quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
A Boniqueira Joana
domingo, 17 de janeiro de 2021
És alfaiate da palavra
Uma das muitas coisas que partilho com os outros é a escrita,instrumento
de libertação do Homem. Filho de alfaiate, aprendi a alinhavar palavras,que
permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido da minha
intervenção na blogosfera.
MATOS, Hernâni. Nós os subversivos
do Facebook.Blogue "Do Tempo da Outra Senhora".Estremoz, 11 de Setembro de 2010.
ÉS ALFAIATE DA PALAVRA
MOTE
És
alfaiate da palavra,
Do alinhavar ao cerzir,
É com ela a tua lavra
Para elogiar ou zurzir.
Talvez seja genética,
Essa arte de costurar!
A escrever ou a falar,
Não descuidas a fonética
E és bom na dialética.
Escrita também se alinhava,
Senão o texto escalavra.
É preciso ter jeito,
P’ra escrever a preceito
És alfaiate da palavra.
Após a
obra alinhavada
Com cuidado e atenção,
Passas à execução.
Atentamente verificada
A tarefa fica terminada
E depois de a concluir,
Divulgar e difundir,
Indagar atentamente
Se agrada ao cliente
Do alinhavar ao cerzir.
É trabalho fascinante,
Aprazível e libertador
Que exige algum labor,
Mas muito gratificante,
E também contagiante.
Sem o uso da palavra,
Como é que se comunicava?
Como é que a gente fazia
Ou como é que eu te dizia?
É com ela a tua lavra.
Que gostes da brincadeira,
É isso o que mais quero,
E ao menos assim espero.
Penso que não disse asneira
Nem te causei canseira.
É a maneira de exprimir,
Sem receio de mentir,
Que é do homem libertação
O uso da opinião
Para elogiar ou zurzir.
São Bento do Ameixial, 16/01/2021
Xico de São Bento
sábado, 2 de janeiro de 2021
Hernâni Matos, meu amigo
Hernâni Matos, meu amigo
Homem da escrita e da cultura,
É um gosto aprender contigo,
Para mim és uma figura.
És homem de forte convicção,
Como jornalista e escritor,
És dedicado investigador,
És blogger por paixão
E tens Estremoz no coração,
Razões porque te digo,
Que tens a cultura como abrigo
Da barristica gostas de falar,
E tudo sobre os bonecos estudar
Hernâni Matos, meu amigo.
Pessoa nas artes esclarecida,
Ganhas o pão como professor
E és exímio comunicador.
Grande apaixonado pela vida,
Que fazes por ser bem vivida.
Socialmente boa criatura
E fisicamente com estatura
Grande fã da nossa cidade
E bem visto na sociedade
Homem da escrita e da cultura.
Estudioso da arte pastoril,
De que estás bem informado,
Da enxada à charrua e ao arado,
Do alforge, aos safões e ao barril,
Utensílios conheces mais de mil.
Da pastorícia és grande amigo,
Conheces a aveia, a cevada e o trigo,
Desde o churrião ao burnil, até canga
Para Ti não há segredos na manga
É um gosto aprender contigo.
Por vezes temos discordado,
Em nomes ou definições,
Cada um tem as suas opiniões,
Mas eu não fico conformado.
Quando penso que estás errado,
Nas coisas da agricultura,
Mantenho a minha postura.
Ainda que sejas professor,
Eu não sou desconhecedor,
Para mim és uma figura.
São Bento do Ameixial, 31/12/2020
Xico de São Bento
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Auto de Natal
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
Santo António no púlpito
Santo António no púlpito (2020). Carlos Alves (1958- ).
Prólogo
A figura de Santo António é uma das imagens devocionais mais
antigas e mais populares, produzidas pelos barristas de Estremoz. As
representações conhecidas figuram-no, em geral, assente numa peanha trajando em
alternativa:
- 1) O hábito castanho da ordem franciscana, com cordão de 3
nós e por vezes com o rosário à cintura;
- 2) As vestes de cónego regrante de Santo Agostinho, o qual
inclui túnica branca, sobrepeliz de linho, redonda e ampla, assim como murça
preta, apertada apenas por um botão.
