quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Salvemos a olaria de Estremoz!


Mestre Mário Lagartinho (1935-2016).


Eu e a olaria de Estremoz  (17-04-2022)
Produção olárica de Estremoz comercializada como recordação de Évora (23-01-2022) 
Cafeteira falante de Estremoz (16-01-2022) 
Parabéns, Benfica! (10-10-2021) 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz


Mestre Mário Lagartinho (1935-2016)

Faleceu no passado dia 4 de Setembro, Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, o que constituiu uma tragédia cultural, numa cidade que já foi um dos maiores centros oleiros do Alto Alentejo. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual o Mestre foi um ícone.
Mário Augusto Raleira Lagartinho (1935-2016), filho de Marcolino Augusto Lagartinho e de Leonilde da Conceição Raleiro, era natural da freguesia de Santo André, concelho de Estremoz, em cuja Rua Magalhães de Lima-15, nasceu a 22 de Junho de 1935.
Sabe-se que começou a modelar o barro aos 12 anos de idade, na Olaria Regional, situada na Rua do Afã, em Estremoz e que era propriedade de Mestre José Ourelo (Zé Russo), formado na Olaria Alfacinha e que adquirira a oficina a Mestre Cassiano, fundador da Regional, já avançado na idade. A Olaria Regional viria a passar das mãos de José Ourelo para Mário Lagartinho, que nunca deixou os seus créditos em mãos alheias e foi um oleiro de nomeada. 
A necessidade de aumentar os seus proventos, levou-o nos anos 70 do século passado, a confeccionar bonecos de Estremoz, o que fez por auto-aprendizagem a partir de exemplares que lhe foram emprestados. Antes de terminar a sua actividade neste domínio, o que segundo dizia, fez por falta de tempo, transmitiu os seus saberes a Arlindo Ginja e a sua esposa, Ana Pascoal Ourelo Lagartinho, com quem casara catolicamente em 1958, na Igreja Paroquial de Santa Maria.
Mário Lagartinho, nunca conseguiu recuperar do abalo causado em 2011, pela morte do filho, também ele, Mário Lagartinho, ex-jogador de hóquei do Clube de Futebol de Estremoz, do qual foi treinador, assim como do Hóquei Clube Vasco da Gama, de Sines, cidade onde foi o grande impulsionador daquela modalidade.
Mestre Mário Lagartinho partiu, mas deixou connosco as suas criações: bilhas, moringues, garrafas de água, barris e púcaros, que entre outros, saíram das suas mãos mágicas de oleiro e que com os seus bonecos, estão dispersos por colecções particulares. Também o Museu Municipal de Estremoz, conta no seu acervo com exemplares, tanto de olaria como de figurado de Estremoz, afeiçoados pelas suas mãos.
Por iniciativa daquele Museu, a sua obra foi objecto de destaque recente nas exposições: “Mário Lagartinho - Olaria de Estremoz” (2004) e “Motivos decorativos na olaria de Estremoz do século XX” (2013), às quais há que acrescentar  “O vasilhame de barro  de Estremoz” (2012), graças à iniciativa da Associação Filatélica Alentejana.
Pessoalmente, Mário Lagartinho, a quem conhecia desde os anos 70 do século passado, concedeu-me o privilégio da sua amizade, o que permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da olaria de Estremoz na Escola Secundária, quando era director do seu Centro de Recursos. Foi um evento que nos marcou a todos, Mestre Mário, professores e alunos, já que as raízes da Escola entroncam na antiga Escola de Artes e Ofícios, por onde paira a memória do Curso de Olaria e de Mestre Mariano da Conceição (o Alfacinha), que conjuntamente com ti Ana das Peles, sob a acção do Director Sá Lemos, fizeram com que os bonecos de Estremoz, em processo de extinção, se tornassem numa Fénix renascida das cinzas.
Morreu Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz. Pessoalmente, como não tenho espírito sebastianista, não estou à espera dum novo Sá Lemos, que venha a reactivar a extinta olaria de Estremoz. Apenas me resta o registo da sua Memória, que me leva a proclamar, alto e bom som:
- MÁRIO LAGARTINHO, PRESENTE!
Hernâni Matos


