domingo, 21 de fevereiro de 2010

O reforço da identidade cultural alentejana


Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957),
 para a capa da revista Panorama, número 27, de 1946.

Numa época em que o mundo é cada vez mais uma aldeia global e quando somos governados pelo poder napoleóníco de Bruxelas e do Terreiro do Paço, é importante o reforço da nossa identidade cultural de alentejanos.
No Evangelho segundo S. Mateus, capítulo 9, versículos 5 e 6, diz Jesus ao paralítico:
- “Perdoados são os teus pecados. Levanta-te e anda.”
Como Jesus, direi a todos os filhos destas terra transtagana:
- Mais importante que aquilo que nos separa é aquilo que nos une: a nossa identidade cultural.
Por isso, como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós através do seu exemplo, dê um forte contributo ao reforço dessa identidade. Como diria o saudoso Zeca Afonso:
- “Irmão, traz outro amigo também".
Como professor vos digo, esse é o trabalho para casa que todos, sem excepção, tendes a responsabilidade de fazerdes bem feito.
Assim, o espera o Alentejo, que é o mesmo que dizer o futuro dos vossos filhos e dos vossos netos.

Vinhetas da Feira-Exposição de Maio



Parecem selos mas não são.
São vinhetas gomadas e denteadas, precursoras dos actuais auto-colantes, que os correios autorizavam a circular, para promover determinados eventos.
São interessantes quando apostas em documentos postais circulados e se estiverem obliteradas com um carimbo dos correios ainda é melhor e tanto melhor se este for da localidade a que se refere o evento.
A primeira vinheta é da Feira Exposição de Maio de 1926 - ano em que Estremoz foi elevada à categoria de cidade, o que aconteceu a 31 de Agosto de 1926, em virtude do decreto-lei nº 12.227, iniciativa do Engº Agrónomo Santos Garcia, representante do distrito de Évora, no Senado. Recorde-se que a Ditadura Militar que abriria as portas ao Estado Novo foi implantada a 28 de Maio de 1926 e viria a demitir a Comissão Executiva da Câmara Municipal de Estremoz, presidida pelo Dr. José Lourenço Marques Crespo (1872-1955), a 13 de Julho de 1926. Mas foi graças à iniciativa do Dr. Marques Crespo, que a “Notável Vila de Estremoz”, ascendeu à categoria de cidade.
A segunda vinheta é da Feira Exposição de Maio de 1927, já depois de Estremoz ter sido elevada à categoria de cidade. A Feira desse ano foi famosa e o cartaz da Feira e a capa do catálogo foram da autoria de Mestre Alberto de Souza (1880-1961) :
Macacos me mordam se não foi do seu traço magistral a autoria desta pequena maravilha que une num forte amplexo a mulher-ceifeira e a terra-mãe de Além Tejo.
Estas vinhetas são documentos que assinalam uma época, tal como um programa do Antigo Cineclube de Estremoz, um santo protector distribuído na assassinada Igreja de Santo André ou um rótulo dum pirolito da extinta Fábrica Massano. São documentos que urge sensibilizar para a sua preservação, porque uma comunidade sem memória não tem futuro.

A caça aos grilos

Gaiola paras grilos, feita de cana

Íamos apanhar grilos cuja toca localizávamos pelo som. Feito isto, o grilo estava perdido. Obrigávamo-lo a sair à força com uma palhinha que metíamos na toca. Porém, se não saía a bem, saía a mal. Para grandes males, grandes remédios. Víamo-nos então forçados a dar uma mijadela na toca, o que tinha o condão de persuadir o grilo a sair. Apanhávamo-lo depois com as mãos postas em concha e metíamo-lo numa caixa de fósforos das grandes, nas quais previamente tínhamos feito uns pequenos respiradouros, não fosse o caso de o bicho, salvo da morte por afogamento, viesse a morrer de asfixia. Depois, já em casa, o grilo era metido numa gaiola, havendo as feitas só de cana e as de arame e cortiça ou de arame e madeira.
Alimentávamos o grilo com folhas de serralha ou de alface, que íamos renovando para o “cantor” ter permanentemente alimentação fresca.
Os grilos que cantavam bem eram chamados de “realistas”.
As gaiolas estavam geralmente junto às janelas.
Tivemos conhecimento que, por vezes, os trabalhadores rurais prendiam na camisa uma gaiola de “bunho” com um grilo lá dentro, que cantava para eles o dia inteiro.
Hernâni Matos

