quinta-feira, 11 de junho de 2020

Bonecos de Estremoz e pandemia: Ricardo Jorge


 Fig. 3 – Ricardo Jorge no Laboratório. Ricardo Fonseca (2020).
Fotografia de Luís Mendeiros (2020).
Introdução
Como coleccionador e investigador da barrística popular estremocense, surgiu-me na mente a ideia de que poderiam e deveriam ser modelados Bonecos que perpetuassem no barro, a pandemia que atravessamos. Por sugestão e com indicações minhas ocorreu em primeiro lugar, a criação pelo barrista Ricardo Fonseca da figura de “SÃO ROQUE”, invocado pela comunidade católica como Santo Protector contra as epidemias. Seguiu-se a criação pelas Irmãs Flores das figuras “PERALTA NA PANDEMIA” e “SÉCIA NA PANDEMIA”, retratando em contexto social a resposta possível à pandemia, através do uso de máscaras comunitárias. Finalmente, a criação por Ricardo Fonseca da figura de “RICARDO JORGE”, figura maior da Medicina Social em Portugal, que em 1899 concebeu medidas profiláticas que ainda hoje são usadas no combate às pandemias (Vide Biografia de Ricardo Jorge).
A materialização duma ideia
Contactei o barrista Ricardo Fonseca a quem dei conta da minha intenção de ver modelada a figura de Ricardo Jorge, visando assinalar no barro a figura emblemática máxima do combate às epidemias em Portugal. Lancei-lhe então o repto de ser ele a materializar no barro a ideia que me surgira na mente. Ele foi receptivo e aceitou entusiasticamente a missão que eu lhe atribuíra.
Fontes documentais
Como fontes de inspiração documental, forneci ao barrista duas imagens de Ricardo Jorge em 1899, com a idade de 41 anos. Uma (Fig. 1) da autoria do fotógrafo Guedes de Oliveira, que retrata o médico sentado à sua mesa de trabalho, efectuando uma observação microscópica. Outra (Fig. 2) da autoria do fotógrafo Aurélio Paz dos Reis, que mostra o cientista em pé, frente a uma bancada de laboratório, repleta de utensílios e montagens laboratoriais usadas em Química.
Atributos
Sugeri ao barrista que modelasse a figura de Ricardo Jorge, envergando um traje como o da Fig. 2, mas sentado à mesa de trabalho como na Fig.1. De resto, sublinhei a importância de quatro atributos em Ricardo Jorge. Dois deles de natureza física: uma barba abundante e a utilização de óculos com aros circulares. Os outros dois inerentes à sua actividade profissional: a observação microscópica e o registo de observações. E mais não disse, nem tinha que dizer, pois “Quem sabe da poda é o podador”.
Modelação
No acto da encomenda disse ao barrista que não queria “Obras de Santa Engrácia” e apesar de que “Sem tempo nada se faz”, tinha que ser “Obra começada, obra acabada”. E assim foi. Ricardo Fonseca seguiu “Tintim por tintim” e “Com todos os efes-e-erres”, aquilo que lhe tinha sido sugerido. “Mão vai, mão vem”, a obra lá nasceu, já que “O olho do mestre é régua”. Como é sabido, “As obras mostram quem cada um é”. Neste caso e como sempre, a modelação da figura de Ricardo Jorge pelo barrista Ricardo Fonseca, revelou toda a sua mestria, bom gosto e fidelidade aos cânones da modelação de Bonecos ao modo de Estremoz. A Ricardo Fonseca, o meu muito obrigado pela rápida resposta à chamada e pelo êxito no cumprimento da missão que lhe foi confiada.
Ricardo Jorge por Ricardo Fonseca
Figura antropomórfica masculina, sentada numa cadeira de quatro pés e com costas, tendo as mãos sobre uma mesa de trabalho, também de quatro pés, cujo aspecto castanho-escuro configura madeira, o mesmo se passando com a cadeira. A mão direita empunha aquilo que parece ser uma caneta preta por cima daquilo que figura ser uma folha de papel branco, no qual são visíveis anotações manuscritas. A mão esquerda está apoiada na base daquilo que simula ser um microscópio com componentes cor de latão, à excepção da base circular assente na mesa e que é negra.
Na cabeça, o cabelo é castanho-escuro e a face está coberta por uma barba cerrada. Os olhos são dois pontos negros, encimados por dois arcos igualmente negros, imitando as pestanas e as sobrancelhas. Os olhos estão potenciados por óculos de aros redondos em arame.
Traja um fato castanho-escuro com corte à maneira dos finais do séc. XIX, sendo o casaco do tipo paletó com virados e bolsos de fora, de chapa, do qual não é visível a abotoadura. A parte detrás do casaco ostenta ao fundo uma abertura longitudinal, central. Usa uma camisa branca com colarinhos, cujos punhos saem das mangas do casaco. Sob o colarinho está presa um gravata preta com nó, parcialmente encoberta por um colete cinzento com virados como os do casaco e com uma abotoadura de quatro casas.
A figura usa sapatos negros. Estes, a mesa e a cadeira assentam numa base rectangular cor barro, configurando um chão de tijoleira quadrada.

