sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma cigarreira real?



Um artefacto votivo
Sou um velho frequentador da Feira das Velharias, em Estremoz. Tal condição não impede, todavia, que por vezes, me sinta maravilhado face à descoberta de uma peça que me fascina o olhar, extasia a alma e cativa o espírito. Dai que não me reste outra solução, que não seja adquiri-la para a estudar, falar com ela e descobrir o que ela tem para me dizer. Foi o que aconteceu com a bela cigarreira em madeira, recentemente obtida, cuja imagem reproduzo e que sem mais delongas passo a descrever.
Trata-se de uma cigarreira com a forma de um sólido regular oco, constituído por duas partes: o recipiente e a tampa que nele encaixa, qualquer deles de secção elíptica, com eixo maior de 6,3 cm e eixo menor de 2,8 cm. A altura da cigarreira é de 9,8 cm e o seu peso de 76 g. O fundo do recipiente e o topo da tampa são lisos.
É uma extraordinária peça de arte pastoril alentejana, em madeira, finamente lavrada em qualquer das faces. Uma delas está decorada com motivos vegetalistas e ostenta ao centro a coroa real, encimada por quatro trevos de quatro folhas. Tradicionalmente, o trevo de quatro folhas é considerado um poderoso amuleto. Incluir na decoração de um objecto, um trevo de quatro folhas, é formular ao seu proprietário, votos de prosperidade, saúde e fortuna. Há quem considere ainda que cada folha do trevo tem um significado próprio: Esperança, Fé, Amor, Sorte, bem como o número de folhas (4) - representa um ciclo completo, como as 4 Estações, as 4 fases da Lua ou os 4 elementos da Natureza: Ar, Fogo, Terra e Água, conforme a “Teoria dos 4 Elementos” de Aristóteles (384-322 a.C.).
Na outra face observa-se uma dupla cercadura, na qual estão inseridas de cima para baixo, as inscrições ALB (na tampa), 1875 (no recipiente), seguindo-se ainda neste, um sulco quadrangular, onde eventualmente poderá ter existido um embutido. Mais abaixo está aberto um malmequer.
A inscrição ALB corresponderá às iniciais do nome do proprietário e 1875 será o ano de manufactura da cigarreira. Quanto ao malmequer, simboliza em termos florais, o ouro, a prata e o dinheiro, pelo que reforça os votos de fortuna manifestados ao possuidor da cigarreira.

Um rei fumador
Em 1875 ocupava o trono português, Sua Majestade Real El-Rei D. Luís I, O Popular, filho segundo de D. Maria II (1819-1853), A Educadora e de D. Fernando II (1816-1885), O Rei-Artista. Primorosamente educado, D. Luís I tinha temperamento de literato e de artista. O seu reinado notabilizou-se materialmente pelo progresso, socialmente pela paz e pelos sentimentos de convivência, politicamente pelo respeito pelas liberdades públicas, intelectualmente por uma geração notável (Adolfo Coelho, Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Manuel Arriaga, Teófilo Braga, etc.).
D. Luís I, que era fumador, diz em carta de 1862 dirigida a sua esposa a Rainha Dona Maria Pia de Sabóia (1847-1911), A Mãe dos Pobres:
Quando se esteve no mar, quando se viu a morte à frente dos olhos, quando se julga que nunca mais veremos os nossos, o cigarro faz as vezes de amigo e de companheiro, fazendo voar os pensamentos tristes, da mesma maneira que o fumo se agita ao vento. Eu viajei bastante servindo na marinha, da qual encontrarás em mim o carácter bastante desenvolvido. Mas se o marinheiro gosta de fazer viagens, quem ele mais ama é quem o conduz à felicidade. Fui marinheiro e no fundo da minha alma continuo a sê-lo e aprendi que a seguir à tempestade vem o bom tempo, a seguir às infelicidades, a felicidade. A minha única felicidade és tu.
Por essa época, Eça de Queirós (1845-1900), que apelidava D. Luís I, de O Bom, proclamava:
Pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento.
Por sua vez, Cesário Verde (1855-1876), que viria a morrer tuberculoso, inicia o poema “Contrariedades”, confessando:

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente.


Também António Nobre (1867-1900), igualmente vítima da tuberculose pulmonar, se refere ao acto de fumar, no poema “O meu cachimbo”, onde na segunda quadra se interroga:

Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que lá vae,
Quando fumava, ainda criança,
Ás escondidas do meu Pae. 

O tabaco na literatura oral
O adagiário português reprova o uso do tabaco seja sob que forma for:

- Isto é birra: quem toma tabaco, espirra.
- Quem sabe tomar tabaco não suja os dedos.
- Tabaco e aguardentes, transformam os sãos em doentes.
- Vinho, mulheres e tabaco, põem o homem fraco.

O cancioneiro popular alentejano é, contudo, mais benevolente:

O regalo do ganhão
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lho dão,
Fumar do tabaco alheio. (1)

Epílogo
A terminar, não quero deixar de sublinhar que apesar de não estarmos em presença de uma cigarreira real, estamos perante uma cigarreira digna de um rei, dada a riqueza e a beleza dos seus finos lavores.

BIBLIOGRAFIA
(1) - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1910.