sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
O guardador de memórias e o Mercado das Velharias em Estremoz
sábado, 17 de janeiro de 2026
Crispim Serrano, Presente!
Sem querer chover no molhado
sábado, 3 de janeiro de 2026
José Lacerda no Mercado das Velharias em Estremoz
- O meu amigo desculpe. Você
tem estudos. Se não é Doutor tem de ser Engenheiro.
Eu bem lhe dizia que era só Professor
e mais coisa nenhuma, mas não havia maneira de sairmos dali e eu já estava pelos
ajustes. Um dia, disse-lhe:
- “Está o caldo entornado” e “Temos
a burra nas couves”.
Parece que foi remédio santo. A
partir daí, passou a tratar-me por amigo Hernâni e o nosso relacionamento
passou a ser mais natural e saudável.
Fazemos negócio sempre que calha ter
alguma peça que me encha as medidas. Ele já sabe o que me interessa e começa a cantar
alto como se estivesse no Orfeão e eu, naturalmente, faço ouvidos de
mercador. Por outras palavras, esgrimimos. É manha contra artimanha. E lá
fazemos negócio, normalmente pouco silencioso, mas tudo acaba em bem ou em mal.
Depende do ponto de vista. Umas vezes engana-me ele, outras vezes engano-o eu. E já ouvi da boca dele,
aquilo que para mim é encarado como um elogio:
- Amigo Hernâni: Você é mais cigano do que eu.
Ao longo dos tempos, o meu amigo José
Lacerda tem-me vendido arte pastoril, Bonecos de Estremoz, louça de barro
vermelho de Estremoz e louça vidrada de Redondo, tendo com isso contribuído para
a edificação das minhas colecções. É claro que nem sempre compro, pois mesmo
que me interesse, nem sempre é oportuno abrir os cordões à bolsa. É
nessas alturas que ele me diz:
- O meu amigo não se preocupe.
Não precisa de pagar agora. Paga depois.
O que vale é que eu estou
imunizado contra a lábia dele.
José Lacerda é uma figura muito
popular e uma referência no Mercado das Velharias em Estremoz. No terrado que
semanalmente ocupa no Rossio de Estremoz, destaca-se a sua banca bem provida de
chocalhos. Foi esse pormenor, o tema escolhido pelo seu filho Tói Lacerda, para
encomendar um Boneco de Estremoz que representasse o pai no Mercado da Velharias.
A criação da figura deve-se ao barrista José Carlos Rodrigues, a quem felicito
pelo bem conseguido trabalho. Através dele, o cigano José Lacerda ficou
perpetuado na barrística popular estremocense. Basta olhar para o Boneco que se
é levado a dizer:
- Olha o Lacerda!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Os canudos de lume, artefactos de arte pastoril
domingo, 9 de novembro de 2025
Os pisadores, artefactos de arte pastoril
Um pisador é um utensílio
em madeira usado em culinária com recurso a gral ou não e que permite triturar,
moer e misturar substâncias sólidas. É recorrendo a um pisador que se prepara o
piso utilizado na confecção da açorda alentejana, usando sal grosso,
alho, coentros ou poejos.
Os pisadores, artisticamente
trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões
superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 6), constituem graciosos exemplares de
arte pastoril.
sábado, 8 de novembro de 2025
Os esfolhadores, artefactos de arte pastoril
O esfolhador é uma alfaia agrícola usada outrora na cultura do
milho. Trata-se de um artefacto com uma extremidade pontiaguda, manufacturado
em madeira, usado tradicionalmente para descamisar o milho. Os
esfolhadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões
superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 4), constituem belos exemplares de arte pastoril.
A operação de descamisar o milho, realizada após a colheita, consistia
em separar a maçaroca de milho do folhelho, camisa ou carapela,
conjunto de folhas finas e esbranquiçadas que revestem as maçarocas.
Para descamisar o milho, pegava-se manualmente numa maçaroca,
com o esfolhador rasgava-se o folhelho, que depois era afastado da
maçaroca. Seguidamente com uma mão a segurar a maçaroca, dava-se com a outra um
puxão no folhelho, o qual era assim separado daquela.
A operação de descamisar o milho ocorria em ajuntamentos comunitários conhecidos
como descamisadas, desfolhadas ou esfolhadas e tinha lugar
nas eiras em finais de Setembro ou início de Outubro, após a colheita do milho.
As desfolhadas eram tradições comunitárias, actualmente descontinuadas,
que assumiam a forma de festas comunitárias realizadas nas eiras, à noite e ao
luar, em que se socializava, cantando e contando estórias alegres e brejeiras
Depois da desfolhada seguia-se a debulha e, finalmente, o milho
era estendido na eira para seca, até ser armazenado para posterior
consumo.
Hernâni Matos
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Uma singular colher-garfo, artefacto bifuncional de arte pastoril
sábado, 1 de novembro de 2025
A génese da arte pastoril
O Alentejo é terra de vagares. Na
charneca, o tempo cresce e recresce para o pastor de ovelhas. Nesse contexto,
os palpites de alma fazem das suas. Logo um impulso criador detona e pelas
redes neuronais é transmitido às mãos calejadas. Estas manobram com destreza uma
navalha afiada com a qual entalha, grava ou filigrana, o material nativo que
recolheu na Terra Mãe, mesmo ali à mão de semear.
Com a magia dum alquimista, transmuta
a madeira, a cortiça e o chifre, em autênticas Obras de Arte, graças a um nato
saber-fazer, aliado a um refinado bom gosto, pautado por ideias ancestrais que
lhe povoam a mente.
Cruzes, estrelas, flores,
signo-saimões, hexafólios e corações, integram a simbologia, a maioria das
vezes apotropaica ou mesmo sagrada, com que lavra a superfície dos materiais e
que nos transmitem mensagens e estórias codificadas que o artífice compôs,
visando homenagear o destinatário ou a destinatária da sua Obra: a conversada,
a mulher amada, o patrão ou a patroa que lhe asseguram o ganha-pão.
Não se trata, pois, de artefactos
confeccionados para matar o tempo, como alvitra a proclamação rifoneira: “Quem
não tem que fazer, faz colheres”. Pelo contrário, são manufactos criados
graças à generosidade do tempo que cresce e recresce nesta terra de vagares.
sábado, 16 de agosto de 2025
Quando as bilhas de Estremoz se passeavam por Sintra e frequentavam as praias da região

















































