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domingo, 12 de abril de 2026

Armando Alves, um amigo que partiu

 

1 – Armando Alves (1935-2026).

Falar de amigo
O artista plástico e designer gráfico Armando Alves (Fig. 1), natural de Estremoz e figura incontornável da arte contemporânea portuguesa, faleceu no passado dia 31 de Março, em Matosinhos.
Radicado naquela região desde a sua juventude, manteve desde sempre uma forte ligação ao Alentejo e à cidade que o viu nascer. Aqui regressava amiúde ou não fosse o Alentejo o tema central da sua obra.
O Armando, assim o tratava, concedera-me há muito o privilégio da sua amizade e franqueara-me igualmente as portas da sua casa em Estremoz. Sempre que o entendia e sobretudo quando não nos encontrávamos no Café Alentejano, o Armando telefonava-me para aparecer lá por casa (Fig. 2), geralmente para me dar conta de um projecto ou de uma exposição que aí vinha. Era enriquecedor falar com ele. Para além disso, creio que o Armando gostava de falar comigo e tinha apreço pela minha opinião, o que eu naturalmente retribuía.
Num momento que é de dor e de profundo pesar para a Família e para os amigos, entendi ser desajustado falar aqui da sua vida e da sua obra, repetindo o que tem sido publicado nos jornais nos últimos dias, a partir de catálogos das suas muitas exposições e com referências a opiniões de críticos de arte. Seria desconfortável fazê-lo e eu não quero ir por aí. Prefiro dar conta do que foi a minha interacção com o Armando. Essa a forma encontrada de partilhar com a Família e os amigos tudo aquilo que me vai na alma, bem como honrar a sua Memória.

Companheiros de estrada

2 – Hernâni Matos e Armando Alves no atelier deste último em Estremoz, Março de 2013. 

O Armando é da “colheita de 1935” e eu sou da “colheita de 1946”, o que levou o Armando a dizer-me uma certa vez: - “Tu és um rapaz comparado comigo” e tinha razão. O Armando acabou o Curso de Pintura da Escola de Belas Artes do Porto com média de 20 valores em 1962 e entrou logo para Assistente da mesma. Por essa altura eu tinha 16 anos e ainda andava a cabular no Colégio do Mota, em Estremoz. De qualquer modo, já o conhecia da livraria do Aníbal, onde ele tertuliava sempre que vinha do Porto. Eu era um puto do Cine Clube de Estremoz e por ali cirandava, para ouvir os mais velhos falarem de coisas que eu gostava de ouvir.
Um dia deixei der ser puto e tive de ir para a Universidade. A minha escola de vida deixou de ser a livraria do Aníbal e passou a ser a Associação de Estudantes da minha Faculdade. Então passei a encontrar o Armando ainda menos.
Regressado a Estremoz em 1972, passei a intervir activamente nas actividades culturais a nível local, sobretudo a partir dos anos 80 do século passado. É uma altura em que se vai consolidando em mim a imagem do Armando enquanto artista plástico e gráfico, o que me conduz a um elevado apreço pela sua Obra. Apesar disso, os encontros entre nós são casuais, quase sempre no Café Alentejano, local historicamente ligado à sua Família. A partir do novo milénio, os nossos encontros passam a ser mais frequentes e por vezes com grande gáudio meu, o Armando tem a gentileza de me oferecer um catálogo da sua mais recente exposição. Com a criação em 2009 do meu blogue “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, passo a fazer a divulgação das mesmas, o que por vezes também faço na imprensa local. Foi assim que eu, guardador de memórias e contador de estórias, me tornei companheiro de estrada do Armando.

O Armando, Bonequeiro de Estremoz

3 - Armando Alves com a idade de 14 anos.
 Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).

Após me aposentar em 2008, tive acesso ao Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Foi então que descobri que o Armando (Fig. 3), nascido em 1935, entre 1942 a 1945 frequentara a Escola Primária do Castelo, situada no actual edifício do Museu Municipal de Estremoz. De 1946 a 1949, frequentou o Colégio do capitão Grincho e, de 1949 a 1952, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Estremoz, onde teve aulas de oficinas de olaria com Mestre Mariano da Conceição.
Foi no ano lectivo de 1951-52, já com a Escola Industrial e Comercial de Estremoz instalada no Castelo, no local onde hoje funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, que o Armando começou a confeccionar os seus Bonecos de Estremoz.
O trabalho de modelação, cozedura, pintura e envernizamento era feito na própria Escola. O Armando não terá feito mais que 10 modelos de Bonecos: - Figuras que têm a ver com a realidade local: Amazona, Leiteiro, Mulher a vender chouriços e Homem do harmónio; - Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico: Mulher a lavar; - Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas: Ceifeira, Mulher da azeitona, Pastor de tarro e manta, Pastor com um borrego e Pastor do harmónio (Fig. 4).

