terça-feira, 13 de setembro de 2016

Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz


Mestre Mário Lagartinho (1935-2016)

Faleceu no passado dia 4 de Setembro, Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, o que constituiu uma tragédia cultural, numa cidade que já foi um dos maiores centros oleiros do Alto Alentejo. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual o Mestre foi um ícone.
Mário Augusto Raleira Lagartinho (1935-2016), filho de Marcolino Augusto Lagartinho e de Leonilde da Conceição Raleiro, era natural da freguesia de Santo André, concelho de Estremoz, em cuja Rua Magalhães de Lima-15, nasceu a 22 de Junho de 1935.
Sabe-se que começou a modelar o barro aos 12 anos de idade, na Olaria Regional, situada na Rua do Afã, em Estremoz e que era propriedade de Mestre José Ourelo (Zé Russo), formado na Olaria Alfacinha e que adquirira a oficina a Mestre Cassiano, fundador da Regional, já avançado na idade. A Olaria Regional viria a passar das mãos de José Ourelo para Mário Lagartinho, que nunca deixou os seus créditos em mãos alheias e foi um oleiro de nomeada. 
A necessidade de aumentar os seus proventos, levou-o nos anos 70 do século passado, a confeccionar bonecos de Estremoz, o que fez por auto-aprendizagem a partir de exemplares que lhe foram emprestados. Antes de terminar a sua actividade neste domínio, o que segundo dizia, fez por falta de tempo, transmitiu os seus saberes a Arlindo Ginja e a sua esposa, Ana Pascoal Ourelo Lagartinho, com quem casara catolicamente em 1958, na Igreja Paroquial de Santa Maria.
Mário Lagartinho, nunca conseguiu recuperar do abalo causado em 2011, pela morte do filho, também ele, Mário Lagartinho, ex-jogador de hóquei do Clube de Futebol de Estremoz, do qual foi treinador, assim como do Hóquei Clube Vasco da Gama, de Sines, cidade onde foi o grande impulsionador daquela modalidade.
Mestre Mário Lagartinho partiu, mas deixou connosco as suas criações: bilhas, moringues, garrafas de água, barris e púcaros, que entre outros, saíram das suas mãos mágicas de oleiro e que com os seus bonecos, estão dispersos por colecções particulares. Também o Museu Municipal de Estremoz, conta no seu acervo com exemplares, tanto de olaria como de figurado de Estremoz, afeiçoados pelas suas mãos.
Por iniciativa daquele Museu, a sua obra foi objecto de destaque recente nas exposições: “Mário Lagartinho - Olaria de Estremoz” (2004) e “Motivos decorativos na olaria de Estremoz do século XX” (2013), às quais há que acrescentar  “O vasilhame de barro  de Estremoz” (2012), graças à iniciativa da Associação Filatélica Alentejana.
Pessoalmente, Mário Lagartinho, a quem conhecia desde os anos 70 do século passado, concedeu-me o privilégio da sua amizade, o que permitiu organizar em 1999, uma jornada de divulgação da olaria de Estremoz na Escola Secundária, quando era director do seu Centro de Recursos. Foi um evento que nos marcou a todos, Mestre Mário, professores e alunos, já que as raízes da Escola entroncam na antiga Escola de Artes e Ofícios, por onde paira a memória do Curso de Olaria e de Mestre Mariano da Conceição (o Alfacinha), que conjuntamente com ti Ana das Peles, sob a acção do Director Sá Lemos, fizeram com que os bonecos de Estremoz, em processo de extinção, se tornassem numa Fénix renascida das cinzas.
Morreu Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz. Pessoalmente, como não tenho espírito sebastianista, não estou à espera dum novo Sá Lemos, que venha a reactivar a extinta olaria de Estremoz. Apenas me resta o registo da sua Memória, que me leva a proclamar, alto e bom som:
- MÁRIO LAGARTINHO, PRESENTE!
Hernâni Matos


NOTA DE RODAPÉ
Decorridos onze dias sobre a edição deste post, o Grupo do PS na Assembleia Municipal de Estremoz, apresentou e viu aprovar por unanimidade a seguinte moção:
A Assembleia Municipal de Estremoz, reunida em sessão ordinária no dia 24 de Setembro de 2016, manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Mestre Mário Lagartinho, decano da olaria e o último oleiro de Estremoz, o que constituiu uma tragédia cultural, numa cidade que já foi um dos maiores centros oleiros do Alto Alentejo. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual o Mestre foi um ícone.
Para além de oleiro, Mestre Mário Lagartinho foi bonequeiro e como tal foi um elo importante na cadeia de transmissão de saberes na produção de figurado de Estremoz, cuja candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade está em curso.
Como preito de homenagem a esta figura cimeira da cultura popular estremocense, a Assembleia Municipal de Estremoz, recolhe-se num minuto de silêncio em sua Memória.