NOTA DE RODAPÉ
Decorridos onze dias sobre a edição deste post, o Grupo do PS na Assembleia Municipal de Estremoz, apresentou e viu aprovar por unanimidade a seguinte moção:
A Assembleia Municipal de Estremoz, reunida em sessão ordinária no dia 24 de Setembro de 2016, manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, o que constituiu uma tragédia cultural, numa cidade que já foi um dos maiores centros oleiros do Alto Alentejo. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual o Mestre foi um ícone.
Para além de oleiro, Mestre Mário Lagartinho foi bonequeiro e como tal foi um elo importante na cadeia de transmissão de saberes na produção de figurado de Estremoz, cuja candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade está em curso.
Como preito de homenagem a esta figura cimeira da cultura popular estremocense, a Assembleia Municipal de Estremoz, recolhe-se num minuto de silêncio em sua Memória.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém


     
Exº Senhor
Director do jornal
Etc. e Tal
  
Fulano de tal, no exercício pleno e legítimo dos seus direitos cívicos, vem por este meio solicitar a Vª Exª para que no jornal que superiormente dirige, em caso algum a sua fotografia seja publicada na primeira página. Mesmo que as circunstâncias possam ser extraordinárias, nunca deverão servir de pretexto para legitimar tal publicação.
O signatário permite-se desde já chamar a atenção para algumas dessas circunstâncias ímpares: - Sair-lhe o jackpot no Euromilhões; - Ganhar um Oscar de Hollywood ou o Prémio Nobel de Qualquer Coisa; - Ser designado Chef de Cozinha do Ano ou Rabin Honorário de Telavive; - Ser nomeado Curador do Museu do Prado, Cônsul Honorário na Baía, Embaixador residente em Xangai, Mediador da Paz na Síria ou Marechal do Exército Português; - Ter direito a usar a Banda das Três Ordens.
A solicitação, longe de constituir uma atitude de falsa modéstia, apenas visa acautelar a possibilidade da imagem do requerente poder ser obliterada por qualquer cabeçalho publicitário de natureza lúgubre. A talhe de foice cita duas dessas possibilidades: Primeira: a sua fotografia aparecer encimada por uma faixa publicitária de uma agência funerária local, onde se observa que o serviço é permanente e tratam de toda a documentação. Segunda: a imagem do signatário ostentar superiormente uma faixa publicitária do Matadouro Regional, na qual se assegura abate rápido, indolor e higiénico de todo o tipo de animais.
Como Vª Exª decerto concluirá, o primeiro caso dá a aparência de que se estão a preparar para lhe fazer o funeral, tratando de toda a papelada que lhe é inerente. No segundo caso, o público é levado a pensar que estão disponíveis para o abater, enquanto o diabo esfrega um olho.
Vª Exª tem que reconhecer que são situações desconfortáveis para o requerente, já que o anúncio da funerária lhe deixa o corpo gelado e o do Matadouro Regional, o leva repetida e angustiadamente a verificar se tem ou não o cachaço incólume.
Face ao exposto, o peticionário ficaria mais confortado, se Vª Exª se abstivesse de, em circunstância alguma, publicar a sua fotografia na primeira página do seu conceituado jornal.
Sem outro assunto de momento e antecipadamente grato pela atenção dispensada, subscreve-se com os seus melhores cumprimentos.

Fulano de Tal

Hernâni Matos

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Chamava-se Catarina...


À Catarina, minha filha             
Prólogo

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Assim começa o "Cantar Alentejano”, escrito pelo poeta António Vicente Campinas que viria a ser musicado e cantado pelo Zeca Afonso, em memória da heróica ceifeira alentejana, assassinada a tiro, pelo tenente Carrajola da GNR, quando em 19 de Janeiro de 1954, lutava pelo aumento da jorna numa herdade alentejana.
Outros poetas homenagearam Catarina Eufémia: Carlos Aboim Inglez, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel, José Carlos Ary dos Santos, Luísa Vilão Palma e Sophia de Mello Breyner Anderson.
Eu que também sou homem de fazer poemas, disse um dia a mim mesmo:
- Quando tiver uma filha, há-de chamar-se Catarina. Essa será a melhor homenagem à baleizoeira que se tornou um símbolo da resistência ao fascismo. E eu sou homem de palavra.

