sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Mariano da Conceição (1.ª parte)


Fig. 1 - Mariano da Conceição na sua oficina em pose para o fotógrafo Rogério de
Carvalho (1915-1988).  À sua direita, o Presépio de trono ou altar projectado por
Sá  Lemos e por ele executado. Este vistoso presépio não esteve presente na
Exposição do Mundo Português em 1940, pelo que terá sido criado posteriormente,
mas em data anterior a Dezembro de 1947, já que nesta data, a fotografia aqui
apresentada aparece a ilustrar a capa da revista “Mensário das Casas do Povo”,
nº 18. Arquivo fotográfico do autor.


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Filho ilegítimo de Narciso Augusto da Conceição
No dia 24 de Setembro de 1912, na repartição do Registo Civil do concelho de Estremoz, sita no Rossio Marquês de Pombal da vila de Estremoz, perante António Luís da Cruz, ajudante de oficial do Registo Civil, no impedimento deste por motivo de saúde, compareceu Narciso Augusto da Conceição, solteiro, industrial, de 41 anos, natural da freguesia de Santo Antão de Évora e residente na freguesia de Santa Maria de Estremoz. Declarou que, no dia 26 de Janeiro de 1903, às 20 horas, nasceu na (nome da rua ilegível no Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz), freguesia de Santa Maria de Estremoz, um indivíduo de sexo masculino, que as testemunhas disseram ser filho ilegítimo do declarante, que agora o reconhece como seu filho para todos os efeitos legais. Pelas testemunhas foi dito que o rejeitando se iria chamar Mariano Augusto da Conceição. Foram testemunhas José Joaquim Correia, seleiro, solteiro, maior e Joaquim Hilário Cardoso Amante, casado, sapateiro, ambos residentes na vila de Estremoz (8).
Mariano era filho de oleiro pelo que viria a ser oleiro. Todavia, como iremos ver, não ficaria por aqui. Iria muito mais longe.
Casamento
A 8 de Novembro de 1931, Mariano Augusto da Conceição, de 28 anos, oleiro (Fig. 1, Fig. 5 e Fig. 6), natural da freguesia de Santa Maria de Estremoz e residente na Calçada da Frandina, nº 15 da mesma localidade, casou na Repartição do Registo Civil de Estremoz com Liberdade da Conceição Banha, de 18 anos, doméstica, filha legítima de José Ricardo Banha, corticeiro natural da mesma freguesia e de Agripina da Conceição Banha, doméstica, natural da freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa (11).
Mestre da Oficina de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
A 3 de Dezembro de 1930, na secretaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves de Estremoz, perante o Director Luís Fernandes de Carvalho e Reis, tomou posse como Mestre provisório da oficina de olaria, Mariano Augusto da Conceição, nomeado por alvará desse dia, que afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
De 25 a 27 de Março de 1931 faz concurso de provas (Fig. 2 a Fig. 7) para Mestre da oficina de olaria e é classificado com 15,6 valores, conforme consta do seu registo biográfico. A 29 de Abril de 1931 passa à condição de contratado (10). A 23 de Março de 1936, na secretaria da Escola, perante o Director José Maria de Sá Lemos, tomou posse como Mestre efectivo da oficina de olaria, nomeado por portaria de 22 de Fevereiro, publicada no Diário do Governo, n°65 - 2ª série, de 19 de Março de 1936. 0 empossado afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
A morte do pai de Mariano da Conceição
O pai de Mariano, Narciso Augusto da Conceição, suicidou-se por enforcamento na Olaria Alfacinha, a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos (14).
Com a morte do pai, Mariano da Conceição, o primogénito (eram 5 irmãos: Mariano, Jerónimo, Diocleciano, Caetano e Sabina) passou a dirigir a olaria que entretanto se tinha transformado em sociedade na qual participavam todos os irmãos. Mariano trabalhava como oleiro na oficina e simultaneamente dava aulas na Escola (13).
Depois da morte da matriarca Leonor das Neves Conceição em 1946 e de seu filho Jerónimo Augusto da Conceição, alguns anos depois, a mulher de Jerónimo e Mariano Augusto da Conceição, vendem a sua quota na Olaria Alfacinha aos irmãos. Mariano deixa então de trabalhar na Olaria, a qual passa a ser dirigida por seu irmão Caetano.
Mais tarde, em 11 de Abril de 1958, os irmãos Caetano Augusto da Conceição, Diocleciano Augusto da Conceição e Sabina Augusta da Conceição Santos, constituem a firma Leonor das Neves da Conceição Herdeiros. A família detém e trabalha na olaria até 1987, ano em que é vendida a Rui Barradas e sua mulher, Cristina. Em 1995 a Olaria Alfacinha encerra definitivamente.
De filho ilegítimo a filho legítimo
Por auto público de 14 de Junho de 1933, nos autos de inventário orfanológico, por óbito de Narciso Augusto da Conceição, que correu seus termos na Comarca de Estremoz, com sentença de 23 do mesmo ano, que transitou em julgado, Mariano Augusto da Conceição foi declarado filho legítimo de Narciso Augusto da Conceição e de sua mulher Leonor das Neves da Conceição, exposta. Ficaram arquivados uma certidão e um documento autêntico de consentimento do perfilhado.
Este averbamento, datado de 10 de Janeiro de 1957 e subscrito pelo Conservador, cuja assinatura é ilegível, integra o Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz, relativo a Mariano Augusto da Conceição (8).
Mariano da Conceição oleiro e bonequeiro
O escultor José Maria Sá Lemos, director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves conseguiu, entre 1933 e 1935, a recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, com a colaboração de ti’ Ana das Peles, uma barrista de idade já avançada. Impunha-se que houvesse continuadores. Daí que tenha lançado um repto a Mariano da Conceição, que o aceitou de bom grado e teve êxito, passando a ter uma tripla actividade: Oleiro na Olaria Alfacinha, Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves e bonequeiro.
A Exposição do Mundo Português
António Ferro (1895-1956), Secretário-Geral da Comissão Executiva da Exposição do Mundo Português era próximo de José Maria de Sá Lemos e esteve em Estremoz, onde convidou Mestre Mariano da Conceição a participar na Exposição. Este não o pôde fazer, devido às actividades lectivas na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Quem ali esteve presente durante todo o período da mesma, foi a sua mulher, Liberdade Banha da Conceição (1913-1990) (Fig. 8), que ali pintava os Bonecos por ele confeccionados em Estremoz e que depois eram transportados para Lisboa.
O êxito de vendas na Exposição do Mundo Português fez com que Mariano da Conceição a partir de 1942-43 se dedicasse à confecção [1] de Bonecos de Estremoz em oficina própria, actividade que acumulava com o seu magistério de Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras nº1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso nº 6 (13).
Mariano que não tinha forno próprio, cozia os seus Bonecos no forno de lenha da Olaria Alfacinha, a qual tinha dirigido. De resto, o barro utilizado por Mariano era preparado na Olaria e transportado numa carrinha pelo seu irmão Caetano, que levava os Bonecos para cozer arrumados em gaiolas de barro e os entregava a Mariano, depois de cozidos (13).
Em Estremoz, os Bonecos eram comercializados nos seguintes locais: Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30), Papelaria Ruivo (Largo da República, 24), Lojas de Artesanato de Rafael dos Santos Grades (Rua Victor Cordon, 27 e 30) e Papelaria A Tabaqueira de Alves & Simões, Lda. (Rossio Marquês Pombal 11 e 12 [2] (13).
Mariano da Conceição visto pelos outros
A 23 de Junho de 1951 reuniu o Conselho Escolar da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, sob a presidência do Director, Irondino de Aguillar, o qual, antes de se entrar na ordem do dia, quis dirigir algumas palavras a todos os presentes. “Lembrou-lhes que longe vai o tempo em que o professor entendia que a vida de professor se cumpre toda dentro das quatro paredes e dos cinquenta e cinco minutos de uma aula. 0 professor de hoje tem de não esquecer-se nunca de que é professor, de que é seu dever contribuir para o prestígio da sua classe e da sua escola e de que é seu dever maior que todos meditar na responsabilidade que tomou ao escolher tal profissão. Convidou os presentes a fazerem exame de consciência, que ele, Director, limitar-se-ia a fazer pública justiça ao Mestre de Olaria, Senhor Mariano Augusto da Conceição, que pelo seu zelo, pela sua honestidade no cumprimento do dever, confirmou largamente o que dele era de esperar pelo seu comportamento nos anos anteriores”(1).
O pintor Armando Alves (1935- ) foi aluno de Mariano da Conceição nos anos lectivos de 1949-1950 e 1950-1951. Na sua condição de ex-aluno, prestou-me, em 2012, o seguinte depoimento escrito (3): “Foi na década de quarenta do século passado que conheci o Mestre Mariano Alfacinha. Era eu por essa altura aluno na Escola Industrial e Comercial de Estremoz e o Mestre Mariano, professor de Olaria nessa escola.
