terça-feira, 24 de novembro de 2020

Auto dos ganchos de meia

 
Ganchos de meia (Da esquerda para a direita e de cima para baixo): Padre, Sacristão,
Senhora de Pezinhos, Peralta, Sargento, Palhaço, Frade, Freira, Nossa Senhora, Galo.
Ana Catarina Grilo (1974-  ).

À barrista Ana Catarina Grilo


O enredo desenrola-se na actualidade, na rua de Santo André da chamada Cidade Branca. O perfil dos personagens pode ser descrito assim:
- PESSOA QUE EU CÁ SEI: Coleccionador apaixonado de tudo o que tem a ver com a identidade cultural alentejana. Escritor, Jornalista e Blogger, o seu mais recente livro é um livro de amor aos Bonecos de Estremoz.
- MULHER: casada com a pessoa que eu cá sei, a quem interpela com frequência acerca dos Bonecos que leva para casa.
No desenrolar da acção serão simplesmente designados por CÁ SEI e MULHER.
CÁ SEI acabara de comprar uma série de ganchos de meia à barrista Ana Catarina Grilo. Já perto de casa é surpreendido pela MULHER, que acabara de sair à rua. Vendo-o com um saco na mão, decide questioná-lo, o que dá origem ao seguinte diálogo:  
MULHER - Oh homem! O que levas no saco?
CÁ SEI - São ganchos, mulher. São ganchos. São ganchos de meia.
MULHER - Mostra lá.
CÁ SEI - Podes ver à vontade.
MULHER - O que é isto? Um Padre com um arame na braguilha?
CÁ SEI - Sim. E um Padre que organizou um retiro espiritual no Convento de Nossa Senhora das Graças.
MULHER - Retiro espiritual?
CÁ SEI - Retiro espiritual, sim. Para purificar a alma a pecadores.
MULHER - E para que é este Sacristão?
CÁ SEI - É para ajudar o Padre sempre que for preciso.
MULHER - E esta Senhora de Pezinhos com o chapéu às três pancadas?
CÁ SEI -  Bom. Essa é uma pecadora. Basta olhar para ela.
MULHER - Pecadora porquê?
CÁ SEI - Queres que te diga mesmo?
MULHER - É melhor não.
CÁ SEI - Tu é que sabes.
MULHER -  E este Peralta com ar de fadista?
CÁ SEI - Esse também é pecador. Não se vê logo? Queres que te diga porquê?
MULHER - É melhor não.
CÁ SEI - Tu lá sabes.
MULHER - E este Sargento?
CÁ SEI - Também é pecador.
MULHER - Pecador por quê?
CÁ SEI - Olha, mulher. Decerto que não foi por deixar enferrujar a espada.
MULHER - E este Palhaço?
CÁ SEI -  Igualmente é pecador.
MULHER - Pecador, porquê?
CÁ SEI -  Por dizer graças que não devia.
MULHER - E o que faz aqui Nossa Senhora? Não me venhas agora dizer que também é pecadora.
CÁ SEI – Credo! Não, mulher. Nossa Senhora é Imaculada.
MULHER - Então o que faz aqui?
CÁ SEI - É que o Padre organizou o retiro por inspiração de Nossa Senhora.
MULHER - E o Frade? Qual é o papel do Frade?
CÁ SEI - O Frade é o supervisor da cozinha. É ele quem escolhe as carnes, os peixes e os vinhos.
MULHER - Então o retiro vai meter comezaina?
CÁ SEI - Eu não me atreveria a dizer isso. Mas lá que têm de comer, isso têm.
MULHER - E a Freira, que faz aqui a Freira?
CÁ SEI - A Freira tem à a sua responsabilidade os doces conventuais.
MULHER - Há assim tantos que precisem de alguém que se encarregue deles?
CÁ SEI - Nunca os contei, mas posso-te indicar alguns, tais como: Barrigas de Freira, Biscoitos do Cardeal, Bolo do Diabo, Cavacas de Santa Clara, Coalhada do Convento, Creme da Madre Joaquina, Delícias de Frei João, Hóstias de amêndoa….
MULHER – Mas há assim tantos doces conventuais?
CÁ SEI - Ainda a procissão vai no adro. Queres saber de mais? Olha, aqui tens: Marmelada Branca de Odivelas, Mexericos de Freiras, Orelhas de Abade, Pitos de Santa Luzia, Queijinhos do Céu, Sopapo do Convento, Suspiros de Braga, Toucinho do Céu…
MULHER - Basta homem, que já estou enjoada com tanto doce!
CÁ SEI - Está bem, mas fica a saber que ainda havia muitos mais.
MULHER - E o Galo. O que faz aqui o Galo?
CÁ SEI -  O Galo é para a canja do almoço.
Nesta altura, a mulher já farta do relambório do marido, grita:
- Tu estás é maluco da cabeça e a família não sabe!
O marido vê-se então obrigado a invocar o auxílio do céu e implora:
- Valham-te Santa Justa e Santa Rufina [1] juntas!
 
CAI O PANO

 
 

[1] Santas Protectoras de todos aqueles que modelam o barro.

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