sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Presépio na Pintura Portuguesa


Jorge Afonso (c.1470 - c.1540). Adoração dos Pastores.


Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau [1] e Cândido de Figueiredo [2], a palavra “presépio” provem do latim “praesepium”, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos [LUCAS 2: 1 a 18) e MATEUS 2: 1 a 11]. O Presépio está profusamente representado na pintura portuguesa antiga. Passemos em revista essas representações, que incluem a adoração dos pastores e a adoração dos Reis Magos, as quais serão visualizáveis de uma forma cronológica. 

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 26 de Fevereiro de 2010

Jorge Afonso (c.1470 - c.1540).  Adoração dos Magos (c. 1515). Óleo sobre madeira
(170 x 205 cm). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Gregório Lopes (c.1490-1550). Presépio (c. 1527). Óleo
sobre madeira (128 x 87 cm). Museu  Nacional de Arte
Antiga, Lisboa.

Gregório Lopes (c.1490-1550). Adoração dos Pastores.

Vasco Fernandes (activo entre 1501 e 1540). Natividade
(1501-6). Óleo sobre madeira (131 x 81 cm). Museu de
Grão  Vasco, Viseu.

Vasco Fernandes (activo entre 1501 e 1540). Adoração dos
Magos (1501-6). Óleo sobre madeira (130,2 x 79 cm). Museu
de Grão Vasco, Viseu.

Frei Carlos (activo entre 1517-1539). Adoração dos
Reis Magos. Museu da Guarda.

André Reinoso (activo entre 1610-1641). Adoração dos Pastores.

Bento Coelho da Silveira (1620-1708). Adoração dos Pastores.

Bento Coelho da Silveira (1620-1708). Adoração dos Magos.

Josefa de Óbidos (1630 –1684). Natividade (c. 1650-60). Óleo sobre cobre. (21 x 16 cm).
Colecção particular, Porto.

Josefa de Óbidos (1630 –1684). Adoração dos Pastores (1669). Óleo sobre tela
(150 x 184 cm). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

André Gonçalves (1686-1762). Adoração dos Magos (s/ data). Óleo sobre tela.
Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra.

André Gonçalves (1686-1762). Adoração dos pastores.

Domingos António de Sequeira (1768-1837). Adoração dos Magos (1828). Óleo sobre tela.
(100 x 140 cm). Colecção Particular, Lisboa.


BIBLIOGRAFIA

[1] – BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino. Real Colégio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1713.
[2] – FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Editora T. Cardos & Irmão, 1899.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