Biografia de Ricardo Jorge

Nascimento e estudos
Ricardo de Almeida Jorge nasceu na cidade do Porto, a 9 de Maio de 1858, no seio de uma família modesta. Com 16 anos apenas, ingressou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, a qual frequentou com brilhantismo, vindo a licenciar-se aos 21 anos com as mais altas classificações.
Vida profissional
Iniciou a sua vida profissional, em 1880, como professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, ocupação que conciliava com a actividade clínica. Em 1883 deslocou-se a Estrasburgo e a Paris em busca de uma aprendizagem impossível de receber em Portugal. Após o regresso a Portugal, iniciou um Curso de Anatomia dos Centros Nervosos e criou o Laboratório de Microscopia e Fisiologia do Porto.
A Hidroterapia é o interesse que sucedeu à Neurologia, abandonando esta última em 1884, na sequência da epidemia de cólera de 1883. Dedicou-se então à Higiene Social, proferindo conferências que o prestigiaram, o que constituiu um momento chave do sanitarismo em Portugal. Por isso, a Câmara Municipal do Porto convidou-o a associar-se a uma comissão de estudo das condições sanitárias da cidade, no âmbito da qual realizou um inquérito sobre as condições de salubridade urbana. O relatório final (O Saneamento do Porto) foi apresentado em 1888.
Em 1885 elaborou e apresentou no Conselho Superior Público, um relatório sobre o ensino médico em Portugal, que considerava obsoleto face às orientações modernas vigentes noutros países europeus. Este relatório viria depois a servir de base ao Regulamento Geral de Saúde de 1901.
Em 1892 foi convidado para dirigir os Serviços Municipais de Saúde e Higiene da Cidade do Porto e chefiar o Laboratório Municipal de Bacteriologia.
Em 1895 foi indigitado professor titular da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, o que consolidou o seu prestígio como higienista.
A erradicação da peste bubónica
Entre Junho e Setembro de 1899, o Porto foi assolado pela peste bubónica, a qual diagnosticou, chegando à sua prova clínica e epidemiológica. Visando eliminar a pandemia preconizou a tomada de medidas profiláticas tais como: isolamento de doentes, evacuação de casas, isolamento e desinfecção de locais onde se verificaram ocorrências. Tais medidas conduziram à sua consagração como epidemiologista de renome, mas simultaneamente suscitaram a ira popular, que acicatada por grupos políticos, o forçaram a abandonar a cidade.
A ida para Lisboa
Em Outubro de 1899, já em Lisboa, foi nomeado Inspector-Geral de Saúde e professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Funda em 28 de Dezembro de 1899, o Instituto Central de Higiene, com o intuito de formar sanitaristas e de desenvolver a investigação na área da Saúde Pública. A reforma dos serviços sanitários que promoveu, conduziu à publicação do Regulamento Geral dos Serviços de Saúde e Beneficência Pública, em 24 de Dezembro de 1901.
Participa em inúmeras iniciativas como a organização da Assistência Nacional Contra a Tuberculose e o Congresso Internacional de Medicina de 1906, no qual presidiu à Secção de Higiene e Epidemiologia. Em 1911 colabora na reforma do ensino médico e em 1912 inicia os seus trabalhos no Office Internacional de Higiene, em Paris, onde se celebrizou. Em 1913 começou a publicar os Arquivos do Instituto Central de Higiene e, em 1914, principiou a edição da série estatística Movimento Fisiológico da População (1914-1925).
Entre 1914 e 1915 preside à Sociedade das Ciências Médicas e nos anos seguintes visita formações sanitárias na zona de guerra em França. Organiza depois a luta contra as epidemias de gripe pneumónica (gripe espanhola), do tifo exantemático e varíola de 1918, consequências das más condições sanitárias do pós-guerra.
Em 1926 foi encarregue de reformar o seu Regulamento de Saúde Pública, de 1901. Por mérito próprio foi escolhido para representar Portugal no Comité de Higiene da Sociedade das Nações. Em 1929 foi nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene. Mesmo nos últimos anos da sua vida manteve uma intensa actividade.
Médico e Humanista
Os interesses de Ricardo Jorge não se limitaram ao campo da Medicina, da qual foi um ilustre professor e a figura maior da Medicina Social. Foi também um grande humanista cuja vasta obra inclui publicações em âmbitos tão diversos como Arte, Literatura, História e Política. Faleceu em Lisboa, a 29 de Julho de 1939.
Estremoz, Maio de 2020
(Jornal E nº 248, de 11-06-2020)

Fig. 1 - Ricardo Jorge no Laboratório Municipal de Bacteriologia, no Porto (1899).
Fotografia de Guedes de Oliveira (1885-1932). Arquivo Municipal do Porto.

