domingo, 6 de junho de 2010

Unir braços do mesmo rio

Delta do rio Parnaíba (Brasil), um rio que desagua por múltiplos braços. 

Perfilho há muito a ideia de que é necessário estabelecer pontes de entendimento entre as pessoas. Cada um de nós não está atomizado na sua individualidade, uma vez que a própria vida se encarrega de nos integrar em múltiplos grupos com características diversas, nem sempre convergentes.
Alguns grupos são fechados, com códigos de conduta rígidos que a pretexto da pureza de princípios, os incapacitam de dialogar com os restantes. Entre grupos fechados só são possíveis conversas de surdos, já que como não se ouvem uns aos outros, não sabem o que os outros dizem.
Uma atitude distinta é cada um de nós e os grupos em que se insere, procurarem ouvir os outros para perceber o que eles dizem, pensam e querem. Como retribuição podem ser ouvidos e os outros ficarão a saber o que dizemos, pensamos e queremos. É possível então chegar à conclusão de que partilhamos algumas ideias comuns, o que torna possível construir algo em conjunto, facto que introduzirá laços de união entre nós. É a unidade na diversidade.
Com o tempo é possível que a área de partilha aumente, mas também é possível que não. Porém, ficámos a saber o que os outros pensam e a respeitá-los porque nos respeitam a nós. E uma coisa é certa, a partilha é só de coisas que nos unem, não de coisas que nos separam. Podemos com outros partilhar amigos, se não todos, alguns. O que não somos é obrigados a partilhar os adversários. Isso é terreno que não é partilhável.
Uma das muitas coisas que partilho com os outros é a escrita, instrumento de libertação do Homem. Filho de alfaiate, aprendi a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido de estar hoje, aqui.
Furiosamente independente, serei sempre incisivo, cáustico quanto baste, mas sempre preciso. Serei “O FRANCO ATIRADOR”.

Publicado também no nº 86 do Jornal ECOS

sábado, 5 de junho de 2010

Nós e os números - O número dois


Mulher do Minho, ornada com filigrana portuguesa,
nomeadamente um par de brincos.

AONDE SE FALA DO DOIS

Na MATEMÁTICA, “dois” é o sucessor de “um”, o antecessor de “três”, o dobro de “um”, o segundo número natural, o primeiro número primo e máximo divisor comum de “dois” com todos os números.
Na FÍSICA, “duas” são as leis da reflexão da luz, “dois” sentidos tem a corrente eléctrica alterna e “dois” é o número máximo de electrões de um elemento do primeiro período da Tabela Periódica dos Elementos.
Na GEOGRAFIA, “dois” Equinócios (Vernal e Outonal) e “dois” Soistícios (de Verão e de Inverno) tem o ano, “dois” são os hemisférios terrestres e “duas” são as margens de um rio.
Na ZOOLOGIA, “dois” é o número de alguns órgãos da espécie humana (braços, mãos, pernas, pés, orelhas, olhos, narinas, nádegas, rins, pulmões) e “dois” cornos tem o gado bovino, caprino e ovino. “Duas” são as asas e as patas das aves, assim como “duas” são as conchas dos moluscos bivalves (amêijoas, ostras, vieiras, etc.).
Na MINERALOGIA, “dois” é a dureza da selenite na escala de dureza de Mohs e a fusibilidade da natrolite na escala de fusibilidade de Kobell.
No ANO, “dois” são os semestres.
No DESPORTO, “duas” balizas têm os campos de futebol, andebol, basquetebol, hóquei e pólo, tal como “dois” pedais tem uma bicicleta.
No TRÂNSITO “duas” são as bermas de uma estrada.
Na TECELAGEM, “duas” séries de fios perpendiculares (urdidura e trama) por entrelaçamento no tear produzem o tecido.
No ADORNO “dois” são os brincos da mulher.
Na HISTÓRIA, “duas” foram as bombas atómicas lançadas pelo exército americano sobre o Japão, durante a segunda guerra mundial. (Hiroshima e Nagasáki).
Na BÍBLIA “dois” braços tem a cruz onde foi pregado Jesus e “dois” foram os ladrões que morreram com ele na cruz.
Na SUPERSTIÇÃO, crê-se que “Quando “dois” relógios dão horas ao mesmo tempo, é sinal de morte repentina". Igualmente se crê que “O homem é sempre acompanhado de “dois” anjos. O anjo da guarda à sua direita e o anjo mau (o demónio) à sua esquerda”.
Na LÓGICA, “dois” são os opostos [sim e não, yin e yang (taoismo), preto e branco, alto e baixo, gordo e magro, esquerdo e direito, dentro e fora, cima e baixo, frente e trás, longe e perto, positivo e negativo, céu e inferno, antes e depois, princípio e fim].
O cardinal “dois” faz parte da LINGUAGEM METAFÓRICA:

Fazer dominó para os dois lados = Fazer jogo duplo
Ficar como dois com um sapato = Ficar indeciso, ficar desfalcado
Levar duas lamparinas = Levar um par de estalos
Navegar em duas águas = Fazer jogo duplo
Tão certo como dois e dois serem quatro = Coisa que não sofre discussão

Também o ordinal “segundo” integra a LINGUAGEM METAFÓRICA:

 Pão segundo = Pão de mistura de farinhas diferentes de trigo
Segundo estado = Matrimónio
Segundo a segundo = Constantemente
Sem segundo = Sem rival

O “dois” é um número que também aparece em muitos PROVÉRBIOS, tais como:

”Abre um olho para ver e dois para comprar”
”As duas faces da mesma moeda”
"A duas palavras, três porradas"
"Companhia de dois, companhia de bons"
”Dá duas vezes quem de pronto dá”
”Dá-lhe uma e promete-lhe duas”
”Dois detestam-se, três aborrecem-se”
”Dois divertem-se, três aborrecem-se”
”Dois não brigam quando um não quer"
"Dois narigudos nunca se beijam"
”Dois pesos, duas medidas”
”Dois pobres à mesma mesa, um deles fica sem esmola”
”Dois proveitos não cabem no mesmo saco”
”Dois sacos vazios não ficam em pé”
”Duas aves de rapina não se fazem companhia”
”Duas ceias em um só ventre cabem”
”Duas crias más cabem num ventre”
”Duas mortes sofre, quem por mão alheia morre”
”Duas mulheres e um pato fazem uma feira”
"Duas orelhas, uma só língua: ouve duas vezes por cada vez que falas"
”Duas pedras duras não fazem farinha”
”Duas pedras duras não ligam bem”
”Duas velas a arder, deitam a casa a perder”
”Duas vezes é perdido o que ao ingrato é concedido”
”Duas vezes é tolo: quem faz o mal e o apregoa”
"Entre dois dentes molares nunca metas os polegares"
”Há pessoas que têm duas caras como o feijão-frade”
”Hoje um, amanhã dois, ao outro dia três ou quatro, depressa enche o saco”
”Homem prevenido vale por dois”
”Jogar com um pau de dois bicos”
”Mais vale um ano de tarimba do que dois em Coimbra”
”Mais vale um pé que duas muletas”
”Mais vale um toma que dois te darei”
”Matar dois coelhos de uma cajadada”
”Moços e bois de um ano a dois”
”O que não se faz numa vez, faz-se em duas ou três”
”O segundo é o primeiro dos últimos”
”Onde comem dois, comem três”
"Quem a dois amos quer servir, a um há-de mentir"
”Quem se abriga debaixo de folha, duas vezes se molha”
"Quem em pedra duas vezes tropeça, não é muito quebrar a cabeça"

O número “dois” tem a ver com a partilha de funções, com a complementaridade de funções, com a lógica binária do sim ou não. Para os pitagóricos representa a opinião ou se quisermos o conflito, a oposição e a imobilidade momentânea quando as forças são iguais.
"Dois” que matematicamente resulta de somar “um” com “um”, quantitativamente é mais do que as partes, o que lembra o provérbio “A união faz a força”, que é ainda o título de uma fábula de Esopo, que pode ser contada assim:
Um lavrador estava gravemente doente. Preocupado com os conflitos permanentes entre os seus quatro filhos, resolveu dar-lhes uma lição. Chamou-os, mostrou-lhes um feixe de gravetos amarrados e disse-lhes:
 - "Como vocês sabem, estou doente e posso morrer a qualquer instante. Aquele que conseguir despedaçar estes gravetos só com as mãos, será o meu único herdeiro”.
Os filhos estranharam, mas aceitaram o repto. Todos tentaram e não conseguiram. Foi então que o lavrador pediu o feixe a anunciou que ele mesmo iria quebrá-lo. Incrédulos assistiram ao pai a desfazer o feixe e a quebrar os gravetos um por um. Disse então aos filhos:
-“Vocês são como este feixe. Enquanto estiverem unidos, poderão sempre contar com o apoio uns dos outros. Porém, separados, vocês são tão frágeis como cada um destes gravetos isolados”.
Trata-se apenas duma fábula, mas a verdade que encerra “A união faz a força” essa é inquestionável.

A união faz a força – cartoon de Netto, publicado em “Tribal Wars”

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Nós e os números - O número um

Narciso (1594-1596), por Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), Palazzo Barberini, Roma.

NÓS E OS NÚMEROS
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A vida é, de certo modo, um gigantesco caderno de Matemática. São múltiplos e diversificados os campos e domínios do conhecimento que recorrem aos números. A estatística, a economia, a contabilidade, as sondagens de opinião, a lotaria, o controle de qualidade, as ciências exactas, a arquitectura, a engenharia, etc., etc., etc.,...
Os números são tão importantes na nossa vida como o ar que respiramos ou o chão que pisamos.
Para a maioria das pessoas, os números representam quantidades, pelo que eu, como bom filho do sistema não fujo à regra. Como Físico procuro decifrar a natureza, de modo a torná-la inteligível. A minha Leitura traduz-se, assim, por números, na mais ampla vastidão deste conceito. Contudo, a própria natureza dos sistemas físicos, leva-me a ter de seleccionar de entre os números que são soluções matemáticas de problemas físicos, aqueles e apenas aqueles (Oh grau supremo da exigência física!), que são fisicamente aceitáveis.
Apesar de tudo e pese embora o facto de estar familiarizado com os números na óptica estrita que acabo de esquematizar, não posso, nem por mera fracção infinitesimal de segundo, deixar de ser assaltado por dúvidas que sendo estruturalmente cartesianas, têm a ver com a minha maneira própria de ser e estar no mundo - este álbum em que, cromos animados, procuramos ser argumentistas, realizadores e autores dos nossos próprios destinos.
Nessa assunção de vida, a minha produção é divergente, o que me leva a procurar conhecer sempre as múltiplas facetas dum problema, sob os mais diferentes ângulos e com abordagens diversas. Do confronto e do tratamento de toda a informação, resulta a síntese unificadora, que me permite ter uma visão o mais global possível da realidade.
No caso dos números, importa-me saber o modo como outros os vêem, quais os números que ocorrem nos vários domínios do conhecimento e porquê uns e não outros. Por outro lado, qual o simbolismo dos números? Que números aparecem na mitologia e nas religiões? Que números aparecem na antropologia, nas ciências exactas e na literatura oral? Parafraseando o nosso Vasco Santana na aldeia dos macacos, é caso para dizer “Números há muitos...”, embora por questões óbvias de conveniência retórica, não subscreva solidariamente o remanescente da frase omissa.
Porque o meu “eu” tem a ver convosco, oh portadores ignotos das mais diversificadas valências numéricas, o título do meu post só podia ser um: "NÓS E OS NÚMEROS".
No quadro seguinte figuram  os vários tipos de números correntes, bem como aquilo que indicam e exemplos. Sobretudo a nível de provérbios, aparecem os vários tipos de números:

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AONDE SE FALA DO UM
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Na MATEMÁTICA, “um” é o menor número natural e um é o ponto de tangencia de duas figuras planas ou sólidos geométricos.
Na FÍSICA, “um” sentido tem a corrente eléctrica contínua. Na ZOOLOGIA, “um” é o como do rinoceronte e do unicórnio e um é o número de alguns órgãos da espécie humana (nariz, boca, língua, esófago, faringe, laringe, traqueia, estômago, fígado, vesícula biliar, pâncreas, intestino fígado, intestino grosso, recto, ânus, bexiga).
Na MINERALOGIA, “um” é a dureza do talco foliáceo na escala de dureza de Mohs.
No DESPORTO: “uma” bola têm jogos como o futebol, o voleibol, o basquetebol, o andebol, o basebol, o ténis, o badmington e o pólo; uma rede tem o campo de ténis e de badmington; um é o apito do árbitro.
Na MUSICA, “uma” é a batuta do maestro.
Em POLÍTICA, “um” é o Presidente da República na República, bem como “um” é o Rei na Monarquia. Numa religião monoteísta como o cristianismo, o islamismo ou o budismo, há “um” só Deus.
O número “um” tem a ver com o poder supremo e absoluto, com a responsabilidade exclusiva e a lógica univalente. Para os pitagóricos o “um” representava a razão por ser imutável.
Na LINGUAGEM COMUM, a palavra “um”, combinada com outras palavras, assume determinados significados, o que lhe confere equivalência a outras frases. Assim:
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Um e outro = Ambos
Nem um nem outro = Nenhum dos dois
Um ao outro = Reciprocamente
Um a um = Individualmente
Um tanto ou quanto = Em grau que se não quer determinar
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O “um” é um número que também aparece em bastantes PROVÉRBIOS, tais como:
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“A primeira é rodilha a segunda é senhora“
Abre um olho para ver e dois para comprar“
“Amizade de um dia recordação de um minuto“
“Ao cabo de um ano tem o criado as manhas do amo“
“Cabrito e leitão de um mês e cordeiro de três“
“Dá-lhe uma e promete-lhe duas“
“Deus fecha uma porta e abre um cento“
“Doze galinhas e um galo comem como um cavalo“
“Hoje um amanhã dois ao outro dia três ou quatro depressa enche o saco“
“Leitão de um mês e marreco de três “
“Leitão de um mês e pato de três “
“Leitão de um mês cabrito de três“
“Mais caga um boi que mil mosquitos“
“Mais descobre uma hora de jogo que um ano de conversação“
“Mais vale um ano de tarimba do que dois em Coimbra“
“Mais vale um asno que me leve que um cavalo que me derrube“
“Mais vale um bom amigo que honra de parente“
“Mais vale um bom desengano que ar toda a vida enganado“
“Mais vale um carneiro nosso que um rebanho da sociedade“
“Mais vale um farto que cem famintos“
Mais vale um feio alegre que um bonito tristonho“
“Mais vale um gosto na vida que cem mil réis na algibeira“
“Mais vale um gosto na vida que três vinténs“
Mais vale um não a tempo que um sim retardado“
“Mais vale um ovo hoje que uma galinha amanhã“
“Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar“
“Mais vale um pé que duas muletas”
“Mais vale um que bem mande do que dois que bem façam“
“Mais vale um toma que dois te darei“
“Mais vale um vizinho à mão que longe um irmão“
“Mais vale uma aguilhada que cem arres“
“Mais vale uma boa sentença que um bom acordo“
“Mais vale uma dor que cem“
“Mais vale uma égua que me carregue que um cavalo que me derrube“
“Mais vale uma hora de obediência que um ano de penitência“
“Mede cem vezes e corta uma“
“Mesmo a um homem morto quatro homens para o tirar de casa“
“Moços e bois de um ano a dois“
“O que não se faz numa vez faz-se em duas ou três“
“O que um não quer dois não fazem“
“Ovo de uma hora pão de um dia vinho de um mês“
“Quem duma escapa cem anos dura“
“Uma maçã pode apodrecer um cento“
“Vale mais um amigo que cem parentes“
“Vale mais um pássaro na mão que dois a voar“
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A definição de amor de Almada Negreiros (o tal "poeta de Orfeu, futurista e tudo...") é dada pela proposição:
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"Um mais um igual a um"
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Simbolizando, segundo creio, a fusão do corpo e do espírito, a comunhão e a identidade. Encarando matematicamente uma tal operação, teríamos:
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1+1=1
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Por outras palavras, o elemento 1 é o elemento neutro da operação + e é único, mas só operado consigo próprio é igual a si mesmo. Porém, operar consigo próprio, é amar-se a si mesmo. Daí que do amor narcisista não resulte mais que o próprio ente narcisista. Não há valor acrescentado, nem ganho físico, nem ganho espiritual nesta forma peculiar de amar. Penso que usando a notação biológica, a melhor definição de amor pode ser dada através do esquema:


Hernâni Matos

terça-feira, 1 de junho de 2010

Distorção da Imagem da Mulher


A MULHER EM BILHETES-POSTAIS HUMORÍSTICOS DA 1ª REPÚBLICA E DO ESTADO NOVO

Os bilhetes-postais ilustrados, como forma de comunicação foram inventados pelo livreiro alemão A. Schwartz em 1870 e comercializados em 1875. De então para cá, a nível mundial nunca mais cessou a sua edição. São utilizados para comemorar efemérides, fazer propaganda oficial ou religiosa, divulgar monumentos, paisagens ou costumes regionais, evocar acontecimentos históricos, veicular humor, etc.
O bilhete-postal ilustrado antigo tem hoje valor patrimonial e é indiscutível o seu valor como documentário topográfico, etnográfico, histórico, sociológico e artístico de um país.
Nos bilhetes-postais humorísticos, múltiplos são os temas. Fixemo-nos num: a mulher.
A mulher sai muito maltratada na imagem que dela é dada por alguns bilhetes-postais ilustrados humorísticos tanto do tempo da nossa I República como do Estado Novo.
A mulher é velha, feia, careca, gorda, grandalhona, peituda, peluda ou tem ar ameaçador. Por isso, há que lhe amarrar as mãos, tapar-lhe a boca para não falar ou pregar-lhe mesmo a língua num poste. A mulher é falsa porque usa postiços. E se os bilhetes-postais ilustrados republicanos chamam cadela à mulher quando lhe põem um açaime para não morder, os bilhetes-postais ilustrados do Estado Novo, vão ao ponto de pôr a mulher numa casota canina.
Estes postais ilustrados veiculam um humor sexista, satirizando a mulher como inferior ao homem. E que se passava, entretanto, a nível social?

A LUTA DA MULHER PELA IGUALDADE DE GÉNERO

Em 1907, um grupo de mulheres fundara o “Grupo Português de Estudos Feministas” [1], visando difundir os ideais da emancipação feminina e doutrinar as portuguesas através da edição de uma colecção de livros relacionados com a propaganda feminista.
A partir daquele grupo vai fundar-se em 1908, uma associação política e feminista, a “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas” [2], com a finalidade de orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos, a mulher portuguesa, fazer propaganda cívica inspirada no ideal republicano e democrático e promover a revisão das leis na parte respeitante à mulher, visando a sua independência económica e a conquista de direitos civis e políticos. A Liga era apoiada pelo Partido Republicano e em particular por dirigentes como António José de Almeida, Bernardino Machado e Magalhães Lima, que na perspectiva de criarem mais uma frente de combate à Monarquia, incentivavam a luta das mulheres pela igualdade de direitos que lhes possibilitassem uma maior intervenção na vida do país, a nível social, económico e político.
Após a revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, é criada em 1911 a “Associação de Propaganda Feminista” [3], em cujos objectivos se incluíam a independência política, a defesa dos direitos das mulheres e a reivindicação do sufrágio feminino restrito.
A primeira lei eleitoral da I República Portuguesa, datada de 1911, reconhecia o direito de votar aos “cidadãos maiores de 21 anos que saibam ler e escrever ou sejam chefes de família”.
Nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1911, realizadas em 28 de Maio desse ano, votaria a primeira mulher portuguesa, Carolina Beatriz Ângelo, médica cirurgiã, activista dos direitos femininos e fundadora da Associação de Propaganda Feminista. Invocando a sua condição de chefe de família, uma vez que era viúva e mãe, Carolina Beatriz Ângelo conseguiu que um tribunal lhe confirmasse o direito a votar com base no sentido do plural da expressão "cidadãos portugueses", cujo masculino se refere simultaneamente a homens e a mulheres. Para evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei eleitoral foi alterada em 1913, reconhecendo agora o direito de votar aos “cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos que saibam ler e escrever”.
Só com Salazar em 1931, é que o direito de voto das mulheres foi formalmente estabelecido, ainda que com muitas restrições, visto que só podiam votar as mulheres que tivessem cursos secundários ou superiores, enquanto para os homens bastava saber ler e escrever.
Ainda com Salazar em 1946, a lei eleitoral alargou o direito de voto às mulheres chefes de família e às casadas que, sabendo ler e escrever, tivessem bens próprios e pagassem pelo menos 200 escudos de contribuição predial, assim como aos homens que, sendo analfabetos, pagassem ao Estado pelo menos 100 escudos de impostos.
Em Dezembro de 1968, já com Marcelo Caetano, foi reconhecido o direito de voto às mulheres portuguesas, ainda que as Juntas de Freguesia continuassem a ser eleitas apenas pelos chefes de família. Só depois de 25 de Abril de 1974, seriam revogadas todas as restrições à capacidade eleitoral dos cidadãos tendo por base o género.
A actual Constituição da República Portuguesa consigna no seu Artigo 13.º (Princípio da igualdade) que:
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
  2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”
Significa isto que entre outras coisas, a Constituição da República Portuguesa consigna a igualdade de género, a qual tem merecido especial atenção por parte do Parlamento Europeu ao longo dos últimos 30 anos, especialmente no que se refere a condições de trabalho, violência e discriminação. Para concretizar este objectivo, o Parlamento Europeu tem recorrido a instrumentos como: legislação, apoio a projectos de organizações não governamentais e campanhas de sensibilização.
Em Portugal existe uma Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). Integrada na Presidência do Conselho de Ministros e sob a tutela do Gabinete da Secretária de Estado da Igualdade, a CIG é um dos mecanismos governamentais para a Igualdade de Género e tem a missão de garantir a execução das políticas públicas no âmbito da cidadania e da promoção e defesa da igualdade de género.

