sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Venham mais cinco!



É sabido que compete às Câmaras Municipais a atribuição de nomes às ruas, o que pode ser feito mediante recomendação da Assembleia Municipal e das Juntas de Freguesia do Concelho, bem como por Associações de Moradores, Culturais ou Desportivas, grupos de cidadãos ou munícipes a titulo individual.
Antes de serem objecto de deliberação pela Câmara Municipal, as propostas devem ser apreciadas por uma Comissão de Toponímia de âmbito concelhio. Só após ter recebido as propostas que lhe foram apresentadas pela Comissão de Toponímia, é que a Câmara Municipal delibera, como legalmente é de sua competência exclusiva.
Tudo isto é o que é habitual por este país fora. Todavia, há uma observação legítima que não deve deixar de ser feita. O artigo 22º do “Regulamento de Toponímia e Numeração de Polícia do Concelho de Estremoz” diz que a Comissão de Toponímia é constituída no mínimo por 3 elementos: Um eleito da Câmara Municipal que presidirá às reuniões, um representante da Junta de Freguesia da área geográfica referente às toponímias em apreciação e um representante dos CTT. Contudo, nada obriga a que a Comissão seja constituída apenas por 3 elementos. Ter só 3 ou ter mais, depende exclusivamente da vontade do executivo municipal e este tem determinado que a Comissão funcione apenas com 3 elementos.
A situação apontada leva-me a parafrasear o saudoso Zeca Afonso, recorrendo ao título da sua bem conhecida canção “Venham, mais cinco”. Pensando na Comissão de Toponímia do Concelho de Estremoz, sou levado a sugerir “Venham mais alguns!”. 
Sabem porquê? É que há concelhos em que no início de cada mandato, a Câmara Municipal convida para integrar a Comissão de Toponímia, um certo número de cidadãos de reconhecido mérito, pelos seus conhecimentos ou estudos sobre o concelho. Esse número é bastante variável de concelho para concelho. Das inúmeras soluções encontradas, destaco: Lagoa (De 1 a 3), São João da Pesqueira (4), Portimão (5), Lagos (Até 9).
Uma opção deste tipo, valoriza a Comissão de Toponímia, uma vez que esses cidadãos de reconhecido mérito têm um espectro largo de conhecimentos e de memórias, que potenciam e valorizam a reflexão sobre a atribuição de topónimos, tornando-a mais sólida e consistente, ao mesmo tempo que pode vir a prevenir a ocorrência de omissões e de injustiças relativas, que ainda que involuntárias são sempre desagradáveis. Foi o que aconteceu na reunião da Comissão de Toponímia ocorrida no passado dia 7 de Março, cuja acta foi homologadas em reunião de Câmara, realizada no passado dia 23 de Novembro. Foram distinguidos com nomes de ruas, duas barristas já falecidas e não foram tida(o)s em conta, quatro outra(o)s barristas igualmente já falecida(o)s e que não tiveram mérito inferior às agraciadas. Uma ocorrência que causou incomodidade, que não devia ter acontecido e que urge ser corrigida numa próxima atribuição de topónimos. Uma situação que talvez não tivesse ocorrido, se a Comissão de Toponímia não fosse tão restrita.
A atribuição de um nome a uma rua, corresponde ao reconhecimento público do valor identitário da nossa Cultura e da nossa História e do mérito daqueles que com o seu exemplo e esforço, contribuíram para a edificação do presente. Constitui também um estímulo para uma cidadania activa ao serviço da Comunidade, na medida em que é uma forma de sinalizar que esta reconhece o trabalho voluntarioso e generoso dos seus membros. Daí que seja imperioso tomar providências, para que casos como o ocorrido não se voltem a repetir.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Cromo de Natal


Convento dos Congregados - Edifício dos Paços do Concelho de Estremoz

Em tempos que já lá vão, a CME dava uma mãozinha ao comércio local na época natalícia. As artérias de maior densidade comercial eram decoradas com graciosas iluminações, confeccionadas pelos electricistas do Município. Simultaneamente os nossos ouvidos eram estimulados por canções e músicas alusivas à quadra festiva. E tudo isto começava muito antes do Natal. Era uma prática de que as pessoas gostavam e entre elas, os comerciantes da urbe. É que a iniciativa conferia animação às ruas, que além de espaços de convívio, constituem rotas usadas na procura de prendas que queremos oferecer a alguém que amamos ou a quem estamos gratos.
Este ano, nada disso aconteceu. Desta vez, a Câmara não deu a mãozinha ao comércio tradicional que tenta sobreviver face às grandes superfícies comerciais e só em Estremoz são quatro.
Todavia são visíveis iluminações na fachada de todo o Convento dos Congregados e na zona limítrofe. Trata-se de uma iniciativa que embeleza o edifício do Município e chama a atenção para o mesmo, mas que não aquece nem arrefece o comércio tradicional. Há quem diga que é só fachada, da qual perdurará o registo fotográfico como cromo natalino, que só não está completo, porque falta ali o Pai Natal.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