Em qualquer das figurações e em geral, o Santo ampara no
braço esquerdo um livro, sobre o qual se senta o Menino Jesus, que segura nas
mãos o globo do mundo. Na mão direita do Santo, uma açucena ou em alternativa
uma cruz.
Trata-se frequentemente de representações inspiradas em
imagens devocionais em madeira, que são objecto de culto nas nossas Igrejas.
Todavia nem sempre é assim. A barrista Fátima Estróia há
muito que prescindiu da peanha nas representações de Santo António, não sei se
por o considerar um Santo “terra a terra” (popular) ou por no momento da
criação não estar a pensar em nenhuma imagem de Igreja.[1]
Recentemente, a barrista Joana Oliveira criou duas composições: “Passeio de
Santo António com o Menino Jesus” e “Sermão de Santo António aos peixes”. Em
qualquer das suas criações, prescindiu compreensivelmente do recurso à peanha,
uma vez que não estava a representar qualquer imagem existente numa Igreja.
Estava sim a concretizar, respectivamente, representações da intimidade de
Santo António com o Menino Jesus e de um sermão bem conhecido.
As representações anteriores não esgotam as possibilidades
de figurar o Santo em contexto de imagem de culto ou em aspectos da sua vida.
Na verdade, a biografia de Santo António é bem conhecida e retrata-o como
teólogo, místico, asceta, grande taumaturgo, notável orador e homem de grande
cultura, documentada pela colectânea de sermões escritos que nos legou.
Significa isto que os barristas de Estremoz têm possibilidade de efectuar outras
representações de Santo António, para além daquelas que são conhecidas.
Foi nessa ordem de ideias que tendo sido Santo António um
grande orador, o barrista Carlos Alves criou uma imagem de “Santo António no
púlpito”[2],
inspirada na escultura homónima em madeira (58x17x12 cm), de autor
desconhecido, que terá sido criada no período 1501-1525 e que pertence ao
acervo do Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra. É dessa imagem que
seguidamente vou falar.
Santo António no
púlpito
“Santo António no púlpito” (39x13x12,5 cm) é uma figura
composta por duas figuras elementares: “Santo António” (26x11,5x8 cm) e “púlpito”
(24x13x12,5 cm).
Santo António enverga o hábito castanho da ordem
franciscana, com manto e capucho sobre a cabeça. Calça sandálias. À cintura tem
cingido o cordão creme de três nós, que simbolizam os votos perpétuos do Santo:
obediência, pobreza e castidade, as três pedras angulares da Ordem Franciscana.
Ambas as mãos estão encostadas ao peito, sem contudo estarem fechadas, numa
atitude de quem procura dar vida às palavras, acompanhando-as com gestos.
A figura do Santo assenta numa base estreita, prismática e
sextavada, de cor amarela, heterogénea, configurando mármore raiado de
castanho.
O púlpito, assente numa base moldurada, tem forma prismática
e sextavada, de cor igualmente amarela, heterogénea, configurando mármore
raiado de castanho. Apresenta atrás uma abertura com uma extensão
correspondente a duas faces do prisma, a qual permite a entrada da figura do
Santo. O púlpito está coberto com um pano de púlpito, de cor verde e com
franjas douradas.
O simbolismo das
cores
- Verde, cor das
plantas e das árvores, associada ao crescimento, à renovação e à plenitude.
Simboliza a esperança na vida eterna. É a cor usada nos Ofícios e Missas
do Tempo Comum;
- Amarelo, cor
associada ao Sol, que dá a sensação de brilho e iluminação. Cor acolhedora que
estimula o optimismo, proporciona concentração e estimula o intelecto;
- Castanho, cor de
terra, que no dizer de São Francisco de Assis é mais humilde que os outros
elementos e que está associada aos votos de pobreza assumidos pelos
franciscanos. É a cor normativa da Ordem;
- Dourado, cor do ouro, o mais nobre dos metais, associado
ao que é perfeito, durável e eterno. Cor que evoca o Sol e o fogo, símbolo do
amor e da luz celeste.
