quinta-feira, 9 de julho de 2015

Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial


Mosaico: ULISSES. Datação: Época Romana.

Todas as imagens aqui apresentadas se referem a espólio recolhido na
Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial e que se encontra
depositado no Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa.


Na sua reunião de 17 de Junho passado, a Câmara Municipal de Estremoz deliberou por unanimidade, aprovar a celebração de um Contrato Interadministrativo de Delegação de Competências entre o Município e aPresidência do Conselho de Ministros, que tem por objecto a delegação de competências da Secretaria de Estado da Cultura no Município para a transferência da titularidade do património, relativo à Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial (Sítio Arqueológico de Santa Vitória do Ameixial –ruínas romanas) e ao Castelo de Evoramonte – fortificações, com excepção da Torre do Paço do Castelo, que se mantém património dependente da Direcção Regional de Cultura do Alentejo. A deliberação da Câmara foi ratificada por unanimidade na reunião da Assembleia Municipal de Estremoz, realizada no passado dia 26 de Junho.
Congratulo-me com esta unanimidade, a qual era esperada, dado a importância do assunto e o facto de o mesmo não ser fracturante. De salientar que a transferência de competências é acompanhada da transferência de recursos.

A Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial
A descoberta da Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial ocorreu na sequência de trabalhos de exploração de uma pedreira na aldeia de Santa Vitória. O proprietário dos terrenos comunicou o facto ao director do Museu Etnológico Português, José Leite de Vasconcelos (1858-1941), que enviou o conservador do Museu, Luis Chaves (1888-1975), para proceder a escavações, o que ocorreu em 1915 e 1916. A publicação dos resultados só viria a ocorrer bastante mais tarde, no volume 30 da 1ª série de “O Arqueólogo Português”, de 1938. Tratava-se de uma Villa lusitano-romana, de grande proprietário, senhor das terras que a circundavam e que terá sido construída entre finais do século I e inícios do IV, no contexto da Romanização da Península Ibérica, estando inserida na província da Lusitânia, cuja capital se situava em Mérida (Emerita Augusta).
Luis Chaves escavou parte dessa Villa, que se encontrava já muito destruída, pelo saque a que vinha sendo sujeita pela população local, para a recuperação e reaproveitamento dos materiais de construção, nomeadamente a pedra. Luís Chaves pôs então a descoberto o peristilo da residência senhorial e as termas, ambas com notáveis pavimentos de mosaico, num total de 13. Para além dos mosaicos, o espólio recolhido no local e transportado para Lisboa, onde se encontra depositado no Museu Nacional de Arqueologia, integra ainda importantes vestígios de escultura de vulto e escultura arquitectónica, materiais de construção, utensílios variados, loiças domésticas, vidros variados, vasos de bronze, adornos femininos de ouro e osso, jogos, anéis de metal ou de vidro e o rico tesouro de 3000 moedas.
A Villa terá tido uma primeira ocupação no séc. I, como é documentado pelo aparecimento de uma moeda de Nero e cerâmica datada deste período. No entanto, a ocupação mais significativa, em termos de vestígios materiais, é já do Baixo-império (finais do séc. III - inícios do séc. IV).
As escavações foram posteriormente retomadas entre 1970 e 1980.
Nas condições do contrato agora celebrado entre a Câmara Municipal de Estremoz e a Secretaria de Estado da Cultura, está prevista a conservação, segurança e reabilitação de estruturas. Não se sabe é se as escavações vão ou não prosseguir.

Centro Interpretativo da Villa
A meu ver torna-se necessário a construção no local de um “Centro Interpretativo da Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial”, à semelhança do que se passa em Miróbriga, visando permitir o desenvolvimento de uma oferta turística de base cultural, com envolvimento da comunidade local. Santa Vitória precisa de turismo, como um pobre de pão para a boca.

Retorno ao local do espólio recolhido
Actualmente, a legislação sobre património proíbe a deslocalização do mesmo, o que não acontecia na época das primeiras escavações. Todavia, se houver sensibilidade da parte da Secretaria de Estado da Cultura, visando ampliar e aprofundar o protocolo actual, há que promover o retorno ao local do espólio então recolhido. De contrário, parafraseando Jerónimo de Sousa, é caso para dizer:
- DÃO-NOS OS OSSOS E FICAM COM OS BIFES DE LOMBO!   