As cáguedas



As cáguedas, são fechos de coleira de gado com chocalhos suspensos. São maioritariamente feitas em madeira, embora também as haja de corno e de cortiça.
O chocalho é suspenso de uma correia de couro, em geral inteiramente liso. Numa das extremidades daquela fazem-se dois cortes longitudinais e na outra extremidade outros dois. O fecho da coleira é colocado horizontalmente, no ponto exacto em que as extremidades das coleiras se sobrepõem. Para tal é enfiado por um dos lados dos cortes, saindo pelo oposto, de modo a uni-los no rebaixo que tem por função evitar a sua queda ou deslocamento.
Primitivamente, estes fechos devem ter sido apenas curtos pedaços de madeira, cortados de ponta de árvore, toscamente afeiçoados e cuja única função consistia em evitar a abertura fortuita da coleira, não só pelo ajustamento aos cortes nela efectuados, como pela pressão exercida pelo peso do chocalho.
Numa cágueda, a parte que se enfia nos cortes da coleira chama-se “patilha” e a parte por onde se pega a cágueda chama-se “cabeça”.
Nos exemplares mais arcaicos, a cabeça em forma de Y ou de Ψ, é constituída respectivamente apenas por duas ou três ramificações da patilha, em geral de disposição natural. A necessidade de utilização funcional das cáguedas terá levado ao seu aperfeiçoamento. Assim:
- uma das extremidades da patilha torna-se pontiaguda, para a cágueda ser mais fácil de enfiar e desenfiar na coleira;
- a outra extremidade da patilha transforma-se em pega mais larga (cabeça), para facilitar a manipulação da cágueda;
- cria-se na patilha um "rebaixo" que impede a sua deslocação sem voltar para cima a parte posterior, inteiramente lisa;
- adapta-se os seus tamanhos e as suas formas à largura das coleiras, à sua espessura sobrepostas as duas extremidades e ao porte dos animais a que se destinavam.
Todavia é de salientar que:
- o tamanho das cáguedas não está em relação directa com a largura das coleiras, pelo que umas vezes a cabeça, outras vezes a ponta da patilha, está em contacto directo com o corpo do animal;
- por vezes existe uma considerável desproporção de tamanho entre a cabeça e a patilha, aquela grande e esta curta;
- há cáguedas de patilha comprida e outras com ponta de patilha curta e cabeça grande, que nos dão a impressão de se virem a soltar da coleira;
- a maioria do rosto das cabeças é horizontal, mas também há cabeças com o rosto inclinado:
- o rosto das cabeças pode ser complanar com o rosto das patilhas, mas também se pode situar num plano abaixo;
- quando o rosto da cabeças se situa num plano abaixo do rosto da patilha, esta pode descer inclinada até à junção da cabeça ou pode se fundir com ela, interpenetrando-a;
- apesar da maioria do reverso das cáguedas ser plano, algumas apresentam a cabeça convexa e outras a patilha elevada;
- a localização do rebaixo é arbitrária, podendo começar encostado à cabeça ou algo afastado dela;
- quando o rebaixo está afastado da cabeça, a zona que medeia entre eles não está, em geral decorada;
- a largura do rebaixo nem sempre está em relação com o tamanho da cágueda;
- a profundidade do rebaixo poucas vezes ultrapassa metade da espessura da patilha e parece estar em relação com o volume de couro que nele se tem de embeber;
A geometria da cabeça de uma cágueda pode ser variável: Para além da dupla e tripla ramificação da patilha, a cabeça pode-se apresentar circular, ovada, elíptica, quadrada, rombóide, hexagonal, octogonal, flabelada, etc.
No que respeita à decoração, a análise da nossa colecção de cáguedas trabalhadas, permite-nos concluir que:
- a decoração tanto pode recorrer a incisões pouco profundas, como a incisões escavadas em profundidade;
- apesar da maioria das cáguedas ter apenas o rosto da cabeça decorado, há cáguedas com a patilha completamente decorada ou pelo menos na zona que medeia entre o rebaixo e a cabeça;
- o contorno do rosto da cabeça pode ser liso ou serrilhado, como liso ou serrilhado pode ser toda a espessura da cabeça;
