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sexta-feira, 23 de março de 2012

A Primavera na Pintura Universal


Primavera (Finais do séc. XIV). Iluminura de mestre desconhecido, pertencente
ao “Tacuinum Sanitatis”, livro medieval sobre o bem-estar, com base no Taqwin al
sihha تقوين الصحة ("Quadros de Saúde"), tratado do século XI da autoria do médico
árabe Ibn Butlan de Bagdad, o qual pertence à Biblioteca Casanatense, em Roma.


A Primavera é o tema central de obras de grandes mestres da pintura universal, dos quais destacamos, associados por épocas/correntes de pintura:
- IDADE MÉDIA: Giotto di Bondone (1267-1337), italiano; autor desconhecido (Finais do séc. XIV).
- RENASCENÇA: Sandro Botticelli (1445-1510), italiano; Agnolo Bronzino (1503-1572), italiano.
- MANEIRISMO: Jacob Grimmer (1525-1590), flamengo; Giuseppe Arcimboldo (1526-1593), italiano; Tintoretto (1518-1594), italiano; Abel Grimmer (c. 1570-c. 1619), flamengo.
- BARROCO: Lucas van Valkenborch (1566-1623), flamengo; Francesco Albani (1758-1660), italiano; Nicolas Poussin (1594–1665), francês; Rosalba Carriera (1675-1757), italiana; Pierre-Antoine Quillard (1700–1733),francês; Nicolas Lancret (1690-1743), francês; Anton Kern (1709-1747), alemão; Jacob de Wit (1695-1754), holandês.
- ROCOCÓ: Christian Bernhard Rode (1725–1797), alemão.
- ROMANTISMO: János Rombauer (1782-1849), húngaro; Adrian Ludwig Ritcher (1803-1884), alemão; Ferdinand Georg Walmüller (1793-1865), austríaco.
- REALISMO: Jean-François Millet (1814-1875), francês.
- IMPRESSIONISMO: Claude Monet (1840-1926), francês.
- SIMBOLISMO: Arnold Böcklin (1827–1901), suíço.
- ARTE NOVA: Alfons Mucha (1860–1939), checo.
- NATURALISMO: José Maria Veloso Salgado (1864-1945), português; José Malhoa (1855-1933), português.
E que nos mostram estes mestres da pintura universal?
A natureza é representada verdejante e florida.
Por vezes são retratados trabalhos agrícolas ou de jardinagem, característicos do início da estação.
As cenas são em geral iluminadas, reflectindo a claridade própria da época. Por vezes, a estação é tratada alegoricamente com recurso a uma ou mais figuras femininas enquadradas por flores, em ramos, grinaldas ou arcos.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente nem 23 de março de 2012

Lenda de São Francisco: 14. Milagre da Primavera (1297-1300).
Giotto di Bondone (1267-1337).
Fresco (270 x 200 cm).
Basílica Superior, San Francesco, Assisi.

Primavera (c. 1482).
Sandro Botticelli (1445-1510).
Tempera sobre painel (203×314 cm).
Galleria degli Uffizi, Florence.

O Milagre da Primavera (c. 1543).
Agnolo Bronzino (1503-1572).
Fresco.
Palazzo Vecchio, Florence.

Primavera (2ª metade do séc. XVI).
Jacob Grimmer (1525-1590).
Óleo sobre madeira (35,5 x 60 cm).
Szépmûvészeti Múzeum, Budapest.

Primavera (1563).
Giuseppe Arcimboldo (1526-1593).
Óleo sobre madeira de carvalho (66 x 50 cm).
Museo de la Real Academia de San Fernando, Madrid.

Primavera (c. 1564).
Tintoretto (1518-1594).
Óleo sobre tela (Diâmetro: 90 cm).
Scuola Grande di San Rocco, Venice.

Paisagem na Primavera (1587).
Lucas van Valkenborch (1566-1623)
Óleo sobre tela (116 x 198 cm).
Kunsthistorisches Museum, Vienna.

Primavera (1607).
Abel Grimmer (c. 1570-c. 1619).
Óleo sobre painel (33 x 47 cm).
Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antwerp.

Primavera - Vénus fazendo a higiene pessoal (1616-17).
Francesco Albani (1758-1660).
Óleo sobre tela (Diâmetro: 154 cm).
Galleria Borghese, Rome.