Cancioneiro Antonino
É vasta a literatura de tradição oral portuguesa referente a
Santo António. Do extenso cancioneiro antonino seleccionei algumas quadras, que
julguei adequadas ao presente texto. Uma que refere o tecido do hábito: “Ó meu
padre Santo António / Vestidinho d’estamenha; / A quem Deus quer ajudar, / O
vento lhe ajunta a lenha.” (1)
Outra que refere o cordão com que cinge a cintura: “Ó meu
padre Santo António, / O vosso cordão é bento; / Dai-me a luz dos vossos olhos
/ Do Divino Sacramento.” (1)
Uma relativa ao julgamento do seu pai: “Santo António já foi
frade, / Já foi frade, já pregou: / Ao pedir Ave-marias / Seu pai da forca
livrou.” (1)
Outra respeitante ao sermão aos peixes: “Santo António
Português, / Quando foi pregar ao mar, / Até os peixes na água, / Se puseram a
escutar!” (1)
Finalmente uma relativa ao interesse despertado nas moças:
“Santo António de Lisboa / Era um grande pregador, / Mas é por ser Santo
António / Que as moças lhe têm amor.” (2)
Epílogo
A mais recente criação do barrista Carlos Alves veio
enriquecer sobremaneira, a barrística popular estremocense, o que para mim é
gratificante.
Pela singularidade da sua criação, modelada com rigor e pelo
cromatismo agradável, fortemente simbólico e esteticamente harmonioso, o
barrista é merecedor de toda a minha admiração. Por isso, publicamente o
felicito:
- PARABÉNS, CARLOS ALVES!
BIBLIOGRAFIA
(1) -
MATTOS, Armando de Matos. Santo António
de Lisboa na Tradição Popular (Subsídio Etnográfico). Livraria Civilização.
Porto, 1937.
(2) - PESSOA,
Fernando. Quadras ao Gosto Popular.
Ática. Lisboa, 1965.
[1] O
mesmo já acontecera com barristas como José Moreira, irmãs Flores e Maria Luísa
da Conceição na criação de imagens devocionais de outros Santos.
[2] O
púlpito é parte integrante de um templo católico e consiste numa plataforma
elevada em relação ao solo, cercada por um guarda-corpo e provido de um
determinado meio de acesso. A sua função é elevar espacialmente o orador, para
melhor ser visto e ouvido pelos fiéis. Pode apresentar elementos decorativos
que reforçam a dignidade do discurso e do pregador.
Santo António no púlpito
(1501-1525). Escultura em madeira (58x17x12 cm),
de autor desconhecido. Museu
Nacional Machado de Castro, Coimbra.
“Santo António no púlpito” (após cozedura).
“Santo António no púlpito” (após pintura e envernizamento).
domingo, 29 de novembro de 2020
Auto das damas dos girassóis
Recentemente promovi uma festa íntima entre Bonecos de Estremoz produzidos pelos novos barristas e que de momento integram a minha colecção. Presentes Bonecos de Ana Catarina Grilo, Inês da Conceição, Joana Santos, Jorge Carrapiço, Luís Parente, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Sara Sapateiro, Vera Magalhães e Zé Carlos Rodrigues.
A festa decorreu no tampo da mesa maior da minha casa, a da casa de jantar. Como anfitrião aí os conduzi, a partir do local onde se encontravam.
A festa visava a integração dos participantes no meio onde estão inseridos, bem como o fomento da socialização entre eles, a fim de que entre si existisse bom entendimento e amizade, à semelhança do que se passa entre os seus criadores.
A festa estava a ser um êxito até chegar a mais recente das aquisições, a Minorca[1]. A partir daqui as coisas complicaram-se, visto que entre os presentes no tampo da mesa se encontrava já a Maiorca[2], que tal como a Minorca trajava um elegante vestido, confeccionado em tecido estampado com padrão de girassóis em campo verde seco e na cabeça um airoso chapéu castanho, emplumado. Ao verem-se uma à outra, logo se detestaram, travando entre si um diálogo acalorado:
MINORCA - E tu esganiçada! Julgas que trazes o rei na barriga?