Frequentar as suas aulas não era para a maioria de nós, alunos, apenas uma obrigação, antes pelo contrário, era um prazer. Para mim era mesmo uma espécie de necessidade, pois não só frequentava as aulas, como muitíssimas vezes aparecia para ajudar o Mestre Mariano nas tarefas mais fáceis – fazer bases, fazer pernas, fazer (nas pequenas formas de barro cozido), as cabeças dos bonecos. Com ele aprendi muitos dos segredos do barro e aprendi também a fazer os Bonecos de Estremoz.
O Mestre Mariano fazia invariavelmente os seus bonecos em grupos de seis, isto é: seis pastores, seis amazonas, seis cavaleiros, etc., E isto não era por acaso pois os bonecos são feitos por partes – as bases, as pernas, os troncos, os braços e as cabeças. À medida que se iam fazendo cada uma destas partes, (começando sempre pelas bases), o barro ia ganhando a dureza necessária para receber a colagem das pernas e dos troncos até à conclusão do boneco. A colagem das partes era feita com a lambugem, (lama do barro) e uns pequenos risquinhos que se faziam nas partes a colar, tendo sempre o cuidado de não deixar bolhas de ar, o que poderia causar dissabores na cozedura... O calor das mãos e um certo vento que de vez enquanto soprava e rachava o barro, eram também elementos a ter em conta.
Para tudo isto me chamava a atenção o Mestre Mariano com aquela presença muito forte e ao mesmo tempo muito doce que o caracterizavam.
Tive a sorte de ter privado com este Homem a quem agradeço o muito que me ensinou e a quem Estremoz continua a dever tudo o que ele fez pela nossa terra.”
Por sua vez, Leonor da Conceição Santos (1943-2014), filha de Sabina Santos, sobrinha de Mariano e Professora de Educação Especial aposentada, prestou-me, igualmente em 2012, o seguinte depoimento escrito (6): “Tenho uma ideia vaga do meu tio Mariano que era o mais velho e lembro-me de um homem muito alto, claro que eu também era muito pequena… Sabia que ele era professor na Escola Industrial e que a minha mãe tinha sido lá aluna. Lembro-me também, talvez com os meus 10 anos, e vivendo já na rua do Reguengo, de ter ido frequentar a Escola Comercial e Industrial, onde hoje é a Pousada. Via por lá o tio Mariano, que era professor de Olaria, e quando o via ia dar-lhe um beijo, e ele perguntava com aquele vozeirão:” Então como vai a Escola?” Eu fugia à resposta porque, na realidade, a escola ia muito mal. Gostava da disciplina de desenho e…pouco mais. Fui aluna da D. Joana, que era uma artista naquilo para que eu nunca tive jeito: bordados, tapetes e afins. Só frequentei o ano preparatório e depois, com grande sacrifício os meus pais mandaram-me para o Colégio do Mota, (a que chamavam o colégio dos ricos – não era uma verdade absoluta, mas isso são outras histórias…) onde realmente me senti ambientada. Era uma miúda pequena e um tanto frágil e aquela Escola Industrial fazia-me medo. Passei a ver o tio Mariano quando ia à Olaria e ele estava a fazer peças enormes, à roda, pois só uma pessoa alta, pujante e habilidosa como ele, conseguia “puxar” o barro na roda de oleiro para fazer essas peças (ânforas e outras). Também o visitava, em casa dele e tenho ideia, mas a minha prima Maria Luísa poderá confirmar, que ele tinha uma sala cheia de pássaros das mais diversas raças. Sempre achei interessante. Ele era caçador, e dos bons, matava perdizes, faisões e outra passarada e ao mesmo tempo gostava de aves canoras e sustentava-as. Será que a memória me está a atraiçoar? Penso que não.
Também estive muitas vezes, ao lado dele a vê-lo fazer os Bonecos de Estremoz. A tia Liberdade, sua mulher, que gostava muito de mim, arranjava-me um lanche e eu ficava sentada, numa daquelas cadeiras baixinhas, a ver o meu tio a trabalhar. Naquela altura fazia-me impressão como é que ele que tinha umas mãos enormes e uns dedos cheios também conseguia trabalhar minuciosamente cada figurinha e fazer as cabecinhas dos bonecos. Era isso que eu admirava nele: ora fazia coisas minúsculas, ora puxava, na roda ânforas gigantescas. Extraordinário!...”
A morte prematura de Mariano da Conceição
O Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz de 29 de Setembro de 1959 (17), sob a epígrafe “Um estúpido acidente atirou para a morte o Sr. Mestre Mariano”, relata o que se passou: “O caso deu-se no passado domingo, em pleno Rossio, quando da chegada dos cavaleiros que disputavam o raid hípico de Estremoz.
A anteceder os dois primeiros cavaleiros, que surgiram a par, a galope desenfreado, vinham um jeep e uma moto, mas tão devagar que, num instante, os cavalos estavam sobre eles. 0s cavaleiros gritavam, os veículos não tomavam velocidade e não houve outra solução senão guinar cada cavaleiro para seu lado.
Foi nesta altura que à frente de um dos cavalos surgiu o Sr. Mestre Mariano da Conceição, muito para lá da meta. O choque foi inevitável e o Sr. Mariano rolou pelo chão.
Imediatamente levado ao hospital, cheio de sangue, ali foi observado, recolhendo depois a um dos quartos particulares em estado de coma, com suposta fractura craniana e uma clavícula e várias costelas partidas. Quem diria que naquele luminoso domingo um estúpido acidente atiraria para o hospital o nosso Mestre Mariano?
Na madrugada de terça-feira 45, o Sr. Mestre Mariano expirou (9), por não ter podido resistir à gravidade dos ferimentos, tendo a Escola perdido assim, estupidamente, um dos seus agentes de ensino mais dedicados e a quem ela muito ficou a dever.
No funeral incorporaram-se muitos antigos e actuais alunos e todo o pessoal da Escola em exercício.” (7), (12), (17).
Reacções à morte de Mariano da Conceição
No dia 30 de Setembro de 1959, pelas 15 horas reuniu no gabinete do Director da EICE, o Conselho Escolar presidido pelo Director Rogério Peres Claro com a presença de todos os membros efectivos, Mestres Joana Simões e Eduardo Silva. No último ponto da ordem de trabalhos, por falecimento de Mestre Mariano da Conceição, deliberou o Conselho convidar o Mestre provisório José Alexandre Rosa para sua substituição. Antes de encerrar a sessão, o Director propôs com o fim de ser exarado em acta, um voto de pesar pelo falecimento do Mestre efectivo da Escola, Mariano Augusto da Conceição (2).
Sobre Mestre Mariano da Conceição recolhi um depoimento (15) daquele que era director à data da sua morte, Rogério Peres Claro (1921-2015), redigido a 11 de Novembro de 2012, aos 91 anos de idade: “Conheci o Sr. Mariano da Conceição como Mestre de Trabalhos Manuais na Escola Comercial de Estremoz, entre 1951 e 1961, período da minha presença lá como Director. Era conhecido como especialmente hábil na confecção de bonecos de barro com características locais, como aliás os outros membros da sua família. Trabalhava em oficina montada no pátio de entrada do castelo, onde trabalhava também o Sr. Joaquim Prudêncio Oliveira, hábil Mestre no trabalhar do mármore da região, para o qual formou muitos artistas. A maioria dos brasões que sustém a fonte luminosa que embeleza Setúbal frente ao mercado da Avenida Luísa Todi, foram trabalho seu e dos seus alunos.
Mestre Mariano ficou lembrado não apenas pelos seus bonecos, mas infelizmente também por ter falecido ao coice de um dos cavalos que em corrida festiva atravessavam o Rossio e que presenciei. Ficou o dito de que “só ao coice o Mestre Mariano poderia ser abatido”, tão forte que ele era “
No já referido depoimento escrito (6) de Leonor da Conceição Santos sobre o tio Mariano, datado de 2012, referindo-se à sua morte diz: “O Tio Mariano foi um artista e um grande Mestre de olaria. A sua arte poderia ter-se prolongado para enriquecimento da cultura e do artesanato estremocense … mas infelizmente um acontecimento inesperado ceifou-lhe a vida aos cinquenta e poucos anos. Podemos dizer que ele estava no sítio errado, à hora errada… Um cavalo que fazia parte do raid hípico que terminava no Rossio Marquês de Pombal, espantou-se e, ou por pouca sorte, ou por ineficácia do cavaleiro, atingiu o meu tio que assistia ao evento entre muitas pessoas, ferindo-o de morte. Ainda foi para o antigo hospital, mas viria a falecer pouco tempo depois.
Foi pena Tio Mariano. Ainda guardo essa memória, como se fosse hoje. Eu tinha 16 anos. Estremoz perdeu tragicamente um Alfacinha.
Recordo-o e recordá-lo-ei sempre. Foi com ele que a arte bonequeira renasceu. Todos lhe devemos isso.”
Mariano da Conceição morreu, mas os Bonecos não
O Mestre partiu mas legou-nos os seus Bonecos. A recuperação da manufactura dos Bonecos de Estremoz não podia ficar por aqui. Surgiram continuadores e a primeira foi a sua irmã, Sabina da Conceição Santos.