“A Primavera” ou “Adão e Eva no Paraíso” (1660-1664).
Nicolas Poussin (1594–1665).
Óleo sobre tela (117 × 160 cm).
Musée du Louvre, Paris.

Primavera (c. 1725).
Rosalba Carriera (1675-1757).
Pastel sobre papel cinzento colado em cartão (24 x 19 cm).
The Hermitage, St. Petersburg.

As Quatro Estações: Primavera (c. 1730).
Pierre-Antoine Quillard (1700–1733).
Óleo sobre tela (43 × 34 cm).
Sammlung Thyssen-Bornemisza.

Primavera (1738).
Nicolas Lancret (1690-1743).
Óleo sobre tela (69 x 68 cm).
Musée du Louvre, Paris.

Verão e Primavera (1747).
Anton Kern (1709-1747).
Óleo sobre tela (165 x 126 cm).
The Hermitage, St. Petersburg.

Alegoria das Quatro Estações – Primavera (1751-52).
Jacob de Wit (1695-1754).
Óleo sobre tela (217 x 145 cm).
Staatliche Museen, Kassel.

Alegoria da Primavera (1785).
Christian Bernhard Rode (1725–1797).
Óleo sobre tela (218 ×109 cm).
Eremitage, St. Petersburg.

Primavera (c. 1830).
János Rombauer (1782-1849).
Óleo sobre tela (46 x 36 cm).
Mestská Galeria, Presov.

Cortejo nupcial numa paisagem primaveril (1847).
Adrian Ludwig Ritcher (1803-1884).
Óleo sobre tela (93 x 150 cm).
Gemäldegalerie, Dresden.

Início da Primavera nos Bosques de Viena (1864).
Fedinand Georg Walmüller (1793-1865).
Óleo sobre tela (43 x 54 cm).
Nationalgalerie, Berlin.

Primavera (1868-73).
Jean-François Millet (1814-1875).
Óleo sobre tela (86 x 111 cm).
Musée d'Orsay, Paris.

A Primavera (1874).
Claude Monet (1840-1926).
Óleo sobre tela (57 x 80 cm).
Alte Nationalgalerie, Berlin.

Primavera (1875).
Arnold Böcklin (1827–1901).
Tempera sobre painel (60×50,5 cm).
Museum der bildenden Künste, Leipzig.

Primavera (1896).
Alfons Mucha (1860–1939).
Óleo sobre painel.
Colecção particular.

Primavera (1917).
José Maria Veloso Salgado (1864-1945).
Óleo sobre tela (108 x 160 cm).
Museu Abade de Baçal, Bragança.

Primavera (1933).
José Malhoa (1855-1933).
Pastel sobre papel (30 x 23 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Vem aí a Primavera!


Primavera de arco (Alegoria à estação homónima).
Liberdade da Conceição (1913-1990).

A Primavera é a estação do ano que sucede ao Inverno e antecede o Verão.
No hemisfério norte a Primavera tem início no equinócio de Março (20 de Março) no qual o dia e a noite têm a mesma duração na linha do equador. A cada dia que passa, a duração do dia aumenta e da noite diminui, o que faz aumentar a insolação. A Primavera termina no solstício de Junho (20 de Junho). As datas referidas variam pouco de ano para ano.
A Primavera marca a renovação da natureza, sendo especialmente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.
Como é natural, a Primavera marca presença no adagiário português:
- Após a névoa opaca do Inverno, sempre vem o colorido vivo da Primavera
- Borboleta branca: Primavera franca.   
- Como vires a Primavera, assim pelo al espera.
- Dizem os antigos, gente rude e sincera: nunca passou por mau tempo a chuva da Primavera.
- Foi atravessando os rigores do Inverno que o tempo chegou à Primavera.
- Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.
- Um cuco não trás a Primavera.
- Um dia de Outono vale por dois de Primavera.
- Uma andorinha não faz a Primavera.
- Uma andorinha só não faz a Primavera.
- Uma flor não faz Primavera.
- Uma palavra gentil é como um dia de Primavera.


