Mostrar mensagens com a etiqueta Mercado das Velharias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mercado das Velharias. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

As Jóias da Coroa


 Fig. 1 - Rei Mago em pé (Belchior). Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.


Pese embora a minha condição de republicano e plebeu, assiste-me o direito de ser rei de mim mesmo e usar a Coroa que livremente escolhi e defendo com pundonor no Livro de Horas do meu dia-a-dia. Essa Coroa não é mais que a minha colecção particular de Bonecos de Estremoz. Trata-se de uma colecção generalista, abarcando figuras de temas diversos, criadas por vários barristas­ desde os primórdios até à actualidade.
A colecção distribui-se por duas grandes áreas que usualmente se convencionou designar por “Bonecos da Tradição” e “Bonecos da Inovação”, que no meu livroBONECOS DE ESTREMOZ foram objecto de estudo em capítulos próprios. A primeira integra modelos que têm sido manufacturados desde sempre e a segunda os que foram sendo criados por cada barrista no decurso do tempo, já que “Outros tempos, outros costumes“.
É possível ainda, numa óptica temporal, destacar bonecos que na maioria dos casos têm de um a três séculos de existência, com uma pátine própria, já que “Os anos não perdoam” e “Sem tempo nada se faz“. Trata-se de exemplares que revelam em todo o seu esplendor a marca do tempo e do envelhecimento, quer por descoloração devida a decomposição fotoquímica, quer pela deposição de resíduos provenientes de poeiras ou fumos. São figuras que valorizam a colecção por serem mais antigas e menos vulgares. Constituem aquilo que, na qualidade de rei de mim mesmo, resolvi designar por “Jóias da Coroa”. Passo a referi-las:
- Imagens que integraram presépios do séc. XVIII e que, à excepção de uma, foram adquiridas em 2013 no Mercado das Velharias em Estremoz: Rei Mago em pé (Belchior) – Fig. 1, Rei Mago em pé (Baltasar) – Fig. 2, Rei Mago ajoelhado (Belchior), Rei Mago ajoelhado (Baltasar), Pastor ofertante ajoelhado – Fig. 3.
- Uma figura que fazia parte da sociedade de setecentos: Dama orando - Fig. 4.
- Exemplares que integraram um presépio de finais do séc. XIX que adquiri em 2015, no Mercado das Velharias em Estremoz: Nossa Senhora ajoelhada – Fig. 5, São José ajoelhado - Fig. 6, Rei Mago em pé (Belchior), Rei Mago em pé (Baltasar), Rei Mago em pé (Gaspar) – Fig. 7, Burro e vaca, Pastor de tarro e manta -  Fig. 8, Borregos e cão, Mulher ofertante com um borrego ao colo, Mulher ofertante com um borrego ao colo – Fig. 9.
- Figuras que não integraram o conjunto de figuras da colecção de Emídio Viana que veio a incorporar em 1929 a colecção da Biblioteca e Museu Municipal de Estremoz. Adquiri estes exemplares em 2018, na sequência do falecimento do filho de Emídio Viana: Porqueiro – Fig. 10, Mulher dos enchidos – Fig. 11, Mulher das castanhas – Fig. 12.
- Bonecos que integraram a colecção de Azinhal Abelho e que, por intermédio de José Maria de Sá Lemos, foram encomendados a Ana das Peles em 1938, conforme correspondência deste último para aquele e que acompanhava o lote de figuras que adquiri em 2018: Berço do Menino Jesus (das pombinhas) – Fig. 13, Nossa Senhora ajoelhada, São José ajoelhado, Pastor ajoelhado com um chapéu à frente, Pastor – Fig. 14, Pastor das migas, Fiandeira – Fig. 15, Mulher das castanhas – Fig. 16, Lanceiro com bandeira – Fig. 17, Sargento no jardim, Senhora de pezinhos - Fig. 18, Preta grande (preta florista), Galinha no choco (assobio), Cesto com ovos (assobio), Peralta, (assobio), Amazona (assobio) - Fig. 19).
São compras que por vezes me acabam por “Custar os olhos da cara” e a ficar “Com uma mão na frente e outra atrás”, daí que alguém conhecedor da minha condição de professor aposentado, tenha agourado:
- “Por esse caminho, ainda vais acabar a pedir esmola à porta da Igreja". 

 Fig. 2 - Rei Mago em pé (Baltasar). Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

 Fig. 3 - Pastor ofertante ajoelhado. Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

  Fig. 4 – Dama orando. Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.

 Fig. 5 – Nossa Senhora ajoelhada. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

Fig. 6 - São José ajoelhado. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 7 - Rei Mago em pé (Gaspar). Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 8 - Pastor de tarro e manta. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX.

 Fig. 9 - Mulher ofertante com um borrego ao colo. Oficinas de Estremoz de finais do
 séc. XIX.