- a decoração inclui composições geométricas diversas, por vezes com círculos concêntricos preenchidos por motivos geométricos. Inclui também motivos florais;
- a decoração no rosto da cabeça tem maioritariamente simetria radial, mas também existem cáguedas com simetria axial em relação ao eixo da patilha e outras sem simetria alguma;
- são correntes rosetas tetra, penta, hexa, hepta e multifoleadas, inscritas ou não em círculos ou corolas de flores;
- a decoração inclui siglas (e até mesmo datas), gravadas no rosto da cabeça, na zona que medeia entre o rebaixo e a cabeça ou no dorso da cabeça;
- surgem como motivos decorativos o signo-saimão, a cruz, o delta, a espiga e o sol.
Pelo seu simbolismo convém dissecar estes últimos elementos decorativos:
- SIGNO-SAIMÃO - Destinado, na crença popular, a defender dos maus-olhados ou a afugentar as coisas ruins;
- CRUZ – Sob o ponto de vista aristotélico representa os quatro elementos da natureza (ar, água, fogo e terra). Sob o ponto vista cristão simboliza a imortalidade e a ressurreição. Sob o ponto de vista maçónico, a cruz é o símbolo do cosmos, representa a divisão do mundo em quatro pontos cardeais, bem como a união dos conceitos de divino (na linha vertical) e mundano (na linha horizontal);
- DELTA - Sob o ponto de vista maçónico é o triângulo equilátero luminoso, símbolo da força expandindo-se;
- ESPIGA - Sob o ponto de vista maçónico é o símbolo da fecundidade e da universalidade do espírito, bem como da indestrutibilidade da vida;
- SOL - Sob o ponto de vista maçónico é o símbolo da luz (física e espiritual) da vida, da saúde, do equilíbrio e da força;
Embora as haja toscas, a maioria das cáguedas são objectos de arte pastoril, finamente bordados em madeira. Quando consigo comprar alguma usada, com pormenores de confecção, geometria ou decoração diferente, esse dia é para para mim, um dia feliz.
As cáguedas trabalhadas sempre foram o orgulho dos pastores, que tinham possibilidade de as exibir nas feiras ou na cerimónia da bênção do gado, tradição rural cuja memória se perde na memória dos tempos e em que os pastores e proprietários de vários tipos de animais desfilavam frente ao padre, que com o hissope aspergia água benta para cima das reses.
O falecido etnólogo D. Sebastião Pessanha percorreu os campos do Alentejo e Beira Baixa atrás de pastores, para recolha de cáguedas e publicou um livrinho [*] que é um grande livro sobre cáguedas, que eu não tenho, mas que o seu filho e meu amigo D. Miguel Pessanha me facultou em fotocópias. Une-me a este amigo o amor aos bilhetes-postais dos correios, que ambos partilhamos e a admiração pelo seu pai, ele como filho e eu como admirador do trabalho etnográfico desenvolvido. José Régio tinha algumas cáguedas nas suas colecções, mas tinha poucas, como se pode ver na sua Casa-Museu, em Portalegre. Em Estremoz houve um coleccionador de tudo o que é coleccionável e que já morreu há muito, chamado Rafael Maria Rúdio. Tinha para cima de 2 000 cáguedas na sua colecção, que foram adquiridas pelo coleccionador Manuel Moura, de Monforte. Quando soube disso, ia-me dando uma coisa ruim. O Dr. Carmelo Aires do Redondo também se interessa por cáguedas.
Não sei como se designam os coleccionadores de cáguedas. Apenas sei que o Dicionário Cândido de Figueiredo (edição de 1913) diz que “cágueda” é um termo feminino usado na província do Alentejo, para designar a travinca com que às vezes se prende o chocallho à coleira. Etimologicamente provirá de “cáguedo´=cágado”. Efectivamente, há cáguedas que pela sua forma arredondada fazem lembrar um cágado com a cabeça de fora. E o bom povo alentejano, fazendo de padre de serviço, terá baptizado assim aquilo que tinha de ter nome. A ingenuidade e o desenrascanço deram assim origem a não serem precisos os ofícios dos doutos doutores da Academia, a quem terei de consultar para saber a designação a dar a um coleccionador de cáguedas. Ao bom povo alentejano, a esse não vou perguntar, não. Já sei a resposta:
- O gajo é maluco!
Digam-me lá se isso é nome que se possa dar a um coleccionador de cáguedas?