4 - O Pastor do harmónio criado pelo jovem Armando
no ano lectivo de 1951-52.

Ao todo, não terá manufacturado mais de cinquenta Bonecos, os quais eram comercializados na Papelaria Ruivo, situada no Largo da República, 24, em Estremoz, exactamente um dos locais em que também eram comercializados os Bonecos de Mestre Mariano da Conceição. Fê-lo a pedido da proprietária, a sua tia Joana Ruivo. Cada figura era vendida ao preço de vinte e cinco tostões, enquanto os de Mestre Mariano custavam 12$50.

5 - A marca "Armando" manuscrita, pintada a verde na base do “Pastor do harmónio”.

Mestre Mariano marcava os seus Bonecos, estampando na base a marca ESTREMOZ/PORTUGAL em maiúsculas, distribuídas por duas linhas. Porém, o jovem Armando vai além do Mestre e assina simplesmente “Armando” (Fig. 5), em caracteres manuscritos. Fá-lo a verde, o verde da esperança e das searas que, já doiradas, ondularão mais tarde as suas telas de artista consagrado. Tratou-se então de uma aposta forte, visando o futuro, uma espécie de premonição da Obra que iria construir. Daí a razão de assinar simplesmente “Armando”. Sabem porquê? É simples. Toda a gente sabe quem é o Armando. Pois claro! É um consagrado artista plástico a quem José Saramago prestou tributo, chamando-lhe “Inventor de Céus e Planícies”.
O Armando não fazia ideia de quem eram as pessoas que compravam os seus Bonecos. Todavia, lembra-se da tia uma vez lhe ter dito que uma dessas pessoas era o coleccionador e médico calipolense, Dr. Couto Jardim (1879-1961).

Eu, o Armando e a Colecção Pinto Tavares
Em data que não consigo precisar, comprei ao Alfarrabista António Oliveira, de Évora, o catálogo da Exposição de Barristas Alentejanos realizada em Évora em 1962, onde participou a afamada ex-colecção de Bonecos de Estremoz do Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945), em nome das suas filhas Maria Filipina Avelar e Guilhermina Avelar. Ora eu sabia quem é que tinha sido a herdeira desta última senhora e seria na posse dela que deveria estar a famosa colecção do Tenente-coronel. Todavia, não ousei fazer nenhuma proposta de compra e deixei andar.
Por necessidade, a herdeira vendeu a colecção em 2011 a um comerciante do Mercado das Velharias, que por sua vez a vendeu ao Armando. Trata-se de uma extraordinária colecção de Bonecos de Estremoz de finais do séc. XIX, que me escapou das mãos porque eu cheguei ao Mercado às 8 da manhã e ele tinha chegado mais cedo. Acreditem ou não, fiquei abalado psicologicamente por causa dessa perda e andei doente durante uma semana ou mais. Valeu-me a abertura do Armando que me permitiu fotografar os bonecos, visando o seu estudo posterior.

Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo

6 – Cartaz do II TORNEIO DE BILHAR “ANTÓNIO TELMO” (2014),
da autoria de Armando Alves.

Em 23 e 24 de Agosto de 2014 tiveram lugar em Estremoz, as “Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo”. Tratou-se duma iniciativa do Círculo António Telmo, associação cultural cuja missão é preservar a memória e o legado daquele pensador. As comemorações incluíram o “II Torneio de Bilhar António Telmo” e um almoço, ambos realizados na Sociedade Recreativa Popular Estremocense (Porta Nova), da qual o Armando e o António Telmo eram sócios e onde jogavam ao bilhar, do qual eram praticantes exímios.
Cerca de um mês antes, o Armando encontrou-me, mostrou-me o magnífico cartaz (Fig. 6) que tinha criado para o torneio de bilhar e procurou envolver-me na organização do evento. Disse-lhe que nem era do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova e nem sequer sabia jogar bilhar. Não serviu de nada, porque me deu a volta quando meteu os Bonecos de Estremoz à baila, dizendo:
- “Que dizes a mandarmos fazer um Boneco de Estremoz para servir de troféu a disputar no torneio?’’
Caí que nem um patinho ao responder:
- “A ser criado um Boneco para esse efeito, deveria configurar o António Telmo a jogar o bilhar, de chapéu na cabeça e tudo!
Era o que ele queria ouvir, pelo que me disse mais ou menos isto:
- “Boa ideia! Encarregas-te de o mandar fazer?”
- “Naturalmente que sim e é às Irmãs Flores” – disse eu, acrescentando:
- “Um desenho teu ajudava muito”.
O desenho surgiu ali de imediato, feito enquanto “O diabo esfrega um olho”. Passado 15 dias, o Boneco estava pronto (Fig. 7), feito a 4 mãos, pelas consagradas barristas Irmãs Flores (o jogador de bilhar), pelo seu também consagrado sobrinho Ricardo Fonseca (mesa de bilhar) e pelo próprio Armando (o taco de bilhar em madeira).

