quarta-feira, 25 de maio de 2022

Males que podiam ter sido evitados

 

Passeio frente à Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, no Largo da República, em Estremoz.
É visível uma chapa de ferro que atravessa transversalmente o passeio e dá serventia a
um algeroz privado, embutido na parede do edifício. A chapa encontra-se solta de um
dos lados, sobressaindo em relação ao nível do passeio. Nela, tropeçou um cidadão que
sofreu um aparatoso acidente, no passado dia 27 de Maio.

Um cidadão que tombou na calçada
Estremoz, 27 de Abril de 2022. Dia de inauguração da FIAPE 2022. Pouco passava do meio dia e eu com a barriga a dar horas. Transito no Largo da República em Estremoz, a caminho de casa, na rua de Santo André. Sou surpreendido por um alarido que me faz dirigir o olhar em direcção à sede da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, próximo do local onde aquele largo e aquela rua se cruzam. Chegado aí, o que vejo? Um grupo de transeuntes a procurar socorrer um cidadão estatelado no chão, com uma poça de sangue a seu lado. Agarram-no e sentam-no no passeio, encostado à parede. Tem um ar aturdido e do seu nariz, jorra sangue com abundância. É chamada a emergência médica e cerca de 10 minutos depois chega uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, que o transporta ao Centro de Saúde local. Daqui é enviado para o Hospital de Évora, donde é reenviado para o Hospital de São José, em Lisboa. Após observação, foi possível concluir que não sofrera traumatismo craniano, mas fracturara o nariz. Decorrido um dia, teve alta com a cara feita num oito, o nariz fracturado e a necessidade de uso provisório de uma placa no interior da boca, bem como a condenação a uma dieta de líquidos, a qual se mantém um mês depois.

O que é que se passou?
É caso para perguntar:
- O que terá levado um cidadão a estatelar-se no passeio, em pleno dia?
Eu respondo:
- Falta de iluminação no local? Não. Estava um sol radioso.
- Estava embriagado? Não. Estava sóbrio, conforme pude constatar.
- Sonolência súbita? Não. Estava bem acordado.
- Fartou-se da posição vertical? Não. Quando o está, senta-se num banco do Rossio.
- Foi empurrado por alguém? Não. Ninguém o empurrou.
Perguntarão:
- Então o que se passou?
Eu respondo:
- O acidentado transitava no passeio frente à referida instituição bancária e tropeçou numa chapa de ferro que atravessa transversalmente o passeio e dá serventia a um algeroz privado, embutido na parede do edifício.
Dirão provavelmente que:
- Estava à hora errada no local errado.
Sou levado a contrapor:
- Nada disso. O que está errado é que a referida chapa de ferro, contrariando todas as normas de segurança, se encontrava solta de um dos lados, sobressaindo em relação ao nível do passeio. Decorrido um mês sobre o acidente, a chapa continua no local, a resistir olimpicamente à sua remoção ou substituição.
Perguntarão:
- Então ninguém fez nada?
Eu respondo:
- Como cidadão e por dever de cidadania, através de dois canais distintos, informei responsáveis municipais, do que ali tinha ocorrido e da necessidade de tomar medidas atinentes, as quais repusessem a segurança no local e impedissem a repetição daquilo que foi um lamentável acidente.
Perguntarão:
- E qual foi o resultado dessas diligências?
Eu respondo:
- Um mês depois, a chapa em causa não foi reparada ou substituída, nem o local do acidente foi sinalizado, visando impedir a repetição do infausto acidente. Lá diz o rifão. “Tudo como dantes. Quartel general em Abrantes”.

Uma reflexão que se impõe
A chapa dá serventia a um algeroz privado e atravessa transversalmente um passeio público. Desconheço se a chapa é propriedade privada ou propriedade municipal. Todavia, creio que é da responsabilidade do respectivo proprietário, assegurar que a mesma se encontra em condições, de modo a não dificultar a circulação pedestre de transeuntes. Por outro lado, é à autarquia, enquanto gestora do espaço público, que compete assegurar a mobilidade de cidadãos em condições de segurança. Tal não aconteceu, o que viola o direito à mobilidade cidadã.

E os danos?
Sou levado a formular as eternas questões:
- Quanto vale a vida humana?
- Quanto vale o sofrimento humano?
O acidentado sofreu danos físicos, materiais e morais. Perguntarão:
- Quem é que o vai ressarcir desses danos?
A minha resposta é simples:
- Não sei. Que responda quem souber. Apenas constato a existência de um velho provérbio português, o qual proclama que “A culpa morre solteira”.

Publicado no jornal E n.º 290, de 26 de Maio de 2022

2 comentários:

  1. A ignorância dos pequenos poderes, e não só, esconde se atrás da arrogância e da impunidade. Assim, tentam desvalorizar as ações da sociedade civil. Só muitos Hernanis podem contrariar esta cegueira que começa nos pequenos poderes locais e acaba no que se está a passar na preparação de mais uma grande guerra mundial.

    ResponderEliminar