quarta-feira, 24 de março de 2021

Poesia Portuguesa - 101




AS REVOLUÇÕES MINÚSCULAS
Firmino Mendes

Começam em casa, na cama, na mesa
no lugar mais ameno onde a sombra bate
Pode ser aqui, nesta cave ou porão, onde a palavra
flui silenciosamente, como um tema de Bach

Nada se repete, nem o pleno canto dos pássaros
nem o vento que agora amansou à tona do rio
Tudo se faz devagar, mesmo esta roda do tempo
em que a revolução demora mas é incerta certeza

Repara nestas oliveiras que atravessam os séculos
e que nada têm a ver com os olivais intensivos que agora
vão cobrindo o Alentejo com oliveirinhas imitando o plástico
e onde os pássaros se aninham para dormir e morrer

Pode ser que aqui, à sombra de uma árvore minúscula
bata um coração apressado que solte um punho ao ar
e traga ao coração da terra as raízes mais acordadas
aquelas que, milímetro a milímetro, levantarão o chão

Firmino Mendes
Lisboa, 23 de Março de 2021



Oliveira do Mouchão. Mouriscas, Abrantes. Idade: 3350 anos.
Altura de tronco até ás primeiras pernadas: 3,2 m. Perímetro do tronco: 6,5 m.

Olival intensivo.

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