sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Rui Barradas


Rui Barradas (1953-  )

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Rui Barradas

Rui Pires de Zêzere Barradas (1953- ) tem o Curso de Educação Visual e Tecnológica da Escola Superior de Educação de Beja e é docente da disciplina homónima. É barrista, azulejista e pintor (acrílico e aguarela). No período 1985-1990, produziu Bonecos que comercializou na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.
Os seus Bonecos foram na época manufacturados em casa e cozidos no forno de mufla da CERCI-Estremoz, onde então leccionava. A comercialização era feita numa loja de artesanato, que com sua mulher Cristina teve na Praça Luís de Camões, nº 11, em Estremoz. Entre 1987 e 1995 e com sua mulher foi co-proprietário da Olaria Alfacinha, em cujo forno procedia à cozedura dos seus azulejos, o que também aconteceu na Escola Básica e Secundária Dr. João Brito Camacho em Almodôvar, na qual leccionou.


 Pastor de capote e cajado. Rui Barradas (1953- ).

  Pastor de tarro e cajado. Rui Barradas (1953- ).

  Pastor a fazer as migas. Rui Barradas (1953- ).

  Pastor a comer. Rui Barradas (1953- ).

  Pastor junto à fogueira. Rui Barradas (1953- ).

 Pastor do harmónio. Rui Barradas (1953- ).
  
 Ganhão sentado com tarro. Rui Barradas (1953- ).

  Semeador. Rui Barradas (1953- ).

  Mondadeira a descansar. Rui Barradas (1953- ).

  Ceifeira a descansar. Rui Barradas (1953- ).

  Mulher a fazer meia. Rui Barradas (1953- ).

  Mulher a bordar. Rui Barradas (1953- ).

 Mulher das castanhas. Rui Barradas (1953- ).

 Peleiro. Rui Barradas (1953- ).

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Uma Estória


Fig. 1 - Confissão (2005). Irmãs Flores (1957- , 1958- ). Figura composta,
manufacturada a partir de desenho de Jorge Branco. Colecção Francisca de Matos.

Ao meu Amigo Jorge Branco (1930-2018),
Geofísico, Escritor, Conferencista,
Artista plástico, Coleccionador, Bibliófilo,
Naturista, Ecologista e tudo!

