quarta-feira, 13 de julho de 2022

Exposição "Os Bonecos de Estremoz na vida de Madalena Bilro"



Transcrito com a devida vénia
do comunicado
do Município de Estremoz,
de 13 de Junho de 2023

O Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz vai receber a exposição "Os Bonecos de Estremoz na vida de Madalena Bilro", com inauguração no dia 16 de julho, pelas 11:00 horas.
Madalena Bilro deste criança sempre gostou de fazer trabalhos artesanais. Em 2014 inscreveu-se na Academia Sénior de Estremoz na disciplina de Barrística e ali conheceu a História do Boneco de Estremoz e aprendeu a técnica de modelação e pintura para a produção do mesmo.
Desde então, mostrou-se sempre muito interessada por esta arte popular e assim que começou a sentir mais confiança nos conhecimentos já adquiridos, começou a fazer peças com um notável gosto pela arte e com as quais presenteou alguns familiares e amigos.
Em 2019 frequentou o I Curso de Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, promovido pelo CEARTE em parceria com o Município de Estremoz, e é aqui que tem a oportunidade de aprofundar a sua aprendizagem com o Mestre Jorge da Conceição.
Terminado o curso, decidiu seguir o desejo que vinha demonstrando há já algum tempo, criou uma pequena oficina na sua casa e iniciou a atividade de produção de Figurado de Estremoz para comercializar. Em 2018 obteve a Certificação da sua produção.
A exposição “Os Bonecos de Estremoz na vida de Madalena Bilro” apresenta o percurso da Barrista no mundo do Figurado em barro de Estremoz. As peças aqui expostas são uma representação do seu trabalho desde o primeiro contacto que teve com o barro nas aulas da Academia Sénior, passando pelas figuras produzidas no Curso com o Mestre Jorge da Conceição, até à produção atual.
Não deixe de visitar esta mostra que estará patente até dia 4 de setembro de 2022.

Hernâni Matos

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Município e ambiente - Uma no cravo, outra na ferradura

 

Pintura do projecto “O mar começa aqui” do Jardim de Infância de Santa Maria,
concretizado num sumidouro, junto à Praça de Táxis na Praça Luís de Camões,
em Estremoz. A memória descritiva do projecto, pode ser lida aqui .

Fotografias reproduzidas
com a devida vénia
do sítio do projecto

Sob o lema “Salvar os oceanos, proteger o futuro”, decorreu entre 27 de Junho e 1 de Julho passado, em Lisboa, a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, co-organizada pelos governos de Portugal e do Quénia.
Entre muitas outras conclusões, o documento final da Conferência dos Oceanos reconhece a importância da contribuição das crianças e jovens no sentido do avanço de uma economia sustentável baseada nos oceanos, o que pressupõe uma educação de qualidade e da literacia dos oceanos. Vejamos o que já foi feito nesse sentido em Estremoz.

Projecto "O mar começa aqui"
No início do mês de Junho foram pintadas pelo Agrupamento de Escolas de Estremoz, sarjetas e sumidouros na cidade. A iniciativa integrou-se no projecto Eco-Escolas “O mar começa aqui”, o qual contou com a participação de: Escola da Mata, Escola do Caldeiro, Jardim de Infância de Santa Maria e Escola Básica Sebastião da Gama. Estas aceitaram o desafio nacional lançado pela Associação Bandeira Azul da Europa – ABAE. A acção visava alertar toda a gente para o facto de que tudo o que entra naqueles escoadouros, através dos cursos naturais de água, flui em direcção ao mar.
De salientar que os objectivos globais do referido projecto, incluem: - Compreender a necessidade de preservação dos ecossistemas e da biodiversidade em geral e da qualidade da água doce e salgada em particular; - Educar para uma cidadania activa incitando os jovens a passar a mensagem de que “Tudo o que cai no chão, vai parar ao mar” a toda a comunidade educativa, - Estimular a criatividade dos alunos, através do desenvolvimento de competências em áreas como a expressão plástica; - Implementar estratégias de cooperação escolas-autarquias para a promoção da sustentabilidade. Esta pode ser definida como a capacidade de o ser humano interagir com o mundo, preservando o meio ambiente para não comprometer os recursos naturais das gerações futuras.