62 - Berços do Menino Jesus - 1


Berço enfeitado (Anos 80 do séc. XX).
Liberdade da Conceição (1913-1990).
Colecção particular.

O núcleo central do figurado de Estremoz inclui o chamado presépio de trono ou de altar, no qual figura um berço com o Menino Jesus. Também os chamados presépios de 3, 6 e 9 figuras, incluem um berço idêntico. Esta singularidade, levou-nos a contextualizar o nascimento de Jesus.

Referências bíblicas
Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau (1713) e Cândido de Figueiredo (1819), a palavra “presépio” provem do latim “praesepium”, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos (LUCAS 2: 1 a 18) e (MATEUS 2: 1 a 11). Deles destaco a anunciação do anjo do Senhor aos pastores: “Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.” (LUCAS 2: 12), bem como “ Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura.” (LUCAS 2: 16).
O presépio é uma referência cristã que nos remete para o nascimento de Jesus numa gruta de Belém, na companhia de José e Maria, que ali pernoitaram na sequência do recenseamento de toda a Galileia. Jesus terá nascido numa manjedoura destinada a animais e foi reconhecido após o nascimento, por pastores da região, avisados por um anjo, e, dias mais tarde, por Reis Magos vindos do Oriente, guiados por uma estrela e que terão chegado até Jesus no dia 6 de Janeiro, data que em presentemente se comemora o “Dia de Reis”.

Literatura de tradição oral
O nascimento de Jesus tem múltiplos registos na nossa literatura de tradição oral. No que respeita a ADAGIÁRIO assinalo: “Depois que o Menino nasceu, tudo cresceu”, bem como “Quando o Menino nasceu, tudo cresceu” e ainda: “Um menino nasceu, o mundo tornou a começar”.
No que concerne a CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO, Jesus é identificado como mais pobre que os pobres: "Qualquer filho de homem pobre / Nasce n’um ceo de cortinas. / Só tu, menino Jesus, / Nasceste n’umas palhinhas." Também é dito que passou frio: “Jesus menino, / Mal agasalhado, / Tremendo com frio, / Em palhas deitado.” Todavia, um poeta mais imaginativo, porventura pensando naquilo que não tinha, pintou um menino empanturrado com aquilo que o porco e a terra dão: "Olha o Deus Menino, / Nas palhinhas deitado, / A comer pão e toicinho, / Todo besuntado!”.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

61 - O aguadeiro - 11


Aguadeiro.
Sabina Santos (1921-2005).
Colecção particular.