Desassossego espiritual
A génese do Boneco de Estremoz que esteve na origem da presente crónica, resultou da ocorrência sequencial de três factos: PRIMEIRO: existir alguém com desassossego espiritual quanto baste, que o levou a ter a ousadia de reflectir sobre o que ainda ninguém tenha tido a audácia de pensar. SEGUNDO: a existência de uma infinidade de coisas que ainda não tinham sido pensadas, muitas das quais continuam por pensar e sobre as quais temos a liberdade de reflectir, já que como nos diz Manuel Freire “Não há machado que corte / a raiz ao pensamento”. Sabem porquê? ”Porque é livre como o vento / porque é livre”. TERCEIRO: haver alguém, que até pode ser o ousado pensador, que usufrua de capacidade executiva tal, que lhe permita concretizar o que foi imaginado.
Passou-se isso com o meu saudoso amigo Jorge Branco (Fig.2), que comungava comigo entre outras coisas, o desassossego espiritual permanente e o coleccionismo de Bonecos de Estremoz. Acontece que no conjunto dos “Bonecos da Tradição” e em termos de temática religiosa, existia apenas um certo número de imagens devocionais, bem como figuras de Presépio narrando a vida de Jesus (Nascimento e Fuga o para o Egipto), bem como imagens relatando a Paixão de Cristo (Senhor dos Passos e Cristo crucificado). Jorge Branco constatou que a temática religiosa era vasta e constituía um manancial ainda por explorar, em termos de manufactura de Bonecos de Estremoz. Para além das imagens devocionais, das figuras de Presépio e da Paixão de Cristo, existiam os 10 Mandamentos da Lei de Deus, os 7 Sacramentos da Igreja Católica, os 7 Pecados Capitais, as 3 Virtudes Teológicas e as 4 Virtudes Cardeais. Como diria o meu pai, que era alfaiate, “Aqui há pano para mangas” e daí que Jorge Branco tenha metido mãos à obra.
Concepção e gestação de um Boneco
Jorge Branco era um excelente desenhador, pelo que esboçou no papel uma figura composta a que deu o nome de “Confissão”, designação homónima de um dos 7 Sacramentos. Seguidamente, lançou um desafio às Irmãs Flores, no sentido de efectuarem a correspondente manufactura em barro, ao “modo de Estremoz”. Estas aceitaram o repto de bom grado, como é seu timbre. O resultado está à vista (Fig.1). Uma bela figura composta pelas representações de uma mulher penitente e um padre confessor. A mulher enverga vestido comprido, cor violeta com flores amarelas e véu (ou lenço?) claro na cabeça. Está ajoelhada numa almofada e de mãos postas. A sua cabeça está ao nível da grelha de um confessionário em madeira, encimado por uma cruz e com duas portas frontais, qualquer delas decorada com uma cruz
No confessionário encontra-se sentado um padre de batina preta e colarinho branco, que segura um livro. A cabeça do padre está inclinada em direcção à grelha, o que sugere que a confissão é realizada em voz baixa, para intimidade da penitente. O facto de a mulher usar véu e o padre envergar batina, parece contextualizar a representação em data anterior ao Concílio Vaticano II (1962).
Por vontade expressa de Jorge Branco foram confeccionados unicamente três exemplares, destinados aos membros de uma laicissima trindade de amigos: ele próprio, Francisca Matos e o autor desta crónica. Por desassossego espiritual de Jorge Branco, tinha sido criado mais um Boneco de Estremoz. Como diz António Gedeão: “…sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / … “.
Confissão
Para a Igreja Católica, as pessoas podem cometer no dia a dia, pecados por pensamentos, por palavras, por acções e por omissões, contrárias à Lei de Deus. A confissão é um Sacramento através do qual o crente reconhece os pecados cometidos perante um padre ou um bispo, de quem recebe a absolvição em nome de Deus e da Igreja.
Visões eruditas de pecado
Nem todos comungam o conceito de pecado, tal como o vê a Igreja Católica. É diversificada e plural a visão erudita ante o pecado: - Santo Agostinho (354-430), teólogo: “O pecado é o motivo da tua tristeza. Deixa que a santidade seja o motivo da tua alegria.”; - Martinho Lutero (1483-1546), reformador protestante: A medicina cria pessoas doentes, a matemática, pessoas tristes, e a teologia, pecadores.  - William Shakespear (1564-1616), dramaturgo: “Alguns elevam-se pelo pecado, outros caem pela virtude.”; - François La Rochefoucauld (1613-1680), escritor: “Esquecemos facilmente os nossos pecados quando só nós próprios os sabemos.”; - Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático: “Há duas espécies de homens: uns, justos, que se consideram pecadores, e os pecadores que se consideram justos.”; - Benjamim Franklin (1706-1790), inventor: “Guarda-te da ocasião e Deus te guardará do pecado.”; - Sophie Arnould (1740-1802), soprano: “Há pecados tão agradáveis que, se os confessasse, cometia o pecado do orgulho.”; - Robert Browning (1812-1889), poeta: “A ignorância não é inocência, mas pecado.”; - Kierkgaard (1813-1885), filósofo: Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.  - Pierre Véron (1833-1900), escritor: “O pecado confessado é meio perdoado, mas escondido, é perdoado de todo.”; - Machado de Assis (1839-1908), escritor: “O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.”; - Thomas Hardy (1840-1928), poeta: “É muito mais doce imaginar que estamos perdoados, do que pensar que não pecámos.”; - Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo: “A falta de confiança entre amigos é pecado que não pode ser repetido, sob pena de ser irremediável.”; - Anatole France (1844-1924), escritor: “Santa mãe de Deus, vós, que haveis concebido sem pecado, concedei-me a graça de pecar sem conceber.”; - Óscar Wilde (1854-1900), escritor: Não peca quem peca por amor. - Teixeira de Pascoaes (1877-1952), poeta: “O pecado é mais fecundo que a virtude.”; - Jorge Luís Borges (1899-1986), escritor: “No passado cometi o maior pecado que um homem pode cometer: não fui feliz.”; - Graham Green (1904-1991), escritor: “A maioria das pessoas prefere confessar os pecados dos outros.”;
Música Portuguesa
A Música Portuguesa considera que o pecado está ausente do amor. O fado “Amar não é pecado” com letra de Moita Girão e música de Pedro Rodrigues foi cantado por fadistas como Mariana Silva e Argentina Santos.  Nele se afirma que “Há quem recorde o passado / Com um desgosto profundo / De ter amado. Porém, / Amar não é um pecado. / Pecado é andar no mundo / Sem ter amor a ninguém.”
A confissão ou melhor a sua ausência também está presente na Música Portuguesa. O fado “Nem às paredes confesso” tem letra de Maximiano de Sousa e música de  Ferrer Trindade e Artur Ribeiro. Foi popularizado por intérpretes como Francisco José e Amália Rodrigues. Diz o refrão: “De quem eu gosto / nem às paredes confesso / E nem aposto / Que não gosto de ninguém / Podes rogar / Podes chorar / Podes sorrir também / De quem eu gosto / Nem às paredes confesso.”
Sabedoria popular
Na gíria popular, a palavra “pecado” é usada em sentido figurado. Assim, “ser os meus pecados” é ser alguém que me causa preocupações. “Pecados velhos” são pecados cometidos há muito tempo. “Por mal dos meus pecados” significa por infelicidade minha. “Ser os pecados de alguém” é causar preocupações. “Vara de bater pecados” é a designação dada a pessoa alta e magra. Na gíria popular, aparece igualmente o termo “confessar”. Alguém “não se confessar” é ser reservado e não exteriorizar os seus sentimentos.
Ao longo dos séculos, fruto da observação, a sabedoria popular consensualizou juízos, os quais condensou em provérbios que chegaram até nós.
Os principais, referentes a pecado” podem assim ser sistematizados: - UNIVERSALIDADE: Ninguém há sem pecado. Ao pecado até os cães ladram. - SABOR: Tudo o que é bom, ou faz mal ou é pecado. Aquilo que sabe bem, ou é pecado ou faz mal. Pecado mortal, sabe bem e faz mal. - FREQUÊNCIA: Humano é pecar, diabólico é perseverar. O primeiro pecado vence a vergonha, o segundo a dissimula, o terceiro a perde. - EVIDÊNCIA: Fugir do juiz é confessar pecado. - DESCULPA: Antes pecar que arder. Fazer o que os outros fazem não é pecado. Onde toda a gente peca, ninguém faz peni­tência. - PERDÃO: Não há pecado que não possa ser perdoado. Pecado calado, meio perdoado. Pecado confessado é meio perdoado. - SINGULARIDADE: Dívidas e pecados, cada um paga pelos seus. - HERANÇA: Os pecados dos nossos avós, fazem-nos eles e pagamo-los nós. - ADEQUAÇÃO: Um pecado, uma penitência. Pecado novo, penitência nova. Pecado velho, penitência nova. Pecado velho, prudência nova. A culpa de um pecado não se paga com a penitência de outro.
Relativamente à “confissão”, o número de provérbios é diminuto e dispensa sistematização, bastando a sua enumeração: Confessa a Deus os pecados teus. Ao confessor e ao letrado confessa teu pecado. Pecado confessado é meio perdoado. Padre mouco não confessa.
À laia de balanço
Chegado a este ponto, creio ser legítimo tirar algumas conclusões. Nem todos vêem as coisas da mesma maneira. O que poderá ser pecado para uns, não é pecado para outros, o que é natural, já que os pressupostos são diferentes. Há que saber viver com isso. É caso para dizer:
- Tu ficas com a tua e eu fico com a minha!

