sexta-feira, 4 de junho de 2010

Nós e os números - O número um

Narciso (1594-1596), por Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), Palazzo Barberini, Roma.

NÓS E OS NÚMEROS
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A vida é, de certo modo, um gigantesco caderno de Matemática. São múltiplos e diversificados os campos e domínios do conhecimento que recorrem aos números. A estatística, a economia, a contabilidade, as sondagens de opinião, a lotaria, o controle de qualidade, as ciências exactas, a arquitectura, a engenharia, etc., etc., etc.,...
Os números são tão importantes na nossa vida como o ar que respiramos ou o chão que pisamos.
Para a maioria das pessoas, os números representam quantidades, pelo que eu, como bom filho do sistema não fujo à regra. Como Físico procuro decifrar a natureza, de modo a torná-la inteligível. A minha Leitura traduz-se, assim, por números, na mais ampla vastidão deste conceito. Contudo, a própria natureza dos sistemas físicos, leva-me a ter de seleccionar de entre os números que são soluções matemáticas de problemas físicos, aqueles e apenas aqueles (Oh grau supremo da exigência física!), que são fisicamente aceitáveis.
Apesar de tudo e pese embora o facto de estar familiarizado com os números na óptica estrita que acabo de esquematizar, não posso, nem por mera fracção infinitesimal de segundo, deixar de ser assaltado por dúvidas que sendo estruturalmente cartesianas, têm a ver com a minha maneira própria de ser e estar no mundo - este álbum em que, cromos animados, procuramos ser argumentistas, realizadores e autores dos nossos próprios destinos.
Nessa assunção de vida, a minha produção é divergente, o que me leva a procurar conhecer sempre as múltiplas facetas dum problema, sob os mais diferentes ângulos e com abordagens diversas. Do confronto e do tratamento de toda a informação, resulta a síntese unificadora, que me permite ter uma visão o mais global possível da realidade.
No caso dos números, importa-me saber o modo como outros os vêem, quais os números que ocorrem nos vários domínios do conhecimento e porquê uns e não outros. Por outro lado, qual o simbolismo dos números? Que números aparecem na mitologia e nas religiões? Que números aparecem na antropologia, nas ciências exactas e na literatura oral? Parafraseando o nosso Vasco Santana na aldeia dos macacos, é caso para dizer “Números há muitos...”, embora por questões óbvias de conveniência retórica, não subscreva solidariamente o remanescente da frase omissa.
Porque o meu “eu” tem a ver convosco, oh portadores ignotos das mais diversificadas valências numéricas, o título do meu post só podia ser um: "NÓS E OS NÚMEROS".
No quadro seguinte figuram  os vários tipos de números correntes, bem como aquilo que indicam e exemplos. Sobretudo a nível de provérbios, aparecem os vários tipos de números:

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AONDE SE FALA DO UM
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Na MATEMÁTICA, “um” é o menor número natural e um é o ponto de tangencia de duas figuras planas ou sólidos geométricos.
Na FÍSICA, “um” sentido tem a corrente eléctrica contínua. Na ZOOLOGIA, “um” é o como do rinoceronte e do unicórnio e um é o número de alguns órgãos da espécie humana (nariz, boca, língua, esófago, faringe, laringe, traqueia, estômago, fígado, vesícula biliar, pâncreas, intestino fígado, intestino grosso, recto, ânus, bexiga).
Na MINERALOGIA, “um” é a dureza do talco foliáceo na escala de dureza de Mohs.
No DESPORTO: “uma” bola têm jogos como o futebol, o voleibol, o basquetebol, o andebol, o basebol, o ténis, o badmington e o pólo; uma rede tem o campo de ténis e de badmington; um é o apito do árbitro.
Na MUSICA, “uma” é a batuta do maestro.
Em POLÍTICA, “um” é o Presidente da República na República, bem como “um” é o Rei na Monarquia. Numa religião monoteísta como o cristianismo, o islamismo ou o budismo, há “um” só Deus.
O número “um” tem a ver com o poder supremo e absoluto, com a responsabilidade exclusiva e a lógica univalente. Para os pitagóricos o “um” representava a razão por ser imutável.
Na LINGUAGEM COMUM, a palavra “um”, combinada com outras palavras, assume determinados significados, o que lhe confere equivalência a outras frases. Assim:
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Um e outro = Ambos
Nem um nem outro = Nenhum dos dois
Um ao outro = Reciprocamente
Um a um = Individualmente
Um tanto ou quanto = Em grau que se não quer determinar
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O “um” é um número que também aparece em bastantes PROVÉRBIOS, tais como:
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“A primeira é rodilha a segunda é senhora“
Abre um olho para ver e dois para comprar“
“Amizade de um dia recordação de um minuto“
“Ao cabo de um ano tem o criado as manhas do amo“
“Cabrito e leitão de um mês e cordeiro de três“
“Dá-lhe uma e promete-lhe duas“
“Deus fecha uma porta e abre um cento“
“Doze galinhas e um galo comem como um cavalo“
“Hoje um amanhã dois ao outro dia três ou quatro depressa enche o saco“
“Leitão de um mês e marreco de três “
“Leitão de um mês e pato de três “
“Leitão de um mês cabrito de três“
“Mais caga um boi que mil mosquitos“
“Mais descobre uma hora de jogo que um ano de conversação“
“Mais vale um ano de tarimba do que dois em Coimbra“
“Mais vale um asno que me leve que um cavalo que me derrube“
“Mais vale um bom amigo que honra de parente“
“Mais vale um bom desengano que ar toda a vida enganado“
“Mais vale um carneiro nosso que um rebanho da sociedade“
“Mais vale um farto que cem famintos“
Mais vale um feio alegre que um bonito tristonho“
“Mais vale um gosto na vida que cem mil réis na algibeira“
“Mais vale um gosto na vida que três vinténs“
Mais vale um não a tempo que um sim retardado“
“Mais vale um ovo hoje que uma galinha amanhã“
“Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar“
“Mais vale um pé que duas muletas”
“Mais vale um que bem mande do que dois que bem façam“
“Mais vale um toma que dois te darei“
“Mais vale um vizinho à mão que longe um irmão“
“Mais vale uma aguilhada que cem arres“
“Mais vale uma boa sentença que um bom acordo“
“Mais vale uma dor que cem“
“Mais vale uma égua que me carregue que um cavalo que me derrube“
“Mais vale uma hora de obediência que um ano de penitência“
“Mede cem vezes e corta uma“
“Mesmo a um homem morto quatro homens para o tirar de casa“
“Moços e bois de um ano a dois“
“O que não se faz numa vez faz-se em duas ou três“
“O que um não quer dois não fazem“
“Ovo de uma hora pão de um dia vinho de um mês“
“Quem duma escapa cem anos dura“
“Uma maçã pode apodrecer um cento“
“Vale mais um amigo que cem parentes“
“Vale mais um pássaro na mão que dois a voar“
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A definição de amor de Almada Negreiros (o tal "poeta de Orfeu, futurista e tudo...") é dada pela proposição:
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"Um mais um igual a um"
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Simbolizando, segundo creio, a fusão do corpo e do espírito, a comunhão e a identidade. Encarando matematicamente uma tal operação, teríamos:
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1+1=1
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Por outras palavras, o elemento 1 é o elemento neutro da operação + e é único, mas só operado consigo próprio é igual a si mesmo. Porém, operar consigo próprio, é amar-se a si mesmo. Daí que do amor narcisista não resulte mais que o próprio ente narcisista. Não há valor acrescentado, nem ganho físico, nem ganho espiritual nesta forma peculiar de amar. Penso que usando a notação biológica, a melhor definição de amor pode ser dada através do esquema:


Hernâni Matos

8 comentários:

  1. Comentário só tenho "um": 1+1=1 só quando é o Sócrates (o aldrabão) a fazer as contas.

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  2. Maria da Graça Reissexta-feira, 04 junho, 2010

