quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Luísa Batalha e a escultura em alto relevo


Senhora de pezinhos (2021). Escultura em alto relevo. Luísa Batalha (1959-  ).


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Pródomo
Em Junho deste ano reconheci a existência de uma nova tipologia ignorada na minha proposta de Sistemática dos Bonecos de Estremoz, formulada no meu livro BONECOS DE ESTREMOZ, dado à estampa pelas Edições Afrontamento, no Outono de 2018. Tratava-se das “Esculturas em alto relevo”. Descrevi então dois tipos dessas esculturas. Um característico de José Moreira e o outro de Sabina Santos e das Irmãs Flores.
Na mesma ocasião lancei um repto à retoma da produção desse tipo de figuras, o qual encontrou eco junto dos novos barristas. Destes, a primeira a responder ao desafio, foi Luísa Batalha.

Placa relevada com “Senhora de pezinhos”
A criação de Luísa Batalha apresenta as características que passo a descrever. A placa relevada tem geometria quadrangular com 14 cm de lado e cerca de 19 cm de diagonal. O fundo é verde bandeira e a orla zarcão. A disposição do motivo é a da diagonal do quadrado. A suspensão da placa na parede é assegurada através de uma argola de arame cravada no topo superior do lado posterior da placa. No verso ostenta a marca manuscrita “Luisa Batalha / Estremoz / 2021”, distribuída por 3 linhas sensivelmente paralelas.
O vestido, de cor ocre amarelo, tem componentes volumétricos que foram modelados em barro: a gola, os punhos, a orla inferior do vestido e os botões. Estes elementos, assim como as costuras que à frente descem dos ombros, são cor de zarcão. Na zona dos cotovelos são visíveis as dobras das mangas.
O chapéu encontra-se ornamentado por uma garbosa fita cor de zarcão onde está inserida uma pluma de igual cor e deixa ver cabelo castanho ondulado que cobre as orelhas, das quais sobressaem pendentes que configuram ser de ouro.
Os sapatos são em castanho escuro.
O rosto tem bem definidos o nariz, a boca e as maçãs do rosto, os quais conjuntamente com o olhar, se revelam marcas identitárias da barrista.

Desenlace
O cromatismo da figura assenta numa harmoniosa bicromia de duas cores quentes, o zarcão e o ocre amarelo, sendo este a cor dominante. O ocre amarelo associa à figura, um misto de sentimento de alegria e de estado de felicidade. Já o zarcão alia à imagem uma sensação de energia.
O fundo verde bandeira da placa e a figura no seu todo, constituem uma bicromia de frio e quente, o que enfatiza a figura.
A modelação perfeita associada a um cromatismo de bom gosto, traduzem-se num regalo para os olhos: uma placa relevada com uma Senhora de pezinhos bela, elegante, alegre, aparentando felicidade e vigor.
A criação de Luísa Batalha é reveladora de toda a sua sensibilidade, bom gosto, espírito de minúcia e ânsia de perfeição. A barrista é, pois, merecedora dos meus maiores encómios, o que aqui registo e sublinho para memória futura.

Publicado inicialmente a 23 de Setembro de 2021

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Jorge Sampaio na barrística de Estremoz

 

Jorge Sampaio (1996). João Fortio (1951-...)

Jorge Sampaio (1939-2021,) o Presidente da República cuja morte recente foi assinalada por três dias de luto nacional e cerimónias fúnebres de Estado, está representado na barrística de Estremoz.

Primeira presença
Trata-se de um prato covo de média dimensão, em cerâmica vidrada, da autoria do barrista João Fortio (1951-….). Está ilustrado no centro com uma caricatura de Jorge Sampaio da autoria de Aníbal Queiroga (Évora). No fundo ostenta as inscrições: “JORGE SAMPAIO / 9-3-1996 / Presidente da República” e no bordo quatro ramagens. A decoração do prato é uma quadricromia, obtida com tons de azul, verde, preto e laranja.
Estamos em presença de um prato falante que visava comemorar a eleição de Jorge Sampaio para o seu primeiro mandato com Presidente da República (1996-2001). Daí a data inscrita no prato ser a data da sua tomada de posse para o cargo.
A manufactura do prato foi de iniciativa minha como membro da Comissão de Honra de Estremoz, de apoio à Candidatura de Jorge Sampaio a Presidente da República. A tiragem do prato foi de 8 exemplares, um dos quais foi oferecido a Jorge Sampaio para o Museu da Presidência da República.