Texto publicado inicialmente em 9 de Julho de 2015

BIBLIOGRAFIA
- CHAVES, Luís - "Latifúndios de Romanos no Alentejo. Uma “villa” romana". Separata do Boletim da Associação Central da Agricultura Portuguesa, nº4. Lisboa, Abril de 1922.


Mosaico: AS ESTAÇÔES DO ANO. Datação: Época Romana.
 Mosaico: O VENTO EURUS.
Mosaico: JÚPITER TOCADO POR UMA SETA DO CUPIDO.
Mosaico: COROAÇÃO DO ATLETA VENCEDOR NO DITIRAMBO EM JOGOS
DIONISÍACOS.
Carranca fontanária em mármore. Séc. II – Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 27,2; largura: 21,3; espessura: 13,5.
Estátua de Inverno. Escultura em mármore. Séc. II - Época Romana.
Dimensões (cm): altura: 48; largura: 62; espessura: 28.
Guarnição parietal em mármore. Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 26,5; largura: 41; espessura: 5.
Jarro de cerâmica comum. Época Romana. Dimensões (cm): altura: 17,9;
diâmetro: 13,5.
Pote de cerâmica comum. Datação: Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 10,8; diâmetro: 14,5.
Pote de cerâmica comum. Dimensões (cm): altura: 16,5; espessura: 0,6;
diâmetro: 14,7. Datação: Época Romana.
Peso de tear em barro. Dimensões (cm): altura: 11; largura: 7,3.
Datação: Época Romana.
Lucerna de 1 bico, em barro. Fabrico por molde. Dimensões (cm):
largura: 4,7; comprimento: 7,1. Datação: III d.C. - IV d.C. - Época Romana.
Lucerna de dois bicos, em barro. Fabrico por molde, Dimensões (cm):
altura: 5,1; diâmetro: 7,9; comprimento: 11.Datação: Época Romana.
Lucerna em ferro. Dimensões (cm): altura: 2,2; largura: 6,7; comprimento:
10,6. Datação: Época Romana.
Ralo de canalização. Séc. II - Época Romana. Fundição em chumbo.
Dimensões (cm): altura: 27,5; largura: 15; espessura: 9,8.
Manilha em chumbo. Séc. II – Época Romana. Dimensões (cm): altura: 9,5;
largura: 10;  comprimento: 47.
Torneira de distribuição. Séc II -  Época Romana. Fundição em bronze.
Sega. Ferro fundido. Época Romana. Dimensões (cm): comprimento: 22,5.
Machado de ferro. Dimensões (cm): largura: 5,6; comprimento: 19,8. Datação:
Época Romana.
Martelo em ferro. Dimensões (cm): comprimento: 12,3. Datação: Época Romana.
Enxó em ferro. Dimensões (cm): diâmetro: 8,8; comprimento: 13,2. Datação:
Época Romana.
Alvião em ferro. Dimensões (cm): comprimento: 19,9. Datação: Época Romana.
Armela de asa de sítula. Bronze fundido em molde. Época Romana.
Dimensões (cm): altura: 7,2; largura: 7; espessura: 0,5.
Argola de bronze, de secção circular e aro circular fechado. Dimensões (cm):
espessura: 0,8; diâmetro: 4,2. Datação: Época Romana.
Tripé de bronze composto por argola circular achatada e três pés de apoio.
Dimensões (cm): diâmetro: 7,1. Datação: Época Romana.
Fíbula de bronze. Dimensões (cm): altura: 3,1; comprimento: 8,6. Datação:
Época Romana.
Elemento decorativo de um carro, em bronze. Datação: Época Romana.
Dimensões: 10,8 x 6,7 cm.
Anel de bronze. Dimensões (cm): diâmetro: 1,7. Datação: Época Romana.
Alfinete de cabelo, em osso. Dimensões (cm): espessura: 0,3; comprimento: 5,7.
Datação: Época Romana.
Bracelete em ouro martelado. Datação: Século I d.C. Dimensões (mm):
Diâmetro: 68; Espessura: 2 mm. Peso (g): 10,6 g.
Boneca de osso. Época Romana. Técnica: Talhe, polimento e incisão.
Dimensões (cm): altura: 11,3; largura: 1,5; espessura: 0,7.
Instrumento cirúrgico – Sonda em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,75;
comprimento: 11.77. Datação: Época Romana.
Moeda de Arcádio. Centro de Fabrico: Nicomedia. Datação: 393 d.C. - 395 d.C.
- Época Romana. Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,2; diâmetro: 2.
Moeda de Honorius. Datação: 393 d.C. - 395 d.C. - Época Romana.
Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,2.
Moeda de Adriano. Datação: 117 d.C. - 135 d.C. - Época Romana.
Cunhada em Bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,3; diâmetro: 3,3;
Moeda de Trajano Decius. Datação: Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,3; diâmetro: 2,7.
Moeda de Magno Máximo. Centro de Fabrico: Lugdunum (Lyons, França).
Datação: 383 d.C. - 388 d.C. - Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,4.
Moeda de Theodosius. Centro de Fabrico: Nicomedia. Datação:
392 d.C. - 395 d.C. - Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,1.
Moeda de Maximinus. Centro de fabrico. Roma. Datação: 235 d.C. - 236 d.C.
- Época Romana. Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,3;
diâmetro: 2,5.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