 Fig. 10 - Porqueiro. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção Emídio
Viana.

 Fig. 11 - Mulher dos enchidos. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção
Emídio Viana.

 Fig. 12 - Mulher das castanhas. Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Ex-colecção
Emídio Viana.

 Fig. 13 - Berço do Menino Jesus (das pombinhas). Ana das Peles (1938). Ex-colecção
Azinhal Abelho.

Fig. 14 - Pastor. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

 Fig. 15 - Fiandeira. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

 Fig. 16 - Mulher das castanhas. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

Fig. 17 - Lanceiro com bandeira. Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.
  
 Fig. 18 - Senhora de pezinhos. Ana das Peles (1938) Ex-colecção Azinhal Abelho.

Fig. 19 - Amazona (assobio). Ana das Peles (1938). Ex-colecção Azinhal Abelho.

Hernâni Matos

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Brinquedos de louça de Estremoz


Fig. 1 - Pote com tampa. Finais do séc. XIX.

Algures em 2012 recebi um telefonema da barrista Maria Luísa da Conceição, minha vizinha e amiga, a qual me disse:
- “Por motivo de saúde, uma amiga minha vai passar a viver com a filha e está a desfazer-se de coisas pelas quais não tem interesse especial. É o caso de umas louçinhas de Estremoz, que talvez lhe possam interessar.”
Perguntei-lhe então:
- “Quem é a senhora?”
Resposta da barrista:
- “Você conhece. É a Isolete Correia que foi telefonista e colega da senhora sua mãe”.
Nessa altura o meu coração deu um baque. É que eu sabia que a senhora herdara a colecção de Bonecos de Estremoz do Tenente-coronel Pinto Tavares, a qual vendeu a um comerciante do Mercado das Velharias, que por sua vez a vendeu ao pintor Armando Alves. É uma colecção extraordinária que foi adquirida pelo Armando e me escapou das mãos porque eu cheguei ao Mercado às 8 horas e ele tinha chegado mais cedo. Acreditem ou não, andei doente uma semana por causa dessa perda. Valeu-me a abertura do Armando que me franqueou as portas da sua casa, a fim de fotografar os bonecos, para estudar posteriormente. Tive que recorrer ao Luís Mariano Guimarães, já que eu e as máquinas fotográficas não nos damos lá muito bem. No conjunto fotografado havia três loucinhas, ou seja, três “Brinquedos de louça de Estremoz”. Pressenti então que a senhora podia ter ficado ainda com alguns desses brinquedos. Depois da barrista Maria Luísa da Conceição me ter dado o número de telefone da senhora e eu ter combinado com ela a hora de ir a sua casa, lá fui. O meu pressentimento estava certo. Comprei-lhe então aqueles brinquedos, o que me deu imensa satisfação.
Os “Brinquedos de louça de Estremoz” que ilustram este texto são uns do Armando e outros meus. Pertenceram todos à colecção do Tenente-coronel Pinto Tavares e passo a apresentá-los: Pote com tampa (Fig. 1), Panela com tampa (Fig. 2), Cântaro com tampa (Fig. 3), Bilha (Fig. 4), Bule (Fig. 5), Bule (Fig. 6), Fogareiro (Fig. 7), Apito de água (Rouxinol) (Fig. 8), todos dos finais do séc. XIX.
De “Brinquedos de Louça de Estremoz” nos fala Virgílio Correia (1)-pág. 80: “Na feira de S. Tiago — a grande feira estremozense — do ano que passou, apareceram á venda, ao lado dos bonequinhos de barro pintado e dos usuaes pucarinhos e rouxinoes para creanças, uns brinquedos de tipo especial, fortemente policromados, que, segundo afirmava a sua única vendedora, não vinham ao mercado havia muitos anos.
Fora o caso que um seu parente, oleiro, preso nas cadeias da vila, mandara ir para a sala onde temporariamente pousava, uma porção de reduções de utensílios, de uso infantil, e entretivera-se enchendo os pequeninos bojos e tampas de pinturas de gosto antiquado. Sobre
a chacota, pintara ramos e linhas cruzadas, empregando o branco, o azul brando e o azul carregado, o verde, o vermelho e o côr de vinho, as mesmas cores adotadas no colorido dos bonecos. A ideia, porém,não era dele; lembrara-se de que, anos atraz, em Estremoz, este tipo de decoração era ainda corrente...”
E mais adiante (1): “Tive, dias depois da feira, ocasião de ver a oficina onde pintavam os brinquedos. Sentada numa cadeirinha baixa, deante de uma daquelas minúsculas mezinhas onde o alentejano come, sob a chaminé, rodeada de tijelinhas, a artista — era uma mulher que então trabalhava — ia colorindo, riscando, pontuando e borrando a chacota avermelhada dos brinquedos.
No meio de todas aquelas conchas de cores diferentes, lembrava um iluminador, preparando
uma capitular, ou uma cercadura naturalista.”
O tema dos “Brinquedos de Louça de Estremoz” viria a ser retomado mais tarde por Virgílio Correia (2)-pág.105, que dá a conhecer a imagem de nove desses brinquedos com diferentes morfologias e decorações.