Querem assistir a uma caçada aos grilos?
Querem ouvir um grilo cantar?
Cliquem na imagem abaixo 


Créditos da imagem do grilo:CELESTINO O. COSTA
http://ipt.olhares.com/data/big/197/1974079.jpg

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Outrora as viagens de combóio




Era uma maravilha viajar de comboio e era tanto melhor se os comboios eram a vapor, com carruagens do tempo de D. Luís e que tinham divisórias personalizadas, para onde se podia entrar de um lado e do outro. Nelas eu ainda viajei com os meus pais nos anos cinquenta do século passado, para irmos para a colónia de férias da FNAT na Caparica.
A viagem de Estremoz para o Barreiro era mais comprida que a légua da Póvoa. Havia apeadeiros e mais apeadeiros, porque era necessário servir o Zé Povo que não tinha automóvel. Só os ricos tinham automóvel, porque os outros não tinham dinheiro para o pagar e não tinham crédito, porque depois não podiam pagar, tal como hoje acontece. Só que hoje têm automóvel, não têm dinheiro, os bancos estão mais ricos e nós não temos comboios. Temos é uma grande saudade disso tudo. E é daquelas saudades que doem.
Que eu saiba, as viagens de comboio só tinham dois inconvenientes: Uma delas é que não se podiam fazer necessidades durante a paragem nas estações, por causa de não adubar a linha férrea. A outra é que os amantes da pinga como eu, tinham que ter cuidado na altura do arranque ou da travagem do comboio. Não se podia levar o copo à boca nessa altura. Quem o fizesse ficava baptizado e não era com água benta, era com tintol ou com brancol.
Certa vez, vi um passageiro anafado de corpo e vermelhusco de rosto, de certo adepto fiel e correligionário de Baco, ficar com as malfadadas marcas baptismais de tom bordeaux a conspurcar-lhe a alva camisa. Só queria que vissem a agilidade com que foi à casa de banho mudar de camisa, antes de chegar à estação onde disse a mulher o esperava. Hoje estou convencido que ele e a mulher não seguiam o mesmo culto. Se soubesse o que sei hoje, ter-lhe-ia dito na ocasião:
- Olhe amigo, diga à sua mulher que a culpa não foi sua, nem do vinho. Foi da maldita lei da inércia de Newton.

Publicado inicialmente a 20 de Fevereiro de 2010
Texto inserido no meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

CRÉDITOS DA FOTOGRAFIA
Locomotiva a vapor número 1, Dom Luiz, de duas rodas motoras e de sete pés de diâmetro. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. [CFT003 075602.ic] - Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.

A menina quer dançar?


Apetece dizer:
- A menina quer dançar?
Eles dançavam de chapeirão, de bota cardada e calças à boca-de-sino. Elas de saia a rasar o chão, o que levava alguns homens a confessar que:

"Toda a vida me agradou
Moça de saia rasteira,
Porque pranta o pé no chão
Devagar, não faz poeira."[1]

No descanso, dava para eles enrolarem um paivante e tirar umas quantas fumaças, que isso de ser homem dá para fumar. E é sempre bom levar o varapau, que o diabo às vezes assume a forma de maltês. Também dava para elas comporem as saias à cinta, aperaltar os colares e compor os carrapitos.
Como vêem existia uma grande diferença de género.
Eu tenho uma certa pena das moças, porque os aprestos dos homens deviam ser um bocado incómodos, a menos que eles fossem ágeis e cuidadosos. De contrário, dançar de botifarras devia dar para pregar cada pisadela que fervia. Uma botas alentejanas que se prezem não são propriamente uns sapatos à Fred Astaire.
Também o chapeirão devia ser uma grande chatice, a menos que a moça fosse mais baixa.
Se a moça fosse mais alta, o chapeirão batia-lhe no peito e mantinha as distâncias, o que convenhamos era um grandessíssimo inconveniente para o homem.
Se a moça fosse da mesma altura, o chapeirão devia estar sempre a embirrrar com a cabeça dela, a menos que dançassem de cabecinha ao lado, correndo o risco de dar um jeito ao pescoço. E o dinheiro gasto na romaria já não dava para ir ao endireita.
[1] -  Thomaz Pires, António. Cantos Populares Portugueses. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