BIBLIOGRAFIA
(1) - Acta da sessão de 23 de Junho de 1951 in Livro de Actas do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1948-1951) (acta nº 12).
(2) - Acta da sessão de 30 de Setembro de 1959 in Livro de Actas nº 2 do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1959-1981) (acta nº 1).
(3) - ALVES, Armando José Ruivo. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Porto, 2012. sp.
(4) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre provisório da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 3 de Dezembro de 1930 in Livro de Posses 1930-59 (folha 1v).
(5) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre efectivo da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 23 de Março de 1936 in Livro de Posses 1930-59 (folha 7v).
(6) - CONCEIÇÃO SANTOS, Maria Leonor da. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Ribamar, 2012. sp.
(7) - Falecimento (Mariano da Conceição) in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 2).
(8) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(9) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Óbito nº 193 de 1959 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(10) - Mariano Augusto da Conceição – Processo Individual de professor nº 707, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.
(11) - Mariano Augusto da Conceição - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(12) - Mariano Augusto da Conceição in O Eco de Estremoz nº 2951, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 3).
(13) – MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
(14) – Narciso Augusto da Conceição – Registo de Óbito nº 71 e 1933 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(15) - PERES CLARO, Rogério. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Setúbal, 2012. sp.
(16) - Terminou o I RAID HIPICO ALENTEJANO in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959. (pág. 3).
(17) - Um estúpido acidente atirou para a morte o sr. mestre Mariano in Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 29/09/1959. Estremoz, 1959 (pág. 1).