Publicado a 13 de Março de 2020

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Primavera de Joana Oliveira


Primavera de arco (2020) - Parte da frente. Joana Oliveira (1978-  ).
A Primavera constitui há muito um tema transversal a toda a poesia portuguesa. Camões, numa “Elegia” confessa: “Vi já que a Primavera, de contente, / De mil cores alegres, revestia / O monte, o rio, o campo, alegremente.”. Por sua vez, Florbela Espanca, no soneto “Amar” proclama: “Há uma Primavera em cada vida: / É preciso cantá-la assim florida, / Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!”. Já o cancioneiro popular considera que: “Primavera, linda flor / Como ela não há iguais: / Primavera volta sempre, / Mocidade não vem mais!”.
A Primavera dos pintores
A Primavera é o tema central de obras de grandes mestres da pintura universal, com destaque pessoal para Sandro Botticelli, Jacob Grimmer, Tintoretto, Christian Bernhard Rode, János Rombauer, Caude Monet, Alfons Mucha, Veloso Salgado e José Malhoa.
Os seus quadros representam a natureza, verdejante e florida, com a presença alegórica de graciosas figuras femininas, enquadradas por flores, em ramos, grinaldas ou arcos.
A Primavera dos barristas
Na barrística popular de Estremoz existem figuras designadas genericamente por “Primaveras”, que para além de constituírem uma alegoria à estação do mesmo nome, são também figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza.
Como figuras emblemáticas que são, as Primaveras constituem um tema inescapável à modelação por qualquer barrista. Nela são variados os caminhos que se lhe deparam. Em primeiro lugar, a modelação, a qual pode ser executada na linha de continuidade dos barristas precedentes ou alternativamente num rumo que de certo modo constitui uma ruptura com aquela prática. Trata-se de uma ruptura que sem fugir aos cânones da modelação tradicional, proclama as suas próprias marcas identidárias, notórias na estética da figura criada. Em segundo lugar, a decoração desta. Aqui pode haver uma inovação na cromática tradicional que reforce a mensagem que é intrínseca ao tema, bem como a introdução de elementos de composição que reforcem a contextualização temática.         
A Primavera de Joana Oliveira
A barrista Joana Oliveira recriou recentemente a chamada “Primavera de arco”. Na sua construção seguiu o segundo dos caminhos anteriormente apontados: o da inovação. E fê-lo para dar conta do modo como vê as coisas e com a força anímica que é seu timbre.              
A Primavera nasceu-lhe das mãos e tomou forma. Cresceu como figura, emancipou-se e autonomizou-se para fazer companhia a um apaixonado incorrigível da barrística popular de Estremoz. Permitam-me que vos apresente a “Primavera” que é e será sempre de Joana Oliveira. 
É uma figura de corpo elegante, aspecto juvenil e delicado, com ar jovial, da qual irradia luminosidade e frescura.
A postura das mãos parece antecipar o levantamento dos braços para o corpo rodopiar sobre si mesmo. E aqui reside aquilo que me parece ser uma das características mais importantes da modelação de Joana Oliveira: a capacidade mágica de através de uma representação estática, sugerir uma representação cinemática. E só este pormenor, revela-nos de imediato, Joana Oliveira como uma barrista de primeira água. 
Na decoração da figura, predominam o verde e o amarelo. O primeiro é a cor da natureza viva, associada ao crescimento e à renovação. O segundo traduz a alegria e o calor humano que lhe está associado. O azul do chapéu transmite serenidade, tranquilidade e harmonia a todo o conjunto.
Gratidão
Eu queria agradecer-lhe Joana, a beleza da figura que criou.
Bem haja! 
Publicado inicialmente a 6 de Julho de 2020

Primavera de arco (2020) - Parte de trás. Joana Oliveira (1978-  ).

terça-feira, 20 de março de 2012

Começou a Primavera


Primavera (1917).
José Maria Veloso Salgado (1864-1945).
Óleo sobre tela (108 x 160 cm).
Museu Abade de Baçal, Bragança. 