7 - Jogador de bilhar (2014). Irmãs Flores (1957, 1958- ) e Ricardo Fonseca (1986- ). 
Composição projectada pelo pintor Armando Alves para servir de troféu em disputa
no II Torneio de Bilhar "António Telmo". Colecção da Sociedade Recreativa Popular
Estremocense (Porta Nova), Estremoz.

O tempo foi passando e cerca de uma semana antes do evento, eu não sabia nada, a não ser que havia um cartaz distribuído e um troféu a atribuir. Como sou dado a minudências, perguntei-lhe:
- “Ouve lá Armando, quem é que vai falar no início da cerimónia?”
Mais valia ter ficado calado, já que a resposta veio de imediato:
- “Conversas é contigo, que eu já fiz o cartaz”.
Estava tudo a correr tão bem, que não seria eu que iria estragar a festa, borrando a escrita. Foi assim que não sendo do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova, nem jogador de bilhar, me coube a incumbência de “botar faladura” no início da cerimónia. Para complicar a coisa e pese embora o respeito e consideração que nutro pela figura do António Telmo, eu era um desconhecedor do pensamento télmico. Que fazer então? Só tinha uma saída: falar de bilhar. Foi o que fiz, assumindo a pele de contador de estórias. Lá gizei um texto a que dei o título “António Telmo e o bilhar”. No dia e à hora aprazada lá estava eu a “soltar o verbo”, acabando por ser aplaudido no final, tanto por télmicos como por bilharistas e ainda por aqueles que não eram nem uma coisa nem outra. Senti-me aliviado, porque tinha conseguido “descalçar a bota” que o Armando me “enfiara no pé”.

Apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”

8 - Mesa da apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, em Dezembro
de 2014. Da esquerda para a direita, Hernâni Matos, Armando Alves e Luís Mourinha.

Em 6 de Dezembro de 2014 fiz a apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, no auditório da Casa de Estremoz (Fig. 8).
A obra, uma colectânea de depoimentos em prosa e em verso, constitui um tributo ao Armando. O livro, publicado pela editora “Modo de Ler”, foi prefaciado por Isabel Pires de Lima e congrega textos de 53 autores, entre os quais Albano Martins, António Simões, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Hernâni Matos, José Saramago, Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Urbano Tavares Rodrigues e Vasco Graça Moura.
A apresentação da obra esteve a meu cargo e contou com a presença de Armando Alves e de Luís Mourinha, Presidente do Município, o qual presidiu ao evento. Foi depois visionado o vídeo “Armando Alves, 60 anos de Pintura”, seguindo-se a leitura de poemas e de textos por Adelaide Glória, Francisca Matos, Odete Ramalho e Zulmira Baleiro.
Na apresentação que fiz do livro, tive a oportunidade de afirmar: “”Escrito na cal e outros lugares poéticos” é um tributo à Obra ímpar de Armando Alves. Não um tributo de medieva vassalagem ao poder de um senhor da terra, mas o reconhecimento e a exaltação da dimensão intelectual daquele a quem outorgamos os títulos de “senhor da luz” e de “príncipe das cores”, e que, com os seus pincéis mágicos, povoa as telas que nos embriagam os sentidos.
Imagens que têm forma, volume, medida, profundidade, cor, textura, contraste, luminosidade e brilho. Telas que têm vida e respiram como nós. Cores que bailam porque ecoa na planície o som ritmado do tocador de harmónio do jovem Armando.
O Armando é um seareiro que desbrava as telas para nelas fazer as suas searas, que de verde se transmutam em oiro. Searas cujo ondular se pressente e se sente com o Suão. Mas o Armando é também o semeador que, com o seu gesto augusto, lança a cor à tela para que dela desponte vida que é pão de espírito para todos nós.”