Publicado pela 1ª vez em 13 de Setembro de 2019
Editado no meu livro BONECOS DE ESTREMOZ

Fig. 2 - Desenho duma forma cerâmica. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto
Gonçalves, realizada a 25 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 3 - Cópia dum motivo floral. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António
Augusto Gonçalves, realizada a 26 de Março de 1931. Fotografia de autor
desconhecido. Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 4 - Decoração. Prova de Concurso de Mariano Augusto da Conceição para
Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves,
realizada a 27 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 5 - Mariano Augusto da Conceição a modelar a peça projectada na oficina de
olaria da Escola Industrial de António Augusto  Gonçalves. Arquivo fotográfico do autor.

 Fig. 6 - Mariano Augusto da Conceição a desenfornar uma das peças projectadas
 na oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 7 - As peças projectadas e executadas por Mariano Augusto da Conceição
já cozidas. Arquivo fotográfico do autor.

  Fig. 8 - Liberdade da Conceição, mulher de Mariano da Conceição a pintar
Bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português. Fotografia do
documentário “A Grande Exposição do Mundo Português” (1940),
de António Lopes Ribeiro.


Fig. 9 - Carimbos usados sucessivamente por Mariano da Conceição para marcar os
seus bonecos: MADE IN PORTUGAL (3,4 cm x 0,3 cm), ESTREMOZ / PORTUGAL
(2 cm x 0,8 cm), ESTREMOZ (2 cm x 0,8 cm). Arquivo fotográfico do autor.



[1] Mariano modelava os bonecos que eram pintados por sua mulher, Liberdade da Conceição. Mariano só pintava em último caso, sempre que havia uma encomenda grande de Bonecos. Todavia, era ele que aplicava sempre o verniz, visto a sua mulher ser uma pessoa bastante doente (13).
[2] De salientar que só a partir do momento em que se estabeleceu como bonequeiro por conta própria é que Mariano passou a auferir proventos dessa actividade. Anteriormente só fazia Bonecos na Escola, os quais conjuntamente com os Bonecos manufacturados pelos alunos, eram comercializados e as receitas resultantes da sua venda destinavam-se a custear as despesas de funcionamento da própria Escola (13).

domingo, 8 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Guilhermina Maldonado


Guilhermina Maldonado (1937-2019).

LER AINDA:

Presépios de Anabela Gomes e fotografias de Mário Tiago.
Maquineta e lâmina do autor e fotografias de José Cartaxo.
 Fotografia de Guilhermina Maldonado cedida por Estela Marques,
sua discípula.

Guilhermina Elsa Lobo Pires de Sousa Maldonado (1937-2019) foi uma artesã multifacetada cuja actividade se distribuiu, entre outras artes, pela criação de peças ao gosto conventual do século XVIII, com um destaque muito especial para as lâminas e as maquinetas ricamente trabalhadas. Para estas últimas começou a criar em 2008, figuras de presépio que eram montadas no interior das maquinetas, ainda que modelasse também pequenos presépios que não eram inseridos nelas. Comercializou os seus trabalhos durante alguns anos na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, bem como no ateliê das Irmãs Flores, em Estremoz.