29 - Santa Catarina de Alexandria, Virgem e Mártir

Santa Catarina de Alexandria.
Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Hernâni Matos.

De acordo com a lenda, Catarina era filha do rei Costes de Alexandria, cidade onde nasceu no ano de 288. Após a morte do pai, emigrou com a mãe para a Cilícia e converteu-se ao cristianismo, sendo instruída na fé cristã por um eremita de nome Ananias, que a baptizou e lhe prometeu o mais formoso dos noivos.
Aos 12 anos teve um sonho no qual lhe apareceu o menino Jesus nos braços da Virgem e que lhe disse que ela seria a sua noiva e que não deveria entregar-se a nenhum homem. Colocou-lhe então no dedo, o anel de casamento, que ela descobriu ao acordar.
Catarina estudou filosofia, teologia e outras ciências, sendo dotada de uma inteligência superior e de singular beleza.   
Nessa época, Maximino II, Imperador de Alexandria, perseguia os cristãos. Catarina, então com 17 anos, censurou o opressor pela sua crueldade e procurou convencê-lo a abandonar o culto pagão.  Incapaz de refutar os argumentos da jovem, o imperador mandou chamar cinquenta filósofos para discutirem com ela. No confronto verbal, ela conseguiu demolir os seus argumentos e convertê-los ao cristianismo, pelo que foram mandados queimar vivos pelo déspota.
Surpreendido com o êxito da jovem e encantado pela sua beleza, o imperador procurou ganhar a sua simpatia, visando levá-la a abandonar o cristianismo. Para tal, prometeu elevá-la à dignidade de Imperatriz, o que ela rejeitou, visto que estava casada misticamente com Jesus. Foi então encarcerada e alvo de flagelações e de privações. Na prisão recebeu a visita da Imperatriz, acompanhada de escolta militar, tendo-se convertido todos ao cristianismo. Tal circunstância reforçou a fúria do tirano, que ordenou que Catarina fosse colocada sobre uma roda com lâminas cortantes e ferros pontiagudos. Quando lhe tocou, a roda desconjuntou-se e ela saiu ilesa, enquanto que alguns dos espectadores foram mortos por fagulhas, o que causou espanto entre os presentes e determinou a conversão de alguns.
Maximino deu então ordem para que Catarina fosse decapitada no dia 25 de Novembro de 307. A jovem recebeu alegremente a sentença, louvando o dia que lhe ia proporcionar a maior das venturas: a união com Jesus. Ainda segundo a lenda, quando lhe cortaram a cabeça, em vez de sangue, jorrou leite.
Por ter sido torturada na roda, é padroeira de todos os que trabalham com rodas: oleiros, torneiros, amoladores, carpinteiros e curtidores. Pela sua sabedoria, é invocada como protectora por estudantes e intelectuais. É também padroeira das mães que desejam ter leite para amamentar os filhos.   Os seus atributos são a roda de tortura, a palma de mártir, a espada, o anel e o livro. A  sua festa litúrgica tem lugar a 25 de Novembro e foi incluída no calendário litúrgico pelo Papa João XXII (1249-1334).
Santa Catarina está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário temos “De Santa Catarina ao Natal, um mês igual”. A nível de cancioneiro popular alentejano, conhece-se entre outras a seguinte quadra: “Senhora Santa Cath'rina,/ Minha santinha de prata,/ De vagar se vae ao longe,/ Muito tolo é quem se mata.”

Publicado inicialmente a 8 de Julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Companheiros de estrada

O passeio de domingo (1841).
Carl Spitzweg (1808-1885).
Óleo sobre tela (28 x 34 cm).
Museum Carolino Augusteum, Salzburg.

