sábado, 17 de janeiro de 2026

Crispim Serrano, Presente!

 

1 - Crispim Serrano, funcionário do Município de Estremoz, figura-chave na
recolha de peças utilizadas nas fainas agro-pastoris concelhias para o Museu
da  Alfaia Agrícola,  nos anos 80 do séc. XX.


“Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”
José Régio in Cântico Negro


Sem querer chover no molhado

Muito se tem falado e escrito a propósito disto e daquilo, das instalações definitivas do chamado Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz.
O debate perde-se na lonjura do tempo, é do domínio público e no decurso dele têm-se revelado opiniões críticas, de carácter piedoso em relação ao Museu e ao público alvo: a Comunidade e aqueles que nos visitam. Algumas delas tresandam a “gato escondido com o rabo de fora”, já que não conseguem disfarçar o fito de nos seus juízos, visarem zurzir o Executivo Municipal em exercício, o que já aconteceu sucessivamente com edilidades de diferentes colorações ideológicas.
Muitas das vezes as divergências não são mais que meros reflexos de caganifâncias resultantes de diferentes orientações metodológicas em termos de musealização ou necessidade de protagonismo dos seus fautores. Para além disso, são a assunção da ignorância flagrante duma verdade culinária clássica e de um provérbio tradicional português “Não se fazem omeletes sem ovos”. E no caso do Museu da Alfaia Agrícola, os ovos têm a ver com prioridades, oportunidades, projectos e financiamento.

Palavras do Presidente do Município
Em depoimento prestado ao jornal E e publicado no número anterior, o Presidente do Município, José Sadio deu conhecimento de dois factos relevantes: 1) Avançará em breve a aquisição do imóvel destinado às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola, uma vez que se encontram reunidas as condições necessárias para o fazer; 2) Está a ser desenvolvido internamente um novo Projecto de Musealização para o futuro espaço, o qual vai ser submetido a candidatura, visando o respectivo financiamento (*1).
Os meus parabéns ao Município na pessoa do seu Presidente, uma vez que a missão a que se propôs está em vias de ser concluída.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Desconheço inteiramente a designação que vai ser atribuída ao chamado “Museu da Alfaia Agrícola” nas suas futuras instalações. Há muitas hipóteses, das quais respigo algumas: Museu da Alfaia Agrícola, Museu Rural, Museu da Lavoura, Museu da Agricultura, Centro Interpretativo do Mundo Rural, Centro Interpretativo da Ruralidade, etc.
Outras designações haverá certamente. Caberá ao Executivo Municipal escolher aquela que melhor se ajuste à filosofia do Projecto subjacente às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola.
Para além disso, atrevo-me a sugerir ao Executivo Municipal que vá mais além. Vejamos porquê. É sabido que o Museu Municipal de Estremoz criado em 1880, foi transferido para as actuais instalações em 1972. Desde os anos 70 do século passado que o Professor Joaquim Vermelho desenvolveu uma actividade cultural intensa na Biblioteca e no Museu Municipal, sobejamente reconhecida pela Comunidade e fora dela. Daí que em 1 de Março de 2003, o Município de Estremoz o tenha homenageado postumamente, atribuindo ao Museu Municipal de Estremoz a designação “Professor Joaquim Vermelho”. Tratou-se de uma iniciativa inteiramente justa, reconhecida e aplaudida pela Comunidade, que via nele o “Pai” do Museu Municipal de Estremoz. É que “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”, como no diz José Régio no “Cântico Negro” e no caso do Museu Municipal de Estremoz, o “Pai” foi o Professor Joaquim Vermelho.

2 - Exposição de Maquinaria e Alfaias Agrícolas no decurso da III Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz, entre 25 e 28 de Julho de 1985.