NOTA FINAL

No contexto actual, em que a igualdade de género ainda não é plena, o respeito que nos merece a mulher, leva a que encaremos estes bilhetes-postais ilustrados como produto de uma época, em que nos mais diferentes domínios, a mulher era encarada como um ser inferior ao homem, atitude que hoje é desprovida de qualquer sentido.

[1] - Dirigentes: Adelaide Cabete , Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo, Maria Veleda, Sofia Quintino. 
[2] - Dirigentes: Adelaide Cabete, Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo, Maria Veleda.
[3] - Dirigentes: Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo, Constança Dias, Jeanne de Almeida Nogueira, Laura de Almeida Nogueira, Maria do Carmo B. dos Santos, Maria do Carmo Lopes, Maria Irene Zuzarte, Maria Laura Monteiro Torres, Rita Dantas Machado.

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Bilhetes-postais ilustrados do tempo da 1ª República0
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Bilhetes-postais ilustrados dos anos 40-50 do Estado Novo
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

100 anos da Sapataria Joaquim Miguel


Joaquim António Chouriço (1906-1999), reputado sapateiro e comerciante de calçado
da praça de Estremoz. Uma referência cívica para todas as gerações. Fotografia de Angel
Ordíalez Cortesia de Adriano Chouriço, actual proprietário da Sapataria Joaquim Miguel.

Recebi um convite para visitar a exposição “100 anos da Sapataria Joaquim Miguel”, surgindo-me desde logo a ideia de produzir um texto sobre o evento. Não um texto de circunstância, mas um texto em que eu, andarilho das palavras, pudesse revelar duma maneira ou de outra, a minha afectividade com todo o percurso dos sapatos. É certo que o outro eu, mais comedido que eu próprio, me advertiu logo do risco:
- É pá, vê lá o par de botas em que te vais meter!
Se é certo que há um rifão que diz que “A ignorância é atrevida”, o que não é menos certo é que eu não desisto facilmente de uma ideia.
Arregaçadas as mangas e ligado o computador, ficaram, desde logo, afastadas à partida várias hipóteses de abordagem do assunto.
Nada de falar de fabrico de sapatos, de que não percebo patavina, pois ainda sou daqueles que por auto-estima ou se quiserem por vergonha, não se atrevem a falar daquilo que não percebem.
Afastada também a hipótese de falar de pés célebres, de pés chatos ou de moléstias dos pés, como o pé de atleta, os calos e os joanetes, pois já chega os que cada um tem, quanto mais falar dos que atormentam o próximo.
Como sou rato de biblioteca, numa das minhas incursões pelo “Cancioneiro Popular Português” do Dr. José Leite de Vasconcelos, recolhi algumas quadras populares reveladoras das diferentes imagens que o povo faz dos sapateiros.
Nalgumas localidades os sapateiros eram considerados um bom partido. Em Paredes de Coura uma moça dizia:

"Eu hei-de tomar amores:
Há-de ser c’um sapateiro,
P’ra me fazer uns sapatos
E não me levar dinheiro."

Também nas Alcáçovas havia quem pensasse o mesmo:

"Se tomar agora amores
Há de ser c’um sapateiro,
Que me faça umas chinelas
E não me leve dinheiro..."

Em Vila Verde de Ficalho, no concelho de Serpa, outra moça dizia mais ou menos o mesmo:

"Meu amor me disse
E eu achei-lhe graça:
- Eu sou sapateiro,
Não andes descalça."

Já em Penafiel, os sapateiros não eram tidos em grande conta:

"Oh que rua tão comprida
No meio tem um letreiro:
Mal empregada menina,
Vai casar c’um sapateiro!"

A imagem do sapateiro chega a ser denegrida nas Alcáçovas:

"Sapateiros e alfaiates
São uma súcia de ladrões:
Sapateiro furta a sola,
Alfaiate, os botões. "

Em Reguengos de Monsaraz, os sapateiros chegam a ser objecto de humor algo exagerado:

"Quatrocentos sapateiros
Se juntaram em campanha
Com martelos e turqueses
P’ra matarem uma aranha."