Hernâni Matos

[*] - PESSANHA, D. SEBASTIÃO. Fechos das coleiras do gado na Beira-Baixa e no Alentejo, Imprensa Portuguesa, Porto, 1951.

Roda: Amor - O ramo mora no aro


Roda (1965). José Manuel Espiga Pinto. Acrílico sobre Madeira. 122 x 180 x 5 cm.
Fotografia  de Leonardo Espiga Pinto, obtida no de urso da exposição “Espiga Pinto –
- Memórias do Alentejo”, promovida pela Galeria Howard’s Folly e o Legado de Espiga 
Pinto, no espaço daquela Galeria em Estremoz, por ocasião da celebração do 85º aniversário
 do nascimento do artista. A roda é um dos principais elementos recorrentes da iconografia
de Espiga Pinto, transversal a todas as fases da sua obra.

LER AINDA


A roda será porventura o maior invento de todos os tempos. O homem terá começado por arrastar pedras e árvores sobre troncos de árvores, para mais tarde o começar a fazer sobre estrados assentes em rolos de madeira. O transporte de materiais tornou-se então mais fácil. Hoje sabemos que o atrito de rolamento é inferior ao atrito de escorregamento, mas em termos práticos, isso foi descoberto há milhares de anos.
Depois dessa primeira descoberta, os rolos terão sofrido nas extremidades, a aplicação de discos toscos, percursores das rodas, servindo os rolos de eixos. Quer os eixos quer as rodas sofriam movimento de rotação e movimento de translação. Este último era um inconveniente, por que o eixo se deslocava ao longo do estrado, obrigando a ajustes sucessivos. Mais tarde, o eixo é preso ao estrado e as rodas passam a girar livremente, exteriormente ao estrado. Nos modelos primitivos, as rodas eram baixas e os estrados próximos do chão. A necessidade de elevar o estrado em relação ao solo, levou ao alteamento das rodas, que eram maciças e grossas devido ao peso dos materiais transportados. E assim o foram durante séculos, até que para se tornarem mais leves foram abertos nas rodas, dois óculos arredondados. Mais tarde, a roda maciça viria a ser aberta em partes mais largas, o que está na origem da roda radiada, na qual raios de madeira unem um aro periférico ao centro, apoiado na cabeça saliente do eixo. Mais tarde, o aro de madeira periférico viria a ser protegido por um aro de ferro. A roda transmite de maneira amplificada para o eixo de rotação, qualquer força aplicada no aro periférico, reduzindo a transmissão da velocidade. Analogamente, a roda transmite de maneira reduzida para o aro periférico, qualquer força aplicada no seu eixo de rotação, amplificando a transmissão da velocidade.
Os carros de tracção animal alentejanos, puxados a muares ou a cavalos, dos mais leves e andarilhos do nosso país, movem-se facilmente com rodas radiadas com diâmetros de 1,80 m a 1, 50 m.
Na literatura oral são múltiplas as referências, à roda. São assim conhecidas as seguintes adivinhas, cuja solução é fornecida no final, entre parêntesis:
- Qual é coisa, qual é ela, que é redonda como o Sol, tem mais raios do que uma trovoada e anda sempre aos pares? (A roda radiada);
- Qual é coisa, qual é ela, que a roda disse para o carro? (Vamos dar uma voltinha.);
- Qual é a roda, qual é ela que quando um carro está a fazer a curva para a direita, roda menos? (A roda suplente).
São igualmente conhecidos os seguintes provérbios sobre rodas:
- Uma roda toca a outra.
- A vida é uma roda, tanto anda como desanda.
- A roda da fortuna tanto anda como desanda.
- A roda da fortuna anda mais que a do moinho.
- A roda da fortuna nunca é uma.
- Cada um dança, conforme a roda onde está.
- A pior roda é a que mais chia.
- Rodas e advogados precisam de ser untados.
Há de resto, expressões populares portuguesas, em que figura o termo “roda”:
- Roda! – Deixa-me!;
- À roda - À volta;
- Roda da fortuna – Frase que significa que a fortuna não pára;
- Roda dos Expostos – Espécie de armário giratório em que se expunham as crianças que se queriam enjeitar;
- Roda do tempo – A sucessão dos anos da vida.
Termino com duas quadras populares recolhidas por António Tomaz Pires (1850-1913) e coligidas nos seus ”Cantos Populares Portugueses” (1902-1910), onde aparece o termo “roda”:

“Já corri o mar à roda
C’uma fita larga e estreita,
Para dar um nó redondo
Nessa cintura bem feita.”

“Senhores que estão à roda,
Vossês hão de perdoar,
Que esta menina picou-me
E eu quero-me despicar.”

(Publicado inicialmente em 25 de Fevereiro de 2010)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

É burro!


Carrego do burro. Fotografia do alterense Artur Pastor (1922-1999).


