domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os churriões



ESTREMOZ – Mercado de Sábado em meados do século XX. Foto de Rogério Carvalho (1915-1988). Passeio do Rossio frente ao Hospital. Um camponês de pelico e safões prepara-se para beber uma aguardente, que a viúva, proprietária da taberna-churrião se prepara para lhe servir. À esquerda, o carro aberto dum vendedor de cereais. Ao fundo, a Igreja dos Congregados, antes do completamento da construção.
Nesta época, por ocasião das tradicionais Festas de Setembro, este passeio ficava repleto destes carros, propriedade de quem vinha às Festas. Pelos arreios dos animais, pelos assentos, pelas cortinas e pelos enfeites dos carros, se conhecia o poder económico de quem neles se fazia transportar.


ESTREMOZ – Feira de Santiago, 25 de Agosto de 1947. Fotografia tirada no Rossio Marquês de Pombal, frente à Casa da Família Reynolds. O fotógrafo foi Manuel Gato, um dos sócios da extinta firma de electrodomésticos Quadrado e Gato, situada no Rossio Marquês de Pombal, junto ao Café Águias d'Ouro. Trata-se de um grupo de camponeses petiscando num típico churrião, que funcionava como taberna ambulante, onde se servia vinho, aguardente, pão, queijo e carnes cheias. Era um local de amena cavaqueira e de convívio, onde por vezes se defrontavam ao desafio, poetas populares como os lendários Hermínio Babau e Jaime da Manta Branca.
Consta-se que certa vez, o primeiro, versejador de vastos recursos e crítico do Estado Novo, se terá saído com esta cantiga:
 
“Lá em Santa Comba Dão,
Nos foros de Jesus,
Para dar cabo de uma Nação,
Deu uma mãe um filho à luz.”

Esta tirada foi aproveitada por dois indivíduos que não o gramavam e o foram denunciar à Guarda Nacional Republicana, cujo posto se situava na Igreja dos Congregados. Após a denúncia e chegados à taberna-churrião, os guardas deram ordem ao Hermínio de os acompanhar até ao posto, o mesmo se passando relativamente aos dois bufos. Uma vez no posto, os guardas disseram-lhe que era acusado de estar a dizer versos contra o Governo, ao que ele respondeu que não senhor, que não era verdade, desafiando então os denunciantes a repetirem os versos que ele tinha dito. Como eles não foram capazes de o fazer, o Hermínio declarou então aos guardas:
- Meus senhores, os versos foram estes:

Acabaram as revoluções.
A situação melhorou.
Portugal é um brinquinho
Desde que este Governo entrou.”

Os acusadores, bem clamaram que os versos não eram aqueles, mas como não foram capazes de apresentar versos contrários como prova, foram acusados pelos próprios guardas de terem prestado falso testemunho e foram eles que acabaram por passar a noite no posto. Em termos de rifonário popular, chama-se a isso “Ir buscar lã e sair tosquiado”. Quando ao Hermínio Babau voltou à taberna-churrião para continuar a função.

Era em churriões puxados por mulas, que os camponeses das freguesias rurais se dirigiam à cidade para vender e para comprar ou simplesmente para tratar de assuntos que só na cidade podiam ser tratados.
Era também em churriões destes que se ia às Festas de S. Mateus a Elvas.

Churrão junto ao Aqueduto – Elvas.Bilhete-postal ilustrado de meados do séc. XX. Edição da Livraria e Papelaria Rego - Elvas.

Era uma romaria que durava dias, entre o ir e o voltar. E ali os romeiros estacionavam os churriões por zonas, conforme a zona de proveniência. Digam-me lá, se o alentejano é ou não é um tipo organizado?

Aspecto do Arraial da Feira de S. Mateus – Elvas. Bilhete-postal ilustrado do início do séc. XX. Edição da Tabacaria Costa – Lisboa.

Era na altura em que os ganhões que mourejavam nas herdades, iam aquelas Festas gastar a maçaroca amealhada a custo. Lá diz uma quadra do rico cancioneiro popular alentejano:

”Ó feira de S. Matheus,
Onde as ganharias vão
A gastarem o dinheiro
Da temporada do v’rão.”

Eram outros os tempos…

10 comentários:

  1. O meu amigo é que é o Máximo!
    Obrigado por nos remexer na memória de maneira tão marcante.
    parabéns!
    Fernando Máximo!