Estremoz, 27 de Outubro de 2019
(Jornal E nº 233, de 14-11-2019)
Publicado inicialmente aqui a 13 de Novembro de 2019 

Fig. 2 - Jorge Branco no decurso da 2.ª Feira de Coleccionismo de Estremoz,
em 21 de Junho de 1997.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Fátima Estróia


Fátima Estróia (1948- ) na sua oficina-loja, situada na Travessa da Levada, nº 3,
em Estremoz.

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Fotografia de Fátima Estróia, recolhida com a devida vénia do vídeo
“Bonecos de Estremoz - Património Cultural Imaterial da Humanidade”,
da Câmara Municipal de Estremoz.

Fátima da Conceição Madeira da Cruz Estróia é afilhada de Mestra Sabina Santos com quem começou a trabalhar como aprendiza aos 13 anos, ainda a oficina de Sabina era na Rua da Campainha, nº 18 e com Sabina trabalhavam as suas cunhadas e sócias Maria José Cartaxo e Teresa Cid da Conceição. Após a morte desta em 1962, quando mais tarde a sociedade se desfez por vontade de Sabina, Fátima fica a trabalhar com Maria José Cartaxo, mas acaba por se juntar à madrinha, de quem aprendeu todos os segredos da arte.
Depois do 25 de Abril de 1974 interrompeu a produção de Bonecos para ajudar o marido, o alfaiate Rufino Augusto Estróia, num estabelecimento de pronto-a-vestir e alfaiataria. Todavia essa actividade não a motivava, pelo que em 1990 retomou a actividade bonequeira, agora por conta própria, numa oficina-loja situada na Rua Narciso Ribeiro, nº 64, em Estremoz. Dali viria a mudar-se para a Travessa da Levada, nº 3, onde trabalha e comercializa actualmente os seus Bonecos. Estes são também comercializados na loja “Artesanato José Saruga”, no Rossio Marquês de Pombal, 98 A, bem como no Artesanato Santo André, na Rua da Misericórdia, 2, em Estremoz.

Publicado inicialmente em 8 de Novembro de 2019

 Presépio de 3 figuras. Pintura de Paula Serrano.

 
Ceifeira e pastor de tarro e manta. Pintura de Paula Serrano

Pastor debaixo da árvore. Pintura de Paula Serrano.

Mulher da azeitona e pastor de tarro e manta. Pintura de Paula Serrano.

Mulher a dobar. Pintura de José Carlos Rodrigues. 

Mulher dos enchidos. Pintura de José Carlos Rodrigues.  

Mondadeira e leiteiro. Pintura de Paula Serrano.
  
Mulher a lavar a roupa. Pintura de Paula Serrano.

Bailadeira grande. Pintura de Paula Serrano.

Bailadeira pequena.

O Amor é cego.

Cantarinha enfeitada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Deus na boca do Povo


Fig. 1 – Matança do porco. José Moreira (1926-1991).