MAIORCA - Cresce e aparece!
MINORCA - A mulher e a sardinha, quer-se pequenina.
MAIORCA - Tu és de gancho!
MINORCA - Olha, esta regaram-lhe os pés à nascença!
MAIORCA - Já a formiga tem catarro?
MINORCA - As mulheres não se medem aos palmos.
Minorca e Maiorca têm pêlo na venta, cada uma à sua maneira. Ao encontrarem-se e ao conhecerem-se, logo passaram a dar-se como o azeite e o vinagre. O seu conhecimento mútuo não fez faísca.
Como não se entendiam e porque estavam à minha guarda tive de arranjar maneira de resolver o problema de uma vez por todas. Alojei cada uma em sua sala e proibi-as de se encontrarem. Sabem porquê? Tenho mais que fazer que aturar damas desavindas.
Este auto é dedicado à barrista Vera Magalhães, de cujas mãos hábeis nasceram as duas personagens deste auto.
A minha gratidão por tais actos criadores é acompanhada de um sincero pedido de desculpas, visto o auto ter sido tão curto. A razão é óbvia: as personagens não se entenderam e puseram em causa a continuidade da festa, ao armarem o reboliço que armaram. Só me restou uma solução: pôr fim ao auto. Foi o que fiz.
[1] Dama - Gancho de meia (altura:
[2] Dama (altura:
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
O todo e as partes
Do singular para o
composto
O PASTOR DE TARRO E MANTA (Fig. 2) é uma figura que
constitui um registo etnográfico do Além Tejo de antanho, que habitualmente é
caracterizada através de atributos, uns que têm a ver com o vestuário (pelico,
safões, chapéu aguadeiro e botas) e outros que têm a ver com utensílios do dia
a dia (cajado, manta e tarro). Trata-se de uma figura singular da faina
agro-pastoril, descontextualizada do meio físico em que trabalha (o campo), do
objecto do seu trabalho (gado ovino) e de auxiliares do trabalho (cão).
Após a revitalização da produção de Bonecos de Estremoz
efectuada por José Maria de Sá Lemos (1892-1971) nos anos 30 do séc. XX, tanto
Ana das Peles (1869-1945) como Mariano da Conceição (1903-1959), modelaram a
figura singular (PASTOR DE TARRO E MANTA).
Após a morte de Mariano, sua irmã Sabina da Conceição (1921-2005) dá continuidade à manufactura dos Bonecos de Estremoz, mas para além das figuras confeccionadas por seu irmão produz outras[1], entre as quais o PASTOR À FOGUEIRA COM REBANHO (Fig. 1), na qual a figura da faina agro-pastoril está devidamente contextualizada.
Do composto para o
singular
A SENHORA A SERVIR O CHÁ (Fig. 3) é uma figura que pertence
ao conjunto dos chamados Bonecos da Tradição. Trata-se da representação
simplificada duma cena tradicional da vida íntima e social da mulher burguesa
ou aristocrata. A senhora traja à moda do séc. XIX, tem a mão esquerda apoiada
na anca e a mão direita pegando num bule assente numa mesa de pé de galo (
Em qualquer dos casos, alargaram-se os horizontes à barrística, como é próprio da inovação. O que se regista e saúda.
[1] Das figuras que não foram modeladas tanto por Ana das Peles como por Mariano da Conceição, mas foram modeladas por Sabina da Conceição, destaco entre outras: PASTOR À FOGUEIRA COM REBANHO, PASTOR COM REBANHO JUNTO À CHOÇA, PORQUEIRO E VARA DE PORCOS, SEMEADOR.
[2] O caso apresentado não é único. José Moreira criou a FIANDEIRA, descontextualizando a MULHER DOS PERUS, a MULHER DAS GALINHAS e a MULHER DOS CARNEIROS.
