Capa do meu livro “FRANCO-ATIRADOR”

9 - Capa do livro FRANCO ATIRADOR, de Hernâni Matos, editado em 2012 pela Colibri, com capa da
autoria de Armando Alves.

Em 2017 publiquei através das Edições Colibri, o livro FRANCO-ATIRADOR (Fig. 9), cujo tema central é o exercício da cidadania nos seus múltiplos aspectos por um alentejano de Estremoz, que por sinal sou eu.
O livro tinha que ter uma capa, pelo que eu, zeloso do conteúdo do livro, não queria uma capa qualquer. Ora, é sabido que uma capa do Armando é uma obra de arte. Daí que lhe tenha ido “bater à porta” e pedido para criar a capa, ao que ele acedeu sem hesitação alguma. O resultado é bem conhecido e nela está magistralmente expresso o Alentejo vermelho das terras de barro de Estremoz, gravado não só na sua como na nossa alma e que sob a direcção atenta e calorosa do seu olhar de visionário, as suas mãos sabiam transmitir com mestria a tudo aquilo que fazia. A capa do Armando elevou o livro a uma dimensão superior àquela que já tinha. Fiquei-lhe infinitamente grato por isso.

Grafismo do meu livro “Bonecos de Estremoz”

10 – Livro BONECOS DE ESTREMOZ, de Hernâni Matos, editado em 2018
pela Afrontamento, com grafismo de Armando Alves.

Independentemente do conteúdo textual de uma obra, a sua impressão graças aquilo que em tempos remotos foi adjectivado como “Divina Arte Negra”, não passa de uma floresta mais ou menos densa de caracteres que traduzem aquilo que se passou na alma do autor. É certo que a inserção de imagens quebra a monotonia da floresta textual. Todavia a sua distribuição ao longo do texto não pode ser arbitrária. É preciso um arquitecto paisagista que reestruture a paisagem, que a organize e valorize cromaticamente para deleite visual dos futuros leitores. A gestão do espaço-tempo do livro passa assim pela sua reformulação topológica, conferindo-lhe cor, ritmo, harmonia, beleza, vida e alma. É esse o papel do designer gráfico, que no caso do meu livro “Bonecos de Estremoz” (Fig. 10), editado em 2018 pela Afrontamento, foi o maior de todos eles desde sempre, o Armando. A sua Mestria valorizou muito o livro, o que muito me congratula e honra.
O livro há muito esgotado, é hoje uma preciosidade bibliográfica e uma raridade alfarrabística. Aguarda que alguém com responsabilidades na salvaguarda do Boneco de Estremoz, esteja disponível para patrocinar uma reedição, a qual é do interesse público.

Para ti, Armando
Sei da tua preocupação e mesmo tristeza em teres visto passar o tempo e não veres edificado “in loco” o teu Monumento ao Boneco de Estremoz. Sei mesmo da tua dor, sobretudo pela premência da transmissão do sentido simbólico do Monumento - a celebração e homenagem aos barristas do passado e do presente, aliada à valorização dos barristas do presente, enquanto elemento vivo de Estremoz.
Lamento dizer-te que a concretização da edificação do teu Monumento ao Boneco de Estremoz, tal como diz o povo, “Ficou em águas de bacalhau”, que é o mesmo que dizer “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes!”. Que fazer então? “Ficar à espera do amanhã que há de vir”? E mais não digo, por receio de errar.
Para ti, Armando, um fraternal abraço do Hernâni. Até sempre, amigo!

Publicado em 12 de abril de 2026



Publicado no jornal E, nº 377 de 10 de Abril de 2024


sábado, 17 de janeiro de 2026

Crispim Serrano, Presente!

 

1 - Crispim Serrano, funcionário do Município de Estremoz, figura-chave na
recolha de peças utilizadas nas fainas agro-pastoris concelhias para o Museu
da  Alfaia Agrícola,  nos anos 80 do séc. XX.


“Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”
José Régio in Cântico Negro


Sem querer chover no molhado

Muito se tem falado e escrito a propósito disto e daquilo, das instalações definitivas do chamado Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz.
O debate perde-se na lonjura do tempo, é do domínio público e no decurso dele têm-se revelado opiniões críticas, de carácter piedoso em relação ao Museu e ao público alvo: a Comunidade e aqueles que nos visitam. Algumas delas tresandam a “gato escondido com o rabo de fora”, já que não conseguem disfarçar o fito de nos seus juízos, visarem zurzir o Executivo Municipal em exercício, o que já aconteceu sucessivamente com edilidades de diferentes colorações ideológicas.
Muitas das vezes as divergências não são mais que meros reflexos de caganifâncias resultantes de diferentes orientações metodológicas em termos de musealização ou necessidade de protagonismo dos seus fautores. Para além disso, são a assunção da ignorância flagrante duma verdade culinária clássica e de um provérbio tradicional português “Não se fazem omeletes sem ovos”. E no caso do Museu da Alfaia Agrícola, os ovos têm a ver com prioridades, oportunidades, projectos e financiamento.

Palavras do Presidente do Município
Em depoimento prestado ao jornal E e publicado no número anterior, o Presidente do Município, José Sadio deu conhecimento de dois factos relevantes: 1) Avançará em breve a aquisição do imóvel destinado às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola, uma vez que se encontram reunidas as condições necessárias para o fazer; 2) Está a ser desenvolvido internamente um novo Projecto de Musealização para o futuro espaço, o qual vai ser submetido a candidatura, visando o respectivo financiamento (*1).
Os meus parabéns ao Município na pessoa do seu Presidente, uma vez que a missão a que se propôs está em vias de ser concluída.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Desconheço inteiramente a designação que vai ser atribuída ao chamado “Museu da Alfaia Agrícola” nas suas futuras instalações. Há muitas hipóteses, das quais respigo algumas: Museu da Alfaia Agrícola, Museu Rural, Museu da Lavoura, Museu da Agricultura, Centro Interpretativo do Mundo Rural, Centro Interpretativo da Ruralidade, etc.
Outras designações haverá certamente. Caberá ao Executivo Municipal escolher aquela que melhor se ajuste à filosofia do Projecto subjacente às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola.
Para além disso, atrevo-me a sugerir ao Executivo Municipal que vá mais além. Vejamos porquê. É sabido que o Museu Municipal de Estremoz criado em 1880, foi transferido para as actuais instalações em 1972. Desde os anos 70 do século passado que o Professor Joaquim Vermelho desenvolveu uma actividade cultural intensa na Biblioteca e no Museu Municipal, sobejamente reconhecida pela Comunidade e fora dela. Daí que em 1 de Março de 2003, o Município de Estremoz o tenha homenageado postumamente, atribuindo ao Museu Municipal de Estremoz a designação “Professor Joaquim Vermelho”. Tratou-se de uma iniciativa inteiramente justa, reconhecida e aplaudida pela Comunidade, que via nele o “Pai” do Museu Municipal de Estremoz. É que “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”, como no diz José Régio no “Cântico Negro” e no caso do Museu Municipal de Estremoz, o “Pai” foi o Professor Joaquim Vermelho.

2 - Exposição de Maquinaria e Alfaias Agrícolas no decurso da III Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz, entre 25 e 28 de Julho de 1985.