É arreigada a crença popular em Deus. Atesta-o a multiplicidade e a diversidade das manifestações de literatura de tradição oral: Adivinhas, Lengalengas, Mitologia Popular, Provérbios, Gíria Popular, Alcunhas Alentejanas e Cancioneiro Popular. Todavia, o Deus patente nas convicções populares não será provavelmente o mesmo Deus que é ensinado na Catequese ou pregado e venerado nas Igrejas. Será talvez um outro Deus que à escala humana tem dimensão divina, já que na concepção popular criou o Mundo e tudo o que nele nasce, cresce, se multiplica e morre. Para além disso, o convencimento de que é Ele que assegura o funcionamento ou não de tudo o que existiu, existe e poderá vir a existir. O Povo tem necessidade desse Deus para justificar tudo aquilo que não consegue explicar de outra forma. Trata-se de crenças que lhe brotam à flor do pensamento no decurso do trabalho (Fig. 1), às refeições (Fig. 2) ou no folguedo (Fig. 3). Vou passar algumas delas em revista.      
Adivinhas
Tenho conhecimento destas três: - "Alto está, / Alto mora; / Ninguém o vê, / Todos o adoram." (Deus). - Em que se parece Deus com o Sol? (Em ser só um e ninguém poder passar sem ele). - Qual é a coisa mais antiga? (Deus, porque existe antes do tempo).
Lengalengas
Apenas conheço a lengalenga dos dedos. Começa assim: “Dedo mindinho / Seu vizinho / Pai de todos / Fura bolos / E mata pulgas e piolhos.” E logo conclui: “Este diz: quero pão / Este diz: que não há / Este diz: que Deus o dará / Este diz: que furtará / Este diz: alto lá!”
Mitologia Popular
Existem algumas superstições populares ligadas ao conceito popular de Deus: - Quando o céu é atravessado por uma estrela cadente, deve dizer-se: - “Deus te guie!” – “Deus te guie!”, para que não aconteça mal. - Quando aparece o arco-íris, é sinal que Deus está bem connosco. Enquanto ele aparecer, o mundo não se acaba. - Quando uma pessoa está doente, e se desconfia que foi mal que lhe fizeram, deve dizer-se: “Fulano, (nome da pessoa) / Deus te cheirou, / Deus te criou, / Deus te tire o mal, / Que nesse corpo entrou.” - É bom manter relações com os defuntos, para eles intercederem por nós junto de Deus. Para tal, deve-se pregar um alfinete na roupa do defunto ou atirar-lhe uma mão cheia de terra para cima da cova. - Quando se fala de alguma pessoa morta deve dizer-se: - “Deus te chame lá, que ninguém te chama cá”. - Se se encontrar um corcunda pela manhã em jejum, deve dizer-se três vezes: - “Benza-te Deus, dinheiro fresco nos mande Deus”, porque se recebe dinheiro em breve.
Provérbios
É vasto o número de provérbios referentes a Deus. Uns são diferentes, outros são variantes do mesmo.
Desse amplo número, seleccionei alguns que agrupei por tópicos: - CRIAÇÕES DE DEUS: Com água e com sol, Deus é criador. De nada fez Deus o Mundo. Deus criou o Homem e o português o mestiço. Deus fez as almas aos pares. Deus fez o campo; o Homem a cidade. - PRESENÇA DE DEUS: Cada um em sua casa e Deus na de todos. Deus visita-nos sem bater à porta. - SABEDORIA DE DEUS: A Deus ninguém engana. Deus é quem sabe. Deus escreve por linhas tortas. Deus não dorme. Só Deus sabe o que está para vir. - PODER DE DEUS: A Deus nada é impossível. A Deus poderás mentir, mas não enganar. Deus cura os doentes e o médico recebe o dinheiro. Guerra começada, só Deus sabe quando acaba. O futuro a Deus pertence. Os homens fazem o almanaque e Deus manda o tempo. Quando Deus quer, água fria é remédio. Quando Deus quer, até o vento junta as folhas. Quando Deus quer, os santos ajudam. Sorte, só Deus pode dispor. - JUSTIÇA DE DEUS: A justiça de Deus é infalível. A justiça de Deus tarda mas não falta. Deus é o mesmo para todos. Não fez Deus a quem desamparasse. - AMOR DE DEUS: A quem Deus quer dar vida, a água da fonte é mezinha. A quem Deus quer, até o vento apanha a lenha. Não há melhor amigo que Deus e o dinheiro na algibeira. - BONDADE DE DEUS: Bom é Deus e está fechado no sacrário. De Deus vem o bem e das abelhas o mel. Deus dá a roupa conforme o frio. Deus dá o mal e a mezinha. - AJUDA DE DEUS: A casa é Deus quem a guarda. Cada um trata de si e Deus de todos. Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha. Deus nos livre de inimizades de amigos. Do falso amigo me guarde Deus. Faz tu e Deus te ajudará. Nem sempre Deus ajuda a quem muito madruga. - DÁDIVAS DE DEUS: Dá Deus asas a quem sabe voar. Dá Deus botas a quem já tem sapatos. Dá deus espeto a quem não tem toucinho. Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros. Deus dá a canga conforme o pescoço. Deus dá as nozes mas não as parte. Deus dá couves a quem não tem toucinho. Deus dá o pão mas não amassa a farinha. Deus o dá, Deus o tira. Quando Deus dá é para todos. Quando Deus manda chuva é para todos nós nos molharmos. - ESPERANÇA EM DEUS: Deus nunca falta aos seus. Deus tarda mas não falta. Para amanhã, Deus dará. Quando Deus tarda é porque vem no caminho. - DEUS E O DIABO: A quem Deus não dá filhos, o diabo dá sobrinhos. Com Deus no rosto e o diabo no coração. Deus criou a uva e o diabo fez o vinho. Deus dá farinha, o diabo furta o saco. Deus os fez e o diabo os juntou.