Estremoz Fun Running 2022
Integrada na Feira Internacional de Desporto de Estremoz - FIDMOZ, decorreu no passado dia 12 de Junho, a “Estremoz Fun Running”, iniciativa que visava conjugar a actividade física com diversão. A partida teve lugar pelas 17 horas, no Parque de Feiras e Exposições de Estremoz, percorreu diversas ruas da cidade e terminou no local onde começara.
Ao longo do percurso existiam estações de cor (verde, azul, vermelho, amarelo), de passagem obrigatória, onde os participantes foram pulverizados com pó colorido, constituído por amido de milho e corante alimentar, inócuo, biodegradável e lavável. Para que o pó aderisse melhor à roupa, em certos pontos do percurso existiam nebulizadores de água.
Assisti à “Corrida Alegre de Estremoz” na Praça Luís de Camões e vi os participantes atravessarem a estação de cor situada no Pelourinho, local onde foram pulverizados e nebulizados. No final, a presença de um autotanque dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, permitiu que o piso fosse lavado á mangueirada, escorrendo a água colorida para dois sumidouros estrategicamente posicionados frente ao Pelourinho.

Sustentabilidade
Tanto o projecto "O mar começa aqui" como o evento “Corrida Alegre de Estremoz” contaram com o inestimável apoio do Município de Estremoz, para isso vocacionado, já que o primeiro é do âmbito educativo e o segundo dos domínios desportivo e lúdico.
Trata-se de eventos que não dispondo de públicos alvo inteiramente disjuntos, têm, todavia, alcances distintos. O projecto “O mar começa aqui” tem enorme alcance pedagógico. Como bem ensina o velho rifonário português, “É de pequenino que se torce o pepino”. Daí que o projecto procure educar as crianças para uma cidadania activa que induza na comunidade educativa, uma mudança de comportamentos que privilegiem a sustentabilidade.

E os miúdos?
Não sei se miúdos envolvidos no projecto "O mar começa aqui”, assistiram ou não à lavagem das estações de cor, uma vez terminada a "Corrida Alegre de Estremoz”. Em caso afirmativo, não sei também se alguns deles ficaram ou não confusos, ao ver água colorida escorrer para os sumidouros ou sargetas. Não sei também se terão ou não questionado o(a)s professor(a)s sobre aquilo que viram. Não sei também se o(a)s professor(a)s tiveram ou não dificuldade em fazê-los compreender que aquilo que estava a entrar nos sumidouros ou sargetas, não era prejudicial, porque não era contaminante. Admito que, dado o seu empenhamento pedagógico, o tenham conseguido fazer. Todavia, suponho que terá sido mais difícil explicar às crianças o desperdício de água usada, numa altura de seca que irá afectar a actividade agrícola nos próximos meses.
Quem sabe se o(a)s professor(a)s, aproveitando o ocorrido, não terão aproveitado para explicar o significado dos provérbios “Uma no cravo, outra na ferradura” e "Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz."

Pós-escrito
“A minha Pátria é a Língua Portuguesa´´. Assim o proclamou Bernardo Soares (Fernando Pessoa) no “Livro do Desassossego”, afirmação que se tornou numa divisa seguida por figuras altaneiras da Cultura Portuguesa, como Manuel Alegre, Agustina Bessa Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vasco da Graça Moura, para só citar alguns.
Constitucionalmente, assiste-me o direito de me insurgir contra o abastardamento da língua portuguesa, seja qual for a sua origem. No caso presente, a utilização do anglicismo “Fun Running” é absolutamente desnecessária e estúpida, já que o conceito que lhe está subjacente é perfeitamente traduzível através da bem portuguesa designação “Corrida Alegre”.
Tal como Jesus expulsou os vendilhões do Templo, é imperioso expurgar a língua portuguesa de locuções anglicistas ou outras, estranhas à nossa matriz identitária. Quem não o fizer, está a apunhalar a Língua Portuguesa, pelo que terá de assumir as suas responsabilidades.