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  2. Ola caro Hernani

    une magnifique série de photos, vraiment superbes

    vous avez là une collection très très riche de mémoire !!

    merci à vous , de nous les faire découvrir

    abraço

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  3. Que interessante! Fiquei agora a saber, pelo meu pai, que os meus bisavós paternos tinham um churrião, puxado por uma parelha de mulas.
    Mas o deles era só para irem até às terras vizinhas.
    Era uma tarde inteira para chegar fosse onde fosse...Que sossego de vida!

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  4. Sem querer voltei atrás uns 50 anos.Que coisa mais engraçada ouvir falar dos "churriões".Pois eu e os meus irmãos eramos miudos e o meu avô mandava o churrião puxado por 4 cavalos buscar-nos à vila.Iamos nós,6 irmãos,,os meus pais e 2 "criadas" mais o cocheiro até ao monte para passarmos as férias.Assentos de veludo vermelho,lembro-me bem,já muito puidos,cortinas num tecido grosso apanhadas dos lados.Lembro-me tão bem.Nunca mais chegávamos.Lá iamos por trancos e barrancos.Para nós era uma festa.Anunciava-se muita brincadeira com os primos que apareciam e muito calor e mosquitos.Mas era uma alegria até ao dia do regresso porque começavam as aulas a 7 de outubro,lembram-se?E lá vinham as malas,mais as batatas e a fruta e alguns galináceos em cestos de cabeça de fora.Que saudades.

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  5. Mais um apontamento que acorda a memória e me faz ver num "churrião" a caminho da estação da CP de Alvito que dista cerca de 3km da vila.
    Obrigado Hernâni por estes valiosos documentos.

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  6. Daqui de Valado dos Frades, não havia churriões, embora um compadre (mesmo) Alentejano já me tivesse falado deles.
    Interessante e pedagógica esta "literatura" que agora nos chega...como sempre!/

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  7. Apesar dos anos que já lá vão, após o desaparecimento destes veículos, foram tempos bem passados. O gozo que nos dáva, a nós miudos, andar de carro de mula ou de churrião. E agora por esta altura, na ceifa, andar pendurado na rabicha dos carros carregados de molhos a caminho da eira. Por vezes era cada trambolhão que ficávamos todos escalavrados. Mas era levantar, correr e continuar. O calor não nos fazia desistir. Enfim... saúdades da juventude.

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  8. Hernâni, maravilhosa evocação da nossa Estremoz,e do tempo em que andávamos de calções. Lembro bem os Churriões, vê-los naquele perímetro do Rossio Marquês de Pombal; entremeados com os carros queijeiros e outros de linguiças escorreitas, que logo ali vendiam de tal para acompanhar o branco ou o tinto. Lembro-me de ouvir dizer que o Hermínio Babau se batia, lá nos contrafortes da venda do Zé da Glória, em duelo de rimas com o Jaime Velez ,chamado Jaime da Manta Branca; nome que lhe veio do pai, e da moda dos rapazes solteiros passearem aos domingos, com a sua manta de fabrico artesanal ( esta era branca), e mostrar-se às raparigas. E se o Babau foi lesto a enganar os esbirros: foi-o ainda mais o Jaime, dizendo um dia versos acutilantes a um conjunto de lavradores: Não vejo senão canalha/ De banquete pr'a banquete/ Quem produz e quem trabalha/ Come açordas sem azête.
    Contestação absoluta ao sistema, corte com o pactuar à submissão latifundiária. O Jaime torna-se um "Maltês Goliardo", andando de terra em terra, espalhando o seu repentinismo poético, ganhando parco alimento para o corpo; e, como Boudelaire diria:com muito vinho para a alma.
    Obrigado por nos fazeres reviver tudo isto!...Um abraço amigo.

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  9. :) Gostei imenso deste post!
    O meu pai costumava recitar uns versos muito semelhantes acerca de Santa Comba... :)) eram mais completos e estou segura de que dariam direito a uma rápida viagem para Caxias, mesmo sem repetição, nem prova...
    Abraço!

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  10. O tema é bastante interessante, ainda me lembra de vêr circular alguns. Há lindíssimas histórias narradas pelo professõr e só por isso este blogue é imprecindível.
    Rosa Casquinha

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