Gíria Popular
É extenso o número de expressões idiomáticas que substituem os termos usados tradicionalmente. Dentre elas, escolhi as seguintes: - DEUS LHE FALE NA ALMA: Deus o tenha em descanso; - DEUS LHE PONHA A VIRTUDE: Deus o abençoe; - DEUS OS FEZ, DEUS OS JUNTOU: diz-se de um casal que se dá muito bem; - DEUS QUEIRA QUE O BURRO VÁ À FEIRA: Deus queira que as coisas corram bem; - DEUS QUEIRA: oxalá assim seja; - DEUS SEJA LOUVADO: louvor que se ergue a Deus; - DEUS TE DÊ O QUE TE FALTA: diz-se a alguém pouco ajuizado; - DEUS TE LIVRE: exclamação para manifestar o desejo de que alguém não corra perigo; - DORMIR EM DEUS: estar morto; - ESTAR BEM COM DEUS E O DIABO: concordar com campos opostos; - ESTAR COM A VIDA QUE PEDIU A DEUS: viver segundo a sua vontade. - GRAÇAS A DEUS: felizmente; - HOMEM (MULHER) DE DEUS: pessoa piedosa; - IR COM DEUS: retirar-se em paz; - LOUVADO SEJA DEUS: exclamação de regozijo ou gratidão por um acontecimento feliz; - NEM À MÃO DE DEUS PADRE: de modo nenhum; - OH HOMEM (MULHER) DE DEUS: exclamação de espanto perante um acto que não se esperava de alguém; - PÃO POR DEUS: esmola tradicional do Dia de Todos os Santos; - QUANDO DEUS É SERVIDO: ocasionalmente; - QUE DEUS HAJA: diz-se de pessoa falecida; - QUE DEUS NOS ACUDA: exclamação para invocar a intervenção divina; - QUEIRA DEUS: oxalá; - QUERER DEUS PARA SI E O DIABO PARA OS OUTROS: ser egoísta; - ROUPA DE VER A DEUS: a melhor roupa que se tem; - SABE DEUS: exclamação proferida perante factos inexplicáveis; - SE DEUS O(A) DÁ: em abundância; - SE DEUS QUISER: dependendo do poder divino; - SER UM DEUS NOS ACUDA: ser uma grande confusão; - TAMBÉM SER FILHO DE DEUS: ter direito a ser tratado como os demais; - TEMENTE A DEUS: pessoa devota; - TENTAR A DEUS: desafiar a cólera divina; - VIVER COMO DEUS É SERVIDO: sofrer privações com resignação; - VIVER DA GRAÇA DE DEUS: viver da caridade.
Alcunhas Alentejanas
O conceito de Deus está igualmente representado no âmbito das alcunhas alentejanas, ainda que a sua presença seja diminuta, já que apenas são conhecidas as seguintes alcunhas: - DEUS ME LIVRE: Alcunha outorgada a indivíduo que usa frequentemente esta expressão (Estremoz). - DEUS NÃO DORME: Designação dada a idoso internado num lar, o qual quando estava aborrecido, usava aquela expressão, ao mesmo tempo que batia com a bengala no chão (Vendas Novas). - DEUS NOSSO SENHOR: O visado é muito religioso (Alandroal). Epíteto atribuído a um sujeito que está em todo o lado (Arraiolos). - LOUVA-A-DEUS: Epíteto conferido a indivíduo que tem por hábito, pôr as mãos de um modo semelhante às patas de um louva-a-deus (Ferreira do Alentejo). - VALHA-ME DEUS: Denominação atribuída a membros de um conjunto restrito de indivíduos, que no tratamento entre si, escolheram esta forma de tratamento (Estremoz).
Cancioneiro Popular
O Cancioneiro Popular de Deus é tematicamente diversificado e por vezes jocoso. Seleccionei algumas quadras que confirmam esta afirmação: - CRIAÇÃO DE ADÃO: “Quando Deus formou Adão / De um bocado de barro, / Nem as terras davam pão, / Nem o mar era sagrado.” - DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA: “Bem pudera Deus dar pão, / Na terra sem ser lavrada; / Bem poderá, ainda o digo, / Dar muito a quem não tem nada.” - DECLARAÇÃO DE AMOR: “Impossível, sem ser Deus, / Haver quem de ti me aparte; / Eu não quero nada do mundo, / Só vivo para adorar-te.” - AMOR NÃO CORRESPONDIDO: “Amor com amor se paga, / Porque não pagas amor, / Olha que Deus não perdoa / A quem é mau pagador.” - PEDIDO DE SAÚDE: “O mar pediu a Deus peixes / Para dar ao pescador/ E eu peço a Deus saúde / Para dar ao meu amor.” - PRAGUEJAR POR DESPEITO: “No meio da rua d’reita / Nasceram dois acyprestes: / Lá darás contas a Deus / Da paga que tu me deste.” - PROTECÇÃO DIVINA: “Dizia meu avô torto / Que ao menino e ao borracho, / Não acontecia p’rigo, / Põe-lhes Deus a mão por baixo.”
Conclusão
O presente epítome constitui um ensaio de abordagem ao tema “Deus na boca do Povo”. Visando adequar a dimensão do texto, tive que fazer opções, pelo que é natural que o mesmo seja omisso relativamente a alguns especimenes de literatura de tradição oral. Tal facto não me preocupa sobremaneira, visto que no essencial divulgo aqui a visão possível de “Deus na boca do Povo”, que pode ser compartilhada por todos. Sobre a verosimilhança de tal visão, sou tentado a citar a máxima latina: “Vox populi, vox Dei” (A voz do povo é a voz de Deus).
Estremoz, 7 de Novembro de 2019
(Jornal E nº 234, de 28-11-2019)