Fig. 2 - Ricardo Jorge no Laboratório Municipal de Bacteriologia, no Porto (1899).
Fotografia de Aurélio Paz dos Reis (1862-1931). Centro Português de Fotografia, Porto.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Peralta e Sécia (ganchos de meia)


Peralta e Sécia (ganchos de meia). Irmãs Flores.

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Os “ganchos de meia” são Bonecos de Estremoz minúsculos, que as mulheres das nossas famílias usavam quando faziam croché ou tricotavam peças de vestuário, de lã ou algodão, como era o caso das chamadas “meias de cinco agulhas”.
Trata-se de figuras antropomórficas, modeladas em barro, que depois de cozidas são pintadas e envernizadas.
Em todas elas figuram dois ganchos de arame no tronco. Um à frente, virado para cima, para nele passar o fio, que do novelo pode ser redireccionado para as agulhas. O outro nas costas, virado para baixo, para pregar na blusa ou no vestido da mulher, na parte superior do peito, geralmente do lado esquerdo.
Há vários modelos de gancho de meia, entre os quais o “Peralta” e a “Sécia” Estes foram modelados na actualidade pelas Irmãs Flores e reproduzem modelos do início do séc. XX. Todavia, o “Peralta” e a “Sécia” são figuras mais antigas.
O “Peralta” e a “Sécia” eram as designações atribuídas aos elegantes portugueses desde o sécs. XVIII, que envergavam trajos garridos com demasiado apuro e enfeites. De acordo com a literatura da época e sobre a época, eram pessoas afectadas não só no trajar, como no andar e no comportamento.

sábado, 30 de maio de 2020

Joana Oliveira, uma barrista que se afirma


Fig. 1 – Passeio de Santo António com o Menino Jesus (2020). Joana Oliveira (1978).
Colecção de Alexandre Correia.

