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sábado, 25 de julho de 2026

Uma carta fora do baralho


FIg. 1 - Lote de bonecos de Estremoz adquiridos por Jorge da Conceição no OLX.


Prólogo
Pode parecer um pouco estranho, intitular um texto de barrística de Estremoz, com uma bem conhecida frase idiomática, que aplicada a alguma coisa lhe confere conotação pejorativa por a depreciar. Todavia, a leitura do presente texto, revela que pode não ser assim.

Bonecos comprados no OLX
O barrista Jorge da Conceição colecciona Bonecos de Estremoz, confeccionados pelo avô Mariano da Conceição, pela avó Liberdade da Conceição e pela mãe Maria Luísa da Conceição. Recentemente adquiriu um lote de 3 Bonecos no OLX (Fig. 1), minutos antes de eu dar por eles. Tratava-se das bem conhecidas figuras “Mulher a lavar a roupa” e “Mulher a dobar” da autoria de seu avô e ostentando na base, a bem conhecida marca ESTREMOZ/PORTUGAL, inclinada [i] (Fig. 2). A eles há a acrescentar um terceiro Boneco (Fig. 4), o qual me foi dispensado por aquele barrista, visto não ser do seu interesse. Dele falarei mais adiante.

Produção de Bonecos de Estremoz na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
Os bonecos e as peças de olaria produzidos na Escola Industrial de António Augusto Gonçalves eram vendidos pela Escola, funcionando assim como receita da mesma. Os alunos da Escola recebiam por isso salário, de acordo com notícia do jornal Brados do Alentejo [ii], em 1935. Quando a Escola, designada Escola Industrial e Comercial de Estremoz desde 1948, transitou para o Castelo onde actualmente funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, os alunos continuaram a poder participar na manufactura de Bonecos de Estremoz para vender aos turistas. É o que nos diz o artigo “Primeiro passo: a estante” inserido no “Diário”19 da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, Ano I, nº 57, 28 de Março de 1954 [iii] (2): “Dentro de horas, será inaugurada, ao cimo da escadaria principal da Escola, uma estante. E logo dentro dela surgirão Bonecos de Estremoz, moringues e pucarinhos para vender aos visitantes da torre, que todos os dias são numerosos.
Assim se inicia a grande campanha de angariação de fundos para a compra do que à Escola faz falta, para ser completa a acção cultural e pedagógica.
Dentro de dias, serão convidados alunos de maior mérito artístico a dar a sua colaboração, fornecendo a Escola os materiais e pagando ainda, embora com pouco dinheiro, a mão de obra.
Conseguiremos assim, antes das férias grandes, um enorme sortido de lembranças que, enquanto estivermos a descansar, irão creando dinheiro para, quando voltarmos, então poder-mos dar início às nossas compras.
Mas podem haver outras ideias. Elas que venham, pois muitas cabeças a pensar será concerteza melhor do que uma só.”

A marcação dos Bonecos da Escola
Os Bonecos comercializados pela Escola, ostentavam a marca do carimbo “ESTREMOZ / PORTUGAL” (2 cm x 0,8 cm) (Fig. 3). Trata-se do carimbo mais usado por Mariano da Conceição. O carimbo, foi de resto utilizado por sua mulher Liberdade da Conceição, sua filha Maria Luísa da Conceição e seu neto, Jorge da Conceição. Como estes quatro membros do clã alfacinha usaram todos esta marca, só a tipologia de modelação e/ou de decoração, permite identificar o autor de um determinado boneco com a referida marca.
Mariano não terá usado em exclusivo o carimbo de que venho falando, já que no Museu Municipal de Estremoz existem exemplares da aquisição feita à Escola Industrial António Augusto Gonçalves em 1941, que ostentam a marca do citado carimbo e não apresentam as características da modelação de Mariano. Trata-se de figuras afeiçoadas por alunos e que eram também comercializadas pela Escola.

Um boneco singular
O terceiro Boneco (Fig. 4) é um exemplar que não pertence aos chamados “Bonecos da Tradição”, conjunto de cerca de 100 figuras que através dos tempos, têm sido produzidas pela maioria dos barristas.
Trata-se de um pastor de chapéu aguadeiro na cabeça, com a perna esquerda ajoelhada e a perda direita dobrada e assente no solo. Usa safões que lhe protegem as pernas e samarra que lhe protege o peito, as costas e o traseiro. À sua direita tem o cajado assente no solo. À frente tem um tarro com comida. A mão direita empunha uma colher e a mão esquerda apoia-se na perna direita.
Trata-se de uma figura extraída da parte de um todo que é lhe anterior, figura essa conhecida por “Maioral e ajuda a comer” [iv] (Fig. 6). Na base figura a marca manuscrita “Estremos / Portugal”.
Uma vez que esta figura integrava o lote adquirido pelo barrista Jorge da Conceição, na qual existiam dua figuras do seu avô, Mestre Mariano da Conceição, sou levado a admitir que possam ter sido adquiridas na Escola e esta última tenha sido produzida por um aluno. Não há dúvida que se trata de uma figura singular, já que o autor produziu um Boneco que não se integra no chamado conjunto dos Bonecos da Tradição, além de que pompeia manuscrita, a marca “Estremoz / Portugal”, o que é invulgar. Daí lhe termos atribuído o epíteto “Uma carta fora do baralho”, recorrendo a uma bem conhecida frase idiomática, que integra a gíria popular portuguesa.

