domingo, 15 de maio de 2011

Hoje é dia de penico

Fig.1 - Bilhete-postal ilustrado de fabrico português, do início do séc. XX.

PRÓLOGO
Há mais de um ano, que seareiros do humor, resolvemos lavrar os terrenos do Facebook com as araveças da nossa incomodidade. O nosso objectivo, coroado de êxito, foi agitar as águas da blogosfera, onde nem tudo o que luz é oiro e onde proliferam, infelizmente, exemplos de mau gosto, de vazio cultural ou o que é bem pior ainda, de atentados à inteligência de cada um.
É certo que também há quem reme contra a maré do facilitismo e no uso legítimo da liberdade de expressão, procure ser criativo sem ser buçal, bem como ser irreverente sem ser imoral. É esse o terreno da nossa luta.
Ao editarmos então o post “À laia de ode ao penico”, elevámos este acessório à categoria de monumento à defecação e proclamámos a necessidade da sua divulgação e estudo nos seus variados aspectos, a fim de que possa ser preservado.
Voltamos hoje à liça, para terçar armas pela nossa dama: O PENICO PORTUGUÊS. As armas escolhidas foram as múltiplas vertentes da nossa literatura oral, tão gratas ao imaginário e à cultura populares.

A LÍNGUA PORTUGUESA É RICA
“Penico” é um substantivo masculino, de origem obscura [5]. De acordo com os dicionaristas designa o recipiente em louça, ferro, plástico, etc., usado para urinar e defecar, no qual se depõem urina e fezes.
O substantivo penico tem inúmeros sinónimos: bacia de cama, bacio, bispote, calhandro, doutor, mictório, pote, senhor doutor, urinol, vaso de comadre, vaso de noite, vasaréu e viasca. Por aqui se vê, que até a nível de penicos, a língua portuguesa é rica. E a confirmá-lo, faremos uma travessia breve pela nossa literatura oral.

ADAGIÁRIO
Talvez porque o penico se tenha tornado obsoleto ou, pelo menos, tenha caído em desuso, não é vasto o respectivo adagiário. Todavia, ele existe como marca de identidade cultural:

- "Braga é o penico do céu."
- "Não há penico sem tampa.
- "Oleiro que faz o penico, faz logo a tampa.2
- "Penico de barro não cria ferrugem."
- "Penico de barro não dá ferrugem."
- "Penico que muitos mexem acaba fedendo."
- "Penico também é branco."
- "Quem não tem cachorro, caça com gato; Quem não tem penico, caga no mato."

CANCIONEIRO POPULAR
Os dois únicos registos que temos e que referem implicitamente o penico, são as quadras que legendam os bilhetes-postais ilustrados, de fabrico português, que ilustram o presente post. A primeira refere-se à fig. 1 (ESSENCIA DE PENICO):

“Lula chorando por mais
Fresca caca da mamã,
Solta berros e dá ais,
Pede outra dose, amanhã.”

A segunda refere-se à fig. 2 (DESILUSÃO):

“Que coisa tão fina
E tão cheirosa…
Cheira a albumina
É albuminosa”

CALÃO
Ainda que não abundem, existem termos de calão, envolvendo o vocábulo “penico” ou um vocábulo dele derivado:

Mijar fora do penico = Sair da linha = Desrespeitar as regras [1]
Pedir penico = Acovardar-se = Render-se = Desistir por admitir ter sido vencido [7]
Penicada = Penico cheio de urina e dejectos [8]
Penicada = Troça do grau aplicado aos caloiros na Universidade de Coimbra [4]
Peniqueira = Criada de quarto [3]
Peniqueira = Mesa de cabeceira onde se guarda o penico
Chiça penico! = Caraças! [1]

ADIVINHAS
Apenas conhecemos uma adivinha, cuja solução óbvia é "O penico":

“Verde por fora, amarelo por dentro,
Tem uma asa e é fedorento.” [9]

Quanto a esta:

“Que é, que é, que dois homens podem fazer ao mesmo tempo e não é possível a duas mulheres?” [2],

o desenlace óbvio é “Urinar num penico”.

LENGALENGAS
Conhecemos duas lengalengas populares que fazem referência ao penico. Uma delas é conhecida por:

“Varre, varre vassourinha”

“Varre, varre vassourinha
Varre bem esta casinha
Se varreres bem dou-te um vintém
Se varreres mal dou-te um real
Pico pico saltarico
Salta a pulga p'ró penico
Do penico p'rá balança
Disse o rei que fosse à França
Buscar o D. Luís
Que está preso pelo nariz
Os cavalos a correr
As meninas a aprender
Qual será a mais bonita que se irá esconder?”

Quanto à outra, é conhecida por:

“Zé Godinho"

Lá vem o Zé Godinho a cavalo no burrinho,
O burrinho é fraco, a cavalo num macaco,
O macaco é valente, a cavalo numa trempe,
A trempe é de ferro, a cavalo num rodelo,
O rodelo é de sola, a cavalo numa bola,
A bola é vermelha, a cavalo numa telha,
A telha é de barro, a cavalo num cocharro,
O cocharro é de cocha, a cavalo numa floucha,
A floucha é de bico, a cavalo num penico,
O penico é vidrado, a cavalo num cajado,
O cajado é de pinho
E lá vai o Zé Godinho a cavalo no burrinho.”

ALCUNHAS ALENTEJANAS
Também no âmbito das alcunhas alentejanas, algumas têm a ver com o penico:

PENICO – Alcunha identificada em Castro Verde, Estremoz, Monforte, Moura e Ourique: [6]
PENICO DE DUAS ASAS – Alcunha reconhecida em Fronteira. [6]
PENICO DOS RICOS – Designação atribuída a um indivíduo muito vaidoso e que privilegia o relacionamento com pessoas abastadas (Redondo); o visado bajulava os ricos e era subserviente (Moura). [6]
PENICO VIDRADO – Alcunha outorgada a alguém que é pobre, mas muito vaidoso. [6]
PENIQUEIRA - Alcunha confirmada em Fronteira. [6]

EPÍLOGO
Depois do meu post anterior “À laia de ode ao penico”, reforçado agora com este “Hoje é dia de penico”, não vos posso assegurar que num futuro mais ou menos próximo, não vos vá brindar com nova e monumental penicada. De literatura oral, pois claro! A defesa da língua portuguesa, assim o exige, pelo que eu, nesse domínio como noutros: “Não peço penico!”

BIBLIOGRAFIA
[1] ALMEIDA, José João Almeida. Dicionário aberto de calão e expressões idiomáticas. 2011. [http://natura.di.uminho.pt/~jj/pln/calao/dicionario.pdf]
[2] - DIAS. Jaime Lopes. Etnografia da Beira. Vol. X. Livraria Férin, Lda. Lisboa, 1970
[3] – FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário de Língua Portuguesa. 4ª edição. Sociedade Editora Arthur Brandão. Lisboa, 1925.
[4] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[5] – MACHADO, José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Vol. 4. 5ª edição. Livros Horizonte. Lisboa, 1989
[6] - RAMOS, Francisco Martins; SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[7] - SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[8] - SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
[9] - VIEIRA BRAGA, Alberto. “Folclore” in Revista de Guimarães, vol. XXXIV (1934).


Fig.2 - Bilhete-postal ilustrado de fabrico português, dos meados do séc. XX.