segunda-feira, 29 de março de 2021

Preservar memórias


Sónia Ferro. Jurista. Vereadora da Câmara Municipal de Estremoz.
 
O Professor Hernâni, por muitos motivos e mais alguns, é-me pessoalmente querido e por ele nutro a maior consideração.
Não posso deixar de me recordar de quando, ainda bem miúda, tive o privilégio de que me mostrasse a sua coleção de selos, ou provavelmente parte dela, pois já à data era bastante extensa e impressionante. Eu e o meu irmão Pedro, um pouco mais novo que eu, ficámos absolutamente fascinados! A tal ponto que iniciámos logo várias coleções, algumas das quais ainda hoje preservamos.
Também na Escola Secundária, apesar de nunca ter sido sua aluna, até porque ingressei pelo mundo das letras, fui marcada pela sua figura carismática. Foram muitos os meus amigos e colegas que, pela sua influência e pela forma cativante como lecionava, enveredaram pelas “físicas” e pelas “químicas”.
Hoje tenho-o como um homem de saber, perseverante e resiliente. Alguém cuja determinação e empenho tem contribuído, de forma singular, para a preservação e valorização do património cultural de Estremoz. O rigor com que leva a cabo os seus projetos e estudos, entre outros como investigador da Barrística Popular Estremocense, asseguram-nos a autenticidade, a preservação e o respeito pelas “nossas” memórias e tradições populares.
A sua capacidade de partilhar o saber e o seu conhecimento aprofundado e especializado é também de louvar. Por meio do seu Blogue, de publicações na imprensa e dos livros de que é autor ou organizando exposições temáticas e iconográficas, o Professor Hernâni abre-nos o livro da história da nossa comunidade.
Como filha da terra resta-me demonstrar-lhe a minha gratidão.
 
Sónia Ferro
Estremoz, 4 de março de 2021
 
 Hernâni Matos

domingo, 28 de março de 2021

O meu posto é aqui!

 

 


É forte o meu amor pelos Bonecos de Estremoz. É como se a Terra-Mãe de barro se tivesse fundido comigo num acto de paixão perene que me aquece e alegra a alma. Por outras palavras: tenho os Bonecos de Estremoz na massa do sangue. Eles são o meu amor de todas as horas e acompanham-me para onde quer que eu vá. Longe de ser um fardo, é uma missão que assumi de corpo inteiro. De tal modo que por vezes me vejo obrigado a puxar das divisas e a proclamar:
- O meu posto é aqui!
Esse o significado da presente fotografia de quem não nasceu para posar para fotografias, mas antes para rasgar horizontes, já que é para serem rasgados que os horizontes existem. Todavia, os horizontes fogem de mim e sempre que avanço na minha caminhada, os horizontes passam a ser outros, até eu passo a ser outro, porque, entretanto, cresci durante a caminhada.
Recolectar, observar, analisar, ver para além do óbvio, estudar, investigar, pulverizar os dogmas e as verdades de conveniência onde alguns gostam de se acoitar e acabam por se atolar, são alguns dos passos dessa caminhada.
Boniqueiro das palavras ou picareta escrevente tanto faz. O que interessa é o que escrevo e como escrevo, já que se escrevo e porque escrevo é espontaneamente da máxima importância, por ser tão vital como o respirar, o comer, o dormir e o procriar.  E a voz que é minha com a força e a legitimidade de provir igualmente da Terra-Mãe, tal como eu nunca se rende e mesmo em momentos difíceis proclama comigo e a uma só voz:
- O meu posto é aqui!
Publicado inicialmente em 28 de Março de 2021

sexta-feira, 26 de março de 2021

Hernâni Matos: uma referência na vida estremocense

 
 Pedro Ramalho. Funcionário autárquico. Radialista.

 Traçar o perfil biográfico de quem quer que seja, não é tarefa fácil, muito menos do Professor Hernâni Matos. Limitar-me-ei a alguns tópicos resultantes da minha interação com ele.