BIBLIOGRAFIA
(1) – Guilhermina Elsa Lobo Pirra de Sousa Maldonado – Assento de Óbito nº 27 de 2019 da Conservatória do Registo Civil /Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(2) – Guilhermina Elsa Lobo Pirra – Assento de Nascimento nº 1029 de 2013 da Conservatória do Registo Civil /Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(3) – Guilhermina Elsa Lobo Pirra – Averbamento n.º 1 de 2013-12-03 ao Assento de Nascimento nº 1029 de 2013 da Conservatória do Registo Civil /Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(4) - MATOS, Hernâni. Arte Conventual – O falar das mãos de Guilhermina Maldonado. [Em linha]. [Editado em 5 de Abril de 2010]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2010/04/arte-conventual.html . [Consultado em 10 de Dezembro de 2017].


Guilhermina Maldonado - Presépio.

Guilhermina Maldonado - Presépio.

 
Guilhermina Maldonado - Presépio.

Guilhermina Maldonado - Presépio.

Guilhermina Maldonado - Presépio.

Guilhermina Maldonado. Maquineta com presépio com as figuras em barro.

Guilhermina Maldonado. Lâmina com altar de Santo António com a figura deste em barro.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Afonso Ginja e Matilde Ginja


Afonso Ginga a trabalhar na sua oficina-loja, na Rua Direita, n.º 5, em Estremoz.

Aconselho a leitura do texto anterior:

As fotografias aqui apresentadas são reproduzidas
com a devida vénia

Com a aposentação do irmão Arlindo (1938-2018), inicia-se um novo ciclo na vida de Afonso Ginja (1949- ). Ainda em 2011 inaugura a sua própria oficina na Rua Direita, nº 5, em Estremoz. Aí trabalha e comercializa a sua produção, no que conta com a colaboração da sua mulher Matilde da Conceição de Jesus Francisco Ginja (1953- ), que se ocupa da decoração dos Bonecos, modelando também figuras de assobio. Estes barristas comercializam ainda a sua produção na loja “Artesanato José Saruga”, no Rossio Marquês de Pombal, 98 A, em Estremoz.

BIBLIOGRAFIA
(1) - Afonso Alberto Serrano Ginja - Assento de Casamento nº 13123 de 2014 da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(2) - Afonso Alberto Serrano Ginja - Assento de Nascimento nº 3261 de 2009 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(3) - Arlindo de Jesus Ginja – Assento de Casamento nº 462 de 2015 da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(4) - Arlindo de Jesus Ginja – Assento de Nascimento nº 335 de 2014 da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(5) - Arlindo de Jesus Ginja – Assento de Óbito nº 266 de 2018 da Conservatória do Registo Civil /Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(6) - Matilde da Conceição de Jesus Francisco - Assento de Nascimento nº 57195 de 2011 da Conservatória do Registo Civil de Lisboa.



Entrada da oficina-loja de Afonso Ginja, na Rua Direita, n.º 5, em Estremoz.

Afonso Ginja: Nossa Senhora da Conceição.

Afonso Ginja: Senhor dos Passos.

Afonso Ginja: Mulher a lavar a roupa.

Afonso Ginja: Primavera de plumas.

Afonso Ginja: Amor é cego.

Afonso Ginja: Cantarinha enfeitada.

Afonso Ginja: Púcaro enfeitado

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Cágueda com fecho na patilha



Fig. 1

A cágueda (Fig. 1) é um artefacto de arte pastoril em madeira que serve de fecho de coleira de gado com chocalho suspenso. Para tal, o chocalho é suspenso de uma correia de couro em cujas extremidades se fazem dois cortes longitudinais. O fecho da coleira é colocado horizontalmente, no ponto exacto em que as extremidades das coleiras se sobrepõem. Para tal é enfiado por um dos lados dos cortes, saindo pelo oposto, de modo a uni-los no rebaixo que tem por função evitar a sua queda ou deslocamento.
A parte que se enfia nos cortes da coleira chama-se “patilha” e é estreita para a cágueda ser mais fácil de enfiar e desenfiar na coleira. A patilha apresenta um "rebaixo" que impede a sua deslocação sem voltar para cima a parte posterior, inteiramente lisa. À parte mais larga por onde se pega a cágueda, dá-se o nome de “cabeça”.
No presente exemplar (Fig. 1), o rosto da cabeça é ligeiramente convexo, quase horizontal e situa-se num plano inferior ao rosto da patilha, que desce abruptamente até à junção da cabeça (Fig.2). O reverso da cágueda é plano.
A geometria da cabeça é circular e com o contorno liso. A decoração no rosto da cabeça recorreu a incisões pouco profundas e foi esculpida com motivos geométricos que apresentam simetria radial. Como elemento decorativo central, destaca-se um hexafólio com folhas delimitadas por sulcos contínuos e nas quais se inscrevem sucessivamente no seu interior, uma folha com limites pontinhados e outra com limites contínuos. Entre cada par de folhas do hexafólio encaixa um losango de lados encurvados, definido por linhas contínuas, no interior do qual se inserem sucessivamente dois losangos igualmente encurvados e definidos por linhas contínuas. Cada folha do hexafólio penetra num sector circular assente nos limites do contorno circular da cabeça. De cada lado de cada uma das folhas do hexafólio, na porção de sector circular correspondente, inserem-se sucessivamente dois triângulos de lados encurvados, o primeiro dos quais com o fundo liso e o segundo com o fundo preenchido por linhas paralelas à base do triângulo.
A patilha (Fig. 2) tem uma tampa móvel em torno de um eixo de madeira cravado verticalmente nela (Fig. 3). Na extremidade oposta ao eixo de rotação apresenta uma ranhura rectangular (Fig. 3) onde se articula um fecho em madeira (Fig. 4) que encaixa no topo da patilha (Fig. 5). Tal como a cabeça, a tampa da patilha foi decorada com incisões pouco profundas. O bordo da tampa é liso, mas apresenta uma serrilha em direcção ao seu interior e com uma forma ogival com base na região do fecho e topo na região do seu eixo de rotação. No interior da serrilha ogival inserem-se sucessivamente duas ogivas decoradas com figuras aproximadamente quadradas. No interior desta ogiva foram definidas figuras aproximadamente rectangulares, comportando dois triângulos inscritos um no outro, com as bases paralelas ao topo da patilha e com um vértice apontando para o eixo de rotação.   
No reverso da patilha (Fig. 6) observam-se as iniciais M.A.C incisas a negro num rectângulo igualmente inciso, mas pintado de vermelho. Trata-se das iniciais de Manuel António Capelins, um pastor que nos anos 60 do séc. XX já deixara o rebanho primeiro e o trabalho nas pedreiras depois, para se dedicar em exclusivo à arte pastoril, o que fazia no monte em que habitava na freguesia de Santa Maria, concelho de Estremoz.