Hernâni Matos
Publicado no jornal E n.º 293, de 7 de Julho de 2022

SEQUÊNCIA DE IMAGENS RELATIVAS ÀS DIFERENTES FASES DE EXECUÇÃO DO PROJECTO "O MAR COMEÇA AQUI" PELO JARDIM DE INFÂNCIA DE SANTA MARIA



 



quarta-feira, 22 de junho de 2022

Perguntar não ofende

 

Mário Nogueira, Secretário-geral da Federação Nacional de Professores.
Fotografia de Paulo Novais (Lusa).

Perguntar não ofende
O título em epígrafe encima uma sacramental pergunta inserida invariavelmente na página 14 do jornal E, mas cujo conteúdo vai variando de número para número. Na edição de 26 de Maio passado, a pergunta formulada era a seguinte: “Mário Nogueira, o sindicalista dos professores, algum dia deu ou vai dar aulas?”. Ao lê-la, concluí de imediato que a resposta à mesma constituía para mim um desafio inescapável, já que o visado é reconhecido como firme defensor dos direitos da classe sócio profissional que integrei durante 36 anos de carreira. Como corolário desse desafio, procurei elaborar uma resposta pautada pela objectividade e pelo rigor, que constituem apanágio meu.
Há muito que Mário Nogueira está na mira de alguns cronistas da nossa praça, cuja intenção configura ser denegrir o visado como pessoa e pôr em causa a sua legitimidade e eficácia enquanto dirigente sindical. Daí que seja conveniente destacar alguns dos marcos principais dessa cruzada.

Expresso
Assim, Henrique Raposo, licenciado em História e mestre em Ciência Política, na qualidade de cronista do “Expresso”, aí advoga em 18 de Junho de 2013: “Um professor dá aulas e Mário Nogueira não dá aulas há mais de 20 anos. Parece mentira, mas este senhor está num perpétuo horário zero há duas décadas. A sua "carreira" docente conta com 32 anos de serviço, mas, na verdade, o Glorioso Líder da Fenprof só deu aulas nos primeiros 10 anos de vida profissional. Os últimos 22 anos foram dedicados ao sindicalismo profissional. Não, Mário Nogueira não é professor, é sindicalista. O que me leva a uma pergunta óbvia: como é que alguém que não dá aulas há vinte anos pode representar com realismo as pessoas que dão aulas todos os dias?”

