segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pedro Alves - O despontar de uma estrela


1 - Primavera de Plumas (2026) (frente). Pedro Alves (1991-  ).

Ficar de boca aberta
Há oitentões como eu, rodados na vida e que já “meteram o nariz” em tudo e mais alguma coisa, mesmo naquilo para o qual não foram chamados. Alguns estão mesmo convencidos de que já não há nada de novo para ver e que tudo vai dar ao mesmo. Não é o meu caso, manifestamente um desajeitado para o desempenho do papel de “velho do Restelo”.
Na verdade, creio convictamente que "A vida é uma caixinha de surpresas." e que "As surpresas acontecem quando menos se espera”. De tal modo que acabamos por "Ficar de boca aberta". Foi assim que há dias e em “maré de “Entrudo” deparei nas redes sociais com uma figura em barro pintado (Fig. 1 e Fig. 2), disponível para venda, a qual de imediato me fascinou. Foi “amor à primeira vista”. Em termos de linguagem cinegética foi um caso de “tiro e queda”. Parece que aquela figura tinha sido feita para me seduzir, o que de facto aconteceu e me fez “puxar os cordões à bolsa”, a qual, nestas andanças, vem “emagrecendo a olhos vistos”.
Primavera de Plumas
Curiosamente, na “maré de Entrudo”, acabei por adquirir uma “Primavera de Plumas”, que conjuntamente com as “Primaveras de Arco” e as “Bailadeiras”, integram a galeria dos Bonecos de Estremoz, com a designação genérica de “Primaveras”. Trata-se de alegorias à estação do ano homónima, bem como à sua chegada e simultaneamente figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, assimilados pela Igreja Católica que há séculos começou a comemorar o Entrudo.
Quem é quem
O barrista de que venho falando é Pedro Alves, um jovem de 35 anos, filho do barrista Carlo Alberto Alves e da artista plástica Cristina Malaquias. É caso para dizer que “Quem sai aos seus não degenera”, além de que “Filho de peixes, sabe nadar”, a que forçosamente terei de acrescentar “E de que maneira!”.
Passar a pente fino
A análise cuidada e pormenorizada da imagem permitiu-me concluir que a representação transmite harmonia, beleza e elegância. De salientar que a figura exibe uma postura vertical com os pés mais afastados do que é habitual. As pregas do vestuário e a posição desencontrada dos braços indiciam movimento. A modelação e a decoração são cuidadas e consistentes no seu todo. O cromatismo dominante da figura assenta no vermelhão e no cor de rosa, cores quentes através das quais se procura transmitir a energia, o calor e a vibração dos festejos de Entrudo.
É ou não é?
Chegados a este ponto somos confrontados com a sacramental pergunta: ”Estamos ou não em presença daquilo a que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz?"
A resposta óbvia é que sim, já que em primeiro lugar a técnica de modelação utilizou a combinação das três técnicas: a da bola, a do rolo e a da placa. Em segundo lugar a estética dos Bonecos de Estremoz é uma estética naturalista, que recorre a uma modelação que procura ser fiel ao original, sem introduzir pormenores que lhe são estranhos. Essa fidelidade estende-se ao domínio cromático, já que utiliza cores reais, ou seja, as cores possíveis daquilo que pretende representar.
Uma mudança de paradigma
Pese embora o estrito respeito pela técnica de produção e pela estética do Boneco de Estremoz, o barrista como, de resto, vem sendo prática corrente desde os primórdios da arte, ousou fazer algo de diferente, já que “Quem conta um conto, aumenta um ponto” e com essa diferença dar conta da sua individualidade e do seu modo de ver o mundo e a vida. E que fez o barrista de novo? Encurtou o vestido e dotou-o de um decote generoso. “Duma cajadada matou dois coelhos”: permitiu-se modelar pernas esbeltas e valorizar a representação do busto feminino. Ao proceder assim, o barrista conferiu sensualidade à sua Primavera de Plumas. Em termos de representação ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que importa sublinhar e valorizar.
Que fazer?
O futuro ao barrista pertence, o qual inescapavelmente irá percorrer o seu próprio caminho. O que até agora nos mostrou é revelador de talento e forte personalidade artística, aos quais decerto saberá adicionar resiliência aos “ditos e mexericos” dos “velhos do Restelo”, que temerosos de sair da sua “praia”, adoptam uma atitude céptica e conservadora perante a inovação. E vai daí desencandeiam as suas “Guerras do alecrim e da Mangerona” como forma de nos “Atirar poeira para os olhos”.
Mensagem final
A chegada de alguém muito especial ao universo dos barristas de Estremoz, leva-me a congratular-me com esse facto e a proclamar a sua chegada, anunciando o despontar de uma estrela que promete brilhar.


2 - Primavera de Plumas (2026) (trás). Pedro Alves (1991-  ).

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