Segunda presença
Trata-se de um Boneco de Estremoz da autoria da barrista Isabel Catarrilhas Pires (1955-….). Representa Jorge Sampaio na sua condição de Presidente da República, sentado à secretária no seu gabinete. Tem à sua esquerda a Constituição da República Portuguesa que jurou “defender, cumprir e fazer cumprir”. Tem à sua direita a Bandeira Nacional, “símbolo da soberania da República, da independência, da unidade e integridade de Portugal”.
A decoração do Boneco foi efectuada com castanho, preto, vermelho, verde e amarelo, com predominância de cores neutras (castanho e preto), o que confere uma certa solenidade e mesmo austeridade à representação.
Trata-se de uma figura que visava assinalar a eleição de Jorge Sampaio para o seu segundo mandato como Presidente da República (2001-2006).
A manufactura do Boneco foi de iniciativa do Professor Brito Vintém, que segundo a barrista Isabel Pires, em Outubro de 2001 o ofereceu a Jorge Sampaio para o Museu da Presidência da República.



Jorge Sampaio (2001). Isabel Catarrilhas Pires (1955-...)

Publicado inicialmente a 14 de Setembro de 2021

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

1961 - O Princípio do Fim

 

REDONDO - Prato Falante com a inscrição "Recordação de 1961".
Prato covo de grandes dimensões. Esgrafitado e pintado.


Prólogo

Ao inventariar mais um prato da minha colecção de cerâmica de Redondo, constatei que à semelhança de outros, integrava o sub-grupo da Cerâmica Falante, visto incluir uma inscrição: “Recordação de 1961”.
Tal inscrição deu-me que pensar. Porquê 1961? Porquê este ano e não outro? Que aconteceu de especial em Portugal no ano de 1961? Para procurar resposta a esta questão, consultei as efemérides de 1961 em múltiplas fontes. Do fruto desse trabalho dou conta seguidamente.

Efemérides de 1961
As efemérides do ano de 1961 que têm a ver com Portugal são as seguintes:
21 DE JANEIRO - O paquete Santa Maria foi tomado de assalto por um comando liderado pelo então capitão Henrique Galvão. A operação visava desencadear um golpe de Estado capaz de derrubar o regime de Salazar.
4 DE FEVEREIRO – Tem início a guerra colonial quando um grupo de cerca de 200 angolanos, afectos ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), atacou a Casa de Reclusão Militar, em Luanda, a Cadeia da 7.ª Esquadra da Polícia, a sede dos CTT e a Emissora Nacional de Angola.
20 DE FEVEREIRO – A Libéria com o apoio de três dezenas de Estados africanos e asiáticos, requere uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, para adoptar medidas imediatas, visando impedir que os direitos humanos continuem a ser violados em Angola.
15 DE MARÇO – É aprovada uma moção do Conselho de Segurança da ONU a condenar a situação em Angola, a qual é votada favoravelmente pelos Estados Unidos e pela União Soviética.
25 DE MARÇO – A UPA (União das Populações de Angola) inicia a sua luta armada no norte de Angola, nomeadamente no concelho do Uíge, estendendo-se posteriormente para o sul, até à actual província de Bengo.
4 DE ABRIL - A Assembleia-Geral da ONU aprova uma moção a favor da autodeterminação de Angola.
13 DE ABRIL – O Ministro da Defesa, general Botelho Moniz, lidera as chefias das Forças Armadas numa tentativa fracassada de golpe de Estado, destinado a exonerar Salazar e a promover a reforma do Estado Novo.
20 DE ABRIL - A Assembleia Geral da ONU aprova, por 73 votos contra 2 (Portugal e África do Sul) e 9 abstenções (entre as quais, do Brasil, França e Reino Unido), a resolução 1603 (xv), incitando o governo português a promover urgentemente reformas que dessem cumprimento à Declaração Anticolonialista, tendo em devida conta os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
9 DE JUNHO – Através da resolução 163, o Conselho de Segurança da ONU apela para Portugal desistir de medidas repressivas em Angola e manifesta a esperança de que será encontrada uma solução pacífica para o conflito.
10 DE NOVEMBRO - Tem lugar a operação Vagô, no decurso da qual Palma Inácio, acompanhado de outros revolucionários, desvia um avião da TAP da carreira Casa Blanca – Lisboa e com ele sobrevoa a baixa altitude, Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, lançando cerca de 100 mil panfletos com apelos à revolta popular contra a ditadura. A operação salda-se por um êxito, já que o avião regressa incólume a Casa Blanca, sem que os caças da FAP consigam interceptar o avião.
18 DE DEZEMBRO – Chega ao fim o domínio português de mais de 450 anos na Índia, quando as tropas indianas entram em Goa, Damão e Diu, quase sem resistência.
31 DE DEZEMBRO – Na noite da passagem de ano de 1961 para 1962, tem lugar a gorada Revolta de Beja, tentativa de golpe civil e militar, que sob o comando do então capitão Varela Gomes, procurava derrubar o regime de Salazar a partir do assalto e ocupação do quartel do Regimento de Infantaria N.º 3, em Beja.