Catarina, minha filha:

Há 31 anos, vi-te sair do ventre da tua mãe, onde foste concebida, fruto do amor entre nós dois. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. O outro foi o dia em que conheci a tua mãe. 
Transportas os nossos genes e essa é a maior herança que te podíamos legar, conjuntamente com os valores em que te educámos. Tens muito de nós em ti. Mas tens também o que tu própria construíste, por tua própria vontade.
Se tivesse que fazer o teu retrato escrito diria tudo isto:
- És alta, bonita e elegante.
- És meiga e sensível, sociável e comunicativa.
- És honesta, sincera e vertical. Tens carácter, és leal, lutadora, cooperante e solidária.
- Tens mão para a cozinha, para a doçaria e és gastrónoma.
- Gostas de ciclismo e de natação.
- Sentes amor pela natureza, pelo que és eco-militante, defensora das energias alternativas, da reciclagem e da agricultura biológica.
- Gostas de ler, de viajar e de conhecer o mundo.
- És dotada de curiosidade científica nata. Gostas de trabalhar por objectivos. És uma trabalhadora incansável. És persistente. És exigente contigo própria. És perfeccionista. Gostas de rigor e de precisão. És responsável. Tens capacidade de liderança e de trabalhar em equipa.
Estou certo que o teu retrato escrito é necessariamente incompleto, assim como estou certo que completarás com brilhantismo, o teu doutoramento em Geofísica, já que não gostas de deixar os teus créditos por mãos alheias. A investigação portuguesa poderá contar contigo.
Estou igualmente certo que serás uma excelente esposa e uma excelente mãe.
Eu e a tua mãe, temos muito orgulho em ti. Foste e serás sempre o nosso melhor poema.
Um grande beijinho dos dois, no dia do teu 31º aniversário, a milhares de quilómetros de nós, mas sempre presente no nosso espírito.
Hernâni Matos

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A qualificação das palavras


Auto-retrato com o grupo da Brasileira (1925).
José Sobral de Almada Negreiros (1893-1970).
Óleo sobre tela (197x130 cm).
Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa.