A Primavera (do latim primus, primeiro, et tempus, tempo), é a estação do ano que sucede ao Inverno e antecede o Verão. Marca a renovação da natureza, sendo especialmente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.
Entre nós, a Primavera tem início a 20 de Março e termina a 20 de Junho. Inicia-se no equinócio de Março, em que o dia e a noite têm exactamente a mesma duração. A partir daí, a cada dia que passa, a duração dos dias aumenta e a das noites diminui. É uma estação que corresponde aos meses de Março, Abril, Maio e Junho. Caracteriza-se pelo abrandamento dos rigores do tempo verificados durante o Inverno, pela fusão das neves, assim como pelo brotar e pelo florescer das plantas. As árvores privadas das suas folhas no Outono, revivescem graças à acção de chuvas frequentes e de temperaturas amenas, proporcionadas por um sol mais presente que durante o Inverno.
Algumas árvores de fruto assinalam a sua actividade através do aparecimento de flores, que cobrem igualmente os campos, nos quais a erva tenra, regala o gado, liberto da dieta de feno ocorrida durante o inverno.
É nesta estação que devido a um aumento significativo do calor, despertem as espécies hibernantes e regressem as migratórias.
É escasso o adagiário português onde é utilizada explicitamente a palavra Primavera:
- Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.
- Dizem os antigos, gente rude e sincera: nunca passou por mau tempo a chuva da Primavera.
- Um dia de Outono vale por dois de Primavera.
- Como vires a Primavera, assim pelo al espera.
Na pintura portuguesa, a Primavera foi um tema abordado por mestres como: Silva Porto (1850-1893), Alfredo Keil (1854-1907), Veloso Salgado (1864-1945), José Malhoa (1855-1933) e Eduardo Malta (1900-1967). Nos seus quadros a natureza está verdejante, florida e por vezes regista-se a presença de graciosas figuras femininas, visando reforçar a alegoria.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 20 de Março de 2012


 Primavera (1882).
António Carvalho de Silva Porto (1850-1893).
Óleo sobre madeira (37,2 x 55 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa.
Primavera (1882).
Alfredo Keil (1854-1907).
Óleo sobre tela (114 x 76 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa. 
Primavera (1932).
José Malhoa (1855-1933).
Óleo sobre tela (24,5 x 33, 5 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.  
Primavera (1933).
José Malhoa (1855-1933).
Pastel sobre papel (30 x 23 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha. 
A Primavera (séc. XX).
Eduardo Malta (1900-1967).
Óleo sobre tela (46,2 x 33 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.


Allegro do concerto para violino
 “Primavera" das “Quatro Estações”
 de Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741),
executado pela orquestra Filarmónica de Israel
sob a direcção do Maestro Itzhak Perlman.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A Primavera na Bíblia Sagrada


“A Primavera” ou “Adão e Eva no Paraíso” (1660-1664). Nicolas Poussin (1594–1665).
Óleo sobre tela (117 × 160 cm). Musée du Louvre, Paris.

São múltiplas as referências bíblicas à Primavera:
- “Eu dar-vos-ei chuva no seu tempo: chuvas de Outono e de Primavera. Deste modo, poderás recolher o teu trigo, o teu vinho novo e o teu azeite.” (Deuteronômio 11,14)
 - “que esperavam por elas como chuvisco, e bebiam-nas como chuva da Primavera.” (Jó 29,23)
 - “Vamos embriagar-nos com os melhores vinhos e perfumes, e não deixar que a flor da Primavera nos escape.”  (Sabedoria 2,7)
 - “Era como a rosa na Primavera, como lírio junto da água corrente, como ramo de árvore de incenso no Verão!” (Eclesiástico 50,8)
 - “Por isso faltaram as chuvas, e não caíram as chuvas da Primavera. No entanto, continuaste a tua vida de prostituta, e nem disso te envergonhaste.” (Jeremias 3,3)
 - “Não pensaram: «Vamos temer a Javé nosso Deus, que nos dá a chuva do Outono e da Primavera no tempo certo; e ainda estabeleceu as semanas certas para a colheita»”. (Jeremias 5,24)
 - “Alegrai-vos, filhos de Sião, e rejubilai em Javé, vosso Deus. Pois Ele mandou no devido tempo as chuvas do Outono e fez cair chuvas abundantes: as chuvas do Outono e da Primavera, como antigamente.” (Joel 2,23)
 - “Irmãos, sede pacientes até à vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o fruto precioso da terra, até receber a chuva do Outono e da Primavera.” (São Tiago 5,7)

Publicado inicialmente em 29 de Março de 2012

sábado, 18 de março de 2023

Atrás da Primavera, outras Primaveras hão de vir

 


Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

Fascínio é o natural e intenso sentimento despertado pela imagem aqui apresentada. Lado a lado, duas Primaveras com os mesmos atributos, a mesma estética e o mesmo cromatismo, diferentes apenas no tamanho. Uma é Primavera adulta e a outra uma Primavera menina.
É notória uma forte ligação entre elas, patente na mão da mãe que segura a mão da filha, a quem comunica confiança e também ternura, igualmente transmitida pelo olhar que a Primavera menina absorve, encantada. É a partilha de saberes, de luz e de claridades, de cores e de tons, de perfumes e sons. É o legado de marcas identitárias ciclicamente propaladas à natureza e que assinalam a sua renovação. É uma mensagem de esperança nos dias da amanhã. É o revelar de um paradigma: Atrás da Primavera, outras Primaveras hão de vir.
O Testemunho da Primavera de Joana Santos é simultaneamente o testemunho do génio criativo e da mente brilhante de uma mulher ceramista, que há muito pôs a magia das suas mãos tecnicamente dotadas, em sincronia harmónica com os impulsos de alma. É um deleite de espírito a visualização e a contemplação das suas criações. É, de resto, um privilégio e isso para mim é muito importante, usufruir do privilégio da sua amizade.

Publicado em 18 de Março de 2023

domingo, 20 de março de 2022

É tão linda a Primavera…


Prato covo, de grandes dimensões, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração
esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho,
sobre fundo amarelo palha. Olaria e decorador desconhecidos. 1ª metade do séc. XX.

Sábado é dia de Mercado
Sábado é o dia em que Estremoz mostra que é uma grande cidade, maior que todas as outras do país. Sábado é o dia em que Estremoz desperta para receber os forasteiros de braços abertos, para depois os apertar num demorado e fraternal abraço. Sábado é o dia em que Estremoz mostra que é maior que si própria. Sábado é o dia em que um movimento desusado faz convergir os forasteiros para a sala de visitas do Rossio. Sábado é para os nativos, a pressa de se levantar da cama e confluir também para o Rossio. É que o Rossio alberga o Mercado de Sábado, um farol que ilumina a cidade, um íman que nos magnetiza a todos, que acelera os nossos corações e torna mais rápidos os nossos passos, para podermos comprar o que por ali há de melhor e nas melhores condições.
Sábado é um balão de oxigénio na economia citadina, que alcança nesse dia uma outra dimensão.

O sábado mantem-nos vivos
Há pessoas que como eu, não saberiam viver sem o sábado. É como se o sábado nos mantivesse vivos. No meu caso, recolector enérgico de testemunhos identitários de tempos idos, quase que não durmo na véspera do grande dia. Sou como um caçador que vai à caça. Por ali deambulo pé ante pé, à coca de memórias materiais que me povoam a mente e aquecem a alma. Vou de manhã cedo e por ali fico a pé firme, até a barriga dar horas. Eu e os vendedores somos duas faces da mesma moeda, que se conhecem e respeitam nos negócios. Por ali tenho amizades, algumas das quais perduram há quase quarenta anos. Mas também surge quem não me conheça e seja tentado a meter o pé na argola, pedindo preços que não têm pés nem cabeça, que me fazem ficar de pé atrás e aos quais tenho que bater o pé. Nos negócios não se pode meter os pés pelas mãos e eu que não gosto de meter o pé em ramo verde, procuro também não perder o pé, dispondo-me a pagar determinados preços do pé para a mão. E é sempre assim.

Um prenúncio de Primavera
Este sábado, dia 19 de Março de 1922, esteve um dia agradável e luminoso, que nos compensou dos dias precedentes, nos quais poeiras vindas do norte de África nos ensombraram os dias. Foi um bom prenúncio da Primavera que de acordo com o calendário começa a 20 de Março e no decurso da qual brotam e florescem plantas. É tão linda a Primavera…e volta sempre! De acordo com o cancioneiro popular: “Primavera, linda flor, / Como ela não há iguais: / Primavera volta sempre, / Mocidade não vem mais!”