BIBLIOGRAFIA
1 - CORREIA, Virgílio. Brinquedos de Louça de Estremoz in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia,, nº 3, Abril de 1916. Lisboa, 1916 (pág.80).
2 - CORREIA, Virgílio. Brinquedos de Louça de Estremoz in Revista Terra Portuguesa - Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia, nº 10 e 11, Novembro e Dezembro de 1916 (pág. 105).

 Fig. 2 - Panela com tampa. Finais do séc. XIX.

 Fig. 3 - Cântaro com tampa. Finais do séc. XIX.

 Fig. 4 - Bilha. Finais do séc. XIX.
Colecção Armando Alves.

 Fig. 5 - Bule. Finais do séc. XIX.
Colecção Armando Alves.

 Fig. 6 - Bule. Finais do séc. XIX.
Colecção Armando Alves.

 Fig. 7 - Fogareiro. Finais do séc. XIX.

Fig. 8 - Apito de água (Rouxinol). Finais do séc. XIX.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Estremoz - Surpresas do Mercado das Velharias - 02


Mercado das Velharias, em Estremoz. Fotografia de autor desconhecido.

Fiel frequentador do Mercado das Velharias em Estremoz, reincido em ir ali todos os sábados, como peregrino que vai cumprir uma promessa. Trata-se do compromisso assumido de por ali deambular à procura de registos do passado, que me permitam não só deleitar o espírito, como saciar a minha avidez de contar estórias. É que os objectos encerram em si estórias que se torna imperativo decifrar, para que possam ser transmitidas à comunidade. Daí que aqui dê conta de três exemplares de arte pastoril alentejana ali recentemente adquiridos.

Con­­sagração eucarística
A imagem mostra um invulgar exemplar de arte pastoril em madeira, representando o cálice, vaso sagrado onde, na Missa, se consagra o vinho no Sangue de Jesus Cristo. Vê-se ainda a hóstia circular, que se torna no seu Corpo às palavras da consagração.
O artefacto em madeira simboliza a Con­­sagração Eucarística, mo­men­to culminante da Missa em que, às pa­lavras de Jesus Cristo na Última Ceia, proferidas em sua me­mória pelo sacerdote celebrante, o pão e o vinho se transubstanciam no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo.


Consagração eucarística.

Forca de fazer cordão
Trata-se de uma alfaia em madeira usada em tecnologia têxtil rural na manufactura de cordão e cuja origem remonta ao período viking (01) e medieval (02). O seu uso terá diminuído depois do séc. XII (02) e renascido no séc. XVII (04), para diminuir novamente no início do séc. XIX (3). Era usada no fabrico de cordão para utilizar no vestuário ou para pendurar objectos do cinto.
A forca de fazer cordão tem sempre uma extremidade em forma de lira, na qual se manufactura o cordão e, na extremidade oposta uma alça pela qual a forca se segura na mão que não está a ser utilizada na produção de cordão. No caso presente, a alça da forca é de forma circular e assemelha-se à cabeça de uma cágueda (fecho de coleira de gado com chocalho suspenso). Está dividida em duas partes: um circulo central e uma coroa circular que lhe é circundante, ambos lavrados. O círculo central simula uma flor com pétalas irradiando do centro e ligeiramente encurvadas para a direita do observador. A coroa, à excepção da sua parte inferior está decorada com um padrão de zig-zag. A inscrição “ANTONIO” gravada no verso da forca, perpetua na madeira o antropónimo do artista popular que a concebeu e executou.
  
Forca de fazer cordão.

Descamisador
O descamisador (ou sovino) era uma alfaia agrícola, outrora utilizada nas descamisadas, para retirar as folhas que envolvem as maçarocas de milho após a respectiva colheita, de modo a prepará-las para a debulha. O descamisador era muitas vezes em madeira, consistindo de um pau pontiagudo, mais ou menos trabalhado. Com uma mão segurava-se uma maçaroca e com a outra empunhava-se o descamisador, cuja ponta era feita incidir longitudinalmente sobre a maçaroca, de modo a cortar as folhas sobrepostas, que depois eram separadas dela. A descamisada era um trabalho colectivo nocturno, de entreajuda e de convívio da comunidade vicinal.

Descamisador.

