quarta-feira, 14 de maio de 2014

A lavadeira

MULHER A LAVAR A ROUPA (1986). Liberdade da Conceição (1913-1990).
Marcas: ESTREMOZ/PORTUGAL aposta por carimbo (0,8 cm x 2 cm) e
 Liberdade (Manuscrita). Dimensões (cm): Alt. 14,0; Larg. 7,1;  Prof.. 12,6 cm.
Peso (g): 322. Colecção particular (Cortesia de Jorge da Conceição).
  
A roupa suja-se com o uso, tornando-se necessário proceder à sua lavagem, a fim de remover a sujidade, para que fique limpa.
Em Estremoz, até à vulgarização das máquinas de lavar roupa nos anos 60 do século passado, a roupa suja era lavada em contexto doméstico pela dona da casa ou então por mulheres chamadas “lavadeiras” (1) que a iam buscar a casa das freguesas (2), já acondicionada por estas em taleigos, que eram transportados por burros com cangalhas.
Para não haver risco de confusão, a roupa de cada família era marcada com iniciais, números, estrelas, cruzes, bolas a cheio, etc. Para além disso, a freguesa fazia sempre um rol da roupa que mandava lavar. Dele nos fala a lavadeira Gracinda, magistralmente interpretada por Beatriz Costa (1907-1996) no filme “Aldeia da Roupa Branca”, realizado em 1938 por Chianca de Garcia (1898-1983):
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Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.
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Antes de ser lavada, a lavadeira tinha o cuidado de apartar a roupa por qualidades: branca, de cor, fronhas, lençóis, camisas, camisolas, etc.
A lavagem era efectuada em tanques, lavadouros, celhas, alguidares e mesmo na água corrente de ribeiros, podendo ser feita sem recurso a barrela ou recorrendo a ela.
No primeiro caso, a roupa começava por ser ensaboada em cima de uma lage do ribeiro ou do lavadouro ou de uma tábua de lavar roupa, com a superfície ondulada, apoiada no bordo do tanque, da celha ou do alguidar. A roupa era esfregada com força com os punhos fechados ou recorrendo a uma escova.
Em continuação, a roupa era posta a corar (3), isto é, exposta ao sol sobre a erva ou numa bancada com rede, acabando por branquear por acção do sol. Durante esse período era regada para se manter húmida e não encarquilhar.
Seguidamente, a lavadeira enxaguava a roupa lavada no ribeiro ou num recipiente contendo água limpa, afim de remover todos os resíduos de sabão e de sujidade. Depois, a roupa era torcida e mesmo sacudida, a fim de eliminar a maior quantidade possível de água que a impregnava. Finalmente, a roupa era pendurada num estendal ou esticada sobre a erva, para secar por evaporação, quer pela acção do sol, quer pela do vento. Depois de seca, a roupa era dobrada e espalmada com as mãos, ficando em condições de ser passada a ferro.
Para lavar a roupa com barrela, procedia-se como foi descrito anteriormente até à cora. Depois de ensaboada e esfregada, a roupa era acamada numa vasilha, mantendo todo o sabão que trazia. Seguidamente, punha-se por cima da roupa, um pano forte, contendo cinza peneirada (para não levar carvão), deitando-se por cima água a ferver, a qual originava uma solução alcalina que branqueava a roupa. Esta ficava algumas horas na barrela, após o que era retirada e novamente ensaboada e esfregada, sendo novamente posta a corar. No fim da cora, a roupa era enxaguada, torcida, sacudida e posta a secar.

  
(1) - A profissão de lavadeira, transmitida geralmente de geração em geração, desapareceu com o aparecimento da água canalizada e com o evoluir da tecnologia, não passando hoje de um registo na nossa memória. Era uma profissão dura e desgastante, dado o elevado número de horas de trabalho, em que eram sobrecarregadas as costas, os rins, os braços e os joelhos. Estes últimos eram, todavia, protegidos por joelheiras para não se ferirem.
(2) - Estas eram senhoras da burguesia ou da classe alta. A roupa era recolhida e trazida lavada, em dia certo da semana e o pagamento era feito à peça.
(3) - O tempo de cora dependia da intensidade da luz solar e da necessidade de branqueamento, tendo em conta a natureza das nódoas.