À laia de ode ao penico




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Um penico era um monumento à defecação e a sua decoração era reflexo do bom ou do mau gosto do seu utilizador - defecador.
Havia penicos para todos os gostos, desde os rasos para quem gostava de defecar agachado, até ao penico, estilo rés-do-chão e primeiro andar ou, se quiserem, tipo chapéu alto, para quem tinha prazer em fazer uma monumental defecação, sem necessidade de estar dobrado sobre si próprio.
O penico podia ter uma ou duas asas e, eventualmente, ter tampa, por motivos óbvios.
Os materiais eram os mais diversos: esmalte, faiança e loiça de barro vermelho, vidrado, do Redondo.
Estes últimos, do modelo chapéu alto, eram os preferidos por tradicionalistas como eu. É claro que muita gente não se podia dar ao luxo de ter penicos destas dimensões. Lá diz o rifão: "Albarda-se o burro à vontade do dono" e sendo a banquinha de cabeceira, o parque de estacionamento do penico, havia que adequar a volumetria deste à dimensão do seu habitáculo. Ou não houvesse necessidade de um Rolls-Royce ser recolhido numa garagem apropriada.
Por certo que o penico de chapéu alto tinha outras virtualidades. Para já mantinha uma respeitável distância entre o expulsador e o expulsado, facto que não é de desprezar, independentemente da consistência deste último. Por outro lado, a respeitável coluna de ar, entre o expulsador e o expulsado, permitia usufruir melhor a audição de sonoridades, que alguns com apetência musical muito prezavam.
Hoje, vivemos no cinzentismo da retrete estandardizada por padrões europeus, violadora da individualidade e da identidade cultural do acto de defecção. Perante tal prepotência, só uma atitude é possível: o regresso às origens, ou seja ao penico.
É preciso utilizar mais o penico, é preciso divulgá-lo e estudá-lo nas suas múltiplas vertentes, a fim de que o mesmo possa ser preservado. É preciso dedicar um Museu ao penico e torná-lo objecto de uma longa-metragem promocional. O penico deve ser cantado em verso e registado na prosa dos cronistas da actualidade. Este ressurgimento nacional do penico, recomenda a utilização de duas palavras de ordem adequadas:

- VIVA O PENICO! VIVA!
- MORRA A RETRETE! MORRA! PUM!