BIBLIOGRAFIA
(01) PETTERSSON, Kerstin.  En gotländsk kvinnas dräkt. Kring ett textilfynd från vikingatiden, Tor 12. Societas Archaeologica Upsaliensis. Uppsala, 1967-1968 (pág. 174- 200).
(02) - MACGREGOR, Arthur. Bone, Antler, Ivory and Horn: The Technology of Skeletal Materials since the Roman Period.  Croom Helm. London, 1985.
(03) - GROVES, Sylvia. The History of Needlework Tools and Accessories. Hamlyn Publishing. Middlesex, 1966.
 (04) - Oxford English Dictionary. Ver: “Lucets”.

domingo, 5 de maio de 2019

Estremoz - Surpresas do Mercado das Velharias - 01

O Mercado das Velharias em Estremoz continua a ser um pólo de atracção de turistas naturais e estrangeiros. Se uns o descobrem ocasionalmente, outros são seus frequentadores habituais, à procura de peças para integrar as suas colecções e que por vezes já pré-existiam no seu imaginário. Dou hoje conta de três espécimes que polarizaram a minha atenção e que por isso mesmo adquiri, visto assentarem como uma luva nas minhas colecções.

Prato raso de Estremoz, em barro vermelho vidrado, com 17, 5 cm de diâmetro. 
Prato raso de Estremoz, em barro vermelho vidrado, com 17, 5 cm de diâmetro. 
Comemorativo das Festas à Exaltação da Santa Cruz de 1990. Decorado com motivos
Comemorativo das Festas à Exaltação da Santa Cruz de 1990. Decorado com motivos
florais e tendo no centro, em relevo, a imagem do Senhor Jesus dos Passos de Estremoz,
 obtida a partir do molde em gesso, utilizado pela Olaria Alfacinha nos anos 60 do
séc. XX, na produção de medalhas em barro, comemorativas daquelas Festas.

No parte posterior do prato, a marca manuscrita "Olaria / Alfacinha / Estremoz /
/ Portugal / Joana. De salientar que entre 1987 e 1995 (data do seu encerramento),
a Olaria Alfacinha que anteriormente era propriedade da firma Leonor das Neves da
Conceição Herdeiros, passou para a posse de Rui Barradas e sua mulher Cristina
Barradas. Aí Rui Barradas, barrista e azulejista, produziu louça vidrada de barro
vermelho que era comercializada numa loja de artesanato, propriedade do casal e
situada na Praça Luís de Camões, nº 11, em Estremoz. 

 Pisador em madeira, provavelmente manufactura de arte pastoril. Trata-se de uma
peça bi-funcional onde numa extremidade figura o pisador (pilão) e na outra uma
colher para retirar o pisado do gral. 16 cm de comprimento. 

Púcaro em barro de Estremoz com a particularidade de reunir em si, três tipos de
decoração: empedrado, riscado e picado. Dimensões em cm: 13, 5 (altura), 12 (largura),
5 (diâmetro da base), 5,7 (diâmetro exterior da boca). Embora não apresente marca de
oleiro, o picado (neste caso círculos), permite identificá-lo como exemplar da Olaria
Regional de Mário Lagartinho.

Hernâni Matos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Mercado das velharias



O sábado constitui um ponto alto na semana estremocense. Há mercado, o que se traduz em fluxos consideráveis de forasteiros que vêm até nós, o que tem reflexos muito positivos na economia local. Creio ser interessante analisar aqui alguns aspectos sociológicos do mercado das velharias.