Quando um estudante tem mau aproveitamento escolar, diz-se:
- É burro!
Quando um automobilista faz uma manobra perigosa, comenta-se:
- É burro!
Quando num jogo decisivo, o árbitro não vê uma grande penalidade, da assistência grita-se:
- É burro!
Quando o medico falha o diagnóstico e o doente morre, reputa-se:
- É burro!
Quando um sindicalista se deixa levar nas negociações, diz-se com desdém:
- É burro!
Quando o 1º ministro falha as politicas, clamam os do contra:
- É burro!
Entre nós quando se chama burro a alguém é para o ofender, pois o termo reúne em si a múltipla carga negativa de: pouco inteligente, estúpido, teimoso, ignorante e pouco criativo. Etimologicamente a palavra “burro”, provem do latim “burrus”, que quer dizer vermelho. Acredita-se que foi daí que surgiu a crença de que burros são pouco inteligentes, pois antigamente, os dicionários tinham capas vermelhas, dando a ideia de que os burros eram sedentos de saber.
Desde os tempos imemoriais, que nas comunidades rurais, os burros são utilizados como auxiliar das tarefas agrícolas e como animais de carga. Porém, o abandono das actividades agrícolas tradicionais, fez com que este animal doméstico se encontre à beira da extinção. Contra isso lutam associações regionalistas, um pouco por todo o país, o que naturalmente é merecedor de todo o nosso apoio e simpatia.
Como etnógrafos constatamos a abundante presença do burro na literatura oral: lendas, contos populares, cancioneiro, adivinhas e provérbios, o que só por si testemunha a importância do burro nas antigas comunidades rurais. Na impossibilidade, de abordar aqui todos aqueles domínios, cingir-nos-emos aos provérbios, que como é sabido, são um repositório de sabedoria popular. Eis o conjunto de provérbios portugueses sobre burros que nos foi possível coligir:
- A burro morto cevada ao rabo.
- A burro que muito anda, nunca falta quem no tanja.
- A burro velho, capim novo.
- A burro velho, pouco verde.
- À falta de um grito, morre um burro no atoleiro.
- A ferramenta é que ajuda, não é o pisco em cima da burra
- A gente não deve de ficar adiante do boi, nem atrás do burro, nem perto da mulher: nunca dá certo
- A gente, queira ou não queira, tem de ir de burro à feira.
- A julgar morreu um burro.
- A pensar morreu um burro.
- Albarda-se o burro à vontade do dono.
- Andar de cavalo para burro.
- Antes bom burro que ruim cavalo.
- Antes burro vivo que doutor morto.
- Antes burro vivo que letrado morto.
- Às vezes não se respeita o burro, mas a argola a que ele está amarrado.
- Burro com fome, cardos come.
- Burro grande, cavalo de pau.
- Burro que geme, carga não teme.
- Burro velho não aprende línguas.
- Burro velho não toma andadura e se toma pouco dura.
- Burro velho não toma andadura.
- Burro velho, albarda nova.
- Burro velho, mais vale matá-lo que ensiná-lo.
- Burro velho, não aprende línguas.
- Com a morte do asno não perde o lobo.
- Criado que faz o seu dever, orelhas de burro deve ter.
- Depois do burro morto, cevada ao rabo.
- Em Janeiro todo o burro é sendeiro.
- Em Maio deixa a mosca o boi e toma o asno.
- Filho de burro não pode ser cavalo.
- Jumento e filho de padre são poços de manha.
- Jumento, padre com manha, são poços de artimanha.
- Mais vale burro vivo do que sábio morto.
- Mulo ou mula, asno ou burra, rocim nunca.
- Não é mel para a boca do asno.
- Não é por grandes orelhas que o burro vai à feira.
- O boi conhece o dono e o jumento a manjedoura.
- O burro acredita em tudo o que lhe dizem.
- O burro adiante para que não se espante.
- O burro do meu vizinho só sabe o que lhe ensino.
- O burro não é tão burro como se pensa.
- Palavra de burro é coice.
- Quando o burro é jeitoso, qualquer albarda lhe fica bem.
- Quando um burro zurra, os outros abaixam as orelhas.
- Queira ou não queira, o burro há-de ir à feira.
- Quem come carne na véspera de Natal, ou é burro ou animal.
- Quem não pode, aluga um burro.
- Quem o asno gaba, tal filho lhe nasça.
- Quer queira quer não queira, o asno há-de ir à feira.
- Todo o burro come palha, é preciso é saber dar-lha.
- Todo o malandro é um burro de sorte.
- Um burro carregado de livros é um doutor.
- Um olho no burro, outro no cigano.
- Zurros de burro não chegam aos céus.
Tal como os burros que foram objecto do presente “post”, também a literatura oral precisa de ser preservada e divulgada, o que se faz transmitindo aos mais novos, as fontes de sabedoria dos nossos ancestrais.

Publicado inicialmente em 22 de Fevereiro de 2010 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os churriões



ESTREMOZ – Mercado de Sábado em meados do século XX. Foto de Rogério Carvalho (1915-1988). Passeio do Rossio frente ao Hospital. Um camponês de pelico e safões prepara-se para beber uma aguardente, que a viúva, proprietária da taberna-churrião se prepara para lhe servir. À esquerda, o carro aberto dum vendedor de cereais. Ao fundo, a Igreja dos Congregados, antes do completamento da construção.
Nesta época, por ocasião das tradicionais Festas de Setembro, este passeio ficava repleto destes carros, propriedade de quem vinha às Festas. Pelos arreios dos animais, pelos assentos, pelas cortinas e pelos enfeites dos carros, se conhecia o poder económico de quem neles se fazia transportar.