Durante o seu percurso como docente na Escola Secundária Rainha Santa Isabel, não cheguei a ser seu aluno. Certamente, cruzávamo-nos nos corredores e o nosso relacionamento não passaria dum circunstancial “bom dia” ou “boa tarde”.
No ano de 1994, conheci pessoalmente o Professor Hernâni Matos como autarca na Assembleia Municipal de Estremoz, à qual eu prestava assistência como funcionário do Município. Aos sábados de manhã era vulgar encontrarmo-nos no Café Alentejano, onde em torno de uma bica, o tema de conversa eram os assuntos pertinentes da ocasião, abordando-se também a sua prestação no órgão autárquico e os projetos que desenvolvia na altura (Filatelia, Animação Cultural e Imprensa local). Muitas vezes coloquei à sua disposição os meus conhecimentos no arranjo e produção gráfica de trabalhos das diversas áreas em que tem intervindo.
A meu ver, o seu papel como autarca traduz-se até aos dias de hoje, numa das melhores prestações que o órgão conheceu. Foi ele que implementou a utilização de actas electrónicas na Assembleia Municipal. Era um homem que só precisava da coragem e da força de vontade para lutar por aquilo em que acreditava.
O Professor Hernâni, com o seu espírito persistente, gosta de aprender e ensinar. Desta forma, sabe como ninguém, pensar com serenidade e ponderação.
Há cerca de 50 anos que vem desenvolvendo intensa e diversificada atividade cultural a nível local. Como filatelista alcançou projeção internacional, tendo recebido inúmeros prémios e distinções. Há 12 anos que mantém um blogue dedicado à Cultura Portuguesa, muito em especial à Cultura Popular, com especial incidência no âmbito local e regional. Colaborador ativo da Imprensa local, publicou 4 livros com os conteúdos centralizados em Estremoz.
Pela sua postura cívica representa um exemplo a seguir por qualquer um que tenha a consciência do dever para com a sociedade a que pertence.
Bem-haja, Professor.

 Pedro Ramalho
Estremoz, 4 de Março de 2021

Hernâni Matos

quarta-feira, 24 de março de 2021

Poesia Portuguesa - 101




AS REVOLUÇÕES MINÚSCULAS
Firmino Mendes

Começam em casa, na cama, na mesa
no lugar mais ameno onde a sombra bate
Pode ser aqui, nesta cave ou porão, onde a palavra
flui silenciosamente, como um tema de Bach

Nada se repete, nem o pleno canto dos pássaros
nem o vento que agora amansou à tona do rio
Tudo se faz devagar, mesmo esta roda do tempo
em que a revolução demora mas é incerta certeza

Repara nestas oliveiras que atravessam os séculos
e que nada têm a ver com os olivais intensivos que agora
vão cobrindo o Alentejo com oliveirinhas imitando o plástico
e onde os pássaros se aninham para dormir e morrer

Pode ser que aqui, à sombra de uma árvore minúscula
bata um coração apressado que solte um punho ao ar
e traga ao coração da terra as raízes mais acordadas
aquelas que, milímetro a milímetro, levantarão o chão

Firmino Mendes
Lisboa, 23 de Março de 2021



Oliveira do Mouchão. Mouriscas, Abrantes. Idade: 3350 anos.
Altura de tronco até ás primeiras pernadas: 3,2 m. Perímetro do tronco: 6,5 m.

Olival intensivo.

terça-feira, 23 de março de 2021

Amizade em tempos de Covid ou sobre os seres que são catedrais

 

Joana Santos. Boniqueira.

Dou comigo a pensar que o corpo com que nascemos nos molda. Como se as características físicas fossem os atributos extensíveis da nossa personalidade. Ou talvez seja ao contrário. Que o corpo se vai moldando de forma a albergar a dimensão dos nossos interesses, dos nossos valores, do nosso conhecimento, de como somos com os outros à medida que crescemos.

Em 2019, quando embarquei no Curso de Técnicas de Figurado de Estremoz, estava longe de imaginar que a minha vida ia dar uma volta de 360 graus. Mas uma grande volta deu a minha vida, de tal forma que, inspirada e apaixonada pelo que tinha aprendido, deixei um emprego certo e decidi dedicar-me à incerteza de ser artesã e fazer bonecos. Uns mais inspirados nos de Estremoz do que outros, mas sempre com os de Estremoz, e o que aprendi no curso, no horizonte e como ponto de partida.

Neste meu salto em queda livre, foram muitos os que me foram abrindo para-quedas, de tal forma que acabei por perceber que afinal não era uma queda, mas sim um voo. E ninguém como o Hernâni Matos, que agora tenho o privilégio de ter como Amigo,  e que me tem acompanhado neste voo e tem sido uma  ponte sólida entre o meu trabalho como artesã e o mundo dos Bonecos de Estremoz.

Não me esqueço o sábado de sol, de um princípio de verão, no dia em que nos conhecemos. Um dia da era estranha dos tempos Covid, que não são ainda dias do passado, mas que espero, possam sê-lo em breve. Ambos de máscara posta, adereço uniformizador da nossa vulnerabilidade humana, escudo que nos protege a vida, mas que nos afasta da riqueza codificada das expressões faciais. O que era para ser uma entrega de uma peça à laia de um café, tornou-se numa conversa que teria durado todo o dia, não fosse a sardinhada em família que o Hernâni tinha agendado para esse sábado.