Ainda as bancas estão a ser montadas e já se começam a fazer negócios. Os primeiros compradores são os próprios vendedores, que procuram peças para clientes seus. Por essa hora já por ali andam alguns frequentadores assíduos, como é o meu caso. Procuramos coisas que o imaginário que nos vai na alma nos incita a demandar.
No espaço do mercado das velharias coexistem três fraternidades: 1 - FRATERNIDADE DOS VENDEDORES - Engloba: antiquários, alfarrabistas, ourives, moedeiros, vendedores de roupa antiga, revendedores de recheios de casa, ferro-velhos, etc. Começam a conviver logo no mata-bicho, ainda antes de armarem as bancas. Alguns já se encontraram noutros locais, depois de sábado passado. De qualquer modo, começam logo ali a pôr a escrita em dia. Partem de seguida para a montagem e arrumação das bancas, o que alguns não fazem sozinhos ou porque têm sociedade ou trazem família. É vulgar ouvir exclamações do género: “Vamos lá ver o que é que isto hoje vai dar!”. Cada um deles à sua maneira, é mestre na técnica de vendas. Com ou sem regateio ou com atençõezinhas com os clientes, lá vão fazendo negócio. Cada um deles tem o seu tipo próprio de clientes, o qual procura fidelizar, já que lhe conhece os gostos. Aqueles que têm a melhor mercadoria costumam dizer: “Os meus clientes só aparecem a partir das 11 horas”. A meio da manhã vão todos molhar o bico e alguns continuam conversas interrompidas. Dali partem para dar o seu melhor até ao encerramento do mercado, lá pela uma da tarde. Então, depois de darem contas à vida, lá vão levantando as bancas e encaixotando a mercadoria. É uma tarefa cíclica que faz parte do ofício que uns sempre tiveram e outros tomaram como seu, para reforçarem as pensões de reforma. Alguns e até porque vão para longe, criaram o hábito de almoçar juntos, o que fazem num restaurante vizinho. Não sendo uma classe, os vendedores constituem uma fraternidade que se pode manifestar de maneiras inesperadas, como aconteceu recentemente no funeral dum vendedor em Évora, onde compareceram vendedores de todo o país. 2 - FRATERNIDADE DOS CLIENTES - Os compradores são dos mais diversos. Há aqueles que compram circunstancialmente algo de que gostaram e aqueles que são coleccionadores de objectos de determinada tipologia ou tema. Alguns são simples ajuntadores. Todavia, há aqueles que são recolectores e procuram reunir provas materiais ou imateriais de tempos idos, visando reconstruir essa época, o que muitas vezes conduz à publicação de estudos sobre o assunto. Daí que os coleccionadores constituam uma fonte de informação preciosa para os vendedores, dos quais recebem também ensinamentos. Os clientes constituem também uma fraternidade, pois partilham informação e dão conhecimento uns aos outros de peças que lhe possam interessar. Por vezes também convivem à mesa do café ou restaurante mais próximo. 3 - FRATERNIDADE DOS MIRONES - Há diversos tipos de mirones: - Os que vão visitar as bancas como quem visita um museu, ou não fosse o mercado de velharias um museu generalista desarrumado; - Os que passam pelas bancas para chamar a atenção de amigos ou familiares para determinados objectos. São vulgares conversas do tipo ”Lembras-te José, quando a gente tosquiava ovelhas com tesouras daquelas?” ou então “Sabes uma coisa neto? Quando eu era da tua idade não havia computadores. A gente escrevia numa lousa como aquela, com um lápis de pedra daqueles que ali estão. Era o que a gente tinha.”; - Aqueles que passam pelas bancas para perguntar o preço de determinado objecto, pois lá em casa têm um idêntico que poderão vender. Os vendedores já conhecem o estilo e geralmente respondem: “Esse objecto não tem preço. Não está à venda!”. Os mirones constituem igualmente uma fraternidade, caracterizada por não gastar um cêntimo e que ao serem muitos, podem dar a falsa impressão de o mercado estar forte, quando pode estar mesmo fraco em termos de compras e vendas. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma cigarreira real?



Um artefacto votivo
Sou um velho frequentador da Feira das Velharias, em Estremoz. Tal condição não impede, todavia, que por vezes, me sinta maravilhado face à descoberta de uma peça que me fascina o olhar, extasia a alma e cativa o espírito. Dai que não me reste outra solução, que não seja adquiri-la para a estudar, falar com ela e descobrir o que ela tem para me dizer. Foi o que aconteceu com a bela cigarreira em madeira, recentemente obtida, cuja imagem reproduzo e que sem mais delongas passo a descrever.
Trata-se de uma cigarreira com a forma de um sólido regular oco, constituído por duas partes: o recipiente e a tampa que nele encaixa, qualquer deles de secção elíptica, com eixo maior de 6,3 cm e eixo menor de 2,8 cm. A altura da cigarreira é de 9,8 cm e o seu peso de 76 g. O fundo do recipiente e o topo da tampa são lisos.
É uma extraordinária peça de arte pastoril alentejana, em madeira, finamente lavrada em qualquer das faces. Uma delas está decorada com motivos vegetalistas e ostenta ao centro a coroa real, encimada por quatro trevos de quatro folhas. Tradicionalmente, o trevo de quatro folhas é considerado um poderoso amuleto. Incluir na decoração de um objecto, um trevo de quatro folhas, é formular ao seu proprietário, votos de prosperidade, saúde e fortuna. Há quem considere ainda que cada folha do trevo tem um significado próprio: Esperança, Fé, Amor, Sorte, bem como o número de folhas (4) - representa um ciclo completo, como as 4 Estações, as 4 fases da Lua ou os 4 elementos da Natureza: Ar, Fogo, Terra e Água, conforme a “Teoria dos 4 Elementos” de Aristóteles (384-322 a.C.).
Na outra face observa-se uma dupla cercadura, na qual estão inseridas de cima para baixo, as inscrições ALB (na tampa), 1875 (no recipiente), seguindo-se ainda neste, um sulco quadrangular, onde eventualmente poderá ter existido um embutido. Mais abaixo está aberto um malmequer.
A inscrição ALB corresponderá às iniciais do nome do proprietário e 1875 será o ano de manufactura da cigarreira. Quanto ao malmequer, simboliza em termos florais, o ouro, a prata e o dinheiro, pelo que reforça os votos de fortuna manifestados ao possuidor da cigarreira.