Fig. 2

Fig. 3

Fig. 4

Fig. 5

Fig. 6

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Bonecos de Estremoz: Irmãos Ginja


 Os irmãos Ginja quando trabalhavam, na  oficina do Museu Municipal de Estremoz. Fotografia
reproduzida com a devida vénia do blogue http://evatrainanet.blogspot.com

Irmãos Ginja foi a designação pela qual era conhecida a sociedade constituída pelos irmãos Arlindo de Jesus Ginja (1938-2018) e Afonso Alberto Serrano Ginja (1949- ), naturais de Estremoz.
Arlindo trabalhou como decorador na Olaria Regional de José Ourelo, na qual Mário Lagartinho era rodista. Quando este último se começa a dedicar à produção de Bonecos, desafia Arlindo a acompanhá-lo, o que este aceita, trabalhando os dois aos serões numa casa próxima da Olaria Regional.
Quanto a Afonso teve como formação de base o Curso de Cantaria da Escola Industrial de Estremoz e trabalhou como canteiro artístico durante alguns anos. A partir de determinada altura começou também a modelar Bonecos com o seu irmão e com Mário Lagartinho.
Em 1976, o professor Joaquim Vermelho, director da Biblioteca e do Museu Municipal de Estremoz, incentivou-os a trabalhar sozinhos e conseguiu autorização para que trabalhassem à noite num espaço adaptado da Biblioteca, o que fizeram durante dois anos, sem contudo abandonar as suas profissões.
Em 3 de Março de 1978, o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico contratou-os como funcionários públicos dele dependentes. Em 20 de Dezembro de 1979 é inaugurada a oficina para eles construída no Museu Municipal. Ali passaram a trabalhar e a comercializar a sua produção, ao mesmo tempo que mostravam aos visitantes do Museu o modo como são feitos os Bonecos. Foi uma actividade que durou 32 anos, até à aposentação de Arlindo em 2011. Pelo caminho ficou o projecto inicial de ali criar uma Oficina-Escola.


BIBLIOGRAFIA
(1) - Afonso Alberto Serrano Ginja - Assento de Casamento nº 13123 de 2014 da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(2) - Afonso Alberto Serrano Ginja - Assento de Nascimento nº 3261 de 2009 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(3) - Arlindo de Jesus Ginja – Assento de Casamento nº 462 de 2015 da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(4) - Arlindo de Jesus Ginja – Assento de Nascimento nº 335 de 2014 da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(5) - Arlindo de Jesus Ginja – Assento de Óbito nº 266 de 2018 da Conservatória do Registo Civil /Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
(6) - MOREIRA, Maria da Conceição. Breve notícia sobre a arte barrista de Estremoz, Separata da revista “Natureza e Paisagem”, nº 5, 1978. Serviço Nacional de Parques Reservas e Património Paisagístico. Lisboa, 1978.


Publicado inicialmente em 26 de Agosto de 2019

Irmãos Ginja. Sagrada Família.

Irmãos Ginja. Nossa Senhora da Conceição.

Irmãos Ginja. Nossa Senhora da Conceição.

São Sebastião. Irmãos Ginja.

São Pedro. Irmãos Ginja.

Primavera de plumas. Irmãos Ginja.

Namoro junto ao poço. Irmãos Ginja.

Castiçais. Irmãos Ginja.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Bonecos de Estremoz: Irmãs Flores (1.ª parte)


Fig. 1 - Irmãs Flores. Perpétua (1958- ) à esquerda e Maria Inácia (1957) à direita.
Fotografia de 2018 da autoria de Luís Mendeiros. Arquivo fotográfico do autor.

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que serão publicadas sucessivamente.
Esta é a 1.ª parte.

LER AINDA

Irmãs Flores foi o nome escolhido como barristas, pelas irmãs Maria Inácia Fonseca e Perpétua Fonseca, como forma de homenagear a sua mãe, já que dela não herdaram o apelido Pisa-Flores.
Maria Inácia Fonseca é natural de São Bento do Ameixial, Estremoz, onde nasceu a 30 de Abril de 1957. Filha legítima de João Inácio Fonseca, de 34 anos de idade, motorista, e de Matilde Augusta Pisa-Flores, também conhecida por Matilde Augusta Casaca, de 34 anos de idade, doméstica, ambos residentes no Monte do Papa Tremoços (1). Dos 12 aos 15 anos trabalhou no campo em tarefas sazonais e fora delas foi costureira. Entre 1975 e 1980 frequentou a Escola Secundária de Estremoz, onde concluiu o Curso Complementar dos Liceus (2). Em 17 de Setembro de 1977 casou catolicamente com João Alberto Mateus, comerciante, e adoptou o apelido Mateus.
Perpétua Matilde Fonseca, irmã de Maria Inácia e filha dos mesmos pais, nasceu no mesmo local, a 7 de Abril de 1958 (6). Dos 12 aos 17 anos foi cabeleireira. Entre 1975 e 1980 frequentou a Escola Secundária de Estremoz, onde concluiu o Curso Geral dos Liceus (7). Em 11 de Maio de 1985 casou catolicamente com Francisco Maria Marranita Sousa, electricista, e adoptou o apelido Sousa.