Figurado de Estremoz – 2 (2ª Parte)
À frente do homem, um burro cinzento de tom variável (AP, MC, LC, SS, IC, IF) ou castanho de tom igualmente variável (MLC, JM), com manchas negras ou simplesmente castanho (QM), que estando a marchar para o esquerdo do observador, apresenta a cauda, comprida e com linhas incisas, viradas para o lado do observador (JM) ou para o lado contrário (AP, MC, LC, SS, MLC, IC, IF, QM).
À excepção de QM, cujo asno não apresenta cascos, todos os outros exemplares (AP, MC, LC, SS, JM, MLC, IC, IF) ostentam cascos pintados a preto e que num dos casos (AP) fazem lembrar sapatinhos.
Na cabeça aparecem linhas que representam a cabeçada que cinge a cabeça e o focinho da cavalgadura, bem como as rédeas para a condução da mesma e que numa representação ingénua e simplificadora, passam por debaixo da albarda, supostamente em direcção à mão do aguadeiro, que está apoiada no quadrúpede. Tais linhas são negras (AP), castanhas em tom variável (MC, JM, SS, MLC, IF) ou cor de zarcão (LC e SS). Um exemplar apresenta cabeçada com volumetria e a castanho, embora esteja implícito que as rédeas passem por debaixo da albarda (IC). Noutro exemplar (QM) e a castanho, a cabeçada apresenta volumetria, tal com as rédeas assentes na manta.
No lombo do asinino está assente uma manta rectangular castanha de tonalidade variável, na qual se apoia uma albarda, igualmente castanha, ornamentada com borlas pintadas de cor azul (AP), verde e vermelho (MC, LC, JM, MLC), preto (SS) ou vermelhas, alternadas com faixas brancas (IF). Num exemplar não existe manta nem albarda (QM) e noutro (IC) não existe albarda e a cangalha assenta directamente sobre a manta.
Sobre a albarda está disposta uma cangalha de tonalidade amarela (AP) ou castanha (MC, LC, JM, SS, IC, MLC, IF). Contudo um dos exemplares (QM) não ostenta cangalhas. Em sua substituição, observa-se aquilo que parece configurar duas golpelhas (alcofas grandes de esparto), de cor castanho-claro, assentes paralelamente no lombo do quadrúpede e cada uma delas, pendendo para qualquer dos lados.
Nas cangalhas e nas golpelhas estão alojados de cada lado do jumento, dois cântaros com tampa, de cor prateada configurando folha metálica e com uma asa constituída por um porção arqueada de arame (AP, MC, LC, JM, SS, MLC, IC). Porém, dois exemplares apresentam asas em barro (QM e IF), o que no segundo caso constituiu uma situação pontual.
O binómio homem-animal assenta numa base trapezoidal de cor verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão e pintada lateralmente desta mesma cor (AP, MC, LC, JM, SS, MLC, IF). Todavia, pode ser integralmente verde (IC) ou verde, pintada lateralmente de zarcão, ainda que rectangular com as extremidades arredondadas (QM). A base trapezoidal pode apresentar os quatro cantos cortados em bisel (SS, IC).


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sua Excelência, a cunha


Brasão dos Cunha

A cunha está na ordem do dia. Porque se trata dum termo susceptível de interpretação bivalente, merece ser analisado à lupa.

A cunha em si própria
A cunha é uma máquina simples que consiste numa peça de aço ou madeira rija, terminada em ângulo diedro muito agudo e que se introduz à força pela aresta correspondente ao ângulo diedro mais agudo, entre as partes dum mesmo corpo que se querem separar. As cunhas permitem fender ou dividir corpos sólidos como madeiras ou rochas, aproveitando sempre que possível quaisquer sulcos, fendas ou veios que aquelas apresentem. Na prática, uma cunha é um duplo plano inclinado transportável, cujo funcionamento obedece ao mesmo princípio do plano inclinado. Ao mover-se no sentido da sua extremidade afilada, a cunha gera forças intensas na direcção perpendicular ao sentido do movimento. A cunha é a base de todas as ferramentas de corte usadas no trabalho de materiais, como o formão, o escopro, o machado, o ferro da plaina, os pregos, as lâminas das facas e das tesouras.
Enquanto máquinas simples, as cunhas estão registadas no adagiário português: “Com cunhas se racham pedras” e “Se não fossem as cunhas, não se rachavam paus”. Na gíria popular, “ À cunha” significa “Completamente cheio”. Em termos de toponímia, “Cunha” é topónimo aplicável a lugares de freguesias e freguesias, havendo ainda que distinguir entre “Cunha Alta”, “Cunha Baixa” e “Cunhas”. O anexim “Cunha” aparece também no contexto das alcunhas alentejanas. A nível de antroponímia, “Cunha” é um sobrenome português e galego de origem toponímica, documentado desde o século XIII e aplicável a inúmeras pessoas notáveis. No que respeita a heráldica, “Cunha” é uma figura heráldica em forma de cunha, o conhecido utensílio dos ra­chadores de lenha, o qual só figura nas armas das famílias com este nome e é representável por um trapézio isósceles com a base virada para cima. Da heráldica dos “Cunha”, muito haveria a dizer, mas que se omite, não por preconceito republicano, mas por real falta de espaço.

A cunha em sentido figurado
Na gíria popular, a palavra “cunha” é usada como sinónimo de “tráfico de influências”. Meter uma cunha” significa “Pedir o favor de uma pessoa influente” e “Ter uma cunha” é “Contar com a protecção de uma pessoa influente”. Daí, que com tal sentido, esteja registada no adagiário português: “Para lá da Gardunha só te safas com uma cunha”. É caso para perguntar:
- E na nossa terra?
A resposta é óbvia:
- Estamos para lá da Gardunha. Existe uma instituição chamada “cunha”!
Diz-nos o adagiário português que, embora haja quem pense que “Um favor qualquer um faz”, isso não exclui a presunção de que “Favores alegados, pagos estão”, bem como “De grandes senhores, grandes favores”, os quais não os farão indiscriminadamente, já que “Favor ao comum, favor a nenhum”.
Há quem diga que isto está a mudar. Eu tenho bastantes dúvidas, já que “A dúvida é a sala de espera do conhecimento” e “Quem duvida não se engana”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A Grande Dama da Ópera deixou-nos


Asta-Rose na Tribuna Real do Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa.