A mente do Hernâni é como as cartolas dos mágicos, e exerce o mesmo fascínio para quem tem a sorte de privar com ele.  Nem bem acabado que está de sair o primeiro coelho, já uma pomba, um lenço, uma rosa se põem em fila para sair também, num desfile inesgotável e surpreendente, cada um como consequência inevitável do outro. Dos cumprimentos formais "do como está, é um prazer conhecê-lo finalmente", o Hernâni deslindou o primeiro "coelho da sua cartola" com a lenda de São Roque e do seu confinamento visionário, em tempos de outras pandemias, e sobre o cão que lhe trazia pão e que lhe permitiu sobreviver. Do São Roque passou-se aos apitos. Os mais tradicionais, os mais contemporâneos. Fiquei a saber que o Hernâni prefere os mais singelos. Depois a conversa discorreu para a origem carnavalesca das figuras do Amor é Cego, da sua possível inspiração nas obras barrocas com cupidos e outros anjos. Daí passámos à Primavera, às peças de inovação, o percurso histórico dos Bonecos. Outro truque da cartola, e o Hernâni falou do seu percurso profissional como aprendiz de alfaiate, e depois como professor de Física no Liceu. Mencionou um aluno brilhante que teve, o seu perfeccionismo já evidente, e que se transformou num dos grandes do Figurado Português, com o qual tive o privilégio de aprender o que sei de figurado -  o Mestre Jorge Palmela. Logo a conversa se virou para os novos artesãos, os mais velhos, os que já não estão.  E daquela cartola não parariam de sair "coelhos e pombas", na analogia possível aos temas de grande interesse que ali partilhávamos, não tivesse chegado a hora do almoço.

O mercado de sábado, que me parecia acontecer apenas com o propósito de servir de cenário à nossa conversa, era  já um baile de gente a arrumar bancadas e outras de sacos nas mãos a transbordar com ramas verdes, comprando um último ingrediente, ou  fazendo uma última negociação de algum achado em segunda mão, antes do regresso a casa.

E assim, sob o olhar atento da fonte do Sátiro, do escultor Sá Lemos, nos despedimos. Sem abraços, ou outras manifestações de proximidade, porque os tempos não estão para isso.

No regresso a casa vim a pensar no quanto aquele homem de 74 anos, ao qual praticamente só vi os olhos, leva dentro. Tanto conhecimento, tanta força, tanta generosidade, tanto amor por tantas coisas e um incomensurável pelos Bonecos, que o seu corpo mais não poderia ser se não um corpo alto, basilar, com a elegância da idade e das coisas interessantes às quais dedica o seu tempo.

Desde então são inúmeras as vezes que trocamos ideias. Não se cingem aos bonecos, nem ao eterno dilema, tão velho como a própria arte em si, da tradição versus a inovação, que pano para longas mangas tem dado aos Bonecos da Cidade Branca. Outros temas afloram, alguns de cariz mais atual, outros mais poéticos e oníricos. Em todos eles sempre a mesma generosidade, cuidado, mente crítica,  conhecimento profundo, sensibilidade e, a qualidade mais preciosa entre todas - humanidade. 

Seres como Hernâni são seres raros, bons, necessários cuja contribuição para o bem maior é indelével. E por isso têm corpos como catedrais, fortes, amplos, erguidos, para que neles possa existir o universo vasto que contêm. 

Que acabem rápido estes dias covidescos, e que a nossa amizade possa fazer-se de mais dias de verão, numa esplanada de Estremoz, irradiada pelo sol e pela partilha de saber, de interesses comuns e pelos nossos sorrisos.

 

Joana Santos

Foros do Queimado, 1 de Março de 2021



Joana Santos no seu atelier.

domingo, 21 de março de 2021

O professor Hernâni

 

Sónia Caldeira. Professora. Deputada à Assembleia Municipal em Estremoz.


