quinta-feira, 18 de junho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 1 – MANUEL ANTÓNIO CAPELINS

 

Manuel António Capelins (1924-1974)

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Armando Alves (Manuel António Capelins)
Flórido de Vasconcelos (peças).

Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do concelho de Estremoz. Com ela ocorreu uma mudança de paradigma. Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, de tal maneira que aquela Feira constituiu, “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.    

Naquela Feira descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos.

Foi com base na minha colecção de Arte Pastoril e de Arte Conventual, que a convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio, concebi a exposição ARTES DO VAGAR, integrada nas Comemorações do Centenário da Elevação à Categoria de Cidade. A mesma foi inaugurada no passado dia 16 de Maio, na sala de exposições temporárias do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho e ali estará patente ao público até ao próximo dia 6 de Setembro.

O certame é integrado por 123 trabalhos de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa Feira iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal. 

Uma visita à exposição permite de imediato concluir estar-se em presença da “nata” de artesãos do vagar, pelo que importa enquadrar a obra de cada um deles no contexto do respectivo perfil biográfico. É o que passo a fazer a partir de hoje e durante 9 números nas páginas deste jornal.  

1 - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974)

Natural de Santo António de Capelins (Alandroal). Cedo começou a trabalhar como pastor e na calma da paisagem as suas mãos habilidosas aprenderam a esculpir e a rendilhar a madeira e o chifre. Porém, nas pedreiras pagavam melhor e ele tinha mulher e dois filhos. Tornou-se então trabalhador das pedreiras, abandonou a pastorícia e com ela a arte pastoril. Todavia, as coisas não ficaram por aqui. Alguém que conhecera o virtuosismo das suas mãos e a grandeza da sua alma de artista popular, consegue-o subtrair à dureza do trabalho das pedreiras, levando-o a dedicar-se exclusivamente à arte pastoril, o que passou a fazer na sua casa, situada então na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos).

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: laranjeira, buxo, figueira, aloendro e raiz de oliveira. Serviu-se de utensílios como navalha, goiva de vareta e compasso. A decoração muito rica era variada e de natureza geométrica, fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica de inspiração regional. Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, pulseiras, cáguedas, chavões, colheres, colheres de pastor, talheres, canudos de ceifa, canudos de soprar o lume, tabaqueiras, caixas de segredo, esculturas em madeira, jogos de xadrez e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera em Belém, Feira de Artesanato do Estoril e Feira Nacional da Agricultura em Santarém. Está representado nas colecções do Museu Nacional de Etnologia em Lisboa e no Museu do Artesanato em Évora.

Em Maio de 1963, o pintor Armando Alves organizou uma exposição de trabalhos seus na Escola Superior de Belas Artes do Porto, para a qual foi editado um catálogo com prefácio do Professor J. M. Pereira de Oliveira. O poeta Eugénio de Andrade dedicou-lhe em 1964 o texto “E o pastor, de Alentejo era…”, que veio a ser inserido no livro OS AFLUENTES DO SILÊNCIO (1968).

Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma, na Fonte do Imperador, em Estremoz. Os seus trabalhos passam mais tarde a ser comercializados na Livraria e Papelaria Aníbal, nesta cidade.

A exposição de Manuel António Capelins na Sociedade Nacional de Belas Artes seria ainda objecto do apreço do historiador de arte Flórido de Vasconcelos, que publicou o texto “Notas de Arte Popular Alentejana“ no nº 21, de Março de 1967 da revista PANORAMA.

Após o falecimento de Manuel António Capelins em 1974, o seu legado artístico foi continuado pela filha Teresa Serol Gomes (1952-1988) e pelo filho Miguel Serol Gomes (1957-  ), cujos perfis biográficos integram igualmente o presente trabalho.

Hernâni Matos










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