Em 7 de Maio do ano passado, publiquei no meu blogue, um texto intitulado “Companheiros de estrada”, que diz o seguinte:É bem conhecida a minha postura perante o mundo e a vida, bem como a capacidade de trilhar caminhos com quem pensa de maneira distinta da minha. São aqueles a quem chamo os companheiros de estrada. Naturalmente que aquilo que consigo caminhar com cada um deles é diferente, porque eles são diferentes entre si e ninguém pode impor passos a outro.
Sou um homem livre, sem peias nem albardas no pensamento. Não sigo cartilhas, sejam elas da Rua da Palma, da Soeiro Pereira Gomes, do Largo do Rato, da Rua de S. Caetano ou do Largo do Caldas. Sou um franco-atirador, como gosto de dizer. Prezo muito a amizade e lidar com pessoas com carácter. São factores que para mim, valem mais que quaisquer interesses político-partidários e não se veja aqui da minha parte qualquer formulação axiomática contra os partidos, os quais considero pilares da democracia. Veja-se sim a importância que atribuo à amizade e ao carácter das pessoas. Para mim, a palavra é sagrada e os compromissos assumidos devem ser respeitados. Não se pode fazer como alguns miúdos que quando estão a perder, mudam as regras do jogo. Isso é falta de carácter e ao proceder assim, quem o faz perde credibilidade e fiabilidade em acordos futuros. Quando um companheiro de estrada me impõe passos que eu não queria dar, termina o companheirismo de estrada. Sabem porquê? “Gato escaldado, de água fria tem medo””.
Foi na qualidade de companheiro de estrada que fui convidado a integrar o Conselho Consultivo Independente da Federação de Évora do PS, tido como “um espaço de diálogo político e de auscultação da sociedade civil”, “constituído por cidadãos independentes de reconhecido mérito social, residentes ou naturais de todos os concelhos do Distrito de Évora”. São atribuições do Conselho: “Receber informação sobre as propostas do PS e sobre todos os demais aspectos da vida política nacional, regional e local onde o PS intervenha; - Emitir opinião sobre assuntos relevantes, prioritariamente para o distrito, e, ou, para cada um dos seu municípios, que podem revestir a forma de recomendações formais aos órgãos do PS, aos seus autarcas e aos seus deputados”.
A tomada de posse do Conselho foi conferida pelo Presidente do PS, Carlos César, e teve lugar no passado sábado, 30 de Maio, no Hotel Vila Galé, em Évora. Seguiu-se a discussão e emissão de parecer sobre o projecto de programa eleitoral para o distrito de Évora, intitulado "20 Prioridades para a Próxima Legislatura". Houve um debate vivo e mutuamente enriquecedor. O documento apresentado reuniu na sua generalidade o consenso de todos os conselheiros, tendo sido dadas sugestões de melhoria do documento base à Comissão Política Distrital do PS, visando a sua integração na proposta final.
As “20 Prioridades para a Próxima Legislatura" são medidas que os deputados do PS, eleitos pelo Círculo Eleitoral de Évora para a próxima Legislatura, assumem o compromisso de defender perante a população do distrito. Creio que o farão. Se não fizerem, têm aqui um amigo à perna.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade - I