Fig. 2 – Cozinha dos ganhões. José Moreira (1926-1991).

Fig. 3 – Bailadeira grande. José Moreira (1926-1991).

domingo, 20 de outubro de 2019

Erros de sacristia


Fig. 1 – Capitulares do meu nome. 



No dia 19 de Agosto de 1946 veio a este mundo uma criança do sexo masculino, o qual sou eu e a quem no dia do baptismo, a madrinha deu o nome de “Hernâni António Carmelo de Matos”. Trata-se de um nome constituído pelo antropónimo composto “Hernâni António” e pelos sobrenomes “Carmelo” e “Matos”. Iremos ver que foi um nome que veio a alimentar uma estória quase tão comprida como a légua da Póvoa.
O antropónimo
Começando pelo antropónimo “Hernâni António”, importa conhecer o porquê e as consequências de ter recebido cada um destes nomes. Em primeiro lugar “Hernâni”. A minha madrinha e tia, pessoa simples do povo e desprovida de conhecimentos literários, desconhecia completamente a existência do drama “Hernâni” da autoria do escritor francês Vítor Hugo. Todavia, era do conhecimento público a existência de um alentejano ilustre, natural do Redondo, de seu nome Hernâni António Cidade (Fig. 2), distinto homem de letras e amiúde falado nos jornais. A minha madrinha terá achado o nome bonito e para mais o nome de um alentejano e tudo. E eu lá fiquei “Hernâni António”. Foi um nome que teve consequências ao longo da minha vida. Primeiramente na vida escolar, pelo facto de me chamar “Hernâni”, palavra começada por “H”, a oitava letra do alfabeto português, então com 23 letras, fazia com que eu não fosse dos primeiros a ser chamado a provas orais. Primeiro iam os Abeis, os Balbinos, os Carlos, os Danieis, os Edgares, os Faustinos e os Gaspares. Só depois ia eu, o que me deixava mais algum tempo para estudar para as orais, afim de poder “tapar buracos” que tivessem ficado abertos durante o ano escolar. Lá diz o provérbio optimista: “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. Todavia, as consequências de me chamar “Hernâni” não ficaram por aqui.
Com o desenvolvimento da minha personalidade, adquiri hábitos de leitura e como coleccionador tornei-me bibliófilo. Naturalmente que a minha biblioteca começou então a incorporar entre outras, obras do Dr. Hernâni António Cidade, algumas com dedicatória autógrafa a terceiros. O facto de me chamar “António”, levou-me também a coleccionar iconografia antoniana, nomeadamente a nível de barrística popular estremocense (Fig. 3). A nível bibliófilo, além dos seus Sermões e de biografias que sobre ele têm sido escritas, interesso-me por obras que abordam Santo António na Literatura de Tradição Oral, os aspectos etnográficos das festividades populares do Dia de Santo António, bem como a iconografia antoniana, sobretudo nas suas vertentes pictórica e azulejar.