Em Marco de Canaveses, ao quer parece, os sapateiros eram encarados sob um ponto de vista mais prático:

"Senhor mestre sapateiro,
Senhor mestre remendão,
Bata-me bem essa sola,
Deite-me aqui um tacão!"

Em todos os tempos e em toda a parte, os sapateiros se queixaram, que a arte não dá. Assim, em Baião dizia um oficial:

"Sou um triste sapateiro
Toda a vida a dar a dar:
Quem nasceu para ser pobre
Não le vale trabalhar!"

Após esta digressão etnográfica pelos sapateiros no imaginário popular, decidi calçar as alpergatas da minha infância e fazer uma abordagem topográfica do assunto.
A Sapataria Joaquim Miguel está situada no Largo da Liberdade. Liberdade apeada pelo 28 de Maio e restituída pelo 25 de Abril. Lembras-te camarada Binadade, quando na véspera do primeiro 1º de Maio em liberdade, apareceste à sede do Círculo Cultural de Estremoz, com uma extensa lista de ruas cuja toponímia, tu defendias, devia ser reposta? Eu fui dos poucos que te ouviu, pois na época pensava-se e agia-se febrilmente e existiam outras prioridades. Mas, o que é certo é que o teu alvitre não caiu em saco roto e com a brevidade possível, lá foi o 28 de Maio restituído à Liberdade.
Até aos anos 50 morei na Rua da Misericórdia, a qual conjuntamente com a de Frei Nuno iam desaguar no Largo 28 de Maio. E digo desaguar, pois sendo ruas de acentuado declive, era esse o termo correcto em dias de fortes chuvadas. Eu morava a meio da rua, do lado direito de quem desce, numa casa que já não existe, mesmo nos altos do caleiro, que também era ferro-velho e montava o estraminé na feira, onde hoje é o Bairro da Cobata. Desta vizinhança e da amizade com o caleiro, cuja casa frequentava, terá surgido o meu gosto por antiguidades e velharias. Ao cimo da Rua da Misericórdia, do lado esquerdo de quem desce, moravam a D. Dionísia e a D. Enué Palma, mãe e filha, com umas mãos como não havia outras. Ainda hoje retenho na memória, embora de forma vaga, o fascínio que exerciam sobre mim os trabalhos que elas executavam, fossem registos ou trabalhos em papel recortado ou em escamas de peixe. Que pena que tenho de não possuir um único trabalho dessas senhoras...
Na Rua de Frei Nuno, onde hoje há uma Fábrica de Bolos, havia a Padaria do Traguedas onde eu aviava o pão para a casa de meus pais e levava bolos para o forno, nos dias de anos ou por ocasião de festas cíclicas.
Mais acima e do mesmo lado, ficava a barbearia do meu amigo Can Can, uma linguinha de prata com um par de óculos que mais pareciam os telescópios de Monte Palomar. Era um organizador exímio de excursões, que os frequentadores, todos gentes do povo, pagavam aos bochechos, pois os tempos eram difíceis. Estou convencido que quando nos encontrarmos lá em baixo, ainda me há de levar numa excursão a Portimão ou ao Portinho da Arrábida.
Mais abaixo, onde hoje está a Drogaria era a Oficina do Mestre Capeto, carpinteiro de carroças e trens. As horas que eu ficava a vê-lo trabalhar!
Do outro lado da rua, ao cimo, ficava a Pensão Marangas, mais tarde Pensão Jantareta. Que raio de nome havia de ter o dono da pensão! Até parecia que os hóspedes eram mal servidos, o que não era o caso, como decerto o atestaria o professor Grilo, um hóspede perpétuo.
No Largo 28 de Maio converge ainda a Travessa da Levada, onde havia a Retrosaria do Mamede e a Casa de Comidas – e também dormidas - do Geadas, que também vendia e distribuía lotaria.
No Largo 28 de Maio converge igualmente a Rua do Almeida. Aqui eram dignas de nota, a mercearia do Genaro, onde eu ia comprar rebuçados com cromos de jogadores de futebol, a Fábrica de Pirolitos do Massano que tinha uma secção de enchimento que era um espectáculo para a época e a Adega do Zé da Glória, já retiro castiço e afamado na época.
Uma vez que através das ruas circundantes já contextualizei topograficamente o Largo 28 de Maio, é altura de começar a falar no Largo 28 de Maio propriamente dito. Além da Retrosaria do Dias, havia a Drogaria da D. Virgínia, onde minha mãe me mandava ao petróleo, bem como a Adega do Sebastião Barrigudo onde tomei conhecimento do ritual diário que constitui um bêbado matar o bicho. Havia também a casa da Família Cortes, com cavalariça e trem, a Loja do Fernandes dos sacos, a Oficina de Reparação de Bicicletas do Conim, a Mercearia do Adriano Pimenta, a Taberna do velho Viana com a caixa da malandrice e a Tipografia Brados do Alentejo. E que fascinante que era para mim, ver o Parelho, de porta aberta, trabalhar com a ainda hoje existente Heidelberga, que num vaivém maquinal, estampava magicamente as letras no papel.
Havia então poucos automóveis e no Largo estacionavam, por vezes, carros de parelha pertencentes a casas de lavoura do concelho ou a simples camponeses, que tinham ido tratar alguma coisa por perto.
Dominando todo o Largo, dum lado e do outro, a Sapataria Joaquim Miguel. Dum lado, a secção de venda de calçado, dirigida por Joaquim António Chouriço, tendo ao lado a secção de venda de solas e cabedais, orientada pelo irmão, Leonel Chouriço. Precisamente nos baixos da casa da D. Silvina e no local onde existira a Mercearia de meu tio-avô, João António Carmelo, vulgo o Carmelinho - porque nascera nos dias pequenos - o qual no princípio deste século ali tinha torrefação e moagem pelos mais aperfeiçoados processos, comercializando o afamado “Café Roca do Príncipe”.
Do outro lado do Largo, ficava a secção de consertos, que fervilhava de vida. O mestre, os oficiais, os aprendizes, a ajuntadeira e, é claro, os fregueses. Era uma época em que se mandava ali fazer calçado por medida, bem como pôr meias solas, remendos, reforços, tacões novos e protectores ou carda na solas, a fim de que melhor resistissem ao desgaste. Ainda não tinha chegado o tempo das boutiques de calçado, das lojas de pronto a calçar e do hábito de deitar fora o calçado usado e menos vistoso. Ali ia, mandado por meus pais, levar calçado para pôr meias solas, gaspear ou pôr umas capinhas. Era a nossa sapataria e é, ainda, a minha sapataria. Muda-se de camisa, muda-se de mulher ou de marido, muda-se de partido, mas não se muda nem de clube nem de sapateiro.
Desde miúdo que conheço e admiro Joaquim António Chouriço, uma pessoa simples, um grande filósofo da vida, um referencial de civismo, uma fortaleza de qualidades humanas que todos reconhecem e que por isso apenas se sublinham aqui. Joaquim António Chouriço é um filho amado de Estremoz, de que a cidade justamente muito se orgulha. No centenário da sua firma, apetece-me dizer-lhe:
- Obrigado, senhor Joaquim António pela perseverança e pelo belo exemplo de firma e de vida, esta também quase centenária. Bem haja, por isso!
Chegado a este ponto do texto sobre os “100 anos da Sapataria Joaquim Miguel”, estou certo que alguns não gostaram e estarão a esta hora a invocar o ditado que diz: “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”. A esses responderei com outro ditado: “O sapateiro não julga mais que os sapatos”, para acrescentar de seguida, que os não sapateiros, nem calçado sabem julgar.