Um rei fumador
Em 1875 ocupava o trono português, Sua Majestade Real El-Rei D. Luís I, O Popular, filho segundo de D. Maria II (1819-1853), A Educadora e de D. Fernando II (1816-1885), O Rei-Artista. Primorosamente educado, D. Luís I tinha temperamento de literato e de artista. O seu reinado notabilizou-se materialmente pelo progresso, socialmente pela paz e pelos sentimentos de convivência, politicamente pelo respeito pelas liberdades públicas, intelectualmente por uma geração notável (Adolfo Coelho, Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Manuel Arriaga, Teófilo Braga, etc.).
D. Luís I, que era fumador, diz em carta de 1862 dirigida a sua esposa a Rainha Dona Maria Pia de Sabóia (1847-1911), A Mãe dos Pobres:
Quando se esteve no mar, quando se viu a morte à frente dos olhos, quando se julga que nunca mais veremos os nossos, o cigarro faz as vezes de amigo e de companheiro, fazendo voar os pensamentos tristes, da mesma maneira que o fumo se agita ao vento. Eu viajei bastante servindo na marinha, da qual encontrarás em mim o carácter bastante desenvolvido. Mas se o marinheiro gosta de fazer viagens, quem ele mais ama é quem o conduz à felicidade. Fui marinheiro e no fundo da minha alma continuo a sê-lo e aprendi que a seguir à tempestade vem o bom tempo, a seguir às infelicidades, a felicidade. A minha única felicidade és tu.
Por essa época, Eça de Queirós (1845-1900), que apelidava D. Luís I, de O Bom, proclamava:
Pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento.
Por sua vez, Cesário Verde (1855-1876), que viria a morrer tuberculoso, inicia o poema “Contrariedades”, confessando:

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente.



Também António Nobre (1867-1900), igualmente vítima da tuberculose pulmonar, se refere ao acto de fumar, no poema “O meu cachimbo”, onde na segunda quadra se interroga:

Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que lá vae,
Quando fumava, ainda criança,
Ás escondidas do meu Pae. 

O tabaco na literatura oral
O adagiário português reprova o uso do tabaco seja sob que forma for:

- Isto é birra: quem toma tabaco, espirra.
- Quem sabe tomar tabaco não suja os dedos.
- Tabaco e aguardentes, transformam os sãos em doentes.
- Vinho, mulheres e tabaco, põem o homem fraco.

O cancioneiro popular alentejano é, contudo, mais benevolente:

O regalo do ganhão
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lho dão,
Fumar do tabaco alheio. (1)

Epílogo
A terminar, não quero deixar de sublinhar que apesar de não estarmos em presença de uma cigarreira real, estamos perante uma cigarreira digna de um rei, dada a riqueza e a beleza dos seus finos lavores.

BIBLIOGRAFIA
(1) - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1910. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Terrina de Estremoz