Fotografia recolhida em  www.oribatejo.pt


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As touradas
Quando era miúdo, o meu avô Manuel Alturas, ferroviário aposentado, republicano e amante da Festa Brava, levava-me aos touros e comprava rebuçados que comíamos durante a corrida. Eu ficava encantado com o ritual das cortesias e o evoluir elegante do ginete de Mestre João Branco Núncio, a quem os mais velhos chamavam “O Califa de Alcácer”.
Quando ia às touradas usava calças de cós alto e jaqueta que o meu pai, alfaiate de lavradores e de toureiros, confeccionara para mim. Um pequeno chapéu à Mazantino completava os meus adereços. Desse tempo, guardo como relíquia, a minúscula jaqueta que levava às touradas.
O cavalinho de pau
Nos anos cinquenta do século passado, eram frequentes, em Estremoz, o carro de tracção animal, os trens e as caleches, bem como o próprio acto de montar a cavalo. Natural era, pois, que eu, habilitado com as asas da minha imaginação, sonhasse em ser cavaleiro. E fazia-o, brincando com o meu cavalinho de pau, o qual durante muito tempo foi a vassoura de cabo alto, lá de casa.
Nas minhas cavalgadas, fazia como o “Califa de Alcácer”. Por vezes mudava de montada e passava a cavalgar a cana de caiar.
Certo dia, a minha mãe, farta das minhas traquinadas com os utensílios domésticos, acabou por me comprar um cavalinho de pau, mesmo a sério, com cabeça de cavalo, crinas, arreios e tudo. E logo que o estreei, como ele não dizia nada, com todo o meu contentamento fui eu próprio que relinchei por ele, o que emprestou mais realismo à minha representação. E sabem que mais? Quando montava o meu corcel, usava sempre um barrete feito de papel de jornal, que o meu avô me ensinara a fazer numa tourada, quando me esqueci de levar o meu chapéu à Mazantina.
O meu barrete de papel era um acessório importante. Quando fazia de militar a cavalo, usava o barrete posto de trás para diante e uma espada de madeira presa no cinto das calças. Já quando era cavaleiro tauromáquico, punha o barrete de papel atravessado na cabeça e usava um pau a fazer de farpa. Mas nada de usar jaqueta ou chapéu à Mazantina, porque isso era só nos dias de festa.
As minhas representações equestres eram diversificadas, iam do trote ao galope, passando pelo volteio. Nelas, na minha imaginação, eu era sempre um garboso cavaleiro montado num puro-sangue de Alter, que cavalgava horas a fio no Largo do Espírito Santo. Acontecia às vezes que uma tourada ficava a meio do seu curso ou, o que era bem pior, não conseguia concretizar uma carga de cavalaria. Sabem porquê? É que a minha mãe aparecia à janela a gritar:
- “Hernâni anda para a mesa, que são horas de comer!”
E eu não resistia à chamada, porque com tanta cavalgada, já tinha a barriga a dar horas.
Aficionado de gema
Como devem ter percebido, aprendi a gostar de touradas como o meu avô e ainda hoje sou aficionado. Reconheço que as touradas estão muito para além do mundo taurino: ganadeiros, campinos, forcadagem, cavaleiros, toureiros, bandarilheiros, apoderados e empresários. É minha firme convicção que as touradas estão na massa do sangue do Zé Povinho e integram a Cultura Popular deste país. Daí que tal como os chocalhos de Alcáçovas devam ser candidatadas a Património Cultural Imaterial da Humanidade. É caso para dizer:
- MÃOS À OBRA!
Todavia, há por aí pessoas que não gostam de touradas e que fazem campanha contra elas. Provavelmente irão atirar-se a mim, como gato a bofe. Lembro-lhes que as touradas são um espectáculo legal e que ninguém é obrigado a ir lá, tal como à missa ou ao futebol. O resto são filmes que se passam na cabeça deles. O que vale é que como nos diz o rifoneiro popular:
- VOZES DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU.     


Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 

Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 

Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 

 Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 

Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 

 Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 

Fotografia recolhida em http://corridatouros.blogspot.pt/

segunda-feira, 29 de junho de 2015

28 - O meu amigo José Moreira

 José Moreira (1926-1991).
Fotografia de Joaquim Vermelho (1927-2002), cedida bela Biblioteca
Municipal  de Estremoz / Arquivo Fotográfico.