E no caso do “Museu da Alfaia Agrícola”?
No caso do Museu da Alfaia Agrícola ou outra designação que venha a ser adoptada pelo Município, atrevo-me a propor ao Executivo Municipal, que lhe seja adicionada a designação “Crispim Serrano” (Fig. 1), pois foi ele o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Vejamos porquê.
Crispim Serrano, foi um camponês de rija tempera, daqueles que “comeram o pão que o diabo amassou” e trabalharam de sol a sol, a troco de pouco mais de coisa nenhuma, nas múltiplas tarefas sazonais que constituíam o dia a dia das herdades alentejanas. Conhecia como poucos as alfaias agrícolas e o seu modo de utilização, por ter trabalhado com elas mais os seus companheiros. Conhecia as estórias de vida de abegões que as confeccionaram e estórias de vida de homens como ele, que a soldo dos donos das terras e em condições a maioria das vezes adversas, tinham a seu cargo a nobre missão de assegurar a produção de bens pela Terra-Mãe, os quais iriam garantir a prosperidade do patrão e simultaneamente assegurar o seu ganha-pão.
Crispim Serrano tinha consciência da importância das alfaias agrícolas como registo dum passado que se estava a esvair e da importância das mesmas na elaboração de uma memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns, a transmitir às novas gerações.
Na qualidade de encarregado de pessoal, liderou uma equipa de funcionários do Município que a partir de 1983 e sob sua orientação começou a recolher alfaias agrícolas por cedências, empréstimos ou depósitos postos à disposição do Município e recolhidas nas Casas Agrícolas do Concelho. Nalguns casos, as peças recolhidas encontravam-se já em condições limite, abandonadas em telheiros, ao ar livre e mesmo em lixeiras, ao sabor das intempéries, correndo o risco de as ferragens serem corroídas pela ferrugem e as madeiras apodrecerem com a chuva e a humidade ou serem recolhidas para serem utilizadas como material de combustão.
A importância da recolha liderada por Crispim Serrano é incomensurável. A sua origem e passado camponês permitiram-lhe acumular ao longo do tempo, um valioso acervo de saberes, talentos e competências que se revelaram inestimáveis na recolha que liderou. Ele conhecia como ninguém, a área geográfica de cada freguesia, bem como a localização das peças que era importante recolher, tendo em conta a sua singularidade e a valorização que davam ao conjunto recolhido.
Os frutos da recolha então efectuada viriam a ser objecto de recuperação, limpeza e conservação em armazéns do Município situados na Horta do Quiton, em Estremoz, o que foi feito por funcionários do Município liderados igualmente por Crispim Serrano (*2). Da Horta do Quiton saíram cerca de 4000 peças utilizadas nas fainas agro-pastoris do concelho, as quais vieram a incorporar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola, primitivamente instalado em 1987 no edifício da Antiga Fábrica de Moagem e Electricidade na Rua Serpa Pinto, em Estremoz. Nos seus primórdios o Museu seria gerido pela chamada “Comissão da Alfaia Agrícola”, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho e dependente da CME.
Antes da sua integração no Museu da Alfaia Agrícola, algumas dessas peças já tinham participado em exposições associadas aos seguintes eventos: Festas da Exaltação da Santa Cruz em 1983 e 1984, bem como na III, IV e V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, realizadas respectivamente em 1985 (Fig. 2), 1986 e 1987. Neste último ano, a V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz integrou pela primeira vez a I FIAPE - Feira Internacional Agro-Pecuária e de Artesanato de Estremoz. Foi no decurso desta última que ocorreu a maior exposição de material agrícola que reuniu cerca de 4000 peças que posteriormente viriam a constituir o acervo do Museu da Alfaia Agrícola.

O “Pai” Crispim Serrano
Julgo ter ficado demonstrado duma forma insofismável a extraordinária importância que Crispim Serrano teve como recolector de peças das fainas agro-pastoris concelhias que viriam a integrar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola. Ele está indubitavelmente na génese deste Museu, o qual não existiria sem ele. Creio sinceramente que Crispim Serrano pode muito legitimamente ser considerado o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Daí que eu proponha ao Executivo Municipal que em sua homenagem, ao nome do Museu seja adicionada a designação “Crispim Serrano”. Será um tributo póstumo da Comunidade, prestado como reconhecimento que lhe é devido pelo mérito demonstrado com o seu contributo para a elaboração de uma memória colectiva de âmbito concelhio. É, de resto, um jeito belo e elegante de a Comunidade proclamar que ele permanece vivo na memória colectiva que ajudou a construir:
- CRISPIM SERRANO, PRESENTE!

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(*1) – De acordo com o que consegui apurar o financiamento será concretizado através do programa ARI (Autorização de Residência para Investimento), o qual financia projectos museológicos através da vertente de apoio ao património cultural, permitindo que investidores estrangeiros façam um donativo mínimo para a recuperação, restauro ou manutenção de museus e monumentos, com aprovação prévia do GEPAC (Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais), serviço integrado da administração directa do Estado português, que actua na área governativa da Cultura e que concede autorização de residência em troca do investimento cultural.
(*2) – Na época assisti de perto à recuperação de muitas dessas peças na Horta do Quiton, a qual frequentava desde a minha infância, já que nasci ali bem perto, no nº 14 do Largo do Espírito Santo. Envolvido em actividades culturais patrocinadas pelo Município de Estremoz, interactuei inúmeras vezes com Crispim Serrano, o qual me concedeu o privilégio da sua amizade.

Hernâni Matos
Publicado em 17 de Janeiro de 2026
Publicado no jornal E, nº 371 de 16-01-2026

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS - Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os canudos de lume, artefactos de arte pastoril

 

 Fig.1 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no  sentido do
comprimento. Tricromia verde – vermelho – preto.  60,5 cm x 3 cm.