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Santo António e Estremoz
Santo António de Lisboa é um Santo venerado pela Igreja Católica, seguramente o Santo que é objecto da mais intensa devoção popular. O seu culto foi incentivado em Estremoz pelos religiosos da Ordem de São Francisco de Assis, sediados no Convento de São Francisco, desde os primórdios da sua construção, no século XIII, em data imprecisa, balizada pelos reinados de D. Sancho II – D. Afonso III (1239-1255).
Daí não ser de admirar que a iconografia antonina inclua exemplares da barrística popular estremocense, desde os sécs. XVIII-XIX.
Iconografia de Santo António
A iconografia de Santo António representa-o correntemente a envergar o hábito castanho da ordem franciscana, com terço e cordão à cintura, acompanhado do Menino Jesus, o que simboliza a intimidade de Santo António com Cristo. Em geral, o Menino Jesus é mostrado de três modos diferentes: - SOBRE A BÍBLIA: Significa que Santo António anunciava Jesus Cristo através de inúmeras citações do Evangelho; - AO COLO DE SANTO ANTÓNIO: Traduz a profunda intimidade do Santo com Jesus, fonte da sabedoria e dos dons que nele se manifestavam; - MOSTRADO AO SANTO PELA VIRGEM MARIA: Revela a intensa devoção de Santo António pela Virgem.
Existem ainda iconografias antoninas muito específicas que têm a ver com os Milagres de Santo António. Tal é caso do Sermão de Santo António aos peixes, do qual irei falar a seguir.
Sermão de Santo António aos peixes
Alguma iconografia de Santo António representa o "Sermão de Santo António aos peixes". Vejamos o que nos diz o Padre António Vieira (1608-1694) no seu “Sermão de Santo António aos peixes” publicado pela primeira vez em 1682:
“Pregava Santo António em Itália, na cidade de Rimini [1], contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o Santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António, com os pés descalços, não podia fazer esta protestação; e uns pés, a que se não pegou nada de terra, não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da sua doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: “Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes! Oh! maravilhas do Altíssimo! Oh! poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos; e, postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava, e eles ouviam”.
É o próprio Camões (c. 1524-1580) que relata: “Com que os mudos peixes / saem ouvindo ao ar aberto.” [2]. De resto é bem conhecida a quadra popular: "Santo António Português,/Quando foi pregar ao mar,/Até os peixes na água,/Se puseram a escutar!" [3]     
Passeio de Santo António com o Menino Jesus
A temática antonina traz-me à mente os versos do “Passeio de Santo António”, de Augusto Gil (1873-1929), magistralmente declamados pelo saudoso actor João Villaret (1913-1961). Os versos incluídos no livro de poemas “Luar de Janeiro” (1909), mostram a dimensão humana e ingénua com que são tratados os personagens Santo António e Menino Jesus. Perante alguma impertinência do Menino Jesus, Santo António ameaça fazer queixas à Mãe: “Corado como as vestes dos cardeais, / Achou esta saída redentora: / - Se o Menino Jesus pergunta mais, / ... Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!”. O poema é todo ele revelador da grande intimidade entre Santo António e o Menino Jesus.
Criações de Joana Oliveira
Alexandre Correia, porventura o maior coleccionador português de Santo António, facultou-me as imagens de duas criações da barrista Joana Oliveira, que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Essas imagens são “Passeio de Santo António com o Menino Jesus”(Fig. 1) e Sermão de Santo António aos peixes” (Fig. 2). De cada uma delas vou falar em particular.
Passeio de Santo António com o Menino Jesus (Fig. 1)
A tonsura na cabeça de Santo António frisa a sua castidade. A auréola na cabeça de Santo António e do Menino Jesus, sublinha a santidade de ambos.
Santo António enverga o hábito franciscano castanho, com o cordão à cintura. Na mão direita segura uma Bíblia de capa castanha que comprime contra o peito. Parece ir dar a mão ao Menino Jesus, que veste túnica azul clara e que segura na mão esquerda três lírios amarelos (Porventura uma alegoria à Santíssima Trindade, já que o amarelo traduz a luz.). Qualquer deles calça sandálias castanhas com tiras.
Naturalmente que a cor das vestes tem um significado profundamente simbólico. O castanho de Santo António é a cor da terra e simboliza a humildade, a simplicidade e a pobreza que são apanágio dos franciscanos. O azul claro do Menino Jesus representa a espiritualidade, a eternidade, a paz, a pureza e o desapego da vida mundana.
A representação é muito feliz. Sugere: Intimidade (Caminham juntos); - Confiança mútua (Santo António e o Menino vão praticamente de mão dadas, sem contudo se tocarem); - Cumplicidade (Olham um para o outro); - Comunicação (Parecem falar entre si); - Amor aos Evangelhos (Santo António comprime a Bíblia contra o peito); - Partilha (O Menino transporta os lírios, atributo de Santo António).
De registar que o conjunto não assenta numa peanha. Esta começou por ser usada pelos barristas populares de Estremoz, os quais utilizaram como modelo imagens devocionais de escultores eruditos em madeira, que eram objecto de culto nas nossas igrejas e conventos. Todavia libertaram-se dessa "canga". A peanha tem sido utilizada por quem o entende fazer, mas há barristas como José Moreira, Fátima Estróia e Maria Luísa da Conceição, que embora tenham modelado imagens devocionais com peanha, perceberam que esta era dispensável e são conhecidos trabalhos seus (eu próprio os tenho), em que as imagens de Santos não assentam nem em peanhas nem em andores. Nunca passou pela cabeça de ninguém, dizer que não são imagens devocionais ou que não possam ser considerados Bonecos de Estremoz. Tal é o caso, que aqui registo e saúdo.
As duas figuras assentam numa base quadrangular. Sendo o quadrado símbolo da perfeição e da estabilidade, a geometria da base poderá constituir uma alegoria aos quatro Evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João). Por uma questão técnica, os vértices do quadrado foram cortados em bisel, para conferir mais solidez à base. Esta é de cor verde, cromatismo ligado à natureza, ao crescimento, à renovação, à esperança e à liberdade. A orla da base é castanha, cor do hábito do Santo. No seu conjunto, as cores verde e castanha da base reforçam a sobriedade do conjunto.
Voltando à peanha cujo uso é advogado por alguns, julgo não ser despropositado tecer algumas considerações suplementares. Na sua imponência ornamental, a peanha configura o afastamento do devoto em relação à imagem devocional. Pelo contrário, uma imagem devocional sem peanha traduz a aproximação do devoto em relação à imagem devocional, já que o Santo fica no plano térreo do devoto. Por outras palavras, trata-se de uma abordagem artística mais “terra a terra”, que a meu ver humaniza mais a iconografia, sem todavia a dessacralizar.
Sermão de Santo António aos peixes (Fig. 2)
Santo António enverga o hábito franciscano castanho com terço e cordão à cintura e calça sandálias castanhas com tiras. A tonsura na cabeça salienta a sua castidade, mas a cabeça não apresenta auréola por a representação se referir a um episódio da sua vida, antes de ter sido canonizado.
A figura do Santo está assente num plano mais elevado em relação ao nível do mar. Os pés pisam aquilo que configura ser rocha cinzenta, provável alegoria à dor sentida pelo Santo, por não ser escutado pelos homens e se ver forçado a pregar aos peixes. Junto aos pés, dois lírios branco e lilás, provável alegoria à inocência do Santo. Este, de boca aberta, prega aos peixes olhando para o céu como se recebesse a palavra de Deus. O seu sermão é acompanhado de linguagem gestual.
Aos pés do Santo rebentam as ondas do mar azul, repletas de espuma. Da água emergem peixes (em número de quatro), que parecem escutar as palavras do Santo. Será uma alegoria às quatro virtudes fundamentais (Sabedoria, Fortaleza, Temperança e Coragem), referidas por Platão (428/427 – 348/347 a.C.), na “República”?
Epílogo
Os trabalhos da Joana Oliveira são trabalhos expressivos, reveladores de forte personalidade, sensibilidade e bom gosto que se traduzem em marcas identitárias muito próprias, que a maioria das vezes só são conseguidas ao fim de muito tempo de traquejo, após os barristas se terem conseguido libertar da influência daqueles que os precederam e/ou ensinaram, deixando de imitar ou tentar imitar a sua produção, não o conseguindo muitas vezes. Com o trabalho da Joana Oliveira, a Barrística Popular de Estremoz está de parabéns e ela própria também. Pois claro!
O seu caminho deverá ser sempre uma procura, com prazer no caminho e na descoberta. E com tal procedimento é sempre possível manter uma estrita fidelidade ao modo de produção, consensualmente reconhecido como "sui generis" e de Estremoz.