ESTREMOZ – Feira de Santiago, 25 de Agosto de 1947. Fotografia tirada no Rossio Marquês de Pombal, frente à Casa da Família Reynolds. O fotógrafo foi Manuel Gato, um dos sócios da extinta firma de electrodomésticos Quadrado e Gato, situada no Rossio Marquês de Pombal, junto ao Café Águias d'Ouro. Trata-se de um grupo de camponeses petiscando num típico churrião, que funcionava como taberna ambulante, onde se servia vinho, aguardente, pão, queijo e carnes cheias. Era um local de amena cavaqueira e de convívio, onde por vezes se defrontavam ao desafio, poetas populares como os lendários Hermínio Babau e Jaime da Manta Branca.
Consta-se que certa vez, o primeiro, versejador de vastos recursos e crítico do Estado Novo, se terá saído com esta cantiga:
 
“Lá em Santa Comba Dão,
Nos foros de Jesus,
Para dar cabo de uma Nação,
Deu uma mãe um filho à luz.”

Esta tirada foi aproveitada por dois indivíduos que não o gramavam e o foram denunciar à Guarda Nacional Republicana, cujo posto se situava na Igreja dos Congregados. Após a denúncia e chegados à taberna-churrião, os guardas deram ordem ao Hermínio de os acompanhar até ao posto, o mesmo se passando relativamente aos dois bufos. Uma vez no posto, os guardas disseram-lhe que era acusado de estar a dizer versos contra o Governo, ao que ele respondeu que não senhor, que não era verdade, desafiando então os denunciantes a repetirem os versos que ele tinha dito. Como eles não foram capazes de o fazer, o Hermínio declarou então aos guardas:
- Meus senhores, os versos foram estes:

Acabaram as revoluções.
A situação melhorou.
Portugal é um brinquinho
Desde que este Governo entrou.”

Os acusadores, bem clamaram que os versos não eram aqueles, mas como não foram capazes de apresentar versos contrários como prova, foram acusados pelos próprios guardas de terem prestado falso testemunho e foram eles que acabaram por passar a noite no posto. Em termos de rifonário popular, chama-se a isso “Ir buscar lã e sair tosquiado”. Quando ao Hermínio Babau voltou à taberna-churrião para continuar a função.

Era em churriões puxados por mulas, que os camponeses das freguesias rurais se dirigiam à cidade para vender e para comprar ou simplesmente para tratar de assuntos que só na cidade podiam ser tratados.
Era também em churriões destes que se ia às Festas de S. Mateus a Elvas.

Churrão junto ao Aqueduto – Elvas.Bilhete-postal ilustrado de meados do séc. XX. Edição da Livraria e Papelaria Rego - Elvas.

Era uma romaria que durava dias, entre o ir e o voltar. E ali os romeiros estacionavam os churriões por zonas, conforme a zona de proveniência. Digam-me lá, se o alentejano é ou não é um tipo organizado?

Aspecto do Arraial da Feira de S. Mateus – Elvas. Bilhete-postal ilustrado do início do séc. XX. Edição da Tabacaria Costa – Lisboa.

Era na altura em que os ganhões que mourejavam nas herdades, iam aquelas Festas gastar a maçaroca amealhada a custo. Lá diz uma quadra do rico cancioneiro popular alentejano:

”Ó feira de S. Matheus,
Onde as ganharias vão
A gastarem o dinheiro
Da temporada do v’rão.”

Eram outros os tempos…

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 21 de Fevereiro de 2010
Integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"
publicado em 2012 pelas Edições Colibri

Um homem nunca se rende. Mesmo de fato e gravata.