As minhas lembranças do professor Hernâni remontam a meados dos anos 90 em que eu era aluna na Escola Secundária de Estremoz e ele, professor. Fui aluna de Técnicas de Laboratoriais de Química, uma vez que sempre fui mais da Química das reações, das ligações e fusões, do que da Física dos movimentos, forças e leis. O professor Hernâni era mais da Física tendo acabado por nunca ter sido meu professor. De qualquer forma não passou despercebido, não só por ser marido da minha querida professora Fátima, mas também porque pessoas como ele, não passam indiferentes a ninguém.
Recordo-me do seu ar imponente e da sua voz altiva que punha qualquer turma em sentido naquele corredor dos laboratórios de Física e de Química. Todos os respeitavam, todos lhe reconheciam qualidades de um excelente professor de Física e de um grande dinamizador de atividades…
Anos mais tarde, em 2005, reencontrei o professor Hernâni na Assembleia Municipal. Ele da bancada da CDU e eu da bancada do PS, num tempo em que eu iniciava as minhas lides na política e ele já quase tinha um mestrado nesta área. Estive ali para aprender, as minhas poucas intervenções passariam despercebidas a qualquer um, ao contrário das intervenções do professor Hernâni, cujas palavras ecoavam ora em tom de convicção, ora em tom de manifestação, no imponente salão Nobre dos Paços do Concelho.
Ao longo dos tempos os nossos caminhos continuaram a cruzar-se e em 2014 fomos ambos convidados para ser colunistas do Jornal E. Foi nessa altura que redescobri o seu grande interesse pela filatelia, pelos usos e costumes do Alentejo e dos alentejanos e a sua grande paixão pelos “nossos” Bonecos de Estremoz. Percebi também que tudo o que escreve é baseado em informação recolhida e criteriosamente selecionada.
Respondendo ao seu convite estive presente na apresentação do seu penúltimo livro “O Franco-Atirador”. Os seus textos/reflexões são centrados em problemas sociais e visam a tomada de consciência e o despertar para mudanças essenciais que contribuam para um mundo mais justo e igualitário.
Nos últimos tempos vou acompanhando alguns dos seus textos no blog “Do Tempo da Outra Senhora”. Aguardo com expetativa o lançamento do próximo livro.
Obrigado professor Hernâni, estou certa que será sempre uma referência para Estremoz e que o seu legado nunca se perderá.
 
Sónia Caldeira
Estremoz, 23 de Fevereiro de 2021

sexta-feira, 19 de março de 2021

Hernâni Matos, pois claro!


Maria de Fátima Crujo. Professora.


Texto redigido com predominância
das iniciais do nome do visado:
Hernâni António Carmelo de Matos

 

Mal o ano chegou, mais concretamente, no começo do mês em curso, mandou missiva. Ai, conseguirei cumprir?

Catarina, ajuda-me. Confirma aí, o antecessor que te apresentou ao mundo… antes de Carmelo, chama-se…?

– …

Ah, maravilha! Haja alfabeto!

Anteontem, madrugada adentro, ambiente criado, concentrei-me e consegui caracterização.

Homem da cultura, ativista, melómano, apreciador de artistas e de aguarelistas, complementa o curso de ciências, amando conjuntamente as artes e ainda os herdeiros das cantigas de amigo e de amor, ansiando constantemente homenagear com afinco Antero, os Antónios, e Almada, o Almeida, Cesário e Camões, os modernistas e os mais que couberem.

Mestre maior a avivar memórias, habitual mentor, é hábil conhecedor de adágios e aforismos, anexins dos antepassados, o antigo mister campesino. Curioso por aprender mais e mais ainda, é um colecionador compulsivo de arte campestre, ajudante máximo da arte dos artesãos da cidade e do Alentejo, não se cansando de mostrar os de agora, que maravilhosamente manuseiam a massa à moda antiga.

É colaborador assíduo dos meios de comunicação cá da cidade com crónicas e comentários carregados de maravilhosas metáforas e habitualmente muito atento às causas maiores, à contribuição cívica como cidadão deste aglomerado e dos arredores, do cantinho, do mundo.

Em 1995, em maio, aproximou amigos, de modo multidisciplinar, e assegurou apresentações, ajustadas à área, de múltiplas comunicações acerca da água. Da mesma maneira, constantemente agrupa colegas, atribui um mote, e matuta na melhor maneira de criar concursos.

Há anos, convidou-me a apresentar a minha coleção de corujas, conseguindo que se carregassem milhares, de muitos materiais, o que cativou adeptos do colecionismo, colhendo agradáveis apreciações.

Acabo aqui, caro colega, almejando cabeça e musculada massa cinzenta que aguente acompanhar-te em mais coisas mil, manifestando além do mais, e atenta no meu humilde conselho, que conserves a mesma atividade abundante e absoluta firmeza.

Concluo, assim, este é o habilidoso, acelerado, célebre e metódico Hernâni António Carmelo de Matos, pois com certeza!


Maria de Fátima Crujo
Estremoz, 21 de Fevereiro de 2021



 Fátima Crujo declamando um poema em 31 de Outubro de 2010, no acto
inaugural  da Exposição “PINTURA DE RUI ALVES”,  promovida pela
 Associação Filatélica Alentejana na Sala de Exposições do Centro
 Cultural de Estremoz.