Discípulas de Mestra Sabina Santos
Maria Inácia e Perpétua são discípulas de Mestra Sabina Santos com quem começaram a trabalhar (Fig. 2), a Maria Inácia em 1972 e a Perpétua em 1975. Quando falam de Mestra Sabina Santos fazem-no com enlevo e saudade. Com ela aprenderam a arte que transmitiram a seu sobrinho Ricardo Fonseca, um barrista de corpo inteiro, que com elas trabalha, lado a lado.
Com a aposentação de Mestra Sabina Santos, em 1988, ficaram com o legado dos seus utensílios, tintas, moldes das caras e dos tronos e Bonecos mais antigos. Criaram então a sua própria oficina-ateliê, primeiro na Rua das Meiras, 8 e daí transitaram, em 1999, para o Largo da República, 16. Aqui se mantiveram até 2010, ano em que se fixaram no Largo da República, 31-32 (Fig. 1), sempre na procura de melhores condições de trabalho e de atendimento do público.
Na minha condição de etnólogo amador e autodidacta, o registo etnográfico das imagens profanas, e em particular dos personagens da faina agro-pastoril, será porventura o mais forte atractivo dos Bonecos de Estremoz, que me leva à oficina-loja das irmãs Flores, minhas vizinhas, a quem visito amiúde no Largo da República, fascinado pela magia emergente das suas mãos de barristas populares.

O Traje Popular Português 
Em 2007 lancei às Irmãs Flores o desafio de criar novos modelos de Bonecos de Estremoz, inspirados maioritariamente em aguarelas de Mestre Alberto de Sousa. O resultado foi a criação de 36 novas figuras que deram origem à colecção “O Traje Popular Português” e a uma exposição homónima que, numa iniciativa da Associação Filatélica Alentejana, esteve patente ao público de 17 de Fevereiro a 21 de Abril de 2007, no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz.

Bonecos da Gastronomia
Como fruto de uma incursão à oficina-loja das irmãs Flores, resultou o livro “Bonecos da Gastronomia” (3), dado à estampa em 2009, numa edição da Câmara Municipal de Estremoz, por ocasião da XVII Cozinha dos Ganhões. A 1ª edição deste livro é ilustrada por 16 imagens de Bonecos das Irmãs Flores, dos quais 11 são “Bonecos da Tradição” e 5 são “Bonecos da Inovação” (Coqueira, Queijeira, Mulher a cozinhar, Padeiro e Vendedora de queijos).
A materialização do livro foi possível graças ao companheirismo do poeta António Simões, das barristas Irmãs Flores, do fotógrafo José Cartaxo e do designer Carlos Alves. A concretização duma ideia inicial minha, encheu-nos a todos de imenso júbilo e desde logo foi equacionado o desenvolvimento mais aprofundado dessa ideia.
Decorrido um ano sobre a primeira edição do livro “Bonecos da Gastronomia”, reconheci que este começou por ser um trabalho de base. Daí que numa primeira fase tivesse concluído que o conjunto dos dezasseis Bonecos que figuraram na primeira edição do livro pudesse ser estruturado, agrupando--os em cinco subconjuntos perfeitamente hierarquizados: Recolha de matérias-primas, Preparação de matérias-primas, Confecção de alimentos, Venda e distribuição de alimentos e Consumo de alimentos.
Numa segunda fase, efectuei o levantamento do que podia ser acrescentado a cada subconjunto, visando torná-lo mais completo. Depois de alguma reflexão, os “Bonecos da Gastronomia” (4), passaram a ser em número de trinta e seis, tendo sido introduzidos vinte e um novos Bonecos e abandonado outro. Desses vinte e um Bonecos, sete já pertenciam à galeria tradicional dos Bonecos de Estremoz. Os restantes catorze foram criação das Irmãs Flores. São eles: Azeitoneira, Caçador, Pescador, Roupeiro, Amassadeira, Forneira, Pisador, Manteeiro, Aguadeira da ceifa, Vendedora de criação no mercado, Taberneiro, Mondadeira a comer, Mulher ao poial dos cântaros e Homens a petiscar.
Nessa criação, efectuada com um severo respeito pela tradicional técnica de manufactura dos Bonecos de Estremoz, foi por vezes utilizada documentação do meu arquivo fotográfico, o que permitiu conferir rigor à contextualização de cada figura.