Epílogo
O presente texto ficaria incompleto, se não se atribuísse um nome à figura que está na sua origem. Ora, uma vez que ela é uma parte da bem conhecida figura composta “Maioral e ajuda a comer”, julgo não ser despropositado chamar-lhe “Maioral a comer”.





[i] A inclinação da marca deve-se ao facto de ela ser obtida pela percussão de um carimbo, constituído por duas filas de caracteres tipográficos verticais, ligados por um fio que ao dar de si, permitiu que as letras da marca ficassem inclinadas.
[ii] Escola Industrial António Augusto Gonçalves in Brados do Alentejo nº 239, 25/08/1935. Estremoz, 1935 (pág. 1).
[iii] O “Diário” era dactilografado a preto e com títulos a vermelho, Os cabeçalhos eram desenhados pelos alunos com mais jeito para desenho. Em todos os cabeçalhos figurava do lado esquerdo, um carimbo batido a preto, que funcionava como logótipo da Escola. Nele figuram um moringue e um púcaro, simbolizando o Curso de Olaria. Aparecem ainda um picão, uma maceta e um escopro, simbolizando o Curso de Cantaria. O conjunto é completado por um ramo de uma planta não identificada, sendo encimado pela legenda “ESCOLA IND. E COMERC. DE ESTREMOZ”, ao longo de um círculo. As datas de publicação do Diário foram as seguintes: Ano I - nº 1 - 9/2/1954, até nº 103 -23/6/1954; Ano II - nº 1 -1/10/1954, até nº 194 - 18/6/1955.
[iv] Na “Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz” da extinta olaria Alfacinha, existe uma figura composta, designada por “Pastores a merendar”. A meu ver, trata-se de uma designação inadequada, já que a representação de dois pastores a comer, não permite concluir se eles estão ou não a merendar. Para além disso, aquela designação não traduz a existência de uma hierarquia entre eles. Daí, que a meu ver, a designação mais adequada para a composição seja “Maioral e ajuda a comer”.

Publicado em 2 de Janeiro de 1922

Fig. 2 - Marca de carimbo" ESTREMOZ / PORTUGAL", com as letras inclinadas.

Fig. 3 - Marca de carimbo" ESTREMOZ / PORTUGAL", com as letras na posição normal.


Fig. 4 - Maioral a comer.

Fig. 5 - Marca manuscrita "Estremos / Portugal".  


Fig. 6 - Maioral e ajuda a comer. Mariano da Conceição. Museu Rural de Estremoz.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 4 - SOLISTAS

 

8 - Pastor do harmónio (Mariano da Conceição)
9 - Tocador de harmónio (Liberdade da Conceição)
10 - Tocador de harmónio (Maria Luísa da Conceição)
11 - Pastor do harmónio (Maria Luísa da Conceição)

4 - SOLISTAS

Os solistas são músicos que executam uma peça musical ou parte dela, sozinhos ou em destaque num grupo musical. No figurado de Estremoz podem-se considerar solistas os Tocadores de Harmónio, dos quais figuram na colecção, 19 exemplares manufacturados por Mariano da Conceição (1), Sabina Santos (4), Liberdade da Conceição (2), José Moreira (4), Fátima Estróia (1), Irmãs Flores (1), Mário Lagartinho (1), Maria Luísa da Conceição (2), Quirina Marmelo (1), Duarte Catela (1) e Ricardo Fonseca (1). O exemplar deste último barrista é acompanhado dum desenho onde o barrista nos mostra as sucessivas fases de execução do seu Boneco.

Para além dos Tocadores de Harmónio, a colecção apresenta 6 outros solistas como Trovador (Irmãs Flores), duas figuras diferentes de Preto Guitarrista (Irmãs Flores), Figura de Entrudo com Pandeireta (Irmãs Flores), Tocador de Gaita de Foles (José Moreira) e Tocador de Guitarra (José Moreira).  

