sexta-feira, 25 de novembro de 2011

In Vino Veritas

“Os bêbados” ou “Festejando o S Martinho” (sem data).
José Malhoa (1855-1933).
Estudo em carvão sobre papel (33x45 cm).

In Vino Veritas (No vinho a verdade) é uma máxima latina que traduz a liberdade com que o bêbado se exprime sempre, em virtude da embriaguez soltar a língua e fazer a verdade vir ao de cima. Para alguns, a sentença exprime igualmente a sacralidade e a inviolabilidade dos contratos confirmados com o vinho.
Julgo que In Vino Veritas seja o título mais adequado para designar a presente trilogia de histórias sobre bêbados. É que para além do sabor do vinho, há também as histórias deliciosas que este suscita. E estas são histórias reais.

Passou ou não passou?
Em meados do século passado, um conterrâneo meu da família dos Margalhos, conhecido por ser um bom bebedor, pretendia atravessar a fronteira em Badajoz. A isso se opunha a Guarda Civil, alegando que ele era portador dum garrafão com razoável quantidade de vinho. Vai daí, entraram em acesa discussão, porque o Margalho era teimoso que nem um jumento e o guarda espanhol não lhe ficava atrás. Passa e não passa. Passa e não passa. Passa e não passa. E não saíam dali, até que o Margalho que era esperto que nem um rato, se passa dos carretos e leva o garrafão às goelas, emborcando o conteúdo integral de uma assentada. Ingerido o último golo, questiona então o guarda:
- Posso ou não posso passar com o garrafão?
O guarda, contestado na sua autoridade e vermelho de raiva, não viu outra saída que não fosse a resposta que deu:
- Agora pode passar!
O Margalho, inchado de gozo por ter vencido a discussão, atravessou então a fronteira, ao mesmo tempo que “farpeava” o guarda com um bem medido gracejo, daqueles em que era pródigo:
- Então senhor guarda? Passou ou não passou?

Engenheiro Brandy Lopes
Nos anos setenta do século passado, na Escola Industrial e Comercial de Estremoz, leccionava desenho técnico, um professor, agente técnico de formação, que a gíria estudantil alcunhara de engenheiro Brandy Lopes. É que o homem, a dar para o castiço, era um bebedor inveterado e andava quase sempre aconchegado interiormente com aquilo que se vende nas tabernas. Constava-se também que a esposa não lhe ficava atrás, existindo apenas uma diferença entre eles: um bebia do branco e outro bebia do tinto.
Certo dia regressavam a casa, depois de se abastecerem na mercearia mais próxima. Ele à frente com os dois garrafões. Numa mão o do branco e na outra o do tinto. Mais atrás, a esposa carregava um saco com o avio da mercearia.
Ou porque a calçada era irregular ou porque já ia “bem tratado”, o nosso engenheiro tropeça na calçada e para não se estatelar no chão, deixa escapar os garrafões. Como uma desgraça nunca vem só, um dos garrafões partiu-se. A esposa alarmada, não lhe chega a perguntar se ele se magoara ou não. Célere e instantaneamente apenas lhe faz esta pergunta lacónica:
- Foi o teu ou o meu?
Responde ele:
- Foi o meu!
Resposta da esposa:
- Então não faz mal!

O corte do petisco
Com a crise que atravessamos cada vez mingua mais o dinheiro disponível para o petisco, essa notável instituição alentejana. O dinheiro não dá para tudo. Ou se corta no vinho ou se corta no petisco, é o dilema que muitos enfrentam.
Ti Zé Venâncio, frequentador habitual das tabernas, queixava-se da situação, dado que não atinava entre optar pela bebida ou pela comida. Lamentava assim a sua triste sina de se ver nesta situação. E eis que entra na conversa, Ti Chico Pinguinhas, velho camponês de pele seca como o pechelim, que diz de rompante:
- Para mim só há uma saída. É a mesma que tivemos a seguir à grande Guerra, quando a miséria era grande.
Pergunta então o Zé Venâncio.
- E qual é, ti Chico?
- A gente bebe e não come. Era o que a gente fazia. Bebíamos um garrafão a olhar para um caroço de azeitona…

Hernâni Matos