Polígrafo SIC
O “Polígrafo SIC”, de 7 de Maio de 2019, referindo-se a Mário Nogueira diz. “…é dele também a cara de uma informação partilhada milhares de vezes nas redes sociais, segundo a qual Nogueira não entra numa sala de aulas há mais de 20 anos – e que, apesar disso, obtém boas notas de avaliação do seu desempenho, baseadas em artigos de jornais e em conferências em que participa.” O mesmo “Poligrafo”, formulou então duas questões:
- “QUESTÃO N.º 1 - É verdade que Nogueira não dá aulas há mais de 20 anos?
O próprio “Polígrafo SIC” deu a resposta:
“Sim. Mário Nogueira é professor do 1.º ciclo do Ensino Básico desde o ano letivo de 1978/79, tendo-se especializado em Educação Especial. Ao Polígrafo, reconheceu que não dá uma aula “há vinte e tal anos”. Não consegue precisar o tempo exacto. “Estou ao abrigo da lei sindical, a tempo inteiro no sindicato” e “o meu salário é única e exclusivamente o salário de um professor, como se estivesse na minha escola. Não tenho nenhum subsídio nem nenhuma vantagem acrescida”, garante.”
- “QUESTÃO N.º 2 - Apesar de não dar aulas, Nogueira tem boas notas nas avaliações a que é sujeito? E é avaliado pelos artigos que publica e as conferências em que participa?”
Também aqui, o próprio “Polígrafo SIC” deu a resposta:
“Uma vez mais, a resposta é positiva. Por não leccionar, o sindicalista encontra-se no regime de “ponderação curricular”. Segundo o despacho normativo n.º 19/2012, são considerados para a classificação e avaliação final “as habilitações académicas e profissionais; a experiência profissional; a valorização curricular; o exercício de cargos dirigentes ou outros cargos ou funções de reconhecido interesse público ou relevante interesse social”. A cada um destes parâmetros é atribuída uma nota de 1 a 10, sendo feita a média ponderada.”
““As pessoas que não estão nas escolas a dar aulas não podem ser avaliadas a dar aulas – isso é válido para sindicalistas, autarcas, deputados, governantes, para toda a gente que é professora e não está a dar aulas”, explica o sindicalista, que detalha os elementos que podem ser utilizados para a sua avaliação: ações, formações e congressos em que participou ou que ajudou a realizar, durante o ano letivo; livros editados e artigos publicados em revistas e jornais, desde que relacionados com a temática da Educação.”
““A última avaliação que tive foi “bom”, que é uma avaliação normal”, refere o sindicalista, que atribui a insistência nesta questão à vitória dos professores na luta pela contabilização da totalidade do tempo de serviço congelado durante o período da Troika. “Quando os governos são derrotados, aqueles que dão rosto à luta contra eles são imediatamente apontados e postos em causa. Eles não perdoam àqueles que lhes fazem frente”, conclui o sindicalista.”
E o “Polígrafo SIC” conclui:
“Em resumo: confirmam-se as “acusações” que circulam sobre Mário Nogueira, mas é importante referir que as circunstâncias do líder da FENPROF são totalmente legais. Mário Nogueira não se encontra a infringir nenhuma norma legal.”

Resposta à pergunta do “E”
Chegados aqui, parece não restarem dúvidas de que Mário Nogueira leccionou e que actualmente não lecciona por ser dirigente sindical, não sendo previsível que volte a leccionar, dada a importância das funções que desempenha e para as quais tem sido sucessivamente reeleito pelos seus pares.

Moral da estória
É notório que há muito vem sendo orquestrada nalguma imprensa, uma campanha cuja finalidade é denegrir a imagem e desacreditar a actividade do visado, dirigente máximo do órgão de cúpula da mais forte federação de sindicatos de professores, por sinal empenhada numa batalha por melhores condições de vida e de carreira dos professores, assim como por melhores condições pedagógicas nas escolas.
A campanha contra Mário Nogueira visa em última análise desacreditar e enfraquecer o movimento sindical dos professores. Não é difícil adivinhar quem é o benificiário de tal orquestração.
Se há figuras públicas que possam ser desmerecedoras de respeito, dado o seu péssimo currículo e/ou cadastro, nem todas as figuras públicas estão nessas condições, pelo que não é legítimo medi-las todas pela mesma bitola, o que constituiria populismo primário.
Aconselho o leitor a ler a nota biográfica de Mário Nogueira, disponível no website do “Conselho Nacional de Educação”: https://www.cnedu.pt/pt/organizacao/conselheiros/127-mario-de-oliveira-nogueira .
Sugestão ao jornal E
Creio ser eticamente desejável que as perguntas formuladas na secção “Perguntar não ofende”, sofram uma triagem antes sua publicação, de modo a expurgá-las de pressupostos incorrectos. De contrário, induz-se o leitor em erro. É sabido que “No melhor pano cai a nódoa”. Há, pois, que tomar providências para que tal não aconteça. Lá diz o rifão “Mais vale prevenir que remediar”.

