domingo, 15 de maio de 2011

O sentido da visão: Adivinhas

SEM TÍTULO – CEIFEIRA.
Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957).
Desenho a lápis sobre papel (26,5x35 cm).
Colecção particular.

PRÓLOGO
As adivinhas são enigmas formulados pelo povo e que têm sido transmitidas de geração em geração, integrando assim a nossa literatura oral.
Para além de constituírem um passatempo familiar que ajudava a passar as longas noites de Inverno, elas desempenharam sempre um papel educativo, visto estimularem a imaginação criadora, fomentarem o desenvolvimento da inteligência, treinarem a memória e desenvolverem o poder de observação. Para além de tudo isso, oferecem um interesse, vincadamente etnográfico, dado terem sido, na sua maioria, formuladas num contexto de ruralidade, abordando por isso a temática desse universo.
Localizámos cerca de quatro dezenas de adivinhas no âmbito do sentido da visão e delas seleccionámos uma vintena, que estudámos e sistematizámos em dois sub-grupos: “Os olhos” e “A luz e as suas fontes”.

OS OLHOS
Os olhos são os órgãos sensoriais da visão. Algumas adivinhas têm como solução: “O olho”:

“O que é, que é,
Uma caixinha de bem-querer,
Abre e fecha sem ranger?” [5]

“Que é do tamanho dum tostão,
abre e fecha sem cordão?” [6]

Outras têm como resultado: “Os olhos”:

“Juntos vivemos e andamos
Vestindo trajos iguais.
E sendo amigos, jamais
Ver um ao outro estimamos:
Inda que mui longe vamos
Por solitário caminho,
Nenhum sai do pátrio ninho:
Por úteis ambos nos temos,
Mas o que juntos fazemos
Faz qualquer de nós sozinho.” [1]

“Altas janelas,
Que abrem e fecham,
Sem bulir nelas.” [5]

“Altos palácios,
Lindas janelas,
Abrem-se e fecham,
Ninguém mora nelas.” [2]

Algumas têm desfechos mais complexos. Por exemplo: “Os olhos: as pestanas e as meninas-dos-olhos”:

“O que é, que é,
pêlo com pêlo
e a menina fica no meio?” [8]

Outras, têm como decifração “As meninas-dos-olhos”:

“Quais são as meninas
Que, quanto mais belas,
Mais longas cortinas
Põem nas janelas?” [7]

Outras, ainda, têm um desenlace mais vasto, como por exemplo: “Pés, olhos, dedos, dentes e garganta”:

“São dois andantes,
Dois viajantes,
Dez arrecadantes,
Vinte oito moleiros
E uma azenha a moer.” [2]

Finalmente, outras têm como resolução o “Abrir dos olhos”:

“Adivinhar, adivinhar.
Qual é a coisa primeira
Que se faz ao acordar?” [2]

A LUZ E AS SUAS FONTES
O mecanismo da visão tem por base “A luz”, a qual é solução de algumas adivinhas:

“Mais veloz do que eu, ninguém;
Sou linda como as estrelas;
Sem ser nau ando com velas,
De graça todos me têm,
Sou origem das janelas.” [2]

“É do tamanho de uma aresta
E até na casa d’el-rei presta.” [2]

De registar igualmente nas respostas, a presença do contrário da luz, ou seja: “A escuridão”:

“Qual é a coisa, qual é ela
Quanto maior é
Menos se vê?” [3]

Uma fonte de luz que marca forte presença no desenredo é “O sol”:

“Qual é a coisa, qual é,
Que quanto mais se mira,
Menos se vê?” [6]

“Procuram-me muitas vezes,
Tenho estima, o leitor creia,
Mas, se alguém olha para mim,
Faz-me logo cara feia.” [7]

O sol é comparado a Deus, porque “Ninguém o pode olhar”:

“Em que se parece Deus com o Sol?” [2]

São múltiplas as adivinhas cujo resultado é: “A luz da candeia”:

“Qual é cousa, qual é ela,
Do tamanho de uma abelha
E enche a casa até à telha?” [4]

“Qual é a cousa, qual é ela,
Do tamanho duma bolota
E enche a casa até à porta?” [4]

“Qual é cousa
Que cabe dentro duma rasa
E enche a casa até à porta?” [4]

De resto, localizámos uma, cuja resolução é: “A vela, o pavio e a luz”:

“O pai é coto,
O filho é crespo,
O neto é loiro.” [3]

Por fim, assinalámos outra, cuja conclusão é: “A lâmpada eléctrica de incandescência”:

“O que é, que tem a barriga de vidro e a tripa de arame?” [6]

EPÍLOGO
Mais uma vez, agora dentro do contexto limitado “As adivinhas” e nele no âmbito restrito do “Sentido da visão”, foi possível concluir a riqueza da nossa tradição oral, a qual mais do que nunca, urge preservar, como reforço da nossa identidade cultural nacional, em situação de risco numa época de frenética globalização.

BIBLIOGRAFIA
[1] – CURVO SEMEDO. Composições Poéticas. Parte II (1903); Parte III (1817). Lisboa.
[2] - GUERREIRO, M. Viegas. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[3] – LEITE DE CASTRO. “Adivinhas” in Revista de Guimarães, vol. I, nº 3 (1884).
[4] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Porto, 1882.
[5] - LIMA, Augusto Castro Pires de. O Livro das Adivinhas. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1943.
[6] - LIMA, Fernando de Castro Pires de. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[7] – MARIA RAQUEL. Agenda Doméstica para 1957. Porto Editora, Porto, 1957.
[8] - MOUTINHO, José Viale. Adivinhas Populares Portuguesas.6ª edição. Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
[9] - VIEIRA BRAGA, Alberto. “Folclore” in Revista de Guimarães, vol. XXXIII (1933); vol. XXXIV (1934).