Canudos de lume
da Colecção Hernâni Matos

À lareira, no Alentejo de outros tempos
No Alentejo de antanho, quando chegava o Inverno seroava-se à lareira, o que era prática corrente, tanto na casa dos camponeses como dos senhores da terra. As noites eram longas e o frio era de rachar, sobretudo nas casas dos pobres, menos confortáveis, muitas vezes com telhados de telha-vã [i] e pavimentos que eram de tijoleira e muitas vezes de laje de xisto.
O lume que crepitava frente às “bonecas”[ii] aquecia os membros da família sentados num “mocho”[iii] ou num “burro”[iv]. Simultaneamente, o fumo ascendente da lareira ia curar os enchidos do fumeiro suspensos de traves no interior da chaminé. Isto, é claro, se a família era daquelas que tinham posses para fazer a “matança do porco”, o que não constituía regra geral, nem lá perto.
Era à volta da lareira que a família fazia o balanço desse dia, se falavam dos planos para o dia seguinte, se evocavam aqueles que já tinham partido e os mais velhos davam conselhos aos mais novos. Era também à lareira que para “passar o tempo”, era transmitida de pais para filhos, a rica tradição oral que integra a matriz da nossa identidade cultural: estórias, cancioneiro popular, adivinhas, provérbios, lengalengas, rezas, etc.

Os canudos de lume
À medida que o tempo passava, a lenha ia sendo consumida e o lume ficava mais fraco. Tornava-se necessário reavivá-lo, acrescentando mais lenha ou/e atiçando o fogo, o que se conseguia utilizando o “canudo de lume”.
Este é um utensílio tradicional de forma tubular, utilizado como soprador de lume, o qual permite direccionar o ar para as brasas ou para a lenha, visando avivar o fogo. Para tal, o utilizador sopra na extremidade do orifício mais largo, saindo o ar pela extremidade oposta com o orifício mais estreito, em direcção ao lume.
O canudo de lume pode ser de metal, de madeira ou de cana, perfuradas. Nestes dois últimos casos, a superfície dos canudos de lume pode se encontrar finamente trabalhada e decorada, o que torna os canudos de lume, artefactos de arte pastoril.


Hernâni Matos


[i] O telhado de telha-vã era um tipo de cobertura em que as telhas de canudo (telhas mouriscas) de barro eram aplicadas directamente sobre a estrutura de suporte (barrotes e ripas de madeira), sem a instalação de qualquer forro por baixo.
Este tipo de cobertura favorecia a ventilação natural do espaço situado abaixo, o que era benéfico no Verão mas péssimo no Inverno, além de que oferecia fraco isolamento acústico, o que constituía um enorme inconveniente em períodos de ventania.
[ii] Ornamento interior das chaminés.
[iii] Banco baixo, confeccionado em madeira e com travessas para fortalecer os pés, empalhado em buinho.
[iv] Também designado por “tripeça”, já que é um assento de três pés e sem encosto, confeccionado toscamente, a partir de tronco de sobreiro ou de azinho.


Fig. 2 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
Pentacromia verde – vermelho – azul – amarelo – laranja. 60,5 cm x 3 cm.

Fig. 3 – João Catarino (Orada). Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
81 cm x 2,5 cm.

Fig. 4 – João Catarino (Orada - Borba). Incisões em baixo relevo sobre cana.
Decorado com motivos geométricos distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 87 cm x 2,5 cm.

Fig. 5 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Heptacromia verde – vermelho – azul – amarelo – rosa - lilás – preto. 
69 cm x 2 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 6 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 53,5 cm x 2.5 cm.

Fig. 7 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos florais que se distribuem no sentido do comprimento.
66,5 cm x 2 cm.

Fig. 8 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos que se distribuem
no sentido do comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene.
69 cm x 1,9 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 9 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos e florais distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene. 65,5 cm x 2,2 cm.
A extremidade da saída do ar termina em bisel.

Fig. 10 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira
Decorado com motivos geométricos, florais, zoomórficos e antropomórficos distribuídos
por faixas no sentido do comprimento. A decoração com motivos zoomórficos e
antropomórficas recorre a excrescências da madeira. 74 cm x 3 cm.
Mais estreito numa das extremidades que na outra.

domingo, 9 de novembro de 2025

Os pisadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Pisador. Colecção Hernâni Matos.


Um pisador é um utensílio em madeira usado em culinária com recurso a gral ou não e que permite triturar, moer e misturar substâncias sólidas. É recorrendo a um pisador que se prepara o piso utilizado na confecção da açorda alentejana, usando sal grosso, alho, coentros ou poejos.