Hernâni Matos

12 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
13 - Pastor do harmónio (Sabina Santos)
14 - Tocador de harmónio (Sabina Santos)


15 - Pastor do harmónio (Fátima Estróia)
16 - Pastor do harmónio (Irmãs Flores)
17 - Pastor do harmónio (Mário Lagartinho)
18 - Pastor do harmónio (Quirina Marmelo)
19 - Pastor do harmónio (Duarte Catela)

20 - Pastor do harmónio (Ricardo Fonseca)

21 - Pastor do harmónio (José Moreira)
22 - Tocador de harmónio (José Moreira)
23 - Tocador de harmónio (José Moreira)
24 - Tocador de gaita de foles (José Moreira)
25 - Tocador de guitarra (José Moreira)

26 - Trovador (Irmãs Flores)
27 - Figura de Entrudo com pandeireta (Irmãs Flores)
28 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)
29 - Preto guitarrista (Irmãs Flores)

domingo, 28 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS / 3.1 - Bandas Filarmónicas


Banda Filarmónica (Jorge Carrapiço)


3 - BANDAS E OUTROS CONJUNTOS

3.1 - Banda Filarmónica (Jorge Carrapiço e outros)

No concelho de Estremoz existem 3 Bandas de Música: Sociedade Filarmónica Luzitana, Sociedade Filarmónica Veirense e Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, que actuam em eventos religiosos (procissões, missas, funerais e romarias) e eventos civis (concertos, desfiles, festas e touradas).

Um dos eventos religiosos em que as Bandas participam é a Procissão do Senhor Jesus dos Passos, perpetuada no barro por Mariano da Conceição nos anos 40 de séc. XX. Nela o barrista incluiu uma Banda de Música. De então para cá, os barristas de Estremoz, cada um deles com o seu estilo muito próprio, têm modelado Bandas de Música, nas quais é variável o número e o tamanho dos executantes, o tipo de instrumentos usado, bem como o figurino e as cores do fardamento.

Em geral, as Bandas produzidas pelos nossos barristas e cuja beleza não está em causa, foram modeladas de um modo ingénuo que já vem detrás e também ao sabor do momento. Só assim se explica que algumas dessas Bandas possam não apresentar instrumentos que são fundamentais e incluam outros que pouco sentido fazem numa Banda (ferrinhos, maracas, pandeiretas), bem como instrumentos cuja definição não permite saber o que são.

A presente colecção integra uma Banda de Música de José Moreira (12 figuras) e outra de Quirina Marmelo (10 figuras), as quais apresentam algumas das características acima referidas, o que me levou a desejar possuir uma Banda de Música que traduzisse no barro com naturalismo, todo o contexto que lhe está associado.

A banda viria a ser executada pelo barrista Jorge Carrapiço, bisneto de Ana das Peles, músico e executante de trombone na Sociedade Filarmónica Artística Estremocense. Na execução da Banda foi fundamental a consultadoria do Maestro Mário Tiago da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, que definiu o número de executantes de cada instrumento, bem como a sua posição dentro do conjunto, como se tratasse de uma Banda real. Os instrumentos que a integram pertencem a diferentes categorias: PERCUSSÃO [caixa (2), bombo (1), pratos (1)], METAIS [tuba (1), trombone (1), contrabaixo (1), bombardino (1), trompa (1), trompete (2)], PALHETAS [clarinete (4), sax alto (1), sax barítono (1), sax tenor (1)] e FLAUTAS [flauta (2)]. Ao todo são 22 figuras, número que inclui o Maestro e o Porta-estandarte. O barrista-músico Jorge Carrapiço empenhou-se de alma e coração na criação daquela que passará agora a ser a sua Banda de Música. À simplicidade na modelação das figuras, Jorge Carrapiço acrescentou a definição de todos os instrumentos musicais, à maneira de uma Banda real, sem que cada figura perdesse o seu cunho verdadeiramente popular. Tudo faz sentido na Banda de Música de Jorge Carrapiço, a começar pelos instrumentos musicais que ali estão porque ali não podiam faltar e que estão onde deviam estar.

A Banda de Música de Jorge Carrapiço passa a partir de agora e por direito próprio a integrar a História dos Bonecos de Estremoz, visto que com ela ocorreu uma mudança de paradigma, facto que aqui atesto e registo para memória futura.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / 1 - IMAGENS DEVOCIONAIS


1 - Berço dos anjinhos (Ricardo Fonseca)

Colecciono Bonecos de Estremoz há mais de 50 anos, ao longo dos quais tenho elaborado uma colecção generalista, abarcando figuras de temas diversos, criadas por diferentes barristas desde o séc. XVIII até aos dias de hoje.