Epílogo
Em Portugal, o ano de 1961 ficou assinalado por diversos acontecimentos, através dos quais o regime de Salazar se vê confrontado com ameaças em múltiplas frentes, ainda que o governo tenha conseguido dar resposta à maioria dos problemas.
A sucessão de acontecimentos criou nas hostes oposicionistas a convicção de que o regime de Salazar tinha os dias contados. Tratou se de uma ilusão, já que o regime só seria derrubado 13 anos depois, com o golpe militar de 25 de Abril de 1974. Todavia, o ano de 1961, considerado por muitos o “horribilis annus” para a ditadura de Salazar, marca o princípio do fim do Estado Novo. Daí não ser despropositado admitir que a inscrição “Recordação de 1961” inserida no prato, visasse perpetuar como memória futura, o que de extraordinário aconteceu nesse ano em Portugal.
Publicado inicialmente a 13 de Setembro de 2021

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Os assobios de Carlos Alves

 

Assobios. Carlos Alves.

Intróito
Tirando o cesto de ovos e a galinha no choco, estão todos a cantar de galo. Oh que grande barulheira! Parece que os assobios assobiam como deve ser e tudo. O que nem sempre acontece, pois já os tenho ouvido roufenhos.
Parabéns pelo concerto galináceo e pelo desconserto causado pela beleza ostentada pelos animais de penas. Oh que pena que tenho de não ter ainda um assobio destes. Não fosse andar depenado e ele já cá cantaria. Perdão, assobiaria.

Marcas identitárias muito próprias
Uma análise pormenorizada dos assobios de Carlos Alves, revela que eles têm de comum as seguintes características: - Base de forma cilíndrica, com topo de cor castanho claro e orla em vermelhão; - Topo da base decorado com grupos de pintas nas cores: rosa, laranja, branco, amarelo e verde; - Tubo de sopro de forma cilíndrica, ligeiramente cravado na base e dirigido segundo o raio da base do cilindro, até ao centro. O tubo de sopro é de cor castanha clara com a extremidade na cor do barro. Resumindo: os assobios de Carlos Alves apresentam marcas identitárias muito próprias que os levam a diferenciar dos assobios dos demais barristas, o que é de louvar. Isto associado a uma modelação perfeita e a uma decoração muito agradável, torna-os muito apelativos, o que se salienta com agrado.

Publicado inicialmente a 9 de Setembro de 2021

Cesto de ovos.

Galinha no choco.

Galo.

Galo.

Galo no tronco.

Calo na árvore.

Galo no arco.

Galo no poleiro.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Estremoz e o Feriado Municipal



A 31 de Agosto de 2021, completaram-se 95 anos sobre a elevação de Estremoz à categoria de cidade, na sequência do Decreto n.º 12.227, publicado no Diário do Governo desse dia.