Os pisadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 6), constituem graciosos exemplares de arte pastoril.

 Hernâni Matos


2. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

3. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

4. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

5. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

6. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

sábado, 8 de novembro de 2025

Os esfolhadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

O esfolhador é uma alfaia agrícola usada outrora na cultura do milho. Trata-se de um artefacto com uma extremidade pontiaguda, manufacturado em madeira, usado tradicionalmente para descamisar o milho. Os esfolhadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 4), constituem belos exemplares de arte pastoril.

A operação de descamisar o milho, realizada após a colheita, consistia em separar a maçaroca de milho do folhelho, camisa ou carapela, conjunto de folhas finas e esbranquiçadas que revestem as maçarocas.

Para descamisar o milho, pegava-se manualmente numa maçaroca, com o esfolhador rasgava-se o folhelho, que depois era afastado da maçaroca. Seguidamente com uma mão a segurar a maçaroca, dava-se com a outra um puxão no folhelho, o qual era assim separado daquela.

A operação de descamisar o milho ocorria em ajuntamentos comunitários conhecidos como descamisadas, desfolhadas ou esfolhadas e tinha lugar nas eiras em finais de Setembro ou início de Outubro, após a colheita do milho.

As desfolhadas eram tradições comunitárias, actualmente descontinuadas, que assumiam a forma de festas comunitárias realizadas nas eiras, à noite e ao luar, em que se socializava, cantando e contando estórias alegres e brejeiras

Depois da desfolhada seguia-se a debulha e, finalmente, o milho era estendido na eira para seca, até ser armazenado para posterior consumo.

Hernâni Matos

2. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

3. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

4. Esfolhador. Colecção Hernâni Matos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Uma singular colher-garfo, artefacto bifuncional de arte pastoril

 

1.

A Cristina Carvalho que me cedeu
o exemplar de arte pastoril
que foi objecto do presente estudo

Prólogo
O artefacto em madeira que é objecto do presente estudo (fig. 1), configura ser uma colher articulada constituída por duas partes: uma concha ovóide lisa (fig.2) e uma tampa plana de perfil ovóide (fig. 3), com decoração incisa no interior (fig. 4) e no exterior (fig. 5).

Decoração incisa no interior da tampa
O simbolismo da decoração incisa global passa pelo simbolismo do coração transpassado por uma seta e pelo simbolismo da Cruz de Cristo (fig. 4)
O elemento central da decoração incisa é a Cruz de Cristo ou Cruz de Portugal, com os braços verticais e horizontais proporcionais, formando um quadrado. Simboliza a religiosidade cristã e foi usada pelos Templários durante as cruzadas (sécs. XI-XIII) e pelos navios portugueses no decurso das expedições na época das descobertas marítimas (sécs. XV-XVI).
O coração transpassado por uma seta simboliza o amor romântico, a paixão, o ser "atingido" pelo amor. A presença de dois corações em posições anti-simétricas um em relação ao outro, significa que a força do amor em cada um deles actua em direcção oposta à do outro, mas com igual intensidade. Estamos, pois em presença da representação de um afecto profundo e da ligação entre dois corações e duas almas, um homem e uma mulher, a quem a colher é oferecida.
Os dois corações trespassados pelas setas têm a Cruz de Cristo a liga-los entre si, o que traduz a condição cristã do homem e da mulher apaixonados, bem como o compromisso de um casamento cristão a selar a união entre ambos.

Decoração incisa no exterior da tampa
À primeira vista parece que o exterior da tampa plana da colher (fig. 5) tem uma decoração incisa cuja componente dominante é um garfo. Todavia uma observação mais atenta revela que aquilo que na tampa configura ser a representação incisa de um garfo, é mesmo um garfo articulado (fig. 6), cuja articulação é coaxial com a colher e com a respectiva tampa. Esta foi escavada em baixo relevo no seu exterior, visando permitir o encaixe do garfo quando este não está a ser utilizado.

Epílogo
Uma análise mais atenta do artefacto que era objecto de estudo revelou que aquilo que inicialmente configurava ser um artefacto monofuncional (colher), revelou ser afinal um artefacto bifuncional (colher-garfo). Lá diz o rifão "As aparências iludem”, o que é equivalente a dizer que “Nem tudo o que parece é", bem como ainda “As coisas não são como são, mas como a gente as vê".

Hernâni Matos


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