Uma colecção generalista permite a partir dela extrair várias subcolecções temáticas. Daí que tenha efectuado uma selecção de 281 exemplares do meu acervo pessoal de diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz e com eles estruturado uma colecção com unidade temática, intitulada “A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ”. A mesma integra exemplares da autoria de 21 barristas: Ana Bossa, Ana Catarina Grilo, Ana das Peles, Carlos Alberto Alves, Duarte Catela, Fátima Estróia, Inês da Conceição, Inocência Lopes, Irmãs Flores, João Sousa, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Manuel Broa, Mariano da Conceição, Maria Luísa da Conceição, Mário Lagartinho, Quirina Marmelo, Ricardo Fonseca e Sabina da Conceição Santos.

Com aquela colecção e em parceria com o Museu Municipal de Estremoz foi possível organizar a exposição “A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS”, a qual se integra no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade e estará patente ao público na Galeria Municipal D. Dinis, entre 16 de Maio e 6 de Setembro de 2026.

A exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Divulgar os Bonecos de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade; - Realçar os Bonecos de Estremoz como registos materiais da identidade cultural local; - Homenagear o saber-fazer dos barristas locais.

A exposição que tem como fio condutor o tema “Música”, foi estruturada de acordo com o seguinte plano exposicional:

1 - Imagens Devocionais; 2 - Alegorias da Música; 3 - Bandas e Outros Conjuntos; 4 - Solistas; 5 - Assobios.
Seguidamente passarei em revista cada uma das divisões do presente plano.

1 - IMAGENS DEVOCIONAIS

Berço dos anjinhos (Ricardo Fonseca)

No berço do Menino Jesus (Berço dos anjinhos), o galo está ladeado de dois anjinhos, mensageiros de Deus junto dos homens. Ostentam asas numa alusão clara à sua capacidade de ascensão ao Céu. São em número de dois, já que Jesus Cristo manifesta dois aspectos: o Divino e o humano. Tocam trombeta, instrumento musical usado para anunciar os grandes acontecimentos históricos e cósmicos. As trombetas associam aqui o Céu e a Terra numa celebração única: o nascimento de Jesus Cristo.

Santa Cecília (Ana Catarina Grilo)

Santa Cecília é a Padroeira dos músicos e da música sacra, frequentemente representada com os seus principais atributos: lira, palma do martírio, coroa de rosas e livro. O simbolismo destes é o seguinte: LIRA (ligada à tradição de que cantava no seu interior a Deus, enquanto os instrumentos soavam no seu casamento); - PALMA (Símbolo da vitória sobre o martírio e a morte); - COROA DE ROSAS (Símbolo da sua virgindade e castidade); - LIVRO (Símbolo da palavra de Deus e do Canto Litúrgico).  

Hernâni Matos


2 - Santa Cecília (Ana Catarina Grilo)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Hernâni Matos e os Bonecos de Estremoz


Hernâni Matos


Alentejano dos barros de Estremoz, onde nasceu em 1946. Professor e guardador de memórias, entre elas as guardadas no barro. Reconhecido como recolector e investigador da Cultura Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.

Coleccionador de Bonecos de Estremoz há mais de 50 anos, tornou-se investigador da Barrística Popular Estremocense, tendo desde os primórdios deste século, dando um forte contributo para o aprofundamento e consolidação da sua História.

Teve um papel entusiasta na promoção do Figurado em Barro de Estremoz, especialmente no contexto da sua elevação a Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2017. Nesse sentido, entre 2014 e 2017, durante 70 números, manteve no jornal regionalista Brados do Alentejo, uma secção dedicada aos Bonecos de Estremoz.

Após a proclamação dos Bonecos de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade, centrou a sua actividade como publicista, divulgador e investigador da Barrística Popular Estremocense, no jornal E de Estremoz, onde desde a primeira hora é colaborador.

Desde Fevereiro de 2010 que mantém o blogue “DO TEMPO DA OUTRA SENHORA”, dedicado à Cultura Portuguesa e muito em especial aos Bonecos de Estremoz, relativamente aos quais já efectuou mais de 300 publicações no blogue desde 2014.

Como corolário natural de um dos seus múltiplos percursos de vida, o de coleccionador e investigador da Barrística Popular Estremocense, publicou o livro BONECOS DE ESTREMOZ, editado em 2018 pelas Edições Afrontamento, por muitos considerado uma bíblia, no sentido metafórico do termo. A obra é um testemunho de amor aos Bonecos de Estremoz. Mas é igualmente e sobretudo um livro de respeito e admiração por todos os barristas do passado e do presente, sem excepção.

Conferências proferidas sobre Bonecos de Estremoz: 

2013

Mestre Mariano da Conceição (O Alfacinha)”. Estremoz, Escola Secundária da Rainha Santa Isabel, 15 de Fevereiro de 2013.

2017

O Figurado de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2017?” nas 2.ªs Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial do Alentejo. Elvas, Auditório São Mateus, 16 de Setembro de 2017.