Historicamente, sabe-se que em tempos muito recuados se faziam os despejos para a rua, precedidos de um aviso:
“- Lá vai obra”.
Não sei se é daí que vem o termo “obrar” como sinónimo de “defecar”.
Também tenho conhecimento que pelo Carnaval, ainda no século XIX se faziam lançamentos destes sobre transeuntes, possivelmente como vingança. Se não era uma brincadeira de mau gosto, era pelo menos uma brincadeira de mau cheiro.
Depois das Aparições de Fátima em 1917 e sobretudo depois da Igreja ter reconhecido em 1930, que as aparições de Fátima eram dignas de crédito, que comerciantes com olho para o negócio, começaram a vender objectos ostentando a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, como era o caso dos penicos. Isto esteve na origem duma proibição de Salazar, quer foi bem recebida pela Igreja. Não sabemos é se os penicos foram ou não apreendidos pela PIDE.
Em França, segundo me disseram, na época da Revolução Francesa, havia o hábito de mandar estampar no fundo dos penicos, a imagem de alguém que se detestava, para o brindar com republicanas defecações.
Em Portugal, ainda hoje, quando se quer insultar alguém, apoda-se de “Cara de Penico”.
Nos meus tempos de infância, em casa dos meus familiares, se alguém tinha de atravessar com um penico aviado, uma sala onde estavam outras pessoas, dizia:
“- Com licença, que vai passar o Senhor Doutor.”
Penso que a designação de Senhor Doutor tenha origem no facto de o penico nos permitia aliviar das dores. Provavelmente, esta frase feita é uma das muitas que não é reconhecida pela Douta Ordem dos Médicos.
Se o apoio público à discussão deste tópico continuar, terá de ser convocada uma Assembleia - Geral Constitutiva da Confraria do Penico do Chapéu Alto, na qual a nossa amiga Manuel Mendes terá de ser necessariamente investida como Grã-Mestre, dado ter sido ela a inspiradora e o pivot de tão aliviante debate.
Dado que a Manuela Mendes, nos diz que os dois penicos que nos deu a visualizar, fazem parte de uma colecção mais vasta, somos levados a dizer:
“- Ah, muito me conta, muito me conta, Grã-Mestre.”
Pelos vistos e tendo em conta a sua conhecida modéstia, quando nos diz que aquelas duas vedetas penicais fazem parte de uma colecção mais vasta, julgo ser legítimo concluir que Vossa Senhoria tem um autêntico parque de estacionamento para os seus penicos de estimação.
Tendo em conta que tudo leva a crer que assim seja, julgo não ser despropositado propor à Grã-Mestre, que para nosso usufruto e grandessíssimo e republicaníssimo prazer, nos seja proporcionada uma prolongada visita guiada ao seu acervo de penicos. Naturalmente que antes disso deve tomar as devidas precauções, não se dê o caso de entre os visitantes poder haver algum cleptopenicomaníaco, que por artes mágicas ou por intervenção da pata-negra de Belzebu, lhe consiga subtrair um ou mais desses históricos troféus, que para além de serem o registo de defecações passadas, servem também para memória futura de defecações que hão de vir. E, quantas vezes a importância do Porvir não supera a do Passado?
Proponho desde já que a Grã - Mestre, como é seu timbre, prepare a visita guiada duma forma assaz cuidadosa, dada a natural delicadeza do assunto.
Assegurada que está à partida, a motivação dos visitantes, a estratégia da visita, para que seja proveitosa, não deverá ficar pelo óbvio.
Nada de superficialidades no guião, que limitem o discurso a ficar-se pela cor, pela matéria-prima ou pela decoração do penico.
Mesmo a textura, a altura e a envergadura do penico, são questões comezinhas.
É preciso ir mais além, abordar o binómio rabo-penico e reflectir sobre a interface pele - matéria prima do penico.
Igualmente importantes são questões de temporalidade tais como: “Oportunidade da defecação”, “Defecações imprevistas”, “Defecações prolongadas”. De resto, não deverão deixar de ser abordados arrebatados tópicos como “O penico de Salazar”, “Será que D. Carlos I usava penico reforçado?” ou “É verdade que Staline tinha cara de penico?”.
De resto, a natureza essencialmente pedagógica da visita guiada, impõe que esta tenha um carácter essencialmente prático. È pois desejável que cada um dos guiados, escolha o seu penico preferido e se sente nele, visando concluir se aquele penico é ou não cómodo, que é como quem diz, se aquele é ou não o penico que lhe serve, isto é, se é um penico para o resto da vida ou é apenas um penico passageiro. Recomenda-se, por outro lado, que a abordagem das sonoridades e dos odores, seja feita individualmente, de uma forma mais recatada. Na verdade, a abordagem colectiva destes tópicos, poderia ser inibidora e saldar-se mesmo por sonoridades incaracterísticas e desprovidas de musicalidade, para não dizer mesmo viscosas. Em contrapartida, as sonoridades e os odores usufruídos por cada guiado, devem ser objecto de discussão de grupo, naturalmente enriquecedora como o são todas as discussões de grupo.
Os dados estão lançados. Tem a palavra agora a Grã-Mestre.
Porém, dado o até agora fraco nível de participação no debate penical, estou temoroso de que este possa não ser suficientemente abrangente, o que poria em causa a oportunidade de constituição da Confraria. Aguardamos pois a revelação de disponibilidade incondicional de eventuais confrades.

(Do Manifesto em preparação: “Metralha Ligeira”)

sábado, 24 de outubro de 2009

O outro lado - Um exemplo de mau jornalismo

Hernâni Matos
Professor

Há por aí rapaziada que toca música ligeira, mas que dificilmente teria assento numa orquestra sinfónica.
Porquê?
A começar pela maneira como encaram e utilizam um instrumento que eu considero dever ser muito respeitável – a escrita.
As palavras devem ter conta, peso e medida.
Não se devem usar palavras a mais ou a menos, não só quando nos dirigimos a alguém ou quando alguém nos responde.
As palavras devem ter significado exacto e preciso, não devem ser ambíguas, pois apesar de serem metralha ligeira, as palavras são metralha.
Quando se pede a alguém para responder a um questionário, à laia de entrevista, não é bonito, não é ético, publicar a entrevista, fazendo um resumo desta, segundo a sua interpretação pessoal, sem autorização de quem deu a entrevista, tanto mais que ela foi pedida e dada por escrito. Entre vários motivos, porque não se deu ao entrevistado, limites nem de espaço, nem de palavras para a resposta, a não ser o limite na hora de entrega, que foi mais de 12 horas antecipada e que dava tempo para o entrevistado refazer as respostas se lhe tivesse sido solicitado.
O resumo não autorizado da entrevista respondida por escrito, ceifou toda uma série de mensagens positivas que o entrevistado pretendia fazer passar. A entrevista cortada à escovinha como cabelo de soldado raso, não é aceitável, com o argumento de ser dito à “posteriori” que as pessoas têm dado respostas curtas. O problema não é deste entrevistado, é dos outros entrevistados. Assim como é problema de imagem do jornal que mandou entrevistar e que publicou uma entrevista aparada rente. Melhor não faria a censura fascista, que não precisava de pedir licença a ninguém. Agora um jornal do Portugal Democrático, supostamente um jornal democrático, dá um mau exemplo de jornalismo, através dum bom exemplo do que é o mau jornalismo, que não respeita o texto dos outros.
Nós, que desta vez fomos O OUTRO LADO, não gostamos de posturas censórias e prepotentes como aquela que foi consumada na edição de 23 de Outubro passado. Posturas destas apenas poderão receber um comentário:
- Não passarão!