(Publicado inicialmente em 31 de Maio de 2010)

Leonel Augusto Chouriço (1914-1997), irmão de Joaquim António Chouriço e
igualmente uma referência cívica para todas as gerações. Fotografia de Angel
Ordíalez. Cortesia de Adriano Chouriço, actual proprietário da Sapataria Joaquim Miguel.

Estremoz - Largo da Liberdade nos finais do século XIX. Em frente, o edifício da
Sapataria Joaquim Miguel, fundada em 1897, cuja entrada era feita pelas portas que
se  vêem ao fundo, protegidas por toldos. Fotografia de autor desconhecido.
 Cortesia de Adriano Chouriço, actual proprietário.

Estremoz - Interior da Sapataria Joaquim Miguel nos finais do século XIX. Fotografia de
autor desconhecido. Cortesia de Adriano Chouriço, actual proprietário.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Palácio da Justiça de Estremoz - Devolver a dignidade que lhe é devida

Palácio da Justiça. Postal edição Câmara Municipal de Estremoz (1986).


Leitor atento de Ivone Carapeto, o conteúdo da sua crónica “DE OLHOS POSTOS NO CHÃO”, publicada no número 2 do “Jornal E”, suscitou em mim simpatia e sinergia pela sempre candente questão da Defesa do Património. Neste caso, da Paisagem Urbana tão importante para o Turismo, um dos pilares de sustentação da economia local.
Como ela, também eu não simpatizo nada com as ervas que licenciosamente crescem nas nossas calçadas, entre elas a do Palácio da Justiça, em Estremoz.
Infelizmente, o problema não é só causado pelas ervas que com o beneplácito de quem devia ser responsável pela sua eliminação, cresceram desmesuradamente com a farta rega proporcionada pela basta chuva que nos aspergiu.
O problema é de natureza mais vasta e tem a ver com a dignidade própria que deve ser apanágio de edifícios que em virtude da funcionalidade que lhes é inerente, devem constituir símbolos dessa mesma funcionalidade: Palácio da Justiça, Câmara Municipal, Igrejas ou Quartel Militar. São símbolos arquitectónicos de princípios que são gratos à maioria dos cidadãos: o respeito pela Justiça, pelo Poder Local democraticamente eleito, pelas Crenças Religiosas e pelas Forças Armadas, garantes da Soberania Nacional.
No caso em epígrafe, o Palácio da Justiça é a sede do Poder Judicial a nível local.
A Justiça é habitualmente representada na pintura e na escultura por uma figura feminina com os olhos vendados, para demonstrar a sua isenção e imparcialidade. Numa das mãos uma balança que representa o discernimento para avaliar as provas apresentadas e a ponderação dos interesses das partes em litígio. Na outra mão, a espada, símbolo da força de que dispõe para exercer o poder de decisão e impor o Direito.
O Palácio da Justiça de Estremoz tem na fachada o brasão de armas da cidade e por baixo a inscrição latina “DOMUS JUSTITIA”. O seu aspecto exterior e o do espaço circundante, de modo algum podem ser desmazelados, sujos, caóticos ou anárquicos, já que isso pode ferir ou macular a imagem do local que arquitectonicamente simboliza a Sede de aplicação da Justiça. Ora isso acontece.