A adjectivação da palavra, qualifica-a, conferindo-lhe um significado próprio e dando origem a frases idiomáticas e a palavras compostas, que integram o vocabulário português. É extenso o seu universo, do qual apresentamos uma visão sinóptica e como tal incompleta:      
- Palavra - chave (Palavra que traduz o sentido de um contexto ou que o torna claro e o identifica).
- Palavra coberta (Palavra oculta, utilizada em alguns graus maçónicos, para além das palavras de passe e da palavra sagrada.           
- Palavra consagrada (Palavra que se emprega especial e exclusivamente para traduzir uma dada ideia).
- Palavra dada (Obrigação contraída).   
- Palavra étnica (Palavra que designa o habitante de determinado país).  
- Palavra forjada (Palavra criada contra as regras da derivação).
- Palavra híbrida (Palavra que é formada por elementos ou raízes de línguas diferentes).
- Palavra honrada (Verdade no que se afirma ou se promete).    
- Palavra imprópria (Palavra que é empregada em sentido que não lhe pertence e não se ajusta ao pensamento que pretende expressar.
- Palavra misteriosa (Senha de identificação nalguns altos graus maçónicos).       
- Palavra perdida (Palavra sagrada, chave para a revelação de certos segredos, tais como a busca e o encontro da Verdade, que a Maçonaria procura encontrar, na convicção de que por meio do trabalho - constante, trará felicidade ao Homem).         
- Palavra perduda (O verso que não tinha rima, nas poesias medievais).  
- Palavra sagrada (Senha de reconhecimento, que em cada grau é utilizada pelos maçons, exclusivamente nas cerimónias maçónicas).     
- Palavra secreta (Palavras que cada rito maçónico impõe aos seus seguidores e que é soletrada letra por letra, dando aquele que é interrogado a primeira letra, o que interroga a segunda e assim por diante).     
- Palavra semestral (Senha concedida pelo Grão-Mestre às Lojas Maçónicas, cada seis meses, que é passada de modo especial a todos os membros da mesma, para poder demonstrar a sua frequência). 
- Palavra suspeita (Palavra que não é clássica ou não pertencer à língua que se lhe atribui).        
- Palavra-filtro (Palavra ou expressão, formada por caracteres e máscaras, usada para localizar informação num documento ou conjunto de documentos).
- Palavra-guia (Cada uma das palavras que aparecem no alto das páginas das obras de referência e que indica a posição e a última entrada da página para facilitar a consulta).
- Palavras bombásticas (Palavras proferidas por pessoas pouco cultas, na convicção de que possam causar boa impressão).
- Palavras caras (Linguagem requintada).          
- Palavras castiças (Palavras puras, eventualmente vernáculas, onde não há estrangeirismos).      
- Palavras consagradas (Palavras sacramentais).
- Palavras cruzadas (Passatempo em que se deve preencher uma grelha de palavras que se entrecruzam de forma vertical e horizontal, a partir de pista fornecida).  
- Palavras eloquentes (Palavras que têm o poder de convencer).
- Palavras graves (Palavras solenes. Palavras austeras).
- Palavras mágicas (Palavras que os mágicos pronunciam nas suas operações e que a magia considera como indispensáveis ao fim em vista).
- Palavras mastigadas (Palavras que são repisadas e proferidas em som muito distinto e com intervalos).
- Palavras reportadas (palavras reflectidas).      
- Palavras sacramentais (Palavras consagradas).
- Palavras sacramentais (Palavras que o sacerdote profere no cumprimento de cada sacramento. Palavras da praxe).       
- Palavras tabelioas (Fórmulas que se empregam nos documentos lavrados por tabelião. Palavras textuais).
- Palavras textuais (Palavras que reproduzem com exactidão um texto escrito ou uma expressão verbal).
- Última palavra (Decisão final).
- Más palavras (Palavras descorteses. Palavras ofensivas).          
- Meias palavras (Termos vagos).          
- Palavra artificial (Palavra sem sentido, mas cujas letras são combinadas para servir de meio mnemotécnico).
- Belas palavras (Frases agradáveis, promissoras, às quais nem sempre correspondem boas acções).         
- Boas palavras (Belas palavras).           
- Palavra cabeluda (Termo obsceno).    
- Palavras grosseiras (Comentários grosseiros).   
- Palavras imundas (Termos que ofendem a boa educação).       
- Palavras loucas (Palavras que não merecem qualquer crédito, por serem impensadas ou levianas).        
- Palavras ocas (Disparates. Palavras sem valor. Palavras sem conteúdo doutrinário).       
- Palavras pesadas (Palavras grosseiras. Palavras ofensivas).       
- Palavras retorcidas (Palavras rebuscadas).       
- Palavrinhas mansas (Palavras meigas, visando obter algo).       
  
BIBLIOGRAFIA
- BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
- CALDAS AULETE, Francisco Júlio. Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza (1ª ed.). Parceria António Maria Pereira. Lisboa, 1881.
- CALDAS AULETE, Francisco Júlio. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa (5ª ed.). Editora Delta. Rio de Janeiro, 1987.
- DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/palavra  [consultado em 24-08-2016].
- FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Dicionário de Língua Portuguesa (1ª ed.).Livraria Editora Tavares Cardoso e Irmão. Lisboa, 1899.
- GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Vol. 20. Editorial Enciclopédia, Limitada. Lisboa, s/d.
- HOUAISS, António e VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Círculo de Leitores, Lisboa, 2002.
- LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
- MACHADO, José Pedro. Grande Dicionário da Língua Portuguesa). Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
- MACHADO, José Pedro. Grande Enciclopédia da língua Portuguesa. Círculo de Leitores, Lisboa, 1997.
- NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes (2º ed.). Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
- PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
- SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
- SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
Hernâni Matos

domingo, 28 de agosto de 2016

Amor sapateiro


Na oficina de sapateiro
Giacomo Francesco Cipper (1664-1736).
Óleo sobre tela (114 x 143 cm).
Museu Hermitage, São Petersburgo

Amor sapateiro

Que fazer quando o amor acaba?
Espezinhar a memória de tempos que já lá vão?
Pôr meias-solas no andamento do amor?
Resistir a pé limpo?
O que procurar?
Novo andamento?
Novo caminho?
Novo calçado?
Não sei.
Estou cansado dos pés.
Hernâni Matos

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Gíria popular das palavras


A Liberdade conduzindo o Povo (1830).
Eugène Delacroix (1798-1863)
Óleo sobre tela (260 x 325 cm)
Museu do Louvre, Paris.