TEXTO INTEGRAL DA ENTREVISTA

1. Qual o monumento que mais gosta?
A pergunta é algo ambígua, podendo ser encarada em sentido restrito e em sentido mais ou menos amplo.
Numa perspectiva meramente local, a Torre da Menagem do Castelo de Estremoz, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a heróica planície alentejana, enche-me as medidas. É ela o mais forte ex-líbris desta cidade, a quem o nosso conterrâneo, o poeta Silva Tavares chamou um dia “cidade branca”, isto antes da permissividade do poder autárquico ter deixado a EDP conspurcar a alvura das nossas paredes com cabos negros que estendeu para mal das nossas necessidades energéticas. Isso conjuntamente com os ares condicionados colocados no exterior e as antenas de televisão, são os casos mais flagrantes de poluição visual que urge combater na nossa cidade, para que possa voltar a ser “cidade branca”.
Naturalmente que a Torre da Menagem do Castelo de Estremoz desperta em mim sinergias. Lembra-me a luta pela independência nacional no tempo de crise de 1383-1385, pois segundo o cronista Fernão Lopes, os partidários do Mestre de Avis, futuro D. João I, tomaram o castelo para a causa do Mestre. Lembra-me também e de acordo com o cronista Rui de Pina, que foi na alcáçova do castelo de Estremoz, que D. Manuel I investiu Vasco da Gama como almirante com a missão de descobrir a Índia, tarefa que desempenhou acompanhado por um pendão bordado por senhoras de Estremoz.
Naturalmente se encarar a sua pergunta no âmbito nacional, o monumento que mais gosto é o Castelo de Guimarães, não só pela sua arquitectura, como por estar simbolicamente associado à fundação do reino de Portugal. A minha identidade nacional teve origem ali. Não há Bruxelas ou Comissão Europeia que mo faça esquecer.
A nível planetário encanta-me o Pártenon de Atenas, na Grécia, que me faz lembrar que há dois mil e oitocentos anos, começaram naquele país, a civilização, a cultura e o pensamento ocidentais com os quais me identifico plenamente. Convém não esquecer que as tradições de justiça e liberdade individual que são as bases da democracia e da economia de mercado, nasceram ali.
2. Qual o seu herói de ficção favorito?
Realidade e ficção andam de mãos dadas e transmutam-se, numa época dominada pela realidade virtual. Daí que o meu herói seja um herói bem real. Seja-me permitida essa ficção.
A nível planetário, o meu herói é Spartacus, o escravo e gladiador que em 93 a.C. liderou uma revolta de escravos contra a classe dirigente da República Romana e que durante dois anos comandou 90.000 homens que de Roma apenas queriam a sua liberdade, o que era demais para os romanos, que por isso os massacraram com as suas legiões. Quando revejo o filme homónimo realizado em 1960 por Stanley Kubrick, visto sempre a pele de Spartacus, magistralmente desempenhado por Kirk Douglas. Sabem o que terá dito Spartacus ao morrer? – “Voltarei e serei milhões”. Acho que é o herói que melhor simboliza a luta pela liberdade, a liberdade de ser um homem livre e não um escravo.
A nível nacional, o meu herói é o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, cuja acção foi fundamental nos tempos difíceis da crise de 1383-85, período durante o qual, fortes divisões no tecido social e político português, punham em perigo a própria identidade e independência nacional. Vencedor da Batalha dos Atoleiros, de Aljubarrota e de Valverde, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira desempenhou um papel fundamental na resolução da crise e na consolidação da independência nacional face a Castela. Como herói ele é símbolo não só de coragem, de identidade e de independência nacional, como de desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados. Em tempos que igualmente são de crise, é o melhor referencial de herói que se pode apresentar à Juventude.
3. Que local do mundo escolheria para viver?