Hernâni Matos
Publicado no jornal E nº292, de 23 de Junho de 2022

terça-feira, 14 de junho de 2022

ABÍLIO MARÇAL, UM REPUBLICANO DAS BEIRAS – O Homem, o Político e a Obra

 


Este é o título da mais recente obra de Pedro Marçal Vaz Pereira, a lançar pelas dezoito horas da próxima quarta-feira, dia 22 de Junho, na Biblioteca Passos Manuel, da Assembleia da República, em Lisboa. A obra será apresentada pelo Professor Doutor Guilherme de Oliveira Martins.

A obra
A obra abre com uma mensagem de João Farinha Nunes, Presidente da Câmara Municipal da Sertã, a que se segue uma outra mensagem de António Simões, Presidente do Clube Bonjardim. O prefácio é de Guilherme de Oliveira Martins e segue-se-lhe um Preâmbulo do autor, no qual este confessa: “Pretendo fazer a biografia do homem republicano, que foi parte activa na história final da nossa Monarquia e depois um dos mais distintos políticos da nossa 1.ª República.”. No Prefácio refere Guilherme de Oliveira Martins: “Pedro Vaz Pereira leva-nos a acompanhar Abílio Marçal, a par e passo, com grande rigor e pormenor, nos diversos compromissos e tarefas de serviço público que o cidadão e político foi assumindo, evidenciando-se uma relação muito próxima e de grande confiança com Afonso Costa”.
A obra foi estruturada e desenvolve-se ao longo de 4 capítulos: 1 - Abílio Marçal, a sua origem e a família; 2 - Abílio Marçal e o seu tempo político; 3 - Actividade social e cultural; 4 – Epílogo.
A obra teve por base, extensa e qualificada bibliografia, com especial destaque para: Arquivo Pedro Vaz Pereira, Arquivo Histórico da Assembleia da República, Arquivo da Universidade de Coimbra, Arquivo do Liceu José Falcão de Coimbra e Arquivo Histórico da Câmara Municipal da Sertã.
O livro, profusamente ilustrado a cores e com design de Ana Paula Silva, tem capa dura, 22 cm x 30 cm, de 478 páginas. A edição é do Clube Bonjardim.

O autor
O autor, membro honorário da Academia Portuguesa de História, é filatelista eminente, escritor e jornalista filatélico e subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) desde 1987 e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA) no período (2001-2009), assim como director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”. Entre as inúmeros prémios e distinções que lhe foram atribuídas, é de salientar a atribuição em 2018 pela FEPA, da Medalha pelos Serviços Prestados à Filatelia Europeia. A sua bibliografia inclui as obras: 2005 - “Os Correios Portugueses entre 1853-1900. Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos” (2 volumes), editado pela Fundação Albertino Figueiredo, de Madrid; 2013 - “Os Correios Portugueses entre 1853-1900. Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos” (Suplemento); 2013 - “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal” (2 volumes), edição do autor, que foi distinguida com o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História Moderna e Contemporânea de Portugal, atribuído pela Academia Portuguesa da História; 2015 - “O Teatro numa aldeia da Beira - Cernache do Bonjardim", editado pelo Clube Bonjardim; 2018 - “As Missões Laicas Republicanas e os Equívocos Missionários e Históricos da Igreja Católica”, edição do autor; 2020 - “ABÍLIO MARÇAL, UM REPUBLICANO DAS BEIRAS – O Homem, o Político e a Obra”, editado pelo Clube Bonjardim; 2021 - “Os Correios Portugueses 1853-1900” (2 volumes), editado pelos Correios de Portugal e pela Federação Portuguesa de Filatelia) e que foi galardoado em 2021 com a Medalha FEPA por estudos e pesquisas extraordinárias, atribuída pela Federação Europeia de Sociedades Filatélicas.