O Figurado de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2017?”. Lisboa, Academia Portuguesa de História, 13 de Novembro de 2017.

2018

“Bonecos de Estremoz, Património Cultural Imaterial da Humanidade” na tertúlia “Uma Conversa Por Mês” da Academia Sénior de Sousel. Sousel, Biblioteca Municipal Dr. António Garção, 24 de Abril de 2018.

2019

“BONECOS DE ESTREMOZ - Bons filhos à casa tornam”. Estremoz, Auditório da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel, 28 de Maio de 2019.


Exposições na actualidade:

- A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ - COLECÇÃO HERNÂNI MATOS. Integrada no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade. Galria Municipal D. Dinis, 16 de Maio a 6 de Setembro de 2026.

domingo, 31 de maio de 2026

Exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ - Galeria Municipal D. Dinis

 


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 


IIntegrada no Programa das Comemorações do Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade, foi inaugurada pelas 17 horas de sábado, dia 16 Maio, na Galeria Municipal D. Dinis, a exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS.

No evento participaram cerca de 4 dezenas de convidados, os quais foram conduzidos pelo expositor numa visita guiada à exposição.

No certame está patente ao público um total de 281 exemplares seleccionados do acervo pessoal de diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz pertencentes à colecção particular do expositor.

Os Bonecos de Estremoz expostos são da autoria de 21 barristas: Ana Bossa, Ana Catarina Grilo, Ana das Peles, Carlos Alberto Alves, Duarte Catela, Fátima Estróia, Inês da Conceição, Inocência Lopes, Irmãs Flores, João Sousa, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, José Moreira, Liberdade da Conceição, Manuel Broa, Mariano da Conceição, Maria Luísa da Conceição, Mário Lagartinho, Quirina Marmelo, Ricardo Fonseca e Sabina da Conceição Santos.

A mostra estará patente ao público até ao próximo dia 15 de Setembro.

Hernâni Matos











domingo, 12 de abril de 2026

Armando Alves, um amigo que partiu

 

1 – Armando Alves (1935-2026).

Falar de amigo
O artista plástico e designer gráfico Armando Alves (Fig. 1), natural de Estremoz e figura incontornável da arte contemporânea portuguesa, faleceu no passado dia 31 de Março, em Matosinhos.
Radicado naquela região desde a sua juventude, manteve desde sempre uma forte ligação ao Alentejo e à cidade que o viu nascer. Aqui regressava amiúde ou não fosse o Alentejo o tema central da sua obra.
O Armando, assim o tratava, concedera-me há muito o privilégio da sua amizade e franqueara-me igualmente as portas da sua casa em Estremoz. Sempre que o entendia e sobretudo quando não nos encontrávamos no Café Alentejano, o Armando telefonava-me para aparecer lá por casa (Fig. 2), geralmente para me dar conta de um projecto ou de uma exposição que aí vinha. Era enriquecedor falar com ele. Para além disso, creio que o Armando gostava de falar comigo e tinha apreço pela minha opinião, o que eu naturalmente retribuía.
Num momento que é de dor e de profundo pesar para a Família e para os amigos, entendi ser desajustado falar aqui da sua vida e da sua obra, repetindo o que tem sido publicado nos jornais nos últimos dias, a partir de catálogos das suas muitas exposições e com referências a opiniões de críticos de arte. Seria desconfortável fazê-lo e eu não quero ir por aí. Prefiro dar conta do que foi a minha interacção com o Armando. Essa a forma encontrada de partilhar com a Família e os amigos tudo aquilo que me vai na alma, bem como honrar a sua Memória.

Companheiros de estrada

2 – Hernâni Matos e Armando Alves no atelier deste último em Estremoz, Março de 2013. 

O Armando é da “colheita de 1935” e eu sou da “colheita de 1946”, o que levou o Armando a dizer-me uma certa vez: - “Tu és um rapaz comparado comigo” e tinha razão. O Armando acabou o Curso de Pintura da Escola de Belas Artes do Porto com média de 20 valores em 1962 e entrou logo para Assistente da mesma. Por essa altura eu tinha 16 anos e ainda andava a cabular no Colégio do Mota, em Estremoz. De qualquer modo, já o conhecia da livraria do Aníbal, onde ele tertuliava sempre que vinha do Porto. Eu era um puto do Cine Clube de Estremoz e por ali cirandava, para ouvir os mais velhos falarem de coisas que eu gostava de ouvir.
Um dia deixei der ser puto e tive de ir para a Universidade. A minha escola de vida deixou de ser a livraria do Aníbal e passou a ser a Associação de Estudantes da minha Faculdade. Então passei a encontrar o Armando ainda menos.
Regressado a Estremoz em 1972, passei a intervir activamente nas actividades culturais a nível local, sobretudo a partir dos anos 80 do século passado. É uma altura em que se vai consolidando em mim a imagem do Armando enquanto artista plástico e gráfico, o que me conduz a um elevado apreço pela sua Obra. Apesar disso, os encontros entre nós são casuais, quase sempre no Café Alentejano, local historicamente ligado à sua Família. A partir do novo milénio, os nossos encontros passam a ser mais frequentes e por vezes com grande gáudio meu, o Armando tem a gentileza de me oferecer um catálogo da sua mais recente exposição. Com a criação em 2009 do meu blogue “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, passo a fazer a divulgação das mesmas, o que por vezes também faço na imprensa local. Foi assim que eu, guardador de memórias e contador de estórias, me tornei companheiro de estrada do Armando.