Asta-Rose Jordan Alcaide (1922-2016), ex-bailarina, cenógrafa, figurinista, mestra de dança, conhecida em Brasília como a “Dama da Ópera”, pelo grande incentivo que deu a essa arte na capital, faleceu naquela cidade, na passada 4ª feira, dia 30 de Novembro. Encontrava-se internada em estado de coma no Hospital de Santa Maria, na sequência de um AVC.
A falecida, de 94 anos de idade, era viúva de Tomás de Aquino Carmelo Alcaide (1901-1967), cantor lírico português de projecção internacional, que teve como berço natal a cidade de Estremoz e cuja fama projectou o nome da sua terra para além do âmbito restrito das suas fronteiras, pelas quatro partidas do Mundo.
Asta-Rose partiu, mas a memória viva da grande Dama que foi, permanecerá perene nos nossos corações. A última vez que esteve em Estremoz, foi a 12 de Dezembro de 2011. Nessa data, em cerimónia inesquecível, realizada no Auditório dos Congregados, o Município outorgou postumamente a Tomaz Alcaide, o título de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro da Cidade. Teve lugar seguidamente e com honras militares, a deposição da urna com as cinzas do homenageado, junto ao monumento que perpetua a sua memória, frente à casa que o viu nascer. Nessa altura, Aste-Rose manifestou junto de familiares, a vontade expressa de quando chegasse a sua vez, as suas cinzas repousarem junto às do seu grande amor.
Tomaz e Asta-Rose, juntos em vida, juntos para além da morte. Essa uma das facetas do amor eterno. Seria um gesto muito nobre e que cairia muito bem no coração dos estremocenses, se o Município de Estremoz pudesse corporizar o desejo da ilustre finada, promovendo a trasladação das suas cinzas para Estremoz. Aqui fica a sugestão, à qual julgo o Município não deixará de ser sensível. Enquanto Cidadão Honorário e Medalha de Ouro da Cidade, Tomaz Alcaide também merece isso.
NOTA DE RODAPÉ
O Grupo do PS na Assembleia Municipal de Estremoz, apresentou e viu aprovar por unanimidade a seguinte moção:
A Assembleia Municipal de Estremoz, reunida em sessão ordinária no dia 7 de Dezembro de 2016, manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Asta-Rose Alcaide, ex-bailarina, cenógrafa, figurinista, mestra de dança, de 94 anos de idade, viúva do tenor lírico estremocense Tomás Alcaide e estremocense do coração. A sua partida é uma perda irreparável e deixa mais pobre a cultura luso-brasileira.
Como preito de homenagem a esta figura cimeira da cultura lírica internacional, a Assembleia Municipal de Estremoz, recolhe-se num minuto de silêncio em sua Memória.

Pode ler também:
TOMAZ ALCAIDE HOMENAGEADO EM ESTREMOZ

Tomaz Alcaide com Asta-Rose. Joinville, 1941.
Tomaz Alcaide com Asta-Rose. Estoril, Verão de 1945.
Asta-Rose no seu apartamento em Brasília.
Asta-Rose no seu apartamento em Brasília.
Asta-Rose no seu apartamento em Brasília.
Asta-Rose e Fernando de Carvalho. Estremoz, 2011.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Fora do Mercado

Há cromos que me gostariam de ver a seu lado nas cadernetas em que alguém os assentou. Porém, a minha imagem só está disponível para figurar no meu próprio álbum.
Não sei jogar póquer. Não me presto a bluff ou trapaças. Não pertenço a qualquer naipe. Sou uma carta fora do baralho.
Nas corridas, só aposto num cavalo. Tanto pode ser o ganhador, como um dos perdedores. Porém, é só um cavalo. Aquele em que acreditei.
Para trás deixei genuflexões, beija-mãos, améns e aclamações. Perdi o direito a benesses, prémios, citações, louvores, distinções, comendas, palmas e ovações. Melhor que isso tudo é a sensação única e insubstituível de me sentir igual a mim próprio. E isso não tem preço ou cotação na Bolsa. Está fora do Mercado.

Publicado inicialmente em 11 de Dezembro de 2016