A necessidade de comunicação do Homem, enquanto ser sociável, conduziu à criação da linguagem, que tanto na forma falada como na forma escrita, utiliza palavras na representação do pensamento. O termo “palavra” regista presença significativa na gíria popular, na qual frases idiomáticas utilizam aquele termo. É vasta a gíria popular das palavras:
- A arte das palavras (A retórica).
- Arrastar as palavras (Falar pausadamente).
- Beber as palavras de alguém (Escutar atentamente o que uma pessoa diz).
- Botar palavra (Discursar).
- Cassar a palavra (Proibir de falar).
- Com meias palavras (Em termos imprecisos).
- Com palavrinhas mansas (Falando de modo brando e fingido).
- Comer as palavras (Pronunciar as palavras incompletamente).
- Contar as palavras de outrem (Ouvir com atenção o que outrem diz).
- Contar as próprias palavras (Pensar bem no que se diz. Falar pausadamente).
- Cortar a palavra a alguém (Interromper uma pessoa quando está a falar).
- Cumprir a palavra (Fazer o que foi prometido).
- Dar a palavra a alguém (Conceder o uso da palavra a uma pessoa).
- Dar a palavra de honra (Prometer solenemente).
- Dar a sua palavra (Prometer solenemente).
- Dar duas palavrinhas a alguém (Referir a uma pessoa um caso pen­dente para que lhe seja dado despacho favorável).
- Dar palavras em lugar de justiça (Defender actos de injustiça ou de violência, sem razão, mas com palavreado)
- Dar uma/duas palavras a alguém (Dizer alguma coisa particularmente a uma pessoa).
- De palavra (Diz-se de pessoa fiel aos seus compromissos).
- De palavra em palavra (De uma razão para outra). 
- De pouca palavras (Diz- se de pessoa concisa ou retraída).
- Debaixo de minha palavra (Sob palavra de honra. Promessa verbal solene.).
- Debaixo de palavra (Sob palavra. Por meio de promessa verbal).
- Dirigir a palavra a alguém (Falar a uma pessoa).
- Dizer duas palavras (Pronunciar um pequeno discurso).
- Dizer o recado pelas mesmas palavras (Repetir textualmente o que outrem disse). 
- Dizer palavrões (Usar linguagem obs­cena).
- Dizer quatro palavras a uma pessoa (Falar com franqueza a outrem).
- Duas palavrinhas (Conversa breve).
- Em duas palavras (Sucintamente).
- Em poucas palavras (Resumidamente).
- Empenhar a sua palavra (Assumir um compromisso solene).
- Engolir as próprias palavras (Retirar as palavras pronunciadas).
- Estar suspenso das palavras (Escutar embevecido as palavras de alguém).
- Falta de palavra (Violação de promessa feita).
- Faltar à sua palavra (Não cumprir qualquer promessa feita).
- Fazer uso da palavra (Falar).
- Gastar palavras (Falar ou escrever, sem que haja consequências do que se diz).
- Homem de palavra (Aquele que cumpre sempre o que diz. Aquele que não costuma mentir. Aquele que não renega afirmações anteriores).
- Isso são palavras (Expressão que se aplica a quem diz o contrário do que sente ou o que não sente ou a quem não pode provar o que diz).
- Jogar com as palavras (Dar às palavras o significado que se deseja).
- Levantar a sua palavra (Não cumprir a palavra dada).
- Mais palavra menos palavra (Pouco mais ou menos).
- Medir as palavras (Ponderar o que se diz, escolhendo cuidadosamente as palavras).
- Molhar a palavra (Tomar uma pequena quan­tidade de bebida alcoólica).
- Não dar palavra (Conservar- se calado).
- Não dizer palavra (Não dar palavra).
- Não estudar palavra (Não estudar absolutamente nada).
- Não falar palavra (Estar calado).
- Não perceber uma palavra de alguma coisa (Ignorar).
- Não ter senão uma palavra (Manter o que anteriormente se ajustou).
- Nem uma palavra (Silêncio completo).
- Numa palavra (Em suma).
- Palavra a palavra (Pausadamente. Lentamente.)