[1] - Rimini, cidade do NE de Itália, na região de Emília, província de Forli, situada na costa do Adriático e na foz do Mareccha, a 44º 3’ 43" de latitude Norte. A cidade de Rimini teve origem na antiga Ariminum, fortaleza e posto de grande importância política e militar no período romano. Já na Idade Média, Rimini foi porto de importância e domínio dos Malatesta, senhores cruéis e requintados mecenas. Actualmente é uma das maiores e mais famosas estações balneares de Itália.
[2] - CAMÕES. Écogla 6.ª das Rimas Várias.
[3] - Quadra recolhida por Armando de Mattos (ver Bibliografia).

BIBLIOGRAFIA
- MATOS, Hernâni António Carmelo de. Bilhetes-Postais Comemorativos do VII Centenário do Nascimento de Santo António de Lisboa in Catálogo da Inteiromax - Eça de Queiroz 2000, Póvoa de Varzim, Agosto de 2000.
- MATTOS, Armando de. Santo António nas Tradições Populares. Porto, 1937.

Hernâni Matos

Fig. 2 - Sermão de Santo António aos peixes (2020). Joana Oliveira (1978).
Colecção de Alexandre Correia.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Bonecos de Estremoz e pandemia: Peralta e Sécia


Peralta e sécia na pandemia (2020). Irmãs Flores.