Fig. 2 – Hernâni António Cidade (1887-1975), professor universitário, ensaísta,
historiador e crítico literário, natural do Redondo.

Significado de Hernâni
O antropónimo “Hernâni” encontra a sua origem em “Hernan”, variante de “Hernando”, versão espanhola de “Fernando”.
Este último nome é uma contracção de “Ferdinando” do latim “Ferdinandus”, que por sua vez proveio do gótico “Ferdinand”, palavra composta de “fardi” (viagem) e “nand” (pronto). O antropónimo “Hernâni”, poderá então significar “pronto/preparado para a viagem".
Por outro lado, “Fernando” pode derivar do alemão “Firthunands”, palavra composta de “firthu” (paz)  e “nands” (audaz). O antropónimo “Hernâni” poderá assim designar "Aquele que se atreve a tudo para conservar a Paz".
O antropónimo Hernâni popularizou-se por ser o pseudónimo do herói e título homónimo da obra teatral do escritor francês Victor Hugo, representada pela primeira vez em 1830 e a partir do qual o compositor italiano Giuseppe Verdi, compôs em 1844 uma ópera em 4 actos.
Significado de António
O antropónimo “António” provém do latim “Antonius”, que significa “digno de apreço” ou “de valor inestimável”. É um dos nomes mais populares da antroponímia portuguesa, devido, sobretudo, a Santo António de Lisboa.
O sobrenome Carmelo
O meu primeiro sobrenome e muito bem, é “Carmelo”, nome de família do meu avô materno, Manuel Carmelo (ferroviário), mais conhecido por “Manuel Alturas”. É um sobrenome que encerra em si várias estórias. A primeira é a sorte de que sendo neto do Manuel Alturas e muito mais alto que ele, nunca ninguém se ter lembrado de me chamar “Monte Carmelo”. A segunda é o facto de eu ter uma caligrafia que mais parece um desenho abstracto. Não porque eu tenha estrabismo, não senhor. Quem tem de me ler é que pode ficar estrábico. Era uma alegria ler as pautas de exame afixadas na Faculdade de Ciências que frequentei, nas quais figurava o meu nome. Raramente aparecia a palavra ”Carmelo”. Esta era substituída por sobrenomes como “Carrelo”, “Carpelo”, “Corvelo”, “Carvalho”, “Camelo”, “Capeto”, “Corneto” e “Carapeto”, constituindo uma cornucópia de sobrenomes espúrios. É claro que nunca me queixei. A culpa era minha e só minha. Desabituado de escrever nos cadernos de duas linhas usados na Instrução Primária, comecei a escrever à rédea solta logo no Liceu. Este facto veio a agravar-se na Universidade, onde a necessidade de rapidamente tirar apontamentos nas aulas para ter por onde estudar, distorceu ainda mais a minha caligrafia. Para além disso, a palavra “Carmelo” aparecia, por diversas vezes, substituída pela palavra “Caramelo” e daí o mal o menos, já que ambas as palavras são variantes do mesmo sobrenome. Todavia, o sobrenome “Carmelo” sugere algo de natureza monástica ao passo que “Caramelo” é um sobrenome polivalente. Tanto designa um rebuçado confeccionado a partir de açúcar queimado, como a água congelada (gelo), alguém de nome desconhecido (sinónimo de tipo ou gajo) ou trabalhador rural do distrito de Coimbra que noutros tempos vinha trabalhar para o Alentejo.
O sobrenome “Carmelo” aparece na genealogia alentejana e para além da família “Carmelo de Matos, existem outras como “Carmelo Grazina”, “Carmelo Morais”, “Carmelo Aires” e “Carmelo Alcaide”.
O sobrenome Matos
Chegámos aqui a um ponto crucial desta crónica e é aqui que “a porca torce o rabo”. Vejamos porquê.
A 1 de Julho de 1923 nasce na aldeia da Cunheira da freguesia e concelho de Chança, uma criança do sexo masculino (o meu futuro pai), que seria o primeiro de 4 filhos de Manuel Sabino (pedreiro) e Antónia Matos (doméstica). À criança foi dado o nome que consta no registo baptismal “João Sabino de Matos”. Trata-se de um facto estranho já que de acordo com a tradição em vigor, consignada na lei, o último sobrenome a atribuir a um recém-nascido deve ser o do pai. De acordo com tal disposição, os meus tios (duas tias e um tio) saíram “Matos Sabino”. Todavia, o meu pai saiu “Sabino de Matos” e não “Matos Sabino”, como se o pai tivesse deixado de ser pai para passar a ser mãe e esta tivesse deixado de ser mãe, para passar a ser pai. Se o caso não se tivesse passado na Igreja, eu diria que tinha sido obra do “Diabo”. Mas não, foi troca dos sobrenomes pelo padre de serviço, quem sabe se às voltas com uma digestão difícil.
O sono de Deus
Reza o adagiário português que “Deus não dorme”. Com o devido e democrático respeito pelas crenças do próximo, não penso que assim seja. Se Deus não dormisse ou pelos menos não estivesse distraído, o padre da Cunheira não teria invertido a ordem dos sobrenomes de família. Creio piamente que o Senhor teria dado no padre um celestial abanão, que o levasse a emendar o erro crasso em que incorreu. Fruto dele, sou “Carmelo de Matos” e não “Carmelo Sabino”. Felizmente que o sobrenome “Matos”, que até está antecedido de um “de”, não se escreve com dois “tt” ou seja “Mattos”. Se assim fosse, algum maldizente daqueles que por aí abundam, poder-se-ia lembrar de me acusar de ser pretensioso, por onomasticamente me travestir em “sangue azul”, que de facto não sou. De salientar, que embora por efeitos práticos, mantenha o nome com um sobrenome errado, para efeitos genealógicos deverei ser encarado como um “Carmelo Sabino” e não como um “Carmelo de Matos”. 
Erro de sacristia
Todas as estórias têm um fim e esta chegou ao fim. Todavia, todas as estórias têm também uma moral. Neste caso, creio ser legítimo concluir que o erro cometido pelo padre foi um “erro de palmatória”, daqueles que levavam os professores do antigamente a dar pelo menos uma palmatoada da praxe em cada mão do aluno com a “Dona Rosa” de uso pessoal. Para além disso, foi um “erro de sacristia” que eu não perdoo e que só o Senhor na sua infinita benevolência poderá perdoar.