Alentejo do Passado
Em 2011 lancei às Irmãs Flores o desafio de criarem figuras que integrassem uma colecção que designei por “Alentejo do Passado”, estruturada em 8 grandes áreas, procurando dar uma visão do Alentejo do passado: Pastorícia, Colecta, Ciclo do pão, Ciclo do azeite, Ciclo do vinho, Tiragem da cortiça, Na horta, Na cidade. Esta colecção absorveu a colecção “Bonecos da Gastronomia”, mas com vista à sua concretização foram criados 34 novos “Bonecos da inovação” (Pastor a fazer colher, Ordenha de ovelhas, Tosquia de ovelhas, Roupeiro a caminho da rouparia, Ordenha de vacas, Porqueiro, Lavrador a cavalo, Semeador, Ganhão a lavrar, Mondadeira a mondar, Ceifeiro, Carreteiro transportando molhos de trigo, Debulha com trilho numa eira, Carreteiro transportando sacos de trigo, Moleiro no moinho, Varejador, No rabisco, Juntando a azeitona, Vindimadora a vindimar, Vindimador a carregar cesto com uvas, Transporte de uvas no tino, Adegueiro, Tirador de cortiça, Empilhador, Carrada de cortiça, Hortelão, Hortelão a caminho do mercado, Peixeiro, Talhante, Ervanário, Brinholeira, Mulher ao pé do poço, Mulher acarretando água, Família a comer).
A colecção “Alentejo do Passado” deu origem a uma exposição homónima, de iniciativa da Associação Filatélica Alentejana e que esteve patente ao público, de 19 de Novembro de 2011 a 14 de Janeiro de 2012, no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. Os visitantes foram confrontados com barrística popular do mais alto nível, que regista com rigor e fidelidade o que eram as fainas agro-pastoris do Alentejo d’antanho, bem como a vida na cidade, até cerca de meados do século XX.

Memórias do Tempo das Outra Senhora
Em 2012, associando-se ao lançamento do meu livro “MEMÓRIAS DO TEMPO DA OUTRA SENHORA / ESTREMOZ--ALENTEJO”(……..), as Irmãs Flores criaram 6 novos “Bonecos da Inovação” (o Professor, o Sapateiro Joaquim António Chouriço, o Cavalinho de pau, Jogo do botão, Corrida de rodas e Jogo do pião), que passaram a integrar a colecção “Alentejo do passado”, patente ao público na Sala de Exposições da Associação Filatélica Alentejana no Centro Cultural de Estremoz.

Mudança de Paradigma
Do exposto se conclui que os “Bonecos da Inovação” vieram enriquecer (e de que maneira!), a barrística popular estremocense. Com a criação de “Bonecos da Inovação”, houve mesmo nalguns casos uma “Mudança de Paradigma”, com a nossa barrística a atingir a sua mais alta expressão, na confecção de figuras mais complexas e de execução mais morosa. Cito como exemplo figuras de “Alentejo do Passado” tais como: Ganhão a lavrar, Lagareiro, Carreteiro transportando molhos de trigo, Debulha com trilho na eira, Carreteiro transportando sacos de trigo, Moleiro no moinho, Transporte de uvas no tino e Carreteiro transportando cortiça.
As Irmãs Flores estão de parabéns, pois sem se afastarem um milímetro sequer dos cânones tradicionais da barrística popular estremocense, têm sabido inovar, criando novos públicos com apetência por aquilo que é diferente dentro do tradicional. E elas estão no caminho certo, pois se a sua mestria é pautada, por um lado, pela mais estrita fidelidade aos materiais, à tecnologia e às cores, não deixam todavia de manifestar inquietude que se expressa na criação de novos modelos de Bonecos de Estremoz, que têm a ver com a nossa identidade cultural, local e regional. Por isso são embaixatrizes de vanguarda da nossa Arte Popular transtagana e a comunidade estremocense revê-se com enlevo na elevada qualidade artística do seu trabalho, o que aqui se testemunha, por ser uma verdade insofismável. Bem hajam pois, pelo deleite de espírito que nos proporcionam e que muito contribui para o reforço da identidade cultural alentejana.

Participação em certames
Até ao presente, já participaram nas seguintes feiras: Fatacil (Lagoa), Vila Franca de Xira, Pombal, FIA (Lisboa), Vila do Conde, Foz do Douro (Porto), Palácio de Cristal (Porto), Mercado Ferreira Borges (Porto), Santo Tirso, FIAPE (Estremoz) e Cozinha dos Ganhões (Estremoz). Actualmente só participam nas duas últimas.
Em Portugal têm participado em exposições individuais e colectivas no Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho, no Museu de Olaria de Barcelos e no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa. No estrangeiro expuseram em Valladolid, Nantes, Paris (Notre Dame), Bruxelas, Hamburgo, Toronto e Brasil.

Discípulos
Maria Inácia tem uma filha, Sónia Mateus (1979- ), que foi aluna da minha mulher e que é professora no Instituto Politécnico de Castelo Branco. Perpétua tem um filho, João Sousa (1986- ), que foi meu aluno e é médico. Como “Filho de peixe, sabe nadar”, os primos revelaram naturais aptidões para modelar o barro ao modo de Estremoz. Tenho na minha colecção peças modeladas por eles na juventude e com as respectivas marcas de autor.
Na oficina-ateliê das Irmãs Flores, além de trabalhar o seu sobrinho, Ricardo Fonseca, trabalha Leolinda Inácia Parreira Pereira (1966- ), uma colaboradora que se ocupa de tarefas de pintura.

BIBLIOGRAFIA
1 - Maria Inácia Fonseca - Assento de Nascimento Informatizado nº 1008 de 2009, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
2 - Maria Inácia Fonseca - Processo individual de aluna nº 4260.
3 - MATOS, Hernâni. Bonecos da Gastronomia – 1ª ed. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2009.
4 - MATOS, Hernâni. Bonecos da Gastronomia – 2ª ed. Associação Filatélica Alentejana. Estremoz, 2010
5 - MATOS, Hernâni. Memórias do Tempo da Outra Senhora / Estremoz – Alentejo. Edições Colibri. Lisboa, 2012.
6 - Perpétua Matilde Fonseca - Assento de Nascimento Informatizado nº 676 de 2009, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
7 - Perpétua Matilde Fonseca - Processo individual de aluna nº 4263.


Fig. 2 - Sabina Santos (1921-2005) nos anos 70 do séc. XX, tendo à sua direita as
discípulas Maria Inácia Fonseca (1957- ) e Perpétua Sousa (1958- ).
Fotografia de Xenia V. Bahder. Arquivo fotográfico do autor.