Pedro Marçal Vaz Pereira, o autor.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Mercado das Velharias de Estremoz - Crónica duma morte previsível

 

Mercado das Velharias de Estremoz na actualidade. Fotografia reproduzida
com a devida vénia do Facebook do Município de Estremoz.  

O Mercado das Velharias em Estremoz é, seguramente, um dos ex-líbris da nossa cidade transtagana, pela popularidade de que goza, já que ao longo dos anos tem sabido atrair elevado número de compradores e vendedores, de aquém e além-fronteiras. Paralelamente, tem sido divulgado por jornalistas e escritores, mídia audiovisuais, influenciadores digitais, publicitários e agentes de marketing. Tornou-se também um ponto de passagem inescapável dos colunáveis que nos fins de semana povoam os montes do termo de Estremoz.
A idade que tenho, permite-me ter conhecido o despontar do Mercado das Velharias, acompanhar o seu crescimento e desenvolvimento, bem como ter conhecido a maioria dos personagens (vendedores e compradores) que, semanalmente, naquele palco de negócio, desempenham instintivamente o papel que lhes compete. Por ali se fazem negócios da China, se compram pechinchas ou se enfia o barrete, quando se é otário. Por ali se encontram amigos que vêm ao mesmo e se sedimentam amizades que perduram para o resto da vida. Vir ao sábado a Estremoz e não ir ao Mercado das Velharias, assume a dimensão dum sacrilégio.
O Mercado das Velharias é uma componente de peso do Mercado de Sábado, que ainda tem como componentes, o Mercado das Hortaliças, o Mercado das Galinhas e o Mercado do Artesanato. Eles integram um todo cujas partes interactuam entre si e que no conjunto constituem um factor de dinamização da vida comercial e social sabadeiras.
O vigor revelado pelo Mercado das Velharias resulta de na sua génese, ter sido uma criação autónoma dos vendedores e não o resultado da planificação de qualquer edil local, cujo pensamento lhe tenha dado para ali. Arrancou com apenas um vendedor, ao qual se foram juntando outros e o resultado foi o Mercado pujante que se conheceu até há bem pouco tempo. A Câmara, desde sempre se limitou a receber a taxa dos terrados e quanto ao resto, salve-se quem puder.
Recentemente, a requalificação do espaço público do Rossio, exigiu a deslocalização das diversas componentes do Mercado de Sábado. Estas espraiaram-se e diluíram-se ao longo dos 4 lados do quadrilátero que é o Rossio, quebrando os elos simbióticos existentes entre elas e enfraquecendo as dinâmicas individuais. No caso do Mercado das Velharias, é bem visível o resultado da sua deslocalização. A frequência de potenciais compradores diminuiu, o que teve reflexo imediato nas vendas. Já houve vendedores que “bateram a asa” e foram “pregar para outra freguesia”, porque a deslocação a Estremoz “não dá para o gasóleo”. E isto só agora começou. A duração previsível das obras é de 6 meses, se alguém não as “deixar para as calendas gregas”. Que medidas pode tomar o Município para combater e minimizar esta tendência? Ao contrário do que é habitual, não tenho resposta alguma à questão que eu próprio formulei. E o Município, terá resposta?

Publicado no jornal E - nº 291 - 9 de Junho de 2022

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Males que podiam ter sido evitados

 

Passeio frente à Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, no Largo da República, em Estremoz.
É visível uma chapa de ferro que atravessa transversalmente o passeio e dá serventia a
um algeroz privado, embutido na parede do edifício. A chapa encontra-se solta de um
dos lados, sobressaindo em relação ao nível do passeio. Nela, tropeçou um cidadão que
sofreu um aparatoso acidente, no passado dia 27 de Maio.