Introdução
No início de Março de 2020 alastrou em Portugal uma pandemia de COVID 19. Como coleccionador e investigador da barrística popular estremocense, surgiu-me na mente a ideia de que poderiam e deveriam ser modelados Bonecos que perpetuassem no barro, a pandemia que atravessamos. A ideia começou por ser posta em prática, através da criação pelo barrista Ricardo Fonseca da figura de São Roque, tido como Santo Protector contra as epidemias e que não havia ainda sido modelado pelos barristas de Estremoz.
A ideia inicial tinha pernas para andar e podia estender-se noutras direcções. Foi assim que pensei que para além daquela imagem devocional, podiam ser criados Bonecos que retratassem em contexto social a resposta possível à pandemia. Em termos de prevenção, uma das atitudes a tomar passa pelo uso de máscaras comunitárias em ambientes fechados. Uma opção possível passava assim pela modelação dum Boneco usando máscara. Todavia, a pandemia não escolhe nem sexo, nem idade, nem etnias. Haveria pois que confeccionar dois Bonecos, um referente ao sexo masculino e outro ao sexo feminino. Optei por representações de adulto de idade indeterminada e como havia que escolher uma cor para a pele, escolhi a branca, por ser a cor de pele dominante em Portugal.
Bonecos da Tradição ou Bonecos da Inovação?   
Chegado a este ponto, tinha duas opções possíveis: serem recriados Bonecos da Tradição ou inovar, criando novos Bonecos. Que fazer então?
Estamos em presença de tempos que são tempos de mudança, o que me levou a lembrar Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: / Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.”; “Continuamente vemos novidades, / Diferentes em tudo da esperança: / Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem (se algum houve) as saudades.”
Fui levado a concluir que seria mais interessante e preferível, recriar Bonecos da Tradição, já que permitiria aprofundar e enriquecer o seu conjunto. Cada um deles encerra em si as marcas de identidade próprias dos barristas que os criaram e lhes deram alma e vida. Os Bonecos a recriar agora passariam ainda a ostentar marcas que os associavam temporalmente ao período da pandemia.
Que Bonecos da Tradição?   
Chegado aqui, tinha novas opções a fazer que passavam pela escolha dos Bonecos da Tradição que iriam ser recriados.
As “Figuras de presépio” e as “Imagens devocionais” foram excluídas à partida do conjunto das hipóteses a considerar, dada a sua função simbólica.
Restavam então as figuras que desempenham uma função decorativa: as “Figuras da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas”, as “Figuras que têm a ver com a realidade local”, as “Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico”, as “Figuras de negros”, as “Figuras destinadas a assinalar períodos festivos” e as “Figuras satíricas”. Obviamente que estes três últimos tipos de figuras foram eliminados imediatamente, por a sua utilização carecer de sentido face aos meus propósitos. O mesmo se passou com as “Figuras da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas”, já que isso seria limitar a representação a um contexto rural, bem como as “Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico”, já que a importância do uso da máscara sobressai na interacção social. Restavam então as “Figuras que têm a ver com a realidade local”. Por não serem socialmente predominantes, excluíram-se as figuras do “Sector militar” e do “Domínio religioso”. Restaram então as figuras de “Âmbito civil”. Chegado aqui, optei por escolher a imagem do “Peralta” e da “Sécia” (esta última vulgarmente designada por “Senhora de Pézinhos”).
A escolha das cores
Havia agora que definir as cores, convindo não esquecer que estamos em Portugal, “a ditosa pátria minha amada”, no dizer de Camões. As cores nacionais são as cores da Bandeira Nacional adoptada pela República instaurada pela Revolução de 5 de Outubro de 1910. O verde-escuro e o vermelho são as cores fundamentais e o amarelo e o branco são cores secundárias.
Pensei então que o traje do “Peralta” e da “Sécia” deveriam sublinhar simultaneamente a diferença e a complementaridade entre homem e mulher. Escolhi para a roupa feminina a cor vermelha, ornada de verde-escuro e para a roupa masculina, a cor verde-escuro, ornada de vermelho. Os chapéus deveriam ser ambos amarelos.
O simbolismo das cores
As cores da bandeira nacional têm um significado simbólico diversificado, que pode assim ser sistematizado: - VERMELHO - associado à paixão, à energia, à coragem e à revolução; - VERDE – ligado à natureza, ao crescimento, à renovação, à esperança e à liberdade; - AMARELO - traduz a luz, o calor, o optimismo, a alegria, a felicidade e a prosperidade; - BRANCO – simboliza a paz, a espiritualidade, a virtude, a inocência e a virgindade.
A materialização duma ideia
Contactei as Irmãs Flores expondo em traços sumários a minha ideia de ver modeladas as figuras do ”Peralta” e da “Sécia“, usando máscaras de protecção contra a pandemia. Dei também conta das cores que gostava que fossem utilizadas, para situar as figuras em contexto português. Disseram-me imediatamente que podiam modelar as imagens pretendidas e que a combinação de cores que eu propunha, era por elas usada com frequência.
As Irmãs Flores interpretaram a seu modo o que eu propusera e a sua mestria criou duas figuras muito belas, de cunho verdadeiramente popular e que correspondem inteiramente aquilo que eu pretendia (Fig. 1 e Fig. 2).
Peralta
Figura antropomórfica masculina, de pé, com as mãos na anca e sapatos negros. Na cabeça, o cabelo é castanho e está parcialmente coberto por chapéu amarelo, de aba larga e virada para cima.
Os olhos são dois pontos negros, encimados por dois arcos igualmente negros, simulando as pestanas e as sobrancelhas. Uma máscara azul clara com orla branca e estreita, cobre a boca e o nariz, do qual só é visível a parte superior. Da máscara sai uma atadura branca que a prende às orelhas.
Traja um fato verde-escuro. As calças têm uma bainha vermelha. O casaco tem uma orla e punhos vermelhos. A gola é igualmente vermelha mas decorada com seis flores, que apresentam uma corola verde e oito pétalas, alternadamente brancas e amarelas. As flores estão separadas entre si por faixas transversais à gola, verdes e amarelas, que se alternam.
O casaco tem à frente uma abotoadura constituída por quatro botões amarelos, dois de cada lado. A parte detrás do casaco ostenta na horizontal dois botões amarelos, à altura da cintura.
À volta do pescoço tem enrolado um lenço amarelo, cruzado à frente e com as pontas a mergulhar dentro do casaco.
A figura assenta numa base quadrangular com os vértices cortados em bisel e pintalgada de branco, amarelo e zarcão. Verticalmente, a orla da base é cor de zarcão.
Sécia
Figura antropomórfica feminina, de pé e com as mãos na anca. Na cabeça, o cabelo é castanho, enrolado atrás em forma de troço e está parcialmente coberto por um chapéu amarelo, levantado à frente e ornamentado por três plumas igualmente amarelas mas com três pintas vermelhas em cada ponta, separadas entre si por traços longitudinais a verde.
Os olhos são dois pontos negros, encimados por dois arcos igualmente negros, simulando as pestanas e as sobrancelhas. Uma máscara azul clara com orla branca e estreita, cobre a boca e o nariz, do qual só é visível a parte superior. Da máscara sai uma atadura branca que a prende às orelhas, das quais pendem arcadas amarelas.
Enverga um conjunto de saia e casaco vermelhos. A saia é comprida e encontra-se decorada na orla inferior por aquilo que configura ser um bordado constituído por meias folhas lanceoladas, alternadamente verdes e amarelas, separadas por pétalas brancas. Ao fundo da saia, à frente, espreitam os sapatos pretos usados pela figura.    
O casaco é curto, justo ao corpo e tem uma orla e punhos verdes. A gola é igualmente verde, decorada com seis flores com corola vermelha e oito pétalas, alternadamente brancas e amarelas. As flores estão separadas entre si por faixas transversais à gola, vermelhas e amarelas, que se alternam. O casaco tem à frente uma abotoadura constituída por seis botões amarelos, três de cada lado. A parte detrás do casaco ostenta na horizontal dois botões amarelos, à altura da cintura. A gola é fechada à frente por um botão amarelo maior que os restantes.
Origens históricas                              
O “Peralta” e a “Sécia” eram os elegantes portugueses dos sécs. XVIII e XIX, que envergavam trajos garridos com demasiado apuro e enfeites. De acordo com a literatura da época e sobre a época, eram pessoas afectadas não só no trajar, como no andar e no comportamento.
No Museu Municipal de Estremoz existem exemplares daquelas figuras identificadas como sendo do séc. XIX. A sua produção foi retomada nos anos 30 do séc. XX, graças à acção do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, que atribuiu a si próprio a missão de recuperação da tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, extinta desde 1921. Para tal, utilizou primeiro como instrumento primordial dessa recuperação a velha barrista Ana das Peles (1869-1945) e depois como instrumento de continuidade dessa recuperação, Mariano da Conceição – o Alfacinha (1903-1959), mestre de olaria naquela Escola.
Estremoz, Abril de 2020
(Jornal E nº 247, de 28-05-2020)