Um prato que é um jardim
O prenúncio de Primavera seria enfatizado pela caça a um prato antigo de louça de Redondo, o qual eu sabia que ia por ali aparecer, embora não soubesse bem o que era, mas que passou por três mãos, antes de chegar às minhas. Todavia, eu que sou cão pisteiro, com faro apurado para testemunhos identitários de tempos idos, dali não arredei pé, até dar com ele e ser eu o fim da cadeia de uma sucessão de compras e vendas no espaço de poucos minutos. Fui mais além do que previa, sem todavia perder o pé.
Trata-se de um prato covo, de grandes dimensões, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo amarelo palha.
A aba encontra-se decorada com sucessivos pedúnculos num total de nove, com geometria sinusoidal achatada, ladeados de folhas verdes e que culminam em botões a ocre castanho, orientados no sentido anti-horário.
O fundo está ornamentado com um cachepot amarelo com asas verde e castanho, o qual alberga três pedúnculos encurvados, ladeados de folhas verdes e encimados por flores de corola castanho ocre, pétalas amarelas e sépalas verdes. No cachepot, a palavra "AMOR", esgrafitada a ocre castanho na direcção vertical e o topo das letras dirigido para Leste. 
O covo do prato acha-se enfeitado por sucessivos pedúnculos num total de cinco, com geometria sinusoidal achatada, ladeados de folhas verdes e que culminam em flores de corola castanho ocre, pétalas amarelas e sépalas verdes, orientados no sentido anti-horário.
Diga-me lá o leitor, se o prato é ou não é um jardim?
É tão linda a Primavera…
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 20 de M
arço de 2022

domingo, 24 de março de 2019

A Primavera no figurado de Estremoz


PRIMAVERA (séc. XX). Autor desconhecido. Altura: 20; largura: 10;
diâmetro: 8,5 (cm). Museu Nacional de Etnologia, Lisboa.

No figurado de Estremoz existem imagens conhecidas genericamente por “Primaveras”. Trata-se de representações de figuras de Entrudo, envolvidas em rituais de vegetação, que anunciavam e saudavam a proximidade da Primavera, na qual a natureza e muito em especial a flora, refloresce.

Publicado inicialmente a 24 de Março de 2019
 
PRIMAVERA (séc. XX). Ana das Peles. Altura: 22; largura: 12; 
diâmetro: 8,6 (cm). Museu Nacional de Etnologia, Lisboa. 

PRIMAVERA (séc. XX). Olaria Alfacinha. Altura: 26; largura: 14;
diâmetro: 8,6 (cm). Museu Nacional de Etnologia, Lisboa.
 
PRIMAVERA (séc. XX). Ana das Peles. Altura: 30; largura: 16;
diâmetro: 10,7 (cm). Museu Nacional de Etnologia, Lisboa.

PRIMAVERA (séc. XX). Ana das Peles. Altura: 20,5; largura: 9,5;
diâmetro: 9,5 (cm). Museu Nacional de Etnologia, Lisboa.

sábado, 7 de novembro de 2020

Isabel Pires e a Alegoria do Outono

 

Alegoria do Outono (2018). Isabel Pires (1955-  ).

LER AINDA

Folhas secas e frutos maduros
O Outono é a estação do ano compreendida entre o Verão e o Inverno, que corresponde entre nós, aos meses de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro. Caracteriza-se por um declínio gradual da temperatura e é marcada por tempo chuvoso, ventoso e pouco ensolarado.
Uma das características principais da estação é a mudança da coloração das folhagens das árvores, que passam a apresentar tons amarelados e avermelhados e caem. O Outono é assim a estação da libertação que abre as portas a uma futura renovação na Primavera seguinte.
No Outono, os frutos já estão maduros e começam a cair no chão, pelo que têm lugar as colheitas das culturas de Verão (milho, girassol, etc.), de muitos tipos de frutos (uvas, maçãs, peras, marmelos, etc.) e de frutas secas (castanhas, nozes, avelãs, etc.).