Estremoz, 19 de Setembro de 2019
(Jornal E nº 231, de 7-10-2019)
Publicado inicialmente em 20 de Outubro de 2019


Fig. 3 – Santo António. Imagem devocional em barro de Estremoz, da autoria do
barrista e oleiro Mariano da Conceição (1903-1959). Colecção do autor.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Lembrança da Olaria


Moringue com decoração fitomórfica. Manufactura da Olaria Alfacinha, Estremoz.
 Colecção do autor.
   

A Memória do Passado
A actividade de um coleccionador não se desenrola na maioria das vezes num mar de rosas. O coleccionador navega por entre escolhos, os quais terá de ser capaz de ultrapassar, a fim de poder levar a bom porto, a missão que a si próprio atribuiu. É o que se passa comigo, enquanto coleccionador de louça de barro vermelho de Estremoz. É que a olaria local extinguiu-se há algum tempo. Foi o fecho da crónica de uma morte prevista. Todavia, ela permanece bem viva no registo quântico da minha memória.
Vale-me ser um respigador nato e usufruir da capacidade de fazer um rápido reconhecimento da infinidade de objectos que aos sábados povoam o Mercado das Velharias, em Estremoz. Valem-me ainda os vendedores que sabendo dos meus gostos, me arranjam peças sem o compromisso de eu ter de ficar com elas. Valem-me também os “olheiros” amigos, que me dão conhecimento onde é que determinada peça que me possa interessar, se encontra à venda. Por vezes, a meu pedido e como meus mandatários, compram aquilo que me interessa. E tudo isto parece muito e de facto é, mas não é tudo.
A Lei de Lavoisier
Hoje existe um vasta profusão de vendas “on line”, nas quais se podem comprar objectos, não só a vendedores profissionais, mas também a quem, por um motivo ou por outro, os pôs à venda. Algumas vezes, por necessidade de fazer dinheiro, outras para reciclar coisas que já não lhes interessam e que ao transformarem em dinheiro, lhes permitem adquirir bens ou serviços nos quais de momento estão interessados. É uma aplicação prática da Lei de Lavoisier: “Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo ser transforma“. Trata-se de um enunciado que trocado por miúdos e em português corrente, pode ser expresso assim: “O que não te interessa a ti, pode-me interessar a mim e vice-versa. Por isso, toma lá e dá cá”. Daí que os eco-militantes que negam a existência de um plano B, proclamem “Desperdício zero, já!”.
A viagem
Não estranhem pois que um exemplar da Olaria de Estremoz, residente em Beja, tenha mudado de ares e vindo até Estremoz, onde se instalou na minha casa, com direito a todas as mordomias. Bastou-lhe viajar através do serviço dos Correios, depois de eu ter ressarcido o anterior proprietário no acto de se ver livre do espécime. Tratou-se de uma viagem que não foi isenta de riscos, pois por vezes ocorrem descuidos por parte dos transportadores. Daí a necessidade de uma embalagem meticulosa e paciente, realizada com o jeito de carinhosos cuidados maternais. Foi o que aconteceu desta vez, pelo que ao abrir a embalagem normalizei a respiração, os batimentos cardíacos e a tensão arterial. O recipiente de barro estava bem de saúde e recomendava-se como vão ver.
O moringue
O viajante foi um moringue, recipiente para água com uma asa na parte superior e um gargalo em cada extremidade desta. O gargalo da extremidade mais larga destina-se a introduzir água e o da extremidade afunilada destina-se à saída da mesma. Para a beber, vira-se esta última extremidade para a boca e dá-se ao recipiente a inclinação adequada, de modo a que o esguicho que dela brota vá cair na boca do bebedor. A direcção de alinhamento dos gargalos é perpendicular à direcção de implantação da asa.
O moringue é em barro vermelho, fabrico de Estremoz, firmado pela marca incisa linear “OLARIA ALFACINHA ESTREMOZ” na superfície exterior, junto à base.
A decoração com motivos fitomórficos em alto-relevo, configura ramos de sobreiro, povoados de folhas serradas e de glandes. Trata-se de elementos decorativos, obtidos por moldagem, a que se segue uma colagem na superfície, recorrendo a barbutina.
A superfície do moringue onde assenta a decoração em relevo é lisa e nela se destacam, igualmente espaçadas, quatro faixas polidas, entre a base e o topo do bojo. Os gargalos são igualmente lisos e ostentam faixas polidas.
A asa configura um galho de sobreiro bifurcado nas duas extremidades. As bifurcações assentam no topo convexo do moringue, onde também se inserem os gargalos.
No bojo, a legenda “LEMBRANÇA / DE / ESTREMOZ “, distribuída por três filas paralelas com texto centralizado.
Significados da legenda
Trata-se de uma legenda que encerra em si múltiplos significados:  
- Em primeiro lugar que o moringue é um artefacto de barro, manufacturado em Estremoz.
- Em segundo lugar que tanto pode ter sido comprado por um forasteiro como por um autóctone para uso próprio ou para oferecer a alguém, com a mensagem expressa que é uma lembrança de Estremoz e de nenhum outro local.
- Em terceiro lugar e para além de lembrança de Estremoz é, sobretudo, uma lembrança da Olaria de Estremoz.
- Em quarto lugar, atesta a magia das mãos do oleiro que lhe deu forma, repetindo gestos ancestrais, herdados de Mestre ou de familiares ascendentes.
- Em quinto lugar, a Memória das mãos pacientes e hábeis das “polideiras” que ao decorarem a superfície, reforçaram toda a beleza que na morfologia, na volumetria e nas proporções, o moringue já ostentava em si.
- Em sexto lugar, a mensagem de que a Olaria de Estremoz é “sui generis” e por isso mesmo inconfundível.
- Em sétimo lugar, a afirmação orgulhosa de uma identidade cultural popular, local e regional, que encerra em si e é deveras notória.
- Em oitavo lugar, a lembrança de que Estremoz já foi terra de olarias, que por fatalidade ou talvez não, se extinguiram.
- Em nono lugar, a mensagem de que parafraseando o poeta João Apolinário, cantado por Luís Cília, “É preciso, imperioso e urgente” recuperar, preservar e salvaguardar a Olaria de Estremoz, como modo de produção artesanal que integra o nosso património cultural imaterial.
- Em décimo lugar, a chamada de atenção àqueles que detendo as rédeas do poder local, andam embriagados pela inclusão da manufactura dos Bonecos de Estremoz na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Tornaram-se autistas em relação à Olaria de Estremoz e não revelam quaisquer sinais de estar interessados na sua recuperação. Onde é que já se viu isto? Só nesta terra. E depois ainda proclamam que “Estremoz tem mais encanto!”.
Acordai!
Nada mais adequado que evocar aqui um excerto do poema “Acordai” de José Gomes Ferreira, que musicado por Fernando Lopes Graça, constituiu, porventura, uma das mais apelativas “Canções Heróicas”, que serve para despertar consciências: “Acordai, / homens que dormis / a embalar a dor / dos silêncios vis!”.
Fala o Passado
A referência mais antiga aos barros e à Olaria de Estremoz remonta ao foral de D. Afonso III, datado de 1258, seguindo-se o foral de D. Manuel I, de 1512. Daqui para diante as referências histórico - literárias aos barros de Estremoz são múltiplas: António Caetano de Sousa (1543), Giovanni Battista Venturini (1571), Francisco de Morais (1572), Inventário de D. Joana (irmã de Filipe II), correspondência de Filipe II, Padre Carvalho (1708), Francisco da Fonseca Henriques (1726), João Baptista de Castro (1745), Duarte Nunes de Leão (1785), D. Francisco Manuel de Melo, Alexandre Brongniart (1854), Carolina Michaëlis de Vasconcellos (1925).
Os barros de Estremoz têm sido cantados por poetas como: António Sardinha, Celestino David, Maria de Santa Isabel, Guilhermina Avelar, Maria Antónia Martinez, Joaquim Vermelho, António Simões, Mateus Maçaneiro e Georgina Ferro. Mas não só os poetas eruditos têm tomado a Olaria como tema de composições. Também ao longo dos anos, os nossos poetas populares têm feito quadras e décimas que integram o valioso Cancioneiro Popular Alentejano. Não resistimos a divulgar aqui duas dessas quadras, recolhidas no início do século passado por António Tomaz Pires, de Elvas, nos seus Cantos Populares Portugueses. São quadras com um conteúdo algo jocoso. Eis uma: “Minha mãe não quer que eu case / Com homem que seja oleiro; / Mas eu faço nisso gosto, / Pois tudo é ganhar dinheiro.”. Eis a outra: “Se tens pele grossa, / Põe-lhe pós de arroz. / Que eu vou ser oleiro / Para Estremoz”.
A herança do Passado
De acordo com a Mitologia Grega, Atlas foi um dos Titãs condenado por Zeus a sustentar os céus eternamente, após o assalto gorado ao Olimpo com a finalidade de alcançar o poder supremo do Mundo. Pela nossa parte, herdámos do Passado tradições que não se podem perder, porque integram o conjunto das marcas da nossa identidade cultural popular, local e regional. Por isso, tal como Atlas, transportamos sobre os ombros uma pesada responsabilidade: a de recuperar, preservar e salvaguardar a Olaria de Estremoz. É claro que pelo cargo que ocupam, a responsabilidade de uns é maior que a de outros.

Estremoz, 18 de Outubro de 2019
(Jornal E nº 231, de 31-10-2019)

O oleiro Jerónimo Augusto da Conceição, membro do clã Alfacinha, a modelar uma
bilha. Fotografia de Artur Pastor, dos anos 40 do séc. XX.

Amélia, mulher de Jerónimo, a efectuar a decoração fitomórfica dum jarro.
Fotografia de Artur Pastor, dos anos 40 do séc. XX.