Peralta na pandemia (2020). Irmãs Flores.

Sécia na pandemia (2020). Irmãs Flores.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Santo António e COVID-19


Santo António (2020). José Carlos Rodrigues. Colecção Alexandre Correia.

Iconografia de Santo António
A iconografia de Santo António representa-o correntemente a trajar o hábito castanho da ordem franciscana, com terço e cordão à cintura. O hábito castanho simboliza os princípios franciscanos: humildade, simplicidade e justiça. O terço traduz que é um homem de oração. O cordão apresenta três nós que expressam: obediência, pobreza e castidade.
A iconografia figura-o ainda com um livro nas mãos, o que tem um triplo significado: representa os Evangelhos, a sabedoria de Santo António e o facto de ser Doutor da Igreja.
A iconografia caracteriza-o também através da presença do Menino Jesus, o que expressa a sua intimidade com Jesus Cristo. O Menino Jesus é apresentado em cima do livro, a Bíblia, o que significa que Santo António anunciava Jesus Cristo. Por vezes, o Menino Jesus aparece ao colo de Santo António, o que reforça a singular intimidade do Santo com Jesus.
A iconografia associa igualmente ao Santo, um lírio como símbolo de pureza e castidade, esta última reforçada pela sua representação com uma tonsura na cabeça.

Santo António e Bonecos de Estremoz
Recentemente tomei conhecimento de duas representações de Santo António da autoria do barrista José Carlos Rodrigues (Fig. 1 e Fig. 2), sobre cuja execução técnica nada tenho a observar, o que já não acontece em termos iconográficos.
A imagem da Fig. 1 enquadra-se na iconografia tradicional e nada tenho a notar sobre a mesma. Já a representação da Fig. 2, ainda que alegórica e despoletada pela actual pandemia de COVID-1 19, merece-me reparos muito sérios:
1 - Santo António usa luvas e máscara comunitária e tem a seu lado um frasco de gel desinfectante. É posta em causa a santidade e pureza do taumaturgo que o deveriam manter imune ao vírus e de o transmitir ao Menino Jesus, o qual pela sua santidade também estaria imune.
2 - Santo António está refastelado num sofá que configura ser de couro, ao que parece a usar um “tablet”. Será adequada tal representação a um franciscano que fez juramento de humildade e simplicidade?
3 - Santo António trocou a Bíblia pelo “tablet” e os Evangelhos passaram a ser sustentados pelo Menino Jesus. Será que este adquiriu a sabedoria de Santo António e passou a ser Doutor da Igreja? 
4 - O lírio está numa jarra de flores. Será para sugerir que o Santo trocou há já algum templo a Bíblia pelo “tablet” e pôs o lírio na jarra para não murchar? Será que isso não sugere que a pureza e castidade do Santo correm riscos ao usar o “Tablet”, relegando a Bíblia?
Como cidadão creio que as questões de religião devem ser abordadas com pinças e nunca tratadas com ligeireza, já que isso pode entrar em confronto com as crenças mais profundas da comunidade católica, as quais devem ser merecedoras do maior respeito.
Como investigador responsável da barrística popular de Estremoz sou uma pessoa de espírito aberto, receptiva a criações de novas figuras para além do âmbito restrito dos chamados Bonecos da Tradição. Todavia, tenho sempre presente que a nossa barrística teve origem nas imagens devocionais e nos presépios, que continuam a ser modelados desde setecentos. Desde então que os nossos Bonecos nunca se desviaram das características e do rumo identitário cimentados por séculos de modelação. As figuras humorísticas e satíricas são próprias de latitudes como Barcelos, mas não o são de Estremoz. Tal é válido não só para imagens laicas mas também e sobretudo para imagens devocionais.
Do exposto e pelo exposto creio ser legítimo concluir que a imagem da Fig. 2, não possa ser considerada aquilo que se convencionou chamar um Boneco de Estremoz. Isto não põe em causa a liberdade de criação do barrista. Acautela apenas a designação “Bonecos de Estremoz”, que tal como estes deve ser salvaguardada.