O Outono na Tradição Oral
As colheitas de Outono estão presentes na tradição oral. Em particular, no CANCIONEIRO POPULAR, que põe os meses a falar: “Eu sou o Setembro / Que tudo recolho, / Trigos e milhos, / Palhas e restolho.” e “Eu sou o Outubro, / O mês dos Outonos, / Engrosso as terras / Proveito dos donos.”.
As colheitas de Outono estão igualmente presentes no ADAGIÁRIO. Relativamente a Setembro, o adagiário regista que “Agosto amadura, Setembro derruba” e “Em Setembro, colhendo e comendo”, mas recomenda: “Para vindimar deixa Setembro acabar”. Para além disso, afirma que: “Pelo São Miguel (29/09) os figos são mel” e “Setembro que enche o celeiro, salva o rendeiro”.
No que respeita a Outubro, o adagiário proclama que “Outubro sisudo colhe tudo” e pormenoriza algumas dessas colheitas: - Milho e feijão: “Em Outubro não fies só lã; recolhe o teu milho e o teu feijão, senão de Inverno tens a tua barriga em vão”; - Castanha: “Pelo São Simão (28/10), quem não faz um magusto, não é cristão”; - Fava: “Por São Simão (28/10), fava na mão” - Uva: “ Por São Lucas (18/10) bem sabem as uvas” e “Por São Simão e São Judas (28/10), colhidas são as uvas”.

Referências poéticas
A temática do Outono tem sido abordada por muitos poetas portugueses. Do Outono nos fala Fernando Pessoa[i] no poema “No entardecer da terra”[ii] : “No entardecer da terra / O sopro do longo Outono / Amareleceu o chão. / Um vago vento erra, / Como um sonho mau num sono, / Na lívida solidão.  (…)
Do Outono fala também Florbela Espanca[iii] no soneto “Outonal”[iv]: (…) / “Outono dos crepúsculos doirados, / De púrpuras, damascos e brocados! / - Vestes a terra inteira de esplendor!” (…). No soneto “Ruínas” [v] acrescenta: “Se é sempre Outono o rir das Primaveras, / Castelos, um a um, deixa-os cair... / Que a vida é um constante derruir / De palácios do Reino das Quimeras!” (…).
Do Outono nos fala ainda Miguel Torga [vi]  no poema homónimo: “ Tarde pintada / Por não sei que pintor. / Nunca vi tanta cor / Tão colorida! / Se é de morte ou de vida, / Não é comigo. / Eu, simplesmente, digo / Que há tanta fantasia / Neste dia, / Que o mundo me parece / Vestido por ciganas adivinhas, / E que gosto de o ver, e me apetece / Ter folhas, como as vinhas.”

Alegorias do Outono na Pintura
Em Portugal, pintores como Columbano Bordalo Pinheiro[vii] e José Malhoa[viii], entre outros, utilizaram as características do Outono atrás referidas ao criarem composições alegóricas desta estação do ano.
Essas mesmas características constituem o tema central de telas criadas por grandes nomes da pintura universal, dos quais destaco cronologicamente: Francesco del Cossa[ix], Giuseppe Arcimboldo[x], Pieter Pauwel Rubens[xi], Nicolas Poussin[xii], Rosalba Carriera[xiii], Jacob van Strij[xiv],  Jacob Cats[xv] , Jean-François Millet[xvi] e Frederic Edwin Church[xvii].

Alegoria do Outono na Barrística de Estremoz
Na Barrística de Estremoz, existem exemplares designados genericamente por Primaveras, cuja característica principal é ostentarem um arco com flores apoiado nos ombros e circundando a cabeça. A origem de tais Bonecos remonta pelo menos ao séc. XIX. Para além de serem figuras de Entrudo, são alegorias à estação homónima, que evocam remotos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, os quais vieram a ser assimilados pela Igreja Católica, que começou a comemorar o Entrudo.
O ano tem quatro estações, pelo que faz sentido existirem alegorias para todas elas. Foi o que pensou a barrista Isabel Pires que criou alegorias para as estações em falta. O presente texto tem por finalidade analisar a Alegoria do Outono de Isabel Pires.