Dia da Cidade
Seria expectável que a 31 DE AGOSTO de cada ano, fosse comemorado o DIA DA CIDADE, assinalado como Feriado Municipal, por ter sido nesse dia que a "Notável Villa de Estremoz" foi objecto de ELEVAÇÃO à categoria de CIDADE.
Todavia tal não acontece e o Dia da Cidade é assinalado com Feriado Municipal na Quinta-Feira da Ascensão e Dia da Espiga, data móvel do calendário litúrgico, importante para os cristãos e que ocorre no quadragésimo dia após a ressurreição de Jesus, assinalando a sua Ascenção (Elevação) ao Céu.
Apesar de toda a respeitabilidade de que é merecedora a efeméride religiosa, isso não justifica de modo algum que a data seja considerada Dia da Cidade e Feriado Municipal, em detrimento da data de 31 de Agosto, em que Estremoz ascendeu e muito bem à categoria de cidade.

O seu a seu dono
Perante a dúvida que possa surgir nalguns espíritos, creio ser aqui aplicável a sentença latina “Redde Cæsari quæ sunt Cæsaris, quæ sunt Dei, Deo”, cujo significado é “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. Trata-se de uma frase atribuída a Jesus nos evangelhos sinópticos (Mateus 22:21), Marcos 12 (Marcos 12:17) e Lucas 20 (Lucas 20:25), quando lhe perguntaram se devia pagar o tributo a César e cujo sentido é: “Dê-se a cada um aquilo a que tem direito”.
A meu ver, a comemoração da Ascensão de Jesus ao céu, é de âmbito cristão. Pelo contrário, a comemoração da elevação de Estremoz à categoria de cidade, é do foro cidadão. Dito por outras palavras: “A cada um o que é seu” (“Unicuique suum”).

Uma sugestão
Creio que que o Executivo Municipal saído das eleições autárquicas do próximo dia 26 de Setembro, poderia e deveria reflectir sobre este assunto. Aqui fica a sugestão.

Publicado inicialmente a 1 de Setembro de 2021




 

sábado, 21 de agosto de 2021

Hernâni Matos

 

Filomena Barata. Arqueóloga.


Homem, alentejano, determinado.  Conhecedor, melhor, sabedor do seu território, do nosso, que divulga como ninguém. Homem de convicções que não foge a defendê-las, não se esconde em ondas turvas, mas respira de peito aberto para o amanhã.

Filomena Barata
Lisboa, 19 de Agosto de 2021 

Hernâni Matos

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Imortalidade sempre! Aniversário nunca mais!





Todos sabemos que 1+2 dá 3 e que de igual maneira, 2+1 também dá 3. Os matemáticos chamam a isto, propriedade comutativa da adição de números. Porém, não generalize o leitor. Há operações que não gozam da propriedade comutativa. Assim, por exemplo, a operação “calçar o vestuário do pé” conduz a um resultado que é diferente, conforme se calçar primeiro a meia e depois o sapato ou, se pelo contrário, se calçar primeiro o sapato e só depois a meia.
Vem isto a propósito de eu fazer hoje 75 anos, número composto dos algarismos 7 e 5, que somados dão 12, noves fora 3. Ora, a imagem espelhada do número 75 é o número 57, composto igualmente pelos algarismos 5 e 7, que somados dão 12, noves fora 3. Apesar desta coincidência, a operação “ordenar números”, não goza da propriedade comutativa. Na verdade, pôr o 7 antes do 5, não é o mesmo que pôr o 5 antes do 7. Quer isto dizer, que com 75 anos estou mais velho que com 57. Ora eu não quero envelhecer. Que fazer então? Tenho que deixar de fazer anos, senão envelheço. Por isso, hoje vou deixar de fazer anos, para não ficar mais velho. Assim, torno-me imortal. Os amigos não precisam de ir ao meu velório, o que é bom para eles, já que me têm aturado quanto baste. Além disso, a família não gasta dinheiro nas exéquias, o que se traduz em poupança. Por outro lado, como não vou parar ao forno crematório, contribuo para a diminuição da poluição atmosférica.
Se eu ficasse mais velho, acabaria por morrer, o que me recuso determinantemente. Todavia, se for contrariado neste meu propósito, mesmo morto hei-de me mexer dentro do caixão, em sinal de protesto. E essa será, porventura, a melhor partida que um velho gaiteiro pode pregar aos gatos-pingados que lhe carregam o ataúde. Talvez se caguem todos de medo e larguem a urna para o chão. Nesta altura, soltar-se-á a tampa do féretro, eu aproveito para ressuscitar e de punho direito erguido, gritarei:
- IMORTALIDADE SEMPRE! ANIVERSÁRIO NUNCA MAIS!