E no caso do “Museu da Alfaia Agrícola”?
No caso do Museu da Alfaia Agrícola ou outra designação que venha a ser adoptada pelo Município, atrevo-me a propor ao Executivo Municipal, que lhe seja adicionada a designação “Crispim Serrano” (Fig. 1), pois foi ele o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Vejamos porquê.
Crispim Serrano, foi um camponês de rija tempera, daqueles que “comeram o pão que o diabo amassou” e trabalharam de sol a sol, a troco de pouco mais de coisa nenhuma, nas múltiplas tarefas sazonais que constituíam o dia a dia das herdades alentejanas. Conhecia como poucos as alfaias agrícolas e o seu modo de utilização, por ter trabalhado com elas mais os seus companheiros. Conhecia as estórias de vida de abegões que as confeccionaram e estórias de vida de homens como ele, que a soldo dos donos das terras e em condições a maioria das vezes adversas, tinham a seu cargo a nobre missão de assegurar a produção de bens pela Terra-Mãe, os quais iriam garantir a prosperidade do patrão e simultaneamente assegurar o seu ganha-pão.
Crispim Serrano tinha consciência da importância das alfaias agrícolas como registo dum passado que se estava a esvair e da importância das mesmas na elaboração de uma memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns, a transmitir às novas gerações.
Na qualidade de encarregado de pessoal, liderou uma equipa de funcionários do Município que a partir de 1983 e sob sua orientação começou a recolher alfaias agrícolas por cedências, empréstimos ou depósitos postos à disposição do Município e recolhidas nas Casas Agrícolas do Concelho. Nalguns casos, as peças recolhidas encontravam-se já em condições limite, abandonadas em telheiros, ao ar livre e mesmo em lixeiras, ao sabor das intempéries, correndo o risco de as ferragens serem corroídas pela ferrugem e as madeiras apodrecerem com a chuva e a humidade ou serem recolhidas para serem utilizadas como material de combustão.
A importância da recolha liderada por Crispim Serrano é incomensurável. A sua origem e passado camponês permitiram-lhe acumular ao longo do tempo, um valioso acervo de saberes, talentos e competências que se revelaram inestimáveis na recolha que liderou. Ele conhecia como ninguém, a área geográfica de cada freguesia, bem como a localização das peças que era importante recolher, tendo em conta a sua singularidade e a valorização que davam ao conjunto recolhido.
Os frutos da recolha então efectuada viriam a ser objecto de recuperação, limpeza e conservação em armazéns do Município situados na Horta do Quiton, em Estremoz, o que foi feito por funcionários do Município liderados igualmente por Crispim Serrano (*2). Da Horta do Quiton saíram cerca de 4000 peças utilizadas nas fainas agro-pastoris do concelho, as quais vieram a incorporar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola, primitivamente instalado em 1987 no edifício da Antiga Fábrica de Moagem e Electricidade na Rua Serpa Pinto, em Estremoz. Nos seus primórdios o Museu seria gerido pela chamada “Comissão da Alfaia Agrícola”, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho e dependente da CME.
Antes da sua integração no Museu da Alfaia Agrícola, algumas dessas peças já tinham participado em exposições associadas aos seguintes eventos: Festas da Exaltação da Santa Cruz em 1983 e 1984, bem como na III, IV e V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, realizadas respectivamente em 1985 (Fig. 2), 1986 e 1987. Neste último ano, a V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz integrou pela primeira vez a I FIAPE - Feira Internacional Agro-Pecuária e de Artesanato de Estremoz. Foi no decurso desta última que ocorreu a maior exposição de material agrícola que reuniu cerca de 4000 peças que posteriormente viriam a constituir o acervo do Museu da Alfaia Agrícola.

O “Pai” Crispim Serrano
Julgo ter ficado demonstrado duma forma insofismável a extraordinária importância que Crispim Serrano teve como recolector de peças das fainas agro-pastoris concelhias que viriam a integrar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola. Ele está indubitavelmente na génese deste Museu, o qual não existiria sem ele. Creio sinceramente que Crispim Serrano pode muito legitimamente ser considerado o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Daí que eu proponha ao Executivo Municipal que em sua homenagem, ao nome do Museu seja adicionada a designação “Crispim Serrano”. Será um tributo póstumo da Comunidade, prestado como reconhecimento que lhe é devido pelo mérito demonstrado com o seu contributo para a elaboração de uma memória colectiva de âmbito concelhio. É, de resto, um jeito belo e elegante de a Comunidade proclamar que ele permanece vivo na memória colectiva que ajudou a construir:
- CRISPIM SERRANO, PRESENTE!

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(*1) – De acordo com o que consegui apurar o financiamento será concretizado através do programa ARI (Autorização de Residência para Investimento), o qual financia projectos museológicos através da vertente de apoio ao património cultural, permitindo que investidores estrangeiros façam um donativo mínimo para a recuperação, restauro ou manutenção de museus e monumentos, com aprovação prévia do GEPAC (Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais), serviço integrado da administração directa do Estado português, que actua na área governativa da Cultura e que concede autorização de residência em troca do investimento cultural.
(*2) – Na época assisti de perto à recuperação de muitas dessas peças na Horta do Quiton, a qual frequentava desde a minha infância, já que nasci ali bem perto, no nº 14 do Largo do Espírito Santo. Envolvido em actividades culturais patrocinadas pelo Município de Estremoz, interactuei inúmeras vezes com Crispim Serrano, o qual me concedeu o privilégio da sua amizade.

Hernâni Matos
Publicado em 17 de Janeiro de 2026
Publicado no jornal E nº 371 de 16-01-2026

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS - Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

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