    Excelente aula.
    Eu não gostava da Física por causa da Matemática (só a Química me safava da negativa). Hoje sei da influência que os professores têm sobre as capacidades dos alunos em relação às matérias.
    Já mais tarde, no complementar, tive a sorte de ter um professor que amava a matemática e conseguia passar isso para nós. Foi então que comecei (tarde) a gostar dela e a compreender a Física.
    Há uns anos notei a mesma dificuldade no meu filho mais novo e, por sorte estava na Fundação Gulbenkian a Exposição “À Luz de Einstein”. Levei-o. Vi a sua transformação à medida que íamos percorrendo as salas, ouvindo o excelente guia (penso que era aluno da faculdade).
    “UM” professor tem de ter LUZ.
    Quando tirei o meu curso de informática (no jurássico), precisei de trabalhar em binário e hexadecimal. Ainda hoje escrevo códigos em “hexa” para não me esquecer. :D
    Quanto ao 1 do que mais gosto é da sua raiz quadrada. :)))

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  3. A Física que eu por instinto aprendi a respirar pelos poros, como outras coisas igualmente fundamentais, utiliza a Matemática como linguagem, pois sendo a Física a Ciência da Medida, tem necessidade dum suporte para exprimir as quantidades.
    Na Matemática encontra-se a harmonia da Música e eu que sou louco por sinestesias, relembro que foi o nosso Fernando Pessoa, dados às ciências herméticas, que comparou a beleza do binómio de Newton à da Vénus de Milo.
    Toda a Ciência é bela. E como a Maria Reis diz é fundamental o papel do professor enquanto facilitador de aprendizagens. Tive a felicidade no final do complementar liceal nos anos 64, ter tido duas mulheres que me marcaram, porque mudaram radicalmente a minha vida e cuja memória ainda hoje honro. Foram duas explicadoras, uma de Matemática e outra de Física e Química, que terão reconhecido em mim algum potencial, ao ponto de terem decidido apostar em mim e pelo seu empenho me terem “dado a volta” a Matemática e a Física. É que eu, considerado um "esprit de finesse" que deveria ter ido para Letras, vi-me obrigado no Curso Complementar Liceal a ir para Ciências, pois no Colégio que frequentei, não havia Letras a esse nível. Mas dei a volta, de tal modo que fiz um Licenciatura em Física Teórica na Faculdade de Ciências de Lisboa, ou seja não frequentei a já existente via ensino, mas sim o ramo científico. Cambalhotas da vida, levaram-me a ingressar no Ensino, onde leccionei Física e Química durante 36 anos, bem como pontualmente, de início, Matemática. Atingido o topo da carreira e já a caminho dos 60 anos, fiz uma pós-graduação em Ensino da Física, que não me serviu para nada, a não ser desenfastiar.
    Nunca perdi uma visão humanista das coisas e na minha cabeça ferve a Ciência, de mistura com a Cultura Humanista. Sou dos que crêem que a simbiose é não só possível como necessária. O meu posto é aí e nunca me renderei.

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  4. Vivemos em um país que segundo as contas de alguns 2+2=5....

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  5. Meu caro politticus:

    decerto são os mesmos para os quais:

    1 + 1 = 1

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  6. caro Hernâni

    afinal onde explicação do 3?
    ou será que pretendia dizer DOS 3?

    -Publicidade enganosa...

    abraço

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  7. Amigo Platero:

    Depois de receber o seu comentário, recebi via gmail um comentário dum aguerrido artilheiro anti-PS, que assegura que:
    "Olha que o link de NÓS E OS NÚMEROS - O NÚMERO TRÊS aponta para o n.º um
    (foi um FDP de um Socialista que boicotou o sistema e te roubou dois números)

    A. Mourato

    Partindo do princípio que, de facto, fui roubado como todos por essa gente, é da mais elementar justiça confessar que, desta feita, eles não me roubaram os dois números em causa. Simplesmente eu, não tive o cuidado necessário e fiz hiperligações erradas. Como tal, peço-vos desculpa e como penitência quando tocar a vésperas, vou rezar, não um, mas três terços seguidos, em torno do bilhar grande, no Café Alentejano.

    ASSIM SEJA!

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