Publiquei no Facebook esta imagem dos meus tempos de juventude, pelo que a minha amiga Maria, me perguntou qual a idade que tinha na altura. A resposta foi esta:
“Como a minha amiga sabe (Facebook dixit) eu nasci leonicamemte em 46 do século passado. Sou pois um jovem do Maio de 68 em Portugal e fui-o assumidamente, com todas as consequências daí resultantes, nomeadamente de como estudante integrar a frente do movimento associativo que em Portugal esteve na vanguarda de lutas sociais. Por essa altura deixei crescer o bigode à Debray, o jornalista que na guerrilha acompanhou o "Che Comandante, Amigo", como nós dizíamos. Esta fotografia é anterior ao bigode, que mais ou menos bigodaça ou mais ou menos bigodinho, ainda hoje mantenho. Não errando muito teria 21 anos, 1/3 da idade que tenho hoje e ainda não tinha casado a primeira vez. A encadernação de fato e gravata, era o que era natural, visto o meu pai ser alfaiate e fazer-me a roupa, não me podendo dar ao luxo burguês de andar mal vestido. Actualmente visto também da maneira que me sai mais barata, o que passa por não usar normalmente fato e gravata, visto que já não tenho o meu pai para os fazer de borla. Mas continuo a ter fato para me encadernar assim e há momentos em que não deixo de o fazer, porque isso está de acordo com a minha estrutura mental.
Estou convencido que quando for grande e tiver posses para isso, hei-de andar sempre de fato. Se depender só de mim, assim será, de facto.
Um abraço para ti, Maria.”
A minha amiga, da geração de 59, viveu o seu Maio de 68, por alturas de 74/75. A ela lhe contei que:
“O meu Maio, com o Zeca, o Adriano, o Fanhais e o Fanha, foi cá, antes de Abril, nos cantos livres de ocupação das cantinas das faculdades, na luta por um mundo melhor. Por vezes fiz segurança com um cachaporro nas mãos, por que apesar de um homem nunca poder ter medo, deve estar prevenido, sobretudo pela preocupação dos companheiros que dependem dele.
IMPROP, antes de Abril, quer dizer Imprensa e Propaganda, nas Faculdades (todas), onde era preciso lutar, para termos direito àquilo que naturalmente nos pertencia. Continuo a ser um homem da IMPROP, se calhar impróprio para consumo, pelo tamanho, pelo volume, pelo peso e pela inconveniência de quando é preciso ser inconveniente, ser capaz de o ser, sem ninguém me ser capaz de vergar, nem mesmo com porrada em cima.
O Maio está-me na massa do sangue e a idade apenas nos refina. Nunca me rendi e tenho espírito de boxeur. Quando caio, levanto-me sempre na convicção, de que alguém, se eu estiver menos preparado, me pode atirar para o tapete, mas nunca me pode vencer. E porquê? Porque me auto-treinei a resistir e a aprender a levar no focinho.
Recuso-me a usar pantufas intelectuais e a morrer na cama, embrulhado em puz e algodão em rama (Luís Veiga Leitão? Não tenho a certeza .).
Uma grande saudade do José Sena. O que teria sido Estremoz, tendo-o como Presidente da Câmara, em permanência?
Uma grande saudade do teu tio Aníbal, do meu camarada Aníbal, de cerca de seis meses de célula de professores do PC em 75, antes da minha ruptura. Saudade que vem da partilha de muitas coisas que têm a ver com a identidade cultural alentejana e têm a ver com o povo que nos vai na alma.
O Maio está neles todos, está em nós, está naqueles que hão-de vir. Porque um homem nunca se rende. Mesmo de fato e de gravata!”
(Publicado inicialmente em 21 de Fevereiro de 2010)
Texto inserido no meu livro FRANCO-ATIRADOR, Edições Colibri,2017.

O reforço da identidade cultural alentejana


Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957),
 para a capa da revista Panorama, número 27, de 1946.

Numa época em que o mundo é cada vez mais uma aldeia global e quando somos governados pelo poder napoleóníco de Bruxelas e do Terreiro do Paço, é importante o reforço da nossa identidade cultural de alentejanos.
No Evangelho segundo S. Mateus, capítulo 9, versículos 5 e 6, diz Jesus ao paralítico:
- “Perdoados são os teus pecados. Levanta-te e anda.”
Como Jesus, direi a todos os filhos destas terra transtagana:
- Mais importante que aquilo que nos separa é aquilo que nos une: a nossa identidade cultural.
Por isso, como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós através do seu exemplo, dê um forte contributo ao reforço dessa identidade. Como diria o saudoso Zeca Afonso:
- “Irmão, traz outro amigo também".
Como professor vos digo, esse é o trabalho para casa que todos, sem excepção, tendes a responsabilidade de fazerdes bem feito.
Assim, o espera o Alentejo, que é o mesmo que dizer o futuro dos vossos filhos e dos vossos netos.