A barrística popular estremocense causa-nos surpresas a todo o momento. No nosso caso, que não somos propriamente virgens nestas andanças, para além dos “brincos” (brinquedos), conhecíamos apenas uma tríade de peças de grandes dimensões, modeladas na roda e decoradas com as cores garridas dos bonecos de Estremoz. Eram elas: a cantarinha, o pucarinho e o candelabro, nos seus três formatos: pequeno, médio e grande. Todavia a tríade, transformar-se-ia em quaterno, graças à aquisição recente no Mercado das Velharias, em Estremoz, de uma peça com tipologia similar.  Trata-se de uma terrina com tampa e assente num prato. Quer o interior da terrina, quer o da tampa ou o fundo do prato não se encontram pintados, revelando que o conjunto é todo ele, de barro vermelho. Sob o ponto de vista do material, podemos dizer assim que se trata de uma peça de barro vermelho, decorada no exterior. Tecnicamente é uma peça manufacturada no torno e posteriormente submetida a secagem, seguida de decoração com pigmentos minerais, completada por envernizamento. A terrina não se destina assim a desempenhar a usual função de uma terrina, que é a de levar a sopa ou o caldo á mesa da refeição. Trata-se de uma terrina com funções meramente decorativas, a expor numa vitrina, num aparador ou num centro de mesa.
Em termos dimensionais (cm), a peça tem as características que passo a quantificar. Começando pela terrina: altura total – 28,5; altura sem tampa – 17; altura da tampa – 15; diâmetro do fundo – 17,8; diâmetro do bojo – 22,5; diâmetro exterior da abertura – 14; diâmetro interior da abertura – 12,5; diâmetro exterior da tampa – 15. Quanto ao prato: diâmetro exterior da aba – 27; diâmetro do fundo – 18.
No que respeita a peso (g), a peça tem as características seguintes: terrina – 1277g; tampa – 756 g; prato – 1206 g.
Em termos descritivos, trata-se de uma terrina de secção circular com pegas laterais relevadas. Bojo saliente com plissado entre as pegas.  Pé recuado, de inflexão para o exterior. Tampa de encaixe com plissado no bordo, encimada por tufo de folhas donde emergem quatro flores com caule de arame, à semelhança do que acontece nas tampas das cantarinhas e dos pucarinhos. Terrina assente num prato de forma circular, raso, de covo pouco acentuado. 
Quanto à decoração, a parte superior do bojo ostenta fundo azul-turquesa, decorado com motivos florais estilizados, utilizando zarcão, verde bandeira e amarelo. Já a parte inferior do bojo e as asas têm fundo zarcão. Na zona de inflexão do pé, a decoração é vegetalista, estilizada, a verde bandeira. O bojo apresenta um plissado tricolor, semelhante ao das cantarinhas e dos pucarinhos, com fundo amarelo no qual se dispõem paralela e alternadamente, faixas em zarcão e em verde bandeira. A tampa pompeia fundo azul-turquesa, decorado com motivos florais estilizados, utilizando zarcão, verde bandeira e amarelo. O bordo é em zarcão, encimado por plissado semelhante ao do bojo. O tufo de folhas é em verde bandeira. As flores apresentam quatro pétalas em cores diferentes: amarelo, zarcão, azul e verde, qualquer delas pintalgadas. O prato tem fundo azul-turquesa, ornamentado na orla do rebaixo com um filete simples, em zarcão. 
No verso da terrina, encontra-se gravada a marca OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL, com o texto distribuído por três linhas, com as dimensões de 2,5 cm x 4,5 cm. A mesma marca aparece estampada duas vezes no fundo do prato em que se apoia a terrina. Esta marca permite-nos concluir que se trata de uma peça da barrística popular estremocense, manufacturada na Olaria Alfacinha. A nosso ver, aquela marca, de dimensões razoáveis, era usada exclusivamente nas peças de olaria decoradas com as mesmas cores garridas dos bonecos de Estremoz e que como tal não foi contemplada no estudo “Bonecos de Estremoz / Marcas de Autor da Família Alfacinha / 1934-2012”, da autoria de Hugo Guerreiro e dada à estampa nos “Cadernos de Estremoz nº 3, editados pelo Município, em 2012.  
O historial da peça é singelo. Segundo Maria Inácia Fonseca Mateus, uma das Irmãs Flores, estas peças eram fabricadas na Olaria Alfacinha nos anos 60 do século XX e eram decoradas por Maria José Cartaxo, mulher de Caetano da Conceição. Segundo ela não terão sido produzidas muitas peças e lembra-se de ter havido encomendas da Embaixada Inglesa, em Lisboa. Trata-se assim de uma peça decorativa, mais rara que a cantarinha, o pucarinho e o candelabro. Uma peça que dá para arregalar a vista e aquecer o coração.




sábado, 8 de setembro de 2012

Conversa de sexta-feira



Um alentejano que se preze tem que ter um churrião.
Só assim conseguirá dar resposta às suas tradicionais responsabilidades.  


À laia de peregrino que procura conforto para a sua alma desinquieta, sou caminhante das redes sociais, onde propago a minha doutrina. Ontem deu-me para desabafar no Facebook:
- Eu que sou sabadeiro, esta noite não durmo...
E acrescentei logo de seguida:
- Vocês perguntarão: Porquê? Ao que eu responderei: Está-me na massa do sangue.É como sonhar com uma bela mulher que nos desinquieta os sentidos.
As reacções não se fizeram esperar e por ali apareceram os comentários mais diversos de amigas e amigos como Mariarita Balancho, Alice Correia, Carmem Movilha, Jeremias Moura, Manuel Falardo e Maria Isabel Marques. Cada um deles disse o que lhe deu na real gana. Fui então levado a replicar:
- Eu tenho faro. Aquilo que se convencionou chamar o sexto sentido das mulheres. Como predador nato, acho que amanhã é dia de caça grossa. Sinto isso no ar.Depois da caçada, falaremos.
E como estava com a adrenalina toda, continuei:
- Talvez amanhã consiga comprar um churrião para ir ao São Mateus que há-de vir. Há uns anos atrás tinha os vinte contos que o Quintino de Bencatel, que já lá está, me pediu. Não tinha era o sítio para meter a despesa dos vinte contos.
Hoje com um bom arranjinho, tudo se resolve. E já tenho o livrete do churrião que há-de vir. As alimárias virão depois. Decerto que havia de fazer umas belas romarias, com paragens obrigatórias de vez em quando, a fim de eu e as alimárias, bebermos cada um de nós, os respectivos líquidos regeneradores. Satisfeitos, cada um de nós relincharia à sua maneira, que isso é que é a essência da verdadeira democracia. Depois, naturalmente, seguiríamos caminho.
Seguidamente fiz um apelo:
- Dão-se alvíssaras a quem descobrir um churrião disponível no mercado de tracção animal. Se for mulher, a retribuição será um sonoro e repimpado beijo. Se for homem, paga-se com um abraço camarada, seguido de um copo de três, com direito a repetição.
Vejam lá se me ajudam e se não se esquecem de mim!
E terminei com um reconhecido:
- Bem hajam!
Hoje, terminado que é o mercado de sábado, estou inconsolável, porque o meu faro falhou. Constipação ou alergia? Não sei. Apenas sei que não vi nada que me tirasse o fastio. E quanto ao churrião, nem cheiro. Apenas a impertinência acutilante do meu irmão gémeo:
- Hernâni, quem é que te manda a ti, ter adrenalina a mais?

