bom pombal, ceva-o pelo Natal.
- Quem vareja antes do Natal, fica-lhe a azeitona no olival.
- Quem varejar antes do Natal, deixa azeite no olival.
- Se te queres livrar de um catarral, come uma laranja antes do Natal.
- Sol no Natal, chuva na Páscoa.
- Três semanas antes do Natal, Inverno geral.
- Uma cama em Agosto e uma ceia em Natal, quem a quer a pode dar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Gaspar fora do Presépio, já!

Gaspar foi abatido à montagem do Presépio.

Nesta altura do ano já começo a sonhar com a montagem do Presépio, que como todos bem sabem é evocador do nascimento de Cristo Salvador.
A montagem do Presépio costuma alegrar toda a criançada, uma vez que desperta neles a lembrança das prendas que o vetusto Pai Natal, na noite de 24 para 25 de Dezembro, lhes vai depositar nos sapatinhos. Todavia, a tradição já não é o que era. Com a crise, muitos pais apenas poderão pôr no sapatinho dos seus filhos, as memórias dos presentes doutros anos, nos quais isso era possível. Ora, eu que também já fui criança, não posso ficar indiferente a tal facto. Assim, decidi tomar uma atitude drástica. No meu Presépio deste ano, só figurarão dois Reis Magos: Baltasar e Belchior. É que estou danado com o Gaspar, por tanto nos fazer apertar o cinto. Como tal, foi por mim afastado do convívio dos seus pares e do remanso do meu lar. Condenei-o a desterro no exterior, onde ficará exposto à chuva e ao vento, para ver se refresca as ideias.
Aconselho-vos a que façam o mesmo. Abandonem-no no quintal, no jardim, na varanda ou no telhado, pois um bom cristão concede sempre aos prevaricadores, a oportunidade de se redimirem.
Quem tiver poço, pode e deve mesmo, mergulhá-lo de cabeça para baixo, pendurado por uma guita. É assim que procedem os devotos de Santo António, quando o taumaturgo tarda em conceder os milagres desejados.
Proceda-se de igual modo com o Gaspar, que só sairá dos seus suplícios aquáticos, quando deixar de nos apertar o cinto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Noite de Natal

 
PREPARAÇÃO DA CONSOADA
Ilustração de Raquel Roque Gameiro Ottolini (1889-1970),
para bilhete-postal emitido pelos CTT.

Nos anos 50-60 do século passado, eu e os meus pais passávamos normalmente a noite da missadura em casa da minha tia Estrela, no nº 17, do Largo do Espírito Santo, em Estremoz. Fazíamos o lume de chão para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão assim.
Por cima das nossas cabeças, o fumeiro – espécie de enfermaria para os enchidos – onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder repimpar com elas.
Ti Manel Alturas, o meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:

"Olha o Deus Menino
Nas palhas deitado,
A comer toicinho
Todo besuntado!"

A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas preparavam durante todo o dia. Ele era a boleima, o bolo podre, o bolo de laranja, as filhoses, as azevias as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos ou couve-flor e regado com vinho da adega do Zé da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido falar em colesterol.
Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali cerca da meia noite quando me mandavam para a rua, ver o Pai Natal entrar pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos. Para vos falar disto é por que sei qual a diferença exacta que há entre os dois natais.


Texto adaptado do texto anterior "Memórias do Espírito Santo"

CARTA AO MENINO JESUS
Ilustração de Laura Costa (activa 1920-1950),
para bilhete-postal emitido pelos CTT em 1942.
CÂNTICO DO NATAL
Ilustração de Laura Costa (activa 1920-1950),
para bilhete-postal emitido pelos CTT em 1942.
 
AS PRENDAS NO SAPATINHO
Ilustração de Raquel Roque Gameiro Ottolini (1889-1970),
para bilhete-postal emitido pelos CTT em 1943.