Conheci José Moreira (1926-1991) aí pelos anos cinquenta do século passado, quando comecei a fazer o avio para a casa dos meus pais, na mercearia Luiz Campos, no Largo General Graça, em Estremoz. José Moreira era também cliente e ali nos víamos muitas vezes. Mais tarde, nos anos sessenta, encontrávamo-nos no bar da Mocidade Portuguesa, por ocasião dos santos populares e ali bebíamos uns copos com o António Lapa do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa e com o menino Cigano. José Moreira era um bom conversador e tinha costela de filósofo. Era agradável conviver e falar com ele.
José Moreira teve uma infância difícil. Filho ilegítimo de Felicidade Moreira e de pai incógnito, quando a mãe morreu ficou sem casa e vivia num buraco da muralha. Daí a alcunha de “Zé do telhado”. Foi Ti Ana das Peles, que o recolheu em casa após a morte da mãe, quando ainda era criança. Com ela aprendeu a arte bonequeira. De resto, aprendeu a modelar o barro na Olaria de Mestre Cassiano, na Rua do Afã, onde ingressou aos 11 anos de idade. Aos 18 muda para a Olaria Alfacinha, na Rua de Santo Antonico, onde trabalhou cerca de 8 anos com José Ourelo. Dali viria a sair nos anos 50, para se dedicar exclusivamente à manufactura de figurado de Estremoz
As marcas de autor de José Moreira são de cinco tipos: Tipo 1 - Carimbo ESTREMOZ/PORTUGAL, com a marca distribuída por 2 linhas e ocupando uma superfície de 2,5 cm x 1,3 cm; Tipo 2 – Marca manuscrita  J.M. , seguida do carimbo ESTREMOZ/PORTUGAL, com a marca distribuída por 2 linhas e ocupando uma superfície de 2,5 cm x 1,3 cm; Tipo 3 - Carimbo ESTREMOZ/ALENTEJO/PORTUGAL, com a marca distribuída por 3 linhas e ocupando uma superfície de 2,5 cm x 3 cm; Tipo 4 - Marca manuscrita J.M. conjugada com o carimbo ESTREMOZ/ALENTEJO/PORTUGAL, com a marca distribuída por 3 linhas e ocupando uma superfície de 2,5 cm x 3 cm. Desta marca aparecem 3 variedades: Tipo 4 a - A marca manuscrita e o carimbo são simétricos em relação a um eixo horizontal; Tipo 4 b – A marca manuscrita aparece primeiro e por baixo dela o carimbo; Tipo 4 c – O carimbo aparece primeiro e por debaixo dele a marca manuscrita; Tipo 5 – Marca manuscrita J.M.
A patine dos 38 exemplares da minha colecção, leva-me por uma questão de “feeling”, a acreditar que o carimbo ESTREMOZ/PORTUGAL, tenha antecedido o carimbo ESTREMOZ/ALENTEJO/PORTUGAL. O mesmo “feeling” leva-me a acreditar que a marca manuscrita era por vezes gravada, por uma questão de afirmação da identidade do barrista. A marca tipo 4 a é a mais frequente. A marca 5 parece ser exclusiva de figuras com menor base, como os apitos e os cestos com galinha no choco. Para além das marcas apontadas, tenho uma peça – um cinzeiro – sem marca alguma.
Frequentador dos Salões de Artesanato do Estoril, do Mercado da Primavera em Lisboa e da Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, por diversas vezes premiado, foi um embaixador da barrística popular estremocense. Os seus bonecos, muito expressivos e por isso muito apreciados, estão espalhados não só de Norte a Sul do país, como também nas Ilhas e mesmo pelas Sete Partidas do Mundo.


 Jesus amarrado a um cepo. Colecção particular.
 Senhor dos Passos. Colecção particular.
 São João Baptista. Colecção particular.
 Sargento. Colecção particular.
Barbeiro sangrador. Colecção particular.
 
 Matança. Colecção particular
 
 Pastor das migas. Colecção particular.
Primavera. Colecção particular.
 Bailadeira grande. Colecção particular.
 Galinha no choco. Colecção particular.
 Galo no pinheiro. Colecção particular.
 Marca de autor Tipo 1.
 Marca de autor Tipo 2.
 Marca de autor Tipo 3.
 Marca de autor Tipo 4a.
 Marca de autor Tipo 4b.
 Marca de autor Tipo 4c.
Marca de autor Tipo 5.

domingo, 28 de junho de 2015

Município de Estremoz e Comissão Nacional da Unesco assinaram protocolo


Transcrevo com regozijo e com a devida vénia,
a Notícia do Município de Estremoz, nº 2057,
de 26 de Junho de 2015.
  
Decorreu hoje, dia 26 de Junho, a inauguração da nova exposição permanente do Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho e foi assinado o Protocolo de Cooperação entre a Comissão Nacional da UNESCO e o Município de Estremoz, para a criação do Centro UNESCO para a Valorização eSalvaguarda do Boneco de Estremoz.
A representar a Comissão Nacional da UNESCO esteve presente o Ministro plenipotenciário Jorge Lobo de Mesquita, Embaixador da Comissão Nacional da UNESCO, que agradeceu ao Presidente da Câmara, Luís Mourinha, pelo bom trabalho até aqui desenvolvido, acrescentando que com a criação deste Centro, os Bonecos de Estremoz serão ainda mais divulgados, valorizados e reconhecidos não só a nível regional, mas também nacional e internacionalmente.
O Presidente da Câmara, Luís Mourinha, após a assinatura do referido protocolo falou da importância do Centro, como sendo mais um passo, para a salvaguarda do Figurado de Estremoz, entregando ao Embaixador um “Amor é Cego”, como representante da riqueza patrimonial que são os Bonecos de Estremoz.
Após a assinatura do documento, foi feita uma visita guiada ao Museu Municipal, que foi renovado nas salas dos Bonecos de Estremoz e Arte Popular e criado um novo espaço dedicado à Faiança de Estremoz.