Santo António (2020). José Carlos Rodrigues. Imagem recolhida com a devida
vénia do grupo do Facebook "Olaria e Figurado Português".

terça-feira, 19 de maio de 2020

Adagiário de São Roque


São Roque (c. 1516). Iluminura do Missal de Joanna de Ghistelles, c. 1516:
Egerton MS 2125, f. 209 v.

Propus-me estudar o adagiário português dos Santos e dei conta desse estudo em três textos publicados sucessivamente:
Adagiário dos Santos - 3                 
Apesar da expressividade do culto a São Roque em Portugal, não conheço nenhum adágio português que faça referência ao dia de São Roque (16 de Agosto). Todavia, na tradição oral francesa, existem adágios que têm a ver com o calendário agrícola do mês de Agosto:
- À la Saint-Roch, grande chaleur prépare vin de couleur (Por São Roque, muito calor origina vinho de cor);
- À la Saint-Roch, les noisettes on croquet (Por São Roque comemos avelãs);
- Après la Saint-Roch, aiguise ton soc et chausse tes sabots (Depois de São Roque, afia a tua relha e calça os teus tamancos) - Diz-se aos lavradores, porque é chegado o momento de fazer os preparativos para as sementeiras de Outono;
- C'est saint Roch et son chien (É São Roque e o seu cão) – Diz-se de duas pessoas inseparáveis;
- La Saint-Roch annonce le temps d'automne (São Roque anuncia o Outono);
- Oncques pluye ne fict tord à la grand saint Roch en Retord (Nunca a chuva prejudicou o grande São Roque em Retord);
- Peigné comme saint Roch  (Pentado como São Roque) – Diz-se de alguém mal penteado;
- Qui aime saint Roch, aime son chien (Quem gosta de São Roque, gosta do seu cão) – Idem;
- Qui voit saint Roch, voit bientôt son chien (Quem vê São Roque, vê logo o seu cão) – Diz-se de duas pessoas que se seguem uma à outra;
-S'il pleu t à la Saint-Roch les truffes pousseront sur le roc (Se chover em São Roque, as trufas crescerão na rocha);
Não há adágios portugueses sobre São Roque, mas há adágios franceses. É caso para dizer:
- Quem não tem cão, caça com gato.



São Roque (1508). Iluminura do “Livre de prières de Madeleine d'Azay”, folha 27 r,
Manuscrito 355, Biblioteca- Mediateca de Nancy.

Cura de São Roque (15..). Iluminura do “ Livre d'heures à l'usage de Chalon”,
folha 108 v, manuscrito 6881, Biblioteca Municipal de Lyon.

domingo, 17 de maio de 2020

COVID - 19




Textos publicados no contexto da pandemia de COVID-19


Coronavírus COVID-19 (Blogue: 15 de Março de 2020)
Aos devotos de São Roque (Blogue: 19 de Março de 2020)
Bonecos de Estremoz e pandemia: São Roque (Blogue: 13 de Maio de 2020)
São Roque em Portugal (Blogue: 16 de Maio de 2020)
Adagiário de São Roque (Blogue: 19 de Maio de 2020)
Santo António e COVID-19 (Blogue: 26 de Maio de 2020)
Bonecos de Estremoz e Pandemia: Peralta e Sécia (Blogue: 28 de Maio de 2020)
Bonecos de Estremoz e pandemia: Ricardo Jorge (Blogue: 11 de Junho de 2020)
Auto do desconfinamento de Santo António (Blogue: 13 de Junho de 2020) 
-  Bonecos de Estremoz e pandemia (Blogue: 30 de Janeiro de 2021)


Hernâni Matos