sábado, 11 de agosto de 2012

O primeiro milho é dos pardais

Ganchos de meia em madeira, exemplares de arte pastoril alentejana
(Séc. XX). Da esquerda para a direita: Gancho articulado com uma bolota,
numa peça única (7,1 cm). Gancho articulado com um cesto, igualmente
numa peça única (5,2cm);  Colecção do autor.

O Mercado das Velharias em Estremoz é um dos ex-líbris desta cidade transtagana. Mesmo em períodos sazonais mais fracos, como é caso do mês de Agosto, surpreende-nos pela positiva. E eu que o diga.
Hoje, ainda a manhã era uma menina, pelas sete e vinte nove, recebo no meu computador, uma mensagem enviada via telemóvel, pelo meu amigo Charles. A mensagem tinha dois anexos. Um de imagem, mostrando um curioso exemplar de arte pastoril, mais precisamente uma colher. O outro de texto, com a seguinte mensagem: - Bom dia de compras....hoje valeu a pena.....
- Então vocês não querem lá ver? O Charles queria-me atazanar, porque partiu de manhã cedo para Lisboa, mas antes passou pelo Mercado das Velharias e comprou a colher, porque eu não tinha ainda passado por ali.
Se a minha prima Hifigénia fosse viva, decerto que do cimo da sua cátedra popular, diria ao Charles:
- O primeiro milho é dos pardais.
E eu creio que essa seja uma verdade inescapável. À hora da recepção da mensagem, já eu tinha nas linhas dos meus dedos, quase duas horas de teclado de computador, a minha forma de dedilhar a guitarra portuguesa que me vai na alma. Muitas vezes sou dos primeiros a chegar ao Mercado das Velharias. Hoje não aconteceu assim, porque outros valores mais altos se alevantaram. Eu tinha de escrever, porque se um homem não escreve, acaba por rebentar. Foi assim que fui para o Mercado, já a manhã era uma jovem promissora. E por ali deambulei como sempre, qual alquimista que demanda a pedra filosofal transmuteadora. Por ali sou conhecido e faço parte da mobília. Creio que até sou respeitado e tido como um entendido em várias áreas. Por vezes sou até mesmo consultado e emito opiniões e forneço pistas que se revelam benévolas para vendedores, os quais mais tarde me agradecem a disponibilidade revelada pelo franqueamento desinteressado do vasto arsenal da minha memória de elefante, da minha abastada biblioteca ou das minhas vastas referências bibliográficas. Daí que não seja de estranhar que alguns sejam gentis para comigo, tal como eu sou para com eles. O amor às velharias é isso mesmo: é feito de cumplicidades, de partilha de informação e de emoções que por vezes nos caem fundo na “cacha do pêto”.
Hoje aconteceu que alguém, que eu mentalmente já registara como vendedor de rara sensibilidade, me disse no momento exacto em que cheguei à sua banca:
- Professor, tenho aqui umas peças que decerto serão do seu agrado.
Mostrou-mas e eu perguntei:
- Quanto é?
- Faça o Professor o preço! – Respondeu o vendedor.
- Nem pense nisso! As peças são suas. O Senhor é que tem de lhe atribuir um valor. – Repliquei eu.
- Assim seja. – Respondeu o vendedor, que me propôs um preço mais que razoável. E lá fechámos negócio e decerto reforçámos a nossa amizade, porque prestámos mutuamente um serviço um ao outro. Ele vendeu e eu comprei. Foi um acto de partilha em torno de peças, das quais ambos sabemos o significado, o contexto e a temporalidade, mas perante as quais temos posturas diferentes. Exactamente porque um é vendedor e o outro é comprador.
É chegada a altura de dizer o que comprei. Tratou-se de dois belos ganchos de meia em madeira, exemplares de arte pastoril alentejana (Séc. XX). A sua beleza e delicadeza suplantam a da colher comprada pelo meu madrugador amigo Charles. Parafraseando a minha prima Hifigénia, é caso para lhe dizer:
- O primeiro milho é dos pardais!