A DEGRADAÇÃO DA PAISAGEM URBANA
A nível da calçada circundante, as ervas são mais do que muitas.
A nível do telhado existe um bem provido aviário, misto de andorinhal e pombal. Na verdade, é farta a provisão de andorinhas nos beirais e nichos do edifício, onde se instalaram há muito, pombos de cidade (que não são pombos de columbófilos nem pombos bravos) e que constituem um grave problema de ordem sanitária, higiénica e de saúde pública, que alguns duma forma autista, teimam em não querer ver.
A nível do espaço circundante do tribunal, observa-se um estacionamento caótico e anárquico que põe em causa a própria segurança do tribunal, pois não é admissível a título algum, a pressão que ilegitimamente os veículos estacionados, de forma crescente, vão exercendo sobre o edifício e quem lá trabalha.
Este estacionamento foi concebido para automóveis e como tal foi balizado por grandes vasos de cimento, a fim de assegurar um adequado distanciamento ao edifício. Pois bem, ao longo dos anos houve quem entendesse que podia “albardar o burro à vontade do dono”, pelo que foram empurrando cada vez mais, os vasos em direcção ao edifício, a fim de poderem estacionar veículos cada vez maiores. Começaram por ser carrinhas fechadas, usadas no transporte de mercadorias. Agora num dos pontos de estacionamento mais próximo da Rua 5 de Outubro, já é possível estacionar um camião.
A nível das traseiras do Palácio da Justiça há falta de iluminação, que cria condições propícias para ser utilizado por quem, devido ao elevado estado de alcoolemia, tem dificuldade em reter águas ou, simplesmente, quem acha que não tem nada que ir aos sanitários mais próximos. A falta de iluminação no local cria, de resto, condições propícias à prática de actos que teriam por palco mais adequado, um quarto de pensão.
Quanto ao passeio do Tribunal que dá para a Rua de Santo André, onde não está previsto estacionar, há permanentemente automóveis em transgressão, alguns dos quais chegam a bloquear os automóveis legitimamente estacionados no passeio junto aos contentores do lixo. Quem vai ao Multibanco ou a um dos cafés da zona, acha que o estacionamento do Rossio fica longe.

MEDIDAS FÁCEIS DE TOMAR
Que fazer então? Penso que há várias medidas susceptíveis de ser tomadas:
- A nível da ervanária que garridamente decora o vetusto espaço judicial, deve o Vereador do Pelouro do Ambiente e Serviços Urbanos, tomar providências que se traduzam em ordens para os cantoneiros aplicarem herbicida no local “à tripa forra”. Se, todavia, tiver qualquer objecção de consciência em relação à aplicação de herbicidas, o problema além de seu é nosso. Que produza então orientação para que os cantoneiros mondem com sachola, à moda antiga. À comunidade tanto nos dá, o que é preciso é que as ervas saiam dali (E doutros sítios também!).
- A nível do espaço circundante ao Palácio da Justiça, deve-se combater o estacionamento caótico. Para tal há que redefinir qual é a profundidade da faixa de estacionamento e alinhar os vasos de cimento, na posição que lhes foi atribuída. Porém, sem ceder a pressões ilegítimas de quem quer “albardar o burro á vontade do dono”. Naturalmente que é uma medida a ser tomada por funcionários da Câmara, supervisionados por um Engenheiro dos respectivos Serviços.
- A nível de transgressão de estacionamento na Rua de Santo André, uma circulação mais frequente da PSP pelo local, poderá criar um efeito dissuasor sobre os prevaricadores.
- A nível do telhado é desejável que a entidade que gere o Palácio da Justiça, possa reunir condições que lhe permitam concluir a necessidade de aplicação de rede em polietileno transparente e espigões em aço com base em PVC, aplicáveis com silicone. Isto tem sido feito em muitos edifícios públicos. A nível de edifícios ligados à Justiça temos conhecimento dos Tribunais Judiciais de Abrantes, Aveiro e de Figueira de Castelo Rodrigo. É de realçar que existindo aves como as andorinhas, que são espécies protegidas, a aplicação de sistemas dissuasores como os referidos não provoca qualquer tipo de dano às aves, limitando-se a impedir que as aves pousem e nidifiquem nos locais protegidos. Para tal, os sistemas são aplicados fora do período de nidificação e cumprindo integralmente as leis do Instituto de Conservação da Natureza.
 - A nível da iluminação, penso que não será difícil iluminar melhor o local, evitando que alguém seja apanhado como não quer.
Estas são medidas parcelares, mas que duma forma integrada e sem grande esforço, podem e devem ser tomadas, visando devolver o Palácio da Justiça, à dignidade própria que é suposto ser-lhe devida.
Basta a cooperação coordenada de entidades que a maioria de nós respeitamos: Câmara Municipal, Tribunal Judicial e PSP.
Alguns dos prevaricadores não gostarão, mas o grosso da Comunidade agradecerá.