- Palavra por palavra (Exactamente. Tim-tim por tim-tim).
- Palavra puxa palavra (As palavras proferidas por um interlocutor provocam resposta do outro).
- Palavra puxa palavra (Discussão em que um comentário ou argumento, suscita réplica imediata).
- Palavras não eram ditas (Expressão usada para exprimir que alguma coisa se passou na sequência de determinada frase ter sido proferida por alguém ou mesmo antes da sua conclusão).
- Passar a palavra (Transmitir para pessoa próxima, o que outrem disse. Divulgar).
- Pedir a palavra (Pedir para falar, para ser ouvido).
- Pela palavra (Literalmente).
- Pesar as palavras (Medir as palavras).
- Pessoa de poucas palavras (Pessoa que fala pouco. Pessoa concisa. Pessoa reservada).
- Por meias palavras (Maneira de abordar um assunto de forma indirecta).
- Retirar a palavra a alguém (Usar da autoridade inerente às suas funções para impedir que alguém prossiga o seu discurso).
- Retomar a palavra (Recomeçar a falar após interrupção).
- Santas palavras (Exclamação proferida por quem ouve aquilo que desejava ouvir).
- Sem dizer palavra (Guardando silêncio).
- Sem meias palavras (Em termos que não deixam quaisquer dúvidas).
- Sem palavra (Que não cumpre aquilo que promete e quem não se pode confiar.
- Ser a última palavra (Ser a decisão definitiva, ser a con­cessão final, ser o que há de mais moderno).
- Ser a última palavra em (Ser o que existe de mais avançado em).
- Sob palavra (Por meio de promessa verbal).
- Ter a palavra (Caber a alguém o direito de falar).
- Ter a palavra fácil (Exprimir-se com facilidade).
- Ter dom de palavra (Falar bem. Ser eloquente. Ter fluência verbal).
- Ter más palavras com alguém (Falar a outrem em termos ofensivos).
- Ter palavra (Diz-se de pessoa que honra os seus compromissos).
- Ter uma palavrinha com alguém (Conversar brevemente com uma pessoa).
- Tirar a palavra a alguém (Obrigar uma pessoa a calar-se).
- Tirar a(s) palavra(s) da boca de alguém (Antecipar se à fala de outra pessoa, dizendo o que ela pretendia dizer).
- Tomar a palavra (Começar a falar).
- Troca de palavras (Discussão em termos enérgicos).
- Trocar palavras com alguém (Ter uma discussão rápida com alguém em ter­mos rudes).
- Usar da palavra (Discursar em público).
- Voltar com a palavra atrás (Desdizer-se).

BIBLIOGRAFIA
- BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
- CALDAS AULETE, Francisco Júlio. Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza (1ª ed.). Parceria António Maria Pereira. Lisboa, 1881.
- CALDAS AULETE, Francisco Júlio. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa (5ª ed.). Editora Delta. Rio de Janeiro, 1987.
- DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/palavra  [consultado em 24-08-2016].
- FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Dicionário de Língua Portuguesa (1ª ed.).Livraria Editora Tavares Cardoso e Irmão. Lisboa, 1899.
- GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Vol. 20. Editorial Enciclopédia, Limitada. Lisboa, s/d.
- HOUAISS, António e VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Círculo de Leitores, Lisboa, 2002.
- LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
- MACHADO, José Pedro. Grande Dicionário da Língua Portuguesa). Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
- MACHADO, José Pedro. Grande Enciclopédia da língua Portuguesa. Círculo de Leitores, Lisboa, 1997.
- NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes (2º ed.). Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
- PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
- SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
- SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
Hernâni Matos