Escolhi Estremoz e aqui tenho vivido. E é preciso gostar mesmo muito para aqui viver, pois por vezes não é nada fácil. É preciso resistir e lutar por tudo aquilo em que acreditamos. É preciso ter espírito de boxeur e encontrar forças dentro de nós para nos erguermos com mais força, sempre que nos atiram ao tapete. E sobretudo é preciso procurar a unidade e a convergência na acção, estabelecendo pontes entre os vários braços do mesmo rio.
4. Quem gostaria que desempenhasse o seu papel num filme sobre a sua vida?
Teria de realizar primeiro um “casting” para ver se havia actor à altura da responsabilidade do papel. Se houvesse decidiria, de contrário teria de ser eu a desempenhar o meu próprio papel. Seria decerto, argumentista, realizador e actor principal, como sou afinal na vida real.
5. Uma canção que goste de ouvir…
Sem dúvida que uma canção do saudoso Zeca Afonso, que soube conciliar como ninguém, a música popular e os temas tradicionais com a indispensabilidade de intervenção política. Como membro do clandestino Movimento Associativo da Faculdade de Ciências de Lisboa, tive o grato privilégio de conviver com o Zeca em acções de resistência ao regime fascista durante o período da crise académica de 1969 e na sequência dela. Não se esqueça que eu sou um velho esquerdista da geração do Maio de 68. Foi a luta estudantil que me deu consciência cívica e política e a canção de intervenção era para nós mobilizadora para a acção. Seria pois legítimo indicar uma canção de intervenção ao acaso, mas não o faço. Tenho necessariamente que indicar “Grândola, Vila Morena", canção composta e cantada por Zeca Afonso e cujo tema, como é sabido, versa a fraternidade entre os habitantes da vila alentejana de Grândola e que tinha sido banida pelo regime salazarista como uma música associada ao comunismo. Ora essa canção foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas para funcionar como segunda senha de sinalização do 25 de Abril de 1974, transmitida pela Rádio Renascença, para confirmar as operações militares. Essa canção é para mim emblemática, visto estar associada aos primórdios da Democracia em Portugal.
6. Qual a sua maior virtude?
Tenho consciência que é ser possuidor de uma inteligência transversal, incapaz de se deixar instrumentalizar e que é capaz de estabelecer pontes entre aquilo que considera ser braços do mesmo rio.
7. Qual o seu maior medo?
Talvez seja altura certa de mostrar algum humor: - “Tenho medo de acordar morto!”
8. Não me importava de me encontrar no chuveiro com…
…a minha mulher, o que já não acontece há algum tempo.
9. Com que figura histórica se identifica?
Penso que você me está a perguntar em que figura histórica me revejo. A única resposta possível, é em nenhuma, já que sou exemplar único. Todavia isso não me impede de admirar certas figuras da nossa História como tenho demonstrado ao longo da presente entrevista.
10. Um prato que come com prazer…
Será certamente um prato da rica gastronomia alentejana, que como sabe é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias...Por isso deve ser um prato cheio. É o nosso cancioneiro popular que diz:

“O regalo do ganhão
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lh’o dão,
Fumar do tabaco alheio “

11. Esqueceram-se de cobrar as sobremesas do seu almoço. O que faz?
Perguntar se me estão a querer cativar como cliente. E para terminar, remato, dizendo que é a mim como cliente, que compete dar gorjeta – essa ancestral instituição portuguesa tão antiga como a cunha.
12. Tem algum hobby? Qual?
Julgo que você esteja a pensar que seja a Filatelia. Mas olhe que não. Para mim não se trata de um passatempo, mas de um ciência auxiliar da História. E fique sabendo que é pelo rigor e pela qualidade da minha intervenção e pesquisa pessoal que integro o Bureau da Comissão de Inteiros Postais da Federação Internacional de Filatelia, em cuja estrutura sou de momento o único português.
13. Qual a compra mais cara que fez?
Ainda não fiz. Como sabe, o dinheiro está caro e a altura é de crise.
14. Qual o seu acessório imprescindível?
Uma perna artificial que tem conhecido sucessivas versões desde que a uso há 45 anos ou seja desde os 18.