Um cidadão que tombou na calçada
Estremoz, 27 de Abril de 2022. Dia de inauguração da FIAPE 2022. Pouco passava do meio dia e eu com a barriga a dar horas. Transito no Largo da República em Estremoz, a caminho de casa, na rua de Santo André. Sou surpreendido por um alarido que me faz dirigir o olhar em direcção à sede da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, próximo do local onde aquele largo e aquela rua se cruzam. Chegado aí, o que vejo? Um grupo de transeuntes a procurar socorrer um cidadão estatelado no chão, com uma poça de sangue a seu lado. Agarram-no e sentam-no no passeio, encostado à parede. Tem um ar aturdido e do seu nariz, jorra sangue com abundância. É chamada a emergência médica e cerca de 10 minutos depois chega uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, que o transporta ao Centro de Saúde local. Daqui é enviado para o Hospital de Évora, donde é reenviado para o Hospital de São José, em Lisboa. Após observação, foi possível concluir que não sofrera traumatismo craniano, mas fracturara o nariz. Decorrido um dia, teve alta com a cara feita num oito, o nariz fracturado e a necessidade de uso provisório de uma placa no interior da boca, bem como a condenação a uma dieta de líquidos, a qual se mantém um mês depois.

O que é que se passou?
É caso para perguntar:
- O que terá levado um cidadão a estatelar-se no passeio, em pleno dia?
Eu respondo:
- Falta de iluminação no local? Não. Estava um sol radioso.
- Estava embriagado? Não. Estava sóbrio, conforme pude constatar.
- Sonolência súbita? Não. Estava bem acordado.
- Fartou-se da posição vertical? Não. Quando o está, senta-se num banco do Rossio.
- Foi empurrado por alguém? Não. Ninguém o empurrou.
Perguntarão:
- Então o que se passou?
Eu respondo:
- O acidentado transitava no passeio frente à referida instituição bancária e tropeçou numa chapa de ferro que atravessa transversalmente o passeio e dá serventia a um algeroz privado, embutido na parede do edifício.
Dirão provavelmente que:
- Estava à hora errada no local errado.
Sou levado a contrapor:
- Nada disso. O que está errado é que a referida chapa de ferro, contrariando todas as normas de segurança, se encontrava solta de um dos lados, sobressaindo em relação ao nível do passeio. Decorrido um mês sobre o acidente, a chapa continua no local, a resistir olimpicamente à sua remoção ou substituição.
Perguntarão:
- Então ninguém fez nada?
Eu respondo:
- Como cidadão e por dever de cidadania, através de dois canais distintos, informei responsáveis municipais, do que ali tinha ocorrido e da necessidade de tomar medidas atinentes, as quais repusessem a segurança no local e impedissem a repetição daquilo que foi um lamentável acidente.
Perguntarão:
- E qual foi o resultado dessas diligências?
Eu respondo:
- Um mês depois, a chapa em causa não foi reparada ou substituída, nem o local do acidente foi sinalizado, visando impedir a repetição do infausto acidente. Lá diz o rifão. “Tudo como dantes. Quartel general em Abrantes”.

Uma reflexão que se impõe
A chapa dá serventia a um algeroz privado e atravessa transversalmente um passeio público. Desconheço se a chapa é propriedade privada ou propriedade municipal. Todavia, creio que é da responsabilidade do respectivo proprietário, assegurar que a mesma se encontra em condições, de modo a não dificultar a circulação pedestre de transeuntes. Por outro lado, é à autarquia, enquanto gestora do espaço público, que compete assegurar a mobilidade de cidadãos em condições de segurança. Tal não aconteceu, o que viola o direito à mobilidade cidadã.

E os danos?
Sou levado a formular as eternas questões:
- Quanto vale a vida humana?
- Quanto vale o sofrimento humano?
O acidentado sofreu danos físicos, materiais e morais. Perguntarão:
- Quem é que o vai ressarcir desses danos?
A minha resposta é simples:
- Não sei. Que responda quem souber. Apenas constato a existência de um velho provérbio português, o qual proclama que “A culpa morre solteira”.

Publicado no jornal E n.º 290, de 26 de Maio de 2022