Morfologia da figura
Formalmente e em termos morfológicos a Alegoria do Outono é semelhante à de alguns modelos de Primavera. Assim: 1 - Ostenta um arco ornamentado com o que simula serem folhas secas de uma planta indeterminada e parras secas repartidas em lóbulos pontiagudos que configuram estrelas, tal como o arco da Primavera está enfeitado com flores; 2 - Segura numa das mãos um cacho de uvas e na outra, um cabaz de vime com os frutos da época: diospiros, romãs, marmelos, castanhas, nozes, uvas. Existe aqui uma analogia com o que se passa nalguns modelos de Primavera, que sustentam uma cornucópia numa das mãos e na outra um ramalhete de flores; 3 - A cabeça está adornada com uma grinalda de folhas secas, tal como a cabeça da Primavera pode estar ataviada com plumas, toucados ou chapéus.
Para além destas analogias formais entre a Alegoria do Outono de Isabel Pires e certos modelos de Alegorias das Primavera, há a salientar que a Alegoria do Outono: 1 - Traja um vestido rodado em tom de Bordeaux, com gola verde de inspiração vegetalista e orla bicolor verde-amarela, cores que para além do Bordeaux são igualmente cores de folhas. As mangas do vestido estão decoradas com um fileira de folhas secas dispostas no sentido longitudinal. Uma guirlanda de folhas secas desce do ombro esquerdo em direcção ao cesto e ali se bifurca em duas guirlandas que seguem em direcção à orla do vestido, donde pendem parcialmente; 2 – Calça meias brancas e botas de cor Bordeaux. Estas têm a extremidade do cano com uma orla verde de inspiração vegetalista, da qual pendem folhas secas de cor Bordeaux e amarelo acastanhado; 3 - Assenta numa base circular de cor verde, orlada no topo com girassóis; 4 – O rosto está muito bem definido e é revelador do tratamento fortemente naturalista que a barrista imprime às suas criações. De salientar que os brincos pendentes das orelhas configuram duas folhas, de cor amarela.

Cromatismo da figura
Sob um ponto de vista cromático são dominantes os tons de Bordeaux e de amarelo, característicos das folhas secas e da fruta da época.

Simbolismo da Alegoria
Em termos simbólicos, a Alegoria do Outono, tal como a Alegoria da Primavera, está ligada à renovação da natureza. Assenta numa base verde, cor que simboliza a esperança e a renovação, aqui associadas ao Outono. As parras secas que ornamentam a composição, configuram estrelas, fontes de luz associadas ao simbolismo celeste, nomeadamente a esperança e a renovação. Os girassóis que ornamentam a base, dada a sua mobilidade em relação ao Sol, são um símbolo de instabilidade, aqui associado ao fluir da natureza e à sucessão cíclica das estações do ano.

Epílogo
O Outono é a estação das frutas, das folhas secas, da renovação. É o Inverno que se avizinha. Mas no dizer de Albert Camus[xviii], “Outono é outra Primavera, cada folha uma flor.”. Essa a intuição e também a convicção de Isabel Pires, que teve a sagacidade de criar uma Alegoria do Outono ou melhor, a primeira Alegoria do Outono na Barrística de Estremoz. Para além da qualidade da execução e da criatividade, pelo seu pioneirismo é merecedora de toda a nossa admiração, o que aqui registo e sublinho.
 
BIBLIOGRAFIA
ESPANCA, Florbela. Charneca em Flor. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
ESPANCA, Florbela. Livro de Máguas - Soror Saudade. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
EVANGELISTA, Júlio. Cantares de todo o ano. Colecção Educativa – Série F – N.º 6. Campanha Nacional de Educação de Adultos. Lisboa, s/d.
PESSOA, Fernando. No entardecer da terra in Ilustração Portuguesa , 2ª série, nº 83. Lisboa, 28-1-1922.
TORGA, Miguel. Diário X. Edição do autor. Coimbra, 1968.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 7 de Novembro de 2020

[i] Fernando Pessoa (1888-1935). 
[ii] Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922.
[iii] Florbela Espanca (1894-1932).
[iv] De “Charneca em Flor”.
[v] De “Livro de Máguas - Soror Saudade”.
[vi] De “Diário X”.
[vii] Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929, pintor naturalista e realista.
[viii] José Malhoa (1855-1933), pintor naturalista.
[ix] Francesco del Cossa (c. 1435-c. 1477), pintor italiano, renascentista.
[x] Giuseppe Arcimboldo (1526-1593), pintor italiano, maneirista.
[xi] Pieter Pauwel Rubens (1577-1640), pintor flamengo, barroco.
[xii] Nicolas Poussin (1594-1665), pintor francês, barroco.
[xiii] Rosalba Carriera (1675-1757), pintora italiana, barroca.
[xiv] Jacob van Strij (1756-1815), pintor holandês, barroco.
[xv] Jacob Cats (1741-1799), pintor holandês, rócócó.
[xvi] Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês, realista.
[xvii] Frederic Edwin Church (1826-1900), pintor americano, romântico.
[xviii] Albert Camus (1913-1960), escritor franco-argelino.