O Armando, Bonequeiro de Estremoz

3 - Armando Alves com a idade de 14 anos.
 Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).

Após me aposentar em 2008, tive acesso ao Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Foi então que descobri que o Armando (Fig. 3), nascido em 1935, entre 1942 a 1945 frequentara a Escola Primária do Castelo, situada no actual edifício do Museu Municipal de Estremoz. De 1946 a 1949, frequentou o Colégio do capitão Grincho e, de 1949 a 1952, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Estremoz, onde teve aulas de oficinas de olaria com Mestre Mariano da Conceição.
Foi no ano lectivo de 1951-52, já com a Escola Industrial e Comercial de Estremoz instalada no Castelo, no local onde hoje funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, que o Armando começou a confeccionar os seus Bonecos de Estremoz.
O trabalho de modelação, cozedura, pintura e envernizamento era feito na própria Escola. O Armando não terá feito mais que 10 modelos de Bonecos: - Figuras que têm a ver com a realidade local: Amazona, Leiteiro, Mulher a vender chouriços e Homem do harmónio; - Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico: Mulher a lavar; - Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas: Ceifeira, Mulher da azeitona, Pastor de tarro e manta, Pastor com um borrego e Pastor do harmónio (Fig. 4).

4 - O Pastor do harmónio criado pelo jovem Armando
no ano lectivo de 1951-52.

Ao todo, não terá manufacturado mais de cinquenta Bonecos, os quais eram comercializados na Papelaria Ruivo, situada no Largo da República, 24, em Estremoz, exactamente um dos locais em que também eram comercializados os Bonecos de Mestre Mariano da Conceição. Fê-lo a pedido da proprietária, a sua tia Joana Ruivo. Cada figura era vendida ao preço de vinte e cinco tostões, enquanto os de Mestre Mariano custavam 12$50.

5 - A marca "Armando" manuscrita, pintada a verde na base do “Pastor do harmónio”.

Mestre Mariano marcava os seus Bonecos, estampando na base a marca ESTREMOZ/PORTUGAL em maiúsculas, distribuídas por duas linhas. Porém, o jovem Armando vai além do Mestre e assina simplesmente “Armando” (Fig. 5), em caracteres manuscritos. Fá-lo a verde, o verde da esperança e das searas que, já doiradas, ondularão mais tarde as suas telas de artista consagrado. Tratou-se então de uma aposta forte, visando o futuro, uma espécie de premonição da Obra que iria construir. Daí a razão de assinar simplesmente “Armando”. Sabem porquê? É simples. Toda a gente sabe quem é o Armando. Pois claro! É um consagrado artista plástico a quem José Saramago prestou tributo, chamando-lhe “Inventor de Céus e Planícies”.
O Armando não fazia ideia de quem eram as pessoas que compravam os seus Bonecos. Todavia, lembra-se da tia uma vez lhe ter dito que uma dessas pessoas era o coleccionador e médico calipolense, Dr. Couto Jardim (1879-1961).

Eu, o Armando e a Colecção Pinto Tavares
Em data que não consigo precisar, comprei ao Alfarrabista António Oliveira, de Évora, o catálogo da Exposição de Barristas Alentejanos realizada em Évora em 1962, onde participou a afamada ex-colecção de Bonecos de Estremoz do Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945), em nome das suas filhas Maria Filipina Avelar e Guilhermina Avelar. Ora eu sabia quem é que tinha sido a herdeira desta última senhora e seria na posse dela que deveria estar a famosa colecção do Tenente-coronel. Todavia, não ousei fazer nenhuma proposta de compra e deixei andar.
Por necessidade, a herdeira vendeu a colecção em 2011 a um comerciante do Mercado das Velharias, que por sua vez a vendeu ao Armando. Trata-se de uma extraordinária colecção de Bonecos de Estremoz de finais do séc. XIX, que me escapou das mãos porque eu cheguei ao Mercado às 8 da manhã e ele tinha chegado mais cedo. Acreditem ou não, fiquei abalado psicologicamente por causa dessa perda e andei doente durante uma semana ou mais. Valeu-me a abertura do Armando que me permitiu fotografar os bonecos, visando o seu estudo posterior.

Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo

6 – Cartaz do II TORNEIO DE BILHAR “ANTÓNIO TELMO” (2014),
da autoria de Armando Alves.

Em 23 e 24 de Agosto de 2014 tiveram lugar em Estremoz, as “Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo”. Tratou-se duma iniciativa do Círculo António Telmo, associação cultural cuja missão é preservar a memória e o legado daquele pensador. As comemorações incluíram o “II Torneio de Bilhar António Telmo” e um almoço, ambos realizados na Sociedade Recreativa Popular Estremocense (Porta Nova), da qual o Armando e o António Telmo eram sócios e onde jogavam ao bilhar, do qual eram praticantes exímios.
Cerca de um mês antes, o Armando encontrou-me, mostrou-me o magnífico cartaz (Fig. 6) que tinha criado para o torneio de bilhar e procurou envolver-me na organização do evento. Disse-lhe que nem era do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova e nem sequer sabia jogar bilhar. Não serviu de nada, porque me deu a volta quando meteu os Bonecos de Estremoz à baila, dizendo:
- “Que dizes a mandarmos fazer um Boneco de Estremoz para servir de troféu a disputar no torneio?’’
Caí que nem um patinho ao responder:
- “A ser criado um Boneco para esse efeito, deveria configurar o António Telmo a jogar o bilhar, de chapéu na cabeça e tudo!
Era o que ele queria ouvir, pelo que me disse mais ou menos isto:
- “Boa ideia! Encarregas-te de o mandar fazer?”
- “Naturalmente que sim e é às Irmãs Flores” – disse eu, acrescentando:
- “Um desenho teu ajudava muito”.
O desenho surgiu ali de imediato, feito enquanto “O diabo esfrega um olho”. Passado 15 dias, o Boneco estava pronto (Fig. 7), feito a 4 mãos, pelas consagradas barristas Irmãs Flores (o jogador de bilhar), pelo seu também consagrado sobrinho Ricardo Fonseca (mesa de bilhar) e pelo próprio Armando (o taco de bilhar em madeira).

7 - Jogador de bilhar (2014). Irmãs Flores (1957, 1958- ) e Ricardo Fonseca (1986- ). 
Composição projectada pelo pintor Armando Alves para servir de troféu em disputa
no II Torneio de Bilhar "António Telmo". Colecção da Sociedade Recreativa Popular
Estremocense (Porta Nova), Estremoz.

O tempo foi passando e cerca de uma semana antes do evento, eu não sabia nada, a não ser que havia um cartaz distribuído e um troféu a atribuir. Como sou dado a minudências, perguntei-lhe:
- “Ouve lá Armando, quem é que vai falar no início da cerimónia?”
Mais valia ter ficado calado, já que a resposta veio de imediato:
- “Conversas é contigo, que eu já fiz o cartaz”.
Estava tudo a correr tão bem, que não seria eu que iria estragar a festa, borrando a escrita. Foi assim que não sendo do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova, nem jogador de bilhar, me coube a incumbência de “botar faladura” no início da cerimónia. Para complicar a coisa e pese embora o respeito e consideração que nutro pela figura do António Telmo, eu era um desconhecedor do pensamento télmico. Que fazer então? Só tinha uma saída: falar de bilhar. Foi o que fiz, assumindo a pele de contador de estórias. Lá gizei um texto a que dei o título “António Telmo e o bilhar”. No dia e à hora aprazada lá estava eu a “soltar o verbo”, acabando por ser aplaudido no final, tanto por télmicos como por bilharistas e ainda por aqueles que não eram nem uma coisa nem outra. Senti-me aliviado, porque tinha conseguido “descalçar a bota” que o Armando me “enfiara no pé”.

Apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”

8 - Mesa da apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, em Dezembro
de 2014. Da esquerda para a direita, Hernâni Matos, Armando Alves e Luís Mourinha.

Em 6 de Dezembro de 2014 fiz a apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, no auditório da Casa de Estremoz (Fig. 8).
A obra, uma colectânea de depoimentos em prosa e em verso, constitui um tributo ao Armando. O livro, publicado pela editora “Modo de Ler”, foi prefaciado por Isabel Pires de Lima e congrega textos de 53 autores, entre os quais Albano Martins, António Simões, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Hernâni Matos, José Saramago, Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Urbano Tavares Rodrigues e Vasco Graça Moura.
A apresentação da obra esteve a meu cargo e contou com a presença de Armando Alves e de Luís Mourinha, Presidente do Município, o qual presidiu ao evento. Foi depois visionado o vídeo “Armando Alves, 60 anos de Pintura”, seguindo-se a leitura de poemas e de textos por Adelaide Glória, Francisca Matos, Odete Ramalho e Zulmira Baleiro.
Na apresentação que fiz do livro, tive a oportunidade de afirmar: “”Escrito na cal e outros lugares poéticos” é um tributo à Obra ímpar de Armando Alves. Não um tributo de medieva vassalagem ao poder de um senhor da terra, mas o reconhecimento e a exaltação da dimensão intelectual daquele a quem outorgamos os títulos de “senhor da luz” e de “príncipe das cores”, e que, com os seus pincéis mágicos, povoa as telas que nos embriagam os sentidos.
Imagens que têm forma, volume, medida, profundidade, cor, textura, contraste, luminosidade e brilho. Telas que têm vida e respiram como nós. Cores que bailam porque ecoa na planície o som ritmado do tocador de harmónio do jovem Armando.
O Armando é um seareiro que desbrava as telas para nelas fazer as suas searas, que de verde se transmutam em oiro. Searas cujo ondular se pressente e se sente com o Suão. Mas o Armando é também o semeador que, com o seu gesto augusto, lança a cor à tela para que dela desponte vida que é pão de espírito para todos nós.”

Capa do meu livro “FRANCO-ATIRADOR”

9 - Capa do livro FRANCO ATIRADOR, de Hernâni Matos, editado em 2012 pela Colibri, com capa da
autoria de Armando Alves.

Em 2017 publiquei através das Edições Colibri, o livro FRANCO-ATIRADOR (Fig. 9), cujo tema central é o exercício da cidadania nos seus múltiplos aspectos por um alentejano de Estremoz, que por sinal sou eu.
O livro tinha que ter uma capa, pelo que eu, zeloso do conteúdo do livro, não queria uma capa qualquer. Ora, é sabido que uma capa do Armando é uma obra de arte. Daí que lhe tenha ido “bater à porta” e pedido para criar a capa, ao que ele acedeu sem hesitação alguma. O resultado é bem conhecido e nela está magistralmente expresso o Alentejo vermelho das terras de barro de Estremoz, gravado não só na sua como na nossa alma e que sob a direcção atenta e calorosa do seu olhar de visionário, as suas mãos sabiam transmitir com mestria a tudo aquilo que fazia. A capa do Armando elevou o livro a uma dimensão superior àquela que já tinha. Fiquei-lhe infinitamente grato por isso.

Grafismo do meu livro “Bonecos de Estremoz”

10 – Livro BONECOS DE ESTREMOZ, de Hernâni Matos, editado em 2018
pela Afrontamento, com grafismo de Armando Alves.

Independentemente do conteúdo textual de uma obra, a sua impressão graças aquilo que em tempos remotos foi adjectivado como “Divina Arte Negra”, não passa de uma floresta mais ou menos densa de caracteres que traduzem aquilo que se passou na alma do autor. É certo que a inserção de imagens quebra a monotonia da floresta textual. Todavia a sua distribuição ao longo do texto não pode ser arbitrária. É preciso um arquitecto paisagista que reestruture a paisagem, que a organize e valorize cromaticamente para deleite visual dos futuros leitores. A gestão do espaço-tempo do livro passa assim pela sua reformulação topológica, conferindo-lhe cor, ritmo, harmonia, beleza, vida e alma. É esse o papel do designer gráfico, que no caso do meu livro “Bonecos de Estremoz” (Fig. 10), editado em 2018 pela Afrontamento, foi o maior de todos eles desde sempre, o Armando. A sua Mestria valorizou muito o livro, o que muito me congratula e honra.
O livro há muito esgotado, é hoje uma preciosidade bibliográfica e uma raridade alfarrabística. Aguarda que alguém com responsabilidades na salvaguarda do Boneco de Estremoz, esteja disponível para patrocinar uma reedição, a qual é do interesse público.

Para ti, Armando
Sei da tua preocupação e mesmo tristeza em teres visto passar o tempo e não veres edificado “in loco” o teu Monumento ao Boneco de Estremoz. Sei mesmo da tua dor, sobretudo pela premência da transmissão do sentido simbólico do Monumento - a celebração e homenagem aos barristas do passado e do presente, aliada à valorização dos barristas do presente, enquanto elemento vivo de Estremoz.
Lamento dizer-te que a concretização da edificação do teu Monumento ao Boneco de Estremoz, tal como diz o povo, “Ficou em águas de bacalhau”, que é o mesmo que dizer “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes!”. Que fazer então? “Ficar à espera do amanhã que há de vir”? E mais não digo, por receio de errar.
Para ti, Armando, um fraternal abraço do Hernâni. Até sempre, amigo!

Publicado em 12 de abril de 2026



Publicado no jornal E, nº 377 de 10 de Abril de 2024