sábado, 13 de julho de 2019

Auto da Alma


Cirurgia, um caso grave no hospital (1981). Louis Toffoli (1907-1999).
Óleo sobre tela. (114 x 162 cm). Musée Toffoli Charenton-le-Pont, France.
  

ADVERTÊNCIA AO LEITOR
Para que não haja confusões de tipo algum, fica o leitor avisado de que este “Auto da Alma” não é da lavra do beirão Gil Vicente, poeta e ourives, mas do alentejano Hernâni Matos, escritor, jornalista e blogger.

ENREDO
O enredo do auto desenrola-se na actualidade, em quatro locais distintos:
HOSPITAL - Instituição onde se tratam doentes e onde umas vezes se salvam vidas e outras vezes não.
CÉU – Morada do Senhor e dos anjos, para onde vão as almas dos bem-aventurados, na sequência de se terem separado do corpo após a morte.
INFERNO - Destino da alma humana daqueles que em vida assumiram condutas condenadas pela Igreja e que por isso ali sofrem castigo eterno, supliciados com o fogo por Satanás e pelos diabos menores.
PURGATÓRIO - Local em que as almas daqueles que morrem em estado de graça, mas que ainda são imperfeitas, são preparadas através do fogo purificador para poderem ascender ao céu.
O auto envolve 5 personagens, assim caracterizados:
ALGUÉM - Anestesista de serviço no Hospital.
ALMA - a do paciente submetido a intervenção cirúrgica.
SÃO PEDRO - Barbado e com pele crestada pelo sol da Galileia. Vestido de apóstolo e com um molho de chaves à cinta. Desempenha as funções de porteiro do céu e é robusto, para impedir a intrusão de almas indesejadas.
SATANÁS – Nu, peludo e com a pele avermelhada pelo calor do Inferno. Como anjo caído em desgraça, mantém as asas. Para torturar melhor os condenados ao fogo do Inferno, dispõe de cornos na cabeça, mãos com garras e cascos como um bode.  
CENA I
Após intervenção cirúrgica complexa e demorada, algo corre mal na sala de recobro do Hospital. Ouve-se então Alguém gritar:
- Acabamos de o perder!
A sala de recobro torna-se então num pandemónio, com o pessoal clínico a entrar em parafuso.
CENA II
O corpo do paciente torna-se instável e é abandonado pela alma que, de consciência tranquila se dirige para o céu, porque julga ingenuamente que é esse o seu caminho.
Atingida uma das portas do céu, o acesso é-lhe vedado por São Pedro, que lhe diz:
- Não pode entrar, Irmão!
Espantada, a alma pergunta:
- Então porquê, São Pedro?
A resposta do Santo foi imediata:
- Antes do Irmão aqui chegar, já o Senhor me tinha informado do sucedido lá em baixo. Alertou-me também para o facto de o Irmão não reunir os requisitos necessários para aqui entrar. Consultei então os Santos Registos, nos quais consta que o Irmão foi uma pessoa de bem, respeitador das crenças do próximo e que colaborou com as obras sociais da Igreja. Todavia, a nível de sacramentos isto está muito mal. Confirmei que o Irmão foi baptizado, recebeu o crisma, fez a 1ª comunhão e a comunhão solene e chegou a ensinar doutrina aos mais novos. Todavia, aí pelos 12 anos, deixou de se confessar e de comungar, assim como de frequentar a Igreja. Mais tarde, casou-se apenas pelo registo civil e divorciou-se, vindo a reincidir, ao casar novamente pelo civil. Mais recentemente, o Irmão só frequentava a Igreja para casamentos, baptizados e missas por defuntos. Como vê Irmão, nada disto abona a seu favor. 
Pesarosa, a alma prepara-se para replicar, mas São Pedro é peremptório:
- A lei do Senhor é para cumprir e não pode haver desvios. Foi por a fazer cumprir que passei de pescador a apóstolo, me tornei o 1.º Bispo de Roma e o 1.º Papa. Foi por a fazer cumprir que me tornei Mártir e agora sou porteiro do céu. 
Convencida que dali não leva nada, a alma despede-se, dizendo:
- Assim seja. Terei de procurar outro caminho.
CENA III
Depois de ver recusada a sua entrada no céu, a alma entra em depressão e dirige-se para o Inferno, onde julga que será o seu lugar. Numa das entradas encontra-se Satanás que, ao vê-la, dispara à queima-roupa: 
- Onde pensas que vais? Tira o cavalinho da chuva que aqui não tens cabidela. Era o que faltava!
Incrédula, a alma questiona: 
- Palavra de honra que não estou a perceber nada disto. Não me quiseram lá em cima e agora não me querem cá em baixo?
Resposta de Satanás:
Lá em cima é lá com eles, cá em baixo é comigo. E sempre te digo que é preciso descaramento para fazer de mim parvo e procurar cá entrar.
A alma que gosta de conhecer as linhas com que a cosem, insiste e questiona:
- Mas porquê?
Satanás responde de imediato:
- Em 1.º lugar, porque foste baptizado, recebeste o crisma, fizeste a 1.ª comunhão e a comunhão solene e chegaste mesmo a ensinar doutrina aos mais novos. Apesar de não te confessares e de comungar desde os 12 anos, ainda frequentavas a Igreja para casamentos, baptizados e missas por defuntos. Para além disso foste uma pessoa de bem, respeitador das crenças dos outros e que colaborou com as obras sociais da Igreja. Como estás a ver, tudo isto é contra ti. Mas há mais!   
Em 2.º lugar, tiveste preocupações sociais e lutaste por elas. Mas o mais grave de tudo é que fizeste parte da trupe da Catarina Martins, que defende a igualdade a todos os níveis e quer que os ricos paguem a crise. E isso não posso tolerar, já que os ricos constituem a maioria residente no Inferno, pelo que me cabe a mim zelar pelos seus interesses, mesmo depois de mortos.
Em terceiro lugar e por aquilo que conheço de ti, eras capaz de sabotar o fogo dos caldeirões, fomentar a greve entre os diabos menores e virá-los mesmo contra mim. Até eras capaz de me serrar os cornos, aproveitando alguma distracção minha ou quando estivesse a dormir.
Por isso, põe-te na alheta!
E a alma assim fez.
CENA IV
Mais pesarosa que antes, a alma dirige-se para o Purgatório, a ver se ao menos consegue ingressar ali. Com grande surpresa sua, logo à entrada vê um cartaz que diz: ENCERRADO POR FALTA DE HÓSPEDES. Para onde ir então?
CENA V
Na sala de recobro do hospital, após porfiados esforços do pessoal clínico, o paciente regressa à vida. Alguém exclama:
- Já cá o temos outra vez!
Nesse preciso momento, a alma regressa ao corpo. Terminara a sua peregrinação por territórios de rejeição. Já não era a mesma. Tinha muito que contar. Agora o seu lugar era ali, para o que desse e viesse.
MORAL DO AUTO
Preso por ter cão e preso por não ter.

Hernâni Matos

 São Pedro (Entre 1610 e 1612) . Peter Paul Rubens  (1577–1640). Óleo sobre
tela (107 x 82 cm). Museo del Prado, Madrid.

 O Inferno (c. 1510-1520). Mestre português desconhecido. Óleo sobre madeira
de carvalho (119 x 217,5 cm). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Um anjo salva as almas do purgatório (c. 1610). Lodovico Carraci (1555-1619).
Óleo sobre tela (44 x 51 cm). Pinacoteca, Vaticano.

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