Entre 15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no
Rossio Marquês de Pombal, frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e
Artesanato do concelho de Estremoz. Com ela ocorreu uma mudança de paradigma.
Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas, “vêem a
luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, de tal
maneira que aquela Feira constituiu, “o alfa e o ómega” da divulgação do
saber-fazer dos nossos artesãos.
Naquela Feira descobri artesãos que corresponderam à minha
sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a
adquirir trabalhos seus ao longo dos anos.
Foi com base na minha colecção de Arte Pastoril e de Arte
Conventual, que a convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz,
José Daniel Pena Sadio, concebi a exposição ARTES DO VAGAR, integrada nas
Comemorações do Centenário da Elevação à Categoria de Cidade. A mesma foi
inaugurada no passado dia 16 de Maio, na sala de exposições temporárias do
Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho e ali estará patente ao público até
ao próximo dia 6 de Setembro.
O certame é integrado por 123 trabalhos de artesãos
naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram,
os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa
Feira iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.
Uma visita à exposição permite de imediato concluir
estar-se em presença da “nata” de artesãos do vagar, pelo que importa enquadrar
a obra de cada um deles no contexto do respectivo perfil biográfico. É o que
passo a fazer a partir de hoje e durante 9 números nas páginas deste jornal.
1 - MANUEL ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974)
Natural de Santo António de Capelins (Alandroal). Cedo
começou a trabalhar como pastor e na calma da paisagem as suas mãos habilidosas
aprenderam a esculpir e a rendilhar a madeira e o chifre. Porém, nas pedreiras
pagavam melhor e ele tinha mulher e dois filhos. Tornou-se então trabalhador
das pedreiras, abandonou a pastorícia e com ela a arte pastoril. Todavia, as
coisas não ficaram por aqui. Alguém que conhecera o virtuosismo das suas mãos e
a grandeza da sua alma de artista popular, consegue-o subtrair à dureza do
trabalho das pedreiras, levando-o a dedicar-se exclusivamente à arte pastoril,
o que passou a fazer na sua casa, situada então na aldeia de São Gregório (Rio
de Moinhos).
Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira:
laranjeira, buxo, figueira, aloendro e raiz de oliveira. Serviu-se de
utensílios como navalha, goiva de vareta e compasso. A decoração muito rica era
variada e de natureza geométrica, fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica de inspiração
regional. Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas
azeiteiras, polvorinhos, pulseiras, cáguedas, chavões, colheres, colheres de
pastor, talheres, canudos de ceifa, canudos de soprar o lume, tabaqueiras,
caixas de segredo, esculturas em madeira, jogos de xadrez e quadros.
Participou em feiras como: Mercado da Primavera em Belém,
Feira de Artesanato do Estoril e Feira Nacional da Agricultura em Santarém.
Está representado nas colecções do Museu Nacional de Etnologia em Lisboa e no
Museu do Artesanato em Évora.
Em Maio de 1963, o pintor Armando Alves organizou uma
exposição de trabalhos seus na Escola Superior de Belas Artes do Porto, para a
qual foi editado um catálogo com prefácio do Professor J. M. Pereira de
Oliveira. O poeta Eugénio de Andrade dedicou-lhe em 1964 o texto “E o
pastor, de Alentejo era…”, que veio a ser inserido no livro OS AFLUENTES DO
SILÊNCIO (1968).
Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma, na Fonte
do Imperador, em Estremoz. Os seus trabalhos passam mais tarde a ser
comercializados na Livraria e Papelaria Aníbal, nesta cidade.
A exposição de Manuel António Capelins na Sociedade
Nacional de Belas Artes seria ainda objecto do apreço do historiador de arte
Flórido de Vasconcelos, que publicou o texto “Notas de Arte Popular
Alentejana“ no nº 21, de Março de 1967 da revista PANORAMA.
Após o falecimento de Manuel António Capelins em 1974, o
seu legado artístico foi continuado pela filha Teresa Serol Gomes (1952-1988) e
pelo filho Miguel Serol Gomes (1957- ),
cujos perfis biográficos